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Literatura e religião para o autoconhecimento segundo o Papa Francisco

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A modernidade é muito influenciada pela Reforma e pelo Iluminismo que ambicionava criar um corte com a tradição. E, provavelmente, com a evolução dos anos podem ter contribuído para que hoje se sinta um distanciamento entre a arte e a religião. Esta separação que se tende a fazer da arte com outras inquietações da condição humana empobrece muito as novas produções, mas, especialmente, empobrece a compreensão e apreensão das artes que fizeram parte das narrativas identitárias de várias culturas. O modernismo que se pauta por um grande relativismo e orgulhosamente por um grande ateísmo, poderá não ver vantagem em sustentar esta relação entre a arte e o sentido espiritual. Assim, suscita-me algumas questões que gostaria de desenvolver nesta reflexão: Existe alguma relação entre a literatura e a religião? A literatura e a religião podem auxiliar o nosso autoconhecimento e contribuir para a sociedade?

Ainda que fale bastante da arte e do seu impacto na sociedade, apresento também a visão da Igreja Católica desenvolvendo um ponto de vista pouco trabalhado e estabelecendo novas pontes de diálogo. Antes de progredir, parece-me importante definir o que é a arte. Não é de todo fácil definir o que é arte, e desejo tão pouco questionar qualquer dos critérios da teoria de arte. Na atualidade, parece-me muito comum resumir-se a arte a uma tentativa de mensagem, modo de expressão e comunicação. Não me parece correto ver a arte apenas deste ponto de vista, mas o que impulsiona os artistas a comunicar, o que terão eles de tão importante a dizer, o que é que eles comunicam? A designação do termo Arte vem do latim Ars, que significa habilidade. É definida como uma atividade que manifesta a estética visual, desenvolvida por artistas que se baseiam nas suas emoções, inquietações, tanto existenciais, sociais, ou puramente estéticas. Geralmente a arte está associada a uma época ou cultura, permitindo sempre uma reflexão sobre os desafios da condição humana. Ao longo da história da arte, mais explícito numas épocas que outras, comunica-se sempre questões em torno da vida, da morte, do transcendente, do amor, do ódio, de medos e conquistas. Ou seja, todas as formas de expressões artísticas, em especial a literatura, confrontam-se com grandes interrogações e desafiam os temas fundamentais do nosso sentido do viver, pode assumir um valor religioso e transformar-se num percurso de profunda reflexão interior e de espiritualidade.

A 4 de agosto de 2024, o Papa Francisco publica um pequeno texto, intitulado “Carta sobre o papel da literatura na educação”. Neste texto muito belo e necessário nos dias que correm, o Pontífice pretende despertar o gosto pela literatura e convida todos os cristãos, em especial os sacerdotes e seminaristas, a dedicar mais momentos para a leitura. Dialogando com as palavras do Papa Francisco, que serão um ótimo contributo para a presente meditação, partilho, ainda, uma referência a textos escritos em papados anteriores que contribuíram para esta relação entre a arte, no caso, literatura e a Fé Católica, na Sociedade atual.

A carta do Papa Francisco é muito rica e diversificada nas reflexões que nos apresenta, não se cinge apenas aos sacerdotes, mas «todos, todos, todos» devem reconhecer o valor da literatura para o processo de amadurecimento pessoal. Aos sacerdotes e às equipas formadoras dos seminários, o Papa Francisco partilha o desejo de que se alterassem as rotinas, e se cultivasse hábitos de leitura, pois ler bons livros é um complemento à pastoral e permite um acesso privilegiado ao coração da cultura humana e, mais especificamente, ao coração do ser humano, educando o coração e a mente do pastor e também enriquecendo-o espiritualmente.

O Papa apresenta-nos a literatura e o hábito de ler como algo bastante proveitoso não só a nível físico, psicológico, cognitivo; mas também humano. Ao longo deste texto e em diversos capítulos vai apresentado e aprimorando a importância da leitura como uma escola humana e espiritual. Quando lemos, percebemos logo que os livros dão uma postura muito mais ativa ao leitor do que os media e por isso o leitor quando lê um texto percebe que ele é sempre novo e “reescreve-o, amplia-o com a sua imaginação, cria um mundo, usa as suas capacidades, a sua memória, os seus sonhos, a sua própria história cheia de dramatismo e simbolismo”, assim nos escreveu o Papa Francisco na sua Carta. Isto é belo, ajuda-nos a compreender a finitude da nossa vida e da vida do nosso irmão, a assimilar e a discernir as inquietações da vida. Certamente, nós, leitores, já fomos experienciado as vantagens da literatura e as inquietações que nos podem consolar ou desolar e fazem parte do nosso autoconhecimento e experiência de vida, como bem devemos saber. A pergunta que pode surgir desta reflexão é sobre o sentido católico/religioso que se dará à literatura. Neste caso, o Papa Francisco, com muita humildade e franqueza, é claro quando nos diz que ler é ver com os olhos dos outros; melhor ainda, Jorge Luís Borges define a literatura como o ato de ouvir a voz de alguém. Ou seja, é conseguirmos colocarmo-nos no lugar do outro, de perceber como o outro se sente. Muitas vezes até somos capazes de nos identificar e “descobrimos que o que sentimos não é só nosso, é universal, e, por isso, até a pessoa mais abandonada não se sente só”. Aqui, também se desenvolve “o poder empático da imaginação.”

O Papa Francisco ao longo do seu papado tem alertado para a importância de escutar todos com atenção, mas de modo especial pede-o ao clero. Não obstante, todos os cristãos devem ter um coração atento às pessoas e consciente que, nos dias de hoje, vivemos um grande problema humano que é a solidão. A leitura de algum modo deve educar o olhar para ser mais compreensivo, mais manso e reconhecendo os desafios da humanidade torne o nosso coração menos promissor a julgamentos. Ainda gostaria de citar uma passagem da Carta de modo a reforçar este sentido cristão que se pode dar à literatura e que é bastante elucidativa do descentramento que a literatura nos convida.

“Jean Cocteau escreveu a Jacques Maritain: «A literatura é impossível, temos de sair dela, e é inútil tentar sair dela com a própria literatura, porque só o amor e a fé nos permitem sair de nós mesmos». Será que saímos realmente de nós próprios se os sofrimentos e as alegrias dos outros não arderem no nosso coração? Prefiro lembrar-me que, como cristão, nada do que é humano me é indiferente.”

No avançar da Carta, o Papa Francisco frisa a importância de ver a literatura com um sentido espiritual e que isso terá impacto na relação dos sacerdotes com a poesia. Assim, pretendo conduzir esta reflexão de modo a perceber que na literatura não há apenas uma preocupação estética, benefícios cognitivos e um encorajamento humanístico; mas sim, um sentido espiritual. Pelo que consigo entender do que o Santo Padre nos escreve, a literatura torna-se hospitaleira à Palavra de Deus e transmite-a numa linguagem humana que abre mundos e deseja escutar a voz divina. Apresenta-nos ainda que a força espiritual da literatura permite ao sacerdote ser instrumento de comunhão entre a criação e a Palavra feita carne e o seu poder de iluminar todos os aspectos da condição humana. O que de facto me parece muito interessante, e que conduzirá a nossa reflexão para a relação que os sacerdotes têm com a poesia que é de grande afinidade e manifesta-se em “misteriosa e indissolúvel união sacramental entre a Palavra divina e a palavra humana, dando vida a um ministério que se torna serviço cheio de escuta e compaixão, a um carisma que se traduz em responsabilidade, e a uma visão do verdadeiro e do bem que se abre como beleza.”

Certamente, podemos questionarmo-nos qual seria a vantagem dos sacerdotes em ter este contacto com a literatura. O Papa Francisco tenta esclarecer-nos que este diálogo é enriquecedor para ambos e ao longo da carta aprofunda os seus argumentos e justificações, apresentado-nos uma imagem que é bastante clarificadora do papel da literatura no conhecimento dos limites da condição humana. A expressão “ginásio do discernimento” é bastante ousada, mas resume bem o que falamos anteriormente. Ou seja, o jovem em formação com a literatura experimentará fortes emoções de consolação e desolação que muito vão contribuir no seu crescimento de fé, discernimento e desenvolvimento pessoal. Ainda que possa não apresentar muita novidade, tendo em conta o que já foi escrito; a expressão é ousada e muito bem desenvolvida ao longo da carta. Respondendo concretamente ao crescimento espiritual que a literatura pode causar nos sacerdotes, partilho a referência de um poeta alemão que o Santo Padre nos escreveu na Carta e que é deveras interessante. O poeta Rahner afirma que a poesia tende para o Perfeito, mas não nos pode dar essa Perfeição; o que na visão Cristã o Infinito/perfeição/Beleza é Deus. Assim, segundo Rahner «a palavra poética invoca, portanto, a Palavra de Deus».

Reforço o apelo que o Papa Francisco nos deixou para “tocar” o coração do homem contemporâneo com o anúncio de Jesus e que aqui a poesia e a literatura podem ter um papel determinante. Assim, a Igreja contemporânea, após o Concílio do Vaticano II, tem desejado que se trabalhe com os artistas. O Papa Paulo VI, em 1964, reúne-se com vários artistas com o propósito de reafirmar a amizade entre a Igreja e as artes; reconhecendo que para o Ministério pregar o Evangelho era importante o contributo dos artistas para o tornar mais acessível a todos. Estou ciente que nem toda a arte é cristã e que nem toda ela se enquadra nos valores ocidentais; mas de forma geral todas as obras comunicam diversidade cultural e pulsam humanidade. Logo, o recurso assíduo à literatura permite este acesso à humanidade criada por Deus e redimida por Jesus. E, como nos ensina o Concílio “Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente”. Por isso é inevitável que a arte não seja meio de transmitir a Mensagem e o anúncio de Cristo; porque nos mostra as condições, realidades, diversidade cultural que Cristo redimiu na Cruz e porque a arte também dialoga com a nossa intenção de comunicar com o transcendente. Reforço que a religião deve ser o meio primordial para o nosso autoconhecimento, enquanto a literatura pode ser um vasto contributo nesta descoberta.

Viagem apostólica a Portugal no 10º aniversário da beatificação de Jacinta e
francisco, pastorinhos de Fátima. Encontro com o mundo da cultura, no Centro
Cultural de Belém – Lisboa. Quarta-feira, 12 de maio de 2010
Foto Agência ECCLESIA

É possível que nos ocorram à memória um extenso conjunto de exemplos de interculturalidade presente na Bíblia, desde uma variedade de géneros literários ora mais simbólicos, ora mais historiográficos que relatam uma adaptação da cultura dos povos antigos de determinadas de regiões em que os apóstolos foram pregar o Evangelho o que a meu ver (e do Papa Francisco) enriquece a Palavra de Deus. Sabemos que muitas vezes o modo de evangelização de vários povos e culturas aconteceu com recurso às artes o que consolida o desejo de estar em harmonia e em permanente diálogo com os meios culturais. Reconhecendo o diálogo intercultural entre vários povos e “constatada a diversidade cultural, é preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza.”. Assim nos inspira o Papa Bento XVI no Encontro com o mundo da cultura, no Centro cultural de Belém, no dia 12 de maio de 2010, na Viagem Apostólica a Portugal no 10º Aniversário da beatificação dos Pastorinhos de Fátima. Um texto belíssimo e que recomendo deveras a leitura. Mas a que verdade se refere o Papa Bento XVI? Ele próprio o diz: “é dramático tentar encontrar a verdade sem ser em Jesus Cristo. Para nós, cristãos, a Verdade é divina; é o «Logos» eterno, que ganhou expressão humana em Jesus Cristo, que pôde afirmar com objectividade: «Eu sou a verdade» (Jo 14, 6).” Ou seja, a busca da verdade é uma consequente busca de Deus.

Anteriormente, a este encontro com o mundo da Cultura o Papa Bento XVI tinha feito um discurso pertinente dirigido aos artistas e deixou-lhes um apelo que repetiu em Portugal: «tendes, graças ao vosso talento, a possibilidade de falar ao coração da humanidade, de tocar a sensibilidade individual e colectiva, de suscitar sonhos e esperanças, de ampliar os horizontes do conhecimento e do empenho humano. […] E não tenhais medo de vos confrontar com a fonte primeira e última da beleza, de dialogar com os crentes, com quem, como vós, se sente peregrino no mundo e na história rumo à Beleza infinita» (Discurso no encontro com os Artistas, 21/11/2009). Bento XVI pede aos artistas para que procurem a Beleza, a Verdade e o Bem, valores que na filosofia Cristã são essenciais para uma produção artística mais autêntica. Porém, no mundo moderno, várias forças e correntes de pensamento desvirtuam-nos destes valores da procura do Bem e da Verdade. Um dos traços que vivemos atualmente é o relativismo e um desinteresse em defender a verdade. Este corte de diálogo entre os valores que a tradição ou experiência que o passado nos oferece e o mundo atual e as gerações futuras será bastante prejudicial à compreensão de muitas obras literárias. Nos dias de hoje o conceito de “bom” é subjectivo, então, como é que se determina um bom romance para um católico ler?

Na Carta, o Papa Francisco recomenda-nos a leitura de bons livros e que “devemos selecionar as nossas leituras com abertura, surpresa, flexibilidade, orientação, mas também com sinceridade, tentando encontrar o que precisamos em cada momento da vida.”

Uma pergunta que certamente nos pode interpelar: haverá algum livro que um católico não deva ler? Sim e não. Utilizo um versículo bíblico, para mostrar que atualmente temos acesso ao que é bom e ao que é mau e que é importante o discernimento nas nossas escolhas literárias, assim, “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém.” 1 Coríntios 6,12. Para um católico importa, obviamente, saber discernir o que nos agrada ler. Definir este agrado pode ser interpretado tanto a nível do estado de espírito da pessoa, mas também se respeita o seu conjunto de características culturais e crenças. Abertamente, o católico poderá ler todos os géneros literários, mas certamente não se identificará nem se sentirá confortável em ler um romance érotico ou de terror e isto nem deveria ser motivo de surpresa. Contudo, também não me parece correto dizer que o facto de um leitor católico não se identificar com estes géneros literários seja uma proibição. Mas, sim, uma escolha por procurarem ler géneros literários que seguem outras linhas de pensamentos. Do mesmo modo, nem todos nós gostamos de igual forma de todos os géneros literários ora pelas nossas experiências culturais, ora pelas próprias afinidades.

Não me parece novidade que as nossas convicções e reflexões condicionam as nossas escolhas e, acima de tudo, a nossa interpretação. Não será diferente na literatura. Já percebemos que há géneros literários que não serão sequer lembrados por leitores católicos; mas, podem existir autores controversos que vão depender do bom senso da nossa interpretação. Vamos a um grande exemplo, Eça de Queirós. Podemos associar grandes capacidades discursivas e descritivas à escrita queirosiana, também fruto da inspiração do Realismo, mas não podemos associar ao Eça zelo pela Santa Igreja e muito menos narrativas com bastante pudor. No entanto, não me escandaliza que um católico leia Eça de Queirós – eu leio- mas reconheço a importância de duas ressalvas. Primeiramente, e ainda que ele seja um dos meus autores prediletos, não sinto a necessidade e nem me apraz ler todos os livros da sua vasta obra, e quando os leio tenho pensamento crítico que me permite apreciar a sua obra aparte das suas opiniões. E, a outra ressalva é que quando leio estou consciente da época e da história de vida do autor. Com muita franqueza, reconheço que na época, as “farpas” queirosianas sobre o catolicismo e a sua revolta em torno da Igreja transmitiam o que se deveria pensar nos ambientes em que o Eça convivia. Não obstante, por mais erradas que estivessem, parece-me existir uma tentativa, um desejo, uma procura pela verdade. E, isso não pode ser censurado, porque, infelizmente, procuram a verdade por caminhos distantes, mas, eram assim os pensamentos e as inquietações do pensamento do grupo de intelectuais da época. Contudo, e para quem gostar de compreender como as sociedades viviam e como a Igreja tambeḿ fazia parte do imaginário das pessoas o Eça é um excelente recurso.

Na sociedade atual, presenciamos um crescente défice de atenção, uma inegável falta de hábitos de leitura e um afastamento da Igreja na consciência e imaginário coletivo contribuem para más interpretações. Este afastamento da Igreja na sociedade deve-se essencialmente ao desejo de romper com as tradições, fazendo-nos esquecer que deixa os sujeitos e os povos desamparados e sem conhecerem os passos que as gerações passadas deram, para que hoje estivéssemos aqui. A ausência e o esquecimento da Igreja nos dias de hoje pode justificar alguma estranheza quando encontramos um cruzamento entre a arte e a religião. Hoje, num mundo bastante ateu/laico, parece não fazer sentido este cruzamento; mas durante longos séculos foi importante. A Igreja poderia ser um grande alvo de crítica, mas deixava claro que a religião estava mais presente nas sociedades do que agora.

Partilho mais um exemplo, a fim de esclarecer como a história e, essencialmente, o contexto do autor determinam tanto a obra como a interpretação que fazemos dela. O poeta Daniel Faria foi monge Beneditino. Como é que será lido por um ateu/agnśotico, sabendo que foi religioso? Certamente, diria inevitavelmente, vai dar-lhe um sentido mais espiritual na interpretação da sua poesia. Nos dias de hoje poderíamos “correr o risco” de ver o Deus de Daniel Faria como um Deus panteista, mas o leitor verá sempre que há um sentido espiritual no que o poeta escreve. O mesmo acontece quando lemos os poemas de Santa Teresinha do Menino Jesus, refletimos sobre as obras de D. José Tolentino Mendonça ou de muitos Santos que foram dotados para a expressão literária. Na leitura das suas obras é impossível desassociar a dimensão do transcendente e da religião mesmo que lidos por um ateu.

Ao longo desta reflexão, posso ter transparecido a ideia que a Igreja precisa mais da literatura do que o oposto. Poder-se-á pensar que se a literatura for virtuosa procurando a Verdade e a Beleza seria benéfica em si própria, podendo ver-se separada da espiritualidade. Mas não pode ser assim, a literatura/arte deve estar em cooperação, harmonia com a Igreja. Melhor dizendo, os artistas também precisam da Igreja. Como poderão eles corresponder ao apelo do Papa Bento XVI de conhecer a verdadeira fonte de Beleza que é Deus? O Papa João Paulo II, no seu papado, dirigiu uma extensa Carta aos Artistas reafirmando o desejo da Igreja de renovar o diálogo e a colaboração com os artistas, mas deixa bem claro esta pergunta: “A arte precisa da Igreja?”, solicitando assim os artistas a reencontrar na experiência religiosa, na revelação cristã e no “grande códice” que é a Bíblia uma fonte de inspiração renovada e motivada. É através deste encontro entre o indivíduo, do artista com a sua história de vida com a Palavra feita Carne, com Deus que se fez homem, morreu e ressuscitou que se poderá encontrar a raiz da beleza e contemplar mais autenticamente a Criação divina em todas as realidades humanas. Segundo a experiência cristã, um verdadeiro encontro com Deus faz-nos reconhecer pequenos, mas fortes; mostra as nossas desolações e as grandes perguntas que evitamos, mas também consola. Este encontro entre Deus e o homem é seguramente transformador. De tal forma que o artista dispõe das suas habilidades que comunicar a Beleza ao mundo.

Nos dias que correm o valor de beleza está bastante desvirtuado e descuidado, apresenta-se, por vezes, inquestionavelmente relativo. Hoje procura-se a beleza em fontes muito distantes ou consideramos que o Belo é puramente estético; porém reduzi-lo a uma função estética é um grande erro para compreender a arte. Não podemos jamais descuidar a presença da verdadeira beleza na nossa sociedade, e o Bento XVI no seu Discurso aos artistas partilha uma frase de Dostoievski que é bastante interessante para compreender o impacto da beleza: “A humanidade pode viver sem a ciência, pode viver sem pão, mas unicamente sem a beleza já não poderia viver, porque nada mais haveria para fazer no mundo. Qualquer segredo consiste nisto, toda a história consiste nisto”. A beleza aqui não pode ser vista puramente no sentido visual ou um romancear da realidade, mas sim uma beleza que chama a atenção, uma beleza que crie um sobressalto saudável, no caso no coração dos leitores. A beleza e a verdade infundem a felicidade no coração da humanidade, mas não podemos incorrer no erro de beber de fontes de beleza que nos iludem e que fechem os homens em si mesmos; mas que nos permita olhar para o Alto e Além de nós mesmos.

O escritor e pintor alemão, Hermann Hesse, defende que a “Arte significa: dentro de tudo mostrar Deus”. Esta afirmação parece-me resumir a reflexão que percorremos. O artista deseja comunicar as suas inquietações, desejando partilhar o que lhe sobressalta ao longo da sua vivência, ou seja, a beleza, que é fruto da procura constante que temos do Bem, Verdade e Beleza, que é Deus. E, é em Deus que devemos repousar e encontrar o espaço confiável para conhecer, compreender as nossas fragilidades e sonhos; concretizando um conhecimento pleno da nossa pessoa e da humanidade a que Jesus Cristo se revelou. Neste sentido, a arte e a religião não podem nunca estar de costas voltadas, mas devem ser amigas e cooperarem para a promoção da Verdade, como o Bento XVI nos apelou. Finalizo, ainda, com uma frase muito bela que nos deixou no seu discurso em Portugal: “Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza”.

Relembrar Outras Frentes de Combate em 1914-1918: as Madrinhas De Guerra

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Fotografia das madrinhas de guerra, figurando no n.º 590 da revista Ilustração Portuguesa de 11 de Junho de 1917. Artigo originalmente publicado na revista dos estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e disponível em arquivo aqui.

“[…] As madrinhas de guerra serão pela vida fóra, de nós todos que fomos à guerra, a nossa mais doce recordação. Por muito dedicados que lhe sejamos, jamais conseguiremos pagar dívida tão grande que contraímos. […]”
Afonso do Paço, Cartas às Madrinhas de guerra (1929)

Apesar dos cerca de oito mil soldados mortos e trinta mil feridos, capturados ou desaparecidos na Grande Guerra, que totalizam um número elevado de vítimas (sobretudo se tivermos em conta a pequena dimensão do país), Portugal surge muitas vezes como um dos beligerantes esquecidos pela história e pelos historiadores. Mesmo em Portugal, a ideia do que foi esta guerra parece permanecer nebulosa, largamente desconhecida e ausente da memória colectiva nacional. O indício mais sintomático desta realidade será, talvez, a inexistência em Portugal da comemoração do Dia do Armistício, a 11 de Novembro, ainda hoje assinalado noutros países beligerantes como o Reino Unido, a Bélgica ou a França.

Para explicar esta ausência no imaginário memorial português, concorrem vários factores possíveis, em particular a fragilidade da jovem república em responder prontamente ao trauma da participação na guerra, que se exprimiu, por exemplo, na dificuldade de recepção e de reintegração social dos combatentes regressados ao país. Isto não quer dizer, no entanto, que não tenha havido tentativas de construção do mito da guerra, expressas, nomeadamente, através da criação de cemitérios militares portugueses em França e na Flandres – trabalho de homenagem patriótica levado a cabo pela Comissão Portuguesa das Sepulturas de Guerra ainda no rescaldo do conflito; ou do edificar (tardio) de monumentos públicos um pouco por todo o país, erigidos sobretudo na década de 30 e 40 do século XX, mas geralmente associados a um forte teor ideológico e com objectivos propagandísticos já do regime fascista de Salazar.

Embora não seja intuito deste texto discorrer sobre a questão memorial da guerra de 1914-18, esta não deixa de ser o seu mote: no dia de hoje, há 101 anos, o Corpo Expedicionário Português (CEP) sofria uma das mais dramáticas derrotas da sua participação no conflito mundial na chamada Batalha de La Lys. Na realidade, esta batalha prolongou-se de 7 a 29 de Abril, embora a historiografia portuguesa tenha dado particular enfoque ao dia 9, dia do trágico embate para o qual concorrera a incapacidade defensiva do CEP perante a ofensiva alemã: desastre que parece ser, de resto, representativo da impreparação generalizada das tropas portuguesas enviadas para a frente ocidental. O estudo da participação de Portugal na guerra tem pendido, de um modo geral, para questões políticas, económicas e sociais, fazendo convergir as diversas causas e consequências de um momento conturbado que caracterizou a então jovem república portuguesa. Com isto, não pretendo afirmar que o ambiente de instabilidade política não seja, de facto, contexto maior – legítimo e necessário – à problematização e compreensão da entrada de Portugal na guerra. Chamaram-lhe guerra total porque se caracterizou como um conflito maior do que todos os anteriores – de facto, totalizante. Este conceito tenta caracterizar o esforço de guerra segundo as suas múltiplas vertentes: quer a nível externo – ou seja, no que respeita à participação efectiva no conflito mundial propriamente dito; quer a nível interno – onde se opera a acção da sociedade civil em território longe da frente de combate. É, portanto, sobre este ponto – o da participação da sociedade portuguesa na retaguarda – que este texto pretende debruçar-se. Em particular, sobre um aspecto ainda pouco estudado: a acção das madrinhas de guerra.

Quando se percebe, um pouco por toda a Europa, que a guerra não iria ser de curta duração, e que os soldados, contrariando as projecções iniciais mais optimistas, não estariam de regresso a suas casas pelo Natal, estabelecem-se linhas de acção externas e de apoio à frente de combate. As madrinhas de guerra são uma invenção criada pela necessidade de se manter o moral dos combatentes, de modo a evitar insubmissões e deserções entre os contingentes militares. À semelhança do que acontecia nos outros países beligerantes, como em França ou no Reino Unido, também em Portugal se procurou criar uma rede de apoio aos soldados portugueses.

Independentemente da ideologia que estivesse por detrás da sua acção, as madrinhas de guerra pretendiam, de um modo geral, estabelecer um contacto regular com os soldados da frente de combate. Através de correspondência, a madrinha procuraria atenuar a solidão e tristeza do afilhado, ao dar notícias do país, enviando-lhe, entre outras coisas, agasalhos, tabaco e jornais. A madrinha teria de visitar o combatente em situações trágicas, nomeadamente quando ferido no hospital, devendo fazer-lhe companhia para levantar o ânimo; mas também deveria prestar auxílio moral e material às famílias dos mobilizados que, na maioria dos casos, não dispunham de grandes meios de subsistência. Numa perspectiva lúdica que envolvesse a sociedade civil no esforço de guerra, as madrinhas promoviam ainda diversos eventos públicos para a angariação de fundos, entre os quais se contavam festas com declamação de poesia, bailes, concertos, espectáculos de teatro ou de animatógrafo, ou ainda, por exemplo, a venda de objectos artesanais em mercadinhos públicos.

Pouco depois de ter partido o primeiro contingente português para França, em Março de 1917, foi constituída uma comissão de senhoras da aristocracia portuguesa, fundada por Sophia de Carvalho Burnay de Mello Breyner, que pretendia dar apoio moral e material ao esforço de guerra. A sua obra esteve próxima da Assistência das Portuguesas às Vítimas de Guerra, organização de pendor monárquico e católico, e “rival” da republicana Cruzada das Mulheres Portuguesas. A sua fundadora sublinhava a urgência em criar-se um grupo como as madrinhas, afirmando, em entrevista ao Século de Abril de 1917, que a inscrição de madrinhas e de afilhados que as procuravam aumentava exponencialmente a cada dia. Apesar do sucesso imediato, estas madrinhas foram também alvo de duras críticas por parte da opinião pública, num país ideologicamente crispado entre republicanos e monárquicos. Aos olhos de muitos, a sua actividade era nefasta, já que o ânimo do combatente, fragilizado, estaria mais permeável à doutrinação religiosa. Outras vozes se levantaram contra esta obra, considerando-a de “pseudo-beneficência”,[1] e acusando assim os seus membros de enviarem rosários, medalhas de santos, e outros “amuletos fanáticos”[2] aos soldados em batalha. Como estes, na imprensa deixavam-se alertas ao perigo da catequização das madrinhas católicas – sentimento inteiramente anticlerical bem patente na facção republicana da época.

Paralelamente às madrinhas católicas e monárquicas, outras instituições portuguesas foram inspiradas por esta ideia. O caso mais sintomático terá sido o da Cruzada das Mulheres Portuguesas no qual, pela mão de uma das suas fundadoras, Ana de Castro Osório, foi criado o departamento dos Afilhados de Guerra, ligado à comissão de Assistência aos Soldados. Com amplo apoio do governo republicano – e, por isso, talvez com uma actividade mais mediatizada na imprensa da época – a Cruzada pretendia, assim, mobilizar novos membros através de iniciativas em tudo muito semelhantes à primitiva organização monárquica: também as madrinhas republicanas procuravam estabelecer um elo com os soldados que combatiam longe, e que se expressava pela correspondência epistolar, embora também houvesse espaço para a realização de festas e outras actividades públicas para angariação de fundos. Do mesmo modo, deveria ser cultivada uma relação com as famílias dos mobilizados, no seio da qual a Cruzada recomendava às suas colaboradoras que prestassem esse auxílio patriótico, “[levantando] o espírito das famílias dos soldados, explicando-lhes com clareza todos os factos, destruindo os boatos e mentiras que tanto estão prejudicando o país”[3]. Esta era uma atitude combativa que pretendia desmistificar e, de certo modo, legitimar, lado a lado com o regime republicano, a participação portuguesa na guerra. Em Fevereiro de 1918, a Cruzada das Mulheres Portuguesas dizia contar já com cerca de nove mil soldados inscritos para obtenção de madrinhas – um número assinalável, tendo em conta os escassos meses em que este departamento terá sido constituído.

Fosse monárquica ou republicana, portuguesa ou estrangeira, a madrinha de guerra era, de um modo geral, olhada com alguma desconfiança. A sua figura parecia ser simultaneamente símbolo de garantia e de ameaça da ordem social, acarretando o duplo poder de a sustentar e de a destruir. Se, por um lado, o carácter “maternal” era invocado como fundamental para estabelecer uma relação moralmente aceitável entre soldado e madrinha, este contacto era, ao mesmo tempo, amplamente apelidado por muitos dos seus detractores como promíscuo e reprovador quanto ao carácter “sexual” do flirt epistolar.

Apesar da visão maniqueísta (maternal vs. sexual) que, desde cedo, minou o papel da madrinha de guerra, não há dúvida de que este fenómeno teve enorme relevância no âmbito da primeira guerra globalizada. Não esteve circunscrito nem no espaço, nem no tempo: foi expressão significativa da crescente rapidez e eficácia dos meios de comunicação do início do século XX. A importância das madrinhas durante a guerra chegou a ser tal que muitos governos europeus alertavam para o perigo de estas mulheres serem espias que utilizavam a correspondência para obter informação comprometedora acerca das estratégias militares; devido ao excesso de fluxo nas redacções, alguns jornais chegavam a ter de recusar a publicação de pedidos de madrinhas pelos soldados, como aconteceu, por exemplo, com o francês Le Figaro. A proliferação da publicação das memórias ou da correspondência quer de combatentes, quer de mulheres, comprova que as madrinhas de guerra tiveram uma presença de relevo em alguns países beligerantes, mostrando-se essenciais para manter o moral das tropas e, numa perspectiva mais ampla, das sociedades civis.

Em Portugal, o nome das madrinhas de guerra aparece geralmente associado ao contexto bem mais recente da Guerra Colonial (1961-1974) – contudo, como procurei demonstrar, houve, de facto, antecedentes desta prática na Grande Guerra. Embora não tenha tido oportunidade de fazer uma análise aprofundada sobre o tema, não quis, no entanto, deixar de assinalar uma das datas mais representativas do desastre militar e humano que foi a presença portuguesa na frente ocidental com uma temática que, ainda que relacionada com a guerra, continua ainda largamente esquecida na nossa memória colectiva.

Numa época em que às mulheres estavam vedadas as oportunidades de participação directa em sociedade, as madrinhas de guerra parecem ter servido como justificação para que muitas das suas colaboradoras prestassem um serviço activo na retaguarda; a criação dos vários grupos de madrinhas parece ter sido, ao mesmo tempo, sintomática da progressivamente maior presença e visibilidade da mulher nas sociedades ocidentais. No caso da sociedade portuguesa, a implementação das madrinhas de guerra foi representativa do fervilhar ideológico de duas das organizações femininas mais significativas da época: a Assistência das Mulheres Portuguesas às Vítimas da Guerra e a Cruzada das Mulheres Portuguesas – que, de resto, tiveram origem aquando da entrada de Portugal na Grande Guerra, em 1916. Apesar das diferenças políticas e divergências que caracterizaram pudessem retratar as madrinhas portuguesas ligadas a estas organizações monárquicas e republicanas, a actividade de ambas era, afinal, em tudo similar: a promoção das diversas iniciativas, entre as quais a correspondência ou as festas beneficentes, revestia-se essencialmente de um apregoado “valor patriótico” que se pretendia maior do que qualquer ideologia, e forma de valente luta, paralela à do soldado na frente de combate. No entanto, esse patriotismo de que se dizia revestir a actividade das madrinhas poderá ser considerado, afinal, uma base de legitimação da própria participação portuguesa na guerra: pois não seria esse apoio moral, sentimental e material prestado por estas mulheres também ele uma ferramenta de motivação ao recrutamento militar e suporte de um hipotético orgulho bélico? Esta pergunta escapa agora ao teor deste texto; fica aqui, no entanto, a deixa para um possível debate futuro.

No epílogo ao livro Cartas às Madrinhas de Guerra, publicado em 1929, o tenente Afonso do Paço, combatente na Grande Guerra, escreve um texto emotivo de agradecimento às madrinhas e à força das suas cartas. Daqui transcrevo abaixo um excerto, terminando este artigo com esta exaltada e reveladora homenagem:

“[…] Foram as mulheres de Portugal o maior auxiliar do bom nome do nosso exército. E porque não havia de ser assim se as nossas fardas vistosas não são para outrem que para os seus olhos? Enquanto abandonados dos dirigentes da nação morríamos de fogo e doença na trincheira, as suas cartas benditas eram o nosso único lenitivo para tamanha dôr. Enquanto padecíamos na Alemanha de fome horrorosa, esquecidos dos governantes da nossa pátria, as suas cartas carinhosas insuflaram vida a uma vida que se extinguia e definhava, conseguindo trazer-nos ao torrão natal. As madrinhas de guerra serão pela vida fóra, de nós todos que fomos à guerra, a nossa mais doce recordação. Por muito dedicados que lhe sejamos, jamais conseguiremos pagar dívida tão grande que contraímos. […]”
Afonso do Paço, Cartas às Madrinhas de guerra (1929)

[1] Jornal O Dia, 15/05/1917.
[2] MOURA, Maria Lúcia de Brito, “Madrinhas de guerra”, in CASTRO, Zília Osório de, ESTEVES, João [dir.], Feminae. Dicionário Contemporâneo, Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, Lisboa, 2013, p. 479.
[3] Ana de Castro Osório apud MOURA, op. cit., p. 480.

Conversa: Ilustração e Artes Visuais com Maike Bispo

Ilustração e Artes Visuais é o universo que foi abordado nesta conversa de Ana Vieira Vicente com o ilustrador Maike Bispo: falou-se sobre o seu processo criativo, inspirações e novos projetos.

Filmes de Natal, Relógios e Tempo

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. Neste Natal, convidamo-lo a passar uns momentos connosco para descobrir 10 filmes natalícios nos quais os relógios ou o próprio tempo ganham protagonismo. O tempo não surge apenas como algo que se mede e se observa, mas como um elemento central na narrativa, frequentemente representado por relógios que marcam momentos decisivos ou transmitem mensagens mais profundas sobre o sentido da própria vida.

Desde contagens regressivas para a chegada do Natal até reflexões sobre as escolhas passadas e futuras, os relógios nos filmes de Natal desempenham um papel simbólico essencial. Lembram-nos da efemeridade da vida, da importância de aproveitar o presente e do poder transformador que esta época do ano pode ter. Neste artigo, vamos explorar os diferentes filmes de Natal e como os relógios são utilizados não apenas como objectos decorativos, mas como verdadeiros marcos do tempo, que protagonizam as lições e as emoções que nos fazem reviver o espírito natalício.

A Christmas Carol (1951) – Contos de Natal

O Conto de Natal (1951)

No clássico O Conto de Natal (1951), os relógios simbolizam a passagem inexorável do tempo e a urgência de mudança na vida de Ebenezer Scrooge. A cada badalada, desde o som imponente do Big Ben até aos relógios em sua própria casa, o protagonista é confrontado com as dimensões do passado, presente e futuro, marcadas pelas visitas dos três espíritos do Natal. O tique-taque incessante serve como um lembrete de que o tempo é precioso, mas também uma oportunidade constante de redenção, reforçando a mensagem central de que é sempre possível transformar o curso da vida antes que seja tarde demais.

The Polar Express (2004) – O Expresso Polar

O Expresso Polar (2004)

No filme O Expresso Polar (2004), os relógios desempenham um papel simbólico central, representa a urgência, a magia e a ligação entre o mundo real e o imaginário natalício. Desde o início, o relógio marca a chegada iminente do comboio mágico, sublinhando a importância de estar no lugar certo a tempo de embarcar numa aventura transformadora.

Ao longo da jornada até ao Pólo Norte, os relógios surgem como lembretes do tempo que corre rapidamente, mas também como símbolos da crença e da esperança que transcendem as barreiras do tempo. No clímax do filme, o soar do relógio no Pólo Norte assinala o momento mágico em que o Pai Natal distribui o primeiro presente de Natal, e reforça a mensagem de que, no Natal, o tempo é mais do que o passar das horas — é uma oportunidade para renovar a fé e a magia no impossível.

Home alone (1990) – Sozinho em Casa

Sozinho em Casa 1990

No filme Sozinho em Casa (1990), os relógios desempenham um papel subtil mas crucial, através da marcação o ritmo frenético das acções e decisões do jovem Kevin McCallister. Desde a manhã atribulada em que a família se atrasa e esquece Kevin até aos momentos em que o jovem planeia e executa as suas engenhosas armadilhas, o relógio está sempre presente como um lembrete da passagem do tempo e da urgência das situações.

Ao longo do filme, o relógio sublinha a determinação de Kevin em controlar o seu mundo, mesmo diante de desafios inesperados, simbolizando a maturidade que adquire ao lidar com o tempo e as circunstâncias a seu favor. No clímax, o relógio marca a hora exacta em que os ladrões caem nas suas armadilhas, celebrando a astúcia e o espírito indomável de Kevin.

It’s a Wonderful Life (1946) – A Felicidade Não Se Compra

A Felicidade Não Se Compra 1946

No filme A Felicidade Não Se Compra (1946), os relógios simbolizam a passagem inevitável do tempo e o impacto das escolhas de George Bailey ao longo da sua vida. Presentes em momentos decisivos, os relógios lembram que cada segundo conta e que as ações, por mais simples que pareçam, podem ter efeitos duradouros.

Quando George é levado a ver como seria o mundo sem ele, o tempo parece suspender-se, permitindo-lhe reconhecer o valor das suas contribuições para a comunidade e para aqueles que ama. Esta pausa temporal reforça a mensagem do filme: cada momento vivido é precioso, e até os gestos mais modestos têm o poder de transformar vidas. O relógio torna-se, assim, um símbolo de reflexão, propósito e esperança.

How the Grinch Stole Christmas 2000 – O Grinch

O Grinch 2000

No filme O Grinch (2000), os relógios desempenham um papel importante na narrativa, simbolizando a contagem regressiva para o Natal e a persistência das tradições natalícias. Desde os alarmes barulhentos que perturbam o Grinch até o grande relógio na vila dos Whos, que marca a aproximação do tão esperado dia, o tempo é apresentado como um elemento central que impulsiona a história.

Quando o Grinch tenta roubar o Natal, a presença constante do relógio reforça que, apesar dos seus esforços para atrasar ou impedir a celebração, o espírito natalício transcende o tempo e os objetos materiais. No final, o relógio torna-se um testemunho da transformação do Grinch, lembrando que nunca é tarde para mudar e redescobrir a alegria e a união que o Natal representa.

Miracle on 34th Street – Milagre na Rua 34 (1947)

Milagre na Rua 34 (1947)

No filme Milagre na Rua 34 (1947), os relógios desempenham um papel discreto mas significativo. Marcam a tensão e a expectativa em torno da autenticidade do Pai Natal. Desde o início, quando Kris Kringle assume o papel de Pai Natal na loja de departamentos Macy’s, o tempo simboliza a contagem dos dias até ao Natal e a urgência de provar que a magia desta época vai além do consumismo.

O relógio de parede na loja, frequentemente emoldurado por cenas de agitação e entusiasmo, torna-se um lembrete constante de que o espírito natalício está sempre em movimento, guiando os personagens para momentos de fé e união. No final, o relógio marca o momento crucial em que a justiça e a crença triunfam, provando que o verdadeiro milagre do Natal reside na capacidade de acreditar.

A Christmas Carol (2009) – Um Conto de Natal

Um Conto de Natal (2009)

No filme Um Conto de Natal (2009), os relógios desempenham um papel central na narrativa, simbolizando a passagem do tempo e a urgência da redenção de Ebenezer Scrooge. Desde as primeiras cenas, em que o tique-taque soa de forma quase ameaçadora, até aos marcantes badalos da meia-noite que anunciam a chegada dos três espíritos, os relógios reforçam a ideia de que o tempo não espera por ninguém.

Cada aparição dos fantasmas está vinculada ao movimento implacável dos ponteiros, sublinhando que as mudanças que Scrooge precisa fazer na sua vida são tanto necessárias como urgentes. O relógio de vidro partido que aparece na casa de Scrooge simboliza o estado frágil e interrompido da sua humanidade. No fim da história, quando desperta numa manhã de Natal renovado, o soar do relógio transforma-se num símbolo de esperança e uma segunda oportunidade para abraçar o espírito natalício e a generosidade.

Os Fantasmas Contra-Atacam (2001)

Os Fantasmas Contra-Atacam (2001)
Os Fantasmas Contra-Atacam (2001)

No filme Os Fantasmas Contra-Atacam (2001), uma adaptação moderna de Um Conto de Natal, os relógios desempenham um papel importante ao longo da narrativa, simbolizando a pressão do tempo e a necessidade de mudança. Frank Cross, um produtor de televisão frio e egocêntrico, é constantemente confrontado com relógios que marcam os limites entre o seu passado, presente e futuro.

Cada badalada que acompanha as visitas dos espíritos serve como um lembrete do pouco tempo que lhe resta para transformar a sua vida. No clímax, o relógio representa a oportunidade final para Frank se redimir, e mostrar que, apesar da sua vida estar repleta de escolhas egoístas, ainda é possível reencontrar a humanidade e abraçar o espírito natalício. O constante tique-taque reflete a tensão da história, enquanto o som do relógio no desfecho simboliza a renovação e a celebração do presente.

The Polar Express (2004) – O Expresso do Natal

O Expresso do Natal (2004)

No filme O Expresso do Natal (2004), os relógios são usados como um símbolo poderoso para ilustrar a passagem do tempo e a magia do Natal. Desde o momento em que o protagonista embarca no comboio misterioso até ao destino final no Pólo Norte, o relógio na locomotiva mantém o ritmo da jornada, marcando a urgência e a antecipação do grande evento.

A contagem regressiva até à meia-noite no Pólo Norte enfatiza a importância de acreditar, mesmo quando o tempo parece escapar. À medida que o relógio avança, não guia apenas a narrativa, mas também representa a transição do protagonista entre a dúvida e a fé no espírito natalício. O momento culminante, com o soar do relógio exatamente à meia-noite, assinala a magia do Natal em toda a sua plenitude, reforçando que o verdadeiro espírito natalício reside na crença e na esperança.

A Charlie Brown Christmas (1065) – O Natal de Charlie Brown

O Natal de Charlie Brown (1965)

No clássico O Natal de Charlie Brown (1965), os relógios são um símbolo implícito do ritmo acelerado da época natalícia e da pressão para atender às expectativas modernas. Enquanto Charlie Brown luta para encontrar o verdadeiro significado do Natal, o tempo parece deslizar rapidamente, marcado pelas tarefas incessantes, ensaios e a corrida comercial que envolve os outros personagens.

A simplicidade da pequena árvore de Natal escolhida por Charlie Brown acaba por funcionar como um antídoto a esta correria, oferecendo uma pausa simbólica para reflexão. No culminar da história, quando os amigos se reúnem em torno da árvore transformada, o espírito natalício é redescoberto, reforçando a ideia de que o Natal não se mede pelo tempo ou pela grandiosidade, mas pela união e pela autenticidade dos gestos.

Uma Presidência À Gomes

João Marques de Almeida, na CNN, Contrapoder, lança uma casca de banana, Ana Sá Lopes escorrega à primeira. Eu fui mais longe, fui imaginar como seria o mandato presidencial da doutora Ana Gomes! Vamos lá…. (Texto de pura ficção, sátira)

UMA PRESIDÊNCIA À GOMES

No dia seguinte à posse, Ana Gomes entra em Belém e arranca os quadros dourados das paredes. “Não pode haver luxo numa República Popular!” decreta. Ordena a substituição dos tapetes por linóleo barato, transforma o Salão Nobre num refeitório coletivo e instala uma mesa de madeira velha onde agora despacha assuntos do Estado. No exterior, uma enorme bandeira vermelha tremula, com o lema “O povo governa. Os capitalistas rastejam.” Inicia também uma remodelação dos jardins de Belém, onde nasce uma piscina olímpica de 50 metros que fará parte de uma putativa candidatura de Portugal aos “Jogos sem Fronteiras”. O primeiro decreto não se faz esperar: nacionalização total dos supermercados. O Continente torna-se o “Armazém Popular do Proletariado”, e o Pingo Doce vira o “Mercado Operário 25 de Abril.” Em menos de 48 horas, os produtos desaparecem das prateleiras, porque o povo interpreta “propriedade pública” como “levar o que quiseres.” Mas Ana Gomes mantém-se firme: “O problema não é o modelo, é a falta de consciência de classe.” O segundo grande passo é acabar com a comunicação social independente. Todos os jornais, rádios e televisões passam a integrar a Agência Popular de Informação, onde só se publicam notícias aprovadas diretamente pelo Gabinete de Educação Ideológica. O telejornal das 20h é substituído por uma transmissão diária onde Ana Gomes lê excertos do Manifesto Comunista, intercalados com críticas ao FMI e à NATO.

Ana Gomes e o TWITTER

Declara guerra direta a Elon Musk e ao X, “a maior ferramenta de alienação de massas desde a telenovela da Globo.” Num dos seus primeiros atos presidenciais, decreta que o acesso ao Twitter/X em Portugal é bloqueado e substituído por uma nova plataforma estatal chamada “Voz do Povo”, onde só são permitidas mensagens que promovam a revolução ou denunciem comportamentos burgueses. Musk, claro, respode num tweet “Ana Gomes é uma versão beta de Che Guevara com bug no sistema.” Ana, acusa Musk de imperialismo digital e lança um desafio público: “Vem cá instalar as fábricas da Tesla mas prepara-te para que sejam geridas por conselhos operários!”

UMA DEMOCRACIA AINDA MAIS PURA……

No terceiro mês de mandato, Ana Gomes dissolve a Assembleia da República, argumentando que “o parlamentarismo burguês é uma fraude.” No seu lugar, instala um Conselho Popular, formado por líderes sindicais, agricultores reformados e dois estudantes universitários que nunca acabaram o curso. “A voz do povo não precisa de intermediários,” explica, enquanto exibe com orgulho o novo sistema de votação por aclamação, testado numa reunião em Alcácer do Sal. Eleições? Para quê? Ana Gomes decreta que só haverá novas eleições quando “o povo estiver suficientemente educado para fazer escolhas revolucionárias.” Até lá, governa por decreto e instala comités populares em cada freguesia para “monitorizar” o comportamento dos cidadãos. Denúncias anónimas são incentivadas. O vizinho tem um carro novo? Pode ser um burguês infiltrado. Tem jardim? Provavelmente um explorador.

A ECONOMIA!

O setor privado desaparece rapidamente. Todas as empresas com mais de cinco funcionários são convertidas em cooperativas. O banco central é renomeado Banco Popular Operário, e o escudo volta a circular, rebatizado como “Escudo do Povo.” A nova moeda só serve em Portugal, mas Ana Gomes garante que “não precisamos do mercado internacional, só da solidariedade entre camaradas.” A inflação explode, mas o governo diz que são “as últimas dores do capitalismo decadente.” Nos supermercados, a escassez chega a níveis venezuelanos. Quem quiser arroz ou papel higiénico tem de entrar numa fila que começa às quatro da manhã. “Isto é normal numa revolução,” diz Ana Gomes, numa entrevista transmitida diretamente do refeitório de Belém, onde almoça diariamente sopa de grão com operários da construção civil. O cardápio presidencial? Igual ao das cantinas escolares, porque “a igualdade começa na mesa.” A sobremesa, já longe dos olhares das câmaras, chega, Risotto de Trufa Negra com Espuma de Parmesão, tudo para a Própria Ana Gomes…. E pronto, a primeira República Popular de Ana Gomes em princípio será isto. Belém com um travo a sopa de grão mas bem regada com Barca Velha, mas só para os camaradas revolucionários de trazer por casa. Para os outros, da pipa, só da pipa.

Sobre Assédio e Relações Pessoais na Academia

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Plato’s Academy mosaic – from the Villa of T. Siminius Stephanus in Pompeii.

Existem dois tipos de comportamentos geralmente abrangidos pelo termo coloquial e conceito legal de “assédio”. O primeiro é o assédio moral, inequivocamente mais comum em qualquer ambiente profissional. No caso da academia, basta que qualquer professor, em público ou privado, manifeste uma atitude de reiterada diminuição e/ou humilhação de subalterno (aluno) ou colega para que a categoria se verifique. O segundo, menos comum, devido à própria natureza das coisas, requer um comportamento reiterado de avanço e importunação de conotação erótico/sexual com vista à obtenção de usufruto nessa área ou não, e passa-se, de modo geral, em privado.

Estes comportamentos, no mundo académico, estão sujeitos a mediação pela parte de duas autoridades. Primeiro, o estado de direito. Ambos são criminalizados em Portugal (embora apenas desde 2015), sujeitos a definições legais suficientemente flexíveis que permitam jurisprudência sensata e aplicam-se a qualquer comportamento desse género tido em qualquer desses ambientes. Segundo, as universidades, através de regras internas e códigos de conduta dos docentes; neste campo, podem aplicar-se normas diferentes, possivelmente mais específicas, quanto a interacções específicas entre professores, investigadores e alunos, e, caso exista violação de alguma delas que justifique suspensão ou cessação do contrato do profissional, trata-se de uma questão do direito do trabalho, que também se resolve em tribunais próprios.

Fora destes reinos, temos outra espécie de coisa: a opinião pública, a imprensa, e o mundo da discussão política. É aqui que cabem denúncias públicas feitas através de manifestos, artigos científicos, artigos de jornal, redes sociais, e tudo o resto. Estas denúncias, a priori, não configuram crime e só o configurariam se os denunciantes optassem por apresentar queixa judicial — dado que nenhuma das tipologias de assédio é um crime público. Ou seja, meramente publicar um artigo ou um manifesto não leva a qualquer investigação judicial. Neste campo, estamos completamente fora do âmbito do crime.

Porém, no campo das universidades, no que diz respeito às suas normas e códigos de conduta, denúncias públicas deste tipo podem levar à constituição de inquéritos internos, que podem tomar várias formas, e consequentemente a medidas disciplinares.

A primeira destas entidades, o estado de direito, está habilitada e tem vasta experiência na determinação do que constitui “assédio”. Aplica-se, como é natural, a presunção de inocência do acusado e o dever do acusador de apresentar prova. No inquérito policial — e, mais tarde, judicial, caso chegue à barra do tribunal — recolhem-se depoimentos de ambas as partes e afere-se a credibilidade de ambos, procurando contradições, verificando a coerência conforme outros comportamentos e testemunhos e contra-testemunhos, etc. No final, emerge uma sentença, sujeita a devidos recursos, e a questão transita em julgado para um juízo final, por muito imperfeito que seja.

As segundas destas entidades, as universidades e os seus procedimentos internos, não estão habilitadas de forma robusta a determinar as categorias de “assédio” acima referidas; e todo o procedimento é, apesar de inspirado e derivado do policial e judicial, claro e necessariamente muito mais arbitrário — dado que as universidades podem ter critérios completamente diferentes para aferir e podem nem sequer considerar que essa categoria é da sua responsabilidade — apesar de poderem existir, em particular para universidades que tenham fundos públicos, ou mesmo para todas, normas ministeriais que imponham obrigações nesta matéria. Em Portugal, a situação é de alheamento em geral nas universidades, no que diz respeito a regulamentos internos, salvo algumas excepções, e também de ausência de norma ministerial não só quanto a relações pessoais mas também de parentesco, enquanto que noutros países se passam situações diversas. Seja como for, qualquer litigioso entre docentes e investigadores e a universidade pode acabar no mesmo sítio já acima referido: no estado de direito, mais precisamente nos tribunais do trabalho.

Dito isto, os dois comportamentos referidos, assédio moral e assédio sexual, ocorrem tanto nas universidades como em qualquer ambiente profissional em específico ou social em geral. O primeiro é muito mais comum, como já afirmámos, e merece seguramente mecanismos mais claros de denúncia da parte das universidades. O segundo, felizmente mais raro, de igual modo os merece. Mas ambos não são práticas cuja descrição seja necessariamente inequívoca e que não abarque ambiguidades. No primeiro caso, determinado trato lectivo ou avaliativo mais exigente da parte de um docente pode ser confundido com assédio moral. No segundo caso, este entrecruza-se com dimensões das relações humanas de elevada complexidade. Com efeito, relações de amizade, amor ou mero erotismo, constituídas de modo geral pelo elemento fundamental do consentimento tácito ou explícito, podem ser confundidas, no mundo dos desentendimentos e desencontros que constitui o mundo das relações sociais humanas entre adultos, com comportamentos de avanço não solicitado e/ou não desejado de vertente erótico/amorosa, quer estejamos a falar de mero apetite ou de situações em que este se confunda com a relação profissional entre os participantes, no caso existindo um quid pro quo implícito ou explícito.

Explicadas que estão as complexidades destas situações, existem dois pontos centrais que convém clarificar. Um é se existe algum problema de princípio em que pessoas de diferentes hierarquias no mundo académico — ou em ambientes laborais em geral — tenham relações de amizade, amor ou erotismo, e, consequentemente, se é lícito existirem avanços explícitos ou sinais implícitos que pertençam a este reino. Outro ponto é se as definições de “assédio” que possuímos são suficientemente robustas, ou seja, se exigem reiteração de comportamento entre os mesmos participantes, avanços físicos ou meramente verbais, expressões explícitas ou implícitas de quid pro quo, ou se para a validade dessas mesmas definições é suficiente a mera sensação de desconforto de um dos participantes na situação.

Certamente os inquéritos policiais, os inquéritos judiciais e os inquéritos internos das universidades têm já arquivado material suficiente para ajudar a esclarecer estas questões e outras — tal como, estatisticamente, (1) quais e quantas situações denunciadas tinham viabilidade; (2) se não tinham, porque é que não tinham; (3) quantas surgem de desentendimentos; (4) quantas surgem de comportamentos inequivocamente autoritários; (5) qual a tipologia em termos de sexo, idade e posição hierárquica aplicável a cada um dos tipos de alegações de assédio; etc. É este material que nos pode ajudar a estabelecer quadros concretos e reais quanto à prevalência desse comportamento nas universidades em particular, já para não falar da sociedade em geral, como resolver e atenuar o problema, e se o quadro daí resultante nos deve levar a pensar sobre considerações subjectivas e colectivas que possamos ter na sociedade civil sobre a adequação ou não de figuras de diferentes hierarquias poderem entrar em relações de amizade, amor e erotismo, ou se a mera possibilidade de isso suceder está completamente posta de parte.

É nestes trâmites que a presente discussão sobre assédio nas universidades deve ser tida, e possivelmente em mais nenhuns outros.

O lugar da Filosofia da Ciência

Sobre o encerramento da unidade de investigação em filosofia da ciência da FCUL, onde se justifica porque foi tomada a decisão fácil e não a mais acertada. Co-autoria de Carla Feliciano e Gonçalo B. Martins.

Terminamos o ano a escrever este artigo de opinião, após o encerramento da unidade de investigação em filosofia da ciência, sediada na faculdade de ciências da Universidade de Lisboa. Tratou-se de uma decisão puramente administrativa (devido ao número insuficiente de investigadores e professores com vínculo à faculdade) mas perante este argumento oficial, havia pelo menos duas alternativas: (1) promover a possibilidade de vinculação de um número adequado de investigadores (provenientes do vasto e prolífico universo existente) mantendo a unidade de investigação ou (2) fechar efetivamente a unidade de investigação, porque, de acordo com os estatutos, o podiam fazer. Vamos então justificar porque achamos que foi tomada a decisão fácil e não a mais acertada.

É um facto que proeminentes figuras contemporâneas da ciência, como Steven Weinberg, Stephen Hawking e Neil de Grasse Tyson, expressaram de maneira eloquente as suas convicções de que a filosofia se revela mais prejudicial do que benéfica para a ciência; como também foi expresso que a filosofia estaria, de certo modo, morta (uma vez que muitas das suas questões fundamentais têm sido apropriadas pela física); ou ainda que a própria comunidade filosófica teria deixado de existir. Não pretendemos ressuscitar o debate entre a escola de Isócrates, que defendia uma educação prática, e a Academia de Platão, que se preocupava com questões gerais ou fundamentais. Também não alimentamos a veleidade narcísica de reconstruir a obra Protréptico, de Aristóteles – porquanto outros autores já o fizeram com enorme virtuosismo –, para assim tentar recuperar a defesa da filosofia perante acusações sobre a sua futilidade. Gostaríamos, apenas, que tivesse havido alguma clarividência perante uma argumentação que tem dois milénios e que ainda hoje toca nos pontos relevantes.

Todas as questões fundamentais que impulsionaram o desenvolvimento da ciência basearam-se, em preocupações teóricas e abstratas e não em problemas práticos. Seria inconcebível imaginar os trabalhos de Galileu sem o conhecimento que este adquiriu da noção platónica de uma ordem matemática ideal que subjaz às aparências. Newton, de forma inequívoca, reconheceu a sua dívida para com Demócrito, firmando-se em ideias que emergiram originalmente de motivações filosóficas, tais como as conceções de espaço vazio, atomismo e movimento retilíneo natural; ademais, a sua compreensão do espaço e do tempo deve-se muito ao seu diálogo com as ideias de Descartes. Vários avanços na Mecânica Quântica são atribuíveis às intuições de Heisenberg, que estava imerso na atmosfera filosófica neopositivista[1] da sua época. Esta mesma postura filosófica de restrição epistemológica levou Einstein, na sua Teoria da Relatividade Especial, a manifestar que a noção de simultaneidade poderia ser ilusória. Ademais, Einstein também reconheceu a considerável influência de outros filósofos como Leibniz, Berkeley e Schopenhauer para o seu pensamento e elaboração teórica.

Poderíamos citar muitos outros exemplos, inclusivamente na primeira pessoa, desse diálogo recíproco e frutífero entre a ciência e a filosofia. A filosofia oferece métodos essenciais para a geração de novas ideias, para a formulação de perspetivas inovadoras e para o desenvolvimento do pensamento crítico. A postura e também a formação filosófica fornecem algumas habilidades e ferramentas que os cientistas necessitam, mas que não fazendo parte de um percurso formativo em ciência, ficaram negligenciadas em prol de outras mais valorizáveis pela ciência contemporânea como a aplicabilidade e a geração de mais valias económicas; destacamos: a análise conceptual, a atenção à ambiguidade, a precisão na expressão, a capacidade de identificar lacunas em argumentos considerados sólidos, a criação de perspetivas ousadas, a identificação de fragilidades na construção de conceitos e a busca por explicações conceituais alternativas.

De maneira irónica e inesperada, quando alguém ou uma instituição nega a utilidade da filosofia, na verdade está, de forma tácita e desconsiderada, a fazer filosofia. Quando um cientista ou uma instituição, avalia os seus dados ou resultados científicos está, na realidade, a discutir os métodos da ciência, uma posição fundamentalmente filosófica. É isso que a filosofia da ciência faz, busca compreender como a ciência é realizada, se pode ser aprimorada na sua eficácia para conhecer a realidade. Acreditamos de forma justificada que todo o cientista, merecedor desse nome, reflete sobre sua própria metodologia. Pois, apenas esse tempo dedicado à reflexão sobre os métodos e as possibilidades da ciência contemporânea, o consegue levar a um melhor entendimento da forma como a ciência acede à realidade e quais as suas limitações. A nossa crença genuína no valor da ciência, leva-nos, inevitavelmente, de volta à filosofia, ao positivismo lógico e à sua total decadência por volta dos anos 1960 após as contribuições filosóficas de pensadores como Quine, Popper, Kuhn e Putnam.

As noções de falseabilidade e refutabilidade, assim como as revoluções científicas e mudanças de paradigma, estão presentes em toda a ciência, servindo como diretrizes para orientar investigações e avaliar resultados. O ceticismo sarcástico que emerge de alguns cientistas contemporâneos, dirigido à filosofia praticada em espaços académicos, nada mais é do que uma reiteração de um antigo slogan do Círculo de Viena, associado à sua postura anti metafísica. Assim, quando certos cientistas afirmam que a filosofia é infrutífera, estão, na sua essência, a aderir uma filosofia da ciência específica (o que não é errado, mas pode ser inadequado). O equívoco central desses cientistas reside na confusão entre uma compreensão da ciência (que é particular, contingente, limitada e historicamente contextualizada), e uma suposta lógica perpétua da ciência em si. A fraqueza dessa posição revela falta de consciência sobre a natureza histórica e mutável do conhecimento científico, que vê a ciência como um campo do conhecimento assente numa metodologia estanque e incontroversa, que perdura desde Francis Bacon até aos dias de hoje. Essa visão implica a crença perigosa de que o que um cientista deve fazer e como deve fazê-lo é indiscutível.

Um cientista pouco conhecedor de filosofia da ciência irá, de uma maneira simplista, definir a ciência como: uma dedução de leis gerais a partir da observação de fenómenos, ou a descoberta dos constituintes últimos da Natureza, ou a descrição de regularidades nas observações empíricas, ou o desenho de esquemas conceptuais provisórios para entender o mundo. Mas a ciência é tudo isto e, esperamos, muito mais. Não é um projeto com uma metodologia eterna, com objetivos delimitados ou uma estrutura conceptual fixa. Deverá ser um esforço que evolui para melhor compreender e explicar o mundo, e que, durante o seu desenvolvimento histórico, violou as suas próprias regras e assunções metodológicas.

A ciência não é apenas, como ensinam os currículos descuidados e incautos, a recolha de dados e a sua posterior compreensão na forma de teorias. Nesta imagem, os cientistas são seres puramente lógicos que usam uma linguagem específica, numa estrutura conceptual e cultural rígida e estabelecida. Mas as estruturas conceptuais também têm de evoluir. A ciência não é simplesmente um corpo crescente de informação empírica e uma correspondente sequência de teorias – é também a evolução da nossa própria estrutura conceptual; é a demanda contínua de uma estrutura conceptual melhorada para apreender a realidade, e atingir níveis progressivos de conhecimento. É essencial que, durante a sua formação, um cientista compreenda que a ciência tem vindo a redefinir continuamente seu entendimento sobre si mesma, sobre os seus métodos, ferramentas e objetivos e essa capacidade é o que faz dela um dos mais valiosos empreendimentos humanos. Somos melhores cientistas quando usamos ferramentas filosóficas assim como somos melhores filósofos da ciência se conhecermos a ciência a que nos dedicamos por dentro. Este entrelaçar entre aprendizagem e estruturas conceptuais, esta flexibilidade, e estas mudanças metodológicas e reajustes de objetivos desenvolveram-se num diálogo constante e fecundo entre ciência prática e reflexão filosófica. Daí que também a ciência tenha influenciado bastante, e de forma engrandecedora, o pensamento filosófico. Vão além do nosso entendimento os motivos pelos quais os filósofos da ciência não têm lugar na faculdade de ciências, estaremos a assistir a uma nova época de fechamento da ciência à filosofia ou será apenas uma manifestação miópica de poder selada com uma promessa vã de criação de equipas multidisciplinares selada num aperto de mão? Outrora, um aperto de mão teria simbolizado um compromisso firme, hoje talvez tenha sido seja só a nossa aceitação do poder. Esse é o motivo pelo qual estamos aqui a defender a causa de nós mesmos, cientistas e doutorandos em filosofia das ciências. Muitas são as coisas que ao longo dos tempos se nos têm imposto na tentativa de se tornarem “causas” válidas pelas quais lutar. Umas apresentaram-se-nos como verdades incontestáveis (em virtude de preceitos normativos estabelecidos), outras como bens morais (pois apoiam o que dizem ser uma causa legítima) outras intitulam-se genuínas (por estarem em conformidade com a essência da natureza); algumas surgiram até na forma de coação. Esta é a nossa causa, a causa que decidimos defender: o lugar da filosofia da ciência.


  1. O neopositivismo (também positivismo lógico) é uma corrente filosófica que surgiu no início do século XX e que se formalizou com a constituição do Círculo de Viena. Este movimento teve reconhecimento internacional e defendia a ideia de que o conhecimento se limita ao que é observável e verificável (pela observação direta ou pela prova lógica).


A Reconciliação Nacional e a Paz: Leituras Crítico-Filosóficas em Severino Ngoenha

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A RECONCILIAÇÃO NACIONAL E A PAZ: LEITURAS CRÍTICO-FILOSÓFICAS EM SEVERINO NGOENHA. Por: Ernesto António Mubango Hoguane[1] Resumo: O presente artigo filosófico debate sobre o seguinte tema: A Reconciliação Nacional e a Paz: Leituras Crítico-filosóficas em Severino Ngoenha. Assim, para desenvolver este tema o objectivo geral deste artigo é de fazer uma leitura crítico-filosófica sobre as reconciliações nacionais e a paz. Para a concretização deste objectivo geral, definimos os seguintes objectivos específicos, que são também a estrutura do presente artigo: apresentar uma resenha históricas sobre a conciliação e a busca da identidade moçambicana; discutir sobre os acordos de paz e a reconciliação nacional; debater sobre a democracia moçambicana ao obscuro-político e por fim propor a resistência, o consenso/comunhão/unidade enquanto critérios para pôr uma luz no fim do túnel-escuro-político. Ora, é verdade que Moçambique já conheceu vários acordos de paz e de reconciliação nacional, mas estes acordos de paz são rompidos com facilidade quando há descontentamento, principalmente, de uma parte, por causa da desonestidade e do egoísmo da outra parte. O rompimento destes acordos gerou sempre, violências, destruições, mas a parte que sempre sofre as consequências é o povo moçambicano, que vê roubado seu sonho, de um Moçambique de paz, de segurança, de estabilidade e de desenvolvimento. Estamos independentes já há quarenta e sete anos, mas ainda não conseguimos sair da lista dos países mais pobres do mundo, com tantos recursos humanos e minerais, para alavancar a nossa economia e erradicar a pobreza absoluta e em fim, alcançar a felicidade individual e colectiva e o conciliar-se da justiça social e das liberdades. Portanto, é urgente que acabemos com a corrupção – isso pressupõe que as instituições, principalmente as jurídicas e suas leis, comecem a agir com seriedade para punir severamente os infractores. Para tal, a questão de divisão de poderes deve ser uma realidade. Devemos também resistir as tentações e optar pelo diálogo, pelo consenso para resolver nossas diferenças e desentendimentos. Só assim, a nossa democracia terá um futuro e a paz duradoura e reconcliacao nacional (unidade nacional) poderiam ser um facto, uma realidade. Palavras-Chave: Democracia, Reconciliação, Paz, Resistência e Consenso

Introdução

O presente artigo se enquadra no ramo de filosofia, precisamente na ética política e na filosofia política. Assim, este artigo debate sobre um dos temas mais ardentes na ética política e filosofia política moçambicana, que é a questão da reconciliação nacional e a paz. Por isso que o tema é A Reconciliação Nacional e a Paz: Leituras Crítico-filosóficas em Severino Ngoenha. Por ter um número considerável de estudiosos políticos e filósofos moçambicanos que debatem sobre a questão da reconciliação nacional e da paz, vamos cingir nossas reflexões em volta de Severino Ngoenha.

O objectivo geral deste artigo é de fazer uma leitura crítico-filosófica sobre as reconciliações nacionais e a paz. Para a concretização deste objectivo geral, definimos os seguintes objectivos específicos, que são também a estrutura do presente artigo: apresentar uma resenha históricas sobre a conciliação e a busca da identidade moçambicana; discutir sobre os acordos de paz e a reconciliação nacional; debater sobre a democracia moçambicana ao obscuro-político e por fim propor a resistência, o consenso/comunhão/unidade enquanto critérios para pôr uma luz no fim do túnel-escuro-político.

Ora, Moçambique já conheceu vários acordos de paz e processos de reconciliação nacional. Mas apesar destes acordos todos, que são inconsistentes no sentido de serem muito sensíveis e quebráveis com facilidade quando há descontentamento (Renamo), de um lado, e desonestamente (Frelimo) por outro, nos interrogamos se não haverá mais um outro acordo depois das próximas eleições que se aproximam. Todavia, as interrogações mesmo do fundo, que são o substrato da nossa pesquisa, são as seguinte: Se era suposto que com a democracia, os valores como a justiça social e as liberdades, a tolerância fosse uma realidade para a vida dos moçambicanos (e não é), o que falhou/falha? O que faz com que Moçambique seja um palco de guerras, de violência constantes, insegurança, fomes em grande escala, com tantos intelectuais (em quase todas as areias de saber, com destaque internacional), recursos humanos e minerais? Quais poderiam ser os critérios para efetivação da verdadeira reconciliação enquanto moçambicanos e de paz duradoura?

Nós, defendemos que a uso de meios ilegais para beneficiar-se do bem público (corrupção), a intolerância política e a desonestidade, são a base do insucesso da nossa democracia. Porque quando os agentes e funcionários do Estado deixam de desempenhar com honra o serviço público e a nação moçambicana, e passa a servir-se do Estado e da nação para satisfazer vontades hedonistas individuais, mesmo que isso signifique passar por cima de todos, estamos numa babilônia (falta de ordem e confusão) cruel e assustador. Entretanto, é claro que a justiça social não vai encontrar espaço num caos político como o Estado moçambicano. A falta de justiça social priva também a existência de um Estado de direito, e consequentemente, põe em crise a democracia liberal e o respeitos direitos humanos, ofuscando assim as liberdades de uma nação.

Para a realização do presente trabalho, recorremos, numa primeira fase, ao método de levantamento bibliográfico, buscando livros que versem sobre o assunto em questão. Daí, socorremo-nos no método hermenêutico que consiste na leitura e interpretação dos textos, o desenvolvimento do trabalho.

1. Resenhas Históricas Sobre a Conciliação e a Busca da Identidade Moçambicana

A nossa história enquanto moçambicanos é, na sua maioria, de uma ausência quase que total de reconciliação (verdadeira) e paz duradoura. O primeiro passo dado para a consagração da reconciliação e da paz moçambicana, foi em mil e novecentos e noventa e quatro em Roma. Com este evento de suma importância para a vida de milhares de moçambicanos, emergia possibilidades de um novo universo-Moçambique, que não se encontrava mais sob a influência do socialismo decadente, mas entrava no mundo da democracia; governo do povo, para o povo e com o povo.

Este evento, abria espaço, para que pela primeira vez na história oficial moçambicana, o povo ocupasse um espaço de destaque na tomada da decisão daquilo que deve ser o Moçambique do presente e do futuro para o futuro dos moçambicanos. Dissemos pela primeira vez porque, como é impossível esquecer, só foi com a Constituição de 1990 (Multipartidária), que o povo moçambicano teve a oportunidade de escolher seus governantes, reivindicar seus direitos e deveres enquanto cidadãos.

Todavia, é preciso recordar, que a primeira conciliação dos moçambicanos deu-se na década de 1960, quando perceberam que só poderiam derrotar o sistema colonial conciliando-se, unindo os movimentos nacionalistas para a formação de uma só frente. Ou seja, como escreve Ronguane (s/d., 19)[2] que é de UDENAMO (União Democrática Nacional de Moçambique, fundada em 1960 na Rodésia do Sul, em Bulawayo, actual Zimbabwé, liderado por Adelino Gwambe, Urias Simango e Mabunde); de UNAMI (União Africana de Moçambique Independente, fundado por Baltazar Chagonga, no Malawi em 1961) e de MANU (Mozambique African National Union, fundada em 1954 por Mateus Mole e Malinga na região dos britânicos, hoje Tanzânia) que surgiu, em 1962 a partir da Tanzânia (Dar-es-Salam) a FRELIMO, enquanto um movimento que conseguiria dar conta do sistema colonial para garantir a independência e a consequente paz dos moçambicanos.

Pela história contemporânea de Moçambique, somos narrados que o arquiteto desta primeira conciliação dos moçambicanos para lutar contra a opressão e da ausência da paz, foi Eduardo Mondlane.[3] A grande novidade que Mondlane e outros intelectuais nacionalistas moçambicanos descobriram e trouxeram no primeiro congresso realizado em 1962, foi de que a divisão entre os moçambicanos e seus movimentos nacionalistas, era o factor determinante para o insucesso na luta contra o colonialismo, contra a opressão, contra a humilhação e pela busca de uma identidade e da consequente paz e liberdades.

É pertinente interrogarmo-nos se não são as divisões entre os moçambicanos do presente, que está por detrás da fragilidade da nossa democracia e do nosso Estado. Estamos lutando, desde a independência, proclamada em 1975, com o mesmos inimigos de sempre: a fome, a insegurança, a violência, o tribalismo, o racismo, a instabilidade (guerras, acordos de paz, seguidos de guerras e novos acordos de paz…). Nos parece, ser uma oportunidade de revisitarmos o debate do primeiro congresso da FRELIMO, porque nos deparamos hoje, com o mesmo problema enquanto moçambicanos, que estava no centro de debate: A questão da divisão.

Dissemos isso porque, é verdade que havia lutas internas no seio da FRELIMO durante a guerra de libertação, mas sabia-se definir prioridades, quer dizer, as ambições, veleidades egoístas não gritavam mais que aquilo que a colectividade da frente buscava: a independência e a paz dos moçambicanos. De facto, é também verdade que estas lutas internas e tribais estão por detrás da morte de Mondlane, que até hoje sabemos, que nada sabemos, sobre o que verdadeiramente teria matado Mondlane.

Essas lutas internas e divisões se estendem até hoje. É por isso que na sua tese de doutoramento citado por Ngeonha, Ronguane escreve que mesmo com a morte de Eduardo Mondlane em 1969, a luta pelo poder não sessou entre os representantes da FRELIMO. Apesar de a linha Socialista assumir que com a morte de Mondlane e a expulsão do Uria Simango, e a consequente subida de Samora Machel no poder, já reinava o espirito de fraternidade no seio da frente[4]. Porque Mondlane defendia que um Moçambique independente só seria governável e funcional através de sistema federalista. Esta ideia entrava em choque com a visão de um Moçambique socialista defendido por Marcelino dos Santos.

É esta aderência ao socialismo que estará por detrás da guerra civil. Porque o socialismo fecha-se a existência de outros partidos políticos, quer dizer, não abre espaço para possibilidade da existência de governo de oposição, da liberdade de expressão e da imprensa, a descentralização de poder político etc. Então, a RENAMO vai surgir para contrariar toda a ideologia da FRELIMO enquanto um partido político, colocando assim, em crise a primeira conciliação de 1962, a paz e a independência de Moçambique. Por causa disso, os moçambicanos viram-se mergulhados na guerra civil que durou dezesseis anos. Isto é, um ano depois que se proclamou a independência no estádio da Machava (1975) até a assinatura do Acordo Geral da Paz (1992).

2. Dos Acordos (de Paz [1992], de Cessão das Hostilidades [2013], de Paz Definitiva [2019]) à Reconciliação Nacional

Roma simboliza para a história oficial de Moçambique, o palco da primeira reconciliação. Porque é onde realizou-se o sonho de todos os moçambicanos que testemunharam o gritar das armas e bazucas no longo período de tempo que durou uma década e seis anos. É inegável o facto de que todos os moçambicanos sonhavam, desde mil e novecentos e setenta e oito (1976), com um Moçambique sem mais conflitos, externos e internos, porque já se havia sofrido bastante com a guerra de libertação ou contra a ideologia colonial que, como qualquer outra guerra, destrói o tecido social (escolas, hospitais, casas etc.), aumenta o custo de vida, que mesmo sem guerra já era precária. É chocante como ainda hoje não superamos os problemas da vida precária e fome.

Então a guerra contra o colonialismo só agravou ainda mais a vida dos moçambicanos que já era em si mesma grave, e continua sendo até hoje; como também gerou violência promovendo assim a guerra de todos contra todos no dizer de Hobbs. Entretanto, foi em Roma, do dia 04 de Outubro de 1992 que os inimigos (representante da FRELIMO e RENAMO) se abraçaram e dividiram a mesa para um debate reconciliador.

Todavia, a verdade é que a reconciliação fracassou, porque ainda hoje se fala do Desarmamento, Desmobiliada e Reintegração (DDR), das forças militares da Renamo na Polícia da República Moçambique e nas forças de defesa moçambicana; ainda hoje, assistimos a falta de transparência nos processos eleitorais; violências, intolerâncias (política), esbanjamento de fundos para as campanhas eleitorais, etc…. Isso fez com que Ngoenha escrevesse que,

Os processos contraditórios e violentos que vivemos nas últimas décadas – regada de muitas mortes e de muito sangue, quer durante a guerra de libertação nacional, quer durante a guerra dos quinze anos[5], nas hostilidades recentes, no interior de mesmo dos partidos como aconteceu na África do Sul, talvez requeriam um processo de reconciliação mais substancial e abrangente do que o processo pontual de que Joaquim Chissano é hoje o palco, como antes fora Roma.[6]

O fracasso dos Acordos Gerais de Paz e da reconciliação verificou-se e tornou-se mais evidente, em parte, quando A. Dhlakama regrou às matas de Gorongosa, em 2012 e começou a atacar, principalmente em 2013, as instituições públicas (esquadras de polícias) no centro do pais, na província de Sofala (Beira), gerando mortes de civis. Ora, estes ataques levam, uma vez mais a assinatura de Acordo Para a Cessão das Hostilidades no dia 05 de Setembro de 2013. Neste período, os autores foram o antigo presidente da república Armando Guebuza e o falecido Presidente da Renamo, Afonso Dhlakama.

Como aconteceu desde as primeiras eleições presidenciais em Moçambique, a Frelimo sempre ganha a maior percentagem, e a Renamo alega não ter havido transparência no processo o que condiciona a manipulação dos votos favorecendo assim, a Frelimo. A questão de roubo de votos e da consequente perda do partido Renamo; a luta de sucessão no seio de Renamo após a morte de Dhlakama em 2019, estão por detrás de um lado, regresso à violências e às hostilidades militares, por outro lado.

O partido Renamo nunca aceitou ter perdido as eleições de forma legítima e transparente. Estes eventos levaram novamente, os dois partidos a assinarem um outro novo e terceiro acordo de paz em Agosto de 2019. Este novo acordo ficou conhecido como sendo o Acordo de Paz Definitiva e Reconciliação Nacional. Será mesmo paz definitiva?

Portanto, destes acordos todos de reconciliações e paz, que são inconsistentes no sentido de serem muito sensíveis e quebráveis com facilidade quando há descontentamento (Renamo), de um lado, e desonestamente (Frelimo) por outro lado, nos interrogamos se não haverá mais um outro acordo depois das próximas eleições que se aproximam.

Todavia, as interrogações mesmo do fundo, que é o substrato da nossa pesquisa, são as seguinte: Se era suposto que com a democracia, os valores como a justiça social e as liberdades, a tolerância fosse uma realidade para a vida dos moçambicanos (e não é), o que falhou/falha? O que faz com que Moçambique seja um palco de guerras, de violência constantes, insegurança, fomes em grande escala, com tantos intelectuais (em quase todas as areias de saber, com destaque internacional), recursos humanos e minerais? Quais poderiam ser os critérios para efetivação da verdadeira reconciliação enquanto moçambicanos e de paz duradoura?

3. Da Democracia Moçambicana ao Obscuro-Político

Os primeiros acordos gerais da paz, deram início, como afirmamos, a Segunda República. Assim, a segunda republica, consubstanciada pela Constituição de 1990, seguiu, o que estava em falta na primeira república, que é o caminho do liberalismo para a busca das liberdades (e até da felicidade colectiva, parafraseando Ernesto Hoguane). Ora, isso abriu espaço para as possibilidades de participação mais activa de diferentes actores políticos e econômicos na vida social dos moçambicanos. Mas, Ngoenha e Castiano sustentam que este caminho seguido para a busca das liberdades, foi trilhado deixado para atrás um valor que foi determinante na primeira república: a justiça (política, social e económica).[7]

Todavia, os autores acrescentam que quando defendem apesar de por um lado, termos ganho enquanto moçambicanos, a guerra de libertação e a consequente proclamação da independência, por outro lado a de dezesseis anos, que apesar dos acordos gerais de paz (entre a Frelimo e Renamo) para o fim do gritar das armas, nenhum destes dois actores saiu victorioso. Muito pelo contrário, ela (a guerra dos 16 anos) foi uma derrota gigantesca para todos os moçambicanos que viram morrer muitos pais, mães e irmãos, viram destruídas muitas das suas infra-estruturas e criou-se animosidades entre comunidades. Portanto, a grande a questão por agora é saber quem foi que ganhou com o derrame do sangue dos moçambicanos.[8]

Se é verdade que nem a Renamo, nem a Frelimo e muito menos o povo moçambicanos ganhou com a guerra “civil”, então é legitimo assumirmos que fomos usados de instrumentos para, nós moçambicanos e o nosso território, travarmos a guerra dos outros. É por isso que Ngoenha no seu livro “Resistir ao Abadon” escreve que

O nosso território era o espaço, nós, instrumentos de confrontação ideológico-militar. A luta que não podiam travar directamente as grandes potências, devido ao equilíbrio maléfico da posse de armas nucleares, faziam-na de maneira interposta, e nós éramos um dos palcos dessa confrontação. Foi a isto que chamaram guerra fria, que, na verdade, era quente para os condenados da terra: que vão da Argélia à Correia, do Médio Oriente à América Latina.[9]

Olhando nesta perspectiva, não precisamos de lupa para ver que de facto os vitoriosos da guerra “civil” moçambicana foram os capitalistas. Porque, com o fim da história (Fukuyama), o socialismo e a União Soviética mostravam-se derrotados pelo capitalismo e pela democracia liberal. Como sabemos, Fukuyama concebeu o fim da história como a implementação da Democracia Liberal, que nos levará a uma direcção dos princípios de liberdade e igualdade em que ela se baseia.[10]

Por isso mesmo que Ngoenha e Castiano escrevem que depois dos Acordos Gerais de Paz, encobrimos o ultra-liberalismo (neoliberalismo) que nos foi imposto pelos ganhadores, com a cumplicidade de indivíduos cooptados, com a máscara da democracia. Por causa disso, o dinheiro foi transformado, no nosso país, em totem e impôs o na sociedade o indivíduo-cabrito, indivíduo que não se contenta de comer o capim onde está amarrado (ou trabalha), mas arrebenta a corda para comer o capim dos demais (dinheiro do povo)[11].

Entretanto, além de enveredarmos na verdadeira democracia, o Estado ficou “dólar-crático”. Quer isto dizer que tudo se faz agora em função do dinheiro, do rendimento e das mordomias. O funcionário do Estado transformou-se, de um servidor público para o servidor de si mesmo, instrumentalizando o privilégio que o seu lugar lhe concebe. Por isso mesmo que os funcionários do Estado (e até das instituições privadas), não servem mais, mas servem-se, tanto do Estado e das instituições privadas para satisfazerem suas sedes egoístas e hedonistas. Já não há honra, virtudes no trabalho. Isso tem uma consequência muito grave: rouba e mina a felicidade colectiva dos moçambicanos. É por isso que Hoguane escreve que

os moçambicanos procuraram, e continuam/procurando a felicidade, não somente para cada indivíduo na sua esfera particular, mas também para toda a sociedade, na sua esfera geral. Isto é, uma teorização de uma sociedade feliz. Porém, os seus esforços, com muita frequência, são frustrados quando, na mesma sociedade, brotam os elementos que impossibilitam a felicidade: o caso da pobreza absoluta, resultado de um “modelo de felicidade parasita e caduca, que é a corrupção.[12]

O patriotismo está em crise. E a educação (ético-moral) que poderia contribuir bastante no inculcar nos jovens valores patrióticos: honestidade, honra, altruísmo, abnegação, respeito e amor pelo trabalho e pelo bem público, v­ê-se marginalizada pelo governo, que vergonhosamente trouxe recentemente, ao público livros com erros gravíssimos de conteúdo, não só sobre a geografia moçambicana (um dado relevante para o conhecimento do espaço com fronteiras chamado Moçambique), mas também sobre a história oficial moçambicana.

Apesar de ser uma história (oficial-mentirosa, em alguns casos), é através dela que representamo-nos e narramos para os outros. Então, de uma história oficial-mentirosa em certos casos, as nossas crianças receberam mais uma mentira e mais grave ainda. A questão que não quer calar agora é a seguinte: o que vem depois? Interrogamo-nos seriamente.

Ademais, a questão da pobreza absoluta e de custo de vida não para de aumentar,

Apesar do famoso crescimento econômico e dos índices do PNB, a situação das populações piora, a qualidade do ensino piora. Aos jovens dá-se a consumir uma cultura feita de telenovelas e de slogans tipo 2M nossa tradição, nossa cultura” ou então “a nossa cerveja”, a nossa maneira de ser e de estar. O tratamento nos hospitais depende de dólares, a boa escola custa caro, todas as coisas a que as populações de baixo não se podem permitir. Isso põe problema enorme de justiça, a nível distributiva e a nível de sanção jurídica.[13]

De facto, é inquestionável a verdade de que o povo moçambicano sofre no seu quotidiano com o custo de vida, apesar do crescimento econômico que tanto se fala. Não conseguimos sair da lista dos países mais pobres do mundo, apesar da existência, no nosso país, de recursos naturais de grande valor, que aliás, outros ainda estão a ser descobertos, principalmente nas zonas centro e norte. Sem esquecer a fertilidade das terras de Gaza, no sul do país; a carne bovina e fresca no distrito de Magude…

A questão da corrupção lesa e arruína a nossa pátria amada. É assustador assumirmos que ela encontrou seu ponto mais elevado quando se fez a dívida externa e não declarada em nome do pública, não para sustentar a vida, anseios e as necessidades dos moçambicanos, mas para satisfazer as “necessidades” de um pequeno grupo de indivíduos, incluindo o presidente da república. O desvio de bens públicos coloca em crise três ou quatro instituições que são fundamentais e pilares para a garantia de condições mínimas de segurança, de conhecimento, de saúde e do desenvolvimento de um país qualquer que seja. Estamos falando da polícia e da justiça, da escola e da educação, dos hospitais e da economia moçambicana para o desenvolvimento.

Todavia, são os funcionários destas instituições todas, e quase todas as instituições governamentais, que se mostram em crise porque ao invés de os seus funcionários prestarem serviço com dignidade e honra ao povo moçambicano, servem-se da fragilidade e da ansiedade do povo para sugarem o pouco dinheiro, que aliás, é obtido com um trabalho duro e quase que desumano, porque são raras as situações em que trabalhares informais (a maioria do moçambicanos), são tratados com dignidade e humanidade pelos seus empregadores; eles veem seus direitos serem pisoteados e suas liberdades ofuscadas. Os que deveriam proteger-nos, são os primeiros a incentivarem a insegurança, a violência (física e psíquica) e a corrupção.

Não há mais atendimento condigno nos hospitais sem dinheiro para subornar os funcionários; não há passagem por merecimento e crescimento intelectual-pedagógica nas escolas, se não é pelo dinheiro. Quer dizer que o aluno mais pior e indisciplinado da sala, consegue transitar para outra classe, basta ter dinheiro para subornar o professor. O pior é que o mais esforçado e com aproveitamento pedagógico significativo pode correr o risco de reprovar, em certos casos, se não suborna o seu professor. É assustador pensar que os indisciplinados da sala tornar-se-ão futuros médicos (mais grave ainda cirurgiões cardíacos), professores, juízes e até nossos governantes.

Ao discutir sobre “créditos ocultos na luz de reflexões sobre a justiça” Thomas Kesserling (2019) escreve que “no Moçambique, todo o dia morrem 80 bebes à nascença, 29’200 por ano. Uma das causas é que muitas mães não ousam a ir no hospital e preferem dar à luz ao bebe em casa. A causa de evitar o hospital é que muitas vezes mulheres grávidas que não pagam subornos ficam sem serviços.”[14]

Não há queixas que são levadas a sérios nas esquadras da polícia pública, se não suborna os oficiais da lei e da ordem. É paradoxal pois que os oficiais da lei e ordem são os promotores do incumprimento da lei e da desordem. Basta pensar no número de motoristas sem habilitação nas estradas e avenidas da cidade, sem falar das províncias; impunidades para os infractores; prisões injustificadas, tráfico de drogas e roubos, sequestros ou crimes organizados, etc.

Entretanto, o Estado está ausente na vida dos Moçambicanos. Por isso que estamos testemunhando um “obscuro-político”. Porque, se pela etimologia a política significa a arte de administrar, ou seja, ciência da organização, direcção e administração de nações ou Estado, então nós estamos em um momento em que a política representa o contrário daquilo que é e deve ser. Não há claridade, não há luz na administração política moçambicana. Não há projectos claros para o do desenvolvimento do Estado, no sector da educação, da economia, da saúde, da segurança, etc. Sem falar do pouco ou quase nenhum investimento, para a desenvolver tais áreas. O que há na verdade, são estratégias para desviar fundos públicos e agravar ainda mais o custo de vida dos moçambicanos.

um dos primeiros sinais da ausência do Estado foi dado quando as populações começaram a fazer justiça com as próprias mãos. Muitas vezes queimava-se um miúdo que roubara para comer, quando funcionários do Estado e outros desviam coisas muito mais consistentes. […] Esta violência social, porque é disto que se trata, tem quer sr analisada em todos os seus parâmetros.[15]

Conclui Ngoenha que no mesmo momento que o número e a qualidade de carros e casas de luxo aumenta na cidade, as viagens para compras na RSA, na Suazilândia e até para Portugal aumentam, assistimos também um número crescente de doentes que morrem de malária devido à falta de medicamentos. Nós acrescentamos o número assustador de vítimas de Covid-19. Porque a Covid-19, trouxe à tona a discrepância existente sobre as desigualdades sociais em Moçambique. Aqueles que não tinham condições para pagar clinicas privadas e hospitais de RSA (a maioria do povo moçambicano), viram seus entes queridos mortos sem um último abraço ou voz de despedida. Sem falar de fomes, porque com a Covid-19 muitos empregados viram-se despedidos dos seus sectores de trabalhos que eram através deles que conseguiram colocar o pão na mesa.

É verdade que o nosso governo recebeu apoio da comunidade internacional, para distribuir e garantir condições mínimas de sobrevivência a nação moçambicana no período da pandemia, mas poucos receberam. Mesmo os que tiveram a sorte de receber, foi de uma forma desigual e injusta. Não havia critérios claros para a distribuição dos fundos, só alguns bairros receberam. E os outros? De que deveriam viver? Isto evidencia o “obscuro-político” de que estamos falando. Não há claridade na forma de administrar e na gerencia do nosso Estado. Entretanto, estes eventos todos ferem os princípios da justiça defendidos por Rawls.

Recordemos. A teoria de justiça de John Rawls baseia-se em dois princípios fundamentais que são acordados na posição original.[16] Designadamente: o princípio de liberdade e de igualdade. Ele estava convicto de que estes princípios seriam aceites por qualquer pessoa racional.

Primeiro princípio: cada pessoa deve ter um direito igual ao mais abrangente sistema de liberdades básicas iguais que seja compatível com um sistema semelhante de liberdades para outras. Segundo princípio: as desigualdades sociais e económicas devem ser ordenadas de tal modo que ao mesmo tempo (a) consideradas como vantajosas para todos dentro dos limites do razoável e (b) vinculadas à posições acessíveis a todos (RAWLS, 2000: 64).

Como se pode notar, o primeiro princípio diz respeito a liberdade. Ora, todas as pessoas deveriam ter o direito a uma margem de liberdades básicas que em nenhum momento pudessem ser tiradas delas, isto é, o princípio de liberdade garante a cada pessoa o mesmo direito a um conjunto de liberdades básicas compatível com igual garantia para todos, ou seja, entre as pessoas deve vigorar os direitos humanos fundamentais, tais como o direito de reunião, de opinião, como a liberdade de crença, de voto e a ampla liberdade de expressão… A pergunta agora é: Esses direitos defendidos por Rawls, principalmente a ampla liberdade de expressão, nós temos? Onde estão, por exemplo Carlos Cardoso e Siba-Siba Macuacua?

Ademais, o segundo princípio de Rawls é o princípio da diferença, trata da igualdade – este princípio divide-se em duas partes: a primeira parte afirma que as desigualdades sociais e económicas devem ser tais que nos limites de um justo princípio de poupança garanta uma maior vantagem aos mais desfavorecidos; a segunda parte do segundo princípio diz que as desigualdades sociais e económicas devem ser tais que sejam ligadas a cargos e posições acessíveis a todos em função de uma justa igualdade de oportunidades. Este princípio admite a desigualdade nos encargos públicos e nas vantagens, porém a oportunidade deve ser igual para todos.[17] (Para nossa realidade, são raras as promoções, contrações por merecimento. Aqui, as vagas de empregos são vendidas a preços assustadores, as promoções ferem o estatuto de agentes e funcionários de Estados moçambicano).

Ou ainda, a sociedade deveria ser organizada para dar oportunidades e riquezas mais iguais para os mais desprovidos. Se as pessoas recebessem diferentes quantidades de dinheiro, essa desigualdade só seria aceite se ajudasse directamente os que mais precisavam. “A existência dos desfavorecidos é um facto; e os factos não são nem justos nem injustos. Mas, precisa Rawls, aquilo que é justo e aquilo que é injusto é o modo com que as instituições tratam esses factos.”[18]

Deste modo, os princípios da justiça não são porém o resultado de uma investigação teórica, são objecto de um contracto original, pelos princípios que resultam deste acordo, onde os homens devem decidir previamente as regras pelas quais vão arbitrar suas reivindicações mútuas e definir a carta fundadora da sociedade.

Para nossa triste realidade, nunca existiu um contracto político através do qual os governantes e os governados esbocelariam e decidiriam os critérios, as regras e regras através das quais a sociedade moçambicana seria guiada e administrada. Não houve debate profundo sobre o que deve ser o Moçambique de hoje e do amanhã. É por isso que Ngonha escreve que a particpacao do povo na coisa pública e na tomada das decisões sobre o futuro do país é sempre passiva e não activa. Por isso mesmo que ele diz que “estávamos lá para realizar a vontade dos outros. Éramos instrumentos nas mãos dos que tinham o direito de programar, querer escolher o seu próprio futuro; o nosso futuro definia-se em função do futuro deles”.[19]

4. A Resistência, o Consenso/Comunhão/Unidade e a Luz no Fim do Túnel-Escuro-Político

O obscurantismo político em Moçambique, pode ser superado, além destes três critérios, a resistência, o consenso e a comunhão/unidade, através do respeito pelos princípios da democracia (tolerância, separação de poderes e justiça) que Ngonha apresenta no seu livro “Os Tempos da Filosofia (2004) ”, quando fala da democracia representativa.

Para Ngonha, “o princípio da tolerância obriga o Estado a assegurar sobre o seu solo a expressão livre de crenças politicas, filosóficas, religiosas, na condição de que que estas não atentam a ordem pública.”[20] Isto significa que os funcionários de Estado não devem ser obrigados, principalmente no período eleitoral, a votarem um certo partido para garantirem a permanência na função pública. Mas devem, seguir sempre a voz das suas consciências para exercer, com liberdade e responsabilidade, os seus direitos cívicos. Portanto, “os limites da tolerância são a violência física e a injustiça social.”[21] Nisto, a tolerância é intolerante.

No tocante ao segundo princípio da democracia, Ngoenha escreve que não deve haver influência nos três poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário). Quer dizer isto que não deve ser as mesmas pessoas (amigos e familiares) ou membros porque este princípio tem por objectivo instaurar o Estado de direito, ou seja, proteger o cidadão contra os abusos.[22] No entanto, é dessa independência de poder que precisamos no nosso Estado, para que a democracia e o Estado de direito sejam um facto.

O último princípio democrático, apresentado por Ngoenha, é o de justiça. Isso significa dizer, para o autor, que uma democracia formal, não se pode contentar em ser uma democracia formal e cega (como é o caso de Moçambique) às desigualdades e injustiças materiais entre os membros da sociedade, mas ela deve visar um objectivo concreto, que é a justiça social.

Contudo, a reconciliação nacional e paz, e o avanço da democracia só são possíveis se resistirmos a tentações do poder politico. Dissemos isso porque na nossa sociedade moçambicana, onde a miséria é a tónica dominante, existe um pequeno número dentro da sociedade que tem meios exorbitantes.[23] O frustrante é que esses meios não foram ou são obtidos de forma justa, quer dizer, através do trabalho justo, mas através do roubo, do desvio e das burlas…

Entretanto, no Resistir ao Abadon, Ngoenha[24] escreve que debater sobre a resistência é já denunciar a crise existente no nosso viver-juntos e na nossa pequena democracia. Existem argumentos que atestam a deslegitimação radical da nossa democracia e obrigam a acções de resistência, como são os exemplo já citados de dólar – cracia da política, a corrupção em grande escala, a ausência total de mecanismos de controlo do poder por parte dos cidadãos, certa vulnerabilidade dos cidadãos para fazerem as escolhas fundamentais, a manipulação das percepções colectivas, a falta de ofertas políticas alternativas. Devemos resistir a estas barbaridades todas enquanto moçambicanos e fazer o contrário, trabalhar com todas as forças para a permanência da moçambicanidade enquanto um valor.

Todavia, para tal resistência (nacional) dar certo, é preciso que tracemos um grande consenso de um viver-juntos. Isto significa que devemos esboçar os princípios axiológicos que nos devem orientar como sociedade e Estado. Assim, no caso de uma comunidade política e do Estado de direito, o consenso tem também a ver com regras bem definidas, isto é, clareza das formas lícitas de participação no debate político, separação dos poderes, separação entre partidos e Estado.[25]

Por isso mesmo, que o debate, deve ser a “palavra” de ordem para qualquer que seja a natureza do nosso problema como moçambicanos. As nossas reconciliações constantes de paz e liberdade, devem ser sempre regadas pelo diálogo. Por isso mesmo que o diálogo é essencialmente pôr em comum um sentido. Pôr em comum o que ainda não é, a partir do que já é, constatar as divergências com base no que já tornou-se comum: a questão da pertença ao mesmo país chamado Moçambique, a existência de uma certa moçambicanidade apesar da diferenciação étnica em certos casos, a existência de uma história comum e o do desejo comum de reconciliação, da paz e das liberdades.[26]

Conclusão

Realizado o presente artigo, chegamos a conclusão de que a reconciliação nacional e a paz, só serão uma realidade em Moçambique, se conseguirmos resistir às tentações (políticas) e veleidades egoístas. Porque a desonestidade e o desvio de bens públicos, roubo de votos, etc., levam-nos de volta às matas e a destruição de tecidos sociais, agravando assim, cada vez mais, o custo de vida do povo moçambicano. Isto significa, que devemos sempre optar pelo diálogo para a resolução dos nossos problemas.

Devemos pôr em comum o que ainda não é, a partir do que já é, constatar as divergências com base no que já tornou-se comum: a questão da pertença ao mesmo país chamado Moçambique, a existência de uma certa moçambicanidade apesar da diferenciação étnica em certos casos, a existência de uma história comum e o desejo comum de reconciliação, da paz e das liberdades.

Agindo deste modo, poderíamos até conseguir conciliar, não só os moçambicanos (unidade nacional), mas os valores que devem ser o substracto de uma moçambicanidade. A questão da justiça social e das liberdades. Porque, apesar de quarenta e sente anos de independência hoje, ainda não conseguimos conciliar e colocar em marcha estes dois valores.

Ora, significa que os valores moçambicanos devem ser de novo contar com as próprias forças, o amor pelo trabalho, o direito à escola, à educação, à saúde. Deve voltar a ser um facto de que somos socialmente responsáveis uns pelos outros; a luta deve ser contra todas formas de discriminação, quer são na base da raça, da etnia, da tribo, da região de origem, etc. Estar ao serviço do nosso povo deve voltar a ser um valor; participar na construção de Moçambique através do trabalho e dedicação deve ser um valor. Estes valores devem constituir o essencial daquilo que é e deve ser o Estado. Esta é a maneira através da qual o Estado deve estar ao serviço da nação moçambicana.

Bibliografia

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Maputo, Ed. Paulistas – África, 1993.

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__________________. Terceira Questão: Que leitura se pode fazer das recentes eleições

Presidenciais e legislativas? Maputo, Ed. Publifix, 2015.

__________________. Resistir a Abadon. Maputo, Ed. Paulinas, 2017.

NGEONHA, S. & CASTIANO, J. MANIFESTO: Por Uma Terceira Via. Maputo, Ed. Real

Design, 2019.

__________________. MONDLANE: Regresso ao Futuro. Maputo, Ed. Real Design, 2020.

NGOENHA, S. & CASTIANO, J. Pensamento Engajado: Ensaios Sobre Filosofia Africana,

Educação E Cultura Política. Maputo, Ed. Editora EDUCAR, Universidade Pedagógica, 2011.

FUKUYAMA, Francis. O fim da história e o último homem. 4ª ed., Lisboa, Ed. Gradiva, 2011.

HOGUANE, Ernesto. Em Busca da Felicidade Perdida: Da Felicidade Individual à Felicidade

Colectiva. 2a ed., Maputo, Ed. Novas Edições Académicas, 2021.

KESSERLING, Thomas. Os créditos ocultos na luz das reflexões sobre a justiça. In. Ngoenha,

et. al. [in]justiça: terceiro Grande Consenso Moçambicano. Maputo, Ed. REAL DESIGN, 2019.

RAWLS, John. Uma Teoria da Justiça. 2aed., São Paulo, Ed. Martins Fontes, 2002.

REALE, Giovane & ANTISERI; Dário. História de Filosofia: de Freud à actualidade, V.7,

São Paulo, Ed. PAULUS, 2006.

  1. Ernesto António Mubango Hoguane, frequenta o Mestrado em Ética e Filosofia Política na Universidade do Porto (Portugal). É Licenciado em Ensino de Filosofia com Habilitações em Ética pela Universidade Pedagógica de Maputo (Moçambique). Professor de Filosofia e Ética, Pesquisador de Filosofia Africana afeto ao Grupo de Estudos de Filosofia Africana e Relações de Género coordenada pelo Professor Catedrático José P. Castiano no Departamento dos Estudos Filosóficos e Culturais da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia da Universidade Pedagógica de Maputo. Pesquisador no Instituto Filosófico da Universidade do Porto em Philosophy Public Space.

    Autor da obra Em busca da Felicidade Perdida: Da Felicidade Individual à Felicidade Colectiva, pela editora moçambicana Inter Escolas Editores publicada em 2021. Vários artigos publicados em revistas científicas e jornais de opinião.E-mail: netohoguane@hotmail.com


  2. Cf. Ronguane, S/d., 19.
  3. Cf. Ngoenha, 2020: 59.
  4. Cf. Ronguane apud Ngoenha, 2020: 130.
  5. Quer dizer dos dezesseis anos, porque começou em 1976 e terminou, oficialmente em 1992.
  6. Ngoenha, 2015: 102.
  7. Cf. Ngoenha e Castiano, 2019: 53.
  8. Cf. Ibidem, 54.
  9. Ngoenha, 2017: 122.
  10. Cf. Fukuyama, 2011.
  11. Cf. Ngoenha e Castiano, 2019: 54.
  12. Hoguane, 2021: 119.
  13. Ngoenha, 2004: 101.
  14. Kesserling, 2019: 203.
  15. Ngoenha, 2004: 102.
  16. A posição original é o status quo inicial apropriado para assegurar que os consensos básicos neles estabelecidos sejam equitativos (RAWLS, 2002: 19). Esta ideia de posição original está em íntima conexão com a teoria do contrato social, isto é, Rawls utilizou uma versão mais geral e abstracta da ideia do contrato social usando para isso a ideia da posição original. Ele deixou claro que a posição original é uma realidade puramente hipotética.
  17. Cf. Rawls, 2002: 65.
  18. RealeeE Antiseri, 2006: 240.
  19. Ngoenha, 1993: 10.
  20. Ngoenha, 2004: 120.
  21. Ngoenha e Castiano, 2011: 63.
  22. Ngoenha, 2004: 120.
  23. Cf. Ibidem, 50.
  24. Cf. Ngoenha, 2019: 110-111.
  25. Cf. Ngoenha, 2013: 157.
  26. Cf. Ibid., 168.

Crítica: Porcos Fascistas — Organismos Tecnocientíficos e a História do Fascismo, Tiago Saraiva

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«Porcos Fascistas-Organismos Tecnocientíficos e a História do Fascismo» de Tiago Saraiva, Dafne Editora, 2022, 335 p., ISBN 978-989-8217-56-1. Por José Braga – Centro Interuniversitário de História da Ciência e da Tecnologia, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

«Fascist Pigs: Technoscientific Organisms and the History of Fascism» (MIT Press, 2016) da autoria de Tiago Saraiva, atualmente professor na Drexel University (Filadélfia), conheceu o sucesso a nível internacional e é agora traduzido, com grande qualidade, para a nossa língua. Assente nas preocupações de Georges Canguilhem e Michel Foucault com a biopolítica, o livro explica como organismos tecnocientíficos concebidos para sustentar a nação se tornaram importantes na institucionalização e expansão dos regimes de Mussolini, Salazar e Hitler, constituindo modernidades alternativas. A tese apresentada é a de que a crescente capacidade de manipular a vida vegetal e animal possibilitou a materialização de projetos políticos. Os organismos tecnocientíficos mobilizaram agricultores para a autonomia alimentar, ergueram estruturas estatais corporativas que eliminaram divergências políticas e tornaram regimes de trabalho forçado tolerados. A inclusão de Portugal fornece um contexto nacional que normalmente está ausente da História da Ciência e da Tecnologia e inclui o debate no contexto alargado da experiência fascista europeia.

O livro divide-se em duas partes: Nação (com 4 capítulos) e Império (2 capítulos). Na primeira parte, pega-se no entusiasmo fascista pela autarcia alimentar e demonstra-se como o regresso à terra ganhou sentido por causa da Ciência. O capítulo «Trigo I- Batalhas Alimentares, Linhas Puras e o Regime Fascista de Mussolini», mostra como a Batalha do Trigo foi a primeira ação de propaganda de massas do Regime. Os geneticistas foram importantes distribuindo sementes de alta produtividade pelos agricultores e impulsionando a indústria química no âmbito da política autárcica. Foi o caso do trigo ardito, lançado em 1920, mas apenas difundido com Mussolini. Aumentou a produção de cereais, o uso de fertilizantes e possibilitou a libertação da terra para outras culturas. Surgiram associações e consórcios para produzir e distribuir as novas sementes. Devido à circulação dos artefactos dos geneticistas, surgiram novas relações entre agricultores, padeiros, consumidores e Estado.

«Trigo II- A Nação Integral, Genética e o Estado Fascista Corporativo de Salazar» parte da ideia de que, sendo o solo fundamental para a nação orgânica imaginada pelo Regime, o culto dos antepassados e o cultivo da terra estavam ligados. Assim, os desafios da paisagem alentejana possibilitavam a formação de uma comunidade nacional virtuosa, fomentando a ruralização para colmatar o défice nacional de cereais. A Companhia União Fabril (CUF) financiou campos de demonstração e outras ações de propaganda que enalteciam os fertilizantes para o triunfo da autarcia alimentar. A Campanha do Trigo foi um primeiro passo na experiência corporativa portuguesa com vista à organização social através de associações de produtores, transformando um regime autoritário em regime fascista: com ideologia nacionalista, repressão política e corporativismo social e económico. Arrotearam-se novos espaços e quase se duplicou a produção de trigo com os produtos da CUF. Sublinhou-se a natureza tecnológica do latifúndio (recorriam-se a estudos do Instituto Superior de Agronomia e Estação Agronómica Nacional), materializando uma modernidade.

«Batatas- Pragas, Melhoramento de Plantas e Expansão do Estado Nazi» e «Porcos- Nazismo, Ciência e Enraizamento no Solo» abordam a Batalha pela Produção nazi, sendo a independência alimentar encarada como fundamental para a sobrevivência da raça e a independência política. A autossuficiência em batatas e carne de porco, era protagonista do enraizamento no solo alemão da comunidade nacional imaginada pelos nazis. A maior produção de tubérculos significava menor importação de rações. As pragas da batata eram mais um inimigo, sendo a população mobilizada para as combater, tendo a educação das crianças um papel. A Ciência era mobilizada para evitar a subnutrição. Desenvolviam-se métodos de identificação de imunidade às pragas e padrões de testagem das novas espécies. Aperfeiçoaram-se métodos de testagem laboratorial para orientar o trabalho das casas comerciais de sementes e identificar as variedades a aprovar, as únicas legalmente comercializadas. O Grémio Imperial da Alimentação controlava as propriedades agrícolas e incluía cooperativas de crédito que financiavam sementes e fertilizantes, bem como associações de criadores de gado.

A institucionalização do melhoramento animal na academia germânica nasceu com esta campanha, pois a carne de porco era a maior fonte de proteína dos alemães. Deviam-se criar porcos alimentados com produtos do solo nacional para reduzir a importação de rações, incentivando o trabalho com criadores e associações de produtores. Os testes de desempenho da engorda desenvolvidos na Academia forneceram padrões com que era possível avaliar a contribuição dos animais para a construção do regime nazi. Os porcos alimentados com tubérculos tudescos eram um trunfo na guerra, dando o nome ao livro.

A Segunda Parte trata dos organismos tecnocientíficos nos impérios fascistas, resultado da obsessão da capacidade do solo nacional garantir a sobrevivência da nação. «Café, Borracha e Algodão- Mercadorias, Trabalho Forçado e o Imperialismo Fascista na Etiópia, em Moçambique e na Europa de Leste» mostra como a história destas mercadorias é a do controlo de populações e de regimes de trabalho forçado. Os organismos tecnocientíficos materializam diferentes relações coloniais. Assim, o êxito da colonização italiana na Etiópia estava dependente da disponibilidade de terras para colonos vindos de Itália. Houve uma versão local da Batalha do Trigo, ocorrendo circulação de sementes a partir da Europa. Além disso, recolhia-se biodiversidade no Império distribuindo novas variedades de plantas desenvolvidas por melhoradores europeus, incentivando a agricultura de plantação.

Sendo a borracha uma importação alemã, era uma das fragilidades da sua economia. O sistema de produção na Europa de Leste ocupada pelos nazis era semelhante ao estabelecido nas colónias. Não havendo sucesso nesta estratégia, foram estabelecidos campos de concentração, como Auchwitz.

A instituição do Império foi um traço marcante do fascismo luso. Em Moçambique, os portugueses recorreram ao trabalho indígena para plantarem algodão e reduzirem as importações. Aurélio Quintanilha e o Centro de Investigação Científica Algodoeira tiveram um papel importante nesta dinâmica.

Finalmente, «Carneiros- Colonos Fascistas em África e na Europa» dá uma narrativa trans imperial através da circulação dos carneiros caraculo (usados para os casacos de Astracã). Uma espécie da União Soviética foi criada numa Universidade alemã, circulando para as colónias desta e, depois, para Angola.

Esta obra ganharia se aplicasse aos três regimes a mesma grelha de leitura, por exemplo, explorando mais o papel dos sistemas de ensino na construção de representações políticas ou científicas (como faz no caso da Alemanha) ou de cientistas que tiveram de trabalhar em contexto imperial e autoritário (que exemplifica com Aurélio Quintanilha).

Bem estruturado, dotado de um amplo aparelho iconográfico, com fotografias icónicas, este livro demonstra a sua tese apresentando diversos exemplos e casos concretos. Aborda o fascismo através da atividade agropecuária, interrelacionando avanços tecnocientíficos, contexto político e problemas sociais existentes. Dá também conta da relação entre linhas de investigação científica e questões político-económicas, ideologia política e Impérios, sendo, provavelmente, o primeiro trabalho que inclui o colonialismo português no quadro dos imperialismos fascistas. Vencedor de um importante prémio na área da História da Ciência, esta obra será igualmente útil a historiadores e quem se interessa por ciência política.

Conversa: Arte e Curadoria em Portugal com João Silvério

Em que consiste o trabalho de curadoria e que relevância tem a arte no panorama cultural português? Conversa com João Silvério, curador de arte contemporânea, com Ana Vieira Vicente.

Edição: Dezembro 2024

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Boas Festas: igreja e 1ª república, educação e cidadania, creditação jornalística, caricatura e IA, porto de Leixões, democracia participativa, livro de horas de D. Manuel, o literato político português, a escuridão branca e o piolho viajante.

ENSAIO

Laicidade, Afonso Costa e a mensagem de Fátima (1910 – 1920)

Este estudo analisa a relação entre republicanos e igreja na Primeira República, focando as leis persecutórias e o impacto sociopolítico. Através de um prisma transnacional, aborda a Constituição de 1911, a política afonsista e as reações da Igreja guiadas por Pio X e Bento XV.

Mais cidadania, menos conversa

As polémicas sobre Cidadania e Desenvolvimento têm-nos entretido: de usos políticos a ideológicos, pecam por se desligarem da realidade da escola, dos alunos e famílias. Acima de tudo, por não perceberem o impacto e a função que esta disciplina se propõe a ter.

Porto de Leixões e a transição energética

O Porto de Leixões, maior do norte e segundo maior porto artificial de Portugal, é responsável por 20% do comércio marítimo nacional. Gerido pela APDL, visa alcançar neutralidade carbónica e autossuficiência energética até 2035, através do “Roadmap para a Transição Energética”.

A Democracia Participativa e a Iniciativa de Cidadania Europeia

Sobre a Iniciativa de Cidadania Europeia enquanto instrumento de participação cidadã nos mecanismos democráticos da União.

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CRÓNICA

Creditação Profissional do Jornalista: Regra nas Ditaduras, Raridade nas Democracias

Algumas criaturas da vida pública portuguesa dão uma importância desmedida à carteira profissional, mas há um trabalho que os jornalistas não fazem e que aqui fazemos: investigar em que países é que a creditação é exigida para exercer jornalismo.

A Caricatura e a Inteligência Artificial

A indignação pífia de algumas jovens “tudólogas” com caricaturas feita com IA numa rede social leva-nos a revisitar um pouco a história do género, onde estabelecemos que em nada diferem da tradição de representação humorística de figuras públicas, e que a sátira é permitida tanto na lei portuguesa como nas plataformas sociais em geral.

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Todas as Iluminuras do Livro d’Horas d’El-Rei D. Manuel

Galeria detalhada com todas as Iluminuras do Livro d’Horas d’El-Rei D. Manuel, uma obra de grande primor. Inclui as respectivas legendas.

25 Desenhos para o 25 de Abril

25 desenhos do artista plástico Rui Cavaleiro para celebrar os cinquenta anos da revolução de Abril de 1974 que instaurou a democracia liberal em Portugal.

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Algumas Obras-Primas da História do Literato Político Português

Galeria com capas de vários volumes do literato político português, desde há cinco séculos para cá, juntamente com as respectivas referências.

A Lógica da Existência do Reino de Portugal

Considerações e análise histórico- política sobre as circunstâncias, entre contingências e inevitabilidades, que levaram à formação do Reino de Portugal.

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A Escuridão Branca de David Grann

Trago-vos este livro por acreditar que a “atração das pequenas vozes” de que nos fala Shackleton, citado por David Grann, determinam a forma como conduzimos a nossa vida. Henry Worsley talvez fosse assombrado por vozes não tão pequenas assim, pois uma boa parte de nós nunca cometerá as loucuras a que este explorador se votou. Esta é, também, uma história de loucura.

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Gabinete de Curiosidades Literárias: O Piolho Viajante (António Manuel Policarpo da Silva, 1802)

Sobre a obra de 1802, um dos livros mais lidos do século XIX. A história, narrada por um piolho que viaja por 72 cabeças as mais diversas, satiriza os costumes da sociedade portuguesa do final do século XVIII e início do século XIX.

Funnnies!

Retrato de Maja Hoffman (1956) por Annie Leibovitz, coleccionadora de arte, patrona de vários artistas e cineasta, uma das mulheres suíças mais influentes no meio, e presidente da fundação Luma.

Todas as Iluminuras do Livro d’Horas d’El-Rei D. Manuel

Todas as Iluminuras do Livro d’Horas d’El-Rei D. Manuel, uma obra de grande primor.

§1 – Ceia comemorativa da noite de S. Silvestre. [Mês de Janeiro]. §2 – Mês de Fevereiro. §3 – Mês de Março. §4 – Mês de Abril. 

§1 – Mês de Maio. §2 – Mês de Junho. §3 – Mês de Julho. §4 – Mês de Agosto. 

§1 – Mês de Setembro. §2 – Mês de Outubro. §3 – Mês de Novembro. §4 – Mês de Dezembro. 

§1 – Evangelho de S. João [reparem no Terreiro do Paço abaixo]. §2 – Anunciação. §3 – Começo das Horas da Virgem, com Santa Ana sentada na ilustração. §4 – Visitação. 

§1 – Natividade. §2 – Anunciação do Anjo aos Pastores. §3 – Adoração dos Magos. §4 – Repouso na fuga para o Egipto. 

§1 – Apresentação no Templo. §2 – Matança dos inocentes. §3 – Enterro de Sua Majestade, o Rei D. Manuel, sepultado na Capela do Restelo [Ofício dos Mortos]. §4 – Cerimonial daquele falecimento [Rua Nova dos Mercadores exposta]. 

§1 – Cenas da Paixão de Cristo. §2 – Árvore de Jessé. §3 – S. Pedro e S. Paulo. §4 – Santiago Matamouros, na Batalha de Clavijo [930]. 

§1 – S. Bartolomeu. §2 – S. João Evangelista. §3 – S. Tomé. §4 – S. João Baptista. 

§1 – S. Sebastião. §2 – S. Roque. §3 – S. Cosme e S. Damião. §4 – S. António. 

§1 – Os Reis Magos. §2 – S. Miguel Arcanjo. §3 – Anjo Custódio de Portugal. §4 – S. Julião de Brioude. 

§1 – S. Rafael. §2 – S. Cristóvão. §3 – S. Estêvão. §4 – S. Vicente. 

§1 – S. Ana. §2 – S. Maria Madalena. §3 – S. Catarina. §4 – S. Bárbara. 

§1 – S. Clara. §2 – S. Apolónia. §3 – S. Margarida. §4 – S. Bento. 

§1 – S. Jerónimo. §2 – S. Marcos. §3 – S. António. Fim. 

A Lógica da Existência do Reino de Portugal

O Império Romano, no seu processo expansionista, tem alguns problemas. A atual Alemanha, além da grande densidade florestal, continha guerrilhas que impediam um avanço mais profundo dos legionários, o mecanismo romano por excelência na mobilidade militar. No Norte de África,… 

…os tribais Clibanários e Catrafatos, gente desértica, couraçada, com cavalo igualmente couraçado, impede uma mais profunda penetração no Continente. Também na Escócia e na região Noroeste da Península Ibérica, a máquina de guerra romana é enclausurada pela mesura inimiga… 

…destas gentes. Predominam nestes locais pequenas unidades produtivas, não suficientes para alimentar a legião vindoura; os vales estreitos, onde a legião deveria avançar em colunas, torná-los-ia vulneráveis; e, não menos importante, as populações de pastores, hostis perante… 

…a chegada romana, entre eles os Piquetos, os Escotos e, na Ibéria, aqueles que nos concernem, os Galaicos, nomenclatura que já albergava o Norte do nosso atual território. A impotência a outros expansionismos leva ao enfranqucimento da legião como uma célula itinerante, e… 

…isso o percebe Dioclesiano que, na instância de sua reforma administrativa, “cria”, segundo as particularidades de cada terreno, uma orgânica em quadrados, em cujo governador juntar-se-iam as funções militar e administrativa, prontas fortificadamente, na orla dos territórios.. 

…onde ainda a submissão não alcançaram. Veja-se como a delimitação a Sul da Galécia enquadra-se imensamente no futuro ordenamento territorial do Condado Portucalense. Estes “quadrados” têm o nome de Comitatus, que aportuguesar-se-ia para os Condados, onde governa um Conde. A… 

…legião deixa de ser aqui necessária e, em compensação, a defesa da região transita para uma força local e condal, em detrimento de uma força mandatária de Roma. Os habitantes locais, com interesses a defender a região, são colocados, eles mesmos, como governadores das… 

…fortificações assentes, evitando assim ‘razzias’ dos bárbaros do Norte. Com Constantino, estas divisões são igualmente mantidas, e, defronte ao seu vínculo mais assimilador, delega sujeitos de confiança para algumas destas governações. Na Era de 409, algo ocorre na Ibéria… 

…Os germânicos não-romanizados, d’além fronteiras, alcançam a Península, em busca da subsistência. Entram primeiro Alanos, Vândalos e Suevos, que em 415 passam a ser pressionados pelos Visigodos. Os dois primeiros parecem perecer na Ibérica, enquanto o terceiro é obrigado a… 

…fixar-se na faixa Ocidental. A dominação sueva coincide com a região do “quadrado” de Dioclesiano, onde usufrui dos castelos lá erguidos e, ademais, os dois pontos de grande resistência Sueva na região são Bracara, capital de facto, e a praça-forte de Cale (atual Vila Nova… 

…de Gaia); esta pontual dominação não é matematicamente feita. Ela é uma consequência direta da mudança drástica de relevo entre esta, e os territórios a Sul. O Islão, mais tarde, pouco penetrará a Norte do Douro. O inverso também ocorre. O Visigodo não converge um rol maior… 

…de infraestruturas a Sul do Tejo. O desfecho destas incursões é este: a maioria rural hispano-romana passa a ser governada pela minoria militar germânica, vindo a ser complementares. O germânico, que compreende a importância do castelo, passa a encorporar toda a sua lógica… 

…de vida em torno dele. O propósito de produzir descendência para a manutenção destas praças gerará a aristocracia regional germânica que fomentaria o Condado Portucalense. No entanto, ex mihilo, nada se faria sem a presença da Igreja. É a Igreja que atribui ao instinto… 

…germânico, uma compreensão espiritual. O resquício hierárquico da depauperada Roma está na Igreja, e o seu funcionamento regional aclara a administração do Senhor. Pela ação missionária que caracteriza a maior das Instituições, os séculos V e VI são de imensa conversão. O… 

…arianismo Suevo é espezinhado nos Concílios de Braga (561 e 572), e o Concílio Terceiro de Toledo (589) tranforma o Visigodo em um Professo Temente a Deus. O Primeiro Rei Católico do mundo Latino é o Rei Visigodo Recaredo, portucalense de linhagem. A ligação germana ao… 

…passado romano consoma-se. O Latim passa a ser língua diplomática e o Direito Romano é substituído pelo Codex Visigothorum, caracterizado pela simplificação daquele. Esta noção de fidelidade entre a população e o senhor foi o antídoto durante a dominação maometana, e é… 

…nevrálgico à compreensão da fundação do nosso Reino. À necessidade da vigilância, o germano coloca uma torre maior no castelo, a Alcáçova [traduzido ao árabe], onde viria a dormir. E o órgão central, sempre abaixo do eclesiástico (ainda exclusivo a matérias espirituais),… 

…difunde-se em cidades diversas. O Norte Português é governado por uma mescla do Galaico com o Suevo ou o Visigodo. No século VII, no tempo do Rei Vamba, ocorre um estabelecimento das metrópoles da Hispânia, com os seus limites e dioceses, tal era a relação amigável entre o… 

…Visigodo e a Igreja. Uma das principais, que nos concerne, é a de Braga, que tutela pouco mais pouco menos o “quadrado” já referido acima, do tempo de Dioclesiano. Braga controlava, a Sul, os Bispados de Coimbra, Egitânia, Lamego, Viseu, Dume e… Portucale, que designava… 

…territórios entre o Rio Ave e o Rio Douro, de utilização que remonta ao século IV. É, por isso, ridículo afirmar que Portugal não tem razão plena de existência antiga. Até à chegada dos Mouros, existe um período de explicação do meio. Os espaços urbano, peri-urbano [o… 

…arrabalde] e rural [o termo] definem-se, e a disparidade Norte-Sul ilustra-se, pelos diferentes tratamentos que o solo requer em ambos os trejeitos. O território português nos séculos XII e XII é, indiscutivelmente, o território de mais forte milícia armada, pois os nossos… 

…Reis muito usufruíram dos julgados militares de Roma, dos Germanos e dos Maometanos, praças onde os filhos segundos culminariam a sua honra em vida [lógica monárquica hereditária, que os Visigodos não tinham]. Em 711, não há qualquer invasão. Os mouros são mercenários,… 

…contratados pelos partidários do falecido Rei Vitiza para abalroar o sucessor Rodrigo, veja-se o proveito que se retiraria de uma monarquia não-eletiva. Os mouros não cumpriram aquilo a que se comprometeram, e os vitizianos foram derrotados junto com a orgânica visigoda em… 

…Guadelete (711). Os restos dos germanos são empurrados para as Astúrias, e, mesmo em tempos avançados do Reino de Leão e Castela, as terras a Sul do Minho sempre foram negligenciadas, por serem fronteiriças à Mourama. Os Comes que ali se mantiveram eram praticamente… 

…autónomos, mesmo com a retomada dos cristãos à governança. Até períodos imediatamente anteriores à independência do Condado, o Conde D. Henrique não se representava em Cortes do Rei de Leão. E, ademais, ser ‘Rex’ ou não o ser, na documentação, nada implica, pois são meros… 

…títulos nobiliárquicos carentes de etimologia concreta. O Rei que nós imaginamos pode muito bem ser encarnado no Conde Dom Henrique. D. Afonso é Rei antes de 1140, data da primeira menção a ‘Rex’ a si atribuído. 1139 é a Era onde D. Afonso é Rei de facto, advindouro do… 

…Milagre de Ourique. O distanciamento de Portugal a Leão e aos restantes Reinos da Ibérica é concretamente explicado pelo sentido político, pela geografia, pela consciência particular e geral e, igual e principalmente, pela graça de Deus.

Algumas Obras-Primas da História do Literato Político Português

– “Satisfação Política a Máximas Erradas”, de Duarte Ribeiro de Macedo [1650]. – “Discurso sobre a Introdução das Artes no Reino”, de Duarte Ribeiro de Macedo [1675]. – “Variedades sobre Objectos relativos às Artes, Comércio e Manufaturas”, de José Acúrsio das Neves [1814]. 

– “Arte de Reynar”, de António Carvalho de Parada [1644]. – “Flores de Espanha, Excelências de Portugal”, de António de Sousa de Macedo [1630]. – “Caramuel Convencido”, de António de Sousa de Macedo [1642]. – “Armonia Política dos Documentos Divinos”, idem [1651]. 

– “A Realeza de D. Miguel”, de Miguel Sotto-Mayor [1882]. – “A Inquisição de 1850”, de João de Lemos Seixas Castelo Branco [1850]. – “Ditos Portugueses dignos de Memória”. – “Cartas de um Português aos seus Concidadãos”, de José Acúrsio das Neves [1812]. 

– “Dissertação a Favor da Monarquia”, do Marquês de Penalva [1799]. – “Origem da Nobreza Política”, de Álvaro de Vera [1631]. – “Parnaso Lusitano de Divinos e Humanos Versos”, de Soror Violante do Céu [1733]. – “Gabinete Historico”, de Fr. Cláudio da Conceição [1818]. 

– “História Genealógica da Casa Real Portugueza”, de D. António Cætano de Sousa [1741]. – “Europa Portugueza”, de Manuel de Faria e Sousa [1678]. – Periódico “Acção Realista”, de 1924-26. – Periódico “Ordem Nova”, de 1926-27. 

– “Mappa de Portugal Antigo, e Moderno”, do Padre João Baptista de Castro [1763]. – “Espelho de Lusitanos”, de António Veloso de Lira [1753]. – “Elucidário das Palavras, Termos e Frases que em Portugal antigamente se usaram”, de Fr. Joaquim de Viterbo [1799]. 

– “Livro dos Usos da Ordem de Cister” [1415]. – “Orthografia ou Arte de Escrever e Pronunciar com acerto a Lingua Portugueza”, de João de Morais Feijó [1734]. – “Dissertações Chronologicas e Criticas sobre a História e Jurisprudência Eclesiástica e Civil de Portugal” [1810]. 

– “Manifesto do Reyno de Portugal” [1643]. – “Assento feito em Cortes pelos Três Estados do Reyno de Portugal, da Aclamação […] do Senhor Rey Dom João o Quarto” [1641]. – “Brasões da Sala de Sintra”, de Anselmo Braamcamp Freire [1930]. 

– “Breve notícia dos desacatos mais notáveis acontecidos de Portugal”, de Fr. João de S. Boaventura [1825]. – “Regimento do Santo Ofício”, de D. Pedro de Castillo [1613]. – “Política Predicável e Doutrina Moral do bom Governo do Mundo”, de Fr Manoel dos Anjos [1693]. 

– “Dialogos de Varia Historia”, de Pedro de Mariz [1597]. – “Monarchia Lusitana”, vol. I-VIII [1590-1750]. – “Nobiliarchia Portugueza – Tratado da Nobreza Política & Hereditária”, de António de Villasboas & Sampaio [1676]. 

– “Geografia Historica de todos os Estados Soberanos da Europa”, de D. Luís Caetano de Lima [1734]. – “História de Portugal Restaurado”, de D. Luís de Meneses [1679]. – “Horto do Esposo” [1403]. – “O Livro das Confissões de Martim Peres” [1399]. 

– “Chronica de Cister”, de Fr. Bernardo de Brito [1597]. – Periódico “Defesa de Portugal”, de Alvito Buela Miranda [1833]. – “Dom Miguel e o seu Tempo”, de Hermann Kuhn [1867]. – Manifesto de Sua Majestade Fidelíssima, El-Rei D. Miguel [1832]. 

– Periódico “O Punhal dos Corcundas”, de José Agostinho de Macedo. – Periódico “A Contra-Mina”. Etc. 

Creditação Profissional do Jornalista: Regra nas Ditaduras, Raridade nas Democracias

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Após mais uma polémica paroquial da vida pública portuguesa — que podem consultar em maior pormenor aqui ou aqui, relacionada com o organismo público que atribui licenças de exercício da profissão de jornalista —, como os nossos leitores já devem ter reparado, alguns bonecos da nossa praça aparentemente dão uma importância desmedida à creditação profissional em Portugal para profissões que não requerem propriamente um domínio técnico cuja ausência ponha o público em risco imediato. É esse o caso da actividade do jornalismo, ao contrário de, por exemplo, a medicina ou a engenharia. Tais bonecos da nossa praça entretêm-se ainda, já quase dois meses depois, a atacar uma senhora que entrevistou recentemente o primeiro-ministro e foi, blasfémia, apresentada pelo orgão de comunicação em causa como jornalista (a referida senhora diz que já nem se lembrava que não tinha renovado a autenticação, o que diz muito sobre a importância e quiçá a qualidade do título). Tudo isto causou uma polémica tão bizarra quão inócua, como tantas outras polémicas que dominam o histriónico e infantilizado debate público no país.

O organismo público que tutela esta exigência bizarra no quadro legal português produziu, na primeira peça que citámos, várias afirmações que oscilam entre a validade dúbia e a absoluta falsidade — a saber, “que para exercer a profissão de jornalista é obrigatório ter a carteira profissional” e que, nesse ponto da obrigatoriedade de creditação, a profissão é “regulamentada e protegida (…) à semelhança de muitos outros países do mundo e em particular na Europa”. Faz falta, para melhor informação do público em geral, nestas equações, um trabalho muito simples que os próprios jornalistas nunca seriam capazes de fazer porque poria em causa os seus próprios interesses corporativos, por detrás dos quais disfarçam o seu mau trabalho: investigar em que países é que a creditação profissional para a profissão do jornalismo é exigida, e aqueles em que não é.

Ao realizar, até mesmo de forma rascunhada, amadora, e simples, essa investigação, chegamos a uma conclusão devastadora para o provincianismo bacoco da chafarica portuguesa: a necessidade de creditação para exercer jornalismo é completamente minoritária e residual no quadro das democracias a nível mundial e não encontra qualquer suporte nem na posição do organismo oficial que tutela a sua creditação, nem na percepção pública e intelectual generalizada sobre a matéria.

Vejamos então ao pormenor este panorama. Convidamos todos os leitores a começarem, desde já, por ficar absolutamente boquiabertos com a situação geral e as situações particulares que vos vamos aqui deixar. O que pensarão se vos dissermos que apenas Grécia, Itália e Catalunha, a nível europeu, exigem liminarmente essa creditação para a prática da profissão? É na companhia destas três regiões do sul da europa que nos encontramos nessa exigência exótica para exercício do jornalismo, além de outras paragens menos recomendáveis a nível de pluralidade democrática e de desenvolvimento civilizacional pelo mundo fora, entre as quais Brasil (até recentemente), Argentina, Venezuela, México, Colômbia, Egipto, Quénia, Jordânia, Ruanda, Zimbabwe, e Turquia. Já para não falar de países que actualmente nada têm a ver com democracias liberais, como China, Cuba, Coreia do Norte ou o Vietnam. Esta é a presente situação. Convidamos, adicionalmente, os nossos leitores a adiantarem explicações sobre porque é que Portugal se encontra nestas companhias e não noutras.

É nesta constelação de sub-desenvolvimento e de atraso cívico que nos encontramos, e é a esta cultura de corporativismo de estado que os patéticos entusiastas da “creditação profissional” para o exercício do jornalismo apelam. Estão, por um lado, ridiculamente convencidos de que na sua ausência existiríamos todos numa anarquia de informação, e os pobres cidadãos, naturalmente burros e campónios, seriam presa fácil para as turmas de aldrabões profissionais empenhados em passar informações falsas sob a guisa de “notícias” (algo que, como todos podem ver, é completamente impossível no sistema de creditação oficial, profundo e infalível garante da verdade e do bem); e, por outro lado, estão também completamente alheios, de uma maneira profundamente constrangedora e provinciana, ao panorama rídiculo, a nível mundial, em que se encontram, e em que as suas ideias proteccionistas, corporativas e totalitárias, vicejam.

Nem vale a pena levantar a questão muitas vezes agitada por estas alminhas sobre a exigência de registos em ordens profissionais e creditação oficial para outras profissões, como na medicina, na advogacia, na engenharia, etc, como se os riscos para o cidadão em ser vítima de possíveis burlas nestas áreas fosse comparável ao da profissão do jornalismo, profissão essa que se baseia simplesmente em escrever e relatar coisas que se terão passado. Não é preciso sequer empreender essa análise, que seria uma análise interessante e até pertinente, mas que aqui não colhe qualquer necessidade, bastando apenas consultar o panorama acima sobre os países — e o tipo de país — em que tal creditação é obrigatória para concluir facilmente que estamos perante uma exigência absurda, retrógrada, corporativa e totalitária que não é tradição corrente em praticamente nenhum país do universo das democracias liberais.

Vejamos de seguida listas mais detalhadas com os países em que tal creditação oficial não existe propriamente, mas em que, conforme o caso, algum tipo de vínculo oficializado seja necessário para situações práticas como acesso a eventos dedicados à imprensa e a mecanismos legais de protecção de fontes, entre outros. Voltamos a sublinhar: nestes países, não é necessária creditação oficial de coisíssima nenhuma para alguém trabalhar como jornalista, identificar-se como jornalista e ser jornalista, sendo necessária apenas pontualmente para acesso privilegiado a alguns estatutos e instrumentos da profissão.

  • Estados Unidos: Não há qualquer exigência de registo ou carteira profissional, em linha com o forte princípio de liberdade de imprensa.
  • Reino Unido: Não existe exigência de carteira profissional. Qualquer pessoa pode atuar como jornalista, embora algumas organizações ofereçam certificações voluntárias.
  • França: A profissão é regulada em termos de direitos trabalhistas, mas não é necessária uma carteira profissional obrigatória. No entanto, o título de “jornalista profissional” é reconhecido oficialmente com base em critérios legais.
  • Alemanha: Não há carteira obrigatória, mas há associações que emitem credenciais para facilitar o acesso a eventos ou locais de trabalho.
  • Países Baixos (Holanda): Não há regulamentação oficial para a profissão.
  • Suécia: Não é necessária qualquer autorização oficial para ser jornalista, devido à forte proteção da liberdade de imprensa.
  • Canadá: Sem regulamentação oficial, embora algumas associações ofereçam credenciais voluntárias.
  • Austrália: Não exige registo ou carteira profissional.
  • Noruega: Liberdade total para o exercício da profissão, sem necessidade de registo.
  • Dinamarca: Sem exigências formais ou carteiras oficiais.
  • Finlândia: Não há regulamentação obrigatória, apenas reconhecimento voluntário.
  • Suíça: Não há regulamentação, mas jornalistas podem buscar associações como a Impressum, que fornece credenciais opcionais.
  • Áustria: Não é necessário ter uma carteira profissional; a profissão é autorregulada por associações como a Österreichischer Journalisten Club (ÖJC).
  • Bélgica: Não há obrigatoriedade de registo ou carteira, embora existam conselhos que emitem credenciais para facilitar o trabalho.
  • Irlanda: Qualquer pessoa pode atuar como jornalista, sem necessidade de registo formal.
  • Nova Zelândia: Não há regulação estatal; a profissão é aberta, com organizações que emitem credenciais opcionais.
  • Luxemburgo: Não existe obrigatoriedade de registo ou regulamentação, mas há associações de jornalistas reconhecidas.
  • Japão: Não exige regulamentação formal para jornalistas, mas muitas vezes é necessário estar afiliado a uma redação ou associação de imprensa para obter acesso a conferências de imprensa e protecção de fontes.
  • África do Sul: A profissão não é regulamentada, mas associações como o South African National Editors’ Forum (SANEF) oferecem apoio profissional e credenciais.
  • Islândia: Liberdade total para atuar como jornalista, sem necessidade de carteira ou registo.
  • Chile: O exercício da profissão não é restrito por lei, mas existem credenciais emitidas por sindicatos para acesso a eventos e fontes.
  • México: Não é exigida uma carteira formal para ser jornalista, mas organizações como a Federação de Associações de Jornalistas Mexicanos (FAPERMEX) oferecem credenciais amplamente aceitas.
  • Uruguai: Exige-se registo profissional em algumas situações específicas, especialmente para conferências de imprensa tradicionais.

Mesmo em casos mais cinzentos em que se pode dizer que existe uma exigência ou semi-exigência de creditação oficial, ou em casos em que existe uma tendência para abandono dessa exigência, ou ainda em casos especiais por outros motivos, na prática as coisas são mais flexíveis do que parecem. Alguns exemplos:

  • Brasil: O registo formal não é mais obrigatório desde 2019, mas a profissão enfrenta desafios como violência e censura indireta.
  • Colômbia: A legislação exige que jornalistas sejam registrados na Comisión Nacional de Televisión, mas, na prática, há flexibilidade.
  • Nigéria: Não há exigência formal de carteira profissional, mas os jornalistas enfrentam intimidações frequentes, especialmente ao cobrir temas sensíveis. A autorregulação é promovida por associações como a Nigerian Union of Journalists (NUJ).
  • Equador: Até recentemente, havia regulamentação obrigatória, mas hoje a profissão está mais aberta.
  • Israel: Não exige uma carteira obrigatória, mas o trabalho na área de segurança ou em territórios palestinianos muitas vezes requer autorizações especiais.

Por último, destacamos aqueles países que a nossa pesquisa estabeleceu como mais semelhantes ao caso português unicamente quanto ao ponto de exigência legal de creditação profissional para a prática do jornalismo oficialmente falando, independentemente dos diferentes graus — e existem muitos — de liberdade de imprensa nestes países. Aqui incluímos tanto democracias liberais como regimes não-democráticos. Mas é bom sublinhar que, modo geral, a partir de todo este panorama, parece claro que essa exigência legal de registo em uma ordem ou órgão oficial para o exercício da profissão de jornalista é relativamente rara e normalmente está associada a países com regulamentação estrita da profissão. Eis então uma triste lista dos países conhecidos por exigirem registo obrigatório em uma ordem ou associação específica para o jornalismo, na companhia dos quais Portugal se encontra:

  • China: A profissão é fortemente controlada pelo governo. Os jornalistas precisam ser licenciados pelo Estado, com um registo emitido pelo Departamento de Propaganda ou outros órgãos governamentais. Há uma vigilância rigorosa e punições severas para quem publica conteúdo contrário aos interesses do regime.
  • Rússia: Embora não exista obrigatoriedade de uma carteira formal para atuar como jornalista, a liberdade de imprensa é severamente restringida. Muitos jornalistas estão ligados a veículos controlados pelo governo, e aqueles independentes frequentemente enfrentam censura, assédio ou violência. Existe um registo voluntário em associações de jornalistas, mas estas têm pouca autonomia.
  • Índia: Não há exigência de carteira profissional, mas jornalistas muitas vezes se afiliam a associações como o Press Council of India, que atua como um órgão de autorregulação. A liberdade de imprensa é garantida constitucionalmente, mas enfrenta desafios significativos, como censura governamental e pressões econômicas.
  • Venezuela: É obrigatório o registo na Colegio Nacional de Periodistas (CNP) para atuar formalmente como jornalista.
  • Coreia do Norte: Apenas jornalistas aprovados pelo regime podem trabalhar, todos ligados à mídia estatal. Não existe jornalismo independente.
  • Egito: Os jornalistas devem ser registrados no Sindicato de Jornalistas, controlado pelo governo. A liberdade de imprensa é severamente restringida, com censura e prisões frequentes de profissionais da área.
  • Ruanda: A imprensa é estritamente monitorada pelo governo, com registos obrigatórios para operar formalmente.
  • Arábia Saudita: Todos os jornalistas precisam de autorização do governo para trabalhar. A censura é muito rigorosa, e não há liberdade de imprensa independente.
  • Irão: Os jornalistas devem ser aprovados e registrados pelo governo. A mídia independente é praticamente inexistente, com repressão severa a vozes dissidentes.
  • Turquia: A profissão é tecnicamente aberta, mas os jornalistas frequentemente enfrentam prisões e perseguições. Muitos precisam estar afiliados a veículos aprovados pelo governo para atuar sem represálias.
  • Venezuela: Apesar da existência de uma ordem profissional, a liberdade de imprensa é severamente restringida. Muitos jornalistas independentes são perseguidos ou exilados.
  • Cuba: Apenas jornalistas alinhados ao regime podem atuar formalmente. O jornalismo independente é praticamente clandestino.
  • Portugal: A carteira profissional é obrigatória e emitida pela Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ).
  • Itália: Os jornalistas devem estar registrados na Ordem dos Jornalistas (Ordine dei Giornalisti), com divisões entre profissionais e publicistas.
  • Grécia: O registo em associações locais, como a ESIEA (União de Jornalistas de Atenas), é necessário para atuar formalmente como jornalista.
  • Zimbábue: Exige-se registo no Zimbabwe Media Commission para operar como jornalista.
  • Jordânia: Jornalistas devem ser membros do Jordan Press Association (JPA), o que restringe o exercício da profissão a quem está registrado.
  • Turcomenistão: A mídia é completamente controlada pelo Estado, e jornalistas só podem trabalhar se forem reconhecidos oficialmente.
  • Vietnã: Jornalistas precisam ser registrados no governo e vinculados a veículos de imprensa controlados pelo Estado.
  • Myanmar: Antes do golpe de 2021, jornalistas precisavam de licenças para operar, um controle que ficou ainda mais rígido após o regime militar.

Em suma, na maior parte dos países não só da esfera das democracias liberais mas fora desta, mesmo sem regulamentação obrigatória, sindicatos, associações de imprensa ou conselhos voluntários têm grande peso para o acesso prático à profissão, fornecendo vantagens como credenciais para eventos e suporte jurídico. Isto não significa, porém, que a exigência completamente exótica existente no presente momento em Portugal para que uma pessoa não se possa sequer identificar como jornalista se não possuir creditação oficial não seja uma exigência de uma absoluta raridade no quadro das democracias a nível mundial. E, como é óbvio, a distinção entre países que regulamentam e aqueles que confiam na autorregulação costuma refletir diferentes abordagens à liberdade de imprensa e ao controle ético da profissão. É verdadeiramente chocante a posição em que Portugal está neste âmbito e as companhias a nível mundial em que se encontra.

Deixamos para os leitores a digestão destas informações e a conclusão óbvia a tirar sobre o comprimento de onda civilizacional em que Portugal se encontra nesta matéria. Deixamos também aliás uma pergunta pertinente: exactamente o que é que mudou, quanto a este ponto, de 24 para 25 de Abril de 1974? Mudou alguma coisa, ou encontramos exactamente o mesmo espírito, defendido exactamente pelas mesmas pessoas ou pelo mesmo tipo de pessoa, gente que ontem pugnava contra o controle do estado sob a informação e hoje defende precisamente uma versão idêntica do mesmo, mas orientada para os seus próprios interesses? E dado o paroquialismo bacoco que domina grande parte do debate das ideias em Portugal, este estado de coisas surpreende alguém?

Uma Aproximação Lírico-Dialética a Kierkegäard via Carl Dreyer

DE JOHANNES A JOHANNES. UMA APROXIMAÇÃO LÍRICO-DIALÉTICA A TEMOR E TREMOR DE SÖREN KIERKEGÄARD VIA ORDET DE CARL DREYER. Resumo: Agrilhoado nas malhas da lógica e do discurso, Johannes de Silentio fixa a monstruosidade do paradoxo e aí permanece em espanto, desespero e impotência. Johannes de Dreyer habita o paradoxo, o lugar da não linguagem, da alegria e da restituição. Entre ambos uma ponte invisível, o salto qualitativo é presença e aguarda-nos. Entre Johannes e Johannes cada um de nós subsiste na escolha e na possibilidade. Em cada gesto, no desespero e na alegria. Palavras-chave: cavaleiro da resignação, cavaleiro da fé, alegria, desespero, possibilidade, linguagem, paradoxo, comunicação indireta, silêncio, fé.

Alguém chamava pela palavra: Ordet… Ordet
e nenhuma imagem respondia.

Manuel Gusmão

Será chamar a palavra o mesmo do que chamar o dizer? Será a convocação da palavra à mesa da angústia o primeiro passo da fé e a aceitação por parte do indivíduo que o faz a entrega à ininteligibilidade por parte do mundo e o desmascaramento da insuficiência da regra nos jogos de linguagem por parte do cavaleiro da fé? Pois permanecerá no aberto a forma da palavra que salva e o seu conteúdo com prazo de validade, enquanto no entre das palavras subsistir a possibilidade de sentido. O desespero e a dúvida que pautam a existência do humano são condição sine qua non para o salto, elemento estruturante que ergue o indivíduo, colocando-o acima do universal, na realização do duplo movimento da fé no instante e na eternidade, na perda e na restituição. Quem é este cavaleiro da fé em Temor e Tremor de Sören Kierkegäard? Quem é Johannes de Silentio, poeta e cavaleiro da resignação infinita que observa Abraão em pasmo e horror? Quem é Johannes em Ordet de Carl Dreyer? Haverá, de facto, alguma palavra que salve?

Tanto em Temor e Tremor como em Ordet e, igualmente sublinhado por Wittgenstein no seu Tractatus Lógico-Filosófico, visitar o movimento do paradoxo é tocar os limites da linguagem. O silêncio em Wittgenstein relativamente ao ético e ao estético encontra-se com a demarcação do indivíduo na suspensão teleológica do ético face à paixão da fé como a encontramos no Abraão de Temor e Tremor. O indivíduo está só «numa relação absoluta com o absoluto» (Kierkegaard, 1998: 82). Todo o seu movimento é o da repetição que é instante e eternidade, liberdade e autenticidade do sujeito na sua singularidade. Essa repetição, em perda e restituição, não descarta a dúvida, mas incorpora-a, pois, o humano é temporal e finito e, nessa condição, nessa cisão ontológica com Deus, estabelecerá o individual encontro com o religioso no lugar que é mistério, fé e método filosófico sob o signo da revogação, na experiência do paradoxo.

Johannes de Silentio procede à compreensão possível ao filósofo sobre a fé e não à vivência da fé na primeira pessoa (Kemp, 2015). Ou seja, subsiste uma componente experiencial e afetiva não vivida por de Silentio e que vê manifestada em Abraão. De Silentio, enquanto cavaleiro da resignação infinita, permanece refém do ideal, renunciando ao finito, abrigando-se no ideal amado, preservado no infinito. Não experimenta a monstruosidade do paradoxo. Não consegue fazer o duplo movimento da fé, dar o salto. Nada lhe é restituído. Permanece na sombra e refém do pensamento e dos pressupostos da lógica e do discurso: «Mas quando me ponho a reflectir sobre Abraão, sinto-me como que aniquilado. Caio a cada instante no paradoxo inaudito que é a substância da sua vida» (Kierkegaard, 1998: 46). O equívoco de Johannes de Silentio reside na sua tentativa de penetrar o pensamento de Abraão que é um lugar sem linguagem. Não se trata, ao contrário do que pensa de Silentio, de encontrar uma linguagem comum com Deus, mas, sim, de abdicar dessa mesma linguagem no instante em que se ergue o braço com a faca na mão em sacrifício e fé. Este último movimento é adjetivado por de Silentio como absurdo e é a crença nesse absurdo e não na restituição seja da princesa, seja de Isaac, seja daquilo que constitui o compromisso definidor da existência, que impede a de Silentio a vivência da alegria subjacente à fé. Assim, mantém-se agrilhoado à culpa, ao sofrimento e ao amor a Deus sem fé na restituição. Por sua vez, Johannes em Ordet de Carl Dreyer, é um cavaleiro da fé. Não quando afirma ser Cristo, portador da palavra que salva: «Woe unto you hypocrites, unto you, you, and you! Woe unto you for your lack of faith! Woe unto you who do not believe in me, the risen Christ, who was sent to you by Him who made the Heavens and the Earth! » (1955, Dreyer). Ao mesmo tempo, ouve-se o som do vento e as palavras de Johannes caem na incredulidade de quem o julga louco, constituindo a oportunidade inúmeras vezes recusada de redenção e reencontro na fé por parte das outras personagens. Johannes é cavaleiro da fé no momento em que se encontra sano no velório de Inger.[1] É pela sua fé e pela fé da pequena Maren que Inger é restituída à vida e à família. A disparidade entre a vivência do quotidiano e do miraculoso criada por Dreyer dentro do estilo transcendental no cinema e da abstração lírica trazida pela predominância do branco e a criação de alternância que reflete modos de existência diversos (Deleuze, 2009) traduzem a importância da escolha da escolha no que diz respeito à autodeterminação e crença e entrega a Deus, pois «a personagem da verdadeira escolha encontrou-se a si mesma no sacrifício, ou reencontrou-se para lá do sacrifício que não deixa de ser recomeço» (Deleuze, 2009: 177). Tal remete, mais uma vez, para a alegria de Abraão na restituição de Isaac, pois essa alegria procede de uma transformação qualitativa (Ferreira, 1998), de um salto patético – pathos – que devolve ao cavaleiro da fé a sua subjetividade radical na comunicação direta com Deus, lançando o cavaleiro da fé na solidão e no silêncio para além do bem e do mal universais propugnados pelo estado ético. Tal não significa que haja uma colisão entre razão e experiência da fé, mas sim uma suspensão: «The teleological suspension of the ethical. This is not the claim that religious faith is in conflict with the Moral Law […] but the claim that to be seriously religious is to have a higher allegiance than to my people and their concept of the Good» (Westphal, 1998: 109-110). É no salto qualitativo[2] que o indivíduo se torna mais elevado do que o universal, leia-se a Sittlichkeit hegeliana, e a alma deixa de estar «dispersa no múltiplo» (Kierkegaard, 1998: 58) e não fica presa na dor e na impossibilidade como acontece com Johannes, cavaleiro da resignação infinita. Por seu lado, o cavaleiro da fé subsiste na possibilidade do impossível que é Deus, «reconhece, pois, a impossibilidade e, ao mesmo tempo, crê no absurdo» (Kierkegaard, 1998: 63). É nesse quadro que Johannes de Dreyer é interpretado como louco e sem remédio, pois como refere Borgen «miracles don’t happen anymore» (1955, Dreyer), ao passo que Inger, cordeiro sacrificial, diz o contrário: «Johannes is perhaps closest to God than the rest of us» (idem). A leitura de Johannes como louco, reflete não apenas a falta de fé das outras personagens, mas a própria conceção da fé despida de espiritualidade e tornada coisa pública, comunicável e mesmo politizada, algo que repudiara a Kierkegäard e, mais tarde, retomado por Dreyer em Ordet. O fora-de-campo e o branco lírico trazidos por Dreyer são o convite de liberdade que Kierkegäard faz ao leitor por via de Johannes de Silentio e este, por sua vez, através do velho que conta a história de Abraão. Ou seja, leitor e espetador são remetidos para o que não se vê, mas que é presença. É abertura do espaço e do tempo que se cruza com os gestos mais simples do quotidiano, com o amor pela princesa, com os lençóis brancos estendidos ao vento na abertura de Ordet. Tal espaço-tempo outro que se cruza com a linha cronológica do humano apela à transcendência na imanência do mais simples gesto de que Dreyer faz «um método ascético» (Deleuze, 2009: 37) e Kierkegäard uma relação pessoal e íntima com Deus em Temor e Tremor na qual «pela fé, a nada renuncio; pelo contrário, tudo recebo» (Kierkegaard, 1990: 65) e que permite ao indivíduo ser, repetidamente e a cada instante, feliz. O cavaleiro da fé é portador de «um segredo de que não conseguem falar, e por isso são, na sua solidão […] silenciosos» (Tunhas, 2012: 193). O silêncio é o lugar de encontro entre Deus na sua contractio Dei e o humano finito e temporal, agora agraciado com a liberdade de escolha.[3]

Silencioso, mas desesperado é, igualmente, o repouso na contemplação do eterno e na renúncia de todo o finito por parte de Johannes de Silentio. Reflete, espantado, na restituição de Isaac a Abraão, mas é um ser da ponte, pois não realiza o segundo movimento que é o do salto da paixão da fé que lhe permitiria recuperar a princesa. Por sua vez, o cavaleiro da fé aceita com alegria a espada que se ergue sobre a cabeça do objeto finito amado, o momento do paradoxo em horror sublime da perda e da restituição e da aprendizagem da paciência, pois não cabe ao cavaleiro da fé a busca da repetição. Cabe-lhe, sim, ser o seu recetáculo pela divina Graça: «True repetition […] is something received, a Grant of life and world, not an outcome that can be cornered» (Mooney: 284). Mas qual é a natureza da repetição? Não se trata da anamnese platónica, mas de um movimento direcionado ao futuro e que comporta a recoleção na construção do sentido no constante devir do indivíduo e da sua abertura a todas as possibilidades. Tal é o caso de Abraão e de Job no reconhecimento instantâneo e simultâneo da perda e da restauração de Isaac e do mundo, respetivamente, sendo que esse instante é o do abismo e do sublime, apenas com eco no estado estético, capaz de quebrar o silêncio, como Johannes de Silentio, o poeta dialético, subscrevendo o subtítulo a Temor e Tremor – Uma Lírica Dialética – o faz na tentativa de compreender, cantar e fixar o movimento da fé de Abraão. A dialética e a ironia socráticas e o pathos da lírica e da expressão das emoções unem-se num todo poético-filosófico que é em si imagem do paradoxo que não diz, apenas se mostra. Contudo, qualquer tentativa de comunicação ao leitor dos fenómenos religiosos só pode ser feita indiretamente. A comunicação do fenómeno que compreende, define e justifica a existência do indivíduo no seu todo em total vulnerabilidade só pode ser vivida na primeira pessoa, pelo que só pode ser compreendida indiretamente, pois trata-se da paixão infinita individual que no caso de Abraão é Isaac, sendo que a autenticidade do eu em devir depende de cada gesto sempre em direção ao compromisso que constitui esse eu e que lhe dá um mundo e que não é mediável ou transmissível, mas apenas vivido e é aí que a subjetividade se torna verdade e a verdade para o ser, implica coragem e vulnerabilidade por parte do cavaleiro da fé, capaz de restaurar forças por ação do absurdo (2018, Dreyfus). Não se trata de pensabilidade ou de qualquer tipo de concetualização que permita a formação de uma crença na restituição, mas sim de viver essa restituição no momento da própria perda, sendo que é nesse ápice que se dá a repetição que é liberdade do sujeito na sua relação absoluta com o absoluto. Desta forma, o salto para a fé não passa por qualquer tipo de demonstração, pois é existência em ato e não conhecimento. No salto, opera-se a existência do sujeito que se dá e no ato de se dar, existe e é livre na fé, enquanto pathos e interioridade.[4] O movimento da fé que é de transcendência para o indivíduo não é comunicável (Kodalle, 403). O indivíduo autodeterminado assume a responsabilidade e o risco subjacentes a uma existência autêntica que não passa por pressupostos utilitaristas. Desta forma, Abraão e Johannes sano em Ordet são figuras do silêncio. Não podem falar. Isaac não fala. «Caminharam em silêncio durante três dias» (Kierkegäard, 1990: 24). O Akedah é silêncio fora do universal na subida da montanha Morija. É solidão absoluta e segredo, pois, «the only acceptable silence […] is that which the father of faith keeps with the divine, Abraham with God» (Danta, 2011: 42).

É-se, assim, devolvido à pergunta que abre esta breve reflexão: será chamar a palavra o mesmo do que chamar o dizer? Receber-se-á a verdade por via da comunicação indireta (Tunhas, 2014:143)? Wittgenstein, no fim do Tractatus, reitera a necessidade de as proposições apresentadas serem lidas como «falhas de sentido, quando por elas se elevou para lá delas» (Wittgenstein, 2015: 142). Este pode constituir um ponto de encontro para o entendimento da comunicação indireta em Kierkegäard não apenas enquanto ato e liberdade do sujeito, mas na construção de um método filosófico, tanto em Kierkegäard como em Wittgenstein,[5] nos quais a figura do autor se revela o excesso a suprimir para que quem receba o texto, a imagem ou a palavra, possa fazê-lo em liberdade e responsabilidade. Torna-se, assim, nuclear a categoria da comunicação indireta em Kierkegäard, permitindo «revelar o fundo ontológico» (Tunhas, 2014: 143) do seu pensamento, mas, sobretudo, todo um método filosófico no qual a pseudonímia e a revogação estancam a desmesura e a «tentação, sempre recorrente, de fazermos mais do que aquilo que podemos fazer quando pensamos» (Miguens, 2014: 84). O sacrifício da autoria com o uso da pseudonímia abre a possibilidade ao recetor do texto de proceder ao salto qualitativo que lhe permite ser único, individual, subjetivo e responsável pelo seu existir e é nesse aberto que Kierkegäard faz filosofia, pois escrever é agir no mundo na sua concretude. Na impossibilidade de dizer, resta o silêncio no fazer, o qual reflete a condição do pensar e «a conceção da filosofia como gesto ou performance. Fazer filosofia é algo de ético porque é enfrentar diretamente o paradoxo, ou o nonsense, que constantemente espreitam a razão humana» (Miguens, 2014: 96). Desta forma, de Johannes a Johannes, de Constantin Constantius a Johnannes Climacus e ao autor deste breve exercício, considere-se, a partir deste momento, o presente texto, um exercício de revogação.

Bibliografia

Fontes primárias

DREYER, Carl (1955), Ordet; a partir de uma peça de teatro de Kaj Munk; com Henrik Malberg e Emil Hass Christensen, etc.; preto e branco; Dinamarca.

KIERKEGAARD, Sören (1843), Frygt og Baeven; ed.ut.: Temor e Tremor, 3ª ed., Lisboa, Guimarães Editores, 1998.

Fontes secundárias

 

BOND, Kirk (1965), «The world of Carl Dreyer», in Film Quarterly, vol.19, n.º1: 26-38, ed.ut.: https://www.jstor.org/stable/1210820?read-now=1#page_scan_tab_contents.

DANTA, Chris (2011), Literature suspends Death. Sacrifice and Storytelling in Kierkegaard, Kafka and Blanchot, London, Continuum International Publishing Group.

DELEUZE, Gilles (1983), Cinéma 1. L’Image-Mouvement; ed.ut.: Cinema 1. A Imagem-Movimento, 2ªed., Lisboa, Assírio & Alvim.

DREYFUS, Hubert (2018), Kierkegaard’s Fear and Trembling, https://www.youtube.com/watch?v=OjfzyqCewdo.

FERREIRA, Jamie M. (1998), «Faith and the Kierkegaardian leap», in The Cambridge Companion to Kierkegaard, Cambridge, Cambridge University Press: 207-235.

KEMP, Ryan (2015), «Johannes de Silentio: religious poet or faithless aesthete?», in Kierkegaard’s Pseudonyms, vol.17, London, Routledge, ed.ut.: https://www.academia.edu/5798444/Kierkegaards_Johannes_de_silentio_Religious_poet_or_faithless_aesthete.

KODALLE, KLAUS-M. (1988), «The utilitarian self and the “useless” passion of faith», in The Cambridge Companion to Kierkegaard, Cambridge, Cambridge University Press:397-411.

MIGUENS, Sofia (2014), «Espelhos, escadas, paradoxo e nonsense – O que há de comum a Kierkegaard e Wittgenstein», in Filosofia. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, n. º31, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto: 83-97.

_________ Sofia (2019), Uma Leitura da Filosofia Contemporânea. Figuras e Movimentos, Lisboa, Edições 70.

MOONEY, Edward F. (1988), «Repetition: getting the world back», in The Cambridge Companion to Kierkegaard, Cambridge, Cambridge University Press: 282-308.

TUNHAS, Paulo (2012), «Retorno e repetição», in Estado, Regimes e Revoluções. Estudos em Homenagem a Manuel de Lucena, org. Carlos Gaspar et al., Instituto de Ciências sociais da Universidade de Lisboa, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais: 191-199.

_____________ (2014), «Kierkegaard: indivíduo e sistema», in Filosofia. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, n. º31, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto: 137-146.

WESTPHAL, Merold (1998), «Kierkegaard and Hegel», in The Cambridge Companion to Kierkegaard, Cambridge, Cambridge University Press: 101-125.

WITTGENSTEIN, Ludwig (1922), Tractatus Logico-Philosophicus; ed.ut.: Tratado Lógico-Filosófico. Investigações Filosóficas, 6ªed., Lisboa, Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 2015.


  1. «It is not Johannes the mad man who performs the miracle, but Johannes the sane man. He is not Christ or anything like it. He is simply an intelligent, sensitive human being who feels the harshness of the world» (Bond, 1965:37).



  2. «The example of a qualitatively different kind of leap is “The paradox. Christ’s entry into the world.” That is, the qualitatively different (nonhomogeneous) leap is the one made by God coming into Time, not by us» (Ferreira, 1998: 218). É o exemplo do Deus-homem que Kierkegäard pretende que seja seguido na vivência autêntica do cristianismo.



  3. Kierkegaard makes use of the notion of contractio Dei […] The free and independent finite being emerges as such from the continuity of God’s omnipotence only to the extent that God holds himself back or withdraws» (Kodalle, 1988: 400).



  4. Tal conceção encontra-se nos antípodas das transições dialéticas em Hegel que subscrevem a continuidade, ausente no salto qualitativo em Kierkegaard e em cuja obra poder-se-ia aplicar, na melhor das hipóteses, a noção de dialética existencial, mas nunca no sentido hegeliano de um sistema completo. Contudo, não é salutar que se proceda à exoneração de Kierkegaard a toda e qualquer influência de Hegel: «It would not be susprising if Climacus, or other voices […] were to incorporate Hegelian insights so that the critique would truly be an Aufhebung, a cancellation that preserves and a preservation that cancels» (Westphal, 1998: 103).



  5. Cf. Sofia Miguens, Uma Leitura da Filosofia Contemporânea. Figuras e Movimentos. 2019, p.112.


A Caricatura e a Inteligência Artificial

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A indignação pífia de algumas jovens “tudólogas” com caricaturas feita com IA numa rede social leva-nos a revisitar um pouco a história do género, onde estabelecemos que aquelas em nada diferem da tradição de representação humorística de figuras públicas, e que a sátira é permitida tanto na lei portuguesa como nas plataformas sociais em geral.

É uma indignação, sem qualquer fundamento credível, que levou inclusive à censura de uma peça originalmente autorada por @vonderranter, na rede social X. Tratava-se de uma montagem vídeo feita por inteligência artificial onde estavam presentes três comentadoras do podcast Lei da Paridade envoltas em beijos e carinhos, representação que não viola nem as políticas da rede nem a legislação portuguesa.

Analisando um pouco melhor a substância de tais indignações infantis, convém sublinhar que uma vídeo montagem com três pessoas a darem as mãos e a beijarem-se não é um “ataque pessoal”: é uma caricatura, uma brincadeira inofensiva sem problema nenhum numa democracia liberal com tradições normais de humor. Não existe qualquer argumento credível que configure a referida representação como algo de ofensivo. Essa tese é completamente absurda e enquadra-se numa cultura de vitimismo insano que domina parte do discurso público contemporâneo. Não existe de igual modo qualquer “uso indevido” da imagem nestes casos: são caricaturas, diferentes em grau e não em espécie da tradição humorística do ocidente, hoje mal vistas por gerações criadas nessa cultura do vitimismo. A lei europeia protege estas expressões. É um não-assunto.

De resto, e numa reflexão mais abrangente, é importante lembrar também que a liberdade da sátira é fundamental numa democracia liberal e plural. Qualquer representação, por muito bem feita que seja, que não ultrapasse os limites da plausibilidade que poderiam configurá-la como tentativa de difamação enquadra-se nesse campo. Estranhamos profundamente que figuras do comentariado como Adriana Cardoso, Leonor Rosas, Maria Castello Branco, Luís Ribeiro, entre outros, acompanhem tal intuito censório e cheguem a falar de “crime” para o qual não existe qualquer base na lei portuguesa.

A figura apresentada, tal com muitas outras feitas com IA e envolvendo figuras conhecidas, é exatamente da mesma categoria da sátira política e da vida pública, independente de juízos de gosto, como os famosos desenhos de José Vilhena, dos quais destacamos um em baixo. Não consta que, depois de visualizar o desenho, Mário Soares, Francisco Sá Carneiro, Freitas do Amaral ou Álvaro Cunhal o tenham classificado como crime de qualquer espécie e ameaçado acção por meios legais.

As seguintes categorias de crime podem ser válidas perante certos deepfakes: usurpação de identidade, difamação ou injúria, falsificação, devassa da vida privada, coação e ameaça, discurso de ódio, gravação e fotografia ilícita, ou burla. Nenhuma se aplica ao caso. Pedimos assim aos que alegaram que a caricatura se trata de um crime e de violação das políticas da plataforma que justifiquem o que pensam, apontando os artigos em específico correspondentes à infração. Em baixo podem ver a ilustração que levou a um processo judicial do reverendo Jerry Falwell sobre o pornógrafo Larry Flynt, caso que chegou ao supremo tribunal dos Estados Unidos — famosamente retratado no filme de 1997 de Milos Forman, The People vs. Larry Flynt. Uma das chaves do argumento da defesa nesse caso foi a plausibilidade da representação — ninguém de bom senso acreditaria que o relato em baixo se trataria de um relato verdadeiro, como, de igual modo, ninguém de bom senso acreditaria que a representação das três moças em cima se trataria de uma representação verdadeira.

Em baixo podem ver outras representações que se enquadram exactamente no mesmo tipo. Convém assim concluir sublinhando duas coisas. Primeiro, a tecnologia da inteligência artificial para produzir fotografias e vídeos é ainda relativamente nova, mas parece claro que por muita verosimilhança que possam exibir as suas produções, o argumento decisivo para classificá-las como difamatórias ou atentatórias contra a honra não é o de essa mesma verosimilhança mas sim o da plausibilidade das representações. Alguém que represente o Papa Francisco aos beijos com o Ayatollah Khoemeni não estará a incorrer nesse caso, pois ninguém de bom senso acreditaria tratar-se de uma filmagem verdadeira; mas alguém que represente o político Fernando Medina aceitando uma mala de dinheiro com subornos com o intuito de prejudicar a reputação estará com grande probabilidade a incorrer num crime de abuso de imagem e difamação.

Por último, seguem-se alguns elementos da legislação europeia pertinentes para o caso, elementos esses que estabelecem a devida liberdade de uso de imagens públicas para fins artísticos, entre os quais se conta a sátira. Do GDPR, “Members shall by law reconcile the right to the protection of personal data with the right to freedom of expression and information, including processing for journalistic purposes and the purposes of academic, artistic or literary expression.” Da directiva 2019/790, “allowed content for the purposes of quotation, criticism, review, caricature, parody or pastiche (…) striking a balance between the rights laid down in the Charter, as the freedom of expression and arts, and the right to property.” E da jurisprudência do ECHR: “satire is a form of artistic expression and social commentary which (…) aims to provoke and agitate. Any interference with the right of an artist to use this means of expression should be examined with particular care”.

No seguimento deste episódio parvo, a Revista Minerva Universitária convidou e convida todos os produtores de conteúdos a inundarem essa rede e a esfera pública em geral com conteúdos semelhantes sobre figuras da nossa praça. Voltamos a sublinhar: a sátira é permitida tanto na lei portuguesa como nas plataformas sociais em geral. Sugerimos que se foquem no universo da “tudologia” e nas suas figuras mais inúteis e mais vaidosas, das tvs, dos jornais, dos podcasts e das redes. Caricaturas de pessoas da nossa equipa ou de projectos pequenos como Despolariza ou Página Um são também bem-vindas.

Crítica: A Escuridão Branca de David Grann

David Grann conta-nos o nosso sonho, espelhando, melhor do que o que seríamos capazes de expressar, o desejo surdo de conquista sobre a Natureza e sobre a Morte. Além desta fabulação a todos comum, conta-nos “uma história sobre coragem, obsessão e amor.” Conduz-nos, como que num trenó, pela vida em expedição de Henry Worsley.

Trago-vos este livro, A Escuridão Branca, por acreditar que a “atração das pequenas vozes” de que nos fala Shackleton, citado por David Grann, determinam largamente a forma como conduzimos a nossa vida. Henry Worsley talvez fosse assombrado por vozes não tão pequenas assim, pois uma boa parte de nós nunca cometerá as loucuras a que este explorador se votou. Sim, esta é, também, uma história de loucura.

“Trata-se de algo que todos podem compreender. Uma vitória do espírito e da força humanos sobre o domínio e os poderes da Natureza; uma façanha que nos eleva acima da imensa monotonia da vida quotidiana; uma vista para planícies cintilantes, com montanhas altas recortadas pelo frio céu azul, as terras cobertas por camadas de gelo de extensão inconcebível…o triunfo dos vivos sobre a esfera hirta da morte.” (Fridtjof Nansen)

Face à “esfera hirta da morte”, será a história de Henry Worsley de triunfo?

A expedição Nimrod, comandada por Shackleton entre 1907 e 1909 ficou marcada por um sabor agridoce. O objetivo de alcançar o Polo Sul não foi alcançado, embora de todas as partes fosse reconhecida competência ao líder. Aliás, foi isso mesmo que garantiu o regresso da equipa: receando pelo bem-estar dos colegas, Shackleton tomou a difícil decisão de abdicar do objectivo, e regressar em segurança. Entre o seu falhanço de conquistar o Polo e uma possível segunda tentativa, outros foram à conquista do ponto mais inóspito do planeta, deixando-lhe como única possibilidade de fazer história a travessia da Antártida. Acometido pela derrota, ainda que sem ser capaz de acalmar as “pequenas vozes”, arquitetou conjuntamente com 28 outros homens uma nova expedição: uma travessia transantártica, que parecia ser a única muralha de gelo a ser derrubada. O início da expedição foi atribulado, com os Elementos a não colaborarem, obrigando-os a abandonar o navio que os levaria ao início da caminhada. Carregaram os pequenos botes salva-vidas com os seus pertences essenciais, planeando arrastá-los pelo gelo, o que não foi possível dado o peso excessivo. Mantiveram-se durante meses acampados numa ilha de gelo e, quando esta finalmente começou a derreter, reiniciaram a sua navegação. Por esta altura, os exploradores estavam já esgotados; novamente, Shackleton tomou a decisão de abdicar do objectivo. Deixou a maior parte do grupo acampado na Ilha Elefante, fazendo-se acompanhar por apenas dois homens, para pedir ajuda a uma estação baleeira, o que conseguiram após longas diligências burocráticas. Regressando com a equipa de socorro, temiam que parte do grupo ou até a totalidade tivesse perecido. Na aproximação à ilha parecia ser mesmo essa a realidade. Contudo, pequenos pontos em número crescente começaram a ser avistados: todos tinham sobrevivido.

Shackleton não foi um líder polar bem sucedido, se considerarmos milhas percorridas. Talvez possamos dizer que foi um vencedor no que diz respeito ao número de vidas salvas e, ainda mais, no que se refere ao número de vidas que inspirou.

Citando um explorador polar que com ele trabalhou: “(…) numa situação desesperada, quando não parece haver saída, o melhor é ajoelharmo-nos e rezar pelo Shackleton”.

Falemos agora de uma dessas vidas: a de Henry Worsley.

As “pequenas vozes” de Henry começaram a seduzi-lo graças ao conhecimento que tomou das aventuras de Shackleton. Devorou tudo quanto encontrou acerca dele, e, enquanto não concretizou as suas expedições, esse desejo esteve sempre nele latente.

Furtar-me-ei a relatar como surgiu a oportunidade de fazer a expedição ou pormenores de ordem mais prática, uma vez que o espaço é limitado, e, apesar de todo o fascínio que nisso encontro, parece-me ser o menos interessante para o Leitor.

Worsley, com mais dois companheiros, Gow e Adams, iniciou a 30 de Outubro de 2008 a sua primeira expedição polar, com o objectivo de chegar ao Polo Sul. Na chegada ao ponto de partida, os três sentiram-se avassalados pela imensidão branca:

“O que estávamos prestes a empreender foi-nos dado abruptamente a perceber naqueles instantes. Nenhum de nós disse uma palavra.”

Perceberam naquele momento que as dificuldades seriam indescritivelmente bizarras. De crevasses a hipotermias, as formas de perecer pareciam não terminar. Ali, jogava-se numa roleta em que todas as opções escondiam um veredicto: a Morte.

A liderança de Worsley procurava, à semelhança da de Shackleton, manter “uma consciência de humanidade”, fosse fomentando coisas tão básicas como lavar os dentes, fosse incentivando os jogos de cartas ou a escuta de música durante as intermináveis caminhadas, pois, como dizia com frequência, a força está na mente, e essa não se mantém sã olhando incessantemente para um “infinito interminável”. Assim, foi procurando manter os colegas motivados e otimistas, cumprindo o que haviam previamente acordado: não existiriam egos. Gow e Adams cumpriram- no aceitando, quando precisaram, a ajuda uns dos outros. O mesmo não se pode dizer de Worsley, que vendo o cansaço dos outros se recusou a aceitar a ajuda de Adams para carregar parte da carga do seu trenó, que rondava os 140 kilogramas. Como resolveu este problema? Abandonando as refeições-emergência, sem as quais poderia vir a passar fome. Worsley não foi capaz de engolir o orgulho, apesar de a sua vida poder vir a depender disso. Apesar de a sua família o esperar em Inglaterra.

Após 66 dias, chegaram a um reduto de humanidade no Polo Sul, encontrando primeiro uma máquina de lavar roupa avariada, e uns metros à frente uma base de investigação. Regressaram em segurança.

Se fossem o Henry, ou se fossem vocês mesmos, ficariam por aqui? O vosso desejo de triunfar sobre a “esfera hirta da morte” levar-vos-ia a fazer algo mais?

Pois bem, também ao Henry. A “monotonia da vida quotidiana” estava condenada a ser irrompida pelo inconformismo deste explorador. Em 2015, tendo já empreendido todo o tipo de expedições antárticas, escolheu um derradeiro desafio: atravessar a Antártida sozinho, em 80 dias. Escusado será dizer que, ao longo da viagem, os obstáculos se agigantaram, enquanto a força física de Worsley se esvanecia. Os apontamentos do seu diário são tortuosos para quem lê (imagine-se para quem escreveu…). As entradas foram-se tornando cada vez mais sofridas, progressivamente mais toldadas pela “escuridão branca”: de “dias duros” até “Não sou, pura e simplesmente, capaz de ir mais longe (…)”, ou “Desesperadíssimo…a esvair-me (…)”. São numerosas as confissões de sofrimento, todavia acompanhadas em paralelo por comunicações, via rádio, esperançosamente otimistas, pelo menos até certo ponto.

A leitura dos últimos capítulos de “A Escuridão Branca” mostram-nos essencialmente a imagem de alguém que viaja sozinho num deserto com 2300 metros de altitude. É das partes mais

impressionantes, uma vez que espelha os pensamentos de um homem que repete desafios a que respondera acompanhado, desta feita, sozinho. O contraste no sentimento de desgaste é chocante. Nas primeiras expedições, o desgaste parecia ser engolido por uma quarta força que acompanhava os três exploradores, libertando-lhes peso dos trenós. Aqui, o peso consome-o, fá-lo sucumbir, muito embora seja alguém dotado de uma força inimaginável.

O orgulho, ou “obsessão” como é apelidado na capa do livro, toldou-o. Depois de falar com a mulher pelo seu telemóvel satélite, quando já mal se conseguia mexer, premiu, finalmente, o botão que o levaria na “viagem de táxi mais cara do mundo” de volta à humanidade. Já a salvo, mostrou-se entusiasmado com tudo o que faria depois de recuperar, não antecipando, ou não querendo antecipar, o que foi um diagnóstico terminal. Henry Worsley viria a morrer um dia depois de ser resgatado, a 24 de Janeiro de 2016.

Li este livro num folgo. A vida de Worsley é mesmerizante. Mas não posso deixar de notar que uma boa parte das suas decisões me deixam perplexa: o sonho leva o Homem a conduzir a sua vida até às últimas consequências? Um homem descrito como tão devoto à família arrisca a sua vida de forma tão drástica?

São essencialmente estas duas questões que me assolam. Quando li o livro pensei em mim a tomar as mesmas decisões, imaginei que o meu desejo de superar a Morte ou o meu esgotamento fosse tal que não soubesse decidir melhor. Contudo, eu não tive o treino militar duríssimo a que Worsley foi sujeito, eu não me preparei para fazer uma viagem à Antártida, eu não tenho o estofo dele. Ademais, o seu herói abdicou de todos os seus objectivos pela Vida, sua e dos seus companheiros. Porque é que Worsley não seguiu a máxima de Shackleton que ditava que “Um burro vivo é melhor do que um leão morto (…)”? Morrer pela causa da sua vida, sabendo que não terá nem oportunidade de tentar novamente, nem oportunidade de aproveitar o tempo que lhe resta com os que ama, é A Escolha? Saber que os seus filhos e a sua mulher nunca poderão ouvir as suas histórias não o fez ser mais cauteloso? Será que, simplesmente, perdeu o controlo?

Assusta-me e fascina-me como é frágil este equilíbrio em que nos encontramos. Somos realmente como o funâmbulo de Nietszche, balanceando pela praça, com medo da rajada de vento. Se fossemos acometidos por uma paixão tão intensa como a de Worsley, deixaríamos que a rajada nos fizesse cair?

Deixo-vos com um excerto de Giorgio Agamben acerca do que é ser-se contemporâneo, que talvez, de alguma forma, explique as escolhas de Henry Worsley. Em que momento temporal é que ele se terá projetado face à sua arké?

“(…) aquilo que impede o acesso ao presente é precisamente a massa daquilo que, por alguma razão (o seu carácter traumático, a sua extrema proximidade), neste não conseguimos viver. A atenção dirigida a esse não- vivido é a vida do contemporâneo. E ser contemporâneo significa, nesse sentido, voltar a um presente em que jamais estivemos.”

Laicidade, Afonso Costa e a mensagem de Fátima (1910 – 1920)

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“Um jesuíta a caminho da prisão”, fotografia retirada do Jornal Público – O Estado deve pedir desculpa à Igreja Católica pelos erros da I República? – artigo de António Marujo, 17/04/2011

UM PAÍS QUASE SEM DEUS – O espírito laico, as políticas de Afonso Costa e a mensagem de Fátima [1910 – 1920]. Trabalho originalmente produzido na Escola de Ciências Sociais Licenciatura em História para o Seminário em História, sob a orientação da Professora Doutora Maria Fátima Nunes. A influência da cultura republicana é uma questão pertinente, apesar de se haver discorrido na Monarquia Constitucional, precisamente na segunda metade do século XIX. Portanto, centrados na problemática das leis persecutórias, tentaremos compreender a relação ambígua entre o republicano e o sacerdote, num período marcado por rigorosas especificidades, e de que modo a obediência e a resistência definiram a complexidade no panorama sociopolítico por estas duas instituições. Não obstante, os estudos existentes sobre a Primeira República não olharam de forma directa pelo prisma transnacional que propomos ao leitor com este trabalho; isto é, fá-lo-emos através da análise das bases constituições de 1911, conjugando a essência da política afonsista e, sobretudo, as advertências emanadas pela Santa Sé, especificamente as de Pio X e Bento XV. No fundo, o foco cinge-se nesta questão: quais foram os mecanismos que a Igreja adoptou, como um suposto movimento de reorganização e “revalidação”, no novo contexto da História Constitucional Portuguesa? Palavras-chave: Primeira República; Afonso Costa; Igreja Católica; Obediência e Resistência.

“Quem não sabe que, desde que tomou a forma de uma república, o governo dessa nação [Portugal] imediatamente se comprometeu, de uma forma ou de outra, a decretar tais coisas que manifestam um ódio insaciável à religião católica?”1

1 Papa Pio X, Carta Encíclica “Iamdudum in Lusitana”, Arquivo da Santa Sé, vol. III, nº7, 1911, p. 217

Índice

RESUMO 7

  1. INTRODUÇÃO 9
  2. ESTADO DA ARTE 12
  3. SITUACIONISMO POLÍTICO-RELIGIOSO NA EUROPA DO SÉCULO XIX 14
    1. IMPORTÂNCIA DO CATOLICISMO NA MENTALIDADE PORTUGUESA 16
      1. A “QUESTÃO ROMANA” EM PORTUGAL 18
    2. AS RELAÇÕES ESTADO E IGREJA NA MONARQUIA CONSTITUCIONAL 21
  4. O TRIUNFO DA PRIMEIRA REPÚBLICA: OS PRIMEIROS ANOS E LEIS 23
    1. “DEUS” SEGUNDO OS IDEAIS REPUBLICANOS 26
    2. A INQUIETAÇÃO DO PAPA PIO X: INSTAURARE OMNIA IN CHRISTO 28
      1. NECESSIDADE DE ORGANIZAR E REAFIRMAR A FÉ 30
  5. PERSONALIDADE POLÍTICA DE AFONSO COSTA 34
    1. UM CLERO “QUASE SEM DEUS” 37
  6. BENTO XV E A PROBLEMÁTICA NO RECONHECIMENTO DA REPÚBLICA 39
    1. A MENSAGEM DE FÁTIMA COMO UM FACTOR SOCIAL E POLÍTICO 41
  7. CONCLUSÃO 43

FONTES E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 46

ANEXOS 48

ÍNDICE REMISSIVO 52

Resumo:

A influência da cultura republicana é uma questão pertinente, apesar de se haver discorrido na Monarquia Constitucional, precisamente na segunda metade do século

XIX. Portanto, centrados na problemática das leis persecutórias, tentaremos compreender a relação ambígua entre o republicano e o sacerdote, num período marcado por rigorosas especificidades, e de que modo a obediência e a resistência definiram a complexidade no panorama sociopolítico por estas duas instituições. Não obstante, os estudos existentes sobre a Primeira República não olharam de forma directa pelo prisma transnacional que propomos ao leitor com este trabalho; isto é, fá-lo-emos através da análise das bases constituições de 1911, conjugando a essência da política afonsista e, sobretudo, as advertências emanadas pela Santa Sé, especificamente as de Pio X e Bento XV. No fundo, o foco cinge-se nesta questão: quais foram os mecanismos que a Igreja adoptou, como um suposto movimento de reorganização e “revalidação”, no novo contexto da História Constitucional Portuguesa? Palavras-chaves: Primeira República; Afonso Costa; Igreja Católica; Obediência e Resistência.

Introdução

“[…] Porque o cristianismo, já o disse, é por essência uma religião histórica: quero dizer, uma religião cujos dogmas primordiais assentam em acontecimentos.”

– BLOCH, Marc, Introdução à História, Colecção Saber: Publicações Europa-América, 3ª Edição, Lisboa, 1976, p. 32.

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Figura 1 – Manifestação anticlerical em Lisboa, ano de 1912.

Como tudo, também este ensaio científico tem a sua importância. Por diversas particularidades, e pelo tempo da sua elaboração, este trabalho acaba por retratar, antes de mais, um caminho de pesquisa e reflexão sobre a política, a sociedade, as mentalidades e o catolicismo em Portugal na época contemporânea. Não se traduz numa novidade exaustiva dos acontecimentos, reputados como complexos e controversos, das disputas ideológicas no momento da transição entre a Monarquia Constitucional e a Primeira República, através de uma cronologia marcada pelos finais do século XIX e inícios do XX. O propósito primordial deste trabalho é o entendimento, por intermédio do estudo da personalidade política de Afonso Costa [1871 – 1937], acerca do campo religioso durante os primeiros dez anos da república, transparecendo uma heterogeneidade de acções e comportamentos no âmbito cultural e político e, conjuntamente, tornar perceptível as formas de adaptação, organização e reafirmação da vivência religiosa no quadro social português.

Este trabalho desenvolve-se em torno do trajecto que, sendo a muitos níveis bibliográficos, procura retirar-se à banalidade de acreditar numa possível adinâmica, no que toca a uma nova problemática – a “acção católica” -, ou de se limitar a uma visão repleta de fronteiras sobre um período e respectiva circunstância sociopolítica – a queda do regime monárquico e a implantação da República. Almeja-se, essencialmente, definir uma referência para a caracterização de uma base discursiva interpretativa, necessitando, com a maior exatidão possível, os argumentos que propiciam esboçar uma memória crítica em derredor do poder político, mas ao mesmo tempo, a religião como manifestação social, já que ela integra, desde os tempos fundacionais, na consciência nacional. A percepção desta metodologia requer a vinculação das situações internas da sociedade portuguesa com a realidade vivida em outros pontos da Europa, ou seja, englobar a actuação do secularismo francês e liberal nos tempos da Monarquia, e a tentativa de afirmação do Papado e do alto clero no processo de “recatolização” face ao espírito laico republicano, instrumento esse, vítima de múltiplas influências.

Percorrendo todo o século XIX, desde a célebre Revolução de 1820, levada a cabo pelos vintistas, nomeadamente as várias investidas para uma estruturação de cariz liberal no mundo da política, causadora de transformações sociais, pusera em dúvida não só – ou melhor –, não propriamente as crenças em si, mas a dimensão e o forte controlo exercido pelas autoridades eclesiásticas perante os valores do progresso. Logo, o cenário católico contemporâneo tem sido abordado sob numerosos pontos-de-vista, com especial atenção nos laços firmados no plano colectivo, cuja primazia assenta nas relações entre o Estado e a Igreja. Constata-se, porém, uma predisposição bastante difusa de tentar depreender a conduta dos responsáveis da Igreja ou do movimento social católico, como um habitual espelho das atmosferas católicas estrangeiras ou como uma vulgar reacção às outras manifestações de convicção, de raciocínio e de acção, notadamente as que declaravam posições incompatíveis com a Igreja Católica, e rapidamente se comprimem estas temáticas a uma dialéctica entre forças reacionárias e modernas, enfatizando um parecer dualista no campo historiográfico. Importa, ainda assim, perceber o catolicismo e o seu desempenho como um todo e não, por meio dessa interpretação, evidenciando grupos ou individualidades isoladas, arquitectar uma perspectiva bipartida; isto é, de um lado, o saudosismo e, de outro, o progressismo –, fatalmente abreviativa das proporções internas e externas na esfera da Catolicidade. Não desvalorizando por completo esta proximidade à realidade, aparenta ser propício englobar o papel dos católicos na complexificação da chamada identidade nacional: examinar, com o auxílio de outras áreas do saber, as mentalidades inseridas no âmago do catolicismo, tendo em consideração a nova roupagem aquando da passagem do século XIX para o XX.

Tenciona-se, por conseguinte, determinar a devoção católica e os seus agentes nas marés dos debates e das matérias político-ideológicas existentes, melhor dizendo, repensar as estratégias praticadas pela Igreja em Portugal, detentora de uma vultosa agremiação de fiéis e parte integrante da sociedade, considerava o país como realidade nacional e, paralelamente, como é que o corpo social, nos seus profusos quadrantes, continha ou desarmonizava a Igreja. O intuito é expor o universo católico, na sua incompreensibilidade, uniformidade e pluralidade, incorporado na maneira de como se reorganizou e revisou a ânsia de se recuperar a sociedade. Alcançar o entendimento sobre estas vicissitudes, possibilita interpretar positivamente a evolução do “credo romano” contemporâneo e as suas tipicidades em território português, favorecendo uma

observação mais adequada de como ele foi um componente causador no arquétipo social portuguese novecentista.

O catolicismo nem por proveito de análise pode ser entendido como uma realidade impartível ou totalmente homogénea. Aplicá-lo como um factor simplista é não admitir que há múltiplos pormenores pouco aprofundados, ou mesmo em parte desconhecidos: o pensamento, os modelos pastorais, a religiosidade popular, os atentados à formação do clero e do ensino público, as divisões no seio eclesiástico, a diversidade dos protestos eclesiais, entre outros. O terreno é amplo e, porque o é, torna- se um risco efectuar generalizações imoderadas ou, por estas não estarem clarificadas, alentar a insipiência de propriedades relevantes do viver colectivo.

Recorrendo a este enfoque, torna-se imperioso afirmar que a História, enquanto ciência social e humana, não se inclina sobre realidades universais e especulativas, mas de desenvolvimentos compostos por grupos e pessoas, agindo e configurando continuidades e rupturas, cuja dimensão se contempla numa longa duração, sem olvidar do horizonte o tempo curto e a conjuntura. Na sua singularidade, as mundividências religiosas são áreas complexas do íntimo de cada ser-humano, correlacionadas às razões do agir. De facto, o típico padrão da acção é característica basilar da desenvolução religiosa no século XIX, enquanto mecanismo de legitimação de utilidade social.

Na verdade, cometeríamos uma falha em querer subjugar a problemática religiosa na sociedade contemporânea a uma vivência de fé meramente individual; esta vivência coincide absolutamente a uma mundividência, a um tipo de perspectiva. O dilema principal é o lugar que envolvem, nesse processo de vivência, as intervenções, a todos os graus da realidade: desde o institucional ao pessoal. O cristianismo e a sua concepção estão no cerne de consideráveis discussões da Contemporaneidade, com exclusivo realce quando se trata de pensar a sua razão de existência no país, segundo o contexto social, se jogam, concomitantemente, as acções – as sociabilidades – quer confessionais ou políticas.

Por fim, este trabalho tende a analisar a problemática social e a mudança dos regimes políticos, interessando-se no posicionamento religioso: isto significa que busca alcançar o entendimento acerca da prevista descontinuidade no âmbito constitucional, jurídico e administrativo, a partir da componente religiosa enquanto sintoma distintivo. Para corporificar o objecto de estudo, considera-se a influência do episcopado

português, o qual, sendo complexo, é, de certo modo, também exemplar, na medida em que adopta estratégias, dentro e fora do campo católico, e porque exterioriza determinados assuntos ou disfunções político-religiosas representadas neste sentido.

Estado da Arte

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Figura 2 – Caricatura de 1914 mostrando Afonso Costa a estrangular os jesuítas e ameaçado pela serpente do Vaticano.

De modo a materializar este ensaio científico, apresentando diversas perspectivas sobre o objecto de estudo, anteriormente referido e clarificado, a aposta por uma investigação actual e receptiva perante os desenvolvimentos historiográficos no mundo académico português pós-2010, passamos a salientar as três análises ou reflexões que foram primordiais para um conhecimento alargado e coerente: Religião na sociedade portuguesa de Alfredo Teixeira2, Afonso Costa de Filipe Ribeiros de Meneses3 e A resistência e o acatamento à República no seio do clero português de Maria Lúcia de Brito Moura4. No fundo, e de modo a justificar a relevância que cada um representou para a concretização do trabalho, cabe afirmar que estes oferecem bases para uma memória crítica, mas ao mesmo tempo, um prisma de muitas faces sobre a Primeira República que muitos de nós desconhecemos, abdicando por completo a possíveis anacronismos ou observações de cariz pessoal ou ideológico; isto é, a capacidade interpretativa e rigorosa, são um dos factores pela escolha aqui exteriorizada.

Primeiramente, Alfredo Teixeira fornece-nos suportes informativos vitais na compreensão da mentalidade católica em território nacional, assinalando, visivelmente, o contraste entre o meio urbano e rural. Expõe as mais variadas características no âmbito da vivência da fé, especificamente nas consciências dos portugueses, evidenciando a religião como um elemento absolutamente fundamental e indispensável na construção da suposta identidade nacional, cuja utilidade, na maior parte das vezes, destinou-se à legitimação do poder político, mas sobretudo, no controlo das mentalidades, reflectindo-se nas inúmeras tradições, hábitos de vida e crenças muito particulares numa determinada região. Contudo, esta realidade não é imutável, mas de uma natureza repleta de oscilações, conservando, a sua essência como uma espécie de herança plenamente enraizada.

Numa segunda menção, Filipe Ribeiros de Meneses dedica-se a uma análise de índole sociopolítica, concretamente a personalidade governativa de Afonso Costa, um dos pioneiros na edificação da cultura republicana e responsável pelas leis persecutórias ou na desenvolução do espírito laico. Com efeito, proporciona uma reflexão do impacto jurídico, constitucional e socio-religioso, segundo os seus almejos político-ideológicos, questionando a pressuposta “ruptura profunda” com a Monarquia Constitucional, avaliando o dinamismo no contexto político e religioso, susceptíveis às transmutações naturais do tempo, das quais originaram inquietações por parte do Papado, e a necessidade de reafirmar a fé católica como resultado das posições controversas do Governo Provisório e adjacentes, amenizando uma possível crise de legitimidade.

Sob outro ponto-de-vista bastante curioso, Maria Lúcia de Brito Moura presenteia-nos com uma observação que ultrapassa as fronteiras, precipuamente o enigmático papel do exterior na edificação e oposição em derredor da Primeira República. Não obstante, faz-nos repensar a problemática no seio eclesiástico português, englobando as suas pluralidades e, consequentemente, os desentendimentos no reconhecimento do novo sistema político e as suas condutas; em outras palavras, no âmago do corpo clerical, verificou-se um sentimento dicotómico – resistência ou obediência -, tendo em vista o baixo clero, já que este se encontrava dividido, no que concerne às directrizes estabelecidas pelos seus bispos diocesanos no reforço dos interesses tradicionais da Igreja, encarados como antagónicos à moral afonsista.

Por último, e atendendo à magnitude de assegurar um ângulo transnacional a propósito desta temática, contribuindo para um novo vigor e amplificando novos caminhos para a investigação, propondo questões renovadas, destacam-se duas fontes primárias emanadas pela autoridade pontifícia: Encíclica Iamdudum in Lusitana do Papa Pio X e a Carta do Papa Bento XV para o cardeal-patriarca de Lisboa, arcebispos e bispos de Portugal em 1918, esta última facultada pelo Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa [CEHR-UCP]. Dito isto, estas intervenções oriundas do centro do poder católico viabilizaram uma metodologia fundamental e complementar diante daquilo que regularmente tinha sido analisado; isto é, a ambição de percorrer um trilho desafiante e complexo resultou num aprimoramento da elaboração deste trabalho, em relação às novas formas de reflectir, comparar e explorar os múltiplos rostos da filosofia e da legislação republicana, contribuindo para o amadurecimento historiográfico.

Situacionismo político-religioso na Europa do século XIX

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Figura 3 – Assinatura da Lei de separação do Estado das Igrejas pelos membros do Governo Provisório.

O século XIX marcou significativamente toda a dinâmica europeia, dando uma nova roupagem à estrutura social, política, económica, religiosa e até ao próprio pensamento [crescimento dos ideários liberais, socialistas e comunistas, estes dois últimos integrados nas utopias do espectro político-ideológico]. Consequentemente, a existência destes movimentos, sobretudo de índole intelectual, fez com que a Igreja Católica se confrontasse com problemáticas muito particulares que, sem sombra de dúvida, teve de procurar meios eficazes para combater o processo de descristianização do Ocidente, através de reformas espirituais, organizacionais e, por fim, o desenvolvimento do espírito diplomático, cuja finalidade passava por produzir métodos de amenização nos diferentes Estados da Europa.

De modo a salientar os procedimentos de diminuição no que toca à descristianização da Europa Ocidental, daremos como exemplo fundamental a França. Após a abdicação de Napoleão Bonaparte e o seu exílio que era controlado minuciosamente pelas forças britânicas na ilha de Santa Helena, incluindo o facto dos Bourbon terem regressado ao trono francês5 sob o frescor e o triunfo do liberalismo, notou-se que a população francesa estava cada vez mais afastada dos preceitos e da prática católica. No entanto, a Igreja que aproveitara o afastamento definitivo de Napoleão, teve como principal intento “recristianizar as massas populares”, por intermédio de várias soluções tais como6: remodelar a composição dos seminários, fossem eles maiores ou menores; a selecção cautelosa dos clérigos, havendo a prioridade na escolha de sacerdotes que eram detentores de um espírito tradicionalista; fomento das missões internas, levando para diversas zonas da França a dita Palavra de Deus e a “reconversão” dos católicos afastados dos seus deveres religiosos; e, por último, o incentivo e o forte crescimento do número de ordenações sacerdotais.

Perante todas estas acções, questionamo-nos: com a recristianização e adaptação ao novo contexto político, tendo em conta as influências liberais, podemos afirmar que nasceu um novo tipo de catolicismo? A resposta para esta pergunta é muito fácil de ser compreendida; isto é, surgiu na França uma nova corrente do pensamento católico, os

chamados “católicos liberais” da década de 30 do século XIX, dos quais carregavam os ensinamentos de Lamennais e que se difundiu por todo o mediterrâneo. Aliás, os mesmos acreditavam na possibilidade de conjugar o Liberalismo com a Doutrina Católica, de modo a não renunciar o ponto-de-vista antropocêntrico7, justificando pelos meios políticos e económicos, a liberdade individual e do pensamento, a igualdade perante Deus e a lei dos homens, e nos casos mais radicais, advogavam a separação da Igreja e do Estado8, frisando que toda a estrutura eclesiástica deveria submeter-se ao conhecido “direito comum”. Porém, estes argumentos e movimentos filosóficos de cariz reformista foram rapidamente condenados pela Santa Sé9, principalmente a crença de que todos os credos deviam ser abertamente aceites, praticados publicamente e, em especial, sem excepção, levariam à mesma salvação.

No campo ideológico, este relevante e necessário para entender toda a polémica que abalou a mentalidade católica europeia, o século XIX remonta a um tempo em que os grupos operários vêem-se extenuados e vítimas dos interesses económicos da burguesia, formando diversas injustiças sociais. Logo, este esgotamento originou novas linhas do pensamento político, notadamente os socialismos utópicos [destaca-se Karl Marx e Engels] e mudanças sociais, nas quais a alma revolucionária fora apregoada como meio primordial no combate a essas circunstâncias que tinham como principal alvo as elites económicas. Desse modo, e no âmago da Catolicidade, a Igreja Católica defrontou-se com esta agitação social que fez com que os Estados europeus, exclui-se a Inglaterra e a Rússia, interrogassem a essência e a relevância da religiosidade no âmbito sociopolítico, ou seja, a tendência na defesa do anticlericalismo10 tornou-se, inquestionavelmente, um factor apavorante para todo o seio clerical.

Entretanto, e como referido inicialmente, a Santa Sé sentiu a obrigação de desenvolver o seu espírito diplomático. Para isso, e dando como exemplo a Alemanha, cujo território estava à sombra da autoridade de príncipes protestantes, os católicos alemães exigiram negociações para acabar com o sentimento de discriminação, de modo a implementar uma renovação interna, mas de preferência a obtenção de acordos

pacíficos11; isto é, a personalidade positivista alastrou-se por todo o continente, coligando-se com a franco-maçonaria republicana e racionalista, e ao mesmo tempo, o Cristianismo liberal apostolava uma religião sem base dogmática12, a ausência de autoridades sacerdotais, o livre pensamento, o materialismo, o niilismo de Nietzsche, entre outros. De facto, estamos perante uma transmutação da mentalidade, outrora regida pelos costumes do cristianismo tradicional, que preocupava em absoluto a Igreja. Sumamente, este tipo de vicissitudes caiu sobre Portugal desde as invasões napoleónicas, passando pela primeira. Com a instituição do Reino em 1822 [índole radical e vintista] e, por consequência, a queda da sociedade do Antigo Regime; por outro lado, a Primeira República, nosso objecto de estudo, agiu com mais firmeza nas directrizes dos classificados “ataques dos intelectuais hostis ao Catolicismo”13.

Importância do Catolicismo na mentalidade portuguesa

Para o desenvolvimento de um estudo conciso sobre o impacto da fé católica na mentalidade portuguesa, cremos que foi incontornável o ensaio científico levado a cabo pelo Professor Doutor Alfredo Teixeira14 que, decerto, forneceu-nos suportes informativos substanciais para compreendermos a conflitualidade entre as insistências e as alternâncias do contexto religioso, maiormente na conduta social, caracterizadoras da modernidade portuguesa. Efectivamente, a utilização da sociologia fez-nos abrir horizontes e criar uma leitura transversal do panorama que integra a devoção do povo português15, ou seja, de um modo mais perceptível, tornou-se necessário edificar uma ponte entre o pensamento tradicional e a sua destradicionalização natural que aconteceu16, com maior observância, a partir das mudanças políticas do século XIX: a introdução do princípio constitucional no regime monárquico regido por motivações liberais.

Constatando que Portugal sempre foi um país que exerceu uma atitude de preservação diante da tradicionalidade no campo socio-religioso, enraizando essa

missão nas consciências, quer nos portugueses em território nacional ou além-mar, apresentamos, através de uma reflexão, três questões cruciais. A) Que tipo de repercussões podemos notar diante das diversas dinâmicas ou transformações no meio urbano, político e filosófico? B) Que modelo de modernidade do pensamento religioso nos tipifica, tendo como foco as alterações naturais do tempo, nomeadamente o estímulo e a robustez dos novos estilos de governo e reforma das instituições? C) Por fim, quais são as particularidades proeminentes e específicas da religiosidade em Portugal, sabendo que a religiosidade se divide entre a popular e a oficial, esta última de índole oficial e hierarquizada de colectivo social?

Na verdade, a sociedade portuguesa no seu íntimo esteve sempre vinculada e orientada pelo pensamento católico tradicional, desde “um conjunto de práticas, imaginários e mundividências, relativos a expressões do sagrado, de âmbito local e regional, e com uma particular relação com as estruturas herdadas do campesinato”17; isto é, o desenvolvimento do “pensamento santificado” dos portugueses nasceu no embrião da ruralidade e, com efeito, torna-se interessante repensar e formular, mesmo que laconicamente, um exercício de memória, cuja índole não passa por rupturas, mas de uma continuidade repleta de transformações mediante a natureza do tempo18.

De modo a articular uma resposta entendível sobre as três perguntas de reflexão expressas anteriormente, acreditamos ser possível agregar numa só explicação: a permanência da religião católica em território português, enquadrando as suas instabilidades, conseguiu salvaguardar-se devido ao regime comunitário19 que possibilitou a contiguidade de uma fé que se preocupa e liga a vida e a morte, numa crença reiteradamente celebrada e com as suas regulamentações no quadro colectivo e individual. Proferiríamos, com alguma cautela, que Portugal esteve incorporado numa “economia da dádiva”20, sentindo a inevitabilidade em manter uma relação imperturbável com a Igreja, dado que os acontecimentos históricos transmitiram que o equilíbrio entre os dois poderes [Estado e Igreja] permitiram a sustentação de linhagens familiares, que não só procuraram benefícios espirituais, mas também privilégios, liberdades e a criação de uma imagem favorável em termos sociais.

Em todo o caso, a importância da mentalidade católica na população portuguesa, constantemente dividida entre a ortodoxia e a modernidade21, pode ser olhada numa óptica muito mais ampla. Isto significa que a tradição foi um instrumento de controlo da mudança, porque a tradição traz a mudança, enquanto a mudança transporta a tradição.

A “Questão Romana” em Portugal

No decorrer dos últimos quarenta anos do século XIX, conseguimos observar uma mutação bastante relevante na questão religiosa por toda a Europa, nomeadamente com a “Questão Romana”22 que, apesar de ter tido grande repercussão na Península Itálica, as suas consequências ultrapassaram as fronteiras e foram sentidas em Portugal. Por outras palavras, estamos diante de uma interferência política e intelectual portuguesa23, na qual se criou fortes debates sobre o futuro das relações com a Santa Sé, colocando em causa a sua praticabilidade. De facto, o Concílio Vaticano I trouxe consigo múltiplos conteúdos que não agradaram os diversos Estados Europeus24, incluindo a aprovação da constituição Pastor Aeternus de 18 de Junho de 187025, assinada por Pio IX, cuja finalidade era definir com vigor a infabilidade papal em matéria de fé, mas também assegurar a continuação dos Estados Papais face à ameaça da Casa Real de Saboia perante os seus movimentos de expansão e unificação territorial.

Este recente princípio conciliar – a infabilidade papal – fez soar negativamente no novo contexto político, como por exemplo26: a acção unificadora italiana, oriunda de Piemonte, despertou um comportamento de teor moralístico contra o poder do clero sob a sociedade e a política; por outro lado, os bispos franceses que estavam de acordo com esta nova afirmação do Papado, foram alvos de duras críticas e, sobretudo, gerou-se um conflito aberto e um agravamento das atitudes anticlericais27.

Concretamente, no caso português, notamos que a temática da religiosidade abrigou e produziu um dos procedimentos mais contraditórios após o desmoronamento do Antigo Regime, em particular na esfera social. Inclusive, antes de nos dedicarmos à Primeira República, é imperioso entender que o espírito laico e a sua consolidação teórica frutificou-se devido às problemáticas de cariz político-religioso na Itália, da qual descendeu de movimentos contra a influência da Igreja no âmbito sociopolítico, conferindo-lhe um posicionamento de índole científica que buscava a unidade28, mesmo que no seu interior houvesse algumas divergências ou inúmeras formas de análise e reflexão, existia, definitivamente, uma compatibilidade de actuação no mundo da política e da intelectualidade29.

As conflitualidades da Santa Sé com o Governo Português marcaram os anos 70 e 80 do século XIX, uma vez que o Papado vai tentar reivindicar os seus direitos de Padroado para salvaguardar a sua integridade no Reino de Portugal e, claramente, não perder a sua autoridade, já que esta estava a ser contestada por todo o Ocidente. Contudo, Portugal adoptava pouco-a-pouco o espírito céptico na defesa do património da Santa Sé e na continuação do predomínio do legado papal em território nacional. Tendo em conta estas bases informativas, o que definiu este “espírito céptico”? No interior desta heterogeneidade política, houve uma oposição incessante à autoridade eclesiástica e à figura do Papa por conta das novas regras conciliares, mas também, como referido anteriormente, a forte dúvida no prolongamento ou não das relações diplomáticas com a Santa Sé30; isto é, não é justificável isolar as hostilidades vividas em Itália e em Portugal, posto que em pleno Parlamento Português, orientado pelos ideais liberais, corroborou no processo de unificação italiana e na quebra do poder temporal do Papa31, carregando dois pretextos primários: “Impedir a libertação e a unificação da Itália seria agir contra os ideais liberais”32 e “[…] a opinião liberal não ama o poder temporal, e entende que o Papa se deve ocupar unicamente nos negócios do Céu”33.

Conjugando este posicionamento parlamentar com a corrente do romantismo do século XIX, é perceptível que ambos detinham de uma atitude secularizante e

classificavam o poder da Igreja como um suposto indício prejudicial à soberania de Portugal, no qual acreditavam que a autoridade pontifícia intervinha nos assuntos alheios à religião, logo, tinha uma componente mais política, algo inaceitável no espectro ideológico dos liberais34. Citando caso análogo, Passos Manuel, parlamentarista afamado e com um nível de eloquência singular, defendia uma interrupção definitiva a nível diplomático com a Santa Sé para garantir a “nossa liberdade constitucional”35, instituindo uma querela nas comunicações e nos entendimentos entre os dois países. Efectivamente, com a “Questão Romana”, temia-se dois prováveis cenários: em primeiro lugar, complicações na unidade da Igreja Católica; em segundo lugar, a perda permanente do poder político do Papa, em consequência dos objectivos do novo monarca de Itália. Sem embargo, e para diminuir estas eventuais problemáticas, nasceu uma solução que permanece até aos dias de hoje, ou seja, a criação da cidade do Vaticano36, como um lugar independente e soberano, centralizando-se nessa região, o foco do poder católico e o dogma da infabilidade inteiramente preservado.

Relativamente ao Papa Pio IX, figura fulcral na “Questão Romana”, podemos caracterizá-lo, com alguma segurança, de que o seu papado esteve mergulhado num ambiente inquietante, tanto que o Conde de Tomar qualificava o Colégio Cardinalício ou a Corte Romana, “incomplacente e fanática”37 diante das mudanças políticas na Europa, particularmente o apogeu do liberalismo. No entanto, com o deterioramento em relação à saúde de Sua Santidade, os chamados “Estados Católicos” [Áustria, França, Espanha e Portugal] sentiram-se preocupados com a futura eleição papal, reclamando o “veto de exclusão ou exclusiva”38, destacando-se o grande interesse de Portugal nesta reivindicação, mesmo que, historicamente, não fizeram uso regular deste direito39. Melhor dizendo, apoquentava a estes países a sucessão apostólica e a personalidade daquele que seria o novo ocupante do Trono Petrino perante as transformações políticas europeias, e que, naturalmente, ansiavam por um Papa de carácter benevolente e reformista. De qualquer forma, não deixa de ser curioso que apesar de Portugal ter sido governado pelo Liberalismo, cuja política defendia doutrinariamente a separação do

Estado-Igreja, reafirmando um dos seus princípios, isto é, a tolerância religiosa40 como um factor de desenvolvimento social e contrário à tradição católica41; e mesmo assim, quiseram assegurar o privilégio de veto para interferir no resultado do conclave, caso este não agradasse os desejos do Governo Português.

Devido ao perecimento de Pio IX, os cardeais reuniram-se em conclave para proceder à eleição do novo Vigário de Cristo. Por intermédio das leituras realizadas, sabemos que os escrutínios foram demasiado fugazes42, de modo a evitar estratégias políticas que pudessem pôr em causa a integridade e a autoridade desta instituição religiosa, elegendo o célebre Leão XIII. Ao contrário do seu antecessor, Leão XIII demonstrou ser um indivíduo “bem-intencionado” e que tinha como finalidade recuperar a paz com os recentes estilos de governo43 e as novas formas de pensamento político dos Estados Europeus que estavam em conflito ou que exteriorizavam alguma prudência nas relações com o Vaticano. Indubitavelmente, ocorreu uma amenização destes conflitos diplomáticos de teor político, mas o debate sobre a viabilidade em conservar os vínculos Estado e Igreja, outrora quase que inseparáveis e sagrados, subsistiam e entusiasmavam as consciências44.

As relações Estado e Igreja na Monarquia Constitucional

Recorrendo a alguns acontecimentos históricos e que marcaram o reino no século XIX, desde a famosa “Guerra dos Dois Irmãos”45, passando pela expulsão das ordens religiosas em 1834 até ao impacto da “Questão Romana”, é observável que estes problemas resultaram em várias modificações no mundo da política e da religiosidade em território nacional, principalmente numa nova união entre o Estado e a Igreja, de índole reformada e consentânea com as ambições do progresso.

Na verdade, a situação da Igreja em Portugal de 1834 a 1841, após a expropriação de muitos conventos, mosteiros e espaços designados para a liturgia, vítimas de venda em praça pública, acabou por ficar desprovida da personalidade j*-

+urídica46. Contudo, os efeitos à posteriori destes actos consistiu numa cartada à beira do precipício47, isto é, apesar deste inesperado comportamento do Governo Português face ao clero regular, a historiografia observou, em termos mais práticos, como um factor mais “sereno” quando comparado às atitudes praticadas pela Primeira República. Com a máxima previdência, podemos considerar que estes procederes formaram um novo contexto político-religioso nas relações entre a Monarquia Constitucional e a Igreja Católica, uma particularidade integrada no recente formato social dessemelhante ao pensamento tradicional do absolutismo em contexto organizacional.

Através das Concordatas com a Santa Sé nos anos 1857 e 1886, foi possível instituir a recognição directa do perfil jurídico da Igreja. No fundo, e explanando de maneira muito breve, este poder jurídico estava incorporado numa espécie de indulto que a lei civil exerceu na liberdade interna de cada fé – no caso católico, o direito canónico – relativamente à concepção das cultuais. Melhor dizendo, o Catolicismo permaneceu como a religião de Estado, todavia, ocupou apenas uma função de representatividade no que toca à identidade do povo português, e, na mentalidade da classe política conservadora, reconheciam como um dos elementos essenciais para a ordem social; entretanto, assumia uma nova roupagem de acção ou interferência sociopolítica limitada, conforme os moldes liberais. Posto isto, o liberalismo português almejava que a religião católica se ambientasse ao sufrágio universal e aos novos costumes da sociedade48, renunciando totalmente à herança do Antigo Regime, de modo a abraçar o constitucionalismo e o princípio da democracia.

Consequentemente, o novo regime legal geral – a Concordata estava dividida em três normas –, teve como intento realçar a diplomacia entre a Santa Sé e o Reino de Portugal, reforçar a tolerância religiosa pelo Estado, concedendo a liberdade de culto das igrejas existentes49 – católica, protestante e judaica -, excepto as outras devoções, tais como: budismo, islamismo e hinduísmo, referimos apenas as outras religiões históricas. Independentemente destas circunstâncias operadas pelo espírito liberal, os reinados de D. Luís, D. Carlos e D. Manuel II, demonstraram uma exemplar

pacificidade com o Vaticano e com as restantes autoridades eclesiásticas, tanto que, a 23 de Junho de 1886, aquando da assinatura da Concordata, o Papa Leão XIII, anteriormente definido como elemento-chave no mundo da diplomacia, agraciou o reino ao elevar o Bispo de Goa a Patriarca ad honorem das Índias Orientais50. De facto, esta estratégia do Papado leonino e dos seus sucessores até 1910, fez com que a Igreja Católica considerasse a Monarquia Constitucional compatível com os futuros desígnios da Cristandade.

O triunfo da Primeira República: os primeiros anos e leis

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Figura 4 – Destituição do bispo do Porto: D. António Barroso descendo do automóvel à porta do Ministro da Justiça.

Exilada a família Real Portuguesa e, naturalmente, a queda do regime monárquico, a implantação da República, a 5 de Outubro de 1910, instaurou um novo paradigma social, político e cultural sem precedentes no nosso país. A nova forma de governo levantou desde logo a dúvida acerca da posição da Igreja e da sua relação com o Estado. Um dos principais pilares do republicanismo de inspiração francesa, que se difundia a olhos vistos por toda a Europa nos séculos XIX e XX, era precisamente a separação entre o Estado e a Igreja. Portanto, como seria expectável, novas medidas foram tomadas no sentido de empreender uma nova campanha de laicização do Estado, corrigindo, deste modo, os vícios que haviam ficado excluídos durante as transmutações exercidas pelo liberalismo.

Como forma introdutória, o período da Iª República Portuguesa, que decorreu entre 1910 e 1926, é, pelos motivos apresentados, vincadamente marcado por um grave conflito religioso, ou seja, estamos diante de uma verdadeira disputa pelo poder entre a Igreja e o Estado, conflito esse que terminou com o fortalecimento do poder por parte do Estado, em detrimento da Igreja Católica, que perdeu cada vez mais espaço e influência na sociedade portuguesa51.

Deste modo, a legislação dos primeiros meses da vida republicana emitida pelo governo provisório de Teófilo Braga, juntamente com Afonso Costa, no qual exercia a função de ministro da Justiça e dos Cultos, vigente desde a implantação da República até a aprovação da nova Constituição, reflectiu de uma forma muito notável esse espírito, demarcado por um forte cariz laicista, anticlerical e anticatólico52. Com efeito,

chegaram a realizar-se perseguições, assaltos e assassinatos de membros da Igreja, enquanto a propaganda estadual reforçava e difundia uma campanha de incentivo ao ódio e à violência perante as autoridades eclesiásticas e à própria essência dogmática.

Retomaram-se e reafirmaram-se os diplomas relativos à expulsão dos Padres da Companhia de Jesus e à extinção das ordens religiosas, e aprovaram-se novos, seguindo a mesma linha de raciocínio pombalino e liberal53. Neste sentido, por exemplo, os feriados religiosos [ou dias santos, como eram conhecidos comumente] foram abolidos, estabelecendo-se, apenas, 5 feriados, que eram na sua totalidade laicos. Para que o elenco dos feriados fosse efectivamente laico, o dia 25 de Dezembro passou a designar- se Dia da Família, e o dia 1 de Janeiro Dia da Fraternidade Universal, ao invés da Circuncisão do Senhor [como era conhecido até ao Concílio Vaticano II].

Procedeu-se, também, à abolição do juramento religioso que tinha lugar na tomada de posse dos Deputados e demais cargos públicos, e nos estatutos de admissão às universidades portuguesas. Ainda no ensino universitário, foram anuladas as matrículas do primeiro ano da Faculdade de Teologia54, e extintas as cadeiras de Direito Canónico da licenciatura em Direito. Já no ensino regular, salientou-se o decreto de 22 de Outubro onde se declara: “[…] extinto nas escolas primárias e normais primárias o ensino da doutrina cristã”55. De igual modo, foram dissolvidas as confrarias e irmandades, e proibida a participação das Forças Armadas nas solenidades religiosas. No entanto, entre todas as medidas tomadas, a mais polémica foi, indubitavelmente, a lei do divórcio de 3 de Novembro de 1910, e as restantes leis relativas à família e ao registo civil. Contrariamente à Doutrina Cristã, o casamento desprendeu-se da figura de sacramento vitalício indissolúvel, passando a ser encarado como um contracto meramente civil56, passível de ser anulado, ainda que com muitas restrições do que na actualidade.

O decreto de 20 de Abril de 1911, conhecido como Lei de Separação do Estado das Igrejas, completou o ciclo de medidas empreendidas desde a Implantação da República, e acentuou, com maior notoriedade, o conflito instaurado, tanto com a hierarquia católica, como com o povo, que maioritariamente religioso, não entendia a

finalidade do decreto. Luís Salgado de Matos expõe o espírito inquietante do clero sobre a esta decisão: “No 5 de Outubro, os bispos sentiram-se derrotados e temeram os republicanos; este temor, ligado aos velhos hábitos regalistas, ao espírito patriótico e de concórdia nacional, e à necessidade de integração social levou-os a quererem um acordo com o novo regime”57.

Desde logo, a novidade passou pela não confessionalidade do Estado, deixando a religião Católica Apostólica Romana de ser a religião oficial do Estado. O respectivo diploma garantiu, também, como nunca na história constitucional portuguesa, a liberdade religiosa e de consciência, ficando autorizada a prática de todas as confissões religiosas. Como consequência, o Estado deixou de ter plasmado no seu orçamento qualquer encargo para com os cultos e igrejas, tal como se refere no artigo 4.º: “A República não reconhece, não sustenta, nem subsidia culto”58. Previu-se a proibição de símbolos religiosos em lugares públicos e a utilização de hábitos ou vestes talares fora dos templos. Empreendeu-se, também, uma nova campanha de expropriação dos bens da Igreja Católica59, e passaram as autoridades ou organismos civis a organizar as celebrações religiosas60, competência anteriormente e previamente atribuída somente aos sacerdotes.

A Constituição de 1911, promulgada pela Assembleia Nacional Constituinte a 21 de Agosto, elevou a valor constitucional alguns dos preceitos e normas incorporantes na Lei de Separação do Estado das Igrejas. Todavia, não seguiu uma linha tão radical quanto a da legislação infraconstitucional aprovada pelo Governo Provisório, adoptando uma postura mais contida e moderada. Dizem alguns historiadores que a primeira constituição republicana foi “mais amiga”, ou pelo menos, “menos inimiga” da presença religiosa. Não obstante, na nova Lei Fundamental foram concedidos passos muito significativos para a história constitucional portuguesa. Instituiu-se, de uma forma inédita, que a “liberdade de consciência e crença é inviolável”61 [artigo 3º, nº4], e garantiu-se a igualdade política e civil de todos os cultos [artigo 3º, nº5]. Outra grande conquista alcançada foi a proibição de qualquer tipo de perseguição de motivação religiosa, embora que as próximas análises reflectiram uma ideia contrária, cujo Estado

se isentou do acatamento desta disposição legal, pelas perseguições flagrantes que realizou à Igreja Católica. De igual forma, ao abrigo do nº7 do artigo 3º, ninguém poderia ser privado de um direito ou isentar-se do cumprimento de qualquer dever cívico, por motivos de opinião religiosa, nem questionado por qualquer autoridade sobre a religião que professava. Na mesma linha de pensamento, qualquer culto podia ser praticado em espaços reservados para o efeito, mesmo com a forma exterior de templo, e eram permitidos, igualmente, nos cemitérios públicos todos os cultos e respectivos ritos.

A Constituição previu ainda reformas ao nível do sector do ensino, sendo o ensino confessional o grande “alvo a abater”. No nº 10 do artigo 3º, reafirmou-se o poder do Estado perante os privados, estabelecendo-se que “o ensino ministrado nos estabelecimentos públicos e particulares fiscalizados pelo Estado será neutro em matéria religiosa”62. Assim sendo, criou-se uma escola laica e neutral, sendo dos pais, nos seus lares, os responsáveis por dar, ou não, às suas crianças a educação religiosa que assim quisessem professar.

No fundo, o programa anticlerical da Iª República foi firmemente e publicamente contestado pela Igreja Católica e seus membros, levando, inclusivamente, a um novo corte de relações entre Portugal e Santa Sé, que se estendeu desde 1913 a 1918. Sem embargo, muitas críticas se geraram, relativamente ao carácter excessivo das medidas implementadas, que, através das nossas consciências, podemos notar uma certa contradição segundo o suposto princípio de neutralidade do Estado, consagrado já na Constituição de 1911; isto é, invés de adoptarem um espírito plenamente neutro, o Estado preferiu praticar uma postura de combate reiterado à religião e à reinvenção daquilo que era Deus, gerando atritos e conflitos constantes, principalmente com a Igreja Católica e os seus fiéis.

“Deus” segundo os ideais republicanos

As opiniões sobre Deus e o Seu papel na sociedade era um assunto que dividia os republicanos, porque muitas das argumentações apresentadas em debates, artigos ou palestras, consistiam numa base limitada, conforme a imagem que tinham da Igreja. Posto isto, conseguimos notar o seguinte: por um lado, tínhamos os republicanos ateístas, os que acreditavam que Deus se resumia a uma invenção para alcançar

interesses pessoais ou, de certa maneira, construir instrumentos de manipulação nas consciências; em contrapartida, aqueles que favoravelmente, ou cautelosamente, toleravam a religião, reconheciam que o Catolicismo desempenhava uma função paralela ao progresso da Humanidade, isto é, o problema não era Deus, mas sim, a existência da Igreja Católica que, para os mesmos, era sinónimo de ignorância e decadência em termos sociais. Contudo, torna-se importante salientar que este pensamento não nasceu após a implantação da República, apenas foi colocada em prática neste período.

Para entendermos a base desta mentalidade republicana, temos de recuar à última metade do século XIX, nomeadamente a notória influência de Augusto Comte, uma vez que estamos diante do desenvolvimento do Livre-Pensamento63, do qual abdicava, por completo, a necessidade de pedir auxílio, participar em ritos ou desempenhar qualquer obrigação de natureza religiosa a um suposto “Deus”. Ademais, geraram-se dois ramos de pensamento dentro do seio republicano português que possuíam algo em comum: a diminuição da autoridade da Igreja Católica no âmbito sociopolítico. De maneira sucinta, explicamos estas duas vertentes64:


  1. Republicanos laicos – acreditavam que para atingir o grande objectivo (ou seja, reduzir o poder do Catolicismo) – tinham de ser cautelosos, apostando numa estratégia de cariz impessoal, ou seja, colocar em acção o processo de secularização, rejeitando quaisquer comportamentos agressivos por parte do Estado. Por exemplo: Manuel Arriaga, um dos grandes pioneiros do republicanismo, enquadrava-se nesta corrente65. Apesar de não considerar a Igreja como a principal inimiga do Estado, achou necessário apostar numa vigilância activa para evitar possíveis estratagemas ou artimanhas nostálgicas que pudessem pôr em causa a nova forma de governo;

  2. Republicanos laicistas – estes eram considerados os mais radicais, porque defendiam que o homem era a força vital para combater eficazmente a religião Católica. No fundo, assumiam uma posição intransigente, a qual reforçava as perseguições contra as autoridades eclesiásticas, já que os laicistas justificavam as mesmas como uma atitude de “legítima defesa” perante a tirania, o irrespeito pelo povo e pelos “crimes do passado”66, levados a cabo pela Igreja.

Por intermédio destas interpretações, conseguimos notar que, apesar do crescimento do espírito em torno da secularização ou laicização ter constituído um propósito primordial no plano ideológico, a fé era uma temática debatida com alguma frequência, englobando, precipuamente, os círculos intelectuais. Dito isto, não podemos esquecer que a propaganda fabricada nesta época serviu, exclusivamente, os interesses políticos da Primeira República, dos quais colocavam de parte “Deus” e, ao mesmo tempo, fomentavam uma culpabilização reiterada à hierarquia católica, especificamente o centro do poder religioso [Santa Sé] e aos jesuítas67 que, para os mesmos, eram os responsáveis pela doutrinação das massas e representados como os “caciques monárquico-clericais”68.

    1. A inquietação do Papa Pio X: Instaurare omnia in Christo

O pontificado do Papa Pio X [1903 – 1914] marcou significativamente a História da Igreja, possuindo características muito particulares no mundo católico, político e diplomático, no decorrer dos inícios do século XX. Na verdade, este Sucessor de São Pedro ficou conhecido por ser um defensor dos dogmas tridentinos e fervoroso combatente das “novas heresias”69, perante uma Europa que almejava alcançar os valores do progresso, nomeadamente na formação de governos que fizeram renascer a tradição antimonárquica clássica do século XVIII, juntamente com o cepticismo referente à continuidade da influência do Catolicismo no âmbito sociopolítico. No fundo, Pio X vivenciou, de maneira profunda, a queda da Monarquia Portuguesa, e observou com atenção a instabilidade incipiente da Primeira República. Vale salientar que, até aos dias de hoje, o legado de Sua Santidade é conhecido pelo seu intenso tradicionalismo na esfera social e religiosa.

Antes de abordarmos as especificidades e, naturalmente, reflectirmos sobre a Encíclica “Iamdudum in Lusitana”, que nos forneceu suportes informativos vitais sobre a perspectiva do papado diante do novo situacionismo governativo em território português, é fundamental conjugar esta intervenção pontifícia com o lema de Pio X – “Instaurare omnia in Cristo” – que, de facto, interferiu nos seus moldes de acção. Portanto, se tivermos em linha de conta esta base do “Renovar todas as coisas em

Cristo”, utilizada ao serviço dos interesses do clero português, podemos constatar que a autoridade papal sentiu a necessidade de agir, restaurar e renovar a catolicidade, não ficando apenas limitada a um ponto-de-vista global, mas também, com grande zelo, a Portugal70, ou seja, torna-se fulcral analisarmos as formas de organização e reafirmação da fé católica, como modelos de adaptação e resistência aos diversos problemas legislativos da política republicana.

A Encíclica, na sua essência, projectou uma certa prudência inicial e, mesmo que indirectamente, uma luta pelas ambições da Igreja, distanciada dos esforços ou das desavenças partidárias. Ademais, este documento papal foi rapidamente publicado pouco tempo depois da Lei de Separação do Estado das Igrejas, cuja interpretação por parte da Santa Sé, revelou que o principal intento da recém-República era fomentar um “ódio insaciável”71 à religião Católica, equiparando essa aversão à Revolução Francesa. Já no contexto espiritual, este comunicado evidencia o desprestígio diante da sacralidade sacerdotal, as restrições descabidas à liberdade da prática litúrgica e outras funções religiosas fora dos locais de culto, como também a interdição do direito de manifestação e da aplicação do associativismo clerical72. Segundo o “Iamdudum in Lusitana”, demonstramos estas perspectivas, por intermédio de um excerto:

“[…] torna a ordem dos clérigos justamente naquilo em que é superior, em condição inferior à dos demais cidadãos. […] Também é proibido, fora dos lugares sagrados, celebrar qualquer cerimónia sem autorização do governo republicano, realizar qualquer procissão, usar ornamentos sagrados e nem mesmo a própria batina. […] Além disso, enquanto todos os cidadãos podem usar as suas próprias coisas por sua própria vontade, os católicos, por outro lado, contra o justo e o lícito, são fortemente restringidos a esse poder.”73

Insolitamente, e tendo em vista o âmbito pedagógico, o Santo Padre enfatizou a magnitude e a urgência em reestabelecer o ensino religioso nas escolas públicas74, uma vez que a anulação das aprendizagens de cariz catequético, originava, a seu ver, uma consequência grave no quotidiano das crianças e jovens portugueses; por outras palavras, a religiosidade, na sua “condição natural”, era um fermento necessário para manter os “bons costumes”, a moral e, por fim, instruir as consciências para o caminho da santidade, posto que, para todo o cristão-católico, seria a missão primordial durante a sua vida terrena. Relativamente à formação dos seminaristas, a “Velha República” provocou alguns obstáculos, sobretudo o carácter obrigatório dos mais novos

frequentarem os liceus públicos, sendo que Pio X expôs a sua inquietude, alertando a observação constante e a prudência das autoridades eclesiásticas portuguesas neste aspecto:

“Finalmente, o Estado – algo tão amargo e grave no mais alto grau – […] exige para si a melhor atenção da Igreja: estamos a falar da educação e formação da juventude consagrada. De facto, não só obriga os alunos do clero, para os estudos das ciências e letras que antecedem à teologia, a frequentarem os liceus públicos, onde a integridade da fé, devido ao tipo de educação alheio a Deus e à Igreja, está certamente exposta a perigos bastante óbvios.”75

Por conseguinte, torna-se explícita a indispensabilidade da Encíclica para a construção de um parecer historiográfico, no que toca a uma óptica transnacional e comparativa que, para além da crítica papal perante o processo de laicização – estratégia de fundamentação do poder pontifício -, serviu como uma ponte vital no entendimento da possível paradoxalidade da Lei de Separação. Melhor dizendo, este documento fez brotar o encorajamento do episcopado e do seu compromisso pastoral para uma restauração cristã, que já não passava pela confessionalidade do Estado, mas num empenho de índole evangelizadora, cujo alvo seria todo o tecido social, através de repercussões pacificadoras. Demonstramos o seguinte excerto que nos evidencia a suposta hipocrisia republicana e o estímulo apostólico destinado aos católicos, como acto final desta análise plenamente esquadrinhada:

“Os antigos decretos regalistas são assim restaurados […] enquanto havia acordo entre o Estado e a Igreja, agora que o Estado não quer ter nada em comum com a Igreja, não parecerão contraditórios e cheios de loucura? […] esta lei […] corromper os costumes do clero e provocar a sua deserção dos seus propósitos? […] Estes ilustres testemunhos da fé […] a prosseguir com todas as vossas forças a causa da religião, à qual está ligada a própria salvação da pátria comum, mas sobretudo procurem conservar […] harmonia entre vós e o povo cristão e todos com esta cátedra do Beato Pedro.”76

Necessidade de organizar e reafirmar a fé

Após uma análise precavida e prudente, conseguimos perceber que primeiros quinze anos do século XX, foi marcado por tumultos acentuados com a Igreja Católica, dos quais originaram actos expressivos no desenvolvimento do contexto sociopolítico e religioso sem precedentes. Primeiramente, o reerguimento do espírito de combate e a reafirmação do papel da Igreja Católica contra o republicanismo, o livre-pensamento e a igualdade das confissões religiosas perante a lei, resultou na reiteração das bases

tradicionais e da fundamentação do poder pontifício77 em nome da paz, mas sobretudo na manutenção dos valores cristãos. Em segundo lugar, ocorreu uma divisão no âmago da sociedade portuguesa, ou seja, por um lado as medidas anti-clericais projectadas por Afonso Costa78 foram recebidas com insatisfação por grande parte dos portugueses, essencialmente na região do Norte e nas zonas rurais79; em contrapartida, o governo tentou justificar o seu ponto-de-vista sobre a importância do anti-clericalismo governamental, de maneira a sossegar as consciências, conseguindo, proveitosamente, alcançar a aceitação das massas urbanas80. No fundo, torna-se observável que a cidade se opôs ao campo e impôs com robustez a concordância e a modelagem81, quase que forçosa, nas “mentalidades campestres”.

Sem embargo, o episcopado agiu como uma fonte primordial para a precaução e sensatez no âmbito das relações com a República, apostando, principalmente na instrução dos católicos, bem como em atitudes de carácter pacífico e pastoral; isto é, numa perspectiva intervencionista, os bispos portugueses foram os principais responsáveis na tomada de decisões sobre os modos de acção do clero e dos fiéis82, de maneira com que houvesse uma união sólida, que resultasse num consenso e, com a máxima tranquilidade, reconhecessem os novos poderes instituídos83. Esta prudência episcopal tinha como objectivo poupar possíveis retaliações de maior grau para com os sacerdotes84, evitando o que acontecera ao clero regular e à própria Companhia de Jesus, vítimas da expulsão ou dos obstáculos na continuidade da sua vocação religiosa, após a publicação das chamadas leis persecutórias85. Dito isto, e tendo em conta alguns dos diplomas empreendidos por Afonso Costa, a Igreja considerou fulcral a elaboração de uma resposta pública e ponderada, alicerçando-se em dois dados interpretativos86: o ferimento dos direitos, liberdades e privilégios do clero, e ao mesmo tempo, alertar o

possível crescimento do desequilíbrio social, assim como as prováveis consequências a nível político87, por conta da intransigência praticada pelo Governo Provisório; melhor dizendo, emergia nas mentalidades católicas o receio de que o Estado Português adoptasse, com maior afinco, o anarquismo. Portanto, estes contratempos fizeram com que os prelados se reunissem com alguma urgência, de forma a averiguar e discutir, detidamente, a nova realidade legislativa88.

Conforme as declarações dos bispos que se envolveram na Carta Pastoral, os mesmos afirmaram convictamente que a intenção não era prejudicar ou interferir nas acções do Estado, mas reforçar, colectivamente, o seu papel de “detentora de direitos espirituais que mereciam ser respeitados”89. Porém, e tendo sido mencionado os vários modos de procedimento republicano face aos assuntos eclesiásticos, sendo estes condenados pelo Papa Pio X, Afonso Costa não exitou em proibir a leitura e divulgação da Pastoral, nem mesmo dentro dos locais dedicados à liturgia90, prometendo medidas drásticas, como por exemplo: a demissão efectiva dos epíscopos, vistos com desprezo e inimigos do Estado91. Ademais, Veríssimo Serrão relata um caso muito curioso em relação ao Bispo do Porto, Sua Excelência Reverendíssima D. António Barroso, um dos cooperadores do apelo episcopal, que fora chamado para um interrogatório em Lisboa. Dom António, confrontado pelo Ministro da Justiça e dos Cultos, assegurou que o conteúdo da carta não tinha como finalidade desrespeitar as autoridades do novo regime e que “aceita e respeita os poderes constituídos”92. O então Ministro, Afonso Costa, não acreditou nos esclarecimentos do bispo, e, incomplacente, exonerou-o das suas funções por ser, possivelmente, associado à reacção monárquica93. Leiamos este excerto, relativamente à chegada de Dom Barroso a Lisboa, no qual verificamos o contraste em termos comportamentais na capital, onde a alma republicana ecoava consideravelmente, ante ao meio rural ou a Norte do país:

“O prelado foi então chamado a Lisboa, para se justificar da atitude que assumira, por muitos interpretada como de aberta provocação ao regime. Centenas de republicanos juntaram-se na gare do Rossio para vaiar D. António Barroso, o que forçou a polícia a fazê-lo descer na estação

de Campolide. Mas quando se dirigia de automóvel para o Terreiro do Paço, o antístite foi alvo dos maiores enxovalhos […].”94

Posto isto, quais foram os conteúdos produzidos pela acção dos bispados na Carta Pastoral? De acordo com o Doutor António Ramos, a sua análise concede as quatro principais aspirações da Pastoral, tais como: explorar e avaliar, cronologicamente, os vínculos do Estado com a Igreja, por meio de uma visão histórico- teológica95. Num segundo momento, e conforme os pensamentos dos prelados envolvidos, referiram as mais diversas problemáticas no panorama educacional, dentre as quais a ausência da moral cristã nas escolas portuguesas, especificamente as públicas, visto que as mesmas passaram a ter um dinamismo e um ensino completamente laico e embasado nas normas republicanas; como resposta ao sucedido, os bispos portugueses justificaram que o Catolicismo era a única religião capaz de transmitir os princípios basilares para o quotidiano e, simultaneamente, resolver “o problema da conciliação entre a liberdade e a dignidade humana e o respeito à autoridade”96. Além do mais, enfatizaram o desagrado para com a Lei da Separação de 1911, interpretando-a como uma afronta à “lei natural e divina” da sociedade ocidental; isto significa que estamos defronte de uma condenação, mesmo que indirecta, ao processo de laicização, alegando que este possível proselitismo republicano prejudicava as consciências e a desvalorização dos preceitos, outrora, tidos como sagrados e invioláveis. Inclusive, contrapuseram a legitimidade da Lei da Separação, porque a seu entender, provocava chagas no verdadeiro conceito de liberdade, cujo procedimento não correspondera à vontade pública97, mas resumida a interesses de uma classe política minoritária. Curiosamente, houve uma recognição das novas instituições que compuseram a organização política da Primeira República, garantindo que a Igreja em Portugal, por livre e espontânea vontade, respeitaria e cumpriria as ordens e leis emanadas pelos novos governantes, sob condição que essas legislações não ulcerassem a fé católica e a sua jurisdição98.

Os métodos exercidos pela Igreja Católica, no que concerne à sua organização e reafirmação da fé num Portugal mergulhado na instabilidade e na incerteza sobre o

futuro, acarretou responsabilidades muito particulares, direccionadas para os católicos em território nacional. Logo, não podemos assumir que estamos na presença de uma guerra declarada pelas autoridades eclesiásticas, pelo contrário: todo este situacionismo levou com que se formasse uma “batalha espiritual”, isto é, apelou-se a todos os fiéis a aceitarem as diretrizes desenvolvidas pela Igreja, fundamentalmente aquelas que eram oriundas dos seus Bispos e da Santa Sé99; encorajar a não abdicar a fé, nem mesmo sob pressão ou por medo, de tal modo que pudessem praticá-la, difundi-la e protegê-la publicamente – seguir o modelo de vida dos mártires – , exercendo como um “dever social”100; conservar todas as obras, essencialmente a caridade, e aceitar as mais variadas provações “dos que o odeiam e perseguem”101; por fim, e com um presumível aproveitamento político, exigia-se que os portugueses, professadores do credo romano, votassem em candidatos ou pertencessem a partidos, cuja índole focava-se no favorecimento e na protecção das ambições da Religião Católica102.

Personalidade política de Afonso Costa

Uma imagem com céu, ar livre, vestuário, pessoa

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Figura 5 – Multidão em Fátima por ocasião do «Milagre do Sol», em 13 de Outubro de 1917.

A vida política de Afonso Costa é uma realidade que merece ser devidamente analisada sensatamente, visto que se trata de uma figura controversa, bem como um dos principais pioneiros da cultura republicana em Portugal. Ademais, há estudiosos que colocam em causa a conhecida “ruptura profunda” com a Monarquia Constitucional, tendo em conta alguns dos aspectos da sua personalidade, enquanto republicano fervoroso e responsável pela pasta ministerial da Justiça e dos Cultos; isto é, torna-se fundamental examinar a sua personalidade no contexto político, de modo a compreendermos a sua repercussão no meio social e o sucesso doutrinário nas próprias mentalidades portuguesas. Em seguimento da observação ou dos questionamentos elaborados pelos historiadores ou teóricos políticos, notamos duas particularidades em comum com o regime monárquico: a preocupação em manter o império colonial por motivos nacionalistas, utilizando as colónias para resolver as complicações de índole financeira, e, por último, “[…] teremos conseguido mostrar que a revolução republicana

não produziu qualquer ruptura com o clientelismo político […] da Monarquia Constitucional”103.

Recuando aos últimos anos da Monarquia, Afonso Costa demonstrava um entusiasmo bastante evidente, no que toca ao seu desejo de introduzir um novo funcionamento, alicerçado no sistema político de carácter republicano, o que gerou alguma conflitualidade na antiga Câmara dos Deputados. Inclusive, por conta das suas alegações, foi banido provisoriamente por difundir, através de mecanismos que influenciavam a opinião pública, que D. Carlos detinha de uma incompetência moral104 e prejudicial para a governação do país. Curiosamente, nas eleições de 1907, constatou- se um crescimento do número de deputados republicanos no Parlamento, no qual Costa estava integrado e classificado como um elemento-chave para o seu partido, estabelecendo uma ligação sólida com diversas sociedades secretas radicais, como é o caso da Maçonaria105; logo, observou-se que a capital do reino estava cada vez mais republicanizada e, naturalmente, descontente com o poderio hereditário e “desgastado”. Aquando do regicídio, Afonso Costa descrevera este acto como uma “execução nacional, uma síntese da cólera e da dignidade de um grande povo”106. Foi a partir deste fatídico episódio que a sua obra política começou a dar frutos.

Com o exílio de D. Manuel II, e o nascimento de um novo estilo de governo, ainda que provisório e dúbio107, Afonso Costa denominou o 5 de Outubro de 1910 como “uma página formosa e inigualável da história da Humanidade”108. Portanto, ao obter toda a liberdade enquanto republicano, assumindo o ministério da Justiça, tornava-se encarregado pelos assuntos de matéria religiosa, dos quais dedicou-se veementemente. Programou desde o início uma atitude anti-clerical109, de tal maneira que logrou os corações dos revolucionários civis, atendendo à recuperação das antigas leis pombalinas e regalistas110. Em contrapartida, no interior do círculo intelectual e político do

republicanismo português, não viam com bons olhos a constante obsessão antirreligiosa de Afonso Costa, mas ao mesmo tempo, ninguém tinha a coragem de confrontar ou declarar uma oposição devidamente estruturada, já que o mesmo afirmava que as suas condutas correspondiam à vontade popular, robustecendo a sua “forma de ser”: “o nosso fim é fazer da República uma forma de governo progressiva, tendo as máximas tendências descentralizadoras”111.

Na verdade, quando publicou a Lei da Separação do Estado das Igrejas em 1911, resultado da sua premissa basilar para salvaguardar a integridade do Estado Português na forma de República, acredita-se que Afonso Costa proferiu uma previsão muito afamada, conjugada na sua personalidade política: “Dentro de três gerações estará extinto em Portugal o Catolicismo”112. Não obstante, um dia antes da publicação da dita lei, Costa reuniu-se com maçónicos e funcionários do Registo Civil113, e deu a conhecer a sua obra-prima, respaldando, irrevogavelmente, a sua marca reformadora.

Afinal, Afonso Costa conseguiu agregar e manter o seu poder por três razões: em primeiro lugar, não permitia que houvesse opositores ou que questionassem os seus comportamentos, e muitas das vezes expressava uma das suas múltiplas faces, neste caso a vingativa114; em segundo lugar, a maior parte dos historiadores, e até mesmo os republicanos mais moderados, denominavam-no “optimista cego”115; e por último, perpetrador do clientelismo político e nepotista, a citando a pesquisa levada a cabo por Filipe Ribeiros de Meneses: “Enquanto estas medidas estavam a ser implementadas, Afonso Costa rodeou-se, no Ministério da Justiça, das pessoas em quem mais podia confiar: José de Abreu, o seu cunhado, dirigia o secretariado do Supremo Tribunal de Justiça; Germano Martins, sócio da firma de advocacia de Costa, foi nomeado director- geral do Ministério da Justiça; Artur Costa, seu irmão, foi escolhido para secretário particular.”116

Um clero “quase sem Deus”

Diante das análises que foram desenvolvidas acerca do posicionamento eclesiástico desfavorável para com a Primeira República, cabe a nós agora demonstrar uma face muito desconhecida, da qual demonstra a divisão existente no seio da própria Igreja em Portugal, questionando a sua tradicional uniformidade. Na verdade, esta divergência remonta desde os fins da Monarquia, visto que o baixo clero protestava contra a diminuição do seu estatuto a nível social e económico. Consequentemente, os republicanos pensavam que a maior parte dos presbíteros não praticava verdadeiramente a espiritualidade, mas resumiam-se à preocupação do seu sustento; isto é, conforme os pareceres dos apoiantes do republicanismo, estes padres eram susceptíveis a acreditar e adoptar a esperança republicana como solução aos seus problemas, tanto que ocorreu uma adesão significativa para a transformação de um novo regime político117. Por outro lado, os que eram considerados piedosos e que valorizavam a sacralidade do sacerdócio, foram apelidados de “jesuítas”118, e os que obedeciam as prerrogativas emanadas pela hierarquia, especialmente a do Vigário de Cristo, eram reputados como agentes perigosos para a afirmação e consolidação do nacionalismo, já que este constituía um dos pilares do movimento republicano.

Aquando da transição para a República, observou-se um grande número de clérigos que abraçou as bases da nova realidade administrativa, por meio de três possíveis razões: em primeiro lugar, estavam em constante contacto com indivíduos assumidamente republicanos, detentores de um robusto conhecimento político e intelectual. Em segundo lugar, não aconteceu uma oposição firme do clero secular face às leis de expulsão dos religiosos e dos padres da Companhia de Jesus, posto que estes possuíam vínculos com as elites sociais da época, gerando um prestígio perceptível na sociedade portuguesa, fazendo com que o clero secular os considerasse concorrentes pertinazes119, reivindicando o seu status. Por fim, defendiam a prática da democracia moderna, herança liberal desde os tempos monárquicos oitocentistas, mesmo que esta acção reduzisse a figura do padre no quadro social, integrando a laicização externa [instituições governamentais] e a laicização interna [transmutar as consciências].

Segundo Maria Lúcia Moura, o início da Primeira República simbolizou uma luta direccionada contra a Igreja, do que propriamente à nostalgia pela restauração da Monarquia. Isto significa que as condutas executadas por Afonso Costa, acarretou chagas incontornáveis e marcantes no futuro do Catolicismo em Portugal, mesmo após a queda ocorrida no ano de 1926. Uma das feridas que chocou o Papado e a população portuguesa foi, sem sombra de dúvida, o aproveitamento político e legislativo por parte de alguns presbíteros que renunciaram o sacramento da ordem, contraindo matrimónio120. Sem embargo, os “padres republicanos” foram ainda mais longe, sendo que acolheram as célebres cultuais na vida paroquial; em outros termos, refusaram em prestar contas dos seus problemas internos ao bispo diocesano, o que suscitou uma conflitualidade entre o episcopado e o Governo Português, visto que se tratava de um comportamento insubmisso e que colocava em risco a jurisdição comum dos epíscopos. Em contrapartida, para reiterar a natureza da sua autoridade, a ameaça de excomunhão aos párocos e leigos que favorecessem as cultuais esteve presente121, mas não conseguiu obter um acatamento em virtude da alma laica.

Não podemos olvidar que as análises cumprem o dever de serem devidamente aprofundadas, através de situações concretas. Neste caso, e para além do clero que estava dividido sobre a legitimidade da República Portuguesa, havia quem escolhesse seguir a neutralidade, o que nos auxiliou a compreender as diversas distinções. Desta forma, os padres republicanos não optavam por receber a pensão do governo, porque em nenhuma circunstância tencionavam entrar numa confrontação com os seus prelados, embora fossem defensores das políticas afonsistas122; isto é, dignificavam por uma consciência tranquila, de modo a amenizar possíveis querelas com a hierarquia da Igreja, entretanto, não tinham como finalidade criar embates com o Estado. Tratava-se, em conformidade com os seus pretextos, de uma espécie de solidariedade para com a sua classe. Ainda assim, estas escolhas não foram vistas com bons olhos pela República e alto clero, que as traduziam como posições duvidosas. Sob outra perspectiva, existiam aqueles que recebiam a pensão, e mesmo assim, não significava que obtemperassem à vontade do poder político, efectivando os seus deveres sacerdotais123, tais como: persistiam, por meio da pregação, a importância dos sacramentos, essencialmente o baptismo, o matrimónio e a extrema-unção.

Diante do exposto, seria incorrecto afirmar que todos os clérigos eram monárquicos, um mito criado pós-República124, no momento que esse sentimento se foi esvanecendo. Por outras palavras, a complexidade existente dentro do clero era bastante evidente e merecedora de distinções adequadas, ou seja, os que favoravelmente partilhavam os ideais republicanos, já que aproveitaram o momento da viragem para abdicar dos seus votos de obediência; os que, levados pela prudência, preferiram aplicar a neutralidade; e, por último, os que duramente criticavam a nova realidade política, por conta dos procedimentos de laicização e ruptura, permanecendo com o seu pensamento tradicionalista. No fundo, Maria Lúcia Moura faz-nos repensar até que ponto a Primeira República possuía um espírito democrático125, uma vez que a elite política ambicionava o unanimismo de ideias, divinizando o novo sistema126.

Bento XV e a problemática no reconhecimento da República

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Figura 6 – António Maria Alves S.J. e Afonso Costa na prisão de Caxias, 13 de Outubro de 1910.

Arquivo da Brotéria.

A Carta de Bento XV127, direccionada ao alto clero, nomeadamente ao Cardeal- Patriarca de Lisboa, António Mendes Bello, tencionava responder à mensagem redigida pelos prelados, numa das suas reuniões em Lisboa, no mês de Fevereiro do ano 1918, da qual reforçava a lealdade para com a papado, e, com a máxima obediência, demonstraram uma aceitação plena do novo artigo Código do Direito Canónico128, em relação à disciplina dos sacerdotes e aos métodos eficazes para a salvação das almas, adaptas ao novo contexto social contemporâneo. De facto, notou-se uma receptividade positiva às novas prerrogativas emanadas pela Santa Sé.

O principal conteúdo da Carta Pontifícia, revela que o Papa estava informado sobre o situacionismo católico em Portugal, reconhecendo, com grande alegria, o processo de reestruturação da causa católica, visto que a mesma detinha, no governo de Sidónio Pais, uma maior liberdade de acção, após anos de prudência perante as políticas de Afonso Costa. Passamos a citar o seguinte excerto:

“Foi-Nos, porém, de um modo especial agradável a notícia que nos destes que a causa catholica em Portugal começava a melhorar um pouco, causa que, ha muito tempo, a todos inspirava cuidados e solicitude.”129

Posto isto, Bento XV manifesta que o cenário religioso português melhorou depois dos sete anos da publicação da Lei de Separação do Estado das Igrejas, enfatizando uma condenação indirecta a essa realidade legislativa, cuja demonstração se traduz numa continuidade do pensamento do seu antecessor, o Papa Pio X. Não obstante, afirmou convictamente que a Primeira República se transformou num instrumento de doutrinação em massa, referente às mentalidades do povo português, atendendo à essência do espírito laico; à visto disso, neste documento, o pontífice, interroga com perplexidade, após as inúmeras perseguições e atitudes de intolerância, a sobrevivência deste estilo de governo:

“São de todos conhecidos os gravíssimos damnos que derivaram para a cousa da religião em Portugal d’essa [sic] duramente applicada. Nós, porém, nunca julgamos que um tal estado de causas, apoiado só na violência, pudesse ser duradouro […]”130

Ademais, expressou a sua profunda gratidão à coragem dos católicos diante das leis persecutórias para a preservação da fé, mencionando uma devoção geral e insubstituível – a figura da Virgem Maria -, como um elemento de conforto, definindo-a como protectora da acção católica. Vale salientar que, a louvação pelo papel do episcopado como uma ponte fundamental na defesa da Igreja, fortalecendo e naturalizando, a sua autoridade e o sentido de obediência, tendo sido utilizado como forma exemplar a Carta Pastoral, que ao longo deste trabalho foi analisada. Leiamos o seguinte:

“[…] soffrendo perseguições por Deus e pela Justiça, destes sempre admiráveis provas de zelo pastoral e fortaleza christã, mostrando a vossa prudencia principalmente na Carta Pastoral de 20 de Janeiro ultimo a que na mesma carta vos referis.”131

No ano de 1918, e segundo as pautas da reunião em Lisboa, Bento XV assegurou que o clero começara a uniformizar-se em busca da compreensão, transmitindo com ênfase o acatamento das directrizes dos seus bispos, encorajando-os a acreditar de que este seria o melhor caminho, para que Portugal, num futuro próximo,

pudesse restaurar a dignidade da autoridade eclesiástica e do clericalismo, como uma corrente identitária e sagrada, cuja aplicabilidade só seria viável com a restituição dos direitos, liberdades e privilégios da Igreja:

“havendo perfeita harmonia da parte do clero e povo fiel com a vossa perseverante direcção, e permanecendo firmes em tudo o mais, aproveitando a experiencia do passado […] a Egreja dentro em pouco restituída à sua antiga dignidade, ha de exercer livremente os seus sacrossantos direitos e gosar das suas legitimas prerogativas.”132

Como apelo final, Bento XV sentiu a necessidade de propor, mesmo que indirectamente, a reconciliação com o Estado Português a nível diplomático, justificando que “[…] ha de trazer ao povo portuguez maior grandeza e prosperidade”133. Consequentemente, esta carta conseguiu alcançar o seu objectivo, ou seja, captar a atenção e a reflexão dos republicanos, tanto que, depois de três meses da sua publicação, no dia 9 de Julho de 1918, foram restabelecidas as relações entre ambos. Todavia, o Papa só reconheceu oficialmente o novo regime político no dia 29 de Julho de 1919, por Carta Apostólica; isto é, demorou cerca de um ano a aceitação, cujo período serviu como uma espécie de estratégia de prudência face aos desenvolvimentos gradativos do Governo Português.

A Mensagem de Fátima como um factor social e político

Em relação à Mensagem de Fátima, não nos compete comprovar se o acontecimento de 1917 foi ou não um episódio de natureza milagrosa. Portanto, cabe a nós enveredar por uma análise puramente historiográfica, atendendo ao impacto do novo culto mariano, como um factor social e político, nomeadamente na intensificação do processo de recatolização da sociedade portuguesa, cuja circunstância representou um obstáculo para a continuação do desenvolvimento do espírito laico republicano, mas ao mesmo tempo permitiu reflectir as possíveis negociações entre o Estado e a Igreja.

A construção e a difusão das narrativas em derredor da “Senhora do Rosário” foram elaboradas por intelectuais católicos134, muitos deles integrados no Centro Católico Português, detentores de um pensamento conservador. A explicação levada a cabo pelos mesmos sobre a aparição, composta por um certo fundamentalismo religioso, tratava-se de um indício para a necessidade de uma mudança política em Portugal, ou

seja, a introdução de um novo governo que voltasse a dignificar e a salvaguardar os princípios cristãos na sociedade portuguesa. Logo, este presságio fez despertar uma reacção cada vez mais robusta da Igreja Católica contra o laicismo e a descristianização135, refutando veemente a contiguidade das normas estabelecidas por Afonso Costa, quer seja no contexto administrativo, ministerial e legislativo; isto é, torna-se imperativo abordar, mesmo que laconicamente, estas questões através de um ângulo histórico, social e mental.

Nossa Senhora de Fátima, enquanto nova devoção, começou a estar relacionada com o objectivo recatolizador, promovendo a reestruturação e adaptação da acção católica ao quadro religioso pós-1917, no qual verificou-se um carácter militante. Também surgiram propostas reformadoras no âmbito litúrgico e contemplativo, relativamente aos fiéis. Deste modo, os anos de 1917 a 1920, corresponderam a um momento importante nas desenvoluções de projectos relevantes para o futuro da Igreja em Portugal, nos quais referimos as três principais situações136:


  1. Discussão sobre a possibilidade de retoma das negociações entre o Governo Português e a Igreja Católica, por meio do Decreto Moura Pinto;

  2. António Sardinha publicou a sua distinta obra intitulada “A Monarquia”, referindo o aparente evento miraculoso como uma manifestação para a restauração do regime monárquico em Portugal;

  3. A vitória de Sidónio Pais e a queda de Afonso Costa fez com que houvesse uma intervenção directa do fenómeno mariano na esfera social portuguesa137.

Seguindo a análise de Carlos André Moura, o mesmo rege-se pela pesquisa efectuada por Nicola Gasbarro, que retratou as aparições marianas ocorridas no início do século XX, incluindo o caso da Cova da Iria, como manifestações que foram moldadas a certos enquadramentos político-religiosos de cada país, cujo usufruto das práticas culturais serviram para atrair a população, mesmo aquela que anteriormente abandonou o credo católico, adaptando-as ao âmago da ortodoxia – ortopráticas138.

Para dizer o essencial, foi a partir do sidonismo que se iniciou o debate político sobre os prós e contras da laicização do Estado e a preocupação para com o início da

hegemonia soviética na Europa, conjugando com a presumível mensagem de Fátima acerca da disseminação dos seus “males para o mundo”. Assim sendo, estamos perante um crescimento do espírito conservador, alicerçado nas bases da doutrina cristã, podendo ser considerado como a “renascença católica” em território nacional139, por intermédio da dita aparição aos três pastorinhos, reputado como um dos maiores cultos católicos, em relação ao alcance das consciências em massa, durante os primeiros 35 anos do século XX. Por conseguinte, a conquista das novas mentalidades inseridas no Catolicismo em Portugal, deve-se ao facto das interpretações da Mensagem de Fátima que, a nosso entender, podem ser examinadas a nível sociocultural, histórico e político, já que a repercussão ultrapassou as fronteiras, estendendo-se a um contexto global. Dito isto, esteve enraizada a reflexão no campo político ocidental sobre a viabilidade desta “recatolização” nas transmutações legislativas e no revigoramento da moral e costumes140.

Conclusão

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Figura 7 – Medições frenológicas de António Maria Alves na prisão de Caixas, Outubro de 1910.

Arquivo da Brotéria.

Depois de uma significativa leitura bibliográfica e de uma intensa reflexão das fontes que nos propusemos estudar, podemos retomar a questão/problema colocados no início deste ensaio científico. A influência do espírito republicano assente no laicismo e na difusão de uma construção política baseada na ruptura, teve com toda a certeza uma grande relevância na construção da complexidade cultural da Primeira República. Contudo, não podemos deixar de alertar que esta realidade estudada se prende com uma perspectiva transnacional, pelo que seria interessante verificar esta mesma circunstância por uma índole comparativa noutros casos concretos e até mesmo fora do espaço europeu. De qualquer forma, fica evidenciada a importância do poder da nova elite política após a queda da Monarquia Constitucional, nomeadamente na evolução do carácter anticlerical, sendo que sabemos de antemão a importância do secularismo francês e de algumas correntes liberais do século XIX, como influenciadoras de outros modelos políticos deste período, incluindo Itália com a chamada “Questão Romana”, cujo impacto afectou toda a Europa do sul.

Como demonstrado, e as fontes são inequívocas, o período dos primeiros 10 anos da República, ou seja, o nascimento, a juventude e a morte das políticas afonsistas, estava fortemente sustentada pela crença de Augusto Comte, principalmente na corrente

mais radical do republicanismo, e era através das leis persecutórias às autoridades eclesiásticas que Afonso Costa conseguiu, durante algum tempo, mesmo com uma oposição, legitimar as suas acções, por intermédio do proselitismo nas zonas urbanas, expandindo e modelando as consciências campestres. Portanto, em todos os momentos, e segundo a sua personalidade política, verificou-se que o então Ministro da Justiça e dos Cultos, tentou, vezes sem conta, criar um unanimismo de ideias no interior da Igreja, de modo com que aderissem e reconhecessem o novo funcionamento governamental, colocando-a como um papel secundário – padres republicanos -, como sustentaram algumas correntes historiográficas tradicionais e dualistas, das quais tentamos confrontá-las e demonstrar, ao mesmo tempo, a evolução perante estes pensamentos simplistas nos últimos 10 anos.

Daquilo que nos foi possível abordar, no que respeita à documentação, ficamos com uma perspectiva do muito que ainda falta estudar sobre estas matérias, no intuito de compreender melhor a sociedade, o poder político e o clero deste período. O próprio alto clero e a sua acção, bem como os métodos de reorganização na Contemporaneidade, são outros elementos essenciais na compreensão de um conjunto que interessa estudar na perspectiva divisora: acatamento e resistência. Para nós, ficou evidente que a interferência religiosa, interna e externa, expressou-se de maneira muito omnipresente durante os desenvolvimentos na acção governativa da elite política radical, sustentando a protecção dos dogmas, da tradição, da moral e dos costumes, levada a cabo por um conjunto de intelectuais católicos, detentores de uma mentalidade conservadora e integrantes do Centro Católico Português.

O nosso trabalho pretende também dar continuidade a um estudo mais rigoroso da influência do Papado e com isso contribuir para um aprofundamento da época da Primeira República e do seu período social. Cremos ainda na importância destes estudos para um melhor contributo à História Religiosa, Política, Transnacional e das Mentalidades, abrindo horizontes de pesquisa para lá das fronteiras do nosso território nacional, com o intuito de verificar as formas de fundamentação pontifícia durante as conflitualidades entre o Estado e a Igreja.

Para nós que estudamos a História, não como juízes, mas como meros observadores, temos a certeza que a Igreja Católica, na sua pluralidade, contribuiu para um imenso legado que nos deve exortar a preservá-lo, a estudá-lo e, sobretudo, o que poderá ser menos fácil, bem interpretá-lo. A historiografia é assim enriquecida na medida que souber esgrimir as suas fontes, e ao mesmo tempo, entender que a

magnitude em confrontar e complementar, são alimentos fulcrais para uma pesquisa rigorosa.

Assim sendo, este Seminário insere-se num dos objectivos da Agenda 2030 da ONU: “Paz, Justiça e Instituições eficazes”. Mesmo indirectamente, o trabalho passa uma mensagem de que a tolerância religiosa, a pluralidade opinativa e a liberdade individual ou colectiva, são valores basilares para o bem-estar social e para o funcionamento positivo em termos políticos. Passamos a citar algo muito recente e proferido pelo Papa Francisco: “O catolicismo é uma religião agora “moderna e razoável”, que passou por mudanças evolutivas. É hora de deixar toda a intolerância. Devemos reconhecer que a verdade religiosa evolui e muda.”

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Figura 8 – Os jesuítas em Portugal, adaptado de Illustração Portugueza, N. 246, 1910, pp. 582-588.

2 TEIXEIRA, Alfredo, Religião na sociedade portuguesa, Fundação Francisco Manuel dos Santos – Ensaios da Fundação, Lisboa, 2019.

3 MENESES, Filipe Ribeiro de, Afonso Costa, Texto Editores, 1ª Edição, Lisboa, 2010.

4 MOURA, Maria Lúcia, “A resistência e o acatamento à República no seio do clero português”, Revista Lusitania Sacra, CEHR – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2011, pp. 25 – 41.

5 Nota: O irmão mais novo de Luís XVI, Luís XVIII, assumiu o trono sob condição de outorgar a Carta Constitucional, abdicando por completo a oportunidade hipotética de restabelecer o regime absolutista. A criação de duas assembleias – Câmara dos Deputados e a Câmara dos Pares – preservou, directa ou indirectamente, a herança deixada pela Revolução Francesa, cuja base centralizava-se na igualdade e liberdade, precipuamente a continuação da legislação liberal no mundo da imprensa.

6 VERDETE, Carlos, História da Igreja: Do Cisma do Oriente [1054] até ao fim do século XIX, Editora Paulus, 4ª Edição, vol. II, Lisboa, 2009, p. 160.

7 VERDETE, op. cit., p. 161.

8 VERDETE, op. cit., p. 160.

9 Nota: Inicialmente, estes católicos tinham uma grande lealdade ao Papado. Contudo, com a encíclica “Mirari Vos” de 1832, elaborada pelo Papa Gregório XVI, que condenava os princípios de Lamennais e do Liberalismo, resultou, rapidamente, no rompimento da obediência dos mesmos diante da Santa Sé. Consultar: GASPARETTO, António, O Contexto Histórico da Encíclica Mirari Vos [1832], Revista Estudos Filosóficos – Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos, nº3, Universidade Federal Juiz de Fora, Brasil, 2009, ISSN 2177-2967, pp. 43 – 56.

10 Nota: Destacamos os carbonários, movimento que defendia a unidade do território italiano e a total separação do Estado-Igreja, havendo novamente uma condenação por parte de Gregório XVI.

11 VERDETE, op. cit., p. 165.

12 VERDETE, op. cit., p. 166.

13 VERDETE, op. cit., p. 166.

14 Nota: Docente na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, especializado em Antropologia Política e Teologia Sistemática. Destaca-se o seguinte estudo: TEIXEIRA, Alfredo, Religião na sociedade portuguesa, Fundação Francisco Manuel dos Santos – Ensaios da Fundação, Lisboa, 2019

15 COUTINHO, José Pereira, Recensão: Mudanças Culturais, Mudanças Religiosas. Perfis e Tendências da Religiosidade em Portugal Numa Perspetiva, Repositório do Instituto Universitário de Lisboa, n.º 82, 2016, p. 171.

16 DUQUE, Eduardo, Mudanças culturais, mudanças religiosas. Perfis e tendências da religiosidade em Portugal numa perspectiva comparada, Edições Húmus, Universidade do Minho, 2014, p. 8.

17 TEIXEIRA, Alfredo, Religião na sociedade portuguesa, Fundação Francisco Manuel dos Santos – Ensaios da Fundação, Lisboa, 2019, p. 11.

18 DUQUE, Eduardo, Mudanças culturais, mudanças religiosas. Perfis e tendências da religiosidade em Portugal numa perspectiva comparada, Edições Húmus, Universidade do Minho, 2014, p. 11.

19 TEIXEIRA, op. cit., p. 14.

20 TEIXEIRA, op. cit., p. 15.

21 TEIXEIRA, op. cit., p. 25.

22 Acontecimento que marcou toda a Itália do século XIX, em que consistia na unificação dos territórios italianos, integrando-os num só reino. Contudo, a grande problemática em questão, foi com os antigos Estados Papais, uma vez que, o Papa não queria abdicar do seu poder temporal, havendo uma enorme preocupação numa possível submissão ao rei de Itália.

23 GOMES, Marco; CASSINO, Carmine, “A República Romana e a Unificação da Itália na Imprensa Portuguesa”. In: SOUSA, Jorge Pedro [org.], Notícias em Portugal – Estudos sobre a imprensa informativa (séculos XVI – XX), Edição ICNOVA – Instituto de Comunicação da Nova, Lisboa, 2018, pp. 141 – 142.

24 Nota: Estamos num século em que o nacionalismo ideológico alastrou-se com tamanha robustez, incentivando a unificação e a consolidação dos Estados-nação.

25 FERNANDES, António, Igreja e Sociedade: na Monarquia Constitucional e na Primeira República, Editora Estratégias Criativas, Porto, 2007, p. 48.

26 FERNANDES, op. cit., p. 48.

27 CATROGA, Fernando, “O Laicismo e a questão religiosa em Portugal [1865 – 1911]”, Revista Análise Social, vol. XXIV, Lisboa, 1988, p. 212.

28 CATROGA, op. cit., p. 211.

29 Nota: Na década de 70 do século XIX, a Associação Liberal de Coimbra teve um papel fundamental na formação destes grupos que debatiam e arranjavam formas de acabar por completo a influência clerical na sociedade portuguesa, baseando-se na teoria política pombalina. Consultar: CATROGA, Fernando, “O Laicismo e a questão religiosa em Portugal [1865 – 1911]”, Revista Análise Social, vol. XXIV, Lisboa, 1988, p. 213.

30 FERNANDES, op. cit., p. 49.

31 BRAZÃO, Eduardo, Relações Diplomáticas de Portugal com a Santa Sé, Academia Internacional da Cultura Portuguesa, Lisboa, 1971, pp. 13 – 15.

32 FERNANDES, op. cit., p. 49.

33 FERNANDES, op. cit., p. 50.

34 FERNANDES, op. cit., p. 50.

35 FERNANDES, op. cit., p. 51.

36 FERNANDES, op. cit., p. 51.

37 FERNANDES, op. cit., p. 52.

38 “A “exclusiva” consistia na possibilidade de um desses quatro Estados, através de um cardeal, se opor à eleição ao papado de algum purpurado, caso não obtenha no conclave uma maioria significativa. Não se trataria de um direito em sentido próprio, mas de uma tolerância da Santa Sé.” CONSULTAR: FERNANDES, op. cit., p. 53.

39 FERNANDES, op. cit., p. 53.

40 FERNANDES, op. cit., p. 50.

41 FERNANDES, op. cit., p. 54.

42 FERNANDES, op. cit., p. 54.

43 FERNANDES, op. cit., p. 54.

44 FERNANDES, op. cit., p. 55.

45 Conflito civil entre D. Miguel I e D. Pedro IV de Portugal e Algarves na disputa pelo trono português [1832 – 1834], cuja problemática, por um lado, era manter o regime absolutista; por outro lado, fazer triunfar os ideais liberais. Um dado importante: D. Jorge Eugénio de Lócio e Seiblitz, fundador do jornal “A Nação”, comunicou que o Papa Gregório XVI apoiara os miguelistas apresentando-o como “o rei mais católico de toda a Cristandade”. Consultar: D. Jorge Eugénio de Lócio in A Legitimidade Portuguesa, 1885 (póstumo).

46 DE MATOS, Luís Salgado, O Estado de Ordens: a organização política e os seus princípios fundamentais, Imprensa de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Lisboa, 2004, p. 294.

47 O Estado não conseguiu possuir força – ou vontade – política para efectuar a desocupação dos locais de culto, logo, as autoridades eclesiásticas fizeram de tudo para preservar a sua utilização; uma vez que, muitas das propriedades passaram a estar sob o jugo do Estado, foi ele quem passou a custear a sua manutenção, o que aliviava a Igreja de dispêndios elevadas.

48 DE MATOS, Luís Salgado, op. cit., p. 295.

49 DE MATOS, op. cit., p. 295.

50 VITAL, Domingos Teixeira, “História Diplomática: Portugal e Santa Sé”, Portal Diplomático da República Portuguesa – Ministério dos Negócios Estrangeiros, 2022.

51 MOURA, Maria Lúcia, A “Guerra Religiosa” na Primeira República, Centro de Estudos de História Religiosa: Universidade Católica Portuguesa, FCT, Lisboa, 2010, p. 55.

52 MENESES, Filipe Ribeiro de, Afonso Costa, Texto Editores, 1ª Edição, Lisboa, 2010, p. 40.

53 COELHO, Paulo, O Processo de Secularização em Portugal: da Primeira República ao Estado Novo, Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Faculdade de Economia, Universidade de Coimbra, 2011, p. 15.

54 ABREU, Adélio Fernando, “A Igreja Católica e a Primeira República”, Revista Humanística e Teologia, vol. XXXI, série 2, Lisboa, 2010, p. 167.

55 Decreto de 22 de Outubro de 1910 do Ministério do Interior. Consultar: Diário do Governo nº16/1910, Série I de 1910-10-24. [Consultado a 30 Dezembro de 2020]. Disponível em: https://dre.pt

56 MENESES, op. cit., p. 38.

57 DE MATOS, Luís Salgado, A Separação do Estado e da Igreja: Concórdia e conflito entre a Primeira República e o Catolicismo, Publicações Dom Quixote, 1ª Edição, Lisboa, 2010, p. 41.

58 Decreto com força de lei de 20 de Abril de 1911 do Ministério da Justiça. Consultar: Diário do Governo

nº92/1911, Série I de 1911-04-21. [Consultado 30 de Dezembro de 2022]. Disponível em: https://dre.pt

59 ABREU, op. cit., p. 169.

60 ABREU, op. cit., pp. 168 -169.

61 Art. 3º, nº4 da Constituição de 1911.

62 Art. 3º, nº 10 da Constituição de 1911.

63 DE MATOS, Luís Salgado, op. cit., p. 194.

64 MATOS, op. cit., pp. 194 – 195.

65 MATOS, op. cit., pp. 195.

66 MATOS, op. cit., p. 195.

67 Nota: Este sentimento anti-jesuítico fez com que as antigas leis de Pombal e de Aguiar voltassem e integrassem no programa político da Primeira República, através do Decreto de 8 de Outubro de 1910.

68 MATOS, op. cit., p. 195.

69 Nota: A Carta Encíclica intitulada Pascendi Dominici Gregis, publicada no dia 8 de Setembro de 1907, condenou veemente as consideradas “doutrinas modernistas”, englobando as novas correntes do pensamento político e religioso, por não estarem em comunhão com os ensinamentos apostólicos e doutrinários.

70 ABREU, op. cit., pp. 181 – 182.

71 Papa Pio X, Carta Encíclica “Iamdudum in Lusitana”, Arquivo Público da Santa Sé, vol. III, nº7, 1911, p. 217

72 ABREU, op. cit., p. 180.

73 Ibidem, pp. 219 – 220.

74 Ibidem, p. 217.

75 Ibidem, p. 220.

76 Ibidem, pp. 220 – 222.

77 MARQUES, António Henrique [Org. Joel Serrão], A Primeira República Portuguesa: alguns aspectos estruturais, Colecção: Horizonte, nº13, 2ª Edição, Lisboa, 1975, p. 55.

78 MARQUES, op. cit., p. 58.

79 MARQUES, op. cit., p. 61.

80 COELHO, Paulo Calvinho, O Processo de Secularização em Portugal: da Primeira República ao Estado Novo, Dissertação [Mestrado em Sociologia] – Universidade de Coimbra, Coimbra, 2011, p. 17.

81 MARQUES, op. cit., p. 61.

82 RAMOS, António de Jesus, “A Igreja e a 1ª República: a reacção católica em Portugal às leis persecutórias de 1910 – 1911”, Revista Didaskalia, Universidade Católica Portuguesa, 1983, p. 264.

83 RAMOS, op. cit., p. 260.

84 RAMOS, op. cit., p. 263.

85 Nota: Pairava nestas leis um espírito radical, algo tão forte e perfeitamente integrado numa das alas republicanas, nomeadamente a vertente radicalista, na qual pertencia Afonso Costa. Na verdade, muitas das acções levadas a cabo pelo então Ministro da Justiça e dos Cultos, fez desabrochar inúmeras disputas na sociedade portuguesa, que rapidamente atingiu todo o país.

86 SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal: A Primeira República [1910 – 1926], Editorial Verbo, Lisboa, 1977, p. 77.

87 SERRÃO, op. cit., p. 78.

88 SERRÃO, op. cit., p. 77.

89 SERRÃO, op. cit., p. 78.

90 SERRÃO, op. cit., p. 78.

91 Diário do Governo, de 9 de Março de 1911, em Legislação Republicana, vol. II, tomo IX, pp. 55 – 60.

92 SERRÃO, op. cit., p. 78.

93 SERRÃO, op. cit., p. 78.

94 SERRÃO, op. cit., p. 78.

95 RAMOS, op. cit., p. 261.

96 RAMOS, op. cit., p. 261.

97 RAMOS, op. cit., p. 262.

98 RAMOS, op. cit., p. 262.

99 RAMOS, op. cit., p. 263.

100 RAMOS, op. cit., p. 263.

101 RAMOS, op. cit., p. 264.

102 RAMOS, op. cit., p. 264.

103 LOPES, Fernando Farelo, Poder Político e Caciquismo na 1ª República Portuguesa, Editora Estampa, Lisboa, 1993, p. 161.

104 MENESES, op. cit., p. 29.

105 MENESES, op. cit., p. 32.

106 MENESES, op. cit., p. 44.

107 RAMOS, Rui [org. José Mattoso], História de Portugal: A Segunda Fundação [1890 – 1926], Editoral Estampa, vol. VI, Lisboa, 2001, p. 401.

108 MARQUES, António Henrique, Afonso Costa, Editora Arcádia, Lisboa, 1972, p. 336.

109 RAMOS, op. cit., p. 404.

110 Nota: A expulsão dos padres da Companhia de Jesus, o encerramento de todas as casas religiosas, as perseguições, os interrogatórios e os mandados de prisão, fizeram com que Afonso Costa ficasse conhecido como o “Marquês de Pombal” do século XX. Ler: “No dia 13 de Outubro, Afonso Costa interrogou 50 freiras numa sessão; no dia seguinte, foram ouvidos 128 eclesiásticos detidos no forte de Caxias, junto â foz do Tejo.” – MENESES, op. cit., p. 37.

111 MENESES, op. cit., p. 42.

112 Actualmente, a previsão permanece em forma de debate no mundo da historiografia, ou seja, se esta foi ou não proferida. Contudo, Filipe Ribeiros de Meneses invoca que o próprio Afonso Costa a integrou no seu discurso na Sociedade Geográfica de Lisboa, a 17 de Setembro de 1911. Para o texto do discurso, ver o Mundo [Lisboa], 18 de Setembro de 1911.

113 RAMOS, op. cit., p. 411.

114 MENESES, op. cit., p. 41.

115 MENESES, op. cit., p. 40.

116 MENESES, op. cit., p. 38.

117 MOURA, Maria Lúcia, “A resistência e o acatamento à República no seio do clero português”, Revista Lusitania Sacra, CEHR – Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2011, p. 32.

118 MOURA, op. cit., p. 32.

119 MOURA, op. cit., p. 27.

120 MOURA, op. cit., p. 34.

121 MOURA, op. cit., p. 30.

122 MOURA, op. cit., p. 35.

123 MOURA, op. cit., p. 37.

124 MOURA, op. cit., p. 33.

125 MOURA, op. cit., p. 37.

126 MOURA, op. cit., p. 35.

127 Nota: Jornal não identificado, cuja informação foi obtida pelo Arquivo do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa [CEHR-UCP].

128 PT/UCP/CEHR/AALN/D/G/03/018, Carta do Papa Bento XV para o cardeal-patriarca de Lisboa, arcebispos e bispos de Portugal anno de 1918, 1 fl.

129 Ibidem, fl. 1.

130 Ibidem, fl. 1.

131 Ibidem, fl. 1.

132 Ibidem, fl. 1.

133 Ibidem, fl. 1.

134 MOURA, Carlos André, “A Recatolização e as Ortopráticas no culto à Fátima em Portugal e no Brasil [1910 – 1942]”, Revista Saberes e Práticas Científicas – ANPUH, Brasil: Rio de Janeiro, 2014, p. 2.

135 MOURA, op. cit., p. 1.

136 MOURA, op. cit., p. 2.

137 BARRETO, José, “Religião e sociedade: dois ensaios”, Revista Lusitania Sacra, nº 16, Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2004, p. 42 – 43.

138 “O conceito de ortopráticas abrange as regras rituais e as “ações inclusivas e performativas da vida social”, com invenções e reinvenções em termos de práticas religiosas. […] distanciamos das classificações atribuídas ao catolicismo popular […]”. Consultar: MOURA, op. cit., p. 3.

139 MOURA, op. cit., p. 2.

140 MOURA, op. cit., p. 4.

Agradecimentos

Como qualquer trabalho, também este conjuga vontade, competências e motivações muito específicas. A persistência em desenvolver uma análise e uma escrita pessoais que levassem a cabo a concretização do Seminário em História Contemporânea sempre esteve em mente, cercada pela boa disposição e pela rigorosidade da Professora Doutora Maria de Fátima Nunes, que soube manter a complacência e o auxílio necessário no decorrer deste processo desafiante. Torna-se oportuno manifestar uma palavra de reconhecimento e gratidão a todos quantos, pelas mais diversas ocasiões, estiveram presentes e coadjuvaram para que este trabalho corporificasse. O encorajamento obtido proporcionou que me tivesse mantido num ritmo benéfico, durante estes quatro meses, e apesar de todas as vicissitudes que a experiência na investigação obriga, incitado e resoluto para dar substância ao meu empenho, por intermédio de uma reflexão segura e de uma escrita fundamentada.

Ao evocar carinhosamente alguns dos que mais próximos estiveram neste caminho, é indispensável essa gratulação a todos aqueles que me apoiaram das mais múltiplas formas. Há uma permanência muito singular: a de meus pais e de minha avó materna – Hilário, Sara e Ilda -, que, por meio das repetidas lições sobre as dificuldades naturais da vida, orientaram-me, reiteradamente, que estas não podem impossibilitar de se optar pelo estudo e servir de alguma maneira o mundo da historiografia. A lembrança de alguns amigos que testemunharam a cada instante a predisposição pelos meus compromissos académicos, concebe uma memória onde tenho desvendado o significado deste ensinamento: persistir, mesmo quando, a cada decisão, se me revela vulnerabilidade da minha condição humana, perfeitamente imperfeita. Portanto, à Ângela Guerreiro, Beatriz Gaspar, Pedro Zambujo, Mariana Godinho, Ariana Rocha, Diogo Cavaco, Diogo Pauleiro, Vítor Pinto, Diana Henriques, Sofia Sousa e Inês Jonífero, o meu total apreço por serem colaboradores permanentes desta minha jornada.

É também a altura ideal para demonstrar a amizade e a cordialidade que se gerou diante dos meus colegas integrados nesta mesma unidade curricular, nominalmente a Joana Rijo que, pacientemente, acompanhou e aconselhou no aprimoramento deste ensaio científico. Por outro lado, não posso olvidar a disponibilidade e a admirável companhia do meu prezado amigo, Iuri Fernandes, estudante de licenciatura em História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ao Centro de Estudos de História

Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, cujo intento centralizou-se na procura por uma das fontes primordiais no desenvolvimento deste Seminário.

No fundo, a nossa vida consiste, sobretudo, na exposição e partilha de inúmeras ideias de uns com os outros. Por isso mesmo, sinto o direito de confessar a minha profunda admiração pela Prof.ª Doutora Maria de Deus Beites Manso que, inquestionavelmente, fez brotar no meu coração o gosto pela História Religiosa, algo que pretendo especializar-me futuramente. Além disso, posso ir mais longe, ou seja, o seu carácter afável e de uma ininterrupta assistência, mas ao mesmo tempo, consciencializar que a missão de um historiador é aprimorar e preservar o espírito imparcial, fazendo-me crescer enquanto pessoa e simples aprendiz desta área de estudo.

Resta-me fazer jus a uma palavra exclusivamente portuguesa, saudade. Dito isto, finalizo com uma pequena homenagem ao meu falecido avô materno, José Gonçalves, merecedor de uma memória inolvidável; isto significa que, a maior herança que poderia deixar, foi, indubitavelmente, a sua forma exemplar de como enfrentar os mais duros obstáculos e, mesmo assim, não pensar, em nenhum momento, desistir. Melhor dizendo, passou a mensagem de que a fé, esperança e dedicação, são as raízes primordiais para encontrar o sucesso, de modo a dar bons frutos. Lamentavelmente, e pelo mistério que é a vida, já não está presente fisicamente para assistir a todas as minhas conquistas, tristezas ou alegrias. Mas creio que, independentemente de onde esteja, o orgulho que nutre pelo seu neto é algo contínuo e imutável. Sendo assim, termino, humildemente, com esta pequena passagem bíblica da Segunda Epístola a Timóteo, capítulo I, versículo IV: “[…] desejo muito vê-lo, para que a minha alegria seja completa.”

Fontes e referências bibliográficas

Fontes em Arquivo:

Diário do Governo nº16/1910, Série I de 1910-10-24 [Disponível em: https://dre.pt]

Diário do Governo nº92/1911, Série I de 1911-04-21. [Disponível em: https://dre.pt]

Diário do Governo, de 9 de Março de 1911, em Legislação Republicana, vol. II, tomo IX, pp. 55 – 60.

Papa Pio X, Carta Encíclica “Iamdudum in Lusitana”, Arquivo da Santa Sé, vol. III, nº7, 1911, pp. 217 – 222.

PT/UCP/CEHR/AALN/D/G/03/018, Carta do Papa Bento XV para o cardeal-patriarca de Lisboa, arcebispos e bispos de Portugal anno de 1918, 1 fl.

Bibliografia:

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  • CATROGA, Fernando, “O Laicismo e a questão religiosa em Portugal [1865 – 1911]”, Revista Análise Social, vol. XXIV, Lisboa, 1988;
  • COELHO, Paulo, O Processo de Secularização em Portugal: da Primeira República ao Estado Novo, Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Faculdade de Economia, Universidade de Coimbra, 2011;
  • COUTINHO, José Pereira, Recensão: Mudanças Culturais, Mudanças Religiosas. Perfis e Tendências da Religiosidade em Portugal Numa Perspetiva, Repositório do Instituto Universitário de Lisboa, n.º 82, 2016;
  • DE MATOS, Luís Salgado, A Separação do Estado e da Igreja: Concórdia e conflito entre a Primeira República e o Catolicismo, Publicações Dom Quixote, 1ª Edição, Lisboa, 2010
  • DE MATOS, Luís Salgado, O Estado de Ordens: a organização política e os seus princípios fundamentais, Imprensa de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Lisboa, 2004;
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  • RAMOS, Rui [org. José Mattoso], História de Portugal: A Segunda Fundação [1890 – 1926], Editoral

Porto de Leixões e a transição energética

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Porto de Leixões em Matosinhos condiciona acesso de carros à área portuária  em 2022 • Jornal Renovação
Figura 1 – Porto de Leixões (Fonte: Jornal Renovação, 2021)

PORTO DE LEIXÕES


  1. INTRODUÇÃO E METODOLOGIA

Construído no final do século XIX e tendo sido alvo de sucessivos alargamentos, o Porto de Leixões representa, atualmente, o maior porto do norte do país e ocupa a segunda posição de maior porto artificial nacional – estando o Porto de Sines na primeira posição (APP, s.d.). Este, juntamente com os portos de Viana do Castelo e do Douro, é administrado pela APDL, S.A. A sua supremacia não se verifica apenas nos milhares de navios nem nos milhões de toneladas de mercadorias que recebe anualmente, que lhe conferem uma fatia de 20% do comércio internacional português praticado por mar (APP, s.d.). Também o “mega” objetivo estabelecido por esta infraestrutura portuária de alcance da neutralidade carbónica, assim como tornar-se autossuficiente energeticamente em 2035, lhe confere uma potencial posição de destaque ao nível nacional e também global (APDL, s.d.).

Para tal, o Porto de Leixões lançou o ‘Projeto Roadmap para a Transição Energética’, no qual apresenta ações concretas com vista à sua transição energética e descarbonização da sua atividade (APDL, s.d.). E é neste âmbito que o presente trabalho se encontra direcionado: na análise desse Roadmap, ou seja, do percurso estipulado para o alcance da neutralidade carbónica. Numa primeira parte é dado a conhecer a localização e a caracterização do Porto de Leixões, assim como o seu peso no âmbito da economia, sociedade e ambiente. E, numa segunda parte, é abordado o projeto Roadmap, onde são apresentadas as componentes integrantes e respetivas ações. Para finalizar, são apresentadas as considerações finais.

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Description automatically generated A Conferência dos Oceanos, com lugar em Lisboa entre os meses de junho e julho de 2022, pretendeu “(…) incentivar líderes e decisores dos 193 países da ONU a mobilizar parcerias e aumentar o investimento em abordagens científicas e inovadoras que contribuam para reverter o declínio da saúde dos oceanos” (Compete 2020, 2022). Esta conferência serviu de palco para a apresentação do projeto Roadmap do Porto de Leixões (Figura 2), permitindo tomar conhecimento das ações concretas que se encontram na base da sua ambiciosa transição energética.

Figura 2 – Apresentação da APDL na Conferência dos Oceanos 2022; Fonte: elaboração própria

  1. PORTO DE LEIXÕES

    1. Enquadramento geográfico e caracterização

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Description automatically generated O Porto de Leixões localiza-se no noroeste de Portugal continental, mais concretamente no município de Matosinhos, integrante da Área Metropolitana do Porto (NUTS III). É confinante com o Oceano Atlântico e apresenta boas acessibilidades terrestres (Figura 3), encontrando-se a apenas 5km de distância do Aeroporto Internacional Sá Carneiro e estando conectado com importantes ferrovias, por meio da Estação Ferroviária de Contumil, e infraestruturas rodoviárias (APDL, s.d.).

Figura 3 – Localização e conexões do Porto de Leixões; Fonte: APDL, s.d.

Apresenta uma dimensão considerável, contanto com 55 hectares de terra e 120 hectares de mar e, ainda, com um cais com 5 quilómetros de extensão (Transportes & Negócios, 2020). É preenchido por várias áreas, desde cais a terminais (Figura 4), responsáveis pelo manuseio de dadas atividades e tipos de mercadorias (Figura 5 e 6) (APDL, s.d.):

– No ‘Cais Convencionais de Carga Geral e Granéis Sólidos’ são movimentados vários tipos de mercadorias, tais como: madeira, aço, pedras de granito, granéis agroalimentares, maquinaria, etc. (APDL, s.d.);

– O ‘Cais de Movimentação de Granéis Líquidos’ é responsável pelo movimento de granéis líquidos, designadamente produtos asfálticos e derivados de petróleo (APDL, s.d.);

– O ‘Terminal de Petroleiros’ é composto por postos e um terminal que recebem navios fornecedores de produtos maioritariamente petrolíferos (APDL, s.d.);

– Os ‘Terminais de Contentores’ representam locais onde os navios de carga contentorizada são descarregados e onde essa carga é armazenada (APDL, s.d.);

– O ‘Terminal Ro-Ro’ é responsável pelo manuseamento de veículos ligeiros e pesados, incluindo o parqueamento de trailers (APDL, s.d.);

– O ‘Terminal Multiusos’ serve o Transporte Marítimo de Curta Distância[1], incluindo para Ro-Ro[2] e para Lo-Lo[3] (APDL, s.d.);

– Os ‘Terminais de Cruzeiros’, tal como o nome sugere, são responsáveis por receber os navios de cruzeiros, dispondo, ainda, de um cais destinado a embarcações destinadas a circuitos turísticos pelo Rio Douro e de um porto para náutica de recreio (APDL, s.d.);

– A ‘Doca de Recreio’ possui equipamentos destinados ao abastecimento de água, de combustível e de energia elétrica, por parte das embarcações (APDL, s.d.);

– O ‘Porto de Pesca’, tal como o nome sugere, recebe embarcações de atividades pesqueiras (APDL, s.d.);

Map

Description automatically generated – As ‘Instalações Especializadas’ são constituídas por silos que armazenam determinados produtos alimentares (tais como, cereais e derivados), depósitos que armazenam produtos petrolíferos e armazéns que recebem e expedem cimento a granel (APDL, s.d.).

Figura 4 – Constituição do Porto de Leixões; Fonte: APDL, s.d.

A body of water with a city in the background

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Figura 6 – Mercadorias no Porto de Leixões;

Fonte: elaboração própria (14/11/21)

Figuras 5 – Atividade no Porto de Leixões;

Fonte: elaboração própria (14/11/21)

An aerial view of a city

Description automatically generated with medium confidence O Porto de Leixões apresenta, na sua envolvente, uma plataforma logística dotada de dois polos, para os quais se encontram projetados um grupo de armazéns logísticos (Figura 5): o Polo 1, com 31 hectares, permitirá albergar cerca de 9.1 hectares de armazéns; e o Pólo 2, com 30 hectares, permitirá acolher 8.4 hectares de armazéns (APDL, s.d.). Por se localizar na sua envolvente, apresenta uma acessibilidade privilegiada a importantes infraestruturas de transportes e, ainda, uma conexão direta à infraestrutura portuária, por meio da Via Interna de Ligação ao Porto de Leixões (VILPL) (APDL, s.d.).

Figura 7 – Plataforma Logística do Porto de Leixões; Fonte: APDL, s.d.

Esta plataforma logística visa contribuir “(…) para a eficiência das cadeias logísticas que passam por Leixões, efetuando operações de valor acrescentado às cargas e alcançando ganhos devido às sinergias obtidas pela concentração da atividade num espaço devidamente infraestruturado para o efeito.” (APDL, s.d.).


    1. Peso económico, social e ambiental

O Porto de Leixões apresenta um peso económico considerável: contribui para 6% do PIB português, 11% do PIB da Região Norte e contribui para 20% do comércio internacional português praticado por mar, encontrando-se ligado a mais de 180 países (Mais Magazine, 2022). Este porto apresenta a primeira posição nacional ao nível de exportação de carga contentorizada e na relação com o tecido industrial e empresarial (Logística Moderna, 2022) – aliás, a plataforma logística permitirá a instalação de empresas nos seus polos (Porto de Leixões, s.d.). E apresenta a segunda posição nacional em termos de toneladas de mercadorias movimentadas (Mais Magazine, 2022), manuseando cerca de 19.5 milhões de toneladas anuais (APD, 2021).

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Descrição gerada automaticamente Através da leitura das Figuras 8, é possível verificar o número de embarcações movimentadas no mês de outubro dos anos 2021 e 2022 – expressando este um total de 226 e 241, respetivamente (APDL, s.d.). Os navios de contentores apresentam um forte destaque, comparativamente aos restantes tipos de embarcação, e exibem um ligeiro aumento em outubro de 2022, face ao mês homólogo do ano anterior.

Figura 8 – Movimento por tipo de navio (Nº), no mês de outubro em 2021 e 2022;

Fonte de dados: APDL, s.d.

Por meio da análise da Figuras 9, é possível verificar o peso das embarcações movimentadas (em toneladas GT[4]) no mês de outubro dos anos 2021 e 2022 – expressando este um total de 2 827 800 e 4 750 757, respetivamente (APDL, s.d.). Este aumento total poderá ser traduzido não só pelo aumento do número de embarcações movimentadas de um ano para o outro, mas também por uma maior dimensão das mesmas que, por sua vez, se traduz num maior volume total.

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Descrição gerada automaticamente Os navios de contentores são o grupo que apresenta um maior peso em ambos os anos, apesar dos navios de passageiros e de cruzeiros também exibirem um elevado volume, no entanto, apenas no ano de 2022. Na figura anterior verifica-se que os navios de passageiros e de cruzeiros tiveram um aumento ao nível do número de embarcações movimentadas em outubro de 2022, face ao mês homólogo do ano anterior. Este aumento verificado em 2022 pode ser traduzido pela situação pandémica que, ainda sentida em 2021, limitou fortemente o setor do turismo naquele ano.

Figura 9 – Movimento por tipo de navio (GT), no mês de outubro em 2021 e 2022;

Fonte de dados: APDL, s.d.

Figura 7 – Movimento por tipo de navio (GT), no mês de outubro dos anos 2021 e 2022;

Fonte de dados: APDL, s.d.

Ao nível social, o Porto de Leixões possui também um papel importante: sendo responsável por 6% do emprego do país e 11% do emprego presente na Região Norte (Mais Magazine, 2022). No âmbito populacional, este acolhe à volta de 14 milhões de residentes num hinterland com um raio de 3 horas de distância (APP, s.d.).

Relativamente a questões ambientais, segundo a Avaliação Ambiental Estratégica, inerente ao ‘Plano Estratégico de Desenvolvimento da APDL (2017-2026)’, os seus portos – entre os quais, o Porto de Leixões faz parte – apresentam debilidades, entre elas: o ruído e a poluição da água e do ar provocados pelas suas operações; a existência de risco de derrame de combustível; e o aumento relativo à produção de resíduos (Partidário, 2020).

O Porto de Leixões, pelo menos, tem trabalhado em prol da modificação destas debilidades. Esta situação é visível com a implementação do ‘Plano de Recepção e Gestão de Resíduos do Porto de Leixões’, em vigor entre 2017 e 2019, com vista à contribuição para a proteção do meio marinho ao proibir, nele, a descarga de resíduos (APDL, 2017). Conforme é mencionado no plano, este é aplicável a praticamente a todos os navios que efetuem alguma operação ou que simplesmente escalem no Porto de Leixões, podendo estes “(…) entregar os resíduos do navio, ou os resíduos de carga, em qualquer horário durante sete dias por semana.” (APDL, 2017).

O combate à poluição do ar, por parte do Porto de Leixões, também não ficou de fora: tendo sido proibida, a partir de janeiro de 2021, a entrada no porto por parte da generalidade dos camiões portadores da certificação Euro 1, Euro 2, Euro 3 e Euro 4, tendo apenas acesso os camiões com as certificações Euro 5 e Euro 6 (APDL, s.d.), por serem mais amigos do ambiente (Figura 10) (Cesvimap, 2016). A implementação desta medida teve como motivação a redução das emissões de CO2, em 50%, no Porto de Leixões (APDL, s.d.).

Reducción de emisiones

 

Figura 10 – Certificações Euro e respetivas emissões; Fonte: Cesvimap, 2016


  1. PROJETO ROADMAP PARA A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA

A ambição de se antecipar 15 anos às metas do European Green Deal[5], levou o Porto de Leixões a desenvolver um roteiro para a sua transição energética – com a pretensão de atingir a neutralidade carbónica e de ser autossuficiente energeticamente até 2035 (Revista Cargo, 2021), conforme se pode verificar através da leitura da Figura 11. Este roteiro foi desenvolvido com a colaboração da ‘Inova Labs’, uma consultora espanhola (Transportes & Negócios, 2021) ligada à área tecnológica e de engenharia no âmbito da inovação, sustentabilidade, digitalização e estratégia (Inova, s.d.). Segundo Nuno Araújo, atual presidente da APDL, “O objectivo é tornar-se um porto de referência internacional no sul da Europa, na transição para um novo sistema energético baseado na utilização dos seus próprios recursos naturais (…)” (Revista Cargo, 2021).

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Figura 11 – Meta para a neutralidade carbónica do Porto de Leixões;

Fonte: Fórum Oceano, 2022

Conforme mencionado na Conferência dos Oceanos 2022, por Hugo Lopes[6], a concretização desta ambição não depende exclusivamente do Porto de Leixões, sendo necessário um trabalho conjunto com outros stakeholders – como, por exemplo, com os operadores de carga (Fórum Oceano, 2022[7]). As iniciativas relativas ao Roadmap são seguidamente apresentadas, encontrando-se distribuídas por 5 temas: ‘Porto sustentável’; ‘Porto autossuficiente’; ‘Porto inovador’; ‘Porto conectado’; e ‘Porto acessível e intermodal’.


    1. Porto sustentável

Procurando a redução das emissões provenientes dos veículos pesados que entram no porto – contribuindo para o reforço da iniciativa, anteriormente apresentada, de proibição da entrada de camiões detentores de certificações abaixo da Euro 5 – encontra-se inclusa a iniciativa de inserção e disponibilização de camiões elétricos (designados por Eco-Trucks), bem como de estações de carregamento para as empresas utilizarem nas suas operações (Fórum Oceano, 2022).

A eletrificação das atividades portuárias, designadamente dos equipamentos pesados que as envolvem, bem como a inserção de uma frota de veículos ligeiros elétricos e híbridos, incluindo a disponibilização de estações para o respetivo carregamento, representa outra iniciativa presente no Roadmap (Fórum Oceano, 2022).

No âmbito da eletrificação dos terminais, foi criada a iniciativa de implementação de um sistema OPS[8] (Figura 12), em que se prevê o desenvolvimento de uma Rede de Média Voltagem para o carregamento das embarcações – passando dos atuais 7 MVA[9] para 60 e, posteriormente, para 75 (Fórum Oceano, 2022). Também a conexão do sistema OPS com combustíveis alternativos integra, igualmente, esta iniciativa (Fórum Oceano, 2022). Caso a iniciativa seja bem-sucedida, a redução das emissões é estimada para cerca de 38 000 toneladas de CO2 – tendo em conta que as emissões anuais, atualmente, rondam as 60 000 toneladas (Fórum Oceano, 2022).

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Descrição gerada automaticamente

Figura 12 – Sistema OPS no Porto de Leixões;

Fonte: Fórum Oceano, 2022

Esta última iniciativa apresenta alguns desafios ao nível regulatório, na medida em que a autoridade portuária não pode forçar os operadores de transportes marítimos a aderirem a este tipo de carregamento – podendo, no entanto, cativá-los por meio de taxas atrativas (Fórum Oceano, 2022).


    1. Porto autossuficiente

Atingir a sua autossuficiência exige um conjunto de iniciativas voltadas para a inserção de tecnologias de energias renováveis (Figura 13): neste âmbito, o porto prevê a instalação de painéis fotovoltaicos nas coberturas dos seus edifícios e nos parques de estacionamento e, ainda, a inserção de painéis flutuantes nas suas águas – começando com uma instalação de 1 megawatt, mas com a pretensão de aumento, no futuro, para 4 megawatts (Fórum Oceano, 2022). As energias eólica e das ondas também farão parte desta transição, estando prevista a instalação de duas turbinas e de uma unidade piloto de energia das ondas, ambas no quebra-mar do porto (Fórum Oceano, 2022).

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Descrição gerada automaticamente

Figura 13 – Tecnologias de energias renováveis no Porto de Leixões;

Fonte: Fórum Oceano, 2022

A estimativa de produção energética, resultante desta iniciativa, é de cerca de 35 GWh, por ano, e destinar-se-á não só às atividades do próprio porto, mas também à partilha da mesma com os seus stakeholders (Fórum Oceano, 2022). Esta estimativa poderá vir a sofrer um aumento, uma vez que se prevê expandir, futuramente, a instalação de tecnologias de energias renováveis (Fórum Oceano, 2022).


    1. Porto inovador

Apesar do forte interesse por combustíveis alternativos, o Porto de Leixões está consciente de que a produção dos mesmos não se encontra ainda num estado de maturação que permita dar resposta a um número alargado de embarcações (Fórum Oceano, 2022). E, por esse motivo, encontra-se, entre as iniciativas, a monitorização relativa a este tipo de combustíveis quer em termos de procura, quer em termos de investigação – por exemplo, por meio da sua participação, juntamente com várias empresas, num projeto voltado para o desenvolvimento de hidrogénio (Fórum Oceano, 2022). O porto tem, também, procurado reunir esforços para tornar possível a regulamentação, as taxas e as aplicações inerentes a este tipo de combustíveis (Fórum Oceano, 2022).


    1. Porto conectado

A digitalização surge, igualmente, como uma ambição do Porto de Leixões, uma vez que promover uma maior rapidez e eficiência das suas operações proporcionará uma redução das emissões e, consequentemente, um menor impacte a nível ambiental (Fórum Oceano, 2022). Tal como defende Hugo Bastos, atual diretor de sistemas de informação da APDL, “(…) a tecnologia já é, hoje em dia, fundamental no suporte ao negócio dos portos.” (APDL, s.d.). No âmbito da digitalização, o porto encontra-se envolvido no projeto ‘Janela Única Logística’ (JUL) (Figura 14), que permite reunir uma vasta amplitude de stakeholders integrantes das operações logísticas, proporcionando uma harmonização e transparência ao processo e, com isto, melhorar a atividade do porto (Fórum Oceano, 2022). Através da ‘JUL’ “(…) os atores das redes logísticas e as autoridades partilham informação em tempo real. E alinham processos para assegurar a sincronização das operações.” (JUL, s.d.).

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Figura 14 – Janela Única Logística; Fonte: JUL, s.d.

Ainda no âmbito da digitalização, o porto prevê a construção de um novo centro de dados e a sua partilha com os seus stakeholders, através do qual eles possam melhorar a sua capacidade (Fórum Oceano, 2022). Sendo o primeiro porto nacional a implementar a tecnologia 5G, este apresenta algumas iniciativas voltadas para esta área tecnológica (Fórum Oceano, 2022). Apresentando a tecnologia 5G uma maior velocidade em termos de comunicação, o porto prevê assim que, uma maior rapidez permite uma maior redução de tempo e, consequentemente, menores níveis de emissões de poluentes (Fórum Oceano, 2022). O porto tem desenvolvido algumas experiências com drones, com ligação ao 5G, através dos quais, por meio de câmaras, conseguem monitorizar, em tempo real, as manobras dos navios (Fórum Oceano, 2022). Estes, em suma, representam uma solução capaz de proporcionar uma maior segurança, eficiência e, também, previsibilidade ao Porto de Leixões (APDL, s.d.).


    1. Porto acessível e intermodal

De forma a complementar o conjunto de iniciativas, apresentadas nos 4 pontos acima, o Porto de Leixões procura melhorar as suas infraestruturas, de forma a conseguir uma maior acessibilidade marítima e uma maior intermodalidade (Fórum Oceano, 2022). Entre os projetos, constam o aprofundamento do canal de entrada para quase -17 metros e da bacia de rotação para cerca de -15,5 metros e, ainda, uma extensão de 300 metros do quebra-mar (Figura 15), por forma a ser capaz de receber embarcações de maior dimensão (Fórum Oceano, 2022) – contando, ambos os projetos, com uma comparticipação comunitária (APDL, s.d.) O incremento na sua acessibilidade apresenta como objetivo “(…) melhorar as condições de segurança e a navegabilidade no acesso ao Porto de Leixões e na zona de manobra dos navios, no anteporto.” (APDL, s.d.).

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Descrição gerada automaticamente

Figura 15 – Bacia de rotação, quebra-mar e canal do Porto de Leixões;

Fonte: Nemus, s.d.

A reconversão do Terminal Multiusos integra outra iniciativa que promoverá o desenvolvimento do porto, através da qual se prevê o aumento da sua dimensão e, assim, da sua capacidade para albergar um maior número de contentores (Fórum Oceano, 2022) – estimando-se um crescimento anual de cerca de 2% de carga contentorizada (APDL, s.d.). A reconversão deste terminal permitirá, ainda, desenvolver o porto de pesca que se encontra aí instalado, promovendo, assim, a melhoria da qualidade de vida da sua comunidade (Fórum Oceano, 2022).

De forma a promover uma intermodalidade, prevê-se a integração de um terminal ferroviário no porto, de forma a evitar que a carga transportada até ao terminal mais próximo tenha de ser posteriormente transportada 5 km por camião para entrar no porto (Fórum Oceano, 2022). Este projeto levará, assim, a uma redução de tempo logístico que se traduzirá em menores emissões de poluentes, por parte dos camiões.


  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Porto de Leixões, enquanto importante contribuidor para a economia da Região Norte e do país, não pretende ficar-se apenas pelo papel de agente económico: a elaboração do projeto Roadmap expressa bem o seu ambicioso objetivo de desempenhar um destacável papel ambiental. O conjunto de iniciativas perspetivadas, e também algumas delas já implementadas, inerentes à sua descarbonização não se remetem apenas à redução direta das emissões – como a proibição de circulação de veículos potencialmente poluidores no interior da sua infraestrutura –, mas também ao desenvolvimento tecnológico. Tal como é defendido por Hugo Bastos, “(…) as tecnologias estão a mudar os portos, tornando-os mais sustentáveis, quer na vertente económica (…), quer na vertente ambiental (…)” (APDL, s.d.). A rapidez de operações, por elas estimulada, permite reduzir tempo (e, claro, gastos económicos) e, consequentemente, reduzir emissões.

Também a ânsia de se tornar um porto cada vez mais acessível e intermodal é, igualmente, denotado no seu Roadmap: o projeto da Plataforma Logística consiste apenas numa parcela das suas pretensões. A ampliação e criação de infraestruturas quer marítimas, quer terrestres representa, igualmente, uma vontade de estender a sua atividade a negócios “maiores”. E também a criação de conexões mais diretas ao porto permitem, mais uma vez, reduzir tempo e, consequentemente, emissões.

A pretensão de conseguir uma neutralidade carbónica em 2035 parece ser algo bastante ambicioso e arrojado, mas, tendo em conta a amplitude e especificidade das iniciativas projetadas, poder-se-á verificar que o Porto de Leixões está no bom caminho para o alcance dessa meta.


  1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

APD. (2021). Nuno Araújo: “O Porto de Leixões é o porto mais importante do país”. Consultado a 21 nov. 2022. Disponível em: https://www.apd.pt/entrevista-nuno-araujo-o-porto-de-leixoes-e-o-porto-mais-importante-do-pais/

APDL. (2017). Plano de Receção e Gestão de Resíduos de Navios e Resíduos de Carga Porto de Leixões. Matosinhos: Administração dos Portos do Douro e Leixões, S.A.

APDL. (s.d.). Consultado a 14 nov. 2022. Disponível em: https://www.apdl.pt/pt_PT/web/apdl/header

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Partidário, M. (2020). Avaliação Ambiental Estratégica de alterações ao Plano Estratégico de Desenvolvimento da APDL (2017-2026) e suas unidades de negócio. Relatório Ambiental Preliminar. Lisboa: TIS & Instituto Superior Técnico

Resolução do Parlamento Europeu sobre o transporte marítimo de curta distância 2004/2161(INI) de 12 de abril de 2005. Jornal Oficial da União Europeia N.º 33/142. Estrasburgo: Parlamento Europeu

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WPSP. (2022). What is OPS? Consultado a 22 nov. 2022. Disponível em: https://sustainableworldports.org/ops/what-is-ops/

XChange. (2019). RoRo LoLo? Different Loading Methods compared. Consultado a 20 nov. 2022. Disponível em: https://www.container-xchange.com/blog/roro-lolo-difference/



  1. O Transporte Marítimo de Curta Distância representa “(…) um transporte de mercadorias e de passageiros por mar ou por canais de navegação interior que faz parte da cadeia logística de transportes na Europa e nas regiões ligadas à Europa (…)”, conforme a ‘Resolução do Parlamento Europeu sobre o transporte marítimo de curta distância 2004/2161(INI)’.




  2. ‘Ro-Ro’ direciona-se para navios que transportam carga rolante, podendo esta ser carregada e descarregada por meio das suas rodas, sem requerer o auxílio de gruas (XChange, 2019).




  3. ‘Lo-Lo’ direciona-se para navios que possuem, a bordo, guindastes destinadas ao carregamento e descarregamento da carga (XChange, 2019).




  4. ‘Gross Tonnage’ (GT) representa o volume de todos os espaços fechados de um navio (FleetMon, s.d.).




  5. O ‘European Green Deal’ consiste numa estratégia que visa o crescimento económico da UE de uma forma sustentável (ERRIN, s.d.).




  6. Chefe do Departamento de Desenvolvimento Sustentável da APDL.




  7. A Fórum Oceano apresenta disponibilizada a gravação da apresentação da APDL, na Conferência dos Oceanos 2022.




  8. ‘Onshore Power Supply’ (OPS) consiste no carregamento das embarcações, a partir de uma fonte energética localizada em terra; representa uma estratégia para reduzir o impacte ambiental causado pelas embarcações nos portos (WPSP, 2022).




  9. Megavolt Ampere (MVA) consiste numa medida de energia elétrica (Law Insider, 2022).


Edição: Novembro 2024

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Entre estações: arquitectura pós-vaticano ii, #metoo e jazz, optimismo em Maquiavel, intervenção social, progressividade no irs, conde Andeiro, castelos, 11 setembro, malhão de ir ao meio e Tolstói.

ENSAIO

Arquitetura pós Vaticano II: o caso do Alto Minho.

Sobre os princípios espaciais da Constituição Sacrosanctum Concilium e os reflexos na conceção e na adequabilidade da arquitetura atual produzida no Alto Minho, tendo em conta o ritual e simbolismo litúrgico.

Uma Visão Optimista da Razão em Maquiavel

Sobre como só em circunstâncias esdrúxulas é que o poder pode ser considerado um fim por si só, a dependência que a moral de Maquiavel tem de uma determinação exacta dos efeitos das acções, e sobre como o seu pensamento é de um optimismo salutar quanto à capacidade humana de avaliá-los.

Intervenção Social Generativa em Cuidados a Idosos Dependentes

Sobre o envelhecimento ativo e saudável e os limites e potencialidades emergentes da intervenção social generativa, quer junto do idoso quer junto das famílias cuidadoras.

Justiça Social e IRS: Pela Progressividade Indireta

Sobre a necessidade de um sistema tributário progressivo para reduzir desigualdades, sugerindo a intributação mínima de bens essenciais e a tributação baseada na capacidade contributiva.

Pesquisa académica, matrículas alemãs (de exportação) e trans-humanismo.

CRÓNICA

Uma Nova Realidade do Trabalho

Um cenário distópico onde trabalhadores modernos perdem sua presença física, substituídos por avatares digitais. A alienação e o isolamento dominam, enquanto a conectividade virtual esconde a desumanização e a perda de identidade no ambiente de trabalho.

O #metoozinho do Jazz Português

Uma análise detalhada às alegações levantadas por mais uma vaga sensacionalista e populista do movimento #metoo, desta vez no mundo do jazz português.

As ciências!

ARTES VISUAIS

2001, Ano Zero: Fragmentos do Pós-11 de Setembro Imediato na Cultura Visual

Revisitamos um ensaio profusamente ilustrado dedicado à data sobrecitada, contendo videoclipes musicais, cinema e literatura decorrentes dos estímulos heterogéneos da experiência humana da pós-modernidade despontados pelo referido evento.

Mais mulheres, mas também mais “wokismo”, na academia. Não é certa a relação entre uma coisa e outra: o primeiro número antevê-se que continue a crescer, o segundo prevê-se que decline.

RUBRICA

Como foi o Conde Andeiro morto

Como foi o Reino de Portugal salvo da opressão: excerto da Crónica de D. João I, cap. IX.

A utilização interna do Castelo, com provas históricas no Reino de Portugal

Excerto da obra “Guerreiros de Pedra”, de Miguel Gomes Martins.

A internet nos seus primórdios e hoje.

CRÍTICA

Crítica: Malhão de Ir ao Meio, Grupo Folclórico de Vila Verde

Um tema tradicional cuja letra é de autor desconhecido, sendo a versão apresentada em livro provavelmente uma das muitas variantes que a tradução oral foi mantendo viva.

Paradise Cafe, um dos primeiros videojogos eróticos portugueses.

Crítica: Os Últimos Escritos (trad. António Pescada), Lev Tolstoi, 2018

Esta compilação de textos curtos pode justificar-se por serem vestígios da segunda vida de Tolstoi: são, de um ponto de vista unívoco, textos de renúncia.

Funnnies avulsos.

Retrato de Gala Dalí (1894—1982), mulher de Salvador Dalí, notável patrona e inspiradora não só da obra artística do pintor surrealista espanhol mas também dinamizadora de outros movimentos artísticos durante a primeira metade do século XX. Pintura pertencente à Fundação Gala-Salvador Dalí.

A utilização interna do Castelo, com provas históricas no Reino de Portugal

“[…] Lembremos o Castelo de Lamego, em cujo pátio de armas se realizava uma feira anual, documentada a partir de finais da centúria de Duzentos e onde acorria gente proveniente de diversas zonas do Reino, carregada com os mais variados bens e produtos. Mas quando falamos  desta componente civil, lembramo-nos, sobretudo, das estruturas que não tinham uma função ou um propósito puramente militar, tais como os edifícios que encontramos frequentemente adossados à face interna das muralhas dos Castelos e distribuídos em redor dos seus pátios de  armas. Ainda que alguns não passassem de simples “cabanas” – como a que em 1258 existia no Castelo de Pena da Rainha – trata-se maioritariamente de edifícios, ou conjuntos de edifícios, com dimensões consideráveis, dotados de várias divisões e que as fontes documentais  designam habitualmente, de forma vaga, como “casas”. Veja-se, por exemplo, a referência às “casas” que, em meados do séc. XIII, existiam no interior do Castelo de Guimarães e que as populações das localidades próximas eram obrigadas a limpar; ou as que se encontram no  Castelo de Neiva, em 1258, e que eram periodicamente cobertas com feixes de giesta fornecidos pelos moradores da povoação vizinha de S. Paio de Antas. [Segundo Duarte d’Armas]: em Olivença, por exemplo, registam-se 12 compartimentos térreis e sete nos sobrados – isto é, no  segundo piso -, totalizando 19 divisões; em Serpa são assinalados 13 aposentos ao nível do solo, mas apenas dois sobrados; em Moura, o número de divisões térreas ascendia a uma vintena, a que se somavam outras 17 nos pisos superiores, num total de 37; ao passo que em Castro  Marim a fonte regista 13 compartimentos no piso inferior, acrescidos de, pelo menos, outros dois, no piso superior, num total de 15, uma informação que, em boa medida, vem ao encontro de um documento datado de 1347 onde são referidas diversas casas no interior desse Castelo  Algarvio. Porém, há uma dúvida para a qual nem o escudeiro de D. Manuel I nem as restantes fontes fornecem qualquer resposta: para que serviam afinal todos estes edifícios e aposentos? Apesar do silêncio da documentação, é fácil imaginar que, pelo menos alguns deles,  alojariam estruturas de apoio à atividade militar, nomeadamente arsenais, mas também oficinas de armeiros e de ferreiros e ainda armazéns de géneros, essenciais não só para o dia-a-dia da Fortaleza, mas acima de tudo para as alturas de maior tensão militar, em particular  para os períodos de cerco. Podem também tratar-se de fornos de pão, como o que existia no Castelo de Guimarães, em 1289, de adegas, celeiros e palheiros como os que se encontravam atestados, entre muitos outros, nos Castelos de Lamego, Sesimbra e Mértola. Noutros locais,  essas divisões podem ter sido usadas como estrebarias e cavalariças, por vezes com capacidade para um número razoável de animais mas às quais nem sempre era dada a utilização devida, como bem o demonstra uma queixa apresentada ao Rei contra o Alcaide-mor de Castelo de Vide,  que em 1350 as usava para guardar o gado perdido e apreendido na região circundante. Aqueles “aposentamentos” podiam ainda ser utilizados como prisão, outro elemento comum a um grande número de Castelos e, por isso, várias vezes mencionado nas fontes. Encontramo-las  documentadas, por exemplo, nos Castelos de Coimbra – onde em 1247 se encontrava preso o pintor Vicente Martins -; Guimarães; Lamego; e também em Évora, onde estiveram detidos Gonçalo Vasques de Azevedo e o Mestre de Avis, D. João, em finais de 1381 ou já nos inícios do ano  seguinte. Duarte d’Armas assinala-as também em Terena e em Miranda do Douro, ocupando precisamente alguns dos tais “aposentamentos” a que nos temos vindo a referir. Contudo, o mais comum era as prisões encontrarem-se instaladas em torres, de onde supostamente seria mais  difícil escapar. Assim acontecia, por exemplo, em Mourão, Monsaraz, Castelo Branco e Montalegre, novamento segundo o “Livro das Fortalezas”, mas também nos Castelos de Olivença e de Leiria, Fortaleza cuja cadeia ocupava – desde o séc. XIV – um dos pisos da sua imponente  torre de menagem. […] Por vezes, uma ou outra das muitas dependências e compartimentos dispostos em redor dos pátios de armas dos Castelos podia também servir para a instalação de um pequeno local de culto, como se observa pelos desenhos e plantas meticulosamente  elaboradas por Duarte d’Armas, que registam a existência de Capelas em Mourão, Monsaraz, Monforte e, talvez, – a fonte não é clara a esse respeito – em Castro Marim. Casos há em que foram mesmo erguidas Igrejas no interior desses espaços fortificados, algumas até bastante  imponentes e de dimensões generosas, como as de Juromenha, de Ouguela ou de Castelo Branco. E certamente não seriam as únicas, como se percebe por uma referência das Inquirições de 1258, onde se faz menção ao facto de, em caso de guerra, designadamente em situações de cerco, o pároco da Freguesia de S. Salvador, na Terra de Aguiar da Pena, ter a obrigação de se refugiar no Castelo de Aguiar, onde era esperado que continuasse a oficiar os serviços Religiosos. Em alguns Castelos, mormente naqueles que apresentavam estruturas mais resistentes e em  bom estado de conservação – oferecendo, por isso, melhores garantias de segurança -, existiam também locais próprios para guardar riquezas. O segundo testamento de D. Sancho I, datado de Outubro de 1210, refere a distribuição do tesouro régio pelas torres dos Castelos de  Coimbra, Leiria, Alcobaça, Tomar, Évora e Belver. Também o de Santarém terá sido usado – pelo menos durante o Reinado de D. Pedro I – para esse efeito, tal como o de Almodôvar, onde se encontraria bastante ouro e prata guardada, precisamente numa das suas torres. A Torre  Albarrã do Castelo de Lisboa, servia o mesmo propósito, pelo menos desde 1300, tendo mesmo sido edificada, segundo Fernão Lopes, com esse objetivo, motivo pelo qual era conhecida como “Torre do Haver”. Terá sido precisamente a segurança conferida por esta Torre do Castelo  Lisboeta – cuja porta era cerrada com três fechaduras -, que levou a que fosse considerada a mais adequada para instalar o Arquivo da Coroa, o que veio a acontecer, entre 1352 e 1378. Em virtude dessa nova funcionalidade, passou então a ser conhecida como “Torre do Tombo”,  ou seja, o local onde se guardavam os vários volumes de documentos considerados de maior importância, nomeadamente os Livros de Registos de Chancelaria e os Tombos de Propriedades Régias”.

 – “Guerreiros de Pedra”, de Miguel Gomes Martins.

Intervenção Social Generativa em Idosos Dependentes

LIMITES E POTENCIALIDADES DE UMA INTERVENÇÃO SOCIAL GENERATIVA NO DOMINIO DOS CUIDADOS INFORMAIS A IDOSOS DEPENDENTES. Texto de Maria João Escórcio Paixão, Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior em Serviço Social, Mestre em Serviço Social pela Universidade Fernando Pessoa do Porto, e Cristina Pinto Albuquerque, Doutora em Letras, Especialidade Trabalho Social e Política Social; Docente na Universidade de Coimbra. Resumo: O envelhecimento da população está associado à dependência que no contexto socioeconómico confere ao cuidador informal principal um papel importante. Neste contexto, este estudo pretende compreender o fenómeno do envelhecimento ativo e saudável e identificar os limites e potencialidades emergentes da intervenção social generativa, quer junto do idoso quer junto das famílias cuidadoras. De cariz qualitativo, esta investigação desenha-se com recurso a entrevistas semiestruturadas, e grupos focais aos CPF e AS, nomeadamente, elaboração de mapas de rede de cuidadores e grupos focais a 8 cuidadores informais (CPF) e 12 profissionais, entre assistentes sociais (AS) do SAD do Instituto de Segurança Social da Madeira e dirigentes de IPSS. Complementando-se com os mapas de rede, antes e após a situação de dependência do idoso, analisando as redes de proximidade e de serviços na vida dos CPF, de forma a potenciar ou alargar o capital social das famílias e idosos dependentes. A análise e tratamento dos dados foi norteada pela lógica de análise categorial, que identifica as mudanças nos mapas de rede de CPF, projetando os cuidados informais como um processo significativo na vida das famílias, implicando as políticas públicas na prática profissional dos AS. Os dados revelam que são importantes respostas mais flexíveis nos cuidados a idosos dependentes, não apenas na comunidade, mas na construção de pilares que possam conduzir a ações diferentes, usando novos recursos (nomeadamente tecnológicos) e novas formas de articulação entre os recursos e respostas existentes formais ou informais. É iminente repensar a conceção de envelhecimento na base na prevenção, soluções que assegurem uma integração social ativa. Os resultados apontam que há um superficial conhecimento das políticas relacionadas com o envelhecimento e com os cuidados. Em termos de princípios, o Serviço Social posiciona-se a favor da cidadania e o aprofundamento da equidade e justiça social, através de comunidades amigas dos idosos, smart cities, subjacente ao bem-estar da pessoa idosa, revelando uma consciência na prevenção considerada um meio e um fim para o desenvolvimento do bem-estar. Palavras-chave: Cuidados Informais; Pessoa Idosa; Família; Serviço Social Generativo.

O Processo do Envelhecimento e os Bastidores dos Cuidados Familiares do Idoso Dependente

Numa sociedade cada vez mais envelhecida em que o aumento da longevidade surge associada a um aumento substancial das necessidades de apoio, a família desempenha um papel importante na provisão de cuidados informais para com os seus membros, tornando-se fundamental o papel da família cuidadora no bem-estar da população idosa. Nesta linha de análise, torna-se essencial analisar numa perspetiva generativa, a intervenção social junto dos cuidadores informais de idosos dependentes.

A este propósito, salienta-se que mais importante é dar mais vida aos anos do que dar mais anos à vida, tornando-se inevitável que o envelhecimento a curto prazo será em todos os casos bem diferente daquele que nos habituamos a constatar, perspetivando que viveremos em melhores condições de vida.

De acordo com Rodrigues (2018); Rocha (2018), o grande propósito é fazer acompanhar o aumento de esperança de vida com o período de vida saudável e, por conseguinte, confiar que vivemos os anos que estão para vir com a melhor qualidade de vida possível.

Do ponto de vista da saúde das pessoas idosas, é importante que os serviços se focalizem na prevenção das doenças investindo num acompanhamento multidisciplinar, prestado ao longo da vida e não somente no fim (Carvalho, 2016; Rosa, 2020).

Neste sentido, Simões e Sapeta (2017); Mota (2021) defendem que a nova geração de idosos previsivelmente com maior longevidade cuidará melhor de si e terá acesso a inovações, novos padrões de consumo, estilos de vida mais saudável, maior literacia em saúde e manutenção de atividades recreativas que criarão na sua conjugação, a possibilidade de viver com melhores condições de vida.

Nesta linha de análise, Ribeiro e Paúl (2018) por outro lado, acrescentam que cada pessoa é resultante das suas disposições naturais e das suas circunstâncias de vida. Por esse motivo, há que entender o envelhecimento como um continuum, “envelhecer como se viveu”, que, sobretudo depende da saúde, do estilo de vida e da educação, sublinha-se que, embora o envelhecimento seja um processo contínuo, cada pessoa envelhece à sua maneira, mas ao mesmo tempo é um processo determinado também pelo tempo e tipo de sociedade em que vive.

A Organização Mundial de Saúde adotou o termo “envelhecimento ativo” no final de 1990, sintetizado como uma oportunidade contínua de saúde, segurança e participação. Nesse contexto, “ativo” não está apenas relacionado com a capacidade física dos idosos, mas sobretudo, com a sua participação contínua na sociedade, nas questões relacionadas com a vida em comunidade onde vive, advogam Zaidi e Howse (2017).

A este propósito, a Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável 2017-2025, relaciona-se com a participação da pessoa nos diferentes vetores da sociedade como na vida social, económica, cultural, espiritual e cívica. Tal como a ONU e a União Europeia foram organizações que em 1980 e 1990 valorizaram o envelhecimento ativo. Estas abordagens procuraram combater simultaneamente a estereotipia do idadismo[1] neste segmento da sociedade, ganhando uma nova conceção na sociedade atual, valorizando as redes de solidariedade e sociabilidade ao longo da vida da pessoa idosa.

Exorta-se a ideia de que o envelhecimento é um fenómeno complexo e heterogéneo, que envolve questões de responsabilidade individual e social. Ao Estado também compete estabelecer normativos como forma de garantir condições de vida dignas aos cuidadores e aos idosos. Nesse contexto, o Estado deve reconhecer a família como fundamental no apoio e cuidados aos seus familiares idosos, usufruindo a família do suporte que possibilite tanto aos que cuidam como aos que são cuidados, ter uma vida digna e de bem-estar (Furtado, 2018; Soeiro e Araújo, 2020).

De acordo com os estudos relacionados, Fonseca (2018); Rolo e Alves (2020) constata-se que o conceito ageing in place apresenta um grande desafio na atualidade. O desejo de envelhecer em casa, num ambiente familiar adequado às modificações que implicam o processo de envelhecimento, é a situação preferida da maioria dos idosos. Isto por que, o domicílio é um espaço de relações afetivas e trocas sociais. Por conseguinte, a saída do idoso do meio familiar implica constrangimentos, conduzindo a maioria das vezes a um sofrimento.

Entendendo que a assistência e cuidado ao idoso dependente não dependerá somente da solidariedade familiar, mas de uma assistência abrangente que se reflete em todas as dimensões social, económica, saúde e bem-estar.

Nesse contexto, torna-se fundamental acionar mecanismos formais de ajuda, atendendo ao aumento da longevidade da população que crescerá de forma acentuada num futuro próximo.

A Construção Social do Envelhecer: Limites e Potencialidades da Intervenção do Serviço Social no Envelhecimento

A intervenção do Serviço Social junto das pessoas envelhecidas e famílias requer uma abordagem interdisciplinar, valorizando o ageing in place, significando continuar a viver em casa, mas também continuar na comunidade com segurança e de forma independente, beneficiando de um maior apoio social.

É nesta circunstância que o envelhecimento sempre foi um fenómeno analisado ao longo dos tempos, surgindo a pertinência da intervenção social junto da população idosa, nomeadamente aquela que tem carência de recursos, aumento da dependência, solidão, isolamento, fracas redes de sociabilidade, necessidades de cuidados de saúde e carências dos cuidadores (Paixão, 2017; Fragoso, 2018; Almeida, 2021; Anes et al., 2021).

Face a esta conjuntura, justifica-se a importância do profissional generativo alicerçado na capacidade dialógica que ao providenciar a intervenção social, assume o papel de mediador, auxiliando na identificação de necessidades e na procura de alternativas a nível individual e a nível coletivo, promovendo o empowerment junto das famílias cuidadoras.

Schnitman (2016) sustenta a ideia de que o processo generativo se desenrola quando o profissional considera a altura apropriada de fazê-lo, auxilia as pessoas a passar do foco no problema, para o foco na resolução do problema, ou seja, trabalhando para uma visão ou posicionamento produtivo baseado, alicerçado em estratégias inovadoras com vista a transformar o presente e o futuro.

Nesta lógica, Pereira (2017) advogam que são os mais vulneráveis, sobretudo, os que apresentam maior nível de dependência e fragilidades, que justificam a importância do profissional generativo no processo de cuidar de pessoas idosas.

Assim, é crucial o abandono de uma prestação clássica padronizada substituída por uma oferta “mais elástica”, capaz de dar uma resposta mais adequada à garantia dos direitos dos idosos, sem que as características da residência ou o seu poder económico, se tornem diferenciadores e influenciadores. É fundamental fazer frente a processos de desigualdade social, fazendo com que o idoso se reconheça como pessoa de direitos, deixando para trás uma intervenção com características assistencialistas (Rodrigues, 2018; APAV, 2020; Silva, 2021).

Corroborando a mesma perspetiva, o futuro passa por integrar soluções diversificadas, que respondam, simultaneamente, às diversas realidades do quotidiano local e regional, às comunidades e aos indivíduos. Porém, não existe a solução perfeita, mas podem existir várias formas ou trajetos para chegar ao mesmo objetivo ou a objetivos renovados, que possam fazer face ao processo de envelhecimento.

Destaca-se a importância de acompanhar as novas tecnologias e demonstrar a sua utilidade junto das pessoas mais idosas, de forma aceder a outras linguagens integradas na sociedade tecnológica e, desse modo, ajudar a recuperar uma imagem positiva do seu estado de velhice (Albuquerque, 2017; Rocha, 2018; Santos et al., 2018; Caraça, 2021).

Nesse contexto, é um desafio fortemente associado à intervenção social do cuidador, que a partir do desenvolvimento de infraestruturas digitais permitem ao cidadão tirar partido de novas oportunidades oferecidas pelas tecnologias como respostas fundamentais para responder às necessidades dos idosos.

Neste campo, a “política generativa” enquadra uma mudança de perspetiva: em princípio articulada para dar poder individualmente às pessoas, ela deve ser transplantada para uma dimensão coletiva, ou seja, deve ser implementada conectando as pessoas, de modo que façam as coisas juntas, e assim assumam a responsabilidade pelos problemas e soluções que compartilham, com isso superando a atomização produzida pelo Estado do Bem-Estar (Giddens, 1994). Reforçando a ideia de Serviço Social generativo, Giddens (1994) descreve a política generativa como uma “politica do domínio público (…) Produz efeitos ao fornecer condições materiais e estruturas organizacionais para as decisões de política da vida tomadas pelos indivíduos e grupos.” (Giddens, 1994, p. 11).

A intervenção generativa, impulsionadora de empoderamento tem como objetivo não só capacitar o cuidador informal como responsável pela gestão dos cuidados da saúde do idoso que está à sua responsabilidade, mas também desenvolver relações de parceria com a comunidade, recorrendo às tecnologias e obtendo efeitos positivos na sua própria saúde, potenciando sobretudo a capacidade e autocontrolo das emoções, conseguindo bem-estar físico, mental e social (Costa & Nunes, 2020; Nossa, 2020; Sousa et al., 2021).

Método

A metodologia utilizada foi qualitativa, associada ao paradigma interpretativo dos dados empíricos. Definiu-se como procedimento operacional para coletar informações pertinentes à pesquisa, a realização das entrevistas semiestruturadas e grupos focais aos CPF e profissionais. Procedeu-se para além da elaboração de mapas de rede dos CPF e análise documental sobre as políticas vigentes como técnicas auxiliares desta investigação.

A amostra estudada é formada por cuidadores principais familiares de idosos dependentes indicados pelos AS do SAD do Instituto de Segurança Social da Madeira. Foi selecionada uma amostra de oito cuidadores e a doze AS.

As entrevistas aos CPF e aos AS iniciou-se com a explicação da temática da investigação de forma genérica, bem como dos objetivos da entrevista. Foi distribuído um termo de consentimento pelos participantes, solicitando a permissão da gravação em áudio. Também foi explicado que a identidade dos entrevistados seria de cariz confidencial, salvaguardando, todas as informações prestadas durante as entrevistas Todos os participantes consentiram participar livremente nas entrevistas e que estas fossem gravadas. As entrevistas foram realizadas com a duração aproximada de 40 minutos cada.

A entrevistas semiestruturadas estão formadas por perguntas abertas e fechadas, remetendo para o enquadramento da temática, baseado em perguntas abertas e analisando a perspetiva dos cuidados informais.

Nas sessões de focus group, num primeiro momento, foi explicado de forma geral os objetivos da sessão, fazendo o enquadramento da temática da investigação. Seguidamente, foi distribuído pelos participantes o termo de consentimento de forma a garantir que toda a informação obtida nas sessões, seria de uso único e exclusivo à investigação. Neste âmbito, todos os participantes concordaram em participar nestas sessões, gravadas com o consentimento dos elementos presentes. Cada sessão teve a duração média de cento e vinte minutos, divididas em dois grupos: um grupo de CPF e profissionais de Associações e Instituições de apoio a idosos (AS e Dirigentes de IPSS).

As entrevistas e os grupos focais foram posteriormente transcritos e analisados a partir de uma leitura exaustiva. A análise dos dados correspondeu aos seguintes procedimentos: categorização sistémica do conteúdo, tabulação dos conteúdos, identificação das semelhanças e diferenças nos discursos, correlação dos testemunhos com as referências teóricas, interpretação e discussão dos dados recolhidos.

Resultados e Discussão

Após a recolha dos dados empíricos, procedeu-se a uma decomposição do conteúdo das entrevistas e grupos focais a CPF e AS, que se alinham com os depoimentos dos vários entrevistados sobre o impacto da prestação de cuidados a idosos dependentes, o processo de suporte social e políticas de apoio atuais aos CPF e, em particular, sobre a questão de uma intervenção social generativa através do capital social. Esta abordagem pretendeu ir de encontro a uma apreciação sobre as limitações e potencialidades do apoio social, considerando as necessidades e expectativas dos CPF, num contexto socioeconómico em mudança.

A propósito do impacto dos cuidados prestados pelos familiares ao idoso dependente, o reconhecimento social do papel do cuidador por parte da comunidade assume importância, embora muitos dos que rodeiam estes cuidadores não entendem o seu papel nas diferentes dimensões. Este reconhecimento foi salientado apenas pelas pessoas que já tinham experienciado o papel de cuidadoras.

Os cuidadores referindo-se aos apoios e ajudas técnicas, salientaram que são um contributo nos cuidados prestados, o que os leva a recorrer à segurança social para obter este suporte formal que melhora a qualidade de vida dos idosos dependentes.

Em consequência do ato de cuidar, os entrevistados demonstraram que a vizinhança também é um suporte essencial na ajuda dos cuidados a prestar aos idosos dependentes. Este suporte é valorizado pelo facto de muitas vezes, a família não reside com os idosos e a vizinhança possibilita um conforto ao idoso quando este não é facilmente garantindo pelo cuidador informal. Por outro lado, a vizinhança muitas vezes é reconhecida como um recurso também envelhecido, contudo, mesmo assim, é uma mais-valia simplesmente pelo facto de realizar tarefas simples como fazer companhia ou ajudar na confeção de uma simples refeição ao idoso.

Porém, destaca-se que o suporte no cuidado é sem dúvida a família, que agiliza a prestação de cuidados e permite um alívio mental e físico ao cuidador. Foi notório que alguns cuidadores manifestaram falta de apoio por parte de membros da família, o que muitas vezes provoca desconforto dentro do seio familiar, dificultando a realização das tarefas diárias.

Na composição do discurso dos entrevistados, constata-se que estão em concordância sobre a importância do trabalho em equipa. Ressalta-se o facto da desarticulação das respostas e a não integração das famílias, poderá conduzir ao afastamento destas ao longo do processo de intervenção. Neste contexto, devemos atuar não como ilhas isoladas, mas em rede, promovendo a partilha como um valor essencial, com vista a uma verdadeira sociedade do cuidado.

Salienta-se que não se trata de paternalismo ou protecionismo, trata-se de salvaguardar o bem-estar da pessoa idosa nesta fase da vida, que pressupõe o desenvolvimento de valores éticos que se alicerçados na solidariedade de modo que a sociedade consiga se tornar mais humana.

Face ao exposto, intui-se que deverá haver uma responsabilidade partilhada a nível da família, das redes informais e formais de apoio, das instituições sociais e sistemas de saúde, equacionando respostas variadas que possibilitem um cuidado seguro aos idosos dependentes e que simultaneamente, protejam quem assume o cuidado de forma informal.

A experiência de ser CPF de idosos dependentes é vivida com muita intensidade. As narrativas dos entrevistados fazem emergir sentimentos de impotência e receio, principalmente ao nível da gestão da doença, advindas do grau de impreparação e das dificuldades inerentes à prestação de cuidados, de uma forma geral. A maioria dos CPF manifesta incerteza sobre o futuro da prestação de cuidados aos idosos, estando relacionado com a gravidade do estado de saúde e a progressividade da dependência, conscientes, por um lado, do regime dos cuidados necessários e, por outro, da inadequação dos que atualmente existem às necessidades dos idosos e de quem deles cuida.

Presume-se que o aumento da longevidade e maior esperança de vida coloca em questão a existência de recursos suficientes para estabelecer um trabalho de proximidade entre o assistente social e a família cuidadora. Consideramos desde logo, que a intervenção social poderá desenvolver cada vez mais uma ação direta com os utentes e com as redes de apoio, contemplando as dimensões familiares, educacionais, económicas e habitacionais, objetivando o bem-estar dos idosos e familiares.

De acordo com Robertis et al. (2019), a intervenção social é designada como o “situar-se entre”, num processo de mediação e de confiança, ao dirigir-se à pessoa inserida na sociedade. Porém, Robertis (2011) reconhece também o assistente social como agente de mudança, o que significa que focaliza a sua ação nas suas potencialidades e na sua dinâmica, que ainda assim, transforma a situação das pessoas através da ação.

Do depoimento de GF_P3, emerge a necessidade de desenvolvimento de políticas direcionadas para a prevenção, através de programas promotores do envelhecimento ativo, no entanto, cuidar não se limita apenas à componente física, dado que: “(…) não podemos descuidar (…) dos outros dois pilares fundamentais, que é o psicológico e emocional, que é a própria forma como cada um de nós vive (…)”, cuja prevenção é essencial à garantia do bem-estar social do idoso e do cuidador.

Neste seguimento, as narrativas referem insatisfação pela ajuda atribuída pelos serviços, “apontando o dedo” ao Estado, pela ineficácia nas medidas políticas criadas, alegando que estas estão aquém da realidade e das necessidades sentidas pelos CPF. Para muitos dos CPF, também a demora na agilização dos apoios devido ao excesso de burocratização dificulta o processo de suporte social às famílias cuidadoras de idosos dependentes, resultando numa demora na aquisição do apoio ou até mesmo desistência por parte do CPF, como acrescentam alguns AS. Para tal, é indispensável que se invista no tempo direcionado para apoiar e prestar cuidados aos idosos, ao invés do tempo dispensado com a burocratização do processo. No entanto, os aspetos burocráticos diferem de localidade para localidade, o que poderá estar associado também à capacidade de agir dos profissionais.

Evidencia-se nos testemunhos uma outra particularidade especialmente associada à escassez de equipamentos, que colocam em causa a prestação dos cuidados e o bem-estar do idoso. Alguns CPF afirmam que, muitas vezes têm de recorrer à compra de ajudas técnicas (cadeiras de rodas e fraldas), pois estas não estão disponíveis nos serviços, bem como dos medicamentos necessários para o idoso, o que provoca mais um acréscimo aos gastos associados aos cuidados.

Um outro domínio passa pelo desenho de respostas variadas e imbricadas que possibilitem um cuidado seguro aos idosos e que simultaneamente protejam quem assume o cuidado de forma informal, tendo como foco as tecnologias de informação. Podemos perceber que as tecnologias são certamente características da sociedade em que vivemos, que passa hoje em grande medida pela capacidade de inovar e criar. A tecnologia afirma-se neste contexto como um meio para favorecer o intercâmbio do conhecimento e ampliação da rede do idoso e do CPF, preparando os contextos, contribuindo para uma política de longevidade. Assim, tendo como exemplo as tecnologias digitais podemos objetivar como resposta, por um lado, a rentabilização dos recursos e, por outro lado, a aplicação das tecnologias, na forma de teleconsulta, que facilitava o acompanhamento dos serviços ao idoso, tendo ainda a mais-valia de atenuar a sobrecarga do CPF.

Neste sentido, é importante abordar esta temática das tecnologias como promotor de capital social, no sentido de complementar o sistema mais tradicional, no processo de proximidade e interação em situação de dependência, construindo novas respostas para necessidades tradicionais, abrindo uma nova realidade a ser desenvolvida pelos AS, direcionando a intervenção social para a mudança social e geradora de novas comunidades (Albuquerque, 2016; 2017).

Não se tratando de uma projeção propriamente dita, mas de procuras, através das entrevistas e grupo focal dos CPF os entrevistados apontam para um momento de incerteza a médio ou longo prazo sobre a trajetória dos cuidados informais, havendo uma disfunção entre as necessidades reais dos CPF e a forma como se analisam e planeiam as políticas e apoios aos CPF e idosos, tanto numa perspetiva atual como nas estratégias a adaptar futuramente.

O Serviço Social generativo passa pela promoção de capital social como forma de revitalizar a sociedade civil para os problemas de governabilidade da sociedade contemporânea. Com efeito, o AS deverá refletir sobre as potencialidades do capital social, de forma a garantir um maior apoio aos CPF de idosos dependentes, não descurando as limitações existentes. Face a esta conjuntura deverá haver uma oferta mais elástica em substituição de uma prestação padronizada, capaz de dar uma resposta mais adequada, tendo em conta as novas características do idoso e do CPF, do presente e do futuro.

Por meio de iniciativas de políticas públicas mais ambiciosas, espera-se que um melhor bem-estar seja experimentado pela maioria da população idosa e pela sociedade em geral.

Conclusão

Para fazer face à dependência da pessoa idosa, foram sendo implementados progressivamente na sociedade portuguesa, um conjunto alargado de serviços e equipamentos sociais de suporte que contribuem para a manutenção dos idosos no meio sociofamiliar o maior tempo possível bem como, pretendeu aliviar a prestação de cuidados do cuidador informal.

A literatura e a observação da realidade dos entrevistados demonstram a necessidade da complementaridade do cuidado profissional e do cuidado informal.

É indultável que o aumento de esperança de vida está muitas vezes associado a uma maior prevalência de doenças crónicas que contribuem para situações de dependência, implicando a necessidade de cuidados informais e de apoio das famílias cuidadoras.

O problema que se coloca às políticas relacionadas com o envelhecimento é o de encontrar mecanismos certos para garantir a solidariedade, no presente e no futuro, assim como para responder às necessidades emergentes advindas do envelhecimento. Considera-se que o desenvolvimento e fortalecimento das redes podem ser de facto uma influência benéfica no processo de envelhecimento.

Os resultados desta pesquisa apontam a importância da prevenção, na preparação do envelhecimento que se quer cada vez mais ativo e saudável, vinculada numa perspetiva generativa, identificando os limites e potencialidades da intervenção social junto das pessoas idosas.

Neste sentido, identificamos a necessidade de formação para os CPF e profissionais e a importância da monitorização do trabalho realizado junto dos idosos dependentes e cuidadores informais, de forma garantir uma melhor qualidade de vida destas populações.

O conceito de envelhecer em casa (ageing in place) pressupõe adequar os espaços domésticos bem como espaços exteriores contribuindo para um envelhecimento ativo e a dignidade da pessoa idosa. A intervenção do AS para além da sua função reguladora e educativa, tem pois de incrementar, no domínio do envelhecimento, uma dimensão que instiga a inclusão social, estimulando a participação, e que o coloca não só como mero facilitador da coesão e capital social (Putnam, 2002), mas acima de tudo como um profissional que inova, que cria e que estimula medidas adaptativas na rede social e nos sistemas públicos e privados, que possam ajudar a garantir a segurança e o bem-estar da pessoa que envelhece e da respetiva família.

Neste âmbito, permite afirmar o impacto que as medidas desenvolvidas no contexto possuem. Ou seja, medidas capazes de gerar uma comunidade amiga das pessoas idosas, que adapta os seus serviços e estruturas de forma a tornar-se recetiva às necessidades da população, incentivando um envelhecimento saudável e melhorando a qualidade de vida à medida que se envelhece. Reconhece-se a importância de apoiar as pessoas idosas que desejam viver na sua habitação, com adaptações favoráveis que permitem manter-se autónomas pelo máximo tempo possível. O conceito de envelhecer em casa parte do princípio da necessidade de adequar os espaços domésticos, bem como os espaços exteriores, contribuindo para aumentar a mobilidade, garantir o acesso aos serviços de proximidade, aumentar a autoestima do idoso, e a sua dignidade como pessoa.

Por outro lado, os princípios da ergonomia também implicam os CPF que passam por dificuldades no espaço doméstico, quando este não facilita o seu trabalho, contribui para a sua sobrecarga e insatisfação. A necessidade de políticas públicas mais efetivas relacionadas com estruturas habitacionais é, pois, fundamental.

Outro conceito que tem vindo a ser cada vez mais visível e que surge como alternativa aos lares e à fatalidade dos mais velhos viverem sozinhos é o conceito cohousing[2][3] ou habitação colaborativa (Charles Durrett), ajudando a colmatar a solidão e assegurando uma integração social ativa.

Esta medida de promoção de envelhecimento ativo emerge dos processos de criação de novas políticas públicas de desinstitucionalização. Este modelo de moradia corresponde a uma vivência colaborativa, assente na facilitação de intercâmbios de conhecimentos e experiências, que melhoram de um modo geral, a vida das pessoas idosas, enquanto lhe são providenciados proteção, segurança e cuidados adequados (Soeiro e Araújo, 2020). Este modelo de cohousing toma como possibilidade alargar as disposições de cuidado a desconhecidos e não apenas a quem é mais próximo ao idoso, criando e alargando as redes de apoio, para além de significar ampliar a noção de família, compreendendo que há diferentes configurações que não passam pela consanguinidade ou pelo casamento, mas nem por isso são menos válidas no contexto do cuidado. É neste contexto que este novo formato de couhousing fomenta um novo padrão de vida, baseada em comunidades intencionais que vão ao encontro do envelhecimento ativo, compartilhando espaços de convivência, atividades e auxílio mútuo (Machado et al. 2017).

Do mesmo modo, é muito importante incentivar o desenvolvimento de atividades intergeracionais e de uma maior sensibilização para a utilização das tecnologias de informação e comunicação. Instigar a importância das tecnologias com o intuito de desenvolver técnicas e práticas que possam compensar as dificuldades em relação ao tempo e à distância, permitindo interações favoráveis à independência, ao conforto, à qualidade de vida da pessoa idosa e do familiar cuidador, é hoje um elemento fundamental para a capacidade de inovar e criar respostas sociais alternativas, não se descurando, porém, a necessidade de, em paralelo, gerar medidas que permitam suplantar o “digital gap”, promotor de exclusão digital de idosos e CPF ainda não familiarizados com os avanços tecnológicos.

Nesse intento recomendam-se estratégias que conectem as pessoas a grupos ou redes em diferentes localizações geográficas, nomeadamente a tele-assistência ou telecuidados contribuindo para uma maior proximidade da família, intervenção e acompanhamento social e sobretudo, obter respostas mais céleres a nível de saúde. Esta mudança de paradigma na evolução gradual dos meios tecnológicos possibilita aos idosos o envolvimento social e cultural, superando progressivamente a tensão entre a tradição e, uma atualização essencial diante das rápidas mudanças presentes na sociedade contemporânea.

Nota-se que ainda há um caminho longo a ser percorrido, quer na criação de políticas efetivas de promoção do envelhecimento ativo, quer na implementação de medidas de um estilo de vida mais saudável para a população envelhecida. Porém, evidencia-se a importância de uma reflexão sobre o modo como as pessoas vivem e o que pode ser feito para alcançar maior longevidade, mas sobretudo, direcionando-as para um envelhecer com maior autonomia, qualidade e dignidade.

O fenómeno do envelhecimento e da longevidade desafia-nos a reinventar a sociedade do século XXI e apela a uma sociedade que se constitua e desenvolva com base na solidariedade. Daí que torna-se necessário preparar hoje a velhice que se quer ter amanhã, apostando na promoção de um envelhecimento ativo.

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  1. Pereira (2017) apresenta nove estereótipos negativos para com as pessoas idosas são eles: a doença, a impotência sexual, a fealdade, o declínio mental, doença mental, a inutilidade, o isolamento, a pobreza e a depressão. Estes preconceitos ocorrem na família, no emprego em especial nas residências para idosos, e nos cuidados de saúde. Tipos de idadismo segundo Erdman Palmore, por outro lado, e em oposição destaca o idadismo positivo, são oito os principais: estereótipos, amabilidade, a sabedoria, o ser de confiança, a opulência, o poder político, a liberdade, a eterna juventude e a felicidade.



  2. The Cohousing Company. www.cohousingco.com


    Hac.Ora (hacora.org), consultado em 2023.



  3. O estudo realizado no Brasil entre 2013 e 2016, a 42 inquiridos teve como propósito identificar o perfil dos possíveis idosos e as razões que os levariam a viver cohousing, bem como identificar os seus benefícios, como factores físicos, psicológicos e sociais. A amostra foi predominantemente feminina, evidenciando uma maior tendência das mulheres se interessar mais por este formato de habitação. Dos depoimentos, a questão social, de viver em comunidade destaca-se como principal motivação dos idosos. O perfil do novo idoso procura moradias alternativas, que promovam o envelhecimento ativo, bem como, salienta-se a relevância dos aspetos psicológicos e sociais advindos da convivência em comunidade, elevando a qualidade de vida (Machado et al., 2017).


Arquitetura pós Vaticano II: o caso do Alto Minho

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Arquitetura Religiosa pós Concílio Vaticano II e a Adequação do espaço celebrativo ao rito litúrgico: o caso do Alto Minho.

Em 1962, o papa João XXIII convocou o vigésimo primeiro Concílio da Igreja Católica, denominado como Concílio Vaticano II. No essencial, este Concílio visava uma modernização da Igreja através da reintrodução de aspetos litúrgicos, que se tinham perdido ao longo dos tempos. O eixo principal desta reforma é a centralidade da eucaristia e a participação ativa do povo e, como forma de operacionalizar estas alterações litúrgicas, são produzidos vários documentos, concretamente na abordagem arquitetónica, é publicada a Constituição Sacrosanctum Concilium, sendo este o documento que rege, coordena e orienta a nova conceção de espaço sacro.

Neste sentido, esta pesquisa abordou dois pontos (objetivos): identificar os princípios espaciais implícitos na Constituição Sacrosanctum Concilium e quais os reflexos práticos que os mesmos produziram na conceção do novo espaço religioso; observar a adequabilidade da arquitetura religiosa atual, produzida no Alto Minho, tendo em conta o ritual e simbolismo litúrgico.

A metodologia utilizada foi do tipo de investigação do método de estudos de caso (multicaso), baseado na natureza comparativa de três igrejas posteriores ao referido Concílio, onde o tratamento da informação recolhida é de origem qualitativa.

Os estudos de caso foram selecionados tendo em consideração os seguintes critérios de seleção: territorial; temporal; cultural e autoria. Desta forma, os espaços religiosos selecionados que contêm as características pré-definidas foram: Capela de Moledo – Caminha; a Igreja da Sagrada Família – Viana do Castelo; a Igreja Nova da Correlhã – Ponte de Lima.

A triangulação entre a análise documental, as entrevistas e a observação recolhidas para cada caso permitiu a abordagem interpretativa de toda a informação colhida, correlacionando os resultados da análise comparativa com a fundamentação teórica.

No âmbito desta pesquisa, a questão de partida que deu início à investigação foi: A arquitetura religiosa atual adequa-se às normas eclesiásticas vigentes e responde satisfatoriamente às necessidades da comunidade de fiéis?

Neste sentido, o intervalo temporal que define as obras apresentadas como ‘estudos de caso’ é aquele que medeia entre a realização do Concílio Vaticano II (1965) e a atualidade. Assim, as alterações litúrgicas com repercussões arquitetónicas, que o referido Concílio introduziu através da Constituição Apostólica Sacrosantum Concilium, visavam uma depuração litúrgica de todas aquelas aderências que lhe tinham sido incorporadas ao longo dos séculos, para recuperar a autenticidade inicial do culto – a assembleia congregada – e a consequente produção de espaços religiosos adequados, sendo este o objeto desta pesquisa.

A arquitetura religiosa tem, portanto, como principal objetivo a expressiva funcionalidade que as suas formas devem manifestar em relação aos renovados atos litúrgicos que nela se praticam, fazendo legível o espaço por todos os sentidos, ou seja, conduzindo os movimentos na sua dimensão física e também como nos movemos na dimensão espiritual. Assim sendo, este estudo indica um imprescindível e necessário conhecimento da liturgia, por parte de quem assume a responsabilidade de conceber um espaço desta natureza, para que o seu trabalho sirva, efetivamente, de veículo para o culto e para a definição de espaço sagrado entre os fiéis. Assim, a construção sacra, para além da criatividade que se lhe possa associar, transportará consigo um grande peso teológico e simbólico – claro está, desde a crença Cristã – daí a dificuldade técnica e também a sua fundamentação, resultante da sua conceção, ser extremadamente complexa.

Antes de mais, convém referir que a análise e interpretação das normas constantes no referido documento são revestidas de certa ambiguidade, isto porque as mesmas estão redigidas de forma dúbia. Assim sendo, dos vários pontos de análise extraídos para a aferição da adequabilidade do edifício – indicadores – aclara-se que uns abordam questões de natureza física e outros de natureza simbólica.

A primeira fase desta pesquisa teve como objetivo identificar os princípios espaciais implícitos na Constituição “Sacrosanctum Concilium”, sobre a Liturgia (Concílio Vaticano II, 1965), sendo este o documento pós-conciliar que abordou, especificamente, a questão da arte sacra na qual a produção arquitetónica se insere. Desta forma, após a leitura do referido documento, da sua análise e interpretação e, posterior acareação com os teólogos – informantes chave – dos pontos extraídos de significante importância, no sentido de estes aclararem todos as questões dúbias surgidas na leitura, poder-se-á referir que as soluções arquitetónicas atuais parecem indicar duas finalidades compositivas complementares. Por um lado, estas soluções olham para o exterior – mostrar – convertendo-se numa referência identitária da composição das nossas cidades e, por outro lado, olham para o interior – chamar – já que dotam o espaço interno de condições prioritárias no desenrolar das ações litúrgicas. Dito isto, verificou-se haver uma intensa fusão entre estes dois propósitos – mostrar e chamar – já que todos os programas estudados expandem a sua área sacra mais além do seu envoltório arquitetónico, nomeadamente, para o adro que lhe está adossado – espaço de transição que integra a nova conceção compositiva, fomentando, desta forma, as relações sociais, dialogando e interagindo com a comunidade indo, assim, a arquitetura religiosa atual além do seu exercício meramente litúrgico.

As variações introduzidas no culto tiveram as inevitáveis alterações espaciais do templo, mas há circunstâncias celebrativas que são transversais à história deste – o culto, assim, as condições de comodidade física e sensorial permanecem fundamentais na frutuosa comunicação no ato celebrativo, neste sentido a expressão artística do edifício não pode ser incompatível com tais requisitos. Assim, este estudo indica que o excessivo ruído no interior do espaço celebrativo, tal como a insuficiente visibilidade em direção ao presbitério (obstáculos no campo visual da nave), que compromete a unidade espacial requerida, são fatores que se apontam como de inadequação do edifício. Constatou-se, também, que o espaço sacro requer silêncio e interiorização, deste modo, a renovada arquitetura religiosa pós-conciliar tem a responsabilidade e obrigatoriedade de responder de forma exímia a esta necessidade física e sensorial, nomeadamente através da dotação do espaço de condições técnicas que o insonorizem adequadamente o recinto, porque se apurou que sem o silêncio – exterior, não sendo impossível, é mais difícil conseguir o verdadeiro e eficaz silêncio – interior.

Em relação ao silêncio que se deve registar no espaço celebrativo, o estudo indica que este é tão importante como a boa acústica do mesmo espaço, assim sendo as normativas referem a íntima relação que se deve observar entre a música e a ação litúrgica. A transformação deste texto em ações é revestida de muita subjetividade, por conseguinte, constatou-se que a conceção da normativa – a localização do coro – tem diferentes reproduções no espaço celebrativo, no sentido de cada proposta recolher o seu próprio significado litúrgico, mas, nesta relação interna dos elementos litúrgicos, regista-se inconformidade na conexão destes com as indicações eclesiásticas recolhidas para este item.

A renovação litúrgica exposta nesta pesquisa pretendia reaver o conceito da congregação de fiéis como o elemento litúrgico central da eucaristia. Assim, este estudo indica a unanimidade na definição da estrutura espacial interna, no sentido de dar cumprimento a essa intenção, assim, a planta basilical de modelo axial, longitudinal, retangular e simples, que exalta o caminho processional, foi eleita como a tipologia mais acorde com a premissa de reunir a comunidade e de a aproximar do presbitério. Esta opção teve claras preocupações litúrgicas e simbólicas, alcançando-se, notoriamente, um espaço celebrativo mais democrático e uno, semelhante ao existente nos primeiros templos do Cristianismo.

Averiguou-se, também, que esta perceção – a de reunir – ganha enfâse nos novos espaços pelo despojamento ornamental que se depreende na leitura interior do ambiente celebrativo, manifestando uma sensação de unidade, potenciada pela compreensão de todo o envoltório interno. Porém, a composição axial insinua que a configuração enfoca deliberadamente o altar, dando-lhe protagonismo e trazendo-o para mais próximo da congregação de fiéis, indicando, desta forma, o novo rumo litúrgico, onde a organização das partes trabalha em favor da liturgia, da nova liturgia.

Quanto ao valor artístico autêntico, referido no documento, é notório neste estudo que a nova conceção religiosa dos templos utiliza uma linguagem adaptada à sociedade atual e a toda a sua conjuntura – espiritual, cultural, económica, entre outras – havendo a intenção de construir espaços que fossem o reflexo da sociedade contemporânea. Pode-se referir que há multiplicidade de aspetos que distinguem os novos espaços religiosos, constatando-se, assim, que há várias formas de produzir tipologias religiosas válidas e competentes que seguem, igualmente, os preceitos referidos nos documentos supracitados.

A essência geométrica dos novos espaços é alicerçada em formas básicas e abstratas, sem adições miméticas de cariz religioso que encaminhem para essa interpretação. Então, o referencial arquitetónico é a pedra angular na sua caracterização como igreja, privilegiando, desta forma, «a nobre beleza à mera sumptuosidade». (Sacrosanctum Concilium, 124º)

Após identificar e escalpelar os princípios espaciais a que o referido documento faz alusão, passou-se para a segunda fase, e última, a que este estudo faz referência. Esta fase consistia em verificar a adequabilidade da arquitetura religiosa atual, ao ritual e simbolismo litúrgico, derivados da reforma conciliar, com base nos três estudos de caso, anteriormente apresentados.

Os dados manifestam que o mero facto do cumprimento integral das normas eclesiásticas atuais, para a produção de arquitetura religiosa, não premeia o edifício com a distinção de adequabilidade, sem antes, aferir da sua autocompreensão por parte da comunidade, para a qual deverá este espaço estar dirigido, e da necessária união e articulação orgânica e funcional de todos os elementos compositivos, na formação de um ‘todo’.

Percebeu-se, igualmente, que a comunicabilidade que se almeja entre templo e fiéis, tem que ser bidirecional, desta forma, a arquitetura religiosa pretende ‘significar’ sempre algo e a comunidade está sempre disposta para o ‘interpretar’, sendo necessário ajustar a linguagem de modo que não haja perda de informação. Para melhor analisar a adequabilidade dos novos espaços, dividiu-se esta abordagem em dois pontos: a adequabilidade em relação às normas tangíveis (mensuráveis) e em relação a aspetos intangíveis (simbólicos), presentes na conceção do espaço.

Assim sendo, no que diz respeito às normas tangíveis, identificou-se várias inadequações desta índole no espaço celebrativo, por exemplo: a falta do genuflexório, a má acústica, a ocultação do sacrário por parte do celebrante e a sua centralidade, o excessivo número de degraus para o presbitério e a inexistente proteção dos mesmos, a presença no campo visual de obstáculos estruturais, a tribuna cuja participação nela é reduzida, o excessivo protagonismo do coro, entre outras. Estas inadequações indicam que, para além de não favorecerem os atos litúrgicos, poderão comprometer a participação ativa dos fiéis, sendo estes os pilares sobre os quais gravita a nova conceção litúrgica pós-conciliar.

Cabe, igualmente, ressaltar que muitas das normas, apontadas no documento supracitado, foram devidamente acauteladas nas propostas, como sendo: a elevação e centralidade do altar, a simplicidade compositiva da cadeira do celebrante, o despojamento ornamental no interior, a localização do órgão, a localização do sacrário e batistério, entre outras, permitindo, deste forma, que o edifício se alinhe com as normativas eclesiásticas pós-conciliar.

Em relação aos aspetos intangíveis (simbólicos): a sensação de reunião, a perceção do simbolismo, o conceito de ‘chamamento’, entre outros, depreendeu-se a sua identificação por parte dos sujeitos que fruem o espaço, num justo reconhecimento à sensibilidade do autor em tingir a obra com determinados elementos compositivos que a enobrecem e a distinguem pela sua dimensão simbólica.

Na introdução fala-se da adequabilidade da arquitetura religiosa atual, neste sentido, e pelos factos expostos, sendo controversos, verifica-se, por um lado que os edifícios em estudo não cumprem na íntegra todas as recomendações para a produção dos novos espaços sacros e, por outro, esses mesmos incumprimentos não se refletem na apreciação que a comunidade eclesial e respetivo celebrante relatam acerca deles, considerando-as adequados aos atos litúrgicos.

Assim, depreende-se, desta mescla de condicionantes, duas situações: que a liturgia é flexível e adaptável ao espaço celebrativo existente, como a própria história o demostra e, eventualmente, qualquer situação menos acorde com a mesma, não é suscetível de comprometer a sua ação; e que os incumprimentos normativos, de cariz arquitetónico registado, não revestem tal importância e significado que condicionem o edifício para a obsolência funcional.

Desta forma, o novo espaço integra a comunidade na sua conceção e reclama a atenção para o equilíbrio sensato entre a sua funcionalidade e a sacralidade estilística, que lhe é própria e obtida através dos sentimentos que provoca.

Em suma, o estudo aponta para que a arquitetura religiosa pós-conciliar não cumpre, na íntegra, as indicações eclesiásticas quanto à edificação dos novos espaços religiosos. Ainda assim, crê-se que a sua adequabilidade é manifesta, tendo em conta que os protagonistas do espaço celebrativo e do conceito da nova eucaristia – a congregação dos fiéis – assim o referem, atendendo a que o espaço atual serve e exalta a celebração comunitária, emula a expressão do sagrado e fá-los partícipes no ato supremo da liturgia. Admite-se que quando um espaço, religioso ou não, responde de forma satisfatória às necessidades da comunidade, por e para o qual foi concebido, a sua adequabilidade é notória.

Ressalte-se que os resultados desta pesquisa não são passíveis de extrapolação, representando, simplesmente, o contexto no qual se insere a recolha desta informação – Alto Minho – mas, crê-se que esta realidade pode existir em muita da arquitetura religiosa atual ou, quiçá, em toda ela.

As diferentes realizações arquitetónicas estudadas nesta pesquisa evidenciaram que tanto a sua conceção, como a definição do seu espaço celebrativo estão concebidas em torno de um programa, de uma comunidade e de um conceito, içando uma nova expressividade arquitetónica. Mas a sua conceção é fundamentalmente assente sobre um conhecimento teológico profundo, por parte dos autores que as alicerçam e as definem na sua identidade como Templo.

Apurou-se que estes espaços de culto não recorreram a adições de elementos religiosos estereotipados, caracterizadores das construções eclesiásticas, mas sim, os reinterpretaram e reintegraram, conjuntamente com adição de elementos e materiais de natureza tradicional de origem local que, unidos criaram uma composição exterior que sugere a sua função litúrgica interna. Subsiste, portanto, coexistência concetual entre o inovador e o tradicional e como refere o arq. Peter Zumthor fez-se, desta forma a «ancoragem sensorial da obra no seu lugar».

Verificou-se, também, que apesar de distintos programas funcionais, materialidade e técnicas utilizadas, centralidade urbana, expressão plástica, entre outros, há pontos comuns que relacionam e vinculam a nova produção sacra na sua conceção e a caracterizam como templo. Assim sendo: a luz – ou a sua ausência, a composição espacial e a definição litúrgica depreendem-se como características análogas da arquitetura religiosa atual, assumindo-se, desta forma, como os pilares sobre os quais fica patente a sua função sacramental de oração e contemplação, indo ao encontro do paradigma unitário, proclamado pela Igreja e nos quais os novos espaços religiosos estão imbuídos.

Esta pesquisa permitiu, ainda, perceber o incontornável valor que a arquitetura religiosa atual detém no contexto social e urbano, afirmando-se como um espaço multifuncional de culto que gravita em torno do centro da comunidade, erigindo, assim, uma nova centralidade cívica – àgora. Esta nova conceção reflete-se pela multifuncionalidade que o complexo religioso alberga e, à qual a arquitetura dá forma, nomeadamente, na versatilidade funcional da igreja, que não limita o espaço celebrativo ao mero exercício litúrgico, acolhendo, por exemplo, atuações musicais no seu interior. Neste sentido, os novos espaços religiosos são um elemento mais do tecido urbano, com o qual dialoga e, simultaneamente constrói, tornando assim, significante a sua configuração tipológica, não só pelo equilíbrio entre a arquitetura e programa. Em síntese, o sentido comunitário que se depreendeu desta análise e, sobre o qual todas as propostas se desenvolveram, convertem-nas num suporte de elementar valor comunitário.

Um dos aspetos que cabe melhorar é a difusão e comunicação da nova conceção arquitetónica, resultante da alteração litúrgica, diante da comunidade eclesiástica, pois, durante a pesquisa apurou-se falta de compreensão do novo espaço sacro por parte dos fiéis. Esta falta de comunicação entre as partes – Igreja e comunidade – reconhecida também pelos autores das obras, deriva numa série de incompreensões arbitrárias, que afastam o templo dos fiéis, para os quais este foi concebido. Ora, quando tal foi feito – o esclarecimento da nova conceção arquitetónica – a reação da comunidade foi no sentido de apreciar e valorizar os aspetos estéticos, simbólicos e concetuais do edifício sacro.

Voltando à forma arquitetónica dos novos espaços de culto, pode-se referir que esta – a forma – é definida pelo símbolo, que permanece e é essencial na estruturação dos mesmos. Estes símbolos, de cariz geométrico ou religioso, condicionam a sua espacialidade, ou seja, a nova arquitetura sacra é alavancada em geometrias pré-concebidas, para estruturar e desenvolver toda a proposta, onde a presença do símbolo se confunde no templo, simultaneamente, como a parte e como o todo do objeto arquitetónico e, ainda, como meio e como fim do conceito, convertendo o espaço num verdadeiro e metafórico lugar teológico, com evidente simbiose entre funcionalidade e simbolismo. Convém realçar a questão do símbolo, independentemente da sua origem ou significado, como sendo o elemento formal e crucial na estruturação de uma forma arquitetónica sagrada e pensada e, ainda, como o manipulador dessa forma, onde a arquitetura é a responsável pelo movimento do crente no espaço, traduzindo, assim, a liturgia em ação.

Este estudo indica ainda que não há, seguramente, um único caminho ou estratégia para acomodar a dimensão física e simbólica do ser humano no espaço celebrativo através de soluções previamente estabelecidas. Existe o caminho, o único caminho, o da efetiva fundamentação, do espaço ideado, desde a perspetiva teológica.

Arquitetonicamente, a nova conceção do espaço religioso, salvaguarda as normas primordiais que favorecem a participação ativa, desta forma, a centralidade do presbitério, o despojamento ornamental no interior e a comodidade física e sensorial dos fiéis, identificam-se como o núcleo sobre os quais flutua a expressividade funcional do templo atual.

E, por último, uma pesquisa sobre a adequabilidade da arquitetura religiosa atual pode explorar muito mais, neste sentido seria pertinente um estudo de natureza quantitativa, que consolidaria os resultados apresentados nesta dissertação. Em princípio temas como a introdução de novas tecnologias no espaço celebrativo, tais como projeções multimédia, internet, realidade virtual, domótica, teriam, também, interesse em ser abordadas, assim como uma futura alteração do seu uso (reconversão espacial), são exemplos de estudos pertinentes efetuar.

Outra questão de certa atualidade, e cujo mediatismo impõe uma reflexão, é a construção de espaços inter-religiosos, sua comunicação, pertinência e conjuntura, tendo em conta o paradigma social de uma população cada vez mais laica. Em suma, é o trilhar de um caminho que só iniciou o seu percurso…

Dito isto, esta exposição não pretende alcançar nenhum patamar de verdade absoluta e tem, como último desígnio, a aquisição de um quadro teórico de conhecimento, válido e suscetível de fundamentar a futura atividade profissional.

Palavras-chave:

Concílio Vaticano II (1965), Sacrosanctum Concilium, Arquitetura Religiosa, Igreja, Adequabilidade Litúrgica.

Bibliografia:

Arquitetura e o Sagrado. Ao conhecimento do homem e do meio construído http://arqsagrado.blogspot.pt/2012/02/em-tempos-modernos-igrejas-catolicas.html Abumanssur. (2000). Ciências sociais e religião. Porto alegre: Ed. Sued

Bíblia (1969). A Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento. Lisboa: Edição ver

Concílio Vaticano II. (1965). A sagrada Liturgia http:www.vatican.net/archive/hist_concils/ii_vatican_council/documents/vatii_const_1 9631204_sacrosanctum-concilium-po.html

Fulcanelli. (1998). O mistério das catedrais. 3º ed. Lisboa: Edições 70

Hani, J. (1998). O simbolismo do templo cristão. Lisboa: Edições70

Policarpo, J. (2012). Liturgia, Arte e Arquitetura. Conferência 50 anos do Concílio Vaticano II. Lisboa

Siza, A. (2006). Entrevista sobre a Igreja do Marco de Canaveses. Porto

Zumthor, P. (2009). Pensar a arquitetura. Barcelona: Editorial Gustavo Gili

Obra completa em:

https://comum.rcaap.pt/handle/10400.26/10242

Mais cidadania, menos conversa

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As polémicas que permeiam a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento têm-nos mantido entretidos ao longo dos anos. De usos políticos a discussões ideológicas, as discussões pecam por ser desligarem da realidade da escola, dos alunos e das suas famílias. Acima de tudo, pecam por não perceberem o impacto e a função que esta disciplina se propõe a ter. Para dissipar algum deste ruído, comecemos então pelo início.

Com o lançamento das bases para a criação de uma Estatégia Nacional de Educação para a Cidadania através do Despacho n.º 6173/2016, de 10 de maio, estabeleceu-se a universalidade desta disciplina na escola pública enquanto veículo para a consolidação de competências e conhecimentos no âmbito dos direitos humanos, igualdade de género, interculturalidade, inclusão, educação sexual e rodoviária, entre outros. O objetivo prende-se com a “formação do indivíduo como cidadão participativo”. Divididos os temas por diferentes grupos e níveis de escolaridade, esperava-se que a introdução desta disciplina no currículo oficial fizesse confluir os objetivos da mesma com o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória e com as Aprendizagens Essenciais.

Na instituição onde lecionei durante dois anos – que se encontra incluída no Programa de Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP) e que serve diversos bairros municipais de Lisboa – não só se concentra um elevado número de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade socioeconómica, como é também a escola de referência para alunos com baixa visão. Nos últimos anos, devido à fixação de imigrantes nesta zona, este estabelecimento tem recebido também muitos alunos do Nepal, Bangladesh e Ucrânia, que se juntam à população escolar de etnia cigana e aos estudantes oriundos do Brasil.

Alguns destes alunos possuem conhecimentos básicos de português (e de inglês), sendo que são incluídos no nível de iniciação A1 na disciplina de Português Língua Não Materna. Os alunos PLNM – novamente, na escola onde lecionei – reúnem-se frequentemente em grupos pequenos, comunicam nas suas línguas e mantêm-se relativamente afastados dos restantes colegas. Dentro da sala de aula alguns professores adotam estratégias que lhes permitem comunicar com os alunos PLNM, seja falando em inglês, recorrendo ao tradutor automático ou ensinando através de jogos interativos e didáticos. Outros ignoram-nos, resguardando-se na justificação de que em breve estas famílias migrarão para outro país e, como tal, não são problema seu.

Sendo uma escola onde os conflitos entre alunos são frequentes, muitas vezes devido a quezílias trazidas dos bairros, no espaço exterior é comum ver os alunos PLNM a conversar entre si, jogando no telemóvel e por norma afastados (e desconcertados) com o caos a que frequentemente se assiste no recreio. A esta confusão muitas vezes juntam-se familiares de alguns alunos que, quando não conseguem entrar sub-repticiamente na escola, se instalam ao portão aguardando a sua oportunidade para um qualquer ajuste de contas.

É neste ambiente de forte consciência cívica e democrática que os alunos são inscritos nas aulas de Cidadania – as quais, diga-se de passagem, lhes fazem muita falta, independentemente de para onde penda a nossa inclinação partidária.

Nos dois anos em que lecionei nesta escola fui professora desta disciplina ao 5º e ao 6º ano. Enquanto final de ciclo, o 6º ano acaba por reter os alunos que foram magicamente passados por professores em situação precária e, muitas vezes, desiludidos com o sistema de ensino. Mas também por outros que acreditam que a escola pública portuguesa, na grande escala evolutiva da pedagogia, se encontra muito atrás das “do norte da Europa” e que deve manter os alunos que não adquirem conhecimentos essenciais junto do seu grupo até aos exames nacionais, onde a lei natural da vida se ocupará deles.

Os alunos que magicamente passam, e que muitas vezes não sabem ler nem escrever no 9º ano, usam e abusam do único capital que possuem para chamar à atenção e compensarem pelas suas falhas – problemas comportamentais crónicos que arrastam nos anos escolares, com a conivência de professores e de decretos desligados da realidade das salas de aula. Estes comportamentos, muitas vezes reflexo da falta de civismo que repetem e arrastam para a escola, poderiam ser trabalhados numa disciplina, sei lá, de Cidadania, por exemplo?

A questão é, como fazê-lo? Como trazer para os mesmos valores alunos de origens tão diferentes, com objetivos de vida distintos e que são obrigados a frequentar a escola até aos 18 anos, onde não se reveem? Qual a linguagem comum a adotar com turmas em que os alunos não falam uns com os outros e que temem que as antipatias do recreio sejam reproduzidas na sala de aula (onde os professores se esforçam por manter alguma ordem)? E como fazê-los gostar de uma escola com tetos bolorentos, vinil do chão descolado, portas partidas e sem fechadura, vidros sujos e cortinados que se mantêm eretos com a sujidade de muitos anos sem verem água? E, já agora, que escola multicultural é esta?

No ano letivo de 2023/24, ao lecionar uma turma de 5º ano onde a inclusão de todos era mais utópica do que o comunismo (e aqui não me refiro apenas à inclusão dos alunos ciganos, brasileiros, ucranianos, nepaleses, bengalis, angolanos que a compunham, mas também àqueles com Necessidades Educativas Especiais), procurei encontrar na linguagem das emoções e da arte um léxico comum que me permitisse pôr em prática os objetivos da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento.

A group of people on a green screen

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Cada aluno começou por identificar as suas emoções em diferentes momentos da sua vida escolar. Desenharam, pintaram e legendaram os seus sentimentos numa “roda das emoções”. Houve quem se sentisse “feliz” ao acertar numa resposta em matemática”; “zangado” (“quando os meninos maus da escola gozam connosco”); “orgulhoso” (“quando a professora diz ‘bom trabalho!’”); “triste” (“quando tiro nota baixa”); “entusiasmado” (“quando a aula de educação física começa”); “assustado” (“quando há uma briga”). Mas também “surpreendido” (“quando a comida na cantina é boa”) ou “preocupada” (“quando tenho aulas de bengala”).

Aos problemas identificados, pedi aos alunos que propussem maneiras de os resolver, praticando assim uma cidadania participativa e ativa que lhes pudesse ser útil não apenas ali, mas ao longo da vida. As conversas em sala de aula registadas no meu caderno de notas etnográfico desenrolavam-se assim:

  • Sim, a escola precisa de obras em todo o lado, mas temos dinheiro para isso?
  • Fazemos uma venda de bolachas!
A hand holding a recipe book

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  • Mas qual a solução mais realista?
  • Escrevemos uma carta ao diretor!
  • E os computadores velhos e muitas vezes sem internet?
  • Lá em casa ligamos para a NOS e eles resolvem…
  • Ou então escrevemos uma carta ao ministério.
  • E as salas sujas, como mudamos isso?
  • As funcionárias não limpam… mas nós podemos limpar, também ajudo a minha mãe em casa.
  • E como podemos tornar esta sala mais acolhedora? Podem escrever algumas palavras inspirados pelo que aprenderam nas aulas de Cidadania? Na língua em que quiserem.
Pieces of paper with writing on it

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Trazendo estes 17 alunos para uma realidade que melhor podiam controlar – a sala de aulas A7, com o seu projetor que não projetava, o chão estragado e as paredes sujas – foram desenvolvidas competências essenciais de formação recorrendo a uma abordagem multidisciplinar e a metodologias criativas e participativas, as quais se focaram na recuperação da sua voz e agência. Através da promoção de uma cidadania ativa, estes alunos foram motivados a participar diretamente na resolução de problemas que os afetavam no seu quotidiano. Saliento ainda aqui o papel que a escola deverá ter na promoção dessas mesmas competências, que lhes serão essenciais ao longo da vida e na superação de obstáculos de integração na sociedade que os acolhe. Que, aliás, é para o que de facto serve a disciplina de Cidadania, e não para discutir o sexo dos anjos.

A person's hands with white paint on them

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Em articulação com Educação Tecnológica, transformámos a sala A7 num espaço onde os alunos se podiam de facto sentir incluídos. Pintámos a parede toda de branco, resolvendo assim com as trinchas as manchas que ali proliferavam. E depois desenhámos motivos que os alunos associavam à escola. Alguns aproveitaram o momento para pela primeira vez subirem às mesas com a autorização da professora. Outros resolveram questões antigas, imprimindo as suas mãos cheias de tinta nas costas dos colegas distraídos. E pela primeira vez, todos participaram numa atividade – mesmo o menino ucraniano que não fala nem português, nem inglês, e que se recusa a trabalhar ou mesmo a assistir às aulas.

A exploração das emoções destes alunos em contexto de sala de aula recorrendo a metodologias criativas permitiu assim reconhecer as suas motivações e medos, e apresentar estratégias de os confrontar, criando um espaço seguro para o seu crescimento emocional. Uma abordagem etnográfica centrada na promoção do diálogo multicultural, numa escuta ativa e no exercício da empatia, permitiu que se construíssem significados em conjunto, cumprindo-se assim com a aquisição das competências associadas ao perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória. É que os antropólogos e o seu método etnográfico fazem mais falta na escola pública do que apenas para tapar buracos na malha letiva – mas essa é conversa para outra ocasião.

Quando terminámos o mural, disse a uma das minhas alunas nepalesas que, no ano seguinte quando voltasse para o 6º ano, iria ter a sala à sua espera; ao que me respondeu que no próximo ano não estaria cá, os seus pais queriam ir trabalhar para a Bélgica. Mas, acrescentou, “deixo a sala bonita para os novos alunos”.

A room with desks and tables and desks

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Catela, J. & Lopes, S. (2024). Notas etnográficas sobre práticas de Cidadania ativa numa escola multicultural. Revista Conhecimento Online, a. 16, v. 2, p. 181-206, jun./dez. 2024. DOI: https://doi.org/10.25112/rco.v2.3859

Como foi o Conde Andeiro morto

“Em outro dia pella manhã partiu o Mestre daquela aldeia onde chamam Santo António, onde dormira, e começou d’andar seu caminho, sem trigança alguma desacostumada; e no caminho dizem que descobriu o Mestre esta cousa [o plano] a alguns seus, convém a saber: ao Comendador de. Jurumenha, e a Fernand’Álvares, e a Lourenço Martins de Leiria, e a Vasco Lourenço que depois foi Meirinho, e a Lopo Vasquez que depois foi Comendador-mor, e a Rui Pereira que depois o foi receber. E disse a um deles: “I-vos deante quanto poderdes e dize a Álvaro Pais que. se faça prestes, que eu vou por fazer aquilo que ele sabe”. O Escudeiro andou a pressa e deu-lhe o recado e tornou-se pera o Mestre homde vinha. E ele uma cota vestida e até vinte consigo com cotas e braçais e espadas cintas como homens caminheiros; e chegou ao Paço a hora. de terça ou pouco mais, sem deter porem em outra parte. E quando descavalgou e começarom de subir acima, disserom huns aos outros mui manso: “Seede todos prestes, ca o Mestre quer matar o Conde Joham Fernandes”. A Rainha estava em sua Câmara e Donas algumas assentadas no. estrado, e o Comde de Barcelos seu irmão, e o Comde Dom Álvaro Pires, e Fernand’Afonso de Çamora, e Vasco Pires de Camões e outros, estavom em huu banco; e o Comde Joham Fernandes que dante estava em cabeçeira delles, estava emtonce ant’ela e começava de lhe falar. passamente. E em lhe seendo assi falando, baterom à porta, e o Porteiro como entrou o Mestre, quis çerrar a porta por nom entrar nenhu dos seus, e disse que o pergumtaria à Rainha, nom por delles aver nenhuã sospeita, mas porque a Rainha estava com dó, e nom era costume de. nenhuu entrar, salvo esses senhores, sem lho primeiro fazer saber. E o Mestre respondeo ao Porteiro: “Que as tu assi de dizer”? E em esto entrou de guisa que entrarõ os seus todos com elle; e elle moveo passamente contra honde estava a Rainha; e ella se levantou, e todollos. outros que eram presentes. E depois que o Mestre fez reveremça à Rainha e mesura a todos, e elles a ell recebimento, disse a Rainha que sse assentassem, e fallou ao Mestre dizendo: “E pois, irmão, que he isto a que tornastes de vosso caminho”? “Tornei, Senhora”, disse elle,. “porque me pareço que nom hia desembargado como compria. Vos me ordenastes que tevesse carrego da comarca d’Antre Tejo e Odiana, se per vemtuira elRey de Castella quisesse viir ao regno e quebrar os trautos dantre vos e elle; e porque aquella frontaria he grossa de gemtes e. gramdes senhores, assi como do Mestre de Santiago, e do Mestre d’Alcãtara e doutros e boõs fidalgos; e aquelles que vos assinastes pera a guardarem comigo, me pareçem poucos; por emde tornei pera me dardes mais vassalos, pera vos eu poder servir, segundo compre a minha. honra e vosso serviço”. A Rainha disse que era mui bem, e mandou logo chamar Joham Gonçallvez seu Escripvam da Poridade, que visse o Livro dos Vassalos daquela comarca, e que lhe desse quamtos e quais o Mestre requeresse, e que fosse logo desembargado de todo. Joham. Gonçallvez foi chamado à pressa e foisse assentar com seus escrivães a prover os livros para desembargar o Mestre. Em esto começarom de o comvidar os Comdes cada huu per si; e isso mesmo o Comde Joham Fernandez se aficava mais que comesse com ele que os outros. O Mestre nom. quis tornar convife de nenhu, escusandosse per suas palavras, dizemdo que já tiinha prestes de comer que mandara fazer ao seu Vedor; porem dizem que disse mui escusamente ao Comde de Barcelos que o nom sentiu nenhu: “Comde, hiivos daqui, ca eu quero matar o Comde Joham. Fernandez”. E que ele respondeo que sse nom hiria, mas estaria hi com elle pera o ajudar. “Nom sejaaes”, disse o Mestre, “mas rrogovos todavia que vos vades daqui, e me aguardees pera o jantar; ca eu Deos queremdo tamto que isto for feito, logo hirei comer com vosco”. A. ventura por melhor aazar a morte do Comde Joham Fernandes, começou de lhe fazer reçear a vinda do Mestre; per tal guisa que lhe pos em vontade, que mamdasse a todollos seus que sse fossem armar e se vehessem pera ele; e de qualquer jeito que foi, partiromsse os seus todos. do Paço, assi fidalgos que o acõmpanhavom come os outros, e foromsse armar pera se viirem per ele; e esta foi a razom por que ell ficou só de todos eles, e nenhu estava hi quamdo morreo. A Rainha isso meesmo pos femença nos do Mestre; e veendoos assi todos armados, nõ lhe. prougue em seu coraçom, e disse falando contra todos: “Santa Maria vall! como os Ingreses ham mui bom costume, que quamdo som no tempo da paz, nom tragem armas, nem curam dandar armados, mas boas roupas e luvas nas mãos come donzellas; e quamdo ssom na guerra, entom. costumam as armas e husom dellas como todo o mundo sabe”. “Senhora”, disse o Mestre, “he mui gram verdade. Mas isso fazem elles porque ham mui a meúde guerras, e poucas vezes paz, e podem-no mui bem fazer; mas a nos he pollo contrairo, ca avemos mui a meúde paz e poucas. vezes guerra; e sse no tempo da paz nom husarmos as armas, quamdo viiese a guerra nom as poderiamos soportar”. E fallamdo em isso e em outras cousas, chegavomsse as horas do comer, e espediu-se o Conde de Barcelos, e dessi os outros, ca os mais delles dava a vontade aquilo. que sse depois fez. Ficamdo assi o Comde Joham Fernandez, gastavasse lhe o coraçom, e tornou a dizer ao Mestre: “Senhor, vos todavia comerês comigo”. “Nom comerei”, disse o Mestre, “ca tenho feito de comer”. “Si comerês”, disse ele, “e em quamto vos fallaes, hirei eu mamdar. fazer prestes”. “Nõ vades”, disse o Mestre, “ca vos ei de fallar hua cousa amte que me vá, e logo me quero hir, ca ja he horas de comer”. Entom se espediu da Rainha, e tornou o Comde pella mão e sahirom ambos da Câmara a huã grande sala que era deamte, e os do Mestre todos. com ele, e Rui Pereira e Lourenço Martins mais açerca. E chegamdosse o Mestre com o Comde acerca dhuma fresta, semtirom os seus que o Mestre lhe começava de fallar passo, e esteverom todos quedos. E as pallavras foram ant’eles tam poucas e tam baixo ditas, que nenhum por. emtonçe emtemdeo queguendas eram; porem afirmam que forom desta guisa. “Comde, eu me maravilho muito de vos serdes homem a que eu ben queria, e trabalhardesvos de minha desonra e morte”. “Eu, Senhor!”, disse ele, “quem vos tall cousa disse, memtivos mui grande mentira”. O. Mestre que mais vontade tinha de o matar que d’estar com ele em razões, tirou logo huu cuitelo comprido, e envioulhe huu golpe à cabeça; porem nom foi a ferida tamanha que della morrera, se mais nom ouvera. Os outros que estavam de arredor, quando virom esto, lamçarom logo. as espadas fora pera lhe dar, e ell movendo pera sse colher à Câmara da Rainha com aquela ferida, e Rui Pereira que era mais açerca, meteo huu estoque d’armas per elle de que logo cahiu em terra morto. Os outros quiseromlhe dar mais feridas, e o Mestre disse que estevessem. quedos, e nenhu foi ousado de lhe mais dar; e mandou logo Fernand’Álvares e Lourenço Martins que fossem çerrar as portas que nom entrasse nenhu, e dissessem ao seu Page que fosse a pressa pella vila bradamdo que matavom o Mestre, e elles fezeromno assi. E era o Mestre. quamdo matou o Comde em hidade de 25 anos, e amdava em 26; e foi morto seis dias de dezembro, era já escripta de quatro çemtos e viinte e huu [-38=1383]”.

 – Crónica de D. João I, cap. IX.

O #metoozinho do Jazz Português

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À semelhança do putativo escândalo sensacionalista que envolveu supostas formas vagas de assédio e abuso sexual no Centro de Estudos Sociais na Universidade de Coimbra, problemática que abordámos em devido tempo, voltamos aqui a tentar separar o trigo do joio num caso recente de denúncias semelhantes em relação não apenas a um músico em específico, mas mais vastamente em relação a todo o mundo do jazz português.

Em primeiro lugar, é importante sublinhar que se trata de mais uma situação em que se coloca a hipótese de professores terem relações próximas, de amizade ou de carácter erótico e amoroso, com alunos. Esclareçamos primeiramente que isto não é crime, que depende das instituições em específico terem regulamentos internos explícitos contra essas situações — e grande parte não têm — e que, curiosamente, noutras décadas em que o espírito cultural do ocidente tendia para um maior liberalismo dos costumes, nomeadamente a nível de relações sociais e amorosas, tal possibilidade não era de todo vista no binómio oprimido/opressor e nas relações de poder, tendo até originado em muitos casos uniões duradouras, tanto de professores com alunas como de professoras com alunos. Um caso recente é o de Agnes Callard.

Em segundo lugar, o presente estado, que parece já lunático e muito afastado de qualquer critério realista e credível, quanto à noção de assédio ou abuso sexual abarca, para certas alminhas com interesses directos ou indirectos num estado de pânico moral quanto ao assunto, situações e práticas tão díspares que vão desde o piropo, passando pela mão no joelho, pela insinuação de interesse amoroso, até aos desentendimentos dentro de relações íntimas já estabelecidas — pode ser esse aqui o caso — chegando por último à violação tout court. São fenómenos estes que só dentro de cabeças muito tendentes à neurose ou à psicose podem ser agrupados dentro da mesma categoria uniforme: mas não há quem falte a jurar que a distância entre um piropo e uma violação bruta é muito pouca. São categorizações que não merecem qualquer importância e pertencem provavelmente ao caixote de lixo da psiquatria.

Em terceiro lugar, é importante analisar ponto a ponto as informações levantadas na imprensa, combatendo o impulso sensacionalista que estes assuntos convocam. Acima, encontramos um trecho da peça do jornal Público sobre o assunto, uma de várias. Pelo que pudemos apurar até agora deste #metoozinho do jazz português, resume-se ao seguinte: (1) uma rapariga, Liliana Cunha, escreveu de impulso um relato nas redes sociais sobre, basicamente, um sujeito, João Pedro Coelho, que é professor de jazz e que terá tirado a proteção a meio de uma relação sexual; (2) foi impulsionada pelas amigas a indicar o nome, e fê-lo; (3) de seguida, começam a chover denúncias de que esse professor é mulherengo e vai beber café com as alunas; (4) o professor reage alegando que o primeiro facto relatado é falso e que irá avançar para queixa judicial; (5) ao saber disto, e só depois, a rapariga resolve avançar também para queixa judicial, embora já tenha prescrito o prazo para apresentação da mesma (factos confirmados aqui); (6) de resto, o canal de denúncias entretanto constituído por mais um grupo espontâneo ou não-espontâneo que, como as gaivotas, sempre vem à tona quando vê peixe fresco (e que curiosamente é quase sempre dominado por pessoas de nacionalidade brasileira ligadas às academias de estudos sociais e/ou às artes), já recebeu inúmeros relatos reportando tanto à mesma pessoa como a outros professores e músicos de jazz, relatos esses que, pelo que se lê na imprensa, se resumem a episódios e comportamentos do tipo mulherengo, e não propriamente a violações, abusos sexuais concretos (além desse primeiramente referido) ou sequer a casos numerosos, relevantes e credíveis de assédio ou abusos de outros tipos (há dois confirmados por uma escola, o Hot Club de Portugal, que tiveram consequência — o afastamento dos professores; ou seja, caso resolvido). 

A alegação quanto à remoção de protecção, cujo relato se encontra acima, da peça do Público, e que, no fundo, é a única base sobre a qual a denúncia inicial se alicerça, configura um abuso de confiança grave mas não constitui necessariamente, à luz da lei portuguesa, violação à letra, embora o possa ser noutros países. Uma peça razoável do jornal DN sobre o assunto pode ser lida aqui. É importante também notar que a situação pode provir de mal-entendidos, comuns entre pessoas que se conhecem mal e no entanto logo se encontram em interacções sexuais íntimas e complexas — o que nos lembra como é problemático criminalizar coisas difíceis de provar como a remoção de proteção a meio de uma relação. Importa ainda assinalar que esse acto inconsentido é pontualmente comum com alguns homens, por motivações variadas, e que é inteiramente censurável, mas que também é fundamental a existência de uma discussão tanto sobre o porquê de o fazerem como também sobre o que sucede para que mulheres e homens tão displicentemente se vejam em situações em que tal pode acontecer. Fosse como fosse, o procedimento sensato a partir do momento em que tal imprevisto sucede, como alegadamente terá sucedido, seria tentar o entendimento com a pessoa ou partir de imediato para uma queixa judicial, preferencialmente sem a necessidade da chicana pública — queixa essa que, mesmo que não tivesse resultado sancionatório prático, teria certamente o condão de deter futuros actos semelhantes da parte da pessoa.

Mas quanto ao restante rol de informações veiculadas na imprensa, é fácil depreender que, por enquanto, não existe realmente nenhuma alegação concreta de abuso sexual grave à luz da lei portuguesa, ou então essa informação seguramente já teria sido divulgada. Quantas alegações credíveis de assédio ou abuso foram realmente até agora reportadas — além das duas de assédio que não mereciam qualquer reporte extraordinário pois já tinham sido, e bem, encaminhadas internamente e com resolução positiva — não sabemos. São-nos indicados números que, a crer no critério lasso que parece aqui presente, tanto podem envolver convites para beber café, toques excessivamente íntimos, até eventuais insistências no âmbito da proximidade que possam passar o limite do admissível. Porém, a contar com o padrão que podemos dizer já vir a conhecer, tanto do caso do CES de Coimbra como de rumores que possam surgir em geral no meio académico, antevê-se o resultado do costume: a existência de professores que gostam de mandar charme, que alimentam ou podem alimentar ligações de proximidade com pupilos, envolvendo trocas de mensagens, cafés, conversas por vias variadas que podem evoluir para relações de amizade e quiçá de carácter amoroso ou erótico. Com forte probabilidade é isto e só isto que emergirá do movimento. E se for só isto, qual é realmente a opinião pública maioritária sobre a sua importância?

Ora, nada disto é crime, nada disto é necessariamente “assédio” — e convém que as pessoas tenham maturidade suficiente para o distinguir, maturidade essa que parece estar ausente, de forma notória e preocupante, em muitas pessoas de gerações mais novas. Não parece admissível que se confundam tão facilmente, por um lado, o mundo dos entendimentos e desentendimentos das relações sociais e amorosas, e, por outro, o mundo dos crimes de assédio e do abuso — sendo que a existência de hierarquias laborais ou lectivas, diferenças de idade ou de estatuto não configuram necessariamente o segundo caso. Certo é que não parece viável passar a trazer-se para a esfera pública do escândalo, da perseguição e em muitos casos da difamação, que podem envolver destruições de reputações e de carreiras, episódios que mais facilmente caberiam no mundo complexo dos desentendimentos inter-pessoais do que no mundo do crime — e não parece também que misturar um mundo com o outro não acabe por ter a consequência de menorizar verdadeiros exemplos de abuso. No final deste artigo, poderão encontrar uma galeria de comentários, retirada de um perfil social de uma das responsáveis pelo movimento — o que significa que levam todas estas queixas, algumas delas de evidente puerilidade, igualmente a sério e as enquadram todas na mesma categoria de gravidade —, de várias pessoas do mundo da música jazz em Portugal que, por agora confirmam não só as suspeitas de confusão muitíssimo perigosa entre ambiguidades de relações sociais e assédio dirigido, como também um eventual problema de maturidade emocional em termos de capacidade de reagir a esses avanços com vista a relações inter-pessoais de amizade ou de carácter amoroso, e as confusões e desilusões que podem daí advir.

Uma nota lateral, mas importante, sobre a actual doutrina jurídica no ocidente quanto ao abuso sexual, é também aqui relevante. Actualmente, segundo convenções internacionais, o estabelecimento de abuso sexual não requer provas físicas que o distingam de maneira minimamente categórica de uma relação sexual de mútuo consentimento — provas de resistência, por exemplo. Ou seja, depende apenas da palavra da testemunha. Isto pode ser problemático: este tipo de leis empodera os queixosos com um tipo de poder que, julgam eles, não vão abusar; mas a subjectivização imanente nas relações humanas, a sentimentalidade e o sensacionismo pode convencê-los e confundi-los. Uma má noite sexual, na sua cabeça, pode rapidamente saltar para violação; mal-entendidos para abusos; recordações ou retrospeções que revisitam o acontecimento à luz de outros critérios subjectivos, de repente transformam um mau encontro num programa de violação e destruição corporal e mental propositados. É totalmente ingénuo não reconhecer os problemas por detrás desta subjectivização da lei.

Dizem-nos, de resto, que é um facto que os músicos de jazz, no mundo e em Portugal, são “frescos” ou têm essa reputação do sentido da inclinação para o envolvimento próximo, amoroso ou meramente sexual. Se assim é, não quebram aquela que sempre foi a tradição do género — que, se agora for sujeita a critérios morais mais pudicos, se pode dizer ter ficado “aburguesada”. Estranhas assim são reacções da revista jazz.pt e do músico Filipe Melo — reacções tão solenes quanto dramáticas, de certo modo revelando uma certa covardia institucional ou profissional perante a voz das turbas, e não referindo uma única vez o princípio de presunção de inocência, o ditame sagrado da prova judicial nos estados de direito, e o cepticismo das pessoas inteligentes e não primeiramente emotivas face à complexidade de assuntos em que obviamente não basta o clamor das multidões, tantas e com tanta força vezes erradas, para estabelecer o que quer que seja de credível e concreto. Por isso damo-nos à liberdade de acusar aqui o seguinte: instituição ou pessoa pública que venha a referir apoio automático a este tipo de movimentos sem mencionar o princípio da presunção da inocência e o primado da lei e das provas concretas está a incorrer num exemplo de covardia.

Assim, a reflexão sobre o que se terá passado na educação familiar, no desenvolvimento psicológico ou no momento cultural das pessoas, denunciantes ou entusiastas deste fenómenos, pessoas que vivem neste comprimento de onda mental, onde tão facilmente se transformam episódios de desencontro nas relações humanas em falhas morais e legais graves, é uma reflexão que tem de ser feita: em Portugal e na maior parte do ocidente, de acordo com os quadros legais, a autonomia sexual atinge-se aos 16 anos, e a maioridade cívica plena aos 18. Se atingidas estas marcas as pessoas não se encontram em plenas capacidades funcionais para lidar com o mundo complexo das interacções interpessoais, inclusive aquelas de carácter erótico e amoroso — ou seja, se, na prática, não sabem lidar com investidas de terceiros nesse sentido e imediatamente as caracterizam, muita vezes abusivamente, como “assédio” — então há que tirar conclusões quanto ao que falhou ou, então, alterar ao nível da lei as idades em que essas maioridades se atingem. 

É possível que uma parte significativa da população infantilizada ou entusiasta da infantilização progressiva da jovem idade adulta creia que, por exemplo, as idades mais adequadas no presente momento para a maturidade fossem algo por volta dos 18 ou mesmo até 22 para a autonomia sexual, e 25 para a maioridade cívica. Se assim é, fortes discussões podem e devem ser tidas quanto a isto — inclusive, e aqui queremos tocar, para concluir, num ponto que mais nos é próximo, perceber como é que a universidade e o ensino superior em geral, com a sua frequência hoje cada vez mais tendencialmente universal, funciona em parte como um prolongamento rasca, inútil e perdulário do ensino secundário e do estado de adolescência mental, social e cívica que o mesmo impõe aos seus discentes. Fica para reflexão.

Justiça Social e IRS: Pela Progressividade Indireta

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Progressividade ou proporcionalidade em sede de irs, no âmbito da justiça social? Um ensaio para uma Progressividade Indireta. Texto de MIGUEL FURTADO[1]. Palavras-Chave: IRS, Progressividade, Proporcionalidade, Estado Social, Justiça Social

“O poder de tributar envolve também o poder de destruir”

(John Marshall, Suprema Corte Americana, 1819, Mc Culloch v. Maryland)

A finalidade prioritária do Direito é a realização de um ideal de Justiça, constituindo esse um objeto para que esta seja efetivamente possivel de alcançar . Mas, num Estado de Direito de cariz social, como é o caso do verificado em território português, o ideal de justiça deverá necessariamente referir-se a um âmbito de natureza coletiva devendo estipular-se deste modo, um ideal de justiça social.

Contudo, num Estado de Direito de características democrátivas e enquadrado numa conjuntura europeia, cujos pressupostos provenientes da Revolução Francesa necessariamente implicam os princípios da liberdade e igualdade, como se deverá entender o significado de “justiça social”?

Esta “justiça social” deverá verdadeiramente ser alvo, de um modo livre e pragmático, de uma discussão científica em benefício de toda a sociedade em que nos encontramos integrados ou, “à contrario” e procedendo falsamente a um argumento democrático, encontrar-se à partida já inquinada de limitações aparentemente garantísticas de certas franjas da população, presumivelmente mais afetadas pelas dificuldades? Eventualmente até, em contrariedade com o princípio da universalidade, que também dispõe, à semelhança dos princípios da liberdade e igualdade, de força constitucional?

Assim, pretende-se na esfera deste ensaio, analisar a interpretação que deverá ser realizada, nos termos estatuídos pelas disposições normativas, relativamente ao conceito em causa.

Deverá, pois, possuir uma acepção de teor mais restrito, relacionada somente com quem possua uma menor capacidade de criação de riqueza e, portanto, com maiores dificuldades em manter condignamente um mínimo de qualidade de vida e bem-estar, ou, mais lata e de esfera mais abrangente, extensível igualmente aos outros segmentos populacionais da sociedade?

Interpretação esta que, na nossa opinião, deverá considerar, além dos vários princípios jurídicos como os da Dignidade Humana, da Universalidade ou da Igualdade, a análise apreciativa material de algumas noções de domínio jurídico-político como “sociedade”, “Estado” ou “cidadão” e a sua mais adequada percepção, em correlação com vários conceitos de vertente jurídico-económica casos das eficiência e equidade, dos trade-off, custo de oportunidade, crescimento económico ou do princípio do incentivo.

Mas, em consonância com a interpretação a implementar, constitui necessariamente referência primacial, na prossecução de uma “justiça social”, a existência de um Sistema Tributário apropriado, que permita a sua viabilização. Deste modo, num Estado de Direito com características de âmbito comunitário, que premissas devem ser cometidas a nível tributário, para que este propósito de justiça se considere executado?

Diga-se aliás, que a delimitação da estrutura tributária deverá ser o pilar essencial e indispensável da observância das várias tarefas fundamentais pertencentes ao Estado, inevitavelmente com uma função primacialmente social, quer a nível direto através do desenvolvimento dos seus fins de natureza financeira como os da estabilidade económica, redistribuição da riqueza ou crescimento económico, quer ainda de um modo indireto, com a satisfação conveniente das necessidades colectivas, através da disponibilização dos vários tipos de bens, públicos e semipúblicos.

Estrutura tributária esta que, adequadamente delineada, permitirá a concretização dos direitos, liberdades e garantias bem como dos direitos económicos, sociais e culturais estípulados na Constituição, que, em menor ou maior intensidade, respetivamente, estarão dependentes da sua eficiência e consequentemente, das receitas públicas arrecadadas pela mesma.

Nestes termos, qual a análise jurídica apreciativa de “justiça social” que deverá ser exercida? Deverá de imediato, contemplar destacadamente um propósito mais relacionado com a questão equitativa de redistribuição de riqueza e relativa às classes sociais mais desfavorecidas? O que proporcionará impreterivelmente, como efeito, uma decorrente secundarização estatal a quem consiga usufruir de maior capacidade de criação de riqueza, visto a prevalência jurídica interpretativa se basear nesta hierarquia normativa discriminatória?

Ou, em sentido antagônico, será mais salutar socialmente praticar-se uma ponderação mais equilibrada, que, sem prejuízo dos mais desamparados, não hostilize, tanto por razões sociais mas igualmente económicas, os que desfrutam de maiores possibilidades de produção?

Deste modo, com base na apreciação a efetuar, em que perspectiva se deve indagar os conceitos de Estado, Sociedade, Cidadão, necessidade colectiva bem como dos princípios da universalidade e da igualdade tributária? Numa visão parcial e de preponderância para aqueles que eventualmente possuem maiores dificuldades para verem satisfeitas as suas lacunas, ou de um modo mais amplo, onde os preceitos normativos pressupoem que uma intervenção pública tenha uma dimensão de alcance mais geral?

E esta proporção mais geral não assegurará por razões económicas, além de uma concepção mais harmoniosa da estrutura social, maior criação de riqueza e, por conseguinte, através da arrecadação de receitas públicas, maior retorno financeiro ao Estado, o que proporcionaria a possibilidade de uma maior eficácia na progressão das suas políticas sociais?

Sendo que, para nós, o tributo “imposto” e, preferencialmente, o Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares, ocupa a função mais relevante na delimitação das questões levantadas, tanto numa vertente jurídica, mas similarmente ética, relativamente à organização apropriada de uma sociedade de direito democrática e relevada de reais preocupações sociais.

Primeiramente, porque o imposto é uma contribuição da sociedade para o benefício da própria comunidade, no desenvolvimento dos seus intentos públicos, e deve ser percepcionado como tal, o que presentemente, com o regime atual, não se verifica, constituindo sim, para um elevado quinhão da população, simplesmente um ónus e inclusivamente para muitos, uma sanção.

Ou seja, os cidadãos que conseguem alcançar, fruto normalmente dos seus mérito e esforço, certos níveis de criação de riqueza, não percepcionam a produção de quaisquer efeitos sociais e económicos práticos de um pertinente aproveitamento em proveito da sua sociedade mas, até pelo contrário, de uma propagação do ócio e de injustiças patrocinada pelo próprio Estado devido à abusiva tributação observada, em prejuízo de alguns e em benefício de outros.

Seguidamente, porque o imposto sobre o rendimento das pessoas singulares envolve os rendimentos adquiridos direta e prioritariamente pelo esforço pessoal não só no imediato do seu trabalho, mas, também, dos sacrifícios, intelectuais, físicos, de disponibilidade temporal, familiares e igualmente financeiros, realizados quer no presente, mas igualmente no passado, aquando do incremento do seu capital humano operando porquanto, inadequadamente, como um custo de oportunidade.

Assim, com base na análise constitucional e da demais correspondente legislação relativa ao Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares, bem como da evolução histórica e estudo comparativo dos correspondentes modelos de tributação existentes, será relevante investigar se este tributo se encontra devidamente ordenado no âmbito das suas finalidades normativas e prioritariamente no da mais adequada justiça social, idealmente invocada a nível jurídico-político e, mais nomeadamente, a nível da sua classificação, relacionada com a respetiva forma de cálculo.

Ou seja, este imposto, que se encontra disposto em Portugal sob o formato da progressividade, deverá manter-se constituido deste modo ou seria mais apropriado a sua configuração para um modelo alicerçado na proporcionalidade?

E esta mutação beneficiaria os objetivos preceituados juridicamente para este imposto ou prejudicaria eventualmente a justiça social e, consequentemente, o “Welfare State” pretendido e relacionado com as correções das desigualdades na distribuição da riqueza e do rendimento, por violação normativa do Princípio da Igualdade Tributária?

Seria ainda necessário verificar-se alguma revisão constitucional para a aplicação da proporcionalidade em território português, o que dificultaria o seu enquadramento jurídico, ou não existiria esta dificuldade?

Para nós, a questão da progressividade em sede de IRS é uma falácia política. Obviamente que a situação é passível de análise segundo vários contextos e a progressividade a curto prazo, com a existência de vários escalões, pode aparentar possibilitar um efetivo combate às desigualdades sociais no imediato, mas, a longo prazo, parece-nos que, com um modelo de proporcionalidade, os proveitos sociais serão maiores.

Sendo uma obrigação funcional do Estado compreender, sem condicionalismos de qualquer ordem, se a preferência deve basear-se numa sociedade do “politicamente correto” e do “faz de conta”, mas com efeitos economica e socialmente limitados, ou, se pretendemos alcançar uma sociedade verdadeiramente mais justa e produtiva, onde ninguém, de modo universal, se sinta defraudado das suas expetativas, fruindo realmente de incentivos para contribuir.

Já que, conforme anteriormente referido, não nos devemos nunca esquecer que o tributo não é uma punição, mas um contributo para manter ou incrementar o nosso bem-estar e qualidade de vida, enquanto sujeitos de uma determinada área geopolítica.

Nestes termos, o debate científico deverá contemplar o equilíbrio propício entre os conceitos económicos de eficiência e equidade, provocando inclusive e impreterivelmente uma acertada ponderação regulatória tributária sobre o termo eficiência.

Este equilíbrio provocará a produção de uma maior riqueza, que permitirá consequentemente uma maior redistribuição num sentido lato, já que abarcará mais estratos sociais e, desta forma, uma maior qualidade de vida e bem-estar universal. Todavia, assiste-se tradicionalmente na área geopolítica portuguesa, onde se inclui o raciocínio tributário, a uma preocupação prevalente e até eventualmente demagógica, sob o significado de equidade.

Sendo que, no dispositivo atualmente aplicado, de progressividade em sede de IRS, os mais desfavorecidos patrimonialmente, praticamente não pagam imposto porque não conseguem criar riqueza.

Por outro lado, aqueles que conseguem ser mais produtivos, devido à abusiva carga fiscal, que já viola há bastante tempo as regras da Curva de Laffer, em vez de beneficiarem coletivamente com os seus comportamentos a sociedade, ou praticam fraude e evasão fiscal, ou decidem trabalhar menos por não ser compensador despender esforço a partir de certo montante remuneratório.

Podendo outra das consequências negativas da abusiva carga fiscal ser a deslocalização dos investimentos para outros territórios, em prejuízo da eficiência e da riqueza não criadas e que favoreceriam o nosso pais.

Assim sendo, quem na prática, injustamente, suporta sempre a progressividade do IRS, é a classe média que trabalha por conta de outrem. Não se deve deste modo invocar, como alguns tentam fazer, que existe justiça social quando apenas uma parte da população e sempre a mesma, paga imposto.

Nem quando teoricamente se criam escalões relativos a rendimentos de trabalho mais elevados, com valores percentuais superiores a metade das receitas obtidas, visto que, quando se fala de justiça, esta deverá consignar todos e não somente alguns, supostamente mais pobres, que acabam identicamente por serem lesados.

Diga-se aliás, que esta ordenação jurídico-política prejudica a própria sociedade, através de uma ineficiência económica e consequentemente social, porque provoca um menor aproveitamento da riqueza que poderia ser gerada ou utilizada, afetando a equidade, tão ironicamente salvaguardada pelo modelo em vigor.

Nestes termos, o regime da proporcionalidade defendido por nós, que se refere à percentagem a pagar, mantém contribuições superiores para quem aufere maiores rendimentos uma vez que, quem recebe mais, continua igualmente a participar financeiramente mais, à semelhança do sucedido em sede de IVA (que funciona proporcionalmente).

Continuando-se deste modo a respeitar o princípio jurídico da igualdade e contribuindo significativamente para o trágico combate à fraude e evasão fiscal, na medida em que diminuiria consideravelmente o incentivo para este drama social e financeiro.

Provoca também aumento da produtividade, por passarem a serem compensatórios o esforço e a disponibilidade daqueles que são mais produtivos, com consequentes investimentos pessoais e financeiros, acompanhados necessariamente de subsecutivo crescimento económico e criação de maior riqueza social, que posteriormente afectará igualmente de forma positiva os mais desfavorecidos.

O próprio Estado, com o abaixamento substancial da fraude e evasão fiscal, poderá gerir mais adequadamente os seus recursos humanos, dado que, diminuirá o peso da máquina fiscal, que não carecerá de ser tão complexa, o que provocará um menor custo, recebendo ao mesmo tempo maiores receitas tributárias, tanto pelo incentivo ao pagamento como pelo mencionado crescimento económico.

Proporcionalidade esta que, à semelhança do IVA, poderia encontrar-se dividida em alguns escalões, o que a nível jurídico se enquadra no estípulado na respectiva legislação referida por ser para todos os efeitos práticos, uma progressividade indirecta.

Sistema proporcional, que poderia ser acompanhado sim, por uma progressividade através de taxas, casos por exemplo da utilização de um serviço público hospitalar ou universitário. Eventualmente ainda, a proporcionalidade dos rendimentos de trabalho do sujeito passivo poder ficar dependente de certos pressupostos relacionados com investimento na sua actividade profissional (por exemplo, criação de postos de trabalho, estágios remunerados a terceiros, aposta em formação académica ou profissional).

Possibilitar-se-ia uma justiça social melhor dividida e uma melhor propagação do Estado Social, mas de uma forma económica consolidada, constituindo-se ainda juridicamente, um princípio de consciência tributária social, simbólica para os cidadãos de menor capacidade contributiva, que se aperceberiam socialmente da relevância em contribuir.

Apesar de, obviamente, estes cidadãos deverem ser beneficiados pelo posterior retorno através de bens semipúblicos e ínsito num trade-off realizado pelos restantes contribuintes com maiores meios de aquisição de riqueza, que ficariam adstritos a certas conjeturas para usufruírem da proporcionalidade.

Ou seja, conceber-se-ia de facto, uma noção de responsabilidade tributária universal, onde todos efetuariam a sua contribuição em consonância com a riqueza criada, independentemente do retorno que os mais desfavorecidos deveriam posteriormente desfrutar.

Deste modo, como principais conclusões a demonstrar, parece-nos mais proficiente a proporcionalidade em sede de IRS, quer a nível de Justiça Social quer a nível de eficiência económica, não se verificando quaisquer desrespeitos ao Estado Social, mas, “a contrario”, maiores vantagens e um mais conveniente equilíbrio.

Podendo, em complementariedade, adotar-se certas condições que possibilitem um mais adequado ajustamento e que poderão envolver mexidas no tributo taxa e nas deduções à coleta, bem como o reconhecimento de medidas individuais específicas.

Desde logo e em conformidade com o princípio jurídico da igualdade tributária num cariz vertical, quem possui menores condições patrimoniais, pressupondo, portanto, menor capacidade contributiva, continuará, tendo em vista a manutenção de uma certa e digna qualidade de vida pessoal e familiar, a empreender um esforço financeiro menor, o que permitirá assegurar a consequente diminuição das desigualdades.

É aliás, o que determinam os vários preceitos jurídicos da nossa legislação, com realce para a Lei Fundamental, a Constituição da República Portuguesa (ver art. 104º, nº 1) e para a Lei de Bases do Direito Tributário, a Lei Geral Tributária (ver arts 5º e 6º), visto que identicamente, num quadro tributário com estrutura proporcional, quem usufrui de maior capacidade contributiva manterá uma colaboração mais elevada.

Não entendemos ainda existir, na proporcionalidade por nós defendida, transgressão da disposição constitucional nem do princípio da igualdade tributária, podendo deste modo, juridicamente, verificar-se a alteração da classificação presentemente legislada.

Pretendendo-se com este ensaio apresentar algumas reflexões relativas a uma matéria prioritária num Estado Social de Direito Democrático e algumas possiveis soluções, que eventualmente possam permitir à posteriori, um debate efetivo e livre de preconceitos, com porventura a possivel constituição de um sistema tributario mais justo socialmente.

Devendo as conclusões finais demonstrarem a proporcionalidade como a forma de cálculo mais apropriada a uma real justiça social e uma desnecessária revisão constitucional do art.º 104º, nº 1 da CRP, já que, a proporcionalidade por nós invocada goza de progressividade indireta, que se enquadra de imediato na disposição normativa mencionada.

Sendo pretensão do autor, com estes últimos raciocínios empíricos, contribuir consequentemente para uma factual análise jurídico-política de âmbito mais alargada e eliminar, ou pelo menos atenuar, preconceitos políticos existentes na contenda sobre este tema.

Deixando-se, no quadro da discussão científica exercida, para cogitação dos leitores, as seguintes questões subsequentes: 1. “Verifica-se efetivamente, nos termos mais propícios, a propagação adequada das finalidades normativamente preceituadas para a tributação e primacialmente os objetivos de justiça social, através da progressividade no Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares? 2. “A proporcionalidade em sede de IRS não possibilitaria de um modo mais eficiente, o desenvolvimento destas finalidades e prioritariamente do objetivo de justiça social?”

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– Acórdão do Tribunal Constitucional nº 173/2005, de 6 de Maio

  1. Professor Universitário e investigador de direito, jurisconsulto e consultor jurídico.

Crítica: Malhão de Ir ao Meio, Grupo Folclórico de Vila Verde

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Em revisita ao livro comemorativo dos 50anos do “Grupo Folclórico de Vila Verde” de 2008 (que inclui CD com reportório tradicional), é incontornável não deitar olhos e ouvidos ao tema “Malhão de ir ao Meio”. Um tema tradicional cuja a letra é de autor desconhecido, sendo a versão apresentada em livro provavelmente uma das muitas variantes que a tradução oral foi mantendo viva. Salientando-se ainda que na versão deste tema gravado em CD, são acrescentados versos que não constam na peça escrita, o que denota logo aqui o sentido livre e dinâmico da musica tradicional per se. Não obstante da versão constante no dito livro, o que aqui importa é a mensagem de pragmatismo, a ideia metafisica do misticismo étnico que apela à virtude, à moderação, ao consenso de ir e estar no meio (equilíbrio). Calma com o empolgamento esotérico ou intelectual, estamos a falar de uma musica tradicional minhota, tudo o que foi dito anteriormente está envolto numa aura de sátira, subjectividade e brejeirice. Estas formas de expressão foram indispensáveis na tradição oral para passar mensagens de geração em geração, dispondo da boa disposição para esquecer o penoso acto do trabalho, nomeadamente aqui o de “malhar” (leia-se sem aspas). Este tipo de musica e letra eram cantadas em actividades agrícolas pesadas que o próprio tema relatava, com uma vivacidade que cabe ao minhoto.

Cada vez mais preocupados com questões ambientais e cada vez mais longe do “ambiente”, dos ciclos da natureza e da “vida boa” Aristotélica, vivemos no “feliz” caminho dos extremismos ignorantes. Sabedoria, moderação e temperamento são luzes que se apagam e calam nos dias de hoje. A “vida boa” dá muito trabalho, exige destreza intelectual, aclama imaginação, pede espirito critico, iniciativa individual (primeiramente) e comunitária (posteriormente), em simbiose maioritariamente.

Malhar certinho na competição de cada dia, como estimulo para a inovação, eficiência e prosperidade, é este também o caminho que nos leva a ter “Saudades do Futuro” como dizia Teixeira de Pascoaes.

“Rapazes malhai certinho

Para sermos os primeiros

Olhai que quem fica para trás

Logo lhe chamam begueiro

E para trás mija a burra

Mija a burra do moleiro”

(versos do Malhão de Ir ao Meio)

A comunidade cria o individuo, o individuo cumpre-se florescendo numa comunidade que o incita a tal, só então o individuo estará em condições de retribuir à comunidade o que esta lhe legou. Entenda-se que não falo das questões meramente económicas em que caiu a governação da polis destes dias. Nem tão pouco da visão marxista, que quer impor uma igualdade materialista usurpando tudo até possuir o próprio individuo, ignorando que jamais seremos iguais. Não se confunda de igual forma que advogo aqui a lei do mais forte e de um nacional socialismo no seu mofo igualmente déspota. O que vos falo é de um estado de espirito interrompido, de um malho que deixou de ir à eira, de saberes que há quem os queira esquecidos, substituindo-os por uma educação que já nega a realidade e o factual.

Substituamos então a educação, para voltarmos à instrução, como recomendava Agostinho da Silva.

“Rapazes e Raparigas

A virtude está no meio”

“Olhai que é no meio

Que mais se estraga o centeio”

(versos do Malhão de Ir ao Meio)

Almejaremos o cerne do equilíbrio, não conduzindo os aprendizes, mas incrementando-os para que possam fruir libertos e conscientes de que é seu dever e virtude voluntariamente contribuir para que outros floresçam e possam fruir. Longe de ideologias que se querem impor sobre todos os indivíduos de forma coerciva e tirânica. Bater nos extremos, é estar nos extremos, é um acto tresloucado que leva à escassez de tudo e de todos, de bestialidade inaudita onde ninguém logra. Por outro lado e em contraposição, com o salvaguardar do meio para que não se estrague o “centeio”, haverá equilíbrio “bom e suficiente para todos” (qualquer referencia a J.Lock é casual).

Que comece assim a germinar neste malhão a semente “Para sermos os primeiros”, espontâneos senhores dos seus destinos, filantropos voluntários da comunidade que deixará mais e melhor para os vindouros. E que não fiquemos apenas pela retórica e pelas intenções, porque para esses o Malhão de ir ao meio também deixa o seu recado.

“Toda a gente foi ao meio

Só menos o que cantou

Por isso quem foi begueiro

Foi aquele que aqui ficou”

(versos do Malhão de Ir ao Meio)

Nota: Por coincidência um dos prefácios do livro aqui abordado foi indigitado como ministro da agricultar e pescas; tínhamos fé que não soubesse só cantar.

Edição: Outubro 2024

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Às portas do inverno: o sintetizador na música, sociedades modernas, revolução sexual, a palavra epidémica, petições falaciosas, ordens policiais e manifestações, paleografia prática, Patek Philippe, e muito mais.

A Revolução dos Instrumentos Electrónicos

O músico Vítor Rua traz-nos um texto sobre a revolução que sintetizadores e samplers proporcionaram à música no século XX, transformando a criação sonora, permitindo novas expressões musicais e redefinindo as relações entre músico e som.

O contagioso (e o seu feedback)

Catarina Patricio, professora de artes visuais da U. Lusófona, traz-nos uma desafiante proposta, que encontra no SARS-CoV-2 uma contaminação de outro género: a do vírus da palavra e o feedback gerado pela sua retransmissão.

Fotografia de outros tempos: futebol, Yukio Mishima e o futuro.

Nostalgia de uma sociedade mais humana

Crítica ao modelo de sociedade contemporânea que promove a infelicidade e desigualdade, destacando a desumanização das relações sociais. A relação entre natureza e cultura é discutida, assim como a busca pela felicidade em um mundo desigual e competitivo, levantando questões sobre a superficialidade da liberdade e do progresso.

Reflexão Crítica sobre Cuidados Paliativos Pediátricos

Os Cuidados Paliativos Pediátricos (CPP) visam proporcionar suporte integral a crianças com doenças crónicas complexas desde o diagnóstico até a morte, aliviando o sofrimento físico e psicológico. Em Portugal, a cobertura é limitada, com necessidade de mais formação e recursos para garantir acesso equitativo a esses cuidados essenciais a todas as crianças.

Revolução Sexual: A Chernobyl Fabiana do Pós- modernismo

No Ocidente, a Revolução Sexual e suas consequências, incluindo a epidemia de SIDA e o aumento de nascimentos com Síndrome de Down, demonstram efeitos colaterais da desintegração das normas sociais e da moralidade tradicional.

Coisas das ciências exactas.

O Direito (Jurídico) de Resistência: Legítima Defesa e Dever de Obediência

A Revista Minerva Universitária, comentando a actualidade, recorda um artigo em que se defende como o “direito de resistência” estipulado legalmente não inclui, grosso modo, o direito a desobedecer a ordens policiais legítimas. Longe das comoções colectivas, frequentemente irracionais e infundadas, cremos que o mais importante de momento é sublinhar esse dever cívico.

A Petição Pública do momento: uma comédia

Um análise detalhada ao documento, concluindo que se pode manipular a comoção pública com acerto, procurando levá-la a bons portos, ou encaminhá-la para a adesão a iniciativas falaciosas de falsificação intelectual e jurídica, sendo esse o caso desta petição a favor da instauração de processo criminal a declarações políticas que presentemente circula na esfera pública.

O olho de uma baleia, o rosto de uma formiga, e Audrey Hepburn.

Sobre Manifestações: a lenda Tecnhoviking e a fuckparade de 2000

Em tempos de manifestações politicamente instrumentais e instrumentalizadas, trazemos um pouco de autenticidade. A figura do vídeo acima ficou conhecida como tecnhoviking, um anónimo que participava na fuckparade, em Berlim, no início do milénio, manifestação que objectava à crescente mercantilização do desfile de música tecnho love parade. Tendo visto a sua imagem popularizada por meme, processou quem a divulgou e dela tirou lucros. Até hoje a sua identidade não é conhecida do grande público. Ele representa um grande contraste com os oportunistas de ocasião que promovem manifestações, contra-manifestações e petições sob o calor popular e mediático do momento, em geral para mera auto- promoção social e política. Leiam mais aqui.

Da academia: acabar uma tese, sobre-qualificações e perguntas em conferências.

Da Natureza da Monarquia: Excertos de Joseph de Maistre

Excertos do filósofo Joseph de Maistre sobre os sistemas de governo monarquicamente baseados e suas distinções em relação a outros regimes.

Exemplos Práticos de Paleografia

A paleografia é a coluna vertebral de uma pesquisa profunda Histórica. Aqui transcreve-se, com referências, um documento para ajudar à prática da decifração.

Remédios de outros tempos, poses de cigarro e Chaplin com um famoso meme.

O Mundo da Tradução e o Dia Internacional da Tradução, com Sara Reis

Registo vídeo da conversa de Ana Vieira Vicente com Sara Reis, sobre a importância do tradutor no mundo literário, o impacto que as obras estrangeiras têm no mercado português e a celebração de O Dia Internacional da Tradução.

Estatuária (com páginas centrais).

História da Patek Philippe: Um Legado de Tradição e Inovação na Relojoaria

Reconhecida mundialmente como uma das mais prestigiadas fabricantes de relógios de luxo, a marca suíça soube combinar, ao longo dos séculos, a tradição artesanal com avanços técnicos, preservando a excelência e o prestígio que sempre a caracterizaram.

Funnnies avulsos.

Busto da rainha do Egipto antigo Hatshepsut (1507–1458 BC), a primeira patrona de grandes projectos arquitectónicos de que há registo e impulsionadora de inovações técnicas e estéticas na arte egípcia do seu período.

A Petição Pública do momento: uma comédia

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Recentemente, declarações exageradas, desleixadas e até eventualmente grotescas de alguns deputados de um partido de direita em Portugal causaram uma comoção pública que não é incomum, mas que é, como todos sabemos, facilmente manipulável. Pode manipular-se essa comoção com maior ou menos grau de acerto, procurando levá-la a bons portos ou, antes pelo contrário, encaminhá-la para a adesão a iniciativas de inclinação quase fraudulenta, com características de falsificação intelectual e jurídica. É o caso de uma petição a favor da instauração de processo criminal a essas declarações, que presentemente circula na esfera pública.

Não é a mera intenção de levantar processo criminal que configura taxativamente a potencial burla — embora seja inteiramente duvidoso que as declarações em causa pudessem configurar crime, não é por si só absurdo levantar-se essa hipótese — mas sim o argumentário que lá consta — e que provavelmente 90% dos subscritores desconhecem, pois não leram a integralidade do texto, que é extenso e está escrito, como deve ser, numa linguagem jurídica. É um argumentário quase burlão, que parece coisa de advogado de vão de escada, repleto de falácias, contradições absolutamente gritantes, especulações sem resultado certo sobre as quais assenta quase todo o argumento, e um nexo lógico em constante derrocada, sendo nalguns pontos quase risível a sua debilidade. O documento é uma fraude intelectual e passamos aqui de seguida a demonstrar porquê.

  1. Logo no primeiro ponto, assinala que a morte de um cidadão decorreu em circunstâncias ainda por apurar, constatação que irá inviabilizar uma série dos argumentos posteriores.
  2. No ponto 6, depois de citar integralmente as declarações de um líder político, declarações essas que atribuem uma série de qualificativos às acções da vítima mortal e do agente policial, afirma que todas essas declarações são falsas e inventadas, quando (a) cerca de metade dessas descrições estão já comprovadas ou nunca estiveram sujeitas a discussão (nomeadamente que a vítima fugiu da polícia e abalroou vários veículos) e (b) cerca de outra metade depende das conclusões do inquérito referido no primeiro ponto.
  3. No ponto 7, afirma habilmente que a vítima não tinha cometido qualquer crime ao ser abordado inicialmente pela polícia, mascarando o facto de se ter posto em fuga logo de seguida e ter abalroado vários veículos, e omitindo também a alegação policial presente de que teria, antes dessa abordagem, ultrapassado um traço contínuo.
  4. No ponto 8, tira conclusões taxativas a partir de notícias da comunicação social, afirmando que estaria já provado que não existia nenhum ataque com faca, quando (a) só o inquérito enunciado no primeiro ponto o provará com credibilidade e (b) outras notícias da comunicação social dizerem exactamente o contrário.
  5. O ponto 9 é interessante e dependerá de jurisprudência para avaliar a sua viabilidade: afirma-se que não se pode caracterizar alguém como “bandido” apenas por ter em tempos passados cometido crimes, estando à altura com as penas cumpridas e vivendo como cidadão livre de pleno direito. É importante lembrar que, se isto for verdade, tanto se aplica a traficantes de droga como a neo-nazis: não é por uma pessoa ter tido um passado criminoso que não tem o direito a defender-se de expressões pejorativas e atentatórias contra a honra como “bandido”. Casos mediático recentes (Coxi, Machado) o ilustram.
  6. O ponto 10, que elencou a possibilidade de crime quanto à ofensa de memória de pessoa falecida, depende da jurisprudência referida.
  7. No ponto 12, sugere demagogicamente que uma família pobre e de poucos recursos não tem meios para apresentar queixa-crime pelo acima referido: isso é falso, pois o dispositivo jurídico da queixa-crime está acessível a qualquer cidadão, ao contrário do processo judicial independente.
  8. O ponto 15 é um exemplo gritante de contradição que chega às franjas do ridículo e que ilustra na perfeição todo o carácter potencialmente burlão do documento: alega, sumariamente, que qualquer elogio de uma actuação policial que implique perda de vida humana configura apologia ao crime, corrigindo logo de seguida para a exceção no caso da mesma ser justificada. Isto implicaria que (a) qualquer cidadão que mostrasse ou vocalizasse agrado por uma acção necessária e legítima da polícia desse tipo estaria a praticar apologia ao crime e (b) que seria desde logo possível invocar esse artigo jurídico mesmo antes de se conhecer o resultado do inquérito referido no ponto 1, que é o que os peticionários pretendem.
  9. No ponto 18, incorrendo talvez no defeito comum nas classes intelectuais de achar que as pessoas são estúpidas, sugere que o elogio de um polícia usar a arma de forma letal numa situação da qual ainda se desconhece os contornos criaria a percepção pública que os mesmos teriam o direito de disparar conforme qualquer situação. É muito provável que pouquíssimas pessoas creiam nisso.
  10. No ponto 20, levanta mais um dos eixos do seu argumento e uma nova acusação criminal, alegando que parabenizar agentes que usem a arma de fogo de forma letal incentiva desobediência dos mesmos face aos superiores hierárquicos, configurando crime de desobediência, isto, mais uma vez, antes de se conhecer qualquer resultado do inquérito referido no ponto 1 e de se saber se o uso da arma foi ou não legítimo. Não se limita a afirmar que podem as declarações incentivar a desordem e desobediência: afirma taxativamente que pretendem fazê-lo (que se trata de uma acusação grave e sem provas).
  11. No ponto 21, alega que afirmar que as forças de segurança são desrespeitadas pelos poderes públicos em detrimento de criminosos, um argumento político perfeitamente banal, configura também crime de incitamento à desobediência colectiva.
  12. A primeira parte do ponto 23, apesar de especulativa, sobressai como uma ilha de mínima lucidez na sua substância: coloca a hipótese de as declarações do político em causa poderem estimular situações em que decorra o uso excessivo de armas de fogo pela parte das autoridades. Se todo o documento se baseasse em leituras sensatas como esta, seria um texto radicalmente diferente. Na segunda parte, borra totalmente a pintura e sugere que tal incentivo potencia a instauração de uma ditadura.
  13. No ponto 26, referindo-se já a outro político, o líder da bancada parlamentar do mesmo partido, volta a repetir o argumento circular de que sugerir que as polícias deviam usar mais a arma de fogo configura apologia ao crime, não conseguindo provar (a) nem que o deputado em causa estaria a falar de usos ilegítimos da mesma (b) nem que o caso em questão configuraria uma dessas situações, estando dependente do resultado do inquérito referido no ponto 1.
  14. No ponto 27 repete essa acusação sem qualquer prova da mesma, alegando que o deputado estaria a falar de usos indevidos da arma de fogo, não estando isso patente em nenhum ponto das declarações do mesmo nem sendo possível prová-lo.
  15. No ponto 29, afirma falsamente que um deputado não pode (ou qualquer outra pessoa, já agora) incentivar agentes policiais a disparar a matar, quando existem situações em que a lei prevê essa legitimidade.
  16. No ponto 34, dirigindo-se já a um assessor parlamentar do mesmo partido, assinala, de forma absurda que alguém por ser funcionário público teria uma repercussão colectiva das suas palavras muito maior, algo de que decerto muitos professores, enfermeiros e varredores de rua discordarão, por nunca terem tido a oportunidade de verem quaisquer palavras suas amplificadas pelo mero estatuto de funcionário público.
  17. No ponto 36, levanta a hipótese do mesmo crime supracitado de ofensa a pessoa falecida, estando este dependente, como já assinalámos, de jurisprudência cautelosa, o que é legítimo, tendo porém referido mais uma vez a hipótese muito remota de incentivo à desobediência, no caso destas declarações ainda mais inaplicável.
  18. No ponto 37, imputa ao referido assessor — e, por associação, a todos os outros referidos — a aparência da defesa de execuções sumárias, quando não é possível (a) provar que os mesmos estivessem a referir-se a usos indevidos da arma de fogo e (b) que no momento em que as declarações foram feitas existisse informação que descredibilizasse a tese inicial de que a vítima estaria munida de uma faca e se teria dirigido aos agentes desse modo.

Todo o argumentário parece assentar em teses muito perigosas: a de que não é possível, nem a deputados nem a cidadãos de qualquer espécie, elogiar o acerto de acções policiais letais quando a informação que consta é de poderem ter sido legítimas, configurando isso apologia ao crime; e a de que o elogio de acções violentas mas legítimas da parte de autoridade policial é invariavelmente um incentivo à desobediência.

Nada disto aparenta ser minimamente credível e configuraria, caso as pretensões fossem validadas, uma situação social em que qualquer pessoa estaria interdita de emitir opiniões que validassem a acção policial antes de conhecidos quaisquer resultados de inquéritos — mas, curiosamente, essa interdição ao comentário não se estenderia a quem quisesse desmerecê-las e criticá-las, opiniões que, segundo a mesma ordem abstrusa de ideias, poderiam configurar leituras criminais exóticas da mesma espécie, nomeadamente na medida em que criticar acções policiais legítimas poderia também absurdamente configurar incentivo à desobediência para com os superiores hierárquicos, incentivo ao crime dos infractores com quem a polícia se cruzasse, etc. Ou seja, quando a polícia tivesse de usar a força, quem a quisesse elogiar estaria interdito de fazê-lo; quem a quisesse criticar, estaria à vontade. Este é um dos corolários disformes do argumentário barato do texto.

A qualquer pessoa cujo olfacto já esteja treinado para detectar este tipo de logros lhe pareceria, logo de início, que esta petição se trataria de um enredo muito débil, escrito no calor do momento sem suficientes elementos para o fundamentar, e que serviria, como tantas destas iniciativas civis infelizmente servem, mais para aproveitamento e auto-promoção de alguns dos seus proponentes — sendo aliás cerca de metade dos quais pessoas públicas do tipo “tudólogo”, gente sem suficiente credibilidade extra-mediática e que gosta de “aparecer” — e menos para benefício das causas que defendem. Também qualquer pessoa com o olfacto treinado nesse sentido e com conhecimento da vida pública portuguesa já teria a suspeita de quem foi ou quem foram os autores desta prosa estruturalmente fraca, cheia de pequenos buracos argumentativos, de falácias gritantes e de contradições sorridentes. Deixemos essa ou essas identidades para mais tarde.

Além disso, a qualquer pessoa que não se queira basear simplesmente no olfacto treinado, qualquer pessoa com honestidade, inteligência e, principalmente, tempo para ler o texto em causa, e que de facto o faça, facilmente lhe parecerá que o mesmo se trata de uma brincadeira com coisas sérias, um aproveitamento populista, incendiário e escrito com um argumentário de vão-de-escada que qualquer jurista tribalmente descomprometido reconheceria como pífio.

A análise aqui descrita fundamenta-se em duas preocupações mais próximas.

Primeiro, muitos de nós têm o desgosto de ver amigos que consideram inteligentes, embora não necessariamente informados, a caírem nestes logros e a darem a sua assinatura a um documento debilíssimo como este, sem o terem sequer lido além do título. Isso é dramático no ponto em que a aldrabice que pauta o argumentário de grande parte deste tipo de iniciativas de justiça social não convencem somente os iliteratos mais incautos mas chegar mesmo a conseguir enganar as classes intelectuais, que têm obrigação de pensar minimamente na lógica interna e externa de tais iniciativas e movimentos.

Segundo, o arco político dos peticionários é mais virado à esquerda e não existe nada de errado por si só com isso; mas se não surpreende ver pessoas de partidos e movimentos de extrema-esquerda aderirem a iniciativas populistas, surpreende e preocupa a infiltração de certas personagens de características potencialmente burlonas nos aparelhos de partidos de centro-esquerda, partidos esses que há vinte anos tinham ainda quadros capazes de detectar e descartar argumentários débeis como este, quer através do olfacto quer através da análise e da experiência. É muito importante que esses partidos saibam evitar isto, não através necessariamente da exclusão de ideias políticas pertencentes ao grande grupo das esquerdas, mas sim através da rejeição sóbria e lúcida de argumentários falaciosos que estão ao nível do populismo que dizem combater.

Exemplos Práticos de Paleografia

A Paleografia é a coluna vertebral de uma pesquisa profunda Histórica. Compreender a História do Reino implica aprofundar a análise documental das fontes primárias. Por isso, vou transcrever, com referências, este documento que encontrei para ajudar à prática da decifração.

[1ª linha]

“Dom Afom etc. Saude Sabede que G° Anes m°r em Gouvea de Riba Tamega Nos enviou dizer que a elle culparom na”.

O 1.° nome é frequentemente abreviado.

G° = Gonçalo

O nome costuma ser acompanhado do local onde reside, por isso, o m°r é abreviatura de morador.

[2ª linha]

“morte de huum G° Prz home de pee [pé] de Joham Rroiz Pª que fora morto em canavesses podera ora aver quatro anos”.

O traço acima da palavra pode substituir letras, como pode funcionar como ~ (caso de huum e homem). Rroiz é abr. de Rodrigues; Pª de Pereira.

[3ª linha]

“per rezom da quall morte se elle amorara [fugido] com temor das nossas Justiças E fora por ello presso em o dito”.

O “R” maiúsculo, usado também a meio das palavras como duplo r, pode escrever-se como V com um traço no meio. “P°” com traço sobreposto é “por”.

[4ª linha]

“logo de Gouvea E fogira da cadea [cadeia] sem fazer mall nem nojo a nenhūa pessoa E amdamdo asi amorado como”.

Logo é “terra”. Note-se que um q com traço isolado por cima, ou em arco desde o tronco, ou em arco somente acima, pode designar “qui”, “que” ou “qua”.

[5ª linha]

“dito he [é] as partes a que acussaçom da dicta morte pertençia [p com traço no tronco é “per” + tençia] lhe perdoarom [novamente, p com traço no tronco] segundo ver poderiamos per hum st°”.

St° = stromento, um documento notarial [estromento].

[6ª linha]

“Pco [abr. de Púbrico] de perdom que dello ouvera que per ante nos foy aprresentado que pareça ser [abr.] feyto E assynado per D° Soaz tam [abr. de Tabeliam] em o Julgado”.

A abreviatura de “Ser” assemelha-se ao “B” contemporâneo.

D° = Diogo

Soaz = Soares

[7ª linha]

“dAguiar de Soussa termo [“temo” com traço acima do “e”] da cidade do Porto [abr.] aos X do mes de Março deste prresente ano de IIIICXXVI per o quall se”.

O “Porto” está escrito “Pto”, com abreviatura de “or” acima do “P”.

O ano está sem o M. “Quatro centos – IIIIC”.

[8ª linha]

“mostrava que Mª Gllz fª do dito morto/ J°m da peneirada E Cª Ans parentes do dito morto aqua[n]do carto graao”.

Mª = Maria

Gllz = Gonçalves

fª = filha

J°m = outra abreviatura de Joham

Cª = Catarina

Ans [com traço sobreposto] = Anes

Carto = Quarto.

[11ª linha]

“conthudo // Pedianos por merçee o dcto sopcante que pois as as partes lhe perdoarom que em galardom do serviço [“ser” abr. + viço] que nos”.

O “as” repete-se, são normais enganos deste calibre. “conthudo” é “conteúdo”.

[12ª linha]

“elle fezera em nossos Reynos de Castella sem embargo do tpo de seis messes sam passados lhe perdoasemos”.

Percebe-se duas coisas: a) que o documento data da guerra contra os usurpadores de Castela; b) que este homem serviu o Rei na hoste. “Tpo” é abr. de “tempo”.

[13ª linha]

“a nossa Justiça a que nos elle per rrezom da dcta morte era thudo// E nos veendo o que noS elle asy dizer E pedir”.

“Thudo” é “teúdo”, diga-se, era concernente. “P” com abr. de “er”. “Q” com arco é “que” [e um “q” isolado não podia ser outra coisa].

[14ª linha]

“emviou E visto o perdom das partes se otªs hy non ha que requiridas [traço sobreposto de “ui” acima do q] devessem ser [abr.] E visto o perdom Jerall per nos outorgado”.

Jerall = Geral

Otªs = outras

[15ª linha]

“aos omiziado que nos aos dctos Reinos forom servir E querendo lhe fazer gça E merçee T/enho per [abr.] bem E per”.

“Omiziado” é mais um erro, deveria ser “omiziados”, diga-se, criminosos sob pena deliberada.

Gça = graça [abr. de “ra” acima do g].

[16ª linha]

“amoslhe a nossa Justiça a que nos elle per rrezom da dcta morte E fogida era thudo E obrigado E perdoamoslhe”.

Palavra dividida por duas linhas [per – doamoslhe].

[17ª linha]

“sem embargo do espaço de seis messes serem Ja passados E porem mandamos etc. [o rabisco]/ dada no Porto a XXX”.

Começa o protocolo diplomático final.

Porto = local onde o Rei mandou fazer e outorgar o documento.

XXX = o dia

[18ª linha]

“de Julho/ ElRey o mandou per o doutor Joham Teixª etc. Ferna Gonçalvez a fez ano de IIIILXXV [475 – 1475]”.

Teixª = Teixeira

Doutor João Teixeira é o nome do redator notarial.

Fernão [Ferna com traço sobreposto – ~] Gonçalves é o nome do escrivão que escreveu.

Da Natureza da Monarquia: Excertos de Joseph de Maistre

“Pode ser dito, no geral, que todos os homens nascem para a Monarquia. Este Governo é o mais velho e mais universal. Antes do tempo de Teseu, não havia questão de Repúblicas no mundo; a Democracia, especialmente, era tão rara e fugaz que parece permissível ignorá-la. O Governo .Monárquico é tão natural que os homens identificam-no com a soberania sem sequer perceberem; eles parecem tacitamente concordar que não há soberania verdadeira onde não há Rei. Esta observação é especialmente impressionante (…). Opositores da origem divina sempre circundam contra os Reis e falam apenas de Reis [e não, por exemplo, de Presidentes]. Eles não querem acreditar que a autoridade dos Reis vem de Deus; mas não é uma questão de realeza em particular: é uma questão de soberania em geral. Sim, toda a soberania vem de Deus; seja em que .forma existir, não é um mero trabalho de homens. É uno, absoluto e inviolável pela sua natureza. Por que razão é, então, uma questão de realeza, como se os inconvenientes confiados a opor este sistema não fossem os mesmos em todos os tipos de Governo? Isto é porque, dizendo novamente, a Monarquia é o Governo natural, e é confundido com a soberania em um discurso usual, descartando outros Governos, como a exceção é negligenciada por constatar a regra geral. Devo observar nesta matéria que a divisão vulgar de Governos em três espécies, monárquico, aristocrático e democrático, repousa inteiramente num preconceito Grego que apreendeu as escolas da Renascença, e que ainda não descobrimos como o desfazer. Os Gregos viam sempre o mundo inteiro na Grécia; e como estes três tipos de Governo balanceavam os outros o suficiente no país, o estadista desta Nação imaginou a divisão geral que afirmara acima. Mas se queremos ser exatos, a lógica rigorosa não nos permite estabelecer um género numa exceção: e, para dizer com precisão, devemos referir: ‘Os homens no geral são governados por Reis. No .entanto, nós vemos Nações onde a soberania pertence a muitos, e estes Governos podem autointitular-se de aristocratas ou democratas de acordo com O NÚMERO de pessoas que formam O soberano’. Os homens devem ser sempre relembrados da história, que é o primeiro mestre na política, ou melhor, o único. Quando nós dizemos que os homens nascem para a liberdade, nós proferimos uma frase desprovida de sentido. Se um ser de uma alta ordem assumisse a ‘história natural do homem’, certamente está na história dos factos que ele procuraria por instrução Quando ele descobre o que o homem é, e o que ele sempre tem sido, o que ele faz e o que ele tem feito, ele escreveria; e sem dúvida ele rejeitaria a ideia louca que os homens não são o que deveriam ser e que este Estado é contrário às leis da Criação. A História é a Política experimental, diga-se, a única boa política; e assim como na física uma centena de volumes de teorias especulativas desaparecem antes de um só experimento, também na ciência política nenhum sistema pode ser admitido se não é mais ou menos corolário de factos verificáveis. Se alguém pergunta qual é o Governo mais natural aos homens é, e a história assim responde: é a Monarquia. Este Governo tem as suas desvantagens, sem dúvida, como todos os outros; mas todas as declarações que enchem os livros modernos destes tipos de abusos são lamentáveis. É o orgulho que as gera, não a razão. (…) Os tópicos das Monarquias não estão reduzidos a salvarem-se do desespero por meditações filosóficas; eles têm coisas melhores para fazer, que é inundar-se com a excelência deste Governo, e aprender a não invejar nada dos outros .Rousseau, que durante a sua vida não conseguiu perdoar Deus por não lhe haver feito duque ou nobre, mostrou muita angústia contra um Governo que é baseado em distinções. Ele reclama principalmente da sucessão hereditária, que expõe povos ‘a arriscarem-se a ter filhos, .monstros, e imbecis como Governantes para evitar disputas em vez da escolha de bons Reis’. Não temos necessidade de responder à objeção deste camareiro, mas é útil observar o quão apaixonado estava este homem com as suas próprias ideias da ação humana. ‘Quando um Rei morre’, diz ele, ‘outro é necessário; as eleições deixam intervalos perigosos; elas são tempestuosas, a intriga e a corrupção são introduzidos. É difícil para aquele a quem o Estado não foi vendido, não o vender em seguida, etc… O que tem sido feito para prevenir estes males? As .Coroas têm sido feitas hereditárias em algumas famílias, etc’. Não seria dito que todas as Monarquias foram primeiramente eletivas, e que as Nações, considerando a desvantagem infinita deste Governo, decidiu posteriormente, ‘na sua sabedoria’, na Monarquia hereditária? Nós .sabemos como esta suposição deleita-se na história; mas este não é o ponto. O que é importante repetir é que nenhum povo jamais ‘se deu’ um Governo; que todas as ideias de convenção e deliberação, e que todas as soberanias são criações, são quiméricas. (…) Passemos a examinar as principais características do Governo Monárquico. Mirabeau dissera algures no seu livro da Monarquia Prussiana: ‘Um Rei é um ídolo que é ali colocada’. Pondo de lado a repreensível forma do seu pensamento, ele está certo. Sim, sem dúvida, o Rei está ali, no centro de todos os poderes, como o Sol está ali no centro dos planetas: ele governa e inspira. A Monarquia é uma aristocracia centralizada. Em todos os lugares e feitios, a aristocracia comanda. Qualquer forma que seja dada aos Governos, a riqueza e o nascimento são sempre colocados em primeiro plano, e em lado algum eles governam mais rigidamente do que quando o seu Império não é fundado na lei. Mas numa Monarquia, o Rei é o centro da aristocracia; é, de facto, a aristocracia que comanda, como em todos os sítios; mas comanda em nome do Rei, ou se .preferirem, o Rei é iluminado pela luz da aristocracia. (…) Podemos assegurar-nos que o Governo de Um é onde os vícios do Soberano têm menos influência no povo governado. (…) A vontade do Rei está longe de ser permitida a fazer tudo na Monarquia. É suposto fazer tudo, e essa é a maior vantagem deste Governo, mas de facto serve, acima de tudo, para centralizar o conselho e a iluminação. Religião, leis, costumes, opinião, e os privilégios corporativos restringem o soberano e previnem-no a abusar do poder; é muito notável pensar que os Reis são muito mais acusados de carecer vontade do que de abusá-la. É sempre a assembleia do príncipe que governa. A aristocracia piramidal que administra o Estado em Monarquias tem características particulares dignas da nossa atenção. Em todos os países e em todos os possíveis .Governos, os altos oficiais sempre pertencerão (com exceções) à aristocracia, diga-se, à ‘realeza’ e à riqueza, frequentemente unida. Aristóteles, dizendo que ‘assim deve ser’, enuncia um axioma política que o simples senso comum e a experiência das Idades impedem-nos de .duvidar. Este privilégio da aristocracia é mesmo uma lei natural [Cicero, de Legibus, III, 17] (…)”

“Ora, uma das grandes vantagens dos Governos Monárquicos é que com elas a aristocracia perde, tanto quanto a natureza das coisas o permite, tudo o que pode ser ofensivo para as classes inferiores. É importante entender as razões para isto. 1) Este tipo de aristocracia é legal;. é uma parte integral do Governo, todos assim sabem, e não desperta na cabeça de ninguém a ideia de usurpação e injustiça. Nas Repúblicas, pelo contrário, a distinção entre pessoas existe como nas Monarquias, mas de maneira mais brusca e mais caluniosa, porque não é o trabalho .da lei, e porque a opinião pública considera tal como uma habitual insurreição contra o princípio da igualdade admitida pela Constituição. (…) 2) Visto que a influência da aristocracia hereditária é inevitável (a experiência das Idades não deixa dúvidas), o melhor que pode .ser imaginado para privar esta influência, podendo ser demasiado aborrecida ao orgulho das classes mais baixas, é que não deve ser estabelecida uma barreira intransponível entre Famílias no Estado, e que nenhuma delas deve ser humilhada por uma distinção que jamais poderá. .usufruir. Ora, este é precisamente o caso com uma Monarquia gerida sob boas leis. Não há família cujo mérito não possa capacitá-la a passar do segundo escalão para o primeiro, independentemente desta lisonjeira agregação, onde, onde, antes de ter adquirido a tempo a. influência que de fato lhe é devida, todos ou pelo menos uma série de cargos no Estado são acessíveis pelo mérito, que toma o lugar e estreita as distinções hereditárias. O movimento da ascensão geral que puxa todas as famílias perante o Soberano e que constantemente preenche .os vazios deixados por aqueles que partiram; este movimento, digo, promove uma emulação salutar, atiça a chama da honra e toma todos as ambições dos indivíduos defronte ao Bem do Estado. 3) E esta ordem de coisas parecerá ainda mais perfeita se nós considerarmos que a. .aristocracia de ofício e nascimento, já tornados muito gentis pelo direito que pertence a qualquer Família e a qualquer indivíduo de usufruir, por sua vez, as mesmas distinções, permanece perdendo tudo aquilo que é demasiado ofensivo às classes baixas, pela supremacia. universal do Monarca, antes de quem nenhum cidadão é mais potente que outrem; o Homem do povo, que se encontra insignificante comparado a um grande lorde, compara-se ao Soberano, e este título de súbdito submete ambos ao mesmo poder e à mesma justiça, um tipo de igualdade que .embota a inevitável dor do respeito a si mesmo. Nestas duas últimas efemérides, o Governo aristocrático cede a Monarquia. Na última, uma única Família é separada de todas as outras por opinião, e é considerada, ou talvez considerada, como pertencentes a outra natureza. A. .grandeza desta Família não repudia ninguém porque ninguém se compara a ela. No primeiro caso, pelo contrário, a Soberania residindo na cabeça de vários homens, cuja chance de se fazer um membro da Soberania é suficiente para causar inveja, mas não de reprimí-la. No Governo. .de muitos, a Soberania não é uma UNIDADE, e embora as partes que a compõem teoricamente representam a UNIDADE, elas estão longe de criar a mesma impressão na mente. A imaginação humana não entende este ‘todo’, que é apenas um ser metafísico; pelo contrário, toma o prazer de. .detalhar cada unidade deste todo geral, e o súbdito respeita tanto menos uma soberania cujos elementos tomados separadamente não estão suficientemente acima dele. Por isso, a Soberania nestes tipos de Governo não têm a mesma intensidade, nem, consequentemente, a mesma força. .moral. Por isso também os ofícios, diga-se, o poder delegado pelo Soberano, obtêm no Governo de Um uma consideração extraordinária particular à Monarquia. No Governo de muitos, os ofícios ocupados pelos membros do Soberano gozam da consideração apegada a esta qualidade. É o. .homem que honra o ofício, mas entre os subordinados destes Governos, os ofícios elevam os seus ocupantes muito pouco acima dos seus companheiros, e não o levam mais próximo aos membros do Governo. Na Monarquia, os ofícios, que refletem uma luz mais brilhosa nas pessoas,. deslumbram mais: eles fornecem uma intensa carreira de todo o tipo de talentos e preenche o vazio que de outra forma manter-se-ia, entre a Nobreza e o Povo. No geral, o exercício do poder delegado emerge sempre o servente civil fora da classe onde fora fixado pelo nascimento, .mas o exercício do alto oficialato em particular emerge o novo homem à primeira classificação [rank] e prepara o mesmo para a Nobreza. Se o indivíduo colocado pelo capricho do nascimento na segunda classificação não quer contentar-se com a possibilidade de passar à primeira, .e com os meios suplementares fornecidos pelos ofícios, pela sua fazedura dependente no tempo, tão longe quanto a natureza o permita, está claro que este homem é doente, e, consequentemente, não temos nada a dizer ao mesmo. Em suma, pode ser dito sem exageros que a Monarquia. .envolve tanto e talvez até mais ‘liberdade’ e ‘equidade’ que qualquer outro Governo, o que não significa que a Poliarquia não contenha um MAIOR número de homens mais livres do que é geralmente no caso das Monarquias, mas essa Monarquia faz ou pode dar mais liberdade e. .equidade a um MELHOR número de homens, que deve ser bem notado. Em relação ao vigor deste Governo, ninguém reconhece melhor que Rousseau. ‘Todos respondem’, diz ele, ‘ao mesmo motivo, todas as engrenagens estão nas mesmas mãos, tudo marcha para o mesmo objetivo; não há. .movimentos opostos que se destroem, e ninguém pode imaginar alguma Constituição em que menos esforço produza uma maior ação. (..)’ O Governo Monárquico é precisamente aquele que melhor funciona sem a aptidão do Soberano, e isto é talvez a primeira das suas vantagens. (..) Os .homens não a criaram, porque eles não criam nada; é o trabalho do Grande Geómetra que não necessita o nosso consentimento para averiguar os seus planos, e o maior mérito da máquina é que um homem medíocre pode colocá-la em ação. Esta palavra ‘Rei’ é um talismã, um poder. .mágico que dá toda a força e aprimora a direção central. Se o Soberano tem grandes talentos, e se a sua ação individual pode contribuir imediatamente ao movimento geral, sem dúvida, isso é bom, mas em vez da sua ‘pessoa’, o seu ‘nome’ é suficiente. Enquanto a aristocracia é. .sã, enquanto o nome do Rei é sagrada à mesma, e enquanto ela ama a Realeza com paixão, o Estado é inabalável, quaisquer que sejas as qualidades do Rei. Mas assim que perder a sua grandeza, o seu orgulho, a sua fé, o espírito é afastado, a Monarquia é morta e o seu cadáver é. .deixado às larvas (…)”

in ‘Estudo da Soberania’, de Joseph de Maistre

História da Patek Philippe: Um Legado de Tradição e Inovação na Relojoaria

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. A história da Patek Philippe, desde a sua fundação em 1839, é marcada por uma contínua busca pela perfeição, precisão e inovação no campo da relojoaria. Reconhecida mundialmente como uma das mais prestigiadas fabricantes de relógios de luxo, a marca suíça soube combinar, ao longo dos séculos, a tradição artesanal com avanços técnicos, preservando a excelência e o prestígio que sempre a caracterizaram.

As Origens da Patek Philippe (1839-1877)

© Patek Philippe
© Patek Philippe

O início da Patek Philippe remonta ao encontro entre Antoine Norbert de Patek, um nobre polaco refugiado na Suíça, e François Czapek, um relojoeiro de origem checa. Em 1839, ambos decidiram fundar a Patek, Czapek & Cie, em Genebra, com o propósito de criar relógios de alta qualidade, destinados a uma clientela exigente. A colaboração entre Patek e Czapek viria a terminar em 1844, mas nesse mesmo ano Patek conheceu Jean-Adrien Philippe, um relojoeiro francês que revolucionara a indústria relojoeira com a invenção do sistema de corda sem chave.

© Patek Philippe
© Patek Philippe

Em 1845, a empresa adotou o nome Patek & Cie e, em 1851, após a entrada formal de Philippe como sócio, passou a chamar-se Patek, Philippe & Cie. Esse período marca o início de uma nova era para a relojoaria mundial. O sistema de corda e ajuste de horas sem chave, patenteado por Philippe, permitia ao utilizador ajustar o relógio sem o uso de uma chave separada, uma inovação que veio a definir os padrões da alta relojoaria.

Durante a Grande Exposição de Londres de 1851, a Rainha Vitória da Inglaterra ficou encantada com os relógios Patek Philippe e adquiriu um exemplar. Esse evento, além de solidificar a reputação da marca entre a nobreza europeia, garantiu à Patek Philippe um lugar entre as mais exclusivas casas relojoeiras da época. Rapidamente, a empresa começou a atender uma clientela aristocrática e real, que apreciava não só a precisão dos seus mecanismos, mas também a beleza estética das suas criações.

Expansão e Avanços Técnicos (1878-1931)

© Patek Philippe - Primeiro relógio de pulso
© Patek Philippe – Primeiro relógio de pulso

Nos anos seguintes, a Patek Philippe continuou a sua trajetória de inovação e expansão. Em 1868, a marca alcançou um novo marco ao criar o primeiro relógio de pulso suíço, destinado à Condessa Koscowicz da Hungria. Esta criação foi uma resposta à crescente procura por peças de relojoaria portáteis, que começaram a ganhar popularidade entre as mulheres da alta sociedade. O fabrico de relógios de pulso demonstrou a capacidade da empresa em antecipar as tendências e adaptar-se às mudanças nas preferências dos consumidores.

© Patek Philippe. Patente de um cronómetro
© Patek Philippe. Patente de um regulador de precisão

Entre 1878 e 1931, a Patek Philippe consolidou-se como líder no fabrico de relógios de alta complicação. Em 1881, a empresa registou uma patente para um regulador de precisão, e em 1889, obteve outra patente, desta vez para o mecanismo de calendário perpétuo para relógios de bolso.

 Patente para mecanismo de calendário perpétuo para relógios de bolso
Patente para mecanismo de calendário perpétuo para relógios de bolso
@Patek Philippe. Primeiro cronógrafo Cronógrafo de recuperação (rattrapante)
@Patek Philippe. Primeiro Cronógrafo Duplo

Em 1902, solicitou a patente para o primeiro cronógrafo duplo. A Patek Philippe não apenas elevou os padrões da engenharia relojoeira, como também desempenhou um papel fundamental na definição dos conceitos modernos de relojoaria fina — algo que hoje é frequentemente considerado garantido. Por isso, é sempre um desafio reconhecer devidamente o mérito dos pioneiros.

©Patek Philippe. A Patek Philippe cria o relógio de bolso com carrilhão Westminster “Duque de Regla”.
©Patek Philippe. A Patek Philippe cria o relógio de bolso com carrilhão Westminster “Duque de Regla”.

Durante este período, a marca também começou a explorar a criação de relógios de grande complexidade, como o “Duke of Regla”, um relógio de bolso com carrilhão Westminster, concluído em 1910.

A Patek Philippe produz o primeiro relógio de pulso feminino complicado com repetição de cinco minutos, No. 174 603.
©Patek Philippe. Relógio No. 174 603.

Em 1916 a Patek Philippe produz o primeiro relógio de pulso feminino complicado com repetição de cinco minutos, No. 174 603.

©Patek Philippe. Primeiro cronógrafo de recuperação (rattrapante)
©Patek Philippe. Primeiro cronógrafo de recuperação (rattrapante)

Em 1923 lançou o primeiro cronógrafo de recuperação (rattrapante), um cronógrafo que possui dois ponteiros de segundos centrais sobrepostos: o de cronógrafo e o de recuperação. Este último pode ser imobilizado, independentemente do primeiro, para leituras intermédias.

©Patek Philippe. Primeiro relógio de pulso com calendário perpétuo, No. 97 975.

Em 1925, a Patek Philippe fez história ao criar o seu primeiro relógio de pulso com calendário perpétuo, o No. 97 975. Este relógio inovador foi uma demonstração do extraordinário talento técnico da marca, capaz de desenvolver complicações altamente sofisticadas num formato de pulso. O calendário perpétuo, uma das funções mais complexas da relojoaria, ajusta automaticamente os dias do mês, tal como os anos bissextos, sem necessidade de correção manual.

©Patek Philippe. O “Packard”, No. 198 023.
©Patek Philippe. O “Packard”, No. 198 023.

Em 1927, James Ward Packard, um dos maiores colecionadores de relógios da sua época, recebeu o seu extraordinário relógio de bolso astronómico da Patek Philippe, conhecido como “Packard”, No. 198 023. Este relógio de bolso, encomendado especialmente por Packard, possuía complicações astronómicas impressionantes, como a exibição das fases da lua e outras funções celestes avançadas. Este modelo destacou-se não só pela sua complexidade técnica, mas também pela sua beleza estética, reflectindo o compromisso da Patek Philippe em combinar engenharia de precisão com design elegante. O “Packard” permanece até hoje uma peça icónica na história da relojoaria.

Uma Nova Era de Gestão e Continuidade (1932-1988)

©Patek Philippe.  Irmãos Jean e Charles Henri Stern
©Patek Philippe. Irmãos Jean e Charles Henri Stern

Nos anos 1930, os irmãos Jean e Charles Henri Stern fizeram um investimento significativo na Patek, Philippe & Cie, assegurando o futuro da prestigiada manufactura suíça de relojoaria. A família Stern, já envolvida na produção de mostradores de relógio de alta qualidade, reconheceu o potencial da marca e decidiu contribuir para o seu crescimento. Nesse mesmo ano, a Patek Philippe lançou o primeiro modelo da icónica coleção Calatrava, que viria a tornar-se um símbolo intemporal da marca.

©Patek Philippe. Primeiro Clatrava Ref. 96.
©Patek Philippe. Primeiro Clatrava Ref. 96.

Um dos feitos mais notáveis dessa era foi a criação do “Graves”, o relógio de bolso supercomplicado encomendado por Henry Graves Jr., em 1933. Este relógio, composto por 24 complicações, manteve o título de relógio mais complicado do mundo por mais de 50 anos.

©Patek Philippe. No. 198 385 de Henry Graves Jr.
©Patek Philippe. No. 198 385 de Henry Graves Jr.

Este período foi também marcado pela introdução, em 1941, da produção regular de relógios de pulso com calendário perpétuo, uma novidade no mercado relojoeiro.

@Patek Philippe. Calendário perpétuo de pulso Ref. 1526
@Patek Philippe. Calendário perpétuo de pulso Ref. 1526

Durante as décadas de 1940 e 1950, a Patek Philippe consolidou-se como uma das marcas mais premiadas pela precisão dos seus relógios, conquistando um número recorde de primeiros prémios nas competições do Observatório de Genebra. Em 1949, a empresa registou a patente do balanço Gyromax, que melhorou ainda mais a precisão dos seus movimentos.

©Patek Philippe. Balanço Gyromax
©Patek Philippe. Balanço Gyromax

O Investimento no Futuro (1950-1988)

Ao longo da segunda metade do século XX, a Patek Philippe continuou a ser pioneira no desenvolvimento de novos calibres e mecanismos.

©Papek Philippe. Mecanismo de corda automática calibre 12-600AT.

Em 1953, lançou o seu primeiro mecanismo de corda automática, o calibre 12-600AT, assinalando um avanço extremamente significativo no campo da relojoaria.

Este movimento inovador aproveitava a rotação de uma massa oscilante para enrolar a sua mola real, eliminando a necessidade de dar corda manualmente. Com um rotor em ouro de 18 quilates e acabamentos refinados, este calibre tornou-se uma referência de excelência na indústria, combinando precisão técnica com a tradição estética da marca

©Patek Philippe. Primeiro mecanismo de corda automática
©Patek Philippe. Primeiro mecanismo de corda automática

Em 1956, a Patek Philippe alcançou outro marco importante na história da relojoaria ao fabricar o primeiro relógio totalmente electrónico. Este avanço tecnológico representou uma revolução na medição do tempo, integrando componentes electrónicos para garantir uma precisão sem precedentes, eliminando a necessidade de partes mecânicas tradicionais.

©Patek Philippe. Henri Stern.
©Patek Philippe. Henri Stern.

Em 1958, Henri Stern, filho de Charles Henri Stern, tornou-se presidente da empresa, assegurando a continuidade da gestão familiar. Sob a sua liderança, a Patek Philippe continuou a desenvolver inovações técnicas, como os relógios com fuso horário e os mecanismos ultrafinos. Um dos lançamentos mais marcantes desse período foi a coleção Nautilus, em 1976, um modelo desportivo de luxo que viria a transformar-se num ícone da marca.

©Patek Philippe. Em 1959 foram registadas as primeiras patentes para relógios de hora mundial.

Em 1962, a Patek Philippe estabeleceu um recorde mundial de precisão para um relógio mecânico com o seu movimento de turbilhão no prestigiado Observatório de Genebra.

©Patek Philippe. Relógio de turbilhão.
©Patek Philippe. Relógio de turbilhão.

Em 1968, a Patek Philippe lançou o primeiro modelo Golden Ellipse, Ref. 3548, introduzindo uma forma distinta e elegante no mundo da relojoaria. Inspirado pela proporção áurea, o design do Golden Ellipse combinava a geometria de um círculo e um rectângulo, resultando numa estética única e harmoniosa que rapidamente se tornou icónica. O Ref. 3548 foi celebrado pela sua simplicidade refinada e sofisticação atemporal, destacando a capacidade da Patek Philippe de criar relógios que transcendem as tendências, mantendo-se relevantes e desejáveis ao longo das décadas.

©Patek Philippe. Golden Ellipse: Ref. 3548
©Patek Philippe. Golden Ellipse: Ref. 3548

Um Futuro Marcado pela Supremacia Mecânica (1989-2019)

©Patek Philippe. Nautilus Ref. 3700/1
©Patek Philippe. Nautilus Ref. 3700/1

Em 1976, a Patek Philippe revolucionou o mercado de relógios desportivos de luxo com o lançamento do Nautilus Ref. 3700/1, desenhado pelo actualmente reputado Gérald Genta. Com a sua distinta caixa em aço inoxidável, inspirada na escotilha de um navio, o Nautilus combinava elegância e robustez, características raramente vistas em relógios desportivos na altura. O Ref. 3700/1 tornou-se instantaneamente um ícone, redefinindo o conceito de relógios de luxo ao introduzir uma peça desportiva sofisticada que podia ser usada tanto em ambientes casuais como formais. Até hoje, o Nautilus mantém-se como um dos modelos mais procurados e celebrados da Patek Philippe.

©Patek Philippe. Movimento ultrafino 240.

Em 1977, a Patek Philippe apresentou o calibre automático ultrafino 240, uma verdadeira obra-prima da engenharia relojoeira, que foi patenteada pela sua inovação técnica. Este movimento revolucionário, com apenas 2,53 mm de espessura, incorporava um microrrotor descentrado em ouro de 22 quilates, permitindo manter a espessura mínima sem sacrificar a precisão ou a reserva de marcha. O calibre 240 tornou-se uma referência em relógios elegantes e sofisticados, permitindo à Patek Philippe criar modelos ultrafinos que combinam a mais alta precisão com um design requintado. Este calibre continua a ser usado em várias complicações da marca, sendo um símbolo da excelência técnica da Patek Philippe.

©Patek Philippe. Ultrafino Ref. 3940
©Patek Philippe. Ultrafino Ref. 3940

Em 1985 lançou a Ref. 3940, um relógio ultrafino com calendário perpétuo que rapidamente se tornou um dos modelos mais icónicos da marca. Este relógio, com apenas 9 mm de espessura, combinava uma complicação altamente sofisticada com um design elegante e discreto, permitindo que os utilizadores visualizassem a data, dia, mês, ano bissexto e fases da lua, sem necessidade de ajustes, até 2100. O Ref. 3940 foi celebrado pela sua inovação técnica e pela perfeição estética, consolidando-se como um dos modelos mais admirados entre colecionadores e entusiastas da alta relojoaria.

©Patek Philippe. Calibre 89.
©Patek Philippe. Calibre 89.

Em 1989, para celebrar os 150 anos da Patek Philippe, a marca lançou o extraordinário Calibre 89, um relógio que, com 33 complicações, estabeleceu um recorde como o relógio portátil mais complicado de todos os tempos. Este feito notável da relojoaria combinou algumas das funções mais avançadas e raras, incluindo calendário perpétuo, fases da lua, equação do tempo e até mesmo um mapa estelar. O Calibre 89 foi o culminar de cinco anos de pesquisa e desenvolvimento, reflectindo a dedicação da Patek Philippe à inovação e à excelência técnica. Esta peça única solidificou a posição da marca como líder incontestável no mundo da alta relojoaria.

©Patek Philippe. Philippe Stern.
©Patek Philippe. Philippe Stern.

Em 1993, Philippe Stern assumiu a presidência da Patek Philippe, dando continuidade ao legado da família Stern na liderança da empresa. Sob a sua direção, a marca consolidou ainda mais a sua reputação como uma das mais prestigiadas e inovadoras na relojoaria de luxo. Philippe Stern foi responsável por impulsionar a Patek Philippe para novos patamares, promovendo a criação de relógios altamente complicados e o fortalecimento da tradição artesanal. Durante o seu mandato, a marca também expandiu a sua presença global e lançou o Patek Philippe Museum, em Genebra, reforçando a ligação entre o passado e o futuro da relojoaria.

©Patek Philippe. Gondolo Ref. 5024.
©Patek Philippe. Gondolo Ref. 5024.

Em 1993, a Patek Philippe lançou a coleção Gondolo, inspirada no design Art Deco e na tradição histórica da marca com os “relógios de cronômetro Gondolo” do início do século XX. A coleção, com destaque para o elegante Ref. 5024, apresenta uma caixa retangular e linhas geométricas marcantes, refletindo o estilo clássico e intemporal da Art Deco. O Ref. 5024 destacou-se pelo seu equilíbrio entre sofisticação e simplicidade, sendo uma homenagem às formas tradicionais da relojoaria, ao mesmo tempo que mantém o compromisso com a inovação técnica. A coleção Gondolo continua a ser uma das favoritas entre os amantes de relógios que apreciam um design distinto e refinado. A Patek Philippe obteve a patente para o mecanismo do Calendário Anual em 1996, com a introdução da referência 5035J.

©Patek Philippe. Calendário Ref. 5035J.

Este mecanismo inovador permite que o relógio reconheça automaticamente os meses com 30 e 31 dias, necessitando de ajuste manual apenas uma vez por ano, em fevereiro. A Ref. 5035J foi o primeiro relógio de pulso do mundo a incorporar essa função, combinando praticidade e complexidade técnica em uma peça elegante. O Calendário Anual rapidamente se tornou um dos marcos da relojoaria moderna, consolidando a posição da Patek Philippe como líder em inovação na alta relojoaria.

©Patek Philippe. Sede em Plan-les-Ouates, Genebra.

Inaugurada em 1996, a sede da Patek Philippe em Plan-les-Ouates abriga diversas etapas da produção dos seus relógios, desde a concepção e desenvolvimento até à montagem final.

©Patek Philippe. Ref. 5065A de 1998

A Patek Philippe Ref. 5065A, lançada em 1998, é uma peça marcante da coleção Aquanaut. Este modelo, com uma caixa em aço inoxidável de 38 mm, combina a robustez e praticidade de um relógio desportivo com a sofisticação da alta relojoaria. A pulseira de borracha tropical, resistente e inovadora, aliada ao seu design contemporâneo com mostrador guilloché e marcadores luminosos, destacam a versatilidade do relógio. Com resistência à água até 120 metros e um movimento automático de alta precisão, a Ref. 5065A reflecte o equilíbrio entre funcionalidade e elegância que caracteriza as criações da Patek Philippe.

©Patek Philippe. Twenty~4: Ref.  4910/10A.
©Patek Philippe. Twenty~4: Ref. 4910/10A.

A Patek Philippe Ref. 4910/10A da coleção Twenty~4 foi lançada como uma homenagem à mulher moderna, combinando elegância e praticidade num design atemporal. Com uma caixa rectangular em aço inoxidável e uma pulseira integrada, o modelo apresenta um mostrador com diamantes incrustados, que confere sofisticação e brilho discreto. Movida por um mecanismo de quartzo, a Ref. 4910/10A é projectada para acompanhar a mulher em todas as ocasiões, do dia a dia ao evento formal, refletindo o compromisso da Patek Philippe em criar relógios que são simultaneamente refinados e funcionais.

©Patek Philippe. Star Caliber 2000

A Patek Philippe lançou o Star Caliber 2000 para celebrar a chegada do novo milénio, em 2000, como uma demonstração de excelência técnica e inovação. Este relógio de bolso extraordinário é composto por 21 complicações, incluindo um turbilhão, um repetidor de minutos e a indicação das fases da lua. Uma das suas características mais impressionantes é o som de Westminster, que reproduz o toque dos sinos do Big Ben. O Star Caliber 2000 é uma obra-prima da relojoaria que exemplifica o compromisso da Patek Philippe com a tradição e o progresso técnico, consolidando a sua reputação como um dos mais respeitados relojoeiros do mundo.

©Patek Philippe Sky Moon Turbilhão, Ref. 5002
©Patek Philippe Sky Moon Turbilhão, Ref. 5002

Em 2001 lançou o Sky Moon Turbilhão, Ref. 5002, o relógio de pulso mais complicado da sua coleção. Esta peça é uma obra-prima da relojoaria, com um design de duas faces, uma na frente e outra no verso. A face frontal apresenta um mostrador tradicional, enquanto a parte de trás revela complicações astronómicas.

Entre as suas principais características estão o turbilhão, o calendário perpétuo retrógrado, as fases da lua, o tempo sideral e um mapa celeste que mostra a posição das estrelas. O Sky Moon Turbilhão, Ref. 5002, tem 12 complicações.

©Patek Philippe.  Museu Patek Philippe em Genebra
©Patek Philippe. Museu Patek Philippe em Genebra

A abertura do Museu Patek Philippe em Genebra ocorreu em 2001, um momento marcante para os entusiastas e colecionadores de relojoaria de todo o mundo. Situado num edifício histórico no bairro de Plainpalais, o museu apresenta uma das mais notáveis coleções de relógios, com exemplares que remontam ao século XVI.

O acervo exibe criações da própria Patek Philippe, assim como relógios antigos de vários fabricantes e peças representativas da relojoaria europeia e suíça. Além de relógios, o museu conta com instrumentos de medição do tempo e artefactos relacionados com a história da relojoaria, oferecendo uma visão completa da evolução deste ofício.

©Patek Philippe. Turbilhão, Ref. 5101P
©Patek Philippe. Turbilhão, Ref. 5101P

A Patek Philippe apresentou o 10-Day Turbilhão, Ref. 5101P, em 2003. Este relógio de pulso destaca-se pelo movimento de corda manual com uma impressionante reserva de marcha de 10 dias, o que o torna um dos mais notáveis na sua categoria. O turbilhão, visível através do fundo em safira, demonstra a mestria da marca na combinação de inovação técnica com estética refinada. O Ref. 5101P apresenta um design elegante, com uma caixa rectangular em platina e detalhes clássicos que o caracterizam como uma peça de alta relojoaria.

©Patek Philippe.
©Patek Philippe. Calendário Anual Ref. 5250

Em 2005, a Patek Philippe lançou o Calendário Anual Ref. 5250, destacando-se como o primeiro relógio com uma roda de escape feita de um material revolucionário à base de silício. Este avanço tecnológico representou uma mudança significativa no uso de novos materiais na relojoaria, especificamente no sistema de escape de âncora suíço.

O silício, altamente resistente ao desgaste e imune aos campos magnéticos, melhorou a precisão e a durabilidade do movimento. O relógio com a Ref. 5250 manteve as características clássicas do Calendário Anual da Patek Philippe, mas esta inovação consolidou o papel da marca como pioneira na introdução de novas tecnologias na relojoaria mecânica.

©Patek Philippe. Patek Philippe na rue du Rhône.

A renovação dos salões da Patek Philippe na rue du Rhône, em Genebra, foi concluída em 2006, marcando um novo capítulo na presença da marca na cidade. Estes salões, localizados numa das zonas mais prestigiadas de Genebra, foram transformados para proporcionar um ambiente ainda mais sofisticado e acolhedor aos seus visitantes. O espaço oferece uma vitrine elegante para as criações da Patek Philippe, destacando o compromisso da marca com a excelência e a tradição relojoeira.

©Patek Philippe.
©Patek Philippe.

Em 2006, a Patek Philippe Advanced Research lançou a mola de balanço Spiromax, fabricada a partir de um material revolucionário à base de silício. Esta inovação representou um passo importante no avanço tecnológico da relojoaria, com o silício a proporcionar vantagens significativas, como a resistência ao desgaste e a imunidade aos campos magnéticos, melhorando a precisão e a durabilidade dos movimentos.

©Patek Philippe.
©Patek Philippe.

Dois anos depois, em 2008, a Patek Philippe Advanced Research apresentou o escape Pulsomax, também feito de silício. Esta nova inovação reforçou ainda mais o papel da marca como líder na incorporação de novas tecnologias na relojoaria, trazendo melhorias substanciais na eficiência dos movimentos mecânicos.

©Patek Philippe.
©Patek Philippe.

Em 2009, Thierry Stern assumiu a presidência da Patek Philippe, marcando a continuação da liderança familiar da empresa. Com Thierry Stern ao leme, a marca manteve o seu foco na inovação e na preservação da tradição relojoeira, assegurando o futuro da Patek Philippe como uma das principais fabricantes de relógios de luxo do mundo.

©Patek Philippe.
©Patek Philippe. Ladies First Chronograph com o movimento CH 29-535 PS

No mesmo ano, foi lançado o movimento CH 29-535 PS, integrado no Ladies First Chronograph, uma peça emblemática da coleção feminina da marca. Este movimento marcou um avanço significativo, demonstrando a capacidade da Patek Philippe de criar movimentos mecânicos sofisticados para relógios de senhora, combinando elegância com engenharia de precisão.

©Patek Philippe.
©Patek Philippe. Oscillomax.

Em 2011, a Patek Philippe lançou o conjunto Oscillomax, que reúne a mola de balanço Spiromax, o escape Pulsomax e o balanço GyromaxSi, todos com componentes em silício. Esta inovação mostrou a visão de longo prazo da marca em aplicar novas tecnologias para melhorar a precisão e a fiabilidade dos seus relógios.

©Patek Philippe.
©Patek Philippe. Ladies First Minute Repeater, Ref. 7000R

Ainda em 2011, foi introduzido o Ladies First Minute Repeater, Ref. 7000R, um relógio que reforça a dedicação da Patek Philippe em criar complicações para o público feminino. Este repetidor de minutos é uma das complicações mais prestigiosas da relojoaria, demonstrando a excelência técnica e a beleza estética que caracteriza a marca.

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©Patek Philippe. Watch Art Grand Exhibition Dubai

A Patek Philippe continuou a sua tradição de exposições internacionais com a “Watch Art Grand Exhibition” em 2012, realizada no Dubai. Este evento deu aos colecionadores e entusiastas a oportunidade de ver de perto uma vasta gama de peças icónicas da marca, celebrando a arte da relojoaria em grande estilo.

©Patek Philippe.
©Patek Philippe.
©Patek Philippe.

Em 2013, Munique foi a cidade anfitriã da segunda “Watch Art Grand Exhibition”, onde a Patek Philippe apresentou a sua rica herança e as suas criações mais recentes. Estes eventos são uma forma da marca aproximar-se dos seus clientes e partilhar a sua paixão pela relojoaria com um público global.

©Patek Philippe.
©Patek Philippe.

Em 2014, a Patek Philippe celebrou o seu 175º aniversário com uma coleção especial de relógios comemorativos, que homenagearam a longa história de inovação e de preservação do trabalho dos artesãos da marca. Estes modelos tornaram-se peças de colecionador.

©Patek Philippe.
©Patek Philippe. Calatrava Pilot Travel Time, Ref. 5524G

Em 2015, a marca lançou o Calatrava Pilot Travel Time, Ref. 5524G, um relógio que combinava a tradição clássica da Patek Philippe com um design mais ousado e moderno. Este modelo destacou-se por oferecer uma função de duplo fuso horário, muito útil para viajantes frequentes.

©Patek Philippe.
©Patek Philippe. Grandmaster Chime, Ref. 6300G.

Em 2016, a Patek Philippe introduziu o Grandmaster Chime, Ref. 6300G, na sua coleção atual. Este relógio, considerado uma obra-prima, possui múltiplas complicações, tal como um repetidor de minutos, turbilhão e várias outras funções, sendo um dos mais complexos da marca.

©Patek Philippe. World Time Chronograph, Ref. 5930G

No mesmo ano, foi lançado o World Time Chronograph, Ref. 5930G, um modelo que combina a complicação de cronógrafo com a função de hora mundial, permitindo ao utilizador acompanhar o tempo em várias zonas horárias de forma simultânea, destacando-se pela sua utilidade e design refinado.

©Patek Philippe. Aquanaut Travel Time Ref. 5650G

Em 2017, a Patek Philippe Advanced Research revelou o Aquanaut Travel Time Ref. 5650G, um modelo que introduziu inovações tecnológicas, como um sistema de ajuste de zona horária feito de silício.

©Patek Philippe.
©Patek Philippe. Watch Art Grand Exhibition, Nova Iorque.

A “Watch Art Grand Exhibition” de 2017 teve lugar em Nova Iorque, onde a Patek Philippe exibiu as suas peças mais prestigiadas e contou a história da marca através de uma série de exposições imersivas e eventos educativos.

©Patek Philippe. World Time Minute Repeater, Ref. 5531R,

Em 2018, a Patek Philippe lançou o World Time Minute Repeater, Ref. 5531R, que se destacou como o primeiro repetidor de minutos que também mostra a hora local em qualquer parte do mundo. Este relógio combina duas complicações prestigiadas.

©Patek Philippe.
©Patek Philippe. Twenty~4 Automatic, Ref. 7300

Ainda em 2018, a marca lançou o Twenty~4 Automatic, Ref. 7300, por forma a expandir a sua linha de relógios automáticos femininos. Este modelo foi desenhado para mulheres modernas, oferecendo tanto elegância como funcionalidade, uma combinação de design clássico com movimento automático.

©Patek Philippe.
©Patek Philippe. Alarm Travel Time, Ref. 5520P-001

Em 2019, a Patek Philippe apresentou o Alarm Travel Time, Ref. 5520P-001, que trouxe uma nova complicação ao universo dos relógios de viagem, ao integrar uma função de alarme com o tempo de viagem, tornando-o um dos modelos mais práticos e sofisticados para viajantes.

©Patek Philippe. Calatrava Weekly Calendar, Ref. 5212A-001

No mesmo ano, foi lançado o Calatrava Weekly Calendar, Ref. 5212A-001, um relógio que apresenta uma função de calendário semanal inédita, reforçando o compromisso da Patek Philippe com a inovação no design e funcionalidade dos seus relógios.

©Patek Philippe.
©Patek Philippe.

Por fim, em 2019, Singapura foi palco da “Watch Art Grand Exhibition”, um evento que celebrou a relojoaria e a arte da Patek Philippe, permitindo ao público asiático conhecer de perto as criações e a herança da marca através de exposições e mostras exclusivas.

Ontem, 18.10.2024, a Patek Philippe lançou a nova coleção Cubitus, a primeira linha totalmente nova em mais de 25 anos. Composta por três modelos distintos, a coleção reinterpreta o estilo desportivo-elegante, destacando-se pelo uso de caixas com lunetas quadradas de cantos arredondados, uma inovação no design que preserva o prestígio da marca.

A Patek Philippe é, sem dúvida, uma das marcas que mais contribuiu para elevar os padrões da relojoaria ao longo da sua história, permanecendo até hoje como um ícone tanto no domínio técnico como no estético. Desde a sua fundação, a marca destacou-se pela capacidade de inovar, ao combinar precisão mecânica e beleza no design, o que a torna única no mundo da relojoaria.

Um dos grandes segredos do seu sucesso reside na forte ligação com os seus artesãos. A marca reconhece o valor do trabalho manual e o impacto deste na criação de relógios excepcionais. Promove uma colaboração estreita com os mestres relojoeiros, preserva técnicas tradicionais e adota inovações tecnológicas. Este compromisso com a excelência artesanal é uma das razões pelas quais a Patek Philippe continua a ser uma referência no sector.

O seu museu, considerado um dos melhores do mundo no campo da relojoaria, reflete esta história e dedicação. Cada visita ao espaço oferece uma oportunidade única para qualquer entusiasta ou especialista aumentar o conhecimento sobre a evolução da relojoaria e admirar exemplares que representam o melhor da arte e ciência relojoeira. O legado da Patek Philippe vai muito além da produção de relógios, sendo essencial para a preservação e transmissão da herança relojoeira mundial.

Uma Nova Realidade do Trabalho

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A corporalidade do trabalho, ou do trabalhador, tem sido substituída pela imagem digital. Os empregados modernos sofrem um processo de despersonalização que forma “indivíduos indefinidamente mutáveis, desprovidos de qualquer rigidez intelectual ou emocional” e disponíveis para ocuparem o seu lugar num sistema de transacções generalizadas, no seio do qual se tornou possível atribuir-lhe, de maneira unívoca e sem qualquer ambiguidade, um valor de troca. Sendo assim, o neo-trabalhador limita-se a viver como um prisioneiro em cela, “sem contacto físico com os seus semelhantes, [..] [fazendo] trocas por computador e sem vivacidade” presente.Para isso muito contribuiu a pandemia do coronavírus, que parece ter acelerado estamutação. Já o conjunto das evoluções tecnológicas, desde as menores (o streaming de vídeo, o pagamento sem contacto) às maiores (o teletrabalho, as compras online, as redes sociais), teve como consequência (ou principal objectivo?) diminuir os contactos materiais e, sobretudo, os contactos humanos. A pandemia, na realidade, ofereceu uma boa razão de ser para a tendência de “uma certa obsolescência que parece afectar as relações humanas”.

De um ponto de vista legal, político e existencial, o neo-trabalhador parece estar abdicando do conceito lockiano de propriedade ao entregar legalmente o seu corpo e disponibilidade totais ao Estado ou à entidade empregadora, condição que evoca George Orwell e a sua proposta de um processo de nacionalização cujo princípio regulador assenta na entrega formal das grandes indústrias ao Estado, em representação do cidadão comum. “Uma vez concluído esse processo, torna-se possível eliminar a classe de meros proprietários que vivem não em virtude de algo que possam produzir, mas sim da posse de títulos de propriedade e de certificados de acções. A propriedade estatal implica assim que ninguém poderá viver sem trabalhar. […] A partir do momento em que todos os bens produtivos forem declarados propriedade do Estado, os cidadãos comuns irão sentir […] que o Estado são eles próprios”. Desta forma, “a ênfase será transferida do direito de propriedade para a administração de propriedade, do privilégio para a competência”. Ora, esta visão socialista e equitativa de Orwell não contempla a hipótese de um Estado dotado de funções venais para além da gestão de recursos públicos que lhe compete, ou seja, de um Estado habilitado a explorar, como qualquer empresa produtora, comercial e empresarial, o trabalho activo e privado dos cidadãos que é seu dever representar, passando o cidadão a ser objecto e produto dessa exploração. Não obstante, Orwellatribui ao futuro o desmantelamento do capitalismo laissez-faire e da cultura liberal-cristã, do mesmo modo que desmente a crença de o socialismo preservar, e até ampliar, a atmosfera do liberalismo. Esta falsa crença, diz Orwell, sugere o avanço civilizacional para uma era de ditaduras totalitárias — era em que “a liberdade de pensamento começará por se converter num pecado mortal, e posteriormente numa abstracção esvaziada de sentido”, onde “o indivíduo autónomo será esmagado e destruído”. Esta destruição, à luz da actualidade, recai na passividade sugerida pelos processos de trabalho modernos, em que o trabalhador se torna passivo ora no círculo estreito da vida doméstica, ora no círculo sindical ou de política local. A sua autonomia é aparente porque continua indefeso ante os elementos que o ultrapassam, entre os quais se contam a regência e a vigília constantes, mas sem a dominação e a mediação aparentes das chefias laborais e do Estado. O neo-trabalhador assume um papel apático no que respeita aos acontecimentos físicos da vida social, e qualquer tentativa de influenciar os eventos futuros é infrutífera, mercê da crescente “restrição radical dos espaços de acção comum. […] [Assim,] a solidariedade desaparece. A privatização impõe-se”.

Deste modo, a actual libertação do trabalho, ou o aumento dos tempos livresou de qualidade de vida, não é uma libertação do trabalho nem de um mundo moldado por este trabalho. O sistema económico que daí resulta é uma “produção circular do isolamento”, onde este funda a técnica e, por sua vez, esta isola aquele. Do mesmo modo, os produtos e bens elegidos por esse sistema são armas e ferramentas que reforçam constante e comummente as condições de isolamento das “multidões solitárias” de trabalhadores, o que reforça a ideia de uma sociedade medida pela “fabricação concreta da sua alienação [e em] que a expansão económica é principalmente a expansão desta produção precisa [e individualmente massificada]. Por esta via, “o imperativo de aceleração próprio das circulações globais de capital” e “a comunicação digital, enquanto nova forma de produção, eliminam a distância em proveito da aceleração.” Em consequência disso, o neo-trabalhador não pode ser descrito com “o auxílio da teoria marxista da alienação”, já que a relação que mantém com o produto do seu trabalho é de completa estranheza e não se reconhece quer no produto produzido, quer na convicção da sua actividade produtora. Assim sendo, oneo-trabalhador “empobrece tanto mais quanto mais riqueza produz” e desrealiza-se constantemente, pois, nesta época pós-marxista de cariz neoliberal e exploratório, eleproduz como forma de liberdade e liberta-se voluntariamente através da exploração de si mesmo, em nome próprio ou de outrem, acreditando estar assim a realizar-se. Por trás desta liberdade ilusória esconde-se uma dominação neoliberal que desvanece no momento em que coincide com a liberdade individual e se torna trágica aoimpossibilitar qualquer resistência ou revolução. O neo-trabalhador, para além da sua passividade, vive preso na alienação, que não é mais que uma auto-alienação destrutiva do próprio corpo como objecto funcional e passível de uma optimização necessária e “que se exprime patologicamente como transtorno da percepção neuro-psicológica do organismo” — ou seja, vive preso na alienação de si mesmo. Por sua vez, as novas classes trabalhadoras dão forma à classe única da multidão, pois todos os que a ela pertencem participam no sistema capitalista, sendo cada indivíduo, por se explorar a si próprio e imaginar-se em liberdade, um sujeito competitivo que é, ao mesmo tempo, sujeito e vítima.

Emil Cioran afirma que o excesso de trabalho, “maldição que o homem transformou em volúpia”, impede os homens de serem eles mesmos. Com efeito, otrabalho, quando contínuo e intenso, embrutece, banaliza e impessoaliza o indivíduo. A partir do instante em que o centro de interesse laboral do homem se desloca do seu meio subjectivo para uma “enfadonha objectividade”, o trabalho em si passa a designar “uma actividade puramente exterior”, logo, “o homem não se realiza — ele realiza”. No teletrabalho, p. ex., o frenesim laboral, antes gregário e colectivo, pode, quando associado a um estado de alienação e isolamento profundos e continuados,conduzir a estados de imbecilidade e de ruptura mental ou de transtorno psíquico;inclusive, pode atenuar ou suprimir o ócio como estado necessário ao bom funcionamento psicofísico do ser humano. O neo-trabalhador, limitado ao clicar do botão ou do teclado, incapacita-se de agir, visto que “tanto o manejar como o trabalhar pressupõem uma resistência, [logo], a acção tem de superar uma resistência; […] o seu pró é ao mesmo tempo um contra”. Por outras palavras, “o digital não põe em jogo qualquer resistência material que seja necessário superar por meio do trabalho”. O tempo do ócio, neste caso, é outro tempo, não começa quando o trabalho acaba, mas é todo ele tempo de trabalho, sendo a pausa uma fase do tempo de trabalho. Assim, a actual sociedade laboral, como integração disseminada na esfera privada, obedece cada vez mais ao rendimento, ao numérico, isolando os indivíduos como cativos em células (ou celas?) de auto-exploração. Já na proporção em que a máquina é melhorada e executa o trabalho do homem com uma rapidez e exactidão cada vez maiores, o operário, em vez de prolongar os tempos livres ou de descanso, redobra o seu ardor, como se quisesse rivalizar com a máquina, a qual, em virtude do progresso técnico, permite que o lazer, dentro de certos limites, deixe de ser uma regalia de minorias privilegiadas e se torne um direito a ser distribuído equitativamente pelas colectividades.

O neo-trabalhador é, portanto, um ser abstracto, imediato e automatizado enquanto mero “acessório da maquinaria” que ele manipula e regula, e a sua força produtiva reside na sua aptidão científica ou noética, ou seja, o que “está em causa não é a forma de actividade humana enquanto tal, […] o processo de metabolismo com a natureza, [mas sim] […] o “trabalho abstracto” da forma do valor ou da mercadoria, o “dispêndio de força de trabalho humana” como fim-em-si, nas condições materiais estabelecidas pela concorrência dos sujeitos no mercado”. O trabalho abstracto, que, para Robert Kurz, reincide no “dispêndio de trabalho como fim-em-si”, passa a ser “um processo tautológico fechado sobre si mesmo”, ou seja, o que esse trabalho “produz” é novamente “trabalho” ou “é o fetichismo do trabalho como fim-em-si tautológico”, o que relembra, convenhamos, a repetição absurda e mecânica do dia-a-dia de um prisioneiro em determinado sistema prisional. Se aooperário adirmos a redução espacial do seu campo de acção via digital, facilmente se entende que as paredes da sua clausura se estreitam gradual e imperceptivelmente. Com o advento do trabalho digital, o dispêndio de trabalho individual e a sua massa total deixam de ser importantes e dão lugar ao planeamento e à gestão do contexto funcional material de uma reprodução tornada imediatamente social. Quer isto dizer que importam menos as horas de trabalho individual que o sentido dos elementos postos em movimento respeitantes ao conteúdo material e aos processos materiais subsequentes; ou seja, cada um é parte de um agregado reprodutivo que abrange o todo social, e cujo processo de movimento material tem de ser gerido e controlado entre todos.

Numa época em que o trabalho se tornou supostamente fácil e redundante, nunca como agora a sociedade se organizou tanto em redor do trabalho e este confinou o pensamento e o comportamento humanos. Quem hoje não conseguir vender a sua força de trabalho torna-se irremediavelmente “supérfluo” e é tido como “lixo social”. Tanto mais que a não-adaptação incondicional e sem reservas ao “curso cego da concorrência total” é punida pela “lógica da rentabilidade”, enquanto a desgraça dos excluídos na corrida à “terra prometida da sociedade do trabalho” serve de exemplo dissuasor, além de que mantém em movimento febril a “multidão de perdedores” de modo a não se revoltarem contra as “exigências desavergonhadas do sistema”. Para isso, o fanatismo burocrático do trabalho não lhes permite viver em paz, pois “são arrastados por assistentes sociais e por funcionários dos serviços de emprego para a sala de interrogatórios do Estado e obrigados a ajoelhar-se publicamente” ante o trono estatal como um detido prestes a ser encarcerado. Os excluídos, como ex-presidiários em liberdade condicional, devem aceitar qualquer tipo de trabalho ou “programa de recuperação” por mais absurdo que seja, demonstrando disponibilidade total ao trabalho e à necessidade que o Estado impõe de estarem em constante movimento, “para que nunca esqueçam a lei a que a sua existência tem de obedecer”. O trabalho obrigatório imposto pelo Estado, “os subsídios ao salário e o chamado “trabalho cívico” reduzem cada vez mais os custos com a mão-de-obra [e] fomenta em grande escala todo o próspero sector que vive dos baixos salários e do trabalho de miséria.

Na esfera moderna do trabalho, tempo é dinheiro, e cada “crime contra a finalidade autonomizada da produção — uma ida à casa-de-banho, uma conversa — no local de trabalho mostra que, como numa prisão, “a vida fica lá fora ou porventura em parte nenhuma, porque a cadência do trabalho rege interiormente as coisas” em nome da sacrossanta eficiência. Na esfera do trabalho importa que o fazer seja feito e não aquilo que se faz, visto o trabalho, como vimos, ser fim em si mesmo, “na medida em que traz consigo a valorização do capital-dinheiro — a infinita multiplicação [autotélica] do dinheiro por intermédio do dinheiro. […] Nisto consiste o mecanismo da engrenagem social autonomizada em que se mantém aprisionada a humanidade moderna”. Nietzsche afirmou que o homem moderno, além de ter vergonha do ócio e culpa em meditar, vive constantemente com medo de “falhar” alguma coisa. O frenesim do trabalho torna a vida numa “caça ao lucro e obriga o espírito a esgotar-se sem repouso no jogo de dissimular, de iludir, ou de prevenir o adversário; a verdadeira virtude consiste em fazer uma coisa mais depressa do que um outro”. A própria palavra “trabalho”, na sua origem etimológica, designa uma actividade privada de autodeterminação, uma fatalidade social infeliz que resulta hoje numa forma de dependência social, numa “conexão abstracta interna do sistema”, algo absoluto e, por isso mesmo, incompreensível na sua totalidade, uma máquina social de valorização e de transformação do material humano em movimento contínuo e em prol autotélico do capital. O sistema actual da sociedade do trabalho, da sua administração burocrática e da integração estatal de seres humanos nas democracias industriais, deve o que é às suas origens absolutistas e coloniais, que progrediram ao longo da históriae se estabeleceram em todos os domínios vitais como um sistema socialmente aceitável de coerção e comprovável, p. ex., na administração económica do Fundo Monetário Internacional, que se impõe amiúde a países periféricos.

Chegados a este ponto, é legítimo dizer-se que a nova revolução industrial — instigada sobretudo pelo digital, pela inteligência artificial, pela microelectrónica e pela robótica — tornou dispensável o elemento e potencial humanos. Como sintoma disso: a perda por inteiro ou em larga escala de certos sectores e áreas profissionais, cujas estruturas não conseguem acompanhar os novos meios de produção e de modernização do mercado de trabalho e a passagem geral para a redução do tempo de trabalho. Em boa verdade, não há política mundial capaz de inverter esta tendência, já que a política, na sua essência, é referente ao Estado, logo, a desestatização e o pressuposto axiomático da democracia política como finalidade autotélica da sociedade do trabalho inviabilizam a regulação político-democrática à crise moderna do trabalho. Por outras palavras: “o fim do trabalho é o fim da política”.

Outro traço central da crise capitalista é a simulação da verdadeira situação da sociedade do trabalho, o que também vale para a economia. Através da excomunhão ideológica a regiões em colapso, de estatísticas manipuladas e falsificadas e formas de pauperização dissimuladas pelos media, a consciência social rege-se pela aparência de que o capital, fruto de um processo de simulação nos mercados financeiros, pode ser acumulado sem trabalho e que “a forma pura do dinheiro sem substância pode garantir o contínuo crescimento do valor. À imagem e semelhança da simulação do trabalho através das medidas coercivas da administração democrática do trabalho, formou-se uma simulação da valorização do capital através da desarticulação especulativa entre o sistema de crédito e os mercados bolsistas da economia real”.Este erro, diz Karl Polanyi, consistiu “em igualar a economia humana em geral com a sua forma de mercado”. A evidência desta falácia deve-se ao facto de à condição humana corresponder a fisicalidade das suas necessidades, ou seja, a sociedade só pode existir se possuir uma economia substantiva. A redução específica do âmbito económico aos fenómenos do mercado elimina grande, senão a maior, parte da história humana. Em contrapartida, “ampliar o conceito de mercado para fazê-lo abarcar todos os fenómenos económicos é atribuir a todas as questões económicas as características peculiares que acompanham um fenómeno específico”. De resto, o medo da fome no trabalhador e a atracção do lucro no empregador mantêm em funcionamento o vasto mecanismo de imposição desta prática utilitarista que desvirtuou fatalmente a compreensão que o homem ocidental tem de si mesmo e da sua sociedade. “Já não é o aumento especulativo das cotações a antecipar a expansão da economia real, mas, pelo contrário, é a criação fictícia de valor, sempre em alta, que simula uma acumulação real que simplesmente deixou de existir”.  

Em relação ao “tempo livre” — que, à letra, é um conceito prisional —, esteserve há muito para renovar o stock de mercadorias e de garantia à venda necessária das mesmas. O domínio do trabalho estende-se muito para lá do dever interiorizado de consumo mercantil como finalidade autotélica. O mero agir ou fazer transforma-se numa espécie de trabalho, numa quantificação e qualificação laboral da acção individual. O neo-trabalhador, ao equiparar todas as coisas pelo padrão do trabalho, não entende que com isso retira delas a sua singularidade e peculiaridade, tornando o fazer indiferente. Pelo contrário, ele só confere sentido, justificação e significado social a uma actividade através dessa equiparação à indiferença do mundo das mercadorias, onde tudo o que se faz com “seriedade” e com um determinado objectivo obedece ao trabalho renumerado segundo critérios de mercado, portanto, a riqueza verdadeira reside apenas naquilo que pode ser representado sob a égide da monetarização, isto é, da evolução das estruturas monetárias. Desta forma, todas as esferas da vida que não se regem pela produção de mercadorias submetem-se necessariamente a esta, pois, mesmo que necessárias, não participam da “lógica abstracta empresarial da economização do tempo”. Como tal, as instituições públicas abandonam os seus compromissos de ordem social e substituem-nos por apelos a uma mobilização de teor voluntário, altruísta, simpático e sem custos, apontada a “nós todos” e a cada um em particular no combate às privações sociais. Esta “manipulação acrobática do sacrossanto conceito do trabalho, apresentada enquanto programa emancipatório”, permite que o Estado tente suprimir o trabalho assalariado pela eliminação do vencimento, provando-se com isto que “a emancipação social só pode ter como conteúdo, não a revalorização do trabalho, mas a sua desvalorização crescente”. Sob esta medida, “o Estado não é senão a associação coerciva exterior ou a universalidade abstracta dos produtores de mercadorias socialmente atomizados; em consequência disso, a propriedade estatal mais não é do que uma forma derivada da propriedade privada”, independentemente de se lhe associar ou não o atributosocialista

De qualquer das formas, a “ditadura do trabalho” separa o sujeito económico do cidadão, o trabalhador do ocioso, opondo aos indivíduos isolados o seu próprio contexto social como um poder que lhes é estranho e dominante, quanto mais numa sociedade sujeita ao desenvolvimento das estruturas tecnológicas. Em compensação, avente-se a hipótese positiva de as actividades do trabalho passarem antes a obedecer ao ritmo particular, variável e integrado em contextos de vida e formas de organização do indivíduo, o qual passa a determinar o seu próprio ritmo “em vez de se submeter às determinações da ditadura da valorização do capital na lógica da economia empresarial”. Por mais positiva que esta hipótese possa parecer, a realidade é outra e torna praticamente impossível a rebelião do indivíduo contra a expropriação das suas potencialidades sociais sem entrar em confronto com o Estado, dado que este gereuma parte considerável da riqueza social e serve de garante “à subordinação coerciva de todas as potencialidades sociais ao princípio da valorização do capital”.

Mais ainda: a proliferação de trabalhos inúteis ou de merda parece justificar a atribuição de salários baixos à população activa e, se a isso juntarmos a crescente robotização do trabalho, a mudança radical dos modelos económicos e laborais e a exclusão de regimes de propriedade, aumentam, assim, a riqueza e o poder dos que compõem o 1% mais rico e poderoso do mundo. Daí resulta um retrocesso social por meio de um “tecno-feudalismo”, que, na sua essência e com as devidas distânciashistórica e temporal, se assemelha ao feudalismo medieval. Destarte, a eliminação progressiva do número de operários da esfera do trabalho conduz os interesses dos agentes produtivos e económicos para profissões mais liberais e relacionadas com a educação, a medicina, a política sanitária, etc., produzindo-se, com isso, uma especialização hegemónica das carreiras profissionais, a limitação da escolha profissional e o condicionamento dos princípios morais, valores e ideologias do trabalhador. 

Em conclusão, a política e o aparelho burocrático estatais, em vez de resolverem os dilemas supracitados, parecem procurar, sem medirem as repercussões dos seus objectivos, a conquista ideológica e partidária do aparelho de Estado como continuação da sociedade do trabalho e da sociedade em geral. Nas palavras adequadas de Robert Kurz:

“O marxismo do movimento operário não é superado “virado para a frente”, sob a forma de uma crítica mais consequente da economia política; pelo contrário, continua a vegetar na forma de redução o mais diminuta possível, como “componente social” e “referência sindical”; o positivismo, despido de qualquer fundamentação teórica, é integrado sob a forma de um “novo realismo” pragmatista, e de reconhecimento do “mercado”, ou de “motivação do lucro”, como imprescindível e incontornável; o pessimismo cultural, por fim, ganha entrada e aceitação sob a forma de “consciência ecológica”, de exaltação da natureza e de enunciados da filosofia da vida que inconscientemente se vão infiltrando no balbuceio dos políticos. Esta papa perfeitamente intragável, mais uma vez diluída e remexida, já se tornou o alimento “espiritual” de todo o espectro académico, ideológico e político de uma sociedade que, na iminência do seu colapso económico e ecológico, se encontra em agonia intelectual”.

Referências Bibliográficas:

Cioran, Emil. Nos Cumes do Desespero. Edições 70, Lisboa, 2020.

Debord, Guy. A Sociedade do Espectáculo. Antígona, Lisboa, 2012.

Grupo Krisis. Manifesto Contra o Trabalho. Antígona, Lisboa, 2003.

Han, Byung-Chul. A Expulsão do Outro: Sociedade, Percepção e Comunicação Hoje. Relógio d’Água, Lisboa, 2018.

Han, Byung-Chul. No Enxame: Reflexões sobre o Digital. Relógio d’Água, Lisboa, 2016.

Houellebecq, Michel. Intervenções. Alfaguara, Lisboa, 2021.

Kurz, Robert. A Honra Perdida do Trabalho: o Socialismo dos Produtores como Impossibilidade Lógica. Antígona, Lisboa, 2018.

Lafargue, Paul. The Right to be Lazy and Other Studies. Kerr & Company, Chicago, 1907.

Nietzsche, Friedrich. A Gaia Ciência. Guimarães Editores, Lisboa, 2000.

Orwell, George. Os Ensaios. Relógio d’Água, Lisboa, 2021.

Polanyi, Karl. A Subsistência do Homem e Ensaios Correlatos. Contraponto, Rio de Janeiro, 2012.

Russell, Bertrand. O Elogio ao Ócio. Sextante, Rio de Janeiro, 2002.

O Mundo da Tradução e o Dia Internacional da Tradução, com Sara Reis

A tradução é um universo com o qual convivemos todos os dias, mas será que lhe damos a devida importância? Conversa de Ana Vieira Vicente com Sara Reis ( @_mulherdepalavra_ ), tradutora. Falou-se da importância do tradutor no mundo literário, do impacto que as obras estrangeiras têm no mercado português e celebrou-se O Dia Internacional da Tradução.

A Revolução dos Instrumentos Electrónicos

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“Osciladores do Futuro e a Memória do Som: A Revolução dos Instrumentos electrónicos — Como o Sintetizador e o Sampler Transformaram o Século XX e Redefiniram a Música Contemporânea”

Nós gostamos dos ruídos da rua, dos rugidos das máquinas e dos gritos da multidão, porque estes sons são mais variáveis e ricos do que os antigos sons da natureza.

Luigi Russolo, de L’Arte dei Rumori (1913)

Da Fusão do Som à Revolução Electrónica

Ao longo da história da música, cada invenção de um novo instrumento trouxe consigo uma transformação radical na forma como os músicos criavam e interpretavam sons. Desde as cordas dos instrumentos mais antigos até aos tubos de órgãos majestosos, cada inovação representava não apenas um avanço tecnológico, mas uma expansão do campo criativo, abrindo novas portas para a imaginação musical. Estas evoluções foram tão significativas que, muitas vezes, os novos instrumentos pareciam ficção científica no contexto das suas épocas. Um dos exemplos mais emblemáticos é o órgão, um colosso de tubos e mecanismos que, quando surgiu, parecia algo de outro mundo. O seu impacto foi tão profundo que, até hoje, escutar um órgão numa igreja continua a ser uma experiência que transcende o tempo, criando uma atmosfera que nos conecta com algo superior, imenso e intangível.

O piano, por sua vez, trouxe uma revolução diferente. Enquanto os instrumentos anteriores eram limitados nas suas dinâmicas, o piano permitiu aos músicos uma paleta de expressividade inaudita, onde era possível alternar entre o sussurro de um pianíssimo e a força imponente de um forte, tudo isso controlado pelas mãos de um único intérprete. Esta capacidade de controlar as dinâmicas foi uma verdadeira inovação na época, e marcou o início de uma nova era na música, onde a sensibilidade e a força podiam coexistir no mesmo instrumento, abrindo novas possibilidades tanto na música erudita quanto na popular.

Com o advento da Electricidade no início do século XX, novas fronteiras começaram a ser exploradas. Da mesma forma que o órgão e o piano tinham revolucionado a música nos séculos anteriores, os instrumentos electrónicos começaram a fazer o mesmo no século XX. À medida que o conhecimento científico avançava, novas maneiras de produzir e manipular sons começaram a surgir, criando um novo espaço para a exploração sonora. Nesta nova era Electrónica, surgiram invenções como o Theremin e o Trautonium, instrumentos que, ao contrário dos tradicionais, não dependiam de cordas ou tubos, mas sim de oscilações electrónicas e manipulação directa de circuitos para criar som.

Esses primeiros instrumentos electrónicos pareciam autênticos produtos de ficção científica. O Theremin, por exemplo, era controlado sem ser tocado fisicamente, algo que parecia desafiar as leis naturais da interação humana com o som. Ao movimentar as mãos no ar próximo a duas antenas, os músicos conseguiam alterar a altura e a intensidade do som, criando um efeito sonoro único que imediatamente capturou a imaginação de compositores e artistas da época. O Theremin tornou-se rapidamente num símbolo de inovação musical e, mesmo décadas depois, continua a ser utilizado, sendo um precursor da manipulação de som electrónica que hoje se tornou comum.

Apesar desses primeiros avanços, a verdadeira revolução na música Electrónica veio com a invenção do sintetizador, um instrumento que permitia não apenas a manipulação de sons existentes, mas a criação de novos sons a partir do zero. Ao contrário dos instrumentos acústicos tradicionais, cujas limitações eram impostas pela sua construção física e pela natureza dos materiais que utilizavam, o sintetizador era, essencialmente, uma tela em branco onde o músico podia construir o som à sua medida. Utilizando osciladores, filtros e moduladores, era possível criar sons que nunca antes tinham sido ouvidos, expandindo o espectro auditivo para além do que era considerado possível.

A criação do sintetizador não foi apenas um avanço tecnológico; foi uma reconfiguração da relação entre o músico e o som. Com osciladores controlados por voltagens, filtros e moduladores, era possível criar sons completamente novos e experimentar com uma vasta gama de timbres que iam desde os mais suaves até os mais agressivos. De repente, o músico deixou de ser apenas um intérprete dos sons existentes para se tornar um criador de novos universos sonoros, capazes de transportar a audiência para paisagens auditivas antes inexploradas.

O surgimento do sintetizador foi o primeiro grande marco dessa transformação, permitindo que músicos em todo o mundo explorassem sonoridades que antes pertenciam apenas ao mundo da ficção. No entanto, o próximo grande salto foi a invenção do sampler, um instrumento que permitia capturar e reproduzir sons do mundo real. Se o sintetizador criava novos sons, o sampler deu aos músicos a capacidade de usar gravações de sons reais e transformá-los em materiais criativos. Mais do que um simples gravador, o sampler era uma ferramenta que permitia manipular e recombinar esses sons de maneiras que antes eram impossíveis. Com ele, qualquer som poderia ser capturado e transformado em algo novo, oferecendo aos músicos uma liberdade criativa sem precedentes.

Tal como o órgão e o piano foram revolucionários nos seus tempos, o sintetizador e o sampler trouxeram uma nova era de experimentação sonora. O impacto destes instrumentos foi sentido não apenas na música popular, mas também no jazz, no rock e na música erudita. No mundo da música pop, artistas como os Beatles e Kraftwerk foram alguns dos primeiros a adoptar a nova tecnologia, enquanto, no domínio da música erudita, compositores como Karlheinz Stockhausen e John Cage exploraram as novas fronteiras que estes instrumentos proporcionavam. Com o sintetizador e o sampler, os músicos deixaram de estar limitados pelos sons naturais e passaram a ter à sua disposição uma paleta infinita de possibilidades sonoras.

O que tornou o sintetizador e o sampler tão revolucionários não foi apenas a sua capacidade de criar e manipular sons, mas a forma como estes instrumentos reimaginaram o próprio conceito de música. Antes deles, os músicos trabalhavam dentro dos limites estabelecidos pelos instrumentos tradicionais, que eram restritos pelas propriedades físicas dos materiais utilizados para criá-los. O som de uma guitarra, por exemplo, dependia da vibração das cordas, e o som de uma trompa dependia da ressonância no interior dos tubos de metal. Com os instrumentos electrónicos, esses limites desapareceram, e o som passou a ser algo que podia ser manipulado à vontade do músico.

À medida que o século XX avançava, tanto o sintetizador como o sampler começaram a transformar profundamente a música rock, pop, jazz e erudita. Bandas como Pink Floyd utilizaram o sintetizador para criar paisagens sonoras psicadélicas, enquanto artistas como Frank Zappa e Brian Eno exploraram as possibilidades infinitas do sampler para criar colagens sonoras complexas e inovadoras. Na música erudita, compositores como Steve Reich e Philip Glass usaram o sampler e o sintetizador para explorar novos padrões repetitivos e texturas minimalistas que redefiniram a música contemporânea.

Hoje, o impacto destes instrumentos continua a ser sentido em toda a música contemporânea. A revolução Electrónica do século XX abriu portas que continuam a ser exploradas por músicos de todas as esferas. O sintetizador e o sampler permitiram que a música ultrapassasse as barreiras físicas dos instrumentos tradicionais, oferecendo aos músicos a capacidade de criar e manipular som de maneiras nunca antes imaginadas. Desta forma, eles não apenas expandiram o espectro sonoro disponível, mas também transformaram para sempre a forma como a música é pensada e criada.

Devemos abrir os nossos ouvidos para a música do futuro. Ela já está aqui, à espera de ser ouvida.

Karlheinz Stockhausen, (sobre o papel da música Electrónica)

O Surgimento do Sintetizador: Som e Ciência

O surgimento do sintetizador representa uma das transformações mais radicais na história da música do século XX. Mais do que um simples instrumento, o sintetizador foi uma nova ferramenta para a exploração sonora, permitindo que músicos e compositores ultrapassassem as barreiras impostas pelos instrumentos acústicos tradicionais e explorassem paisagens sonoras completamente inéditas. Este capítulo propõe-se a analisar o contexto em que este instrumento emergiu, destacando as suas raízes científicas e artísticas, bem como o impacto que teve na música Electrónica, rock, pop e erudita.

Na década de 1950, a busca por novas possibilidades sonoras levou compositores e cientistas a colaborar na criação dos primeiros instrumentos electrónicos. O Estúdio de Música Electrónica de Colónia, fundado em 1951, tornou-se um dos polos centrais desta revolução. Sob a direção de Herbert Eimert, e com a colaboração de Karlheinz Stockhausen, o estúdio tornou-se um laboratório de vanguarda para a experimentação com som puro. A criação de timbres artificiais, através da manipulação directa de frequências, representava uma ruptura com a tradição acústica. Não se tratava apenas de criar novos sons, mas de repensar a própria estrutura musical. Stockhausen, ao explorar o potencial das ondas sinusoidais, ruído branco e modulação de frequência, começou a vislumbrar um futuro onde o som poderia ser desenhado do zero.

Essa busca pela criação de novos timbres, livre das limitações físicas dos instrumentos tradicionais, é o que catalisou o desenvolvimento do sintetizador. O trabalho pioneiro de Stockhausen e Eimert abriu portas, mas foi com a invenção do Moog Synthesizer nos anos 1960 que o potencial do sintetizador se tornou acessível a uma nova geração de músicos. Robert Moog, um engenheiro Electrónico norte-americano, teve a visão de criar um instrumento que pudesse ser tocado por qualquer músico, sem a necessidade de um complexo conhecimento de física ou Electrónica. O Moog Synthesizer introduziu osciladores controlados por voltagem, filtros, e um teclado que permitia ao músico controlar os parâmetros sonoros em tempo real.

O impacto do Moog Synthesizer foi imediato. Em 1968, Wendy Carlos lançou Switched-On Bach, um álbum que utilizava exclusivamente o Moog para reinterpretar as obras de Johann Sebastian Bach. Este álbum não só trouxe o sintetizador para o mainstream, como também demonstrou que a música Electrónica podia ser uma extensão válida da tradição musical ocidental. A utilização do sintetizador no rock também foi revolucionária, com bandas como os Beatles a utilizarem esta nova tecnologia para expandir as suas paletas sonoras. O uso do Moog em canções como “Here Comes the Sun” e “Maxwell’s Silver Hammer” é um exemplo claro de como a música rock se apropriou rapidamente do potencial dos novos sons electrónicos.

Nos anos 1970, o sintetizador evoluiu para formas mais compactas e acessíveis. O surgimento dos sintetizadores ARP, e mais tarde dos modelos Roland e Yamaha, tornou-os mais viáveis para uma maior variedade de músicos. O desenvolvimento do Yamaha DX7 nos anos 1980 foi outro marco na evolução da tecnologia do sintetizador. Este foi o primeiro sintetizador digital a ter um sucesso comercial significativo, e deve grande parte do seu impacto à técnica de síntese FM, desenvolvida por John Chowning na Universidade de Stanford. A síntese FM permitia uma maior riqueza harmónica, tornando possível a criação de sons mais complexos e realistas do que os produzidos pelos sintetizadores analógicos.

O Yamaha DX7 tornou-se rapidamente um instrumento essencial não só para a música pop e rock da década de 1980, mas também para a música erudita. Compositores contemporâneos como Iannis Xenakis e John Adams começaram a utilizar sintetizadores digitais para explorar novas texturas e formas sonoras. A técnica FM abriu novas possibilidades para a criação de sons artificiais que poderiam imitar, com alguma fidelidade, os timbres de instrumentos acústicos, ao mesmo tempo que oferecia a flexibilidade para a criação de sons completamente novos e abstractos.

Ao longo dos anos, o sintetizador transformou-se num dos principais pilares da música contemporânea. Na pop, artistas como Depeche Mode e Kraftwerk utilizaram o sintetizador para criar novos estilos de música Electrónica, que se tornaram fundamentais para o desenvolvimento de géneros como o synthpop e a música de dança. No rock, artistas como David Bowie, Pink Floyd, e Brian Eno exploraram o uso dos sintetizadores para criar paisagens sonoras inovadoras, elevando o uso da Electrónica a novas dimensões criativas.

A música erudita também viu no sintetizador um campo fértil para a experimentação. Compositores como György Ligeti e Pierre Boulez exploraram o potencial do sintetizador para criar novas formas de expressão artística, utilizando os sons electrónicos para questionar as fronteiras entre o som e o silêncio, o timbre e o ruído. O sintetizador tornou-se, assim, um instrumento que transcendeu a categorização de género musical, encontrando o seu lugar em múltiplos estilos e contextos.

A popularização dos sintetizadores nos anos 1980 e 1990 democratizou o acesso a este instrumento, que, até então, era reservado a estúdios de gravação e compositores eruditos. Com o advento de modelos mais compactos e económicos, bem como a integração dos sintetizadores nos computadores pessoais, músicos de todas as esferas começaram a utilizar esta tecnologia para criar as suas próprias composições.

O impacto do sintetizador na música contemporânea não pode ser subestimado. Ao libertar os músicos das restrições dos instrumentos acústicos, o sintetizador permitiu a criação de novos mundos sonoros, onde a única limitação é a imaginação do compositor. O instrumento transformou-se num símbolo de inovação, permitindo a fusão entre a ciência e a arte, e redefinindo os limites do que é possível na música.

No entanto, o sintetizador não foi apenas uma ferramenta para criar novos sons; ele também mudou a forma como os músicos pensam sobre a composição e a performance. Em vez de simplesmente tocar notas pré-definidas, o músico tornou-se um designer de som, capaz de manipular e esculpir o som em tempo real. Esta mudança fundamental no papel do músico levou à criação de novos géneros musicais e formas de expressão artística que ainda hoje estão em evolução.

Este instrumento Electrónico tornou-se, assim, um marco na história da música, transformando a relação entre o músico, a tecnologia e o som. O sintetizador abriu as portas para a música do futuro, permitindo que a ciência e a arte se fundissem de uma maneira nunca antes vista.

Tudo o que fazemos é música.

John Cage, (sobre o som e o silêncio)

O Sampler: A Memória do Som

Se o sintetizador transformou a música ao permitir a criação de sons artificiais através de osciladores e moduladores, o sampler representou uma revolução de outra natureza: a possibilidade de capturar e reproduzir sons reais. Esta inovação tecnológica marcou profundamente a história da música, não apenas por permitir a manipulação de sons previamente gravados, mas também por dar aos músicos e compositores um novo nível de controle sobre a fidelidade e a autenticidade dos timbres utilizados nas suas obras.

O surgimento do sampler trouxe consigo uma transformação conceptual significativa. Ao contrário do sintetizador, que se baseava na criação de sons a partir de ondas puras manipuladas electronicamente, o sampler tinha como ponto de partida o som já existente, seja ele um instrumento acústico, uma voz, ou um ruído ambiente. Esta capacidade de capturar a realidade sonora e de a transformar em material de composição levou a música para territórios inéditos, ao mesmo tempo que expandiu as possibilidades criativas dos músicos. A gravação de sons tornou-se, assim, não apenas um meio de preservação, mas também uma nova forma de arte em si mesma.

Um dos primeiros samplers comerciais a ter um impacto significativo na música foi o Fairlight CMI (Computer Musical Instrument), criado no final dos anos 1970. Este dispositivo permitia a gravação e reprodução de sons digitais, algo que, na época, parecia quase mágico. Antes do Fairlight, os músicos estavam limitados a sons criados ou sintetizados, mas agora, pela primeira vez, era possível gravar sons do mundo real e integrá-los directamente numa composição. Artistas como Frank Zappa, Brian Eno e Einstürzende Neubauten foram alguns dos primeiros a adoptar esta nova tecnologia, utilizando-a para criar paisagens sonoras inovadoras e altamente complexas.

Frank Zappa, por exemplo, foi um dos pioneiros no uso do Fairlight, utilizando o sampler para criar colagens sonoras que desafiavam as convenções da música rock. Ao capturar fragmentos sonoros do quotidiano e integrá-los nas suas composições, Zappa foi capaz de expandir os limites da música experimental, fundindo sons que, até então, não eram considerados “musicais” com estruturas composicionais tradicionais. Esta mistura de elementos acústicos e electrónicos deu origem a um novo estilo de composição, onde os sons do ambiente e da vida real podiam ser usados como elementos centrais de uma obra musical.

Brian Eno, conhecido pelas suas experimentações com música ambiente e Electrónica, também foi um dos primeiros a perceber o potencial criativo do sampler. Ao utilizar o Fairlight, Eno conseguiu criar texturas sonoras etéreas e ambientes auditivos imersivos, nos quais os sons gravados do mundo real se misturavam com sintetizadores e outros elementos electrónicos. O sampler permitiu a Eno manipular os sons de formas que antes não eram possíveis, criando uma sensação de espaço e profundidade que se tornaria característica da sua obra.

Na música pop, o sampler também teve um impacto profundo. A capacidade de capturar fragmentos de gravações e reutilizá-los em novas composições abriu a porta para a criação de músicas mais complexas e ricas em detalhes. Os samplers permitiram que os músicos pudessem integrar fragmentos de outras canções ou de sons do ambiente urbano directamente nas suas faixas, criando uma sobreposição de camadas que deu origem a novos estilos de música, como o hip-hop e a música Electrónica de dança. O uso de samplers permitiu que os produtores criassem batidas e texturas rítmicas a partir de sons previamente gravados, em vez de dependerem exclusivamente de instrumentos tradicionais.

No entanto, o impacto do sampler não foi limitado à música popular. Na música erudita, o compositor minimalista Steve Reich utilizou samplers de forma inovadora na sua obra “Different Trains”, de 1988. Nesta peça, Reich combinou gravações de entrevistas, sons de comboios e vozes humanas com instrumentos acústicos, criando uma composição que transcendeu as fronteiras entre a música Electrónica e a música de câmara tradicional. “Different Trains” representou uma nova forma de narrativa musical, onde o sampler não apenas capturava o som, mas também o transformava em memória sonora, evocando uma sensação de tempo e lugar que era fundamental para o impacto emocional da obra.

O sampler, portanto, tornou-se uma ferramenta fundamental tanto para compositores eruditos quanto para músicos de pop, rock e Electrónica. Ao contrário do sintetizador, que tinha dificuldade em imitar com precisão os timbres de instrumentos acústicos, o sampler oferecia uma reprodução quase perfeita, porque o que estava a ser reproduzido era, na verdade, o som real capturado. Esta fidelidade impressionante permitiu que o sampler se tornasse uma ferramenta versátil em todos os géneros musicais, oferecendo aos compositores uma maneira de integrar sons reais nas suas composições sem sacrificar a autenticidade.

O impacto do sampler na música contemporânea vai além da simples reprodução de sons. Ele ofereceu aos músicos a possibilidade de explorar o mundo sonoro de formas completamente novas. O som de um comboio a passar, o canto dos pássaros, o ruído de uma máquina a funcionar – tudo isso poderia agora ser capturado, manipulado e transformado em música. O sampler abriu a porta para a exploração do quotidiano como fonte de inspiração musical, permitindo que qualquer som pudesse ser transformado em material de composição.

Além disso, o sampler permitiu que os músicos repensassem o conceito de autoria e originalidade. A capacidade de capturar fragmentos de outras músicas e integrá-los em novas composições deu origem a uma nova forma de criação musical baseada na reutilização e recombinação de sons pré-existentes. Este conceito de sampling tornou-se uma parte central da cultura musical, especialmente no hip-hop, onde o uso de samplers para criar batidas e colagens sonoras se tornou uma técnica essencial. Artistas como DJ Shadow e Public Enemy fizeram uso extensivo de samplers para criar músicas que eram, ao mesmo tempo, novas e baseadas no passado, questionando as noções tradicionais de propriedade intelectual e originalidade artística.

O surgimento do sampler também marcou o início de uma nova era na música, onde a linha entre o real e o virtual se tornou mais ténue. Enquanto o sintetizador criava sons completamente novos, o sampler permitia que a realidade sonora fosse capturada e transformada em algo novo. Esta fusão entre o som real e o som manipulado criou uma nova forma de expressão artística, onde a memória do som se tornou tão importante quanto a sua criação.

Actualmente, o uso de samplers é comum em todos os géneros musicais, desde a pop até a música experimental. Com a evolução da tecnologia digital, os samplers tornaram-se cada vez mais acessíveis e sofisticados, permitindo aos músicos explorar uma vasta gama de possibilidades criativas. O que começou como uma ferramenta experimental nos anos 1970 evoluiu para se tornar uma parte essencial da música contemporânea, oferecendo aos compositores e produtores a capacidade de criar música a partir da realidade sonora que os rodeia.

Em última análise, o sampler transformou-se numa espécie de arquivista do som, permitindo aos músicos capturar e preservar a memória auditiva do mundo ao seu redor. Mais do que uma simples ferramenta de reprodução, o sampler tornou-se uma máquina de memória, capaz de transformar qualquer som em música, e de eternizar fragmentos do quotidiano num formato criativo e inovador. Esta revolução, que começou com o Fairlight CMI, continua a moldar a música até aos dias de hoje, mostrando que, no campo da arte sonora, o passado e o presente podem ser recriados e reinterpretados infinitamente através da tecnologia.

O estúdio torna-se, ele próprio, um instrumento musical.

Brian Eno, (sobre a música como uma arte de ambientes sonoros)

Futuro Sonoro: O Sampler e o Sonho de Russolo

Luigi Russolo, o visionário compositor italiano que escreveu o manifesto L’Arte dei Rumori em 1913, é amplamente reconhecido como um dos precursores do movimento Futurista. A sua visão para o futuro da música era radical: uma música composta não apenas por sons melódicos ou harmónicos tradicionais, mas também por ruídos industriais, máquinas, e o som do quotidiano. Russolo antecipou um mundo sonoro onde o ruído, muitas vezes considerado como algo a ser eliminado ou evitado, se tornaria a base para novas formas de composição. Ele acreditava que, à medida que a sociedade industrial avançava, também a música deveria acompanhar essa evolução, incorporando o ritmo e as texturas sonoras das máquinas, da cidade, e do mundo moderno.

Russolo projectava máquinas, os intonarumori, que permitiam a criação e manipulação de ruídos para performances musicais. No entanto, a tecnologia da época ainda era rudimentar e não estava à altura da sua visão mais ambiciosa. As suas criações estavam limitadas pela mecânica e pela incapacidade de capturar e manipular com precisão a imensa variedade de sons que ele imaginava. Mesmo assim, o seu manifesto lançou as bases para o que viria a ser uma das transformações mais significativas na música do século XX: a incorporação do som real, gravado e manipulado electronicamente, como elemento central de composição.

A invenção do sampler nas últimas décadas do século XX pode ser vista como a realização completa do sonho de Russolo. Onde as máquinas futuristas de Russolo eram rudimentares, o sampler ofereceu uma ferramenta poderosa e precisa para capturar e manipular qualquer som que pudesse ser gravado. Desde o som de uma campainha até ao ruído de uma fábrica, o sampler permitia que qualquer som, por mais trivial ou banal que fosse, se transformasse em matéria-prima para a composição musical. O que Russolo visualizava como um futuro dominado pela fusão entre música e ruído, encontrou no sampler a sua ferramenta ideal.

A grande diferença entre o sintetizador e o sampler reside na forma como cada um aborda a criação do som. O sintetizador cria som através de osciladores electrónicos, gerando ondas que podem ser manipuladas para imitar ou reinventar timbres acústicos. No entanto, o som sintetizado é, por natureza, artificial, uma abstracção da realidade sonora. Mesmo os melhores esforços para imitar instrumentos acústicos com um sintetizador esbarram numa certa distância entre o som gerado e o original. O sampler, por outro lado, captura directamente o som real, seja ele o som de um violino, um pássaro ou uma porta a bater, preservando a sua fidelidade e autenticidade. O sampler não tenta imitar a realidade, ele captura a própria realidade e a coloca nas mãos do compositor, que pode manipulá-la de acordo com a sua vontade.

Essa capacidade de capturar a realidade sonora em toda a sua complexidade transformou o sampler numa ferramenta indispensável não só para músicos experimentais, mas também para compositores eruditos e populares. A música contemporânea começou a fundir o real e o imaginário, o natural e o artificial, o acústico e o Electrónico. Artistas como Max Richter têm usado essa tecnologia para criar paisagens sonoras que transcendem as limitações dos instrumentos acústicos tradicionais, oferecendo ao público uma experiência que desafia a percepção do que é real e do que é criado artificialmente.

Richter, por exemplo, combina habilmente o uso de samplers e sintetizadores nas suas composições, criando um ambiente sonoro onde os sons gravados da realidade se misturam com texturas electrónicas. Em obras como The Blue Notebooks ou Sleep, ele utiliza o sampler para capturar sons do mundo exterior, integrando-os em paisagens minimalistas, onde a Electrónica é tanto suporte quanto protagonista. O som de um pássaro, de uma voz, ou de uma máquina, quando capturado e manipulado pelo sampler, assume um novo significado, tornando-se tanto uma representação do real como uma abstracção artística.

Essa fusão entre o som do quotidiano e as possibilidades electrónicas oferece uma experiência sonora que vai além das limitações tradicionais impostas pela instrumentação acústica. No passado, a música era moldada pelos materiais dos instrumentos—cordas de tripa, madeiras e metais—mas agora, com o sampler, a música pode ser criada a partir de qualquer som existente no mundo. Um carro a passar na rua, o zumbido de uma lâmpada fluorescente ou o som da chuva podem ser incorporados numa composição ao lado de uma orquestra sinfónica ou de uma banda de rock.

O sampler também ofereceu uma nova abordagem à questão da autoria e da originalidade na música. No início do século XX, o compositor era visto como alguém que criava algo inteiramente novo a partir do zero. Mas o sampler subverteu essa ideia ao permitir que os músicos reutilizassem fragmentos de gravações pré-existentes, recontextualizando-os em novas obras. Este processo de sampling tornou-se central para muitos géneros musicais, particularmente no hip-hop, onde produtores utilizam sons gravados para criar ritmos e batidas inovadoras. No entanto, o impacto do sampler vai além da pop e do hip-hop. No contexto da música erudita, o sampling também encontrou um terreno fértil para experimentações criativas.

Max Richter e outros compositores contemporâneos utilizam o sampler não apenas como uma ferramenta técnica, mas como um meio de expressão artística. Eles capturam sons que evocam memórias, emoções e paisagens sonoras específicas, transformando-os em composições que falam tanto ao subconsciente quanto ao consciente. O som gravado de uma conversa, por exemplo, pode ser transformado em um leitmotiv que percorre uma peça inteira, evocando camadas de significado que vão além da música pura. Dessa forma, o sampler não é apenas um reprodutor de sons, mas uma máquina de memórias e sensações, capaz de recriar o passado e projectá-lo no presente através da música.

Assim, o sonho de Russolo de uma música que integra os sons do quotidiano com a arte sonora encontra a sua plena realização na tecnologia do sampler. Este instrumento permitiu que a fronteira entre a música e o ruído fosse dissolvida, tornando qualquer som, por mais simples ou mundano que fosse, uma parte integral do tecido musical contemporâneo. Ao combinar o real com o abstracto, o acústico com o Electrónico, o sampler deu aos compositores uma nova paleta de cores sonoras, permitindo-lhes criar mundos auditivos que, há apenas um século, estariam confinados à imaginação de visionários como Russolo.

A era digital trouxe a possibilidade de armazenar e manipular sons em dispositivos cada vez mais compactos e acessíveis. Se nos primeiros tempos do sampling era necessário equipamento volumoso e caro, hoje qualquer jovem músico pode ter acesso a tecnologias de sampling e síntese no seu próprio computador portátil. Esta democratização do acesso às ferramentas de criação sonora fez com que o legado de Russolo se tornasse uma realidade prática para músicos em todo o mundo. Hoje, a música não é apenas uma questão de melodia e harmonia, mas também de textura, ambiente e, claro, memória sonora.

“O som é o vocabulário da natureza.”

Pierre Schaeffer, (sobre a música concreta)

A Revolução Digital: Estúdios Portáteis e o Futuro da Música

A revolução digital trouxe uma mudança profunda no cenário da criação musical, transformando o acesso às ferramentas que, até recentemente, estavam reservadas a estúdios altamente equipados ou a compositores com orçamentos significativos. Hoje, qualquer jovem músico ou compositor pode ter acesso a um estúdio completo na forma de um simples laptop, onde software de produção musical, sintetizadores virtuais e samplers digitais oferecem uma vasta gama de possibilidades criativas. O que antes exigia grandes máquinas e orçamentos elevados, como no caso do Estúdio de Pesquisa de Música Concreta (GRM) de Pierre Schaeffer, agora cabe literalmente na palma da mão.

Esta democratização da tecnologia não apenas transformou o acesso às ferramentas de criação musical, mas também mudou a própria natureza da produção musical. Se, no passado, a música Electrónica estava restrita a espaços físicos e a máquinas volumosas, hoje a produção pode ser feita em qualquer lugar — num quarto, num café, ou mesmo durante uma viagem de comboio. Com um laptop e um par de auscultadores, qualquer pessoa pode criar música com uma qualidade técnica que rivaliza com as melhores gravações dos estúdios tradicionais de décadas atrás. Essa portabilidade e conveniência são revolucionárias por si só, mas o impacto desta transformação vai muito além da simples logística.

No final dos anos 1940 e 1950, a criação de música Electrónica exigia um esforço monumental em termos de recursos. Estúdios como o GRM, onde Schaeffer desenvolveu as suas primeiras experiências com música concreta, eram laboratórios especializados que dispunham de equipamento volumoso, como gravadores de fita, osciladores e geradores de ruído. A criação de uma peça de música Electrónica muitas vezes envolvia cortar e colar manualmente fitas magnéticas, num processo exaustivo e técnico que só podia ser realizado por quem tivesse acesso a estes complexos e caros estúdios.

Pierre Schaeffer, um dos pioneiros da música Electrónica, foi um exemplo do que era necessário para operar em tais condições. No GRM, em Paris, ele iniciou experiências que transformariam a percepção do som como matéria-prima para a criação musical. Utilizando gravadores de fita e técnicas rudimentares de edição de áudio, ele começou a manipular sons do quotidiano e a integrá-los em composições, dando origem ao conceito de música concreta. Para ele e seus contemporâneos, a Electrónica representava uma fronteira nova e desafiadora, mas profundamente limitada pela tecnologia da época. Hoje, o que Schaeffer e outros pioneiros conseguiram fazer em estúdios especializados pode ser realizado de maneira mais rápida e eficaz com um simples software de edição de áudio.

A acessibilidade destas ferramentas está a moldar o futuro da música de forma sem precedentes. Com o desenvolvimento de softwares de produção musical como Ableton Live, FL Studio ou Logic Pro, jovens compositores têm ao seu dispor um arsenal de ferramentas que não só replicam as capacidades dos estúdios electrónicos dos anos 1950 e 1960, mas que vão além disso, oferecendo uma flexibilidade e profundidade de criação que antes eram impensáveis. Enquanto antigamente a manipulação sonora exigia conhecimento técnico especializado e uma infraestrutura de estúdio, hoje qualquer pessoa com acesso à internet pode descarregar uma versão gratuita ou a preços acessíveis desses softwares e começar a compor.

Os sintetizadores e samplers digitais também fazem parte dessa revolução. Ferramentas como o Native Instruments Kontakt, que é um dos samplers mais poderosos da actualidade, permitem aos compositores trabalhar com bibliotecas sonoras que contêm gravações incrivelmente detalhadas de instrumentos acústicos e sons ambientais. Isso significa que, ao contrário dos tempos em que a gravação de uma orquestra exigia um espaço físico, a presença de músicos e engenheiros de som, hoje um compositor pode simplesmente abrir o seu software de sampler e ter acesso a uma orquestra inteira à distância de um clique. O mesmo se aplica aos sintetizadores digitais, que replicam ou expandem as funcionalidades dos sintetizadores analógicos do passado, mas com uma versatilidade e uma interface acessível a todos.

Essa acessibilidade, no entanto, não significa apenas uma maior facilidade de criação. Significa também uma democratização da criatividade musical. No passado, a produção musical de alta qualidade estava muitas vezes reservada a artistas com recursos financeiros e logísticos para aceder a estúdios de gravação. Hoje, qualquer pessoa com um computador pode fazer música com uma qualidade técnica que rivaliza com os grandes estúdios, abrindo espaço para que novas vozes e novas ideias encontrem uma plataforma.

Além disso, a revolução digital também transformou a forma como a música é distribuída e consumida. Plataformas como o SoundCloud, Bandcamp e até YouTube permitem que músicos independentes distribuam as suas obras directamente para um público global, sem a necessidade de intermediários ou de grandes gravadoras. Isso não só democratizou a produção musical, mas também a sua distribuição, permitindo que músicos de diferentes partes do mundo possam partilhar as suas criações com audiências vastas, independentemente de onde estejam localizados ou de quais sejam os seus recursos financeiros.

A facilidade com que as ferramentas de produção estão agora disponíveis deu origem a uma explosão de criatividade. Músicos e compositores de diferentes géneros — desde o pop até à música experimental, passando pelo hip-hop, rock, jazz e a música Electrónica — estão a explorar as potencialidades destas novas tecnologias, criando obras que seriam impossíveis em décadas anteriores. Com a revolução digital, surgiram novos estilos e formas de música, como o bedroom pop, que exemplifica a criação de música feita em espaços privados e com recursos limitados, mas com uma qualidade artística e técnica que rivaliza com as grandes produções.

Uma das maiores transformações trazidas pela revolução digital é a capacidade de integrar diferentes formas de expressão artística. Com a acessibilidade de softwares de produção audiovisual, muitos músicos estão a explorar a criação de obras multimédia que combinam som e imagem, algo que antes era quase impensável para um artista independente sem acesso a grandes orçamentos. A música tornou-se uma experiência mais completa e imersiva, onde o visual e o auditivo se unem para criar obras de arte multimodais. Esta integração está a moldar o futuro da música, transformando o que antes era visto como música pura num campo de experimentação mais amplo.

Além disso, a revolução digital está a mudar o papel do próprio músico. Antes, o músico era frequentemente um intérprete que trabalhava sob a direcção de um produtor ou de um engenheiro de som em estúdios especializados. Hoje, o músico moderno é também um produtor, engenheiro de som e editor, com controlo total sobre cada etapa do processo criativo. Esta autonomia criativa permitiu que novas formas de autoexpressão emergissem, com músicos a explorar as suas próprias ideias sem dependerem de estruturas de produção tradicionais.

Embora a acessibilidade às ferramentas digitais tenha democratizado o processo criativo, ela também trouxe novos desafios. Com a facilidade de criação e distribuição, a saturação de conteúdos tornou-se uma realidade, e a competição por atenção é feroz. Hoje, qualquer músico tem a capacidade de lançar a sua música globalmente, mas destacar-se no meio de uma quantidade massiva de novos lançamentos diários requer uma abordagem diferente. Muitos músicos estão a encontrar formas criativas de se diferenciarem, explorando conceitos únicos, criando comunidades online e utilizando as redes sociais para envolver directamente os seus ouvintes.

À medida que a tecnologia continua a avançar, é provável que a música continue a evoluir de formas inesperadas. A inteligência artificial, por exemplo, já está a ser explorada como uma ferramenta para a composição e a produção musical, permitindo que algoritmos criem novas formas de música com base em parâmetros estabelecidos pelos compositores. Esta nova fronteira tecnológica promete expandir ainda mais as possibilidades criativas, oferecendo aos músicos novas formas de interagir com as ferramentas de produção e novos paradigmas para a criação artística.

A revolução digital não apenas mudou a maneira como a música é criada, mas também como é ouvida e experienciada. O acesso a estúdios portáteis e às ferramentas digitais permitiu que mais pessoas do que nunca participem no processo de criação musical. Esta democratização está a moldar o futuro da música, permitindo que mais vozes criativas se expressem em novos e emocionantes formatos. O futuro da música, impulsionado pela revolução digital, parece mais inclusivo, diversificado e inovador do que nunca.

“A nova música não será feita de melodias, mas de sons.”

Edgard Varèse, (um dos pioneiros da música Electrónica)

Sintetizando o Futuro: Do Analógico ao Digital

A evolução do sintetizador e do sampler ao longo do século XX foi mais do que uma simples inovação técnica. Estes instrumentos revolucionaram profundamente a forma como a música é criada, executada e até mesmo ouvida. Se considerarmos que a história da música sempre foi moldada pela tecnologia — da invenção do piano ao desenvolvimento do órgão — a chegada de instrumentos electrónicos como o sintetizador e o sampler representa a última grande viragem neste percurso. No entanto, ao contrário dos instrumentos anteriores, que eram produtos de uma era analógica e acústica, o sintetizador e o sampler inauguraram uma nova era: a era digital.

No passado, o som estava intimamente ligado à física dos instrumentos acústicos — as cordas, os tubos, as peles de tambores. A construção e os materiais dos instrumentos limitavam as possibilidades sonoras, e a música era, em grande parte, uma arte de interpretar essas limitações de forma criativa. Com o advento do sintetizador, esses limites começaram a desaparecer. Osciladores electrónicos permitiram a criação de sons inteiramente novos, livres das amarras físicas dos instrumentos tradicionais. De repente, os músicos tinham à sua disposição uma paleta de sons ilimitada. Esta expansão do espectro sonoro redefiniu o que significava ser músico e compositor, pois já não era necessário ser um virtuoso de um instrumento tradicional para criar sons inovadores e desafiantes.

No entanto, o impacto do sintetizador vai além da sua capacidade de criar sons. Ele também alterou a forma como o som é concebido. No século XX, músicos como Stockhausen, Wendy Carlos e Brian Eno utilizaram o sintetizador para explorar não apenas novos timbres, mas também novas formas de estruturar e manipular o som. O sintetizador tornou-se uma ferramenta para a composição e a exploração sonora, permitindo que os músicos se afastassem das formas tradicionais e experimentassem com estruturas mais abertas e abstratas. Esta liberdade de criação, combinada com a tecnologia digital, permitiu que o som fosse tratado como algo maleável e mutável, não apenas como algo que deveria ser interpretado e reproduzido.

Enquanto o sintetizador representa o futuro da criação sonora, o sampler oferece uma ponte entre o passado e o presente. O sampler não cria novos sons a partir do zero; em vez disso, ele captura e manipula o som que já existe. Em muitos aspectos, o sampler pode ser visto como um arquivista da memória sonora. Ele permite que os músicos recolham fragmentos do passado — sejam eles gravações de instrumentos acústicos, sons da natureza, ou até mesmo excertos de outras músicas — e os reutilizem de formas novas e criativas. O sampler dá aos músicos o poder de transformar o passado em material para a criação artística no presente.

Essa capacidade de capturar e manipular sons do mundo real oferece uma profundidade emocional e cultural à música que vai além da inovação técnica. O sampler permite que os músicos incorporem referências, memórias e significados sonoros nas suas obras. Ao manipular fragmentos do passado, o sampler permite uma exploração profunda das camadas de tempo e experiência. Steve Reich, por exemplo, utilizou o sampler para capturar sons de comboios e vozes humanas na sua obra Different Trains, criando uma composição que mistura memórias pessoais com a história da Segunda Guerra Mundial. Aqui, o sampler torna-se uma ferramenta não apenas para a criação musical, mas também para a exploração da história e da memória.

Nessa interacção entre passado e presente, o sampler assume um papel quase filosófico. Ele questiona o conceito de originalidade, sugerindo que a música não precisa de ser inteiramente nova para ser inovadora. Em vez disso, pode ser construída a partir de camadas de som e experiência acumulada. Através da manipulação de sons pré-existentes, o sampler convida-nos a repensar a autoria musical, desafiando a noção de que o músico é sempre o criador de algo do zero. Na era digital, o compositor pode ser visto como um curador, um arquitecto sonoro que organiza e reinterpreta o que já existe.

No contexto contemporâneo, a combinação de sintetizadores e samplers tornou-se essencial para uma vasta gama de géneros musicais. Da pop ao hip-hop, passando pelo jazz experimental e a música erudita, estes instrumentos electrónicos abriram novos caminhos criativos. Artistas como Max Richter combinam os dois instrumentos de maneira magistral, criando obras que fundem o real com o imaginário, o passado com o futuro, o acústico com o Electrónico. Esta fusão representa o verdadeiro espírito da música contemporânea: uma arte que é ao mesmo tempo global e pessoal, tecnológica e humana.

No entanto, a verdadeira revolução trazida por estes instrumentos electrónicos não é apenas tecnológica — é também social e cultural. O facto de hoje qualquer pessoa com um computador ou um smartphone poder aceder a sintetizadores e samplers digitais democratizou a criação musical de uma forma sem precedentes. O que antes exigia grandes orçamentos e acesso a estúdios especializados está agora disponível a qualquer um com uma conexão à internet. Isso significa que as barreiras para a entrada no mundo da música foram drasticamente reduzidas, permitindo que vozes antes marginalizadas ou sem recursos financeiros possam agora expressar-se criativamente.

Com esta democratização da tecnologia musical, o potencial para a inovação nunca foi tão grande. As ideias que outrora estavam confinadas a estúdios e laboratórios de vanguarda estão agora nas mãos de jovens músicos em todo o mundo. E, assim como o órgão e o piano revolucionaram a música dos séculos passados, o sintetizador e o sampler continuarão a moldar o futuro sonoro da humanidade. O mundo digital oferece uma liberdade quase ilimitada para a experimentação, e a música está a transformar-se numa arena onde as possibilidades tecnológicas e criativas são infinitas.

No entanto, esta revolução também levanta questões sobre o futuro da música como forma de arte. À medida que a tecnologia continua a evoluir e os músicos se tornam cada vez mais dependentes de softwares e algoritmos, há o risco de perdermos algo da espontaneidade e do carácter humano que definiram a música ao longo dos séculos. No entanto, a história da música sugere que cada nova tecnologia traz consigo novos desafios e oportunidades. O futuro da música pode ser digital, mas isso não significa que será menos emocional ou autêntico.

À medida que avançamos no século XXI, o sintetizador e o sampler permanecerão como os principais catalisadores de inovação na música. Eles continuarão a desafiar as fronteiras entre o som e o silêncio, o passado e o futuro, e a redefinir o papel do músico e do compositor na sociedade. A música, em todas as suas formas, sempre foi uma expressão da condição humana, e, embora os instrumentos possam mudar, a essência criativa e emocional da música continuará a prosperar. Se o sintetizador representa o futuro da criação sonora e o sampler a memória do som, juntos, eles formam o núcleo da música contemporânea, uma fusão de inovação e tradição que continuará a ressoar por gerações futuras.

Revolução Sexual: A Chernobyl Fabiana do Pós-modernismo

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Quando a URSS colapsou no final dos anos 80, Mikhail Gorbatchov invocou o papel crucial que a tragédia da central nuclear de Chernobyl teve no desejo da sociedade soviética em virar definitivamente a página do comunismo.

Moscovo tinha uma indústria nuclear e uma infraestrutura científica das mais avançadas do mundo pelo que o desastre de Chernobyl devia-se não a deficiências tecnológicas mas sim ao sistema totalitário que politizava todos os aspectos da sociedade soviética, ao ponto de desincentivar a honestidade intelectual no sistema de energia.

Sem dúvida que a esclerose da economia socialista teve um enorme impacto na qualidade de vida da URSS ao fim de 70 anos mas é interessante verificar que as sementes da revolta e do descrédito, começaram com a reprovação do totalitarismo.

No Ocidente, muitos dos males que nos assolam nos dias que correm advêm da Revolução Sexual que, desde 1968, inverte as normas sociais, perverte a moralidade e incute comportamentos desviantes a toda a sociedade.

Não foi coincidência que, uma década depois dos slogans hippies ‘make love not war‘, ‘love is all you need‘ ou ‘turn on, tune in, drop out‘, os anos 80 abrissem com uma epidemia de SIDA que dura até aos dias de hoje. A Contracultura havia apelado à destruição das normas e das tradições, e a natureza revelou o porquê da existência de muitas das normas ancestrais. Sexo pré-marital, sexo promíscuo, sexo homossexual, uso colectivo de narcóticos, tudo normalizado levou à explosão de DSTs nos EUA, com epicentro em Nova Iorque e na Califórnia.

Na década de 80, a epidemia de SIDA ceifou a vida de 100 mil americanos e tornou-se a segunda causa de morte entre homens adultos, de acordo com o CDC. O número de mortes até hoje já ultrapassa as 700 mil.

Como recompensa pelos excelentes conselhos dos revolucionários, os cidadãos americanos continuam a votar entusiasticamente na Esquerda até aos dias de hoje, no litoral. O mesmo fenómeno pode ser observado nas capitais europeias.

Só ocasionalmente é um político de Direita eleito, como foi o caso de Rudolph Giuliani em NYC, quando os nova-iorquinos já desesperavam com a onda de criminalidade que grassava na cidade, depois de décadas de políticas esquerdistas.

Um outro aspecto que é silenciado pelos media, é a vitimização das pessoas com Trissomia 21; esta civilização não é para quem tenha Síndrome de Down…

Começando por salientar que, desde os anos 60, houve uma explosão no número de nascimentos de bébés com Down, sendo que nos EUA o número quadruplicou.

Como está isto relacionado com a Revolução Sexual? Devido ao motivo para o crescimento exponencial: mulheres com 40 anos têm 10 vezes mais probabilidade de dar à luz uma criança com Down do que mulheres com 20 anos.

Ao longo dos anos, a Esquerda humilhou as mulheres sem carreira e dedicadas à gestão do lar e à educação dos filhos. Simultaneamente, a narrativa social caracterizou triunfalmente as mulheres ‘emancipadas’, com carreira e sexualmente promíscuas, com séries como ‘O Sexo e a Cidade’ alimentando os sonhos de muitas adolescentes. A consequência foi o incentivo ao adiamento da maternidade ou a sua abdicação total. Na década de 2010, mulheres de carreira já faziam cabeçalhos queixando-se da falta de meios para a conjugação dos objetivos familiares e profissionais das mulheres, para aquelas que escolhiam ambos ao mesmo tempo.

A situação piorou ainda mais com a incidência de patologias em bébés nascidos de mães nos seus 30 e 40.

Em países como a Austrália, o número de nascidos com Down até está abaixo do que era em 1900 mas… tal deve-se ao uso generalizado do aborto como técnica preventiva. Na Islândia, tal prática é de tal modo inerente, que a Trissomia 21 foi fundamentalmente extinta na ilha nórdica.

Consistindo o Síndrome de Down numa deficiência intelectual e cognitiva, aonde está, então, o problema em erradicá-lo? A resposta é óbvia mesmo para aqueles que não querem ver; digamos que a Islândia não publicita nos folhetos turísticos, o seu marco histórico da ‘cura’ da Trissomia 21… Na verdade, o tema é mesmo praticamente tabu entre os islandeses.

A Islândia não curou o Síndrome de Down com investigação científica ou com alguma alteração das normas sociais que permita às mulheres planear uma família mais atempadamente. A Islândia fugiu para a frente, tapando o problema em vez de o resolver responsável e consequentemente. Existem outros problemas de saúde associados à gravidez geriátrica e à recorrência sistemática ao aborto como método contracetivo. Nem referindo as sequelas fisiológicas, que dizer das sequelas psicológicas para os progenitores?

Simplesmente, o método é demasiado semelhante ao programa nazi T4 de eutanásia coerciva de pessoas com deficiência, para que muitos se sintam confortáveis com a sua divulgação.

Uma vertente ainda mais perversa do fenómeno da Trissomia 21, é a vulnerabilidade destas pessoas ao abuso e ao oportunismo da sociedade ultra-individualista do século XXI, sobretudo tendo em conta que em famílias modernas, ambos os pais trabalham. O abuso pode passar por indivíduos membros do círculo social e familiar mas também pela

influência nefasta dos media e da sociedade, na ausência da supervisão parental. Um dos dados mais deprimentes é o surgimento da agenda LGBT na comunidade com Down. Mais preocupante ainda é a desproporção de disforia sexual em pessoas com Down e autistas – uma outra patologia coincidente em quase tudo, à Trissomia 21. Por outras palavras, a engenharia social desviante e a sua respectiva propaganda, que já têm resultados dramáticos em adolescentes, são ainda mais insidiosos na mente de pessoas com problemas de socialização, precisamente por prometerem aceitação e normalização miraculosas a quem adere à narrativa.

Uma vez mais, nenhum decisor político ou partido promotor da ideologia de género, terá que arcar com nenhum tipo de responsabilização civil ou criminal. Leis como a 38/2018 vetada pelo Presidente da República, procuram explicitamente retirar crianças da autoridade dos pais através da ‘autodeterminação de género’. Como diz o Bloco de Esquerda nas suas manifs, “autodeterminação não tem idade” pois se o objectivo é a igualdade, e o ‘género’ é uma construção social, então a maturidade também pode ser uma construção social. Desconstrução completa.

A promessa tóxica dos John Lennons era a de destruir a tradição e recomeçar de novo. Com os soixante-huitards no poder, essa promessa avança de vento em popa.

A família tradicional e a moral milenar cristã mantinham a ordem mas com a sua destruição, a sociedade pós-moderna é dominada pela ‘Lei da Selva’ e na ausência de ordem, apenas os mais fortes sobrevivem. A predominância do narcisismo na classe política e na sociedade em geral, é a consequência lógica de um sistema sem regras. O sacrifício dos mais vulneráveis é nada mais do que comorbidade colateral. Tal como os inconsequentes que acumulam cartões de crédito para pagar outros créditos, a nossa sociedade tenta corrigir atalhos falhados com outros tantos improvisados. Reencontrar o rumo exigirá o sacrifício de parte da expedição.

A prazo, a sociedade cairá ainda mais fundo no absurdo e na disfunção até o eleitorado finalmente perder a fé no sistema, como aconteceu na Rússia. Os fenómenos destrutivos descritos e muitos outros agravar-se-ão ainda mais e muitos serão sacrificados ao altar da ‘igualdade’. Menos certo é se o futuro pós loucura contará ainda com um Estado chamado Portugal ou com uma civilização Ocidental.

Reflexão Crítica sobre Cuidados Paliativos Pediátricos

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Segundo a Organização Mundial de Saúde, os Cuidados Paliativos Pediátricos (CPP) são os cuidados ativos totais da criança (do corpo, da mente e do espírito), além de oferecerem suporte à família. Estes cuidados iniciam-se no momento do diagnóstico e continuam independentemente de a criança receber ou não tratamento direcionado à doença. Os prestadores de cuidados de saúde devem avaliar e aliviar o sofrimento físico, psicológico e social da criança (WHO Palliative Care for Children, 2023).

A visão dos CPP é assegurar que desde o diagnóstico, todos os utentes em idade pediátrica, incluindo recém nascidos, crianças e jovens, que vivem com uma doença crónica complexa, limitante ou ameaçadora da vida, bem como as suas famílias, recebam cuidados que vão ao encontro das suas necessidades, desejos e preferências, até e após a morte (SPP, 2014).

Estima-se que em Portugal vivam pelo menos 6.000 crianças com necessidades paliativas; destas, cerca de 200 crianças morrem anualmente, quase todas no hospital. Em 2011 apenas 1 em cada 9 morreu em casa (SPP, 2014). Tem-se verificado um aumento na mortalidade pediátrica atribuível a doenças crónicas complexas em vários países. A definição de doença crónica complexa inclui qualquer condição médica que tenha uma duração de pelo menos 12 meses (exceto em caso de morte) e que envolva vários sistemas ou um órgão de forma suficientemente grave, requerendo cuidados pediátricos especializados e previsivelmente algum período de internamento num centro médico terciário (Feudtner C et al., 2000).

A pergunta surpresa que os profissionais devem colocar, neste contexto etário, para determinar se devem referenciar para os CPP, é a seguinte: “Ficaria surpreendido se esta criança não sobrevivesse até os 18 anos?” Se a resposta for não, é provável que estejamos perante uma criança que necessita de CPP (Pereira D. et al., 2023).

Escolhi este tema para a reflexão crítica da Unidade Curricular Seminários, do Mestrado Cuidados Paliativos da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, por se tratar de uma realidade ainda muito pouco desenvolvida na prática no nosso país. A Comissão Nacional de Cuidados Paliativos estabeleceu, em 2023, um documento com os Critérios de Referenciação para Equipas Especializadas de Cuidados Paliativos Pediátricos. Este documento é um contributo significativo para a referenciação atempada da qual estas crianças podem beneficiar. A meu ver, foi um passo muito acertado para melhorar a realidade atual do nosso país.

Em Portugal, à data da elaboração deste documento, as equipas dedicadas a CPP são de base hospitalar (equipas intra-hospitalares de suporte em cuidados paliativos – EIHSCP- pediátricos), embora algumas já prestem diretamente cuidados domiciliários. No entanto, a cobertura a nível nacional das equipas especializadas ainda é escassa, atualmente, atuando sobretudo na zona centro. É importante reconhecer que outras equipas (EIHSCP de adultos, Equipas Comunitárias de Suporte em Cuidados Paliativos e/ou Equipas dos Cuidados de Saúde Primários, nomeadamente as Equipas de Cuidados Continuados Integrados), podem ter capacidade para, em articulação com os serviços pediátricos, prestar cuidados ou colaborar na assistência à população pediátrica (Comissão Nacional de Cuidados Paliativos, 2023). Portanto, ainda estamos longe de um acesso equitativo aos CPP no nosso país.

Durante a aula foram lidos excertos do livro “Óscar e a Senhora Cor-de-Rosa” e fiquei muito interessada nesta obra. Após a sua leitura, posso dizer que se trata de um hino à vida e ao ser humano. Esta amizade entre uma criança e uma voluntária do hospital, que todos os dias o visita, revela-nos a necessidade de comunicar verdadeiramente. Os pais e a restante equipa que providenciava cuidados ao Óscar, não souberam comunicar com ele abertamente sobre a sua doença e sobre o prognóstico. Quantos Óscares teremos nós nos nossos hospitais? Espero que haja uma senhora cor-de-rosa para cada Óscar…

A realidade da morte em idade pediátrica é considerada por muitos uma fatalidade tão grande que a encaram como um fracasso da medicina moderna. No entanto, a história de Óscar e a Senhora Cor-de-Rosa ensina-nos uma lição valiosa sobre resiliência e a capacidade de encontrar alegria mesmo nas circunstâncias mais difíceis. Ao brincar e a imaginar que avança no tempo, o menino aproveita a vida nas suas diferentes idades, reinventando a própria realidade. Como mãe de duas crianças não posso sequer imaginar a dor de perder um filho. Deve ser dilacerante. No entanto, quantos pais perdem filhos todos os anos? Que qualidade de vida estamos a proporcionar às crianças com necessidades paliativas e que não veem essas necessidades atendidas? A falta de comunicação aberta sobre a doença e o prognóstico, como mostrado na história de Óscar, pode agravar ainda mais o sofrimento das crianças e de suas famílias.

É imperativo que novos programas de formação nesta área se tornem uma realidade, garantindo que estes cuidados especializados sejam acessíveis de norte a sul do nosso país, sem esquecer as ilhas. Apenas através da formação adequada e da expansão das equipas especializadas poderemos assegurar que todas as crianças com necessidades paliativas recebam o cuidado e a dignidade que merecem.

Ao refletir sobre estas questões, é evidente que precisamos de um compromisso maior com o desenvolvimento dos CPP. Somente assim poderemos transformar a realidade dessas crianças e das suas famílias, oferecendo-lhes a melhor qualidade de vida possível, mesmo diante das circunstâncias mais desafiadoras.

Termino com um excerto do livro que mais me tocou “Querido Deus, Obrigada por teres vindo. Vieste no momento certo porque eu não me sentia nada bem. Talvez também tenhas ficado sentido com a minha carta de ontem… Quando acordei pensei que tinha noventa anos e virei a cabeça para a janela, para ver a neve. E então pressenti que tu vinhas. Era de manhã. Eu estava sozinho na Terra. Era tão cedo que os pássaros ainda dormiam e até a enfermeira da noite, a Dona Ducru, devia estar a passar pelas brasas, e tu tentavas criar a aurora. Estava a ser difícil, mas insistias. O céu clareava. Tu enchias o ar de branco, cinzento, azul, afastavas a noite, reanimavas o mundo. Sem fazer pausas. Aí é que eu compreendi a diferença entre tu e nós: és infatigável! Tu és o tipo que nunca se cansa. Sempre a trabalhar. Agora vem o dia. Agora vem a noite! Agora a primavera! Agora o verão! E agora a Peggy Blue! E agora o Óscar! E agora a Vovó Rosa! Que resistência! Percebi que estavas aqui. Que me confiavas o teu segredo: olhar cada dia o mundo como se fosse a primeira vez. Então, segui rigorosamente o teu conselho. Pela primeira vez. Contemplei a luz, as cores, as árvores, as aves, os animais. Sentia o ar a entrar-me pelas narinas e fazer-me respirar. Ouvia as vozes que vinham do corredor como se estivesse na abóbada de uma catedral. Sentia-me vivo. Vibrava de pura alegria. A felicidade de existir. Estava maravilhado. Obrigado Deus, por teres feito tudo isto para mim, era como se me estivesses a pegar na mão e a levar-me até ao coração do mistério para contemplar o mistério. Obrigado.

Até amanhã, beijinhos,

Óscar

P.S. O meu pedido: és capaz de fazer este truque da primeira vez aos meus pais? A Vovó Rosa, acho que já o conhece. E também à Peggy, se tiveres tempo…”

Referências bibliográficas:

  • Palliative care for children. (2023, June 1). World Health Organization (WHO). Retrieved June 23, 2024, from https://www.who.int/europe/news-room/fact-sheets/item/palliative-care-for-children
  • Relatório do grupo de Trabalho do Gabinete do Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde. (2014). SPP – Sociedade Portuguesa de Pediatria. Retrieved from https://www.spp.pt/UserFiles/file/Comissoes_SPP/RelatOrio%20do%20GdT%20de%20CPP.pdf
  • Comissão Nacional de Cuidados Paliativos. (2023). Critérios de Referenciação para Equipas Especializadas de Cuidados Paliativos Pediátricos.
  • Feudtner C, Christakis DA, & Connell F. (n.d.). Pediatric deaths attributable to complex chronic conditions: a population-based study of Washington State, 1980–1997. Pediatrics, 2000(106), 205–9.
  • Pereira D., Salgado C., Fradique E., Sobral F., Teixeira I., & Palaré MJ. (2023). Mortality in Pediatric Palliative Care in a Tertiary Center. Portuguese Journal of Pediatrics, 54(2), 74-81.

Nostalgia de uma sociedade mais humana

Texto de Vítor Oliveira Jorge (https://flup.academia.edu/VITOROLIVEIRAJORGE, https://ihc.fcsh.unl.pt/vitor-oliveira-jorge/), Loures, setembro de 2024. Imagem: Espaço público: Piazza della Signoria, em Florença, vista a partir da varanda do Palazzo Vecchio. Autor: Samuli Lintula, 2006. Reproduzida aqui ao abrigo de Creative Commons cc-by-2.5. Link para o original publicado em Wikimedia Commons: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Piazza_della_Signoria.jpg

O modelo de sociedade em que vivemos – no meu país, Portugal, e à escala do mundo, em geral – é um modelo que fomenta a infelicidade das pessoas. É um modelo desumano. Esta afirmação, para não ser vazia de sentido, implica a explicitação prévia – alguns traços apenas, não se trata de apresentar definições – do que entendo por pessoa humana e por felicidade.

Todo o ser humano é um ente provido de características que o distinguem profundamente dos outros animais, apesar de ser, como eles, e como todas as espécies, um produto da evolução destas, e não uma criatura criada por um qualquer ser transcendente e eterno. Neste aspeto, a crença religiosa – sobretudo ao nível da sua institucionalização e funcionamento, e não tanto ao nível individual, em que cada caso é um caso, e é necessário eticamente respeitar essa subjetividade singular – é em geral um impedimento à verdadeira compreensão do humano, ou seja, à sua objetiva integração racional no seio dos outros entes.

A paleontologia humana demonstrou-nos, de forma inequívoca, como é que o aparecimento do Homo sapiens se processou a partir da evolução dos Primatas. Porém, é claramente insuficiente para nos caracterizar na nossa especificidade. Produto da evolução material, o ser humano é dotado de Espírito, o que os crentes habitualmente designam alma, e é um ser eminentemente histórico, isto é, a autoconsciência que possui leva-o a compreender que o tempo é uma coordenada essencial para se entender a si próprio, aos outros, e à própria realidade em si. Ou seja, a sua imensa contingência, a sua vulnerabilidade, a sua precaridade, em tudo o que faz, mesmo que seja o autor de “obras-primas” dotado dos maiores galardões. Tudo perecerá, mais cedo ou mais tarde. E ao nível da realidade, a mesma coisa: tudo flui, embora a diferentes “velocidades”, inexoravelmente.

Sem consciência histórica, quer individual, quer coletiva, o ser humano ficaria placado numa situação absurda e paralisante. Ao contrário, ele é um ser que sabe como nasceu, num processo inteiramente independente da sua vontade – o que desde logo o alerta para uma reflexão importante, a de que se encontra lançado involuntariamente ao mundo, tendo aí de, por si, fazer o esforço individual de se constituir de modo a sobreviver, por muito que seja ajudado por outrem, progenitores, outros familiares, etc. – e que sabe que vai envelhecer e finalmente morrer. A consciência da morte – inexistente nas outras espécies – retroage (mesmo inconscientemente) sobre todos os aspetos da vida, permitindo ao humano compreender o carácter finalmente absurdo da sua própria existência, como o existencialismo claramente nos mostrou.

O ser humano não pode subsistir sem os outros, já que o seu nascimento é, poderíamos dizer, sempre precoce, porque quando sai do ventre da mãe se encontra totalmente impreparado, sem autonomia, e à mercê da ajuda de outrem. Essa dependência do Outro não é, como sabemos, apenas funcional (aliás em nós não há nada de exclusivamente funcional, isso é um mito) é também reflexiva: o Outro, cada um dos outros, é para o ser humano um espelho, que lhe devolve uma imagem de certo modo ambígua, inquietante ou até momentaneamente reconfortante: uma interrogação fundamental sobre quem é ele e quem é o Outro, e o que cada um pode esperar do Outro, etc. O estado amoroso (o do apaixonado/a) leva-o/a, por “momentos”, a ver em alguém a “parte” que idealmente completaria a sua falha, a sua contingência, mas como sabemos esse estado de delírio é de duração relativamente limitada.

Inventámos, para melhor nos tentarmos compreender a nós próprios, a ideia de Natureza, como algo inteiramente separado de nós, uma envolvente, e atribuímos a nós mesmos a exclusividade do seu contraponto, a cultura. Desde os antigos gregos, para não ir mais longe, que se considera esta como algo de divino, um sinal e “parte” ou eco de um Grande Outro, um elemento de redenção e de eventual ascensão à “eternidade”, à perfeição, à Totalidade que não encontramos de modo algum em parte alguma. Torna-se evidente a arbitrariedade dessa distinção entre natureza e cultura.

Sendo o ser humano um produto da evolução da matéria (passe agora por comodidade esta generalização), percebemos que tal matéria tem uma história própria, a qual a levou, ao nível das espécies vivas, a diferentes fases qualitativas que desembocaram na consciência, ou Espírito humano. Ou seja, o Espírito, para se entender, criou uma alteridade, a Natureza, a qual lhe é precisa como espelho, sendo que essa outridade natural volta para a consciência do humano, qual bumerangue, já mediatizada pelo Espírito: são elementos que estão em relação dialética. A Natureza é assim espiritualizada e o Espírito naturalizado. Um modo hegeliano de dizer que desde que o ser humano existe toda a realidade é uma realidade humana, mesmo que a pensemos quando já existia antes da nossa emergência na história do cosmos. Somos seres falantes, mesmo quando estamos calados, e a linguagem permite a imaginação e a reflexão sobre o que não está presente, mas introduz uma linha de cesura na realidade: cria-a, mas cria-a já mediada pelas palavras.

Do ponto de vista materialista que é o meu – e que, portanto, valoriza a imanência dos processos – não há um terceiro elemento, transcendente, uma divindade, a quem se devam as determinações referidas: não há um criador da “natureza” e do ser humano. Seria uma solução demasiado fácil e até ingénua, embora como figura mítica seja um “cajado de apoio” fundamental para milhões de pessoas. Há sim um meio ambiente terreno que tem a sua própria história, e que possibilitou a evolução da vida (primeiro na água, depois em terra com o aparecimento de órgãos que permitem respirar na atmosfera, depois a capacidade de voar, etc.) no que retrospetivamente nos aparece como uma teleologia, um percurso determinado, mas que na verdade não resulta de qualquer programa prévio, é o produto cego, temporal, de um processo cego.

Também não há qualquer entidade transcendente capaz de intervir na realidade para regular a complexidade da vida tal como ela nos aparece, a nós seres humanos, que temos, para sobreviver, que existir em comunidade; é absurda e simplista a ideia, durante muito tempo acalentada, de “contrato social”, mesmo como simples metáfora. E o que a pré-história nos ensina é que, certamente por tentativa e erro, através de momentos de estabilidade e/ou de instabilidade social (o ser humano caracteriza-se pelo par de opostos amor-ódio, que podem levá-lo a uma intensidade emotiva de todos conhecida, e em particular a uma agressividade muito forte) se foram constituindo, ao longo do tempo, coletividades mais ou menos complexas, que em grande parte desembocaram, em épocas e circunstâncias muito diversificadas, na forma política do Estado.

O ser humano só se realiza em comunidade, e só consegue alguma estabilidade, permitindo as condições psíquicas para criar soluções para a sua vida em cada ecologia particular, através da mediação de uma entidade formal, que concentra e administra o poder, e que em muitos casos da história nos aparece como tão “elevada” acima do comum que parece adquirir uma essência transcendente (teocracias em particular). Trata-se de algo que procura corresponder ao papel da tal “terceira entidade” de que falei acima, agora transmutada num aparelho de Estado que certifica, naturaliza, e assim legitima, a apropriação privada (por grupos, ou indivíduos da elite) dos bens comuns essenciais à vida, a começar pelos próprios meios de subsistência básicos, e a continuar eventualmente em narrativas que fazem do soberano o próprio representante (e intermediário) do deus na Terra, assim legitimando ideologicamente a sua supremacia em princípio incontestável.

O soberano, num regime constitucional, não precisa de governar nem de decidir seja o que for: precisa apenas de ser o polo simbólico, como Hegel compreendeu, da estrutura estatal de decisões, apondo a sua assinatura ao já determinado pelos representantes dos súbditos; o soberano é apenas uma assinatura. O rei que acreditasse que é mesmo “rei”, que essa função corresponderia a algo de substantivo em si, de constitutivo de si, cairia no ridículo de levar mesmo a sério todo o ritual que preside à sua vida, e que na verdade até é na aparência levado muito a sério pelo povo, pelos súbditos, todos fazendo de conta de que “o rei não vai nu”, que ele de facto representa o Grande Outro, por sua vez eventualmente legitimado superiormente pelo Grande Outro eterno. Qualquer coletividade política precisa de um esquema de poder que lhe garanta uma certa estabilidade, e que esconda o que o poder tem de face oculta, de convencionalidade e arbitrariedade, o seu lado obsceno. Como o filósofo Zizek tem acentuado repetidamente, sem essa faceta obscena a realidade social desfazer-se-ia, como aliás sem a componente da fantasia a própria realidade humana (toda a realidade, portanto) se desfaria também.

A felicidade do ser humano conjuga-se essencialmente ao nível individual, mas bem sabemos como a própria noção de indivíduo, tal como a compreendemos hoje, um sujeito autónomo e enquadrado numa coletividade que o integra e formata em deveres e direitos, é tipicamente moderna e ocidental. Ou seja, se algo caracteriza o Ocidente é a sua primazia, real ou ficcional, dada ao sujeito e à sua, pretensa embora, possibilidade de “escolher”, mais uma vez assumindo que se não trata, na verdade, de uma escolha forçada. Porque todas as nossas escolhas não são conscientes, o elemento principal que manda em nós é o inconsciente, e por isso cada um de nós é para si mesmo, como para os outros, um enigma. Ou, dito de outra forma, um vazio, o qual, quer cada um de nós, quer cada um dos outros sobre si ou sobre nós, procura preencher através de uma fantasia. A partilha de um certo número de ilusões coletivas enforma as comunidades, e por vezes, sobretudo se tem a ver com o plano religioso ou com o plano das convicções mais arreigadas, pode levar milhares ou milhões de seres humanos à morte, convictos de que defendem a sua própria essência existencial. É nesse sentido que o ser humano é o mais “louco” de todos os animais. Ser do desejo, precisa de ser ensinado (ou de aprender) a desejar, precisa de, repetidamente e até à morte, tentar preencher a lacuna que lhe é constitutiva.

Ora, comecei por afirmar que o modelo preponderante nas sociedades modernas é inumano, é contrário à felicidade de cada pessoa e à harmonia dos grupos e das entidades mais vastas. O avanço da ciência e da tecnologia trouxe benefícios que tendem a ser apanágio de minorias, e as desigualdades sociais, à escala global, longe de se atenuarem, aumentaram e aumentam cada dia. Essa injustiça radical está à vista de todos. Mas toda a história está cheia de equívocos e de “injustiças” (sobretudo aos nossos olhos de hoje), podendo mesmo dizer-se que as aquisições positivas que a “cultura” e a tecnologia foram conseguindo se deveram, precisamente, à exploração de uns seres humanos (a maioria) por outros. Essa exploração foi sempre, até hoje, uma condição sine qua non do “progresso”.

Na verdade, todo esse chamado “progresso”, em que o século XIX em particular tanto apostou (e muitas coisas pareciam comprová-lo, nomeadamente para as classes abastadas) se esboroou perante as calamidades terríveis do séc. XX, as quais, longe de esmorecer, continuam e se incrementam no século em que vivemos. Portanto, o ideal de felicidade – a nostalgia edénica, a paz universal, o perfeito entendimento entre os indivíduos, os povos e as nações – afasta-se de nós à mesma velocidade (mas em sentido oposto) com que a humanidade se trucida aos nossos olhos, nós, espectadores das desgraças dos outros, enquanto elas não chegam até nós. Todas as promessas de redenção coletiva que a ciência ou a política nos fizeram, se desfizeram. Há boas notícias de um lado, logo temperadas por más ou péssimas notícias noutro. E nós, animais gregários, não podemos ser felizes, como habitantes de um planeta globalizado, se temos conhecimento (hoje, em direto, pelos meios de comunicação) de que outros como nós são chacinados e trucidados a cada passo. A tensão acentua-se à escala global, as refregas regionais rapidamente se espalham, a linguagem e a economia da guerra substituem a vida normal dos seres, e elas são apenas a ponta de um icebergue de mal-estar, de ansiedade, de angústia que caracteriza a sociedade do empreendedorismo, da competição e da fuga em frente por quaisquer meios, circunstâncias que evidenciam bem a “perda de futuro”, de esperança, de alegria. Até o humor, como espetáculo, tão importante, é cada vez mais difícil de produzir, redundando rapidamente numa caricatura, ou no abastardamento (apelando ao obsceno mais básico, por exemplo) de si mesmo.

Este mal-estar, esta doença social contangiante, começa logo na perceção de que há cada vez mais gente sobre a Terra, e de que uma porção cada vez maior dessa população está destinada à morte, dadas as condições ambientais que se degradaram a tal ponto que não é imaginável encontrar para todos (para a maioria) uma vida digna, um “lugar ao sol”. E são em geral os países mais pobres, ou com maiores desigualdades sociais, aqueles em que as pessoas menos cuidam de planear as suas vidas para não darem origem a mais criaturas que vão morrer. Vemos imagens de refugiados, multiplicados por toda a parte em campos de morte, rodeados de filhos expostos e indefesos, e perguntamo-nos qual o sentido de produzir mais vidas num mundo assim. Sabemos que uma pequeníssima percentagem de indivíduos possui o correspondente ao que poderia, se distribuído, permitir uma vida minimamente digna à maioria dos seus semelhantes. Mas tais indivíduos, ou organizações, não abdicam da sua fama e proveito, e quando muito usam-na num modo caritativo, constituindo fundações ou outras instituições “humanitárias”, que, sob a figura da “alma bela”, acrescentam valor à marca ou marcas que tais indivíduos ou organizações representam, e vendem, porque o prestígio público das “boas ações” é, como é óbvio, igualmente um capital.

Também sabemos que a existência de paraísos fiscais, onde vai parar o produto dos roubos perpetrados pelas mafias que invadiram o planeta, tornam impossível qualquer solução justa à escala global. Essas mafias estão no poder, ou controlam o poder, de muitos Estados. O lado obsceno da sociedade dita de consumo de massas está à vista. E nesse lado obsceno de uma ideologia liberal, de fachada tolerante, inclui-se a tendência de uma atitude que desfaz os valores antigos no seu conjunto, em vez de descartar o que neles havia de errado, de injusto, e de promover o que neles havia de correto. O Estado social corrompe-se quando os poderes, que caracteristicamente nele se deviam distinguir, se misturam numa luta mais ou menos velada ou encarniçada (muitas vezes portas adentro, claro) entre o legislativo, o executivo e o judicial. Só um inocente acredita nessa separação de poderes, todavia crucial numa “democracia”. E passamos todos a desconfiar de tudo. O Estado, o seu aparelho, e as elites que nessa esfera circulam deixaram de ter a confiança dos cidadãos, e daí as permanentes disfunções das sociedades, por exemplo tipificadas no ataque ao Capitólio nos EU em 2021 pelos seguidores de um ex-presidente, ele próprio acusado dos mais graves crimes, e que, no entanto, pode voltar a recandidatar-se. Tal facto é incompreensível para qualquer pessoa decente e traz consigo a mensagem da mais completa e generalizada decadência democrática que é possível imaginar.

Nesse sentido, tudo se encaminha para a dissolução do “espaço público”, e a unidade social passa a ser o indivíduo, a quem é dito que é livre de tomar as suas opções de vida, uma liberdade afinal falsa para todos: os que são excluídos e que não possuem o mínimo de possibilidades de construir uma vida, e os pouquíssimos que são beneficiários e que tantas vezes não sabem, porque ninguém os ensinou, porque ninguém alguma vez lhes disse a palavra essencial da educação (“não”), que é a palavra que orienta e ajuda a distinguir o que seria bom para a pessoa e para a comunidade, e não apenas supostamente bom para a pessoa em detrimento da comunidade.

Hoje em dia todas as atividades das instituições sociais são medidas em função de hierarquizações, escalonamentos baseados no êxito, no lucro, na aparência, na pretensa inovação (palavra que serve para muita coisa…), resultantes idealmente de uma atividade de equipas que podem ser extensas, espalhadas pelo planeta, exercida em função de programas por vezes envolvendo financiamentos muito elevados, e de cujo investimento se quer ver depois (o mais breve possível) o retorno, seja em lucro financeiro, seja em prestígio, quanto maior e mais divulgado melhor. À partida há evidentes aspetos positivos em muitos desses programas, mas o espírito em que se inserem é o da concorrência mundial cujos critérios de validação são por vezes muito discutíveis. Impera a tecnocracia. E ficam para trás, por falta de meios e de aderentes, muitas iniciativas menos ambiciosas e quiçá muito mais prenhes de um futuro para a felicidade, para a lucidez, para a calma ponderação e divulgação dos temas e das propostas.

É preciso encontrar slogans, marcas, algo que chame a atenção e lubrifique o desejo social e individual, indo ao encontro das frustrações (do vazio constitutivo, cada vez mais desorientado) das pessoas. Assim surgem atores sociais que de um momento para o outro ganham uma notoriedade quase alvo de um culto, como tipicamente acontece no desporto, por exemplo (nomeadamente no futebol comercial), ou que, por via das suas emissões regulares na televisão se tornam conhecidos nacionalmente ou mundialmente, tornando-se gurus da opinião, vendendo livros “atraentes” ou outros produtos de grande difusão, etc.

A excessiva exposição aos Media é, em geral, portadora de problemas, porque tais Media achatam tudo por baixo, medido em função das audiências e não segundo critérios em que a cultura, a Ideia (e não mais “inovações” que em catadupa nos são despejadas continuamente) seria efetivamente a bitola principal. Para qualquer canal de televisão, o tratamento de um assunto efetivamente importante, quando não interrompido pela publicidade, ou é apresentado à hora em que a maior parte das pessoas está já a dormir, ou é sujeito a uma temporalidade angustiante, sentida pelo espectador quando vê alguém que quer expor uma ideia importante ser interrompido ou ter de expor atabalhoadamente aquilo que exigiria outra temporalidade. O que é bom e nos felizes tem de ser desgostado com calma e com serenidade, com total atenção ao Outro e sem preocupação de reduzir tudo a slogans, a frases feitas, ao déjà vu, antes em total abertura ao inesperado, que ressoa em nós e fica a ressoar por tempo indeterminado. Mas o próprio telemóvel, com todas as funções que lhe estão cada vez mais associadas, não deixa ninguém em sossego. Os nómadas em que muitas pessoas se tornaram precisam de estar conectados e de cumprir obrigações que a tecnologia lhes exige, com constantes atualizações desnecessárias, mas obrigatórias, etc. Espaço e tempo humanos, na sua totalidade, estão capturados por este espírito de alerta permanente, noite e dia se preciso. O capital não conhece já as temporalidades antigas, que permitiam cada pessoa dispor melhor do seu tempo: é ditatorial, omnipresente, imperativo.

E de todo este mundo não estão ausentes as universidades, que são consideradas (e funcionam no mesmo “espírito” concorrencial) como empresas ou fábricas de indivíduos e de produtos “novos”, capazes de atrair mais investimento. A palavra de ordem é a quantidade, por exemplo de artigos publicados por ano por cada indivíduo ou equipa, associada a uma suposta qualidade de certas agências internacionais de indexação (burocráticas e por vezes mesmo caras) que apenas estão atentas ao cumprimento de regras formais, deixando de lado o que cada equipa ou pessoa pode trazer de verdadeiramente importante para a comunidade.

Mas, qual comunidade? Na realidade, o que há é um esvaziamento do espaço público real, coletivo, apenas cheio ocasional e fugazmente por multidões em protesto, arruadas eleitoralistas, grupos de fans de determinadas estrelas do espetáculo, ou eventos temporários do mais variado tipo, que tentam (?) preencher o que foi transformado, esvaziado, descomposto, fabricado como cenário. Tudo o resto é “cada um por si” e “cada um em sua toca”. Os centros das cidades, povoados de gruas, são ilustrações particularmente evidentes desta situação. Obras por toda a parte para preparar construções antigas para novas unidades turísticas ou de consumo, preços que tornam inimaginável a vivência da cidade a qualquer pessoa normal (tornada habitante dos bairros dormitórios e quando muito, de vez em quando, turista na própria cidade de onde foi arredada), etc.

A cidade transformou-se numa máquina de entretenimentos para crianças (grandes ou pequenas), do tipo museu modernaço, ou de circo de figuras espampanantes, coloridas, boas para uma fotografia, e as estátuas que povoavam as antigas praças lá vão ficando como relíquias, às vezes muito apequenadas pelos edifícios em volta, de bancos, seguradoras, centros comerciais de lojas caras, etc. É por aí que circula uma contínua onda de turistas, de olhos bem abertos para o ar para comprovarem que o são, entre os habitantes locais que restam e que se esgueiram, mal podem, para as suas casas, ou partes de casas, que o restante está alugado a estudantes (esses nómadas de hoje, entre muitos outros nómadas) ou a turistas. Tirada uma foto, é preciso comprovar que se está onde está, com um sorriso posto, através de alguma rede social. E assim as pessoas parecem seres apensos a telemóveis, que capturam completamente a sua atenção e que as tornam escravas modernas do sistema de comunicação de situações e identidades mais ou menos encenadas.

Felicidade, liberdade, igualdade, fraternidade – o dicionário de palavras humanizadas é imenso – mas a realidade, por detrás das encenações, tem uma gramática e um léxico bem diferente. Imaginamos. Porque, se pudéssemos ir aos bastidores desse teatro em que cada um de nós vive, não sei se encontrávamos outra encenação, e outra, e outra, até à fadiga total…ou ao vazio fatal que nos extenua.

Edição: Setembro 2024

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De volta ao mundo: a economia da atenção, arqueologia transmontana, o fim do liberalismo, o legado histórico do digital, o prefácio de A Volta no Parafuso, colónias: prós e contras, excertos de As Mulheres do Meu País, galeria de revistas avant-garde, conversa sobre poesia, epopeia e fantasia, BioShock, Zelda, Breath of the Wild, tomada de Badajoz por D. João I, os besteiros do conto, novidades na filosofia, relógios atómicos e a editora ECM.

A economia da atenção e das emoções: uma crise contemporânea da identidade

Há umas décadas, a produção cultural ainda tinha equilíbrio com as capacidades de atenção que um indivíduo podia dar. Mas com o desenvolvimento da internet e a revolução numérica, um abismo nasceu entre o acesso quase infinito aos produtos e a atenção que podemos dar.

Arqueologia Transmontana: o passado arqueológico de Favaios e o Castro de Vilarelho

Resguardada no interior transmontano, Favaios guarda em si uma grande riqueza histórica, arqueológica e cultural. A vila preserva um passado arqueológico de castros, epígrafes, cerâmica, com toques da Idade do Ferro e dos romanos que lá chegaram.

Formas e história da arte.

O Fim do Liberalismo?

Num artigo recém-publicado, defende-se que o liberalismo é insustentável. As tendências recentes de baixa confiança social, conflito (identitário) intergrupal e a queda da natalidade resultam das instituições liberais e das normas sociais que elas promovem.

O Legado Histórico da Cultura Digital

Como a transição para o digital pode impactar a nossa herança cultural, comparando com civilizações antigas. Discutem-se benefícios e desafios, questionando se poderá entender-se a história se tudo for digital. Inclui questionários sobre percepções atuais.

Porquê (re)ler o prefácio de “A Volta no Parafuso” de Henry James?

O leitor que despreze a leitura do prefácio desconhecerá a complexidade narrativa deste romance: não se trata somente uma inquietante história de fantasmas da época vitoriana, mas sim de uma história sobre mecanismos de leitura; sobre efeitos que os livros – ou os seus narradores – prometem.

Pontuais estados de coisas.

Colónias: Vantagem ou Desvantagem Económica para o País Colonizador?

Uma breve análise sobre um tema muito interessante: as vantagens e desvantagens económicas da colonização para o país colonizador, equilíbrio que, ao contrário do que commumente se pensa, não é linear.

Excertos: As Mulheres do Meu País (Maria Lamas, 1948)

Algumas passagens e ilustrações de um lendário e extraordinário livro de 1948, da autoria de Maria Lamas, que pretendia retratar a vida das mulheres portuguesas (maioritariamente pertencentes ao mundo rural) na época.

Sade, Tina Turner, Beyoncé.

Breve Galeria: Revistas Avant-Garde, 1920-30

Recordamos uma brevíssima galeria do mundo fantástico e espampanante das revistas de literatura e arte de vanguarda do início do século XX: o dealbar de novas formas de modernidade, já pós industrial, que existiam numa atmosfera de vigor intelectual único e até agora pouco ou nada reeditado.

Da escrita.

A Tomada de Badajoz pelas Tropas de D. João I

Excerto da Crónica de D. João I retratando a tomada de Badajoz pelas tropas portuguesas no século XIV.

Os Besteiros do Conto

Sobre uma instituição medieval portuguesa, os Besteiros do Conto, espécie de conjunto de milícias populares sancionadas pelo reino.

Nus, computadores analógicos, públicos em geral.

Sugestões de Leitura: Novidades na Filosofia

Com a ajuda das fabulosas recensões críticas da Notre Dame Philosophical Reviews, mais alguns títulos recentes do mercado editorial da filosofia.

Conversa: Poesia, Epopeia e Fantasia

Regresso às conversas regulares, desta vez com um jovem escritor recém-publicado sobre, entre outras coisas, a mistura de géneros como epopeia e fantasia na sua obra.

Três Jogos: Bioshock, Zelda: Breath of The Wild e Pokemon Go

Sobre três videojogos, Bioshock, Zelda — Breath of the Wild e Pokemon Go, e suas associações a escolas de pensamento filosóficas e estéticas.

Em Portugal!

Avanços na Medição do Tempo: Relógios Nucleares

A construção do primeiro relógio nuclear representou um marco na tecnologia da associada à medição do tempo. Os mais recentes baseiam-se nas transições eletrónicas em átomos de césio, que oscilam em frequências regulares quando expostos a micro- ondas.

A Editora ECM e a permanência de atmosferas

Análise detalhada e histórica ao percurso de mais uma editora fundamental da história do jazz, a ECM Records.

Funnnies avulsos.

Fotografia de Patrizia Sandretto Re Rebaudengo (1965 — ), curadora italiana de arte e patrona de vários artistas, em particular de propostas desafiantes e, por vezes, dispendiosas.

Conversa: Poesia, Epopeia e Fantasia com Nero

Conversa de Ana Vieira Vicente com o escritor recém publicado Nero. Ele nasceu no Algarve e estudou Línguas e Literatura Portuguesa na Universidade de Lisboa e Pedagogia na Universidade Nova de Lisboa. Atualmente é professor de Português e Literatura. Desde criança sempre gostou de escrever. Aos 15 anos começou a desenvolver uma história que levou 18 anos a amadurecer, resultando no seu primeiro livro “Oceano – O Reino das Águas”, lançado em 2021, que mistura epopeia clássica com fantasia. Em 2023, publicou “Telúria”, uma obra poética com referências à sua vida, e que faz parte de uma trilogia, com o segundo volume previsto para 2025. É uma pessoa reservada que aprecia a tranquilidade da sua casa, rodeado pela natureza e pelos seus livros.

Os Besteiros do Conto

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Pegando na deixa de João Manuel Almeida, nosso colaborador, que abordou a referida instituição medieval portuguesa aqui, vimos deixar um pouco de informação sobre a mesma.

Os besteiros do conto eram uma espécie de conjunto de milícias populares sancionadas — e não apenas sancionadas, mas forçadas a existir por decreto — pelo próprio reino. Leandro Ribeiro Ferreira, da Universidade do Porto, e autor de um dos poucos trabalhos sobre esta força militar — que poderão encontrar em De homens-comuns a força de elite: os besteiros do conto em Portugal na Idade Média (1385-1438), resume exemplarmente a sua constituição no seguinte parágrafo:

Criada em Portugal em 1299, por D. Dinis (1279-1325), era formada por elementos recrutados, essencialmente, dentro do grupo popular dos mesteirais, com preferência para aqueles que revelassem especial aptidão no manuseio da besta. Esta força militar de base concelhia possuía uma estrutura de comando autónoma relativamente aos restantes contingentes militares municipais, gozava de um sistema remuneratório próprio e beneficiava de um atraente conjunto de privilégios. Para além disso, os besteiros do conto estavam também sujeitos a um conjunto de deveres específicos, nomeadamente ao nível do treino, da posse e manutenção de armas de qualidade e de um número específico de munições, para além de se encontrarem obrigados a manter um elevado grau de prontidão, circunstâncias que os convertiam numa autêntica força de elite.

Em baixo, documento do Arquivo Municipal de Lisboa (original aqui) onde D. João I regulamenta a instituição:

Também do Arquivo Municipal de Lisboa, o Rol dos Besteiros do Conto em pergaminho, da autoria de D. Duarte, de 1420. Todas as terras do Reino constam aqui, com os respetivos besteiros a armar.

Por último, a visão bastante elogiosa de João Manuel Almeida sobre a instituição.

Continuando a estudá-las, mais me convenço que é uma instituição muito proveitoso que nunca deveria ter acabado: os Besteiros do conto precisam de um retorno moderno – os Espingardeiros do conto! (…) [sobre a coexistência com o serviço militar feudal] Na altura ocorriam em paralelo. Haviam as hostes régia e senhorial. Ademais, os besteiros do conto. Em um País (como o nosso), parece-me um modelo a replicar aqui. Um Concelho pobre não consegue financiar exércitos, mas consegue armar pontuais homens com boas armas.”

A Heróica Tomada de Badajoz pelas Tropas do Senhor D. João I, aos doze dias de Maio da Era de 1396.

“[…] Ficando este feito assi concertado [Gonçal’Eanes Cão expulso de Badajoz por suspeitas de querer dar a cidade a Portugal], foi Gonçal’Eanes falar a Martim Afonso de Melo, dizendo-lhe que prestes tinha a porta [dissera ao porteiro que ia ao arrabalde buscar trigo, pedindo ao dito que deixasse a porta aberta], e que fosse prestes quando quisesse; e vendo passados tantos perigos e que Martim Afonso o punha em vagar, escreveu uma carta a El-Rei, que já viera de Bragança e estava em Santarém, como tinha tudo prestes segundo lhe escrevera, e pois Martim Afonso a ello tardara, que lhe não posesse culpa se se o ligar perdesse e o não cobrasse. E El-Rei escreveu logo ao Condestável, que estava em Arraiolos, e ele mandou chamar Martim Afonso que fosse a ele de noute encobertamente. E falando sobre esto, perguntaram a Gonçal’Eanes Cão onde se ajuntaria a gente pera fazer esta obra; e ele disse que na lentisca no azinhal d’Arronches, e que levariam a ribeira a fundo, e ir-se-iam ao vau do Mouro, e dali iriam a pé até o lugar. Esto concordado, partiu Martim Afonso pera Campo Maior, e levou uma noute consigo Rodrigo Afonso, seu tio; e foi-lhe mostrar per onde havia d’escalar o Castelo de Albuquerque e Albaçar. E como tornaram, fez em Campo Maior armar as escalas, presente ele, avisando e mostrando como as havia de pôr, ordenando-lhe logo quais haviam de ir primeiros e segundos e terceiros; uns que tomassem as velas; outros que fossem à porta do castelo que estava aberta, e que posessem senhos cantos às portas, que se não cerrassem; outros que se fossem à porta d’Albaçar que ia pera a vila. E dada esta ensinança foi falar a Vasco Lourenço, meirinho a Odiana, dizendo como tinha ordenado de tomar Badalhouçe e Albuquerque, ambos juntamente, e que lhe rogava por serviço d’El-Rei e boa amizade que fosse em esto seu companheiro; e que a noute que se houvesse de poer em obra, que ele lho faria saber, e que não levasse consigo outros, salvo seus criados de que muito fiasse, assinando-lhe o lugar onde descavalgasse, quando visse seu recado. Então se tornou Martim Afonso, e avisou os que consigo havia de levar, que fossem prestes. Gonçal’Eanes, que não sonhava em outro feito, aos onze dias do mês de Maio, uma 4.ª-feira véspera d’Ascensão, foi falar ao porteiro, dizendo que ao outro dia de madrugada tivesse a porta aberta, e fosse por as carregas de trigo onde ele soía de trazer. E cedo na vela da manhã foi Gonçal’Eanes de pé à porta, e achou-a aberta e o porteiro alevantado; e disse-lhe: “Andai por aqui e trares as bestas com o pão”. E como foram ambos na cerca velha, onde soía ir pelo trigo, disse então Gonçal’Eanes: “Aguardai aqui e não vos partis per nenhuma guisa, e irei às bestas, onde ficou o meu homem com as carregas”. E então se foi ao vau do Mouro, onde deixara Martim Afonso que já tinha mandado Rodrigo Afonso de Brito a Albuquerque com XXX homens darmas e besteiros e homens de pé, e certos escudeiros aos caminhos que todollos que achassem ir ou vir pera estes lugares, que os detivessem por não irem dar novas; e também recado a alguns seus a Elvas que, como tangessem às matinas, fezessem repicar rijamente, bradando que Badalhouçe era entrado, que fossem todos apressa lá. E esto fazia per duas razões; a uma, se filhassem o lugar, que o ajudassem, por a pouca gente que levava; a outra, se o não filhasse, e viessem a ele os Castelãos, que o achassem acompanhado. E disse mui ledo: “Aberta temos a porta, e o porteiro fora, onde soía a dar o pão. Dai-me apressa dez homens darmas que se vão comigo, e tomarei a porta enquanto vos fordes; ca se formos todos juntos, poder-nos-iam sentir e seremos descobertos”. Então foi diante com aqueles dez, e entrou pela porta do rio, da cerca velha. E deixou-os ao pé da torre de fora, e foi à porta, e achou uma sobre a outra; e pôs-lhe os ombros e abriu uma delas. E a mulher do porteiro estava detrás em pé; e quando o viu, falou primeiro e disse: “Senhor, Gonçal’Eanes, nora boena vemgaees. E que es de mi marido?” – “Lá vem – disse ele – com as bestas carregadas”. E em dizendo esto, abriu a outra porta. E ela disse que não abrisse mais. E ele disse que as bestas eram muitas, e não caberiam per uma. Então consentiu ela no que ele fazia; e ele tomou quatro cantos e encostou dous a cada porta; e pôs-se sobre o rebato em pé, e a Castelã junto com ele. Em esto descobriu-se detrás da torre Afonso Fernandes Rabelo, escudeiro d’Afonso Pires o Negro que ia por Capitão destes dez, e um homem de pé de Gonçal’Eanes. E ela, quando os viu, apertou as mãos e disse: “Hy hui que nora malla es esta, Gonçal’Eanes?” Então lhe lançou ele mão na garganta rijo, de guisa que a fez pousar ante si. E disse logo ao seu homem: “Trazes tu punhal ou adaga?” – “Si trago”, disse ele. “Pois degola esta p*ta; não brade”. “Senhor Gonçal’Eanes, disse ela, no me matees. Yo me callarey”. E ele houve dela dó, e meteu-a na casa, e apagou a candeia, e deu-a em guarda ao seu homem. E ali vieram todos dez, e puseram-se antre as portas; aos quais ele disse que a não desamparassem por cousa que haver pudesse. E ele se foi rijo chamar Martim Afonso que andasse tostemente [rápido]  e achou-o que entrava já por a porta do rio, da cerca velha, e trigando-os que se não detivessem. Nenhum lhe falava com a pressa que levavam; e ele tomou um que conhecia por trombeta, e foram-se diante sós. E eles que iam diante sós junto com a porta, começaram a dizer de cima: “Armas! Armas! Castilla, Castilla!”. A este apelidar acudiram alguns à porta, e a trombeta começou a tanger, embrulhando-se já uns com os outros, de guisa que ficou a porta só e os dez forom-se acima do muro. Em esto chegou Martim Afonso com os que levava, sem achando empacho nenhum, e entrando rijo com suas gentes, fazendo cada um o que lhe mandaram, assi no subir do muro e guarda da porta como na prisão dos melhores. “Oh São Jorge!” era tanto com “Portugal!” na mistura, que dava-lhe temor grande nos que o ouviam, e esforço muito aos que cobravam a cidade. E logo chegou Álvaro Coitado com o Concelho de Elvas, assi de pé como de cavalo, e gentes de Olivença e de Campo Maior. E todos se apoderaram do lugar sem mais peleja que aí houvesse, salvo duas torres que se quiseram defender; mas não prestou nada. E foi esto dia d’Ascensão do ano de iiii, xxxiiii, havendo nove meses que se este segredo andava guardado. E prenderam aí Garcia Gonçalves de Grisalva, Marechal de Castela, e Afonso Sanches e o Bispo dessa cidade; e aos outros não faziam nenhum nojo, nem lhe tomavam cousa do seu […].”

 – Crónica de D. João I.

A Editora ECM e a permanência de atmosferas

Texto publicado originalmente em jazz.pt. Na rubrica “Editoras com história(s)”, Sofia Alexandra Carvalho traça o percurso de mais uma editora fundamental da história do jazz, a ECM Records.

A música vinha duma mansidão de consciência
era como que uma cadeira sentada sem
um não falar de coisa alguma com a palavra por baixo
nada fazia prever que o vento fosse de azul para cima
e que a pose uma nostalgia de movimento deambulante
era-se como se tudo por cima duma vontade de fazer uma asa
nós não movimentamos o espaço mas a vida erige a cifra
constrói por dentro um vocábulo sem se saber
como o que será
era um sinal que vinha duma atmosfera simplificante
silêncio como um pássaro caído a falar do comprimento.

António Gancho

Fundada em Munique em 1969 por Manfred Eicher (1943), à época com apenas vinte e seis anos, Edition of Contemporary Music[1] ou ECM Records distinguiu-se, simultaneamente, pelo exímio cuidado sonoro e gráfico das suas edições e pela criação de atmosferas simples, minimais e atemporais, resgatando assim a tradição editorial das chancelas Blue Note e Impulse.

O seu fundador, nascido em Lindau[2] (Alemanha), estudou contrabaixo em Berlim e, desde logo, descobriu a sua paixão pelo jazz e por músicos como Bill Evans (1929-1980), Paul Bley (1932-2016), Miles Davis (1926-1991), Paul Chambers (1935-1969), entre outros. Será, no entanto, como assistente de produção na Deutsche Grammophon que Eicher afinará o seu gosto por gravações precisas e cristalinas, aspecto que conduz o auditor à visão de uma composição permanente, espécie de “atmosfera simplificante”, como lembra o poeta do Café do Gelo, António Gancho.

Eicher confessa que a criação do nome da editora surgiu da intersecção de várias influências que, no seu caso, se prendeu não apenas com a audição das séries da editora avant-garde Wergo, fundada por Werner Goldschmidt em 1962, cujo catálogo apresentava música de Boulez, Poulenc, Penderecki, passando pelo “From the Seven Days” de Stockhausen, mas também com a  pintura, o cinema e as edições da Gallimard, mas oiça-se o produtor em entrevista a Steve Lake:

I thought if we have a company we should have a name that is what we want to say today, and it’s not “jazz”, it wasn’t the jazz tradition I was setting out to document, so what is it? The idea of “Edition” was coming from painting, from galleries, and I thought about the book editions coming from Gallimard and so on. “Edition of Contemporary Music” sounded OK, but needed to be shortened. And so, ECM seemed quite good to me as a logo. Sounded musical. And the next morning it still sounded good.

O álbum début desta editora alemã, intitulado “Free at Last[3] [ECM 1001], é da autoria do pianista norte-americano Mal Waldron (1925-2002), autor também das liner notes, em colaboração com o baixista Isla Eckinger (1939-2021) e o baterista Clarence Becton (1933-2022), e saiu a lume em 1970. O intento do fundador, que considera fundamental a relação com os artistas e diz não pertencer a nenhuma indústria[4], parte da noção de “permanência”. Esta permanência não implica apenas a edição que fixa matericamente a criação, mas todo o processo que a envolve, desde a escolha do local de gravação, passando pela produção musical que pugna pela transparência sonora, em conjunto com os músicos e artistas, até ao design e ao produto final.

Na verdade, a plasticidade criativa da ECM, ao cruzar jazz, free jazz música clássica, medieval, experimental e música folk, tem como foco de interesse permanente a música e as ideias estéticas que a acompanham, o que se traduz numa adequação da forma ao conteúdo e não o contrário. Aliás, a obra “Horizons Touched: The Music of ECM”, lançada em 2007 com a chancela da Granta, celebra o feito editorial da ECM, com extensas entrevistas ao fundador, mais de vinte ensaios de jornalistas e escritores e mais de cem contribuições de artistas, compositores, designers, engenheiros de som, entre outros colaboradores atmosféricos.

Ora, em entrevista a Steve Lake, Eicher reforça a ideia da improvisação livre como uma das marcas da ECM e, na qualidade de auditor, músico e produtor, o fundador da editora considera que ter ouvido Paul Bley[5] e Cecil Taylor, bem como outros músicos da chamada “Revolução de Outubro” de Nova Iorque, ampliou o seu interesse por todos os tipos de música. A par destes músicos, Eicher refere, ainda, como essencial a audição de Ornette Coleman (1930-2015), com a sua abordagem lírica e intensa, e Scott LaFaro (1936-1961) e Charlie Haden (1937-2014), que primavam pela escolha refinada de notas e versos.

Para o produtor, na década de 60, o free jazz estava em perfeita sintonia com o que defendia artística e socialmente, aspecto que o leva a defender a música como sinónimo de liberdade, por mais rígida que seja a forma musical. No entanto, Eicher considera que a edição não passa tanto por um processo de gosto pessoal[6], mas pela necessidade de editar música, espécie de «nostalgia de movimento deambulante/ era-se como se tudo por cima duma vontade de fazer uma asa», como grafado por Gancho, ou, segundo Rüedi, tal como afirmado pelo produtor:

I’m fascinated by the aura of space – by what sound-waves transmit to make a tone sing. I want to capture that tone exactly as I hear it. Sometimes I want to make this element even more distinct because the specific tone carried by each space would otherwise be lost forever. Music fills and fulfils space, exists in time, but has no fixed location.

Na verdade, o editor confessa que esta «aura of space» se encontra intimamente ligada com a influência dos filmes de Tarkovsky, Godard e Bresson,  exposta nestes termos: «At times, I experience music “cinematically”. What is felt through sound becomes a visual panorama. For instance, when I record in Norway, certain impressions and associations have an effect on the work we do in the studio: the light, the intense winter darkness.» Este aspecto é salientado no ensaio de Steve Lake para reforçar a afeção de Eicher por imagens a preto e branco, aspecto que, segundo o crítico, se encontra relacionado com o entusiasmo do produtor pela nouvelle vague e pelos trabalhos iniciais de Bergman, Pasolini, Rosi e Antonioni.

Com um catálogo surpreendente que apresenta artistas pioneiros, como Keith Jarrett[7] (1945), Jan Garbarek (1947), Chick Corea (1941-2021), Paul Bley, Gary Burton (1943), Egberto Gismonti (1947), Pat Metheny (1954), Jack DeJohnette (1942), os músicos do Art Ensemble of Chicago[8], Meredith Monk (1942) e Steve Reich (1936), a editora lança em 1984 a linha “New Series”, dedicada à música notada. A sua primeira edição é “Tabula Rasa” [ECM 1275] de Arvo Pärt (1935), editado originalmente em 1984 e reeditado em setembro de 2024, com um testemunho do produtor, em ECM podcast Vol. 1, sobre a gravação eletrificante deste álbum.

Porém, o espectro editorial é amplo e cativante, desde as composições de Pérotin (c. 1200), com uma performance brilhante do The Hilliard Ensemble [ECM New Series 1385], até à composição contemporânea e clássica, com o compositor georgiano Giya Kancheli (1935-2019), o pianista ucraniano Valentyn Silvestrov (1937), o compositor arménio Tigran Mansurian (1939), o compositor húngaro György Kurtág (1926), o compositor, maestro e oboísta suíço Heinz Holliger (1939), a violinista americana Kim Kashkashian (1952), o violinista e maestro letão Gidon Kremer (1947), a violoncelista alemã Anja Lechner (1961), o maestro austríaco Thomas Zehetmair (1961), o pianista britânico András Schiff, entre outros. A abertura e o ecletismo da ECM, conduziu Paul Griffiths a reiterar o cariz musical único desta editora, descrevendo-a como uma espécie de género em si mesma, cujo centro musical irradia fronteiras híbridas e confusas.

Fotografia KEITH JARRETT E MANFRED EICHER © LAENGER KLEIN

Assim sendo, e com um catálogo que suplanta mais de 1.700 álbuns lançados, dou nota de alguns marcos editoriais, a saber: “The Köln Concert” [ECM 1064/65] de Keith Jarrett, álbum duplo saído em 1975 e gravado ao vivo no mesmo ano na ópera em Köln, Alemanha, com design cover de B & B Wojirsch; “Luminessence” [ECM 1049], álbum com música de Keith Jarrett e improvisações do saxofonista norueguês Jan Garbarek, gravado em 1974, logo após a saída de “Belonging” e reeditado na “New Series” em março de 2024; o imperdível “Book of Days” [ECM 1399], saído em 1990, um álbum de Meredith Monk, com uma versão fílmica, que apresenta design de Barbara Wojirsch e fotografia de Dominique Lasseur, Jerry Pantzer e Moni Kellermann; “No End” [ECM 2361/62] de Keith Jarrett, saído em 2013 e que não foi esquecido pela jazz.pt, com notas e desenho na contracapa da autoria do compositor; “Play Blue” [ECM 2373] do pianista Paul Bley, álbum gravado ao vivo em 2008 no Oslo Jazz Festival e lançado em 2014, com crítica na jazz.pt; “Naked Truth – a Suite in Nine Parts” [ECM 2737] do trompetista israelita Avishai Cohen, saído em 2022 e escutado pela jazz.pt, com a colaboração de Yonathan Avishai (piano), Barak Mori (contrabaixo) e Ziv Ravitz (bateria); “Steve Reich. The ECM Recordings” [ECM New Series 2540‑42], álbum triplo originalmente lançado em 1978, 1980 e 1982, e reeditado em 2016 como edição limitada. Note-se que este álbum celebra o octogésimo aniversário do compositor, a par do idioma musical contemporâneo (“Music for 18 Musicians”, “Music for a Large Ensemble/Violin Phase” e “Tehillim”), e ostenta um booklet de quarenta e quatro páginas, com notas originais de Steve Reich, um ensaio de Paul Griffiths, intitulado «Three Acts of Recognition», e uma sessão fotográfica assinada por Deborah Feingold (1951), Barbara Klemm (1939), Dickie Landry (1938) e Tina Girouard (1946‑2020).

A par destas edições, saliento, ainda: “Isabela” [EDM 2739] do saxofonista israelita Oded Tzur (1984), um álbum que conta com a colaboração de Petros Klampanis (contrabaixo), Johnathan Blake (bateria) e Nitai Hershkovits (piano), fotografias de Caterina Di Perri e Sebastião Salgado, design de Sascha Kleis e cujo lançamento em 2022 não escapou à jazz.pt; “A Short Diary” [EDM 2749], álbum de estreia do baterista Sebastian Rochford (1973), em colaboração com o pianista Kit Downes (1986), foi lançado em 2023, com apreciação na jazz.pt, e apresenta fotografias de Clare Rochford e Alex Bonney, poesia de Gerard Rochford e design de Sascha Kleis; “A New Day” [ECM 2808] do pianista italiano Giovanni Guidi, em colaboração com James Brandon Lewis (saxofone tenor), Thomas Morgan (contrabaixo) e João Lobo (bateria), como anunciado pela jazz.pt, é um álbum que apresenta painting cover de Emmanuel Barcilon, fotografia de Sam Harfouche e design de Sascha Kleis; “Silent, Listening” [ECM 2799], o décimo segundo álbum do pianista norte-americano Fred Hersch, saído em 2024, que contempla sete peças originais e um conjunto de standards, cuja gravação foi desenvolvida por Eicher no auditório da Radiotelevisão suíça, em Lugano, cujas características acústicas são peculiares, tal como fixado pela jazz.pt.

Em 2013, a Trem Azul acolheu os encontros “ECM Perspectives”, que contaram com as presenças de Rui Neves, João Paulo Cotrim, Rodrigo Amado, Nicolas Masson e o grupo Parallels, tal como anunciado pela jazz.pt. Em 2023, a ECM aposta na série “Luminessence”, uma linha de reedição de clássicos em vinil, mantendo a elegância atmosférica das suas edições, com dois primeiros títulos diamantinos: “Gnu High” [ECM 1069] de Kenny Wheeler (1930-2014), gravado em 1975 em Nova Iorque, com a colaboração de Keith Jarrett, Dave Holland e Jack DeJohnette, fotografia de Tadayuki Naitoh e layout de B. Wojirsch; “Saudades” [ECM 1147] do percussionista brasileiro Naná Vasconcelos, como lembrado na jazz.pt.

O produtor refere que o trabalho de permanência editorial da ECM se assemelha a um «continuous movement of undercurrents and unexpected drifts, winds coming from different directions to become a central storm». Na verdade, este movimento de permanência atmosférica pode ser encontrado no design das capas, que se inscreve na história gráfica da cena jazzística. Neste âmbito, a editora suíça Lars Müller Verlag lançou duas obras de relevo sobre a cover art da editora. A primeira obra, intitulada Sleeves of desire: a cover story, é editada em 1996 e apresenta um conjunto de ensaios em alemão da autoria de Peter Kemper, Peter Rüedi e Lars Müller, traduzidos para inglês por Catherine Schelbert e, por fim, um ensaio de Steve Lake intitulado «Looking at the Cover».

Kemper sublinha que um dos segredos da estética da ECM é manter uma «poetry of proportions» e que Eicher e os seus designers[9] (e.g.: Barbara Wojirsch, Burkhart Wojirsch, amigo de longa data de Eicher que morreu prematuramente, e Dieter Rehm) «persistently stem the tide of information in order to reveal the enigmatic magic of what would seem to be obvious.» Segundo Kemper, o trabalho de Barbara Wojirsch, formada em pintura[10], assenta na transparência por redução, aspecto que é reforçado pela designer, assim: «Being impressed by the sheer quantity of things and messages day in and day out makes me want to remove as much as possible from my designs until only something essential, only a thought or a gesture, remains.»

Por seu turno, Kemper considera que Rehm, que trabalha com a ECM desde 1978, estabelece igualmente uma relação impressiva entre a pintura e as suas fotografias, o que concede às suas produções artísticas uma qualidade cinemática[11] forte e austera e às produções da ECM uma «unity of expression» que, ao combinar cor, forma e sons, se traduz numa estética da atmosfera. Aliás, segundo Lars Müller, o trabalho artístico destes dois designers é evocativo e aponta para o «between‑the‑lines potential of picture-making that takes design back to the basics of packaging music.»

Com efeito, Rüedi afirma que a essência sonora da ECM assenta na visão audível do mundo por Eicher e, por isso, para o autor a «ECM does not make “world music” but rather “worlds of music.”» De facto, a estética editorial da ECM traduz uma intersecção nobre entre fotografia, pintura, cinema e música, o que permite a criação de mundos visuais e atmosferas sonoras ímpares.

Em 2010, na senda desta primeira edição de luxo, surge a obra Windfall Light: The Visual Language of ECM – Edition of Contemporary Music dedicada aos designs exclusivos de capas, desde 1996, uma produção distinta que revela o cunho atmosférico das edições da ECM ao longo de mais de quarenta anos de edições. A história das capas, exposta nesta obra como uma espécie de partitura visual, acompanha a história da música reforçando a congruência entre aquilo que se ouve e o que se vê. Esta volumosa (quase quatrocentas e cinquenta páginas) e exquisite edição ostenta um catálogo ilustrado dos lançamentos da ECM, aproximadamente 1300 ilustrações coloridas e a preto e branco, bem como um conjunto de ensaios que reforça a colaboração artística entre Manfred Eicher e os designers Barbara Wojirsch, Dieter Rehm e Sascha Kleis.

A par destas duas edições, que celebram o frescor e a qualidade do catálogo artístico da editora, convém salientar ainda a publicação dedicada ao trabalho da ECM, intitulada ECM: A Cultural Archaeology, com a chancela da Prestel, datada de 2012, que contém ensaios, fotografias, biografias de artistas e autores, material de arquivo, entre outras preciosidades editoriais, que focam a amplitude cultural, artística e musical da ECM, enquanto pedra angular do mundo da música, com destaque para peças de instalação, fotografia, filme, uma antologia de notas de capa e uma mesa-redonda com Manfred Eicher, Okwui Enwezor, Steve Lake, Karl Lippegaus e Markus Müller.

Note-se que, a par do excelente catálogo musical da editora, a ECM tem apostado na construção de um catálogo fílmico que inclui, a título exemplar, curtas-metragens de Jean-Luc Godard[12]. Ainda a este respeito,  em 2009, Heinz Bütler e Manfred Eicher produzem “Holozän”, um filme baseado na história de Max Frisch («Der Mensch erscheint im Holozän»). 

Em 2014, é lançado o documentário notável sobre Charles Lloyd, intitulado “Arrows Into Infinity”, que revela o arco de vida do músico através de memórias, imagens de arquivos e testemunhos de Herbie Hancock, Ornette Coleman, Robbie Robertson, Jack DeJohnette, Don Was, John Densmore, Jim Keltner, Geri Allen, Larry Grenadier, Alicia Hall Moran, Stanley Crouch, Manfred Eicher, Michael Cuscuna, Arthur Monroe e Ayuko Babu, entre outros.

No mesmo ano, sob a égide de uma colaboração entre o realizador Prashant Bhargava e o compositor Vijay Iyer, ambos inspirados pelo centenário de Stravinsky‑Nijinsky, sai a lume o filme “Radhe Radhe: Rites of Holi”, com material bónus sobre o making-of, que explora e documenta outro rito primaveril, o festival hindu Holi, também conhecido como o Festival das Cores, que tem lugar na cidade de Mathura, no norte da Índia, berço mítico de Krishna, e que dura oito dias.

Ante a qualidade distintiva e atmosférica da editora, os cineastas suíços Norbert Wiedmer e Peter Guyer acompanharam o produtor Manfred Eicher e os artistas da ECM por todo o mundo, durante cinco anos. O resultado desta aventura poder ser encontrado em “Sound and Silence”, documentário estreado na Piazza Grande de Locarno em 2009, que ganhou o Berber Film Prize 2009. Este registo capta não apenas os momentos de produção musical, mas também oferece imagens dos processos de criação de compositores e músicos, tais como Arvo Pärt, Eleni Karaindrou (compositora), Dino Saluzzi (bandoneón), Anja Lechner (violoncelo), Anouar Brahem (Oud), Gianluigi Trovesi (saxofone), Gianni Coscia (acordeão), Marilyn Mazur (percussão), Nik Bärtsch (piano), Kim Kashkashian (violino), Jan Garbarek, entre outros.

Eicher, figura calma, assertiva e poeticamente evasiva, ao revelar nas entrevistas um grau de clareza aforística e paradoxal, continua a dedicar-se devota e rigorosamente à música. O seu legado atravessa a «mansidão de consciência», de que fala Gancho, como um «vento azul para cima» a criar atmosferas de uma «nostalgia de movimento deambulante».

[1] Com declarado wit, Peter Rüedi afirma no ensaio «The Audible Landscape» que não percebera, inicialmente, que a sigla ECM designaria «Edition of Contemporary Music», pois para ele ECM sempre fora uma abreviatura para «Eicher’s Collection of Music» ou «Eicher’s Collected Memories».

[2] Parece-me certeira a relação que Rüedi estabelece entre o carácter de Eicher e a sua paixão pelas paisagens do Norte natal, nestes termos: «I would not claim that landscape determines character, but Manfred Eicher’s passion for the edges of the world, at least in the far north, is telling. (“During the work on the film Holocene in Iceland,” he writes in the preface to Officium, “I listened again and again to the Tenebrae Responsories by Gesualdo and the song of Jan Garbarek’s saxophone. Morales suddenly appeared to me like the southern mainland over which the migratory bird from the north draws ever widening circles. Before the basalt sea.”)»

[3] A propósito do álbum inicial da ECM, oiça-se o que diz Rüedi: «But I did realize, from the very beginning, that ECM productions are made with exceptional care – for the first time, in fact, in 1969 on hearing Mal Waldron’s call “Free at Last.” By that time, free jazz was no longer the latest rage and the blacker-than-black vision of Monk propagated by Waldron was hardly the triumph of anarchy that a few largely European rebels and patricides of jazz traditions had accused it of being in the sixties. For Waldron “free” obviously meant something else, a quality that starts with structure and comes back to structure; in this respect the premiere set the stage for future Editions, although Waldron did not otherwise represent the aesthetic that has since become the hallmark of ECM.»

[4] No ensaio de Rüedi encontra-se a transcrição da posição forte de Eicher sobre a indústria, assim: «I don’t think that economic conditions are so bad that we will have to stop producing music. A lot depends on one’s expectations. I think I could produce music with reduced means and still remain true to all those principles we have talked about. Indeed, survival is not primarily dependent on economic trends. It is matter of keeping your distance from all those influences, images and sounds that keep pressing in on you, and robbing you of everything you may have thought of or listened to. You almost need a suit of armour to protect yourself against that onslaught.»

[5] Eicher confessa ter sido James Knapp (1939-2021), o trompetista que gravou, em 1980, o álbum “First Avenue” [ECM 1194], que lhe mostrou os primeiros álbuns de Paul Bley. O produtor percebeu, nessa altura, que a sua visão auditiva precisava de ser moldada e afinada. Nesta linha, Eicher reconhece ainda a influência do baterista Fred Braceful que o incitou a ouvir “Music Improvisation Company” em Berlim, no final dos anos 60, o que permitiu ao produtor o contato com a banda de Evan Parker e Derek Bailey. No entanto, as fontes de influência não cessam aqui. Nessa altura, o produtor viaja por toda a Europa e ouve música de Albert Ayler, Don Cherry, Gary Peacock, Sunny Murray, entre outros. Segundo Eicher, estes encontros fortaleceram a visão poética que assume nas suas edições e, numa analogia com a pintura, aclara: «Well, to use that analogy, on ECM you could find Jackson Pollock and Rothko at the same time. You could have Cy Twombly – to whose work I felt particularly close in the 1960s – and Tàpies, and Yves Klein and Fautrier. The whole thing is actually a net that has no frame – a canvas without an edge – the music is open ad infinitum.»

[6] Como exemplo paradigmático desