Recentemente publicámos uma peça baseada num estudo da empresa IPSOS, que estabelecia como a divergência da heterosexualidade é muito mais baixa do que commumente estimada pela opinião pública e pelos meios de comunicação: situa-se não acima dos 9% e é, modo geral, consistente ao longo dos contextos e das culturas pelo mundo. Parece ser uma condição semelhante a de muitas outras: a de uma minoria respeitável mas estatisticamente sem grande importância: em princípio uma pessoa comum pode passar muitos dias, semanas, talvez meses da sua vida, a dar aos homosexuais a mesma importância relativa que dá aos canhotos, aos intolerantes à lactose ou às pessoas de olhos azuis — todas estas características se situam no mesmo intervalo de representação na população.
O ponto é interessante porque permite colocar em conflito as percepções erradas que tenhamos sobre condições minoritárias e ponderar sobre porque é que determinadas forças sociais as podem colocar em inflação — e, nalguns casos, em deflação — em relação ao seu valor numérico e eventual importância real — sendo que o salto da representação numérica para a importância qualitativa é uma história que certamente merece amplo debate. Recebemos, aliás, algumas reacções adversas à publicação da peça sobre a divergência da heterosexualidade ser tão baixa, reacções que foram desde o meramente contrariado até ao indignado.
Mas como o exercício é importante, salutar, aberto e plural, aqui o reeditamos em relação a uma série enorme de outras propriedades, condições e práticas minoritárias, tendo sempre como base estimativas para o território de Portugal, sendo nalguns pontos complementadas com comentários sobre a sua situação no mundo. Procurámos principalmente minorias que se situassem entre os 5-15% da população. Usámos, para este efeito, tanto fontes oficiais como estimativas para alguns casos em que não existem dados em concreto. Comecemos pela lista e depois avancemos para os comentários. Temos, então, em Portugal, as estimativas das seguintes percentagens, em relação à população total, para as seguintes condições:
- Intolerância à lactose: 33%
- Doença celíaca: 1%
- Alergias alimentares confirmadas: 1% a 4%
- Intolerâncias não-IgE (histamina, frutose, etc.): < 10%
- Qualquer intolerância alimentar (total): 25%
- Canhotos: 10%
- Daltónicos (homens): 8% a 10%
- Olhos azuis: 6% a 9%
- Olhos claros (azuis + verdes): 17% a 20%
- Dietas alternativas (total): 10%
- Dieta de redução de carne (sem ser 100% vegetariano): 8% a 9%
- Vegetarianos: 1% a 1,5%
- Veganos: 0,5% a 0,7%
- Dietas keto/paleo: < 1% a 2%
- Praticantes de corrida recreativa: 10,6%
- Hipermobilidade articular generalizada: 5% a 20%
- TDAH em crianças: 5% a 15%
- População branca: 84%
- População mista: 3,4%
- População negra: 2,2%
- Afrodescendentes (por ascendência): 6,1%
- Heavy metal (ouvintes regulares): 8%
- Reggae/dub (ouvintes assíduos): 2% a 4%
- Música eletrónica (fãs regulares): 5% a 10%
- Jazz e clássica (ouvintes regulares): 1% a 3%
- Pessoas com nanismo: 0,005% (cerca de 400-500 pessoas)
- Homens acima de 1,90 m: 3% a 5%
- Praticantes ou identificação com BDSM/sadomasoquismo: 7% a 12%
- Fetiche de pés: 10% a 11%
- Sexo anal em relações heterossexuais: 10% a 20%
- Voyeurismo (comportamento real): 5% a 10%
- População solteira: 43%
- Mulheres 18-49 anos sem filhos: 42%
- Homens 18-54 anos sem filhos: 54%
- Agregados unipessoais: 25%
- Pessoas sem religião: 14%
- Protestantes/evangélicos: 2,1%
- Testemunhas de Jeová: 0,7%
- Ortodoxos: 0,7%
- Muçulmanos: 0,4%
- Excesso de peso + obesidade: 53% (37% excesso de peso + 16% obesidade)
- Perturbações mentais (total): 22% a 23%
- Perturbações de ansiedade: 9% a 16,5%
- Depressão: 6% a 8%
- TDAH em adultos: 2,5% a 4%
- Fumadores: 15% a 20%
- Enxaqueca: 15%
- Tatuagens (pelo menos uma): 25% a 35%
- Tatuagens visíveis/extensas: 5% a 10%
- Homens acima de 1,85 m: 8% a 12%
- Praticantes de desporto federados: 6% a 8%
- Praticantes de desporto com regularidade (incluindo informal): 25% a 30%
- Futebol (prática regular): 7% a 9%
Comecemos pelo campo das intolerâncias e alergias alimentares. A intolerância à lactose afeta cerca de 33% da população em Portugal. Nenhuma intolerância alimentar específica se situa exatamente nos 10% (a percentagem de referência da divergência da heterossexualidade com que iniciámos este exercício comparativo).
