Algumas Minorias em Portugal e no Mundo

Recentemente publicámos uma peça baseada num estudo da empresa IPSOS, que estabelecia como a divergência da heterosexualidade é muito mais baixa do que estimado pela opinião pública e pelos meios de comunicação: situa-se não acima dos 9% e é, modo geral, consistente ao longo dos contextos e das culturas pelo mundo. Parece ser uma condição semelhante a de muitas outras: a de uma minoria respeitável mas estatisticamente sem grande importância: em princípio uma pessoa comum pode passar muitos dias, semanas, talvez meses da sua vida, a dar aos homosexuais a mesma importância relativa que dá aos canhotos, aos intolerantes à lactose ou às pessoas de olhos azuis — todas estas características se situam no mesmo intervalo de representação na população.

O ponto é interessante porque permite colocar em conflito as percepções erradas que tenhamos sobre condições minoritárias e ponderar sobre porque é que determinadas forças sociais as podem colocar em inflação — e, nalguns casos, em deflação — em relação ao seu valor numérico e eventual importância real — sendo que o salto da representação numérica para a importância qualitativa é uma história que certamente merece amplo debate. Recebemos, aliás, algumas reacções adversas à publicação da peça sobre a divergência da heterosexualidade ser tão baixa, reacções que foram desde o meramente contrariado até ao indignado.

Mas como o exercício é importante, salutar, aberto e plural, aqui o reeditamos em relação a uma série enorme de outras propriedades, condições e práticas minoritárias, tendo sempre como base estimativas para o território de Portugal, sendo nalguns pontos complementadas com comentários sobre a sua situação no mundo. Comecemos pela lista e depois avancemos para os comentários. Temos, então, em Portugal, as estimativas das seguintes percentagens em relação à população em geral, para as seguintes condições:

  • Intolerância à lactose: ~33%
  • Conjunto de todas as intolerâncias alimentares: ~35%
  • Alergia alimentar confirmada (adultos): 1-4%
  • Doença celíaca: 1%
  • Ouvintes regulares de heavy metal: ~8%
  • Não-Heterosexuais: ~9%
  • Homosexuais: ~5%
  • Canhotos: ~10%
  • Dietas veggie/flexitarianas: 10,4%
  • Daltónicos (homens): 8-10% (globalmente mais baixo)
  • Olhos azuis: 6-9% (em Portugal; pode chegar a 10-15% noutros estudos)
  • Olhos claros (azuis ou verdes): 17-20%
  • Transtornos de personalidade: 6-10%
  • Praticantes de corrida recreativa: 10,6%
  • Hipermobilidade articular generalizada: 5-20%
  • TDAH em crianças: 5-15%
  • TDAH em adultos: 2,5-4%
  • Brancos: ~84%
  • Mistos: 3,4%
  • Negros: 2,2%
  • Afrodescendentes (estimativa alargada): 6,1%
  • Nanismo: ~0,005%
  • Homens acima de 1,90 m: 3-5%
  • Praticantes regulares ou identificação com BDSM/sadomasoquismo: 7-12%
  • Fetiche de pés: 10-11%
  • Sexo anal em relações heterossexuais: 10-20%
  • Solteiros: 43%
  • Mulheres 18-49 anos sem filhos: 42%
  • Homens 18-54 anos sem filhos: 54%
  • Agregados domésticos unipessoais (vivem sozinhos): ~25%
  • Pessoas sem religião: 14%
  • Protestantes/evangélicos: 2,1%
  • Testemunhas de Jeová: 0,7%
  • Ortodoxos: 0,7%
  • Muçulmanos: 0,4%
  • Excesso de peso ou obesidade: 53% (37% com excesso de peso e 16% obesos)
  • Perturbações mentais (adultos): 22-23%
  • Perturbações de ansiedade: 9-16,5%
  • Depressão: 6-8%
  • Fumadores (adultos): 15-23%
  • Enxaqueca: ~15% (10-12% em alguns estudos)
  • Pessoas com coleção significativa de tatuagens visíveis: ~5-10%
  • Homens acima de 1,85 m: ~8-12%
  • Hipercolesterolémia grave/diagnosticada: abaixo de 20%
  • Ginástica (praticantes federados): ~3%
  • Ténis (praticantes federados): ~3-4%
  • Atletismo (praticantes federados): ~2-3%

A intolerância à lactose fica por volta dos 33% em Portugal. Nenhuma intolerância específica chega exatamente aos 10%, a percentagem de divergência da heterosexualidade, com que começámos este exercício comparativo. A celíaca fica nos 1%, a alergia alimentar confirmada ronda os 1-4% em adultos, e as intolerâncias não-IgE (tipo histamina ou frutose) variam muito de estudo para estudo, mas não batem nos 10% de forma clara. Agora, se olharmos para o conjunto de todas as intolerâncias alimentares , há fontes clínicas portuguesas que dizem que cerca de um quarto da população — 25% — tem algum tipo. Não é uma só, mas no total.​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​

Noutro aspecto claramente minoritário mas bem presente na cultura popular, por volta de 8% dos consumidores de música em Portugal ouvem heavy metal com regularidade. Isso dá uns 560 mil ouvintes assíduos, segundo dados do INE de 2022 citados num artigo especializado. Não é um nicho pequeno — é bastante sólido para um género underground.​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​

Quanto aos canhotos, situam-se também como uma minoria humilde mas poderosa, tal como a divergência da heterosexualidade. Cerca de 10% da população mundial — e também em Portugal — é canhota. Os daltónicos são cerca de 8-10% dos homens (muito menos nas mulheres, por isso o valor global fica mais baixo). Olhos azuis — em Portugal ronda os 6-9%, mais comum no Norte. – Dietas veggie/flexitarianas — cerca de 10,4% em Portugal. – Transtornos de personalidade — globalmente entre 6% e 10% da população adulta.

Mais alguns que ficam na faixa minoritária mas poderosa dos 5% a 20%: – Praticantes de corrida recreativa — cerca de 10,6% da população portuguesa. – Hipermobilidade articular generalizada — varia entre 5% e 20% dependendo do estudo e da idade. – Olhos claros (azuis ou verdes juntos) — em Portugal rondam os 17-20%, sobretudo no Norte. – TDAH em crianças — estima-se entre 5% e 15% globalmente.

Quanto a raças, em Portugal a população é bastante homogénea em termos de identificação racial. Segundo o INE em 2023, entre as pessoas com 18 a 74 anos: – Brancos — cerca de 84% (6,4 milhões). – Misto — uns 3,4% (263 mil). – Negros — cerca de 2,2% (169 mil). – Asiáticos — menos de 1% (56 mil). – Ciganos — cerca de 0,6% (47 mil). Nenhum grupo não-branco chega perto dos 5-15% que andávamos a falar. O mais próximo é a categoria afrodescendente que o INE estima em 6,1% — mas isso inclui segunda e terceira geração que muitas vezes se identificam como brancos ou mistos no outro inquérito. Resumindo: Portugal não tem nenhum grupo racial ou étnico nessa faixa dos 5-20% além da população branca majoritária.​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​

Pessoas com nanismo (anões, estatura abaixo de cerca de 1,40m) são muito raras. Em Portugal há estimativas antigas entre 400 a 500 pessoas , o que dá cerca de 0,005% da população — bem longe dos 5-15%. A forma mais comum, acondroplasia, ocorre em 1 em 25 mil nascimentos. Pessoas muito altas já é mais interessante. A altura média dos homens portugueses ronda os 174cm . Ser acima de 1,90m fica na cauda da distribuição normal — algo como 3 a 5% dos homens . Acima de 1,95m ou 2 metros é mais raro, provavelmente abaixo de 1%. Nas mulheres é muito menos comum.​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​

O sadomasoquismo e BDSM é mais comum do que parece. Estudos mostram que entre 7% a 12% da população geral pratica BDSM de forma regular ou se identifica com ele — um estudo belga grande encontrou 7,6% que se consideram praticantes e 12,5% que o fazem regularmente. Fantasias ou experimentar pelo menos uma vez chega facilmente aos 40-50%. Outras práticas fora da norma que se aproximam dessa faixa dos 5-15%: – Fetiche de pés — cerca de 10-11% das pessoas. – Sexo anal em relações heterossexuais — tem subido bastante, rondando os 10-20% dependendo do país e da idade.

Solteiros : Cerca de 43% da população portuguesa está solteira, segundo os Censos 2021 — mais de 4,5 milhões de pessoas, já ultrapassando o número de casados. Pessoas sem filhos : Entre os adultos em idade fértil, os números são altos. Em 2019, 42% das mulheres entre os 18 e 49 anos não tinham filhos, e 54% dos homens entre os 18 e 54 anos também não. Isso subiu bastante desde 2013. Pessoas que vivem sozinhas : Quase 25% dos agregados domésticos são unipessoais — mais de um milhão de portugueses vivem sozinhos.

