Sobre a Emigração de Jovens em Portugal

“ImBestigação” da Cooperativa: ai isto está tão mal que os nossos jovens estão todos a emigrar porque não têm oportunidades cá. Ai, ai ai.

Ai que são os mais qualificados que estão a emigrar. Ai.

Fui ver. Estamos como sempre estivemos. Temos é muito menos jovens.

Ou seja, o problema de fundo vai sempre bater no mesmo spot. A baixa taxa de natalidade.

Bom, adiante. Ora como o nosso Governador do Banco de Portugal Álvaro Santos Pereira, o dos pastéis, anda a publicar uns tweets super interessantes, eu próprio fui lá ao site do Banco de Portugal sacar matéria-prima para esta thread. E eles têm lá coisas mesmo boas. Entre outros, um estudo sobre “A emigração dos jovens portugueses nas últimas décadas”.

Começamos já pelo quadro que estraga logo metade da missa.

Quando se olha para os jovens nascidos em Portugal entre os 15 e os 34 anos, a taxa de emigração era esta:

2001: 13,5%

2011: 11,2%

2021: 15,1%

Ou seja, sim, em 2021 a taxa é mais alta do que em 2011. Mas comparando com 2001, o cenário não é assim tão diferente. Passámos de 13,5% para 15,1% em vinte anos.

Não é irrelevante. Mas também não é exatamente nunca visto, êxodo bíblico ou a juventude inteira a fugir deste país.

Agora, quando se parte o dado por idades, a coisa fica mais interessante.

Nos 25-34 anos, que é a faixa onde já estamos a falar mais claramente de entrada no mercado de trabalho, carreira, salários, rendas e vida adulta, os números são estes:

2001: 19,4%

2011: 13,5%

2021: 18,2%

Aqui está a primeira chatice para a narrativa histérica, em 2021, a taxa de emigração dos 25-34 anos era inferior à de 2001. Pouco inferior, é certo, mas inferior.

Portanto, calma com a ladainha de que os jovens agora fogem todos porque Portugal nunca esteve tão mau. Há problema? Há. É sério? É. Mas o fenómeno não nasceu ontem, nem começou com o preço dos T0 no Chiado que não permite uma vida digna.

A grande diferença aparece nos 15-24 anos.

Aí sim, há um salto evidente:

2001: 6,6%

2011: 8,2%

2021: 12,0%

Esta faixa quase duplica em vinte anos. Mas aqui convém não nos andarmos a enganar. Estamos a falar de jovens que, em grande parte, ainda estão em percurso escolar ou universitário.

Parte desta subida pode estar associada à maior mobilidade estudantil: Erasmus, intercâmbios, licenciaturas fora, mestrados lá fora, experiências académicas dentro da União Europeia e outros percursos de estudo que hoje são muito mais comuns do que eram em 2001.

Portugal tem um problema de emigração jovem crónico. Mas não é bem o problema plastificado que muitas vezes nos vendem hoje.

Em parte o que mudou foi a composição, a forma e o contexto. Mais mobilidade estudantil, mais circulação europeia, no fundo, tudo o que é expectável numa Europa sem fronteiras.

Sublinho, o problema maior não é a emigração jovem, é a ausência de jovens portugueses. NATALIDADE. Esta quebra não aconteceu de um dia para o outro.

Bom, mas vamos lá ver se os jovens que emigram são mesmo como dizem os mais qualificados…..

Fonte de informação: Banco de Portugal

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🌍 E para onde vão os jovens portugueses?

Aqui também há menos novidade do que parece.

O gráfico dos emigrantes jovens, dos 25 aos 34 anos, mostra que Portugal continua a mandar gente para os sítios de sempre:

França, Reino Unido, Suíça, Espanha, Alemanha e Luxemburgo.

França continua praticamente igual: cerca de 48 mil jovens portugueses em 2011 e em 2021.

Suíça continua no topo, apesar de descer de 40,7 mil para 33 mil.

Reino Unido cresce bastante, de 23,6 mil para 36,7 mil, embora aqui seja preciso lembrar que estes dados ainda apanham o período antes do efeito do Brexit.

Espanha, Luxemburgo, Alemanha, Bélgica e Países Baixos completam o velho circuito europeu da emigração portuguesa.

Ou seja, os jovens não estão propriamente a descobrir rotas exóticas. Vão para onde os portugueses sempre foram países próximos, com comunidades instaladas, redes familiares, oportunidades de trabalho e salários que são mais altos. Não necessariamente para fazer coisas muito diferentes. Agora, claro, antes ia-se muito com a mala de cartão. Hoje vai-se de avião, e dentro da legalidade. É naturalmente mais fácil.

Fonte: Banco de Portugal

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🎓 Agora vamos à qualificação dos jovens emigrantes.

Este gráfico mostra os jovens nascidos em Portugal, entre os 25 e os 34 anos, divididos por nível de escolaridade: básico, secundário e superior.

E compara duas coisas:

os jovens que continuam a residir em Portugal;

os jovens portugueses que residem no estrangeiro.

Ou seja, isto permite responder a uma pergunta importante, quem emigra é sobretudo a geração mais qualificada?

A resposta é bem aquela que te vende!