A doença celíaca ronda os 1%, enquanto as alergias alimentares confirmadas situam-se entre 1% e 4% nos adultos. As intolerâncias não-IgE (como as relacionadas com histamina ou frutose) variam bastante consoante os estudos, mas não ultrapassam claramente os 10%.
No total, fontes clínicas portuguesas indicam que cerca de 25% da população (um quarto) apresenta algum tipo de intolerância alimentar — não se trata de uma única condição, mas do conjunto de todas.
Uma minoria numericamente muito semelhante é a dos canhotos: cerca de 10% da população mundial e também em Portugal. Os daltónicos representam cerca de 8% a 10% dos homens (valor bastante inferior nas mulheres, pelo que a prevalência global é menor). Dada a semelhante representação na população, será interessante e curioso imaginar a concomitância entre ser canhoto e homossexual, daltónico e homossexual, canhoto e daltónico, ou mesmo as três condições em simultâneo.
No que diz respeito à coloração dos olhos, os olhos azuis rondam os 6% a 9% em Portugal (mais comuns no Norte). Considerando olhos claros (azuis ou verdes), o valor sobe para 17% a 20%, novamente mais frequente no Norte do país.
Na alimentação, estima-se que cerca de 90% da população portuguesa mantenha uma alimentação tradicional, próxima da dieta mediterrânica. Os restantes 10% seguem dietas alternativas: os flexitarianos, aqueles que tendem para uma redução da carne/peixe, são a maior fatia (8% a 9%), seguidos dos vegetarianos (1% a 1,5%) e dos veganos (0,5% a 0,7%). Outras dietas minoritárias, como keto (com poucos hidratos de carbono e alto teor de gordura) ou paleo (alimentos integrais e não processados), têm expressão residual, geralmente abaixo de 1% a 2% cada, concentrando-se sobretudo em contextos urbanos.
Outras características na faixa das minorias significativas (5% a 20%):
- Praticantes de corrida recreativa: cerca de 10,6% da população portuguesa;
- Hipermobilidade articular generalizada: varia entre 5% e 20%, dependendo do estudo e da idade;
- TDAH em crianças: entre 5% e 15% a nível global.
Quanto à composição racial/étnica em Portugal, a população é bastante homogénea. De acordo com o INE (2023), entre as pessoas com 18 a 74 anos:
- Brancos: cerca de 84% (6,4 milhões);
- Mistos: 3,4% (263 mil);
- Negros: 2,2% (169 mil);
- Asiáticos: menos de 1% (56 mil);
- Ciganos: cerca de 0,6% (47 mil).
Nenhum grupo não-branco se aproxima da faixa dos 5% a 15%. A categoria mais próxima é a de afrodescendentes, estimada em 6,1% (cerca de 462 mil), mas este valor inclui segunda e terceira gerações que muitas vezes se identificam como brancos ou mistos.
Na música, cerca de 8% dos consumidores em Portugal ouvem heavy metal com regularidade (aproximadamente 560 mil ouvintes assíduos, segundo dados do INE de 2022). Trata-se de um nicho sólido para um género underground. Outros géneros minoritários seguem o mesmo padrão: reggae/dub (estimado em 2% a 4%), música eletrónica (5% a 10% entre jovens urbanos), enquanto jazz e clássica ficam geralmente entre 1% e 3% de ouvintes regulares.
Pessoas com nanismo (estatura inferior a cerca de 1,40 m) são muito raras: entre 400 e 500 pessoas em Portugal, o que corresponde a aproximadamente 0,005% da população. Já os homens muito altos (acima de 1,90 m) representam cerca de 3% a 5% dos homens; acima de 1,95–2,00 m o valor desce abaixo de 1%.
No domínio da sexualidade, o BDSM/sadomasoquismo é mais comum do que se imagina: entre 7% e 12% da população pratica ou identifica-se com estas práticas de forma regular. Fantasias ou experimentação pontual chegam facilmente aos 40%–50%. Outras práticas fora da norma que se aproximam da faixa dos 5%–15% incluem o fetiche de pés (cerca de 10%–11%) e o sexo anal em relações heterossexuais (10%–20%, dependendo do país e da idade).
Agregados familiares: cerca de 43% da população portuguesa é solteira (mais de 4,5 milhões de pessoas, segundo os Censos 2021). Entre os adultos em idade fértil, 42% das mulheres (18–49 anos) e 54% dos homens (18–54 anos) não têm filhos. Quase 25% dos agregados domésticos são unipessoais (mais de um milhão de portugueses vivem sozinhos).
Religiões minoritárias em Portugal são bastante pequenas comparativamente à maioria católica (Censos 2021):
- Protestantes/evangélicos: 2,1%
- Testemunhas de Jeová: 0,7%
- Ortodoxos: 0,7%
- Outros cristãos: cerca de 1%
- Muçulmanos: 0,4%
- Hindu: 0,2%
- Budistas: 0,2%
- Judeus: 0,03%
O grupo mais relevante fora do catolicismo é o das pessoas sem religião, que já representam 14%.
Excesso de peso e obesidade afeta cerca de 53% dos adultos portugueses (37% com excesso de peso + 16% obesos, INE 2022) — um dos valores mais altos desta análise, claramente fora da faixa minoritária dos 5%–20%.
Saúde mental: Portugal tem uma das prevalências mais altas da Europa, com cerca de 22% a 23% da população adulta a sofrer de alguma perturbação mental. Destacam-se:
- Perturbações de ansiedade: 9% a 16,5%
- Depressão: 6% a 8% (sintomas reportados acima de 12%)
- TDAH em adultos: 2,5% a 4%
Outras minorias relevantes:
- Fumadores: 15% a 20%
- Enxaqueca: cerca de 15%
- Tatuagens: 25% a 35% da população adulta tem pelo menos uma (maioria discreta); tatuagens visíveis e extensas rondam os 5% a 10%
- Homens acima de 1,85 m: cerca de 8% a 12%; acima de 1,90 m: 3% a 5%
Por fim, no desporto, cerca de 6% a 8% da população tem licença federada, mas considerando a prática informal, 25% a 30% dos portugueses fazem desporto com regularidade. O futebol domina (7% a 9%), seguido de natação (3% a 4%), ciclismo (3% a 5%), voleibol (2% a 3%) e outras modalidades com expressão mais reduzida.
Em suma, a divergência da heterosexualidade, com uma prevalência que não ultrapassa os 9%, insere-se efetivamente num intervalo comum a dezenas de outras características humanas — desde os canhotos e os intolerantes à lactose até aos praticantes de BDSM, aos fumadores ou aos amantes de heavy metal. Algumas minorias são visibilizadas e celebradas de forma desproporcional à sua dimensão numérica, enquanto outras, igualmente ou mais numerosas, passam quase despercebidas. Este exercício comparativo não diminui a importância individual de nenhuma condição, mas convida a uma reflexão mais serena e baseada em dados sobre como a sociedade constrói narrativas de relevância. Afinal, na imensa diversidade humana, quase todos pertencemos a uma ou várias minorias — e é precisamente essa a norma.