As religiões minoritárias em Portugal são mesmo pequenas. Segundo os Censos 2021, aqui vão as principais, todas bem abaixo dos 5%: – Protestantes/evangélicos — 2,1% – Testemunhas de Jeová — 0,7% – Ortodoxos — 0,7% – Outros cristãos — cerca de 1% No lado não-cristão, tudo é ainda mais residual: – Muçulmanos — 0,4% – Hindus — 0,2% – Budistas — 0,2% – Judeus — 0,03% O grupo mais relevante fora do catolicismo é na verdade o das pessoas sem religião , que já chega aos 14%.

Cerca de 53% dos adultos portugueses têm excesso de peso ou obesidade , segundo o INE de 2022 — 37% com excesso de peso e 16% obesos. Este é um dos números mais altos que temos nessa conversa — fica bem fora da faixa dos 5-20% que estimátmos como minoria análoga à divergência da heterosexualidade.

Portugal tem uma das prevalências de doenças mentais mais altas da Europa. Estima-se que cerca de 22% a 23% da população adulta sofra de alguma perturbação mental. Dentro disso, os números mais comuns são: – Perturbações de ansiedade — entre 9% e 16,5%. – Depressão — cerca de 6% a 8% (embora sintomas reportados cheguem a mais de 12%). – Perturbações mentais graves — cerca de 4%. – TDAH — entre 5% e 7% nas crianças em idade escolar; ronda os 2,5% a 4% nos adultos. Há também um aumento recente nos sintomas de ansiedade , que em 2025 chegaram aos 39% da população com 16 ou mais anos, segundo o INE — mas isso são sintomas, não diagnósticos clínicos.

Algumas outras características de minoria respeitável: – Fumadores — cerca de 15 a 20% dos adultos ainda fumam regularmente. – Pessoas com enxaqueca — afeta mais ou menos 15% da população. – Praticantes regulares de BDSM ou sadomasoquismo — ronda os 8 a 12%. – Pessoas com hipercolesterolémia — o colesterol elevado acima dos valores recomendados afeta uma fatia significativa, mas a forma grave fica nessa ordem. – Pessoas que vivem completamente sozinhas — quase 25%, mas se apertarmos para quem vive sozinho e gosta disso, cai nessa faixa. – Homens acima de 1,90m — provavelmente uns 4-6%, mas se incluirmos acima de 1,85m entra nos 10-15%. ​​​​​​​​​​​

Fumadores — anda entre 17% e 23% dos adultos, dependendo do estudo e se inclui ocasional ou só diário. Fica bem no meio da faixa que pediste. – Enxaqueca — a prevalência ronda os 10-12% em estudos europeus recentes, e em Portugal deve ser semelhante, talvez um bocadinho acima. – Pessoas com coleção significativa de tatuagens visíveis — não há dados precisos em Portugal, mas em países próximos está nos 30-40% com pelo menos uma tatuagem. Quem tem muitas tatuagens visíveis é bem menos, provavelmente na casa dos 5-10% . – Homens acima de 1,85m ou 1,90m — a altura média masculina é cerca de 174-175 cm. Acima de 1,85m deve rondar os 8-12% dos homens; acima de 1,90m já desce bastante, para uns 3-5%. – Hipercolesterolémia grave ou diagnosticada — o colesterol elevado é muito comum (mais de metade da população adulta), mas a forma mais preocupante fica abaixo dos 20%.

Por último, alguns desportos minoritários em Portugal (com base em praticantes federados) incluem modalidades com poucos inscritos em comparação com o futebol (cerca de 28% do total), natação (13%), voleibol (cerca de 8%) ou andebol (6%). ine.pt

  • Patinagem artística (e patinagem em geral): Destaca-se mais entre mulheres (cerca de 60% femininas), mas representa uma fração pequena do total federado (bem abaixo de 1-2%).
  • Ginástica (além da artística): Tem boa expressão feminina (cerca de 88% mulheres), com cerca de 23 mil praticantes totais (aprox. 3%).
  • Ténis: Cerca de 27 mil praticantes (aprox. 3-4%), com predominância masculina.
  • Atletismo: Cerca de 21 mil (aprox. 2-3%).
  • Ciclismo: Predominantemente masculino (92%), mas percentagem global baixa.
  • Outros exemplos mais nicho: Pentatlo moderno, motonáutica, desportos de combate menos comuns (como alguns estilos de karaté ou judô com menor adesão), vela, canoagem em variantes específicas, esgrima, tiro, xadrez desportivo, desportos de inverno (pouco praticados devido ao clima), ou modalidades como squash, badminton ou râguebi (com federações ativas mas números reduzidos).