Em 2021, entre os jovens portugueses dos 25 aos 34 anos a viver no estrangeiro, a distribuição era esta:

Ensino básico: 34,8%

Ensino secundário: 34,5%

Ensino superior: 30,8%

Agora somemos o básico e o secundário, que é onde está a maioria:

34,8% + 34,5% = 69,3%

Ou seja, em 2021, quase 7 em cada 10 jovens emigrantes portugueses entre os 25 e os 34 anos tinham, no máximo, o ensino básico ou secundário.

Isto não apaga a fuga qualificada. Mas estraga a lengalenga preguiçosa de que a emigração jovem portuguesa é uma procissão de licenciados a caminho do estrangeiro.

Há licenciados, sim. Muitos. Mas a maioria continua a estar entre o básico e o secundário.

E isto já vinha de trás!!!!

Em 2001, entre os jovens emigrantes:

Básico: 52,5%

Secundário: 35,9%

Superior: 11,6%

Básico + secundário = 88,4%

Em 2011:

Básico: 47,2%

Secundário: 30,8%

Superior: 22,0%

Básico + secundário = 78,0%

Em 2021:

Básico: 34,8%

Secundário: 34,5%

Superior: 30,8%

Básico + secundário = 69,3%

Portanto, sim, o peso dos jovens emigrantes com ensino superior aumentou muito. Passou de 11,6% em 2001 para 30,8% em 2021.

Mas isto não aconteceu do nada. Também há muito mais jovens licenciados hoje em Portugal do que havia em 2001.

Em 2021, entre os jovens dos 25 aos 34 anos a residir em Portugal, 38,5% tinham ensino superior.

Entre os jovens portugueses da mesma idade a residir no estrangeiro, eram 30,8%.

Residentes em Portugal com superior: 38,5%

Residentes no estrangeiro com superior: 30,8%

Ou seja, proporcionalmente, há mais peso de licenciados entre os jovens que ficam em Portugal do que entre os jovens que emigram.

Isto é importante porque desmonta uma ideia de que Portugal está simplesmente a formar licenciados para exportar em massa.

A realidade é mais chata.

Portugal exporta jovens qualificados, sim. Mas também exporta muitos jovens com secundário, muitos jovens com básico, muita malta de hotelaria, construção, logística, restauração, serviços, cuidados, transporte e trabalhos práticos.

A emigração jovem não é só fuga de cérebros.É também fuga de braços.

Fonte: Banco de Portugal

https://www.

bportugal.pt/publicacao/bol

etim-economico-marco-2025

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☢️Em conclusão: convém dizer que os jovens emigram porque sempre emigraram, porque é normal circular, porque o mundo tem as portas abertas e porque uma vida preenchida também se faz fora da terra onde se nasceu. É mesmo assim camaradas.

Não há aqui nenhuma tragédia metafísica. Há jovens que saem porque ganham mais. Há jovens que saem porque querem estudar fora. Há jovens que saem porque querem respirar outros ares, conhecer outras cidades, trabalhar noutras empresas, aprender outras línguas, ou simplesmente porque sim.

E isto é normal. Normalíssimo. Chama-se mundo aberto. Chama-se União Europeia. Chama-se liberdade de circulação. Chama-se ser jovem e não achar que a vida tem de acabar na praceta onde nasceu.

O que é menos normal é a carpideira nacional transformar cada jovem que apanha um avião num mártir da pátria, como se a emigração fosse sempre uma espécie deportação económica. Não é. Muitas vezes é escolha. Muitas vezes é ambição. Muitas vezes é curiosidade. Muitas vezes é simplesmente a vida a acontecer.

Claro que Portugal tem problemas. Tem salários baixos, casas caras, progressões lentas e uma economia bloqueada pela vaga marxista que ainda não nos largou.

Mas também convém desmontar a chantagem emocional que se instalou no debate público. Aquela encenação dos palermóides nas manifs, cartaz na mão, a ameaçarem-nos solenemente que vão emigrar, como se o país tivesse de entrar em pânico porque o Tiaguinho de humanidades aplicadas pode um dia comprar um bilhete para Bruxelas.

Mas infelizmente não compra.

Os Tiaguinhos, sim, esses, heróis da diáspora que ainda nem conseguiram emigrar para fora do quarto dos papás. Vivem entre a cama por fazer, o frigorífico abastecido pela mamã e a grande epopeia revolucionária da paródia na manif na avenida da Liberdade. Promessas, promessas. Ameaçam que vão embora há anos, mas a única fronteira que atravessam com regularidade é a do quarto para a sala.

Camaradas, o probema de Portugal não é haver jovens que saem. O problema é haver poucos jovens.

Quando um país tem filhos suficientes, a circulação é saudável. Uns saem, outros entram, alguns voltam, outros ficam lá fora, e a vida segue. Quando um país deixa de ter crianças, cada jovem que sai parece uma amputação nacional. A emigração deixa de ser movimento e passa a parecer hemorragia.

Por isso, olha, façam mais filhos. Criem mais gente. Construam um país onde nascer, crescer, sair, voltar ou ficar não pareça sempre uma tragédia. Portugal não acaba porque alguns jovens emigram. Portugal começa a acabar quando já quase não há jovens para emigrar.

Tenho dito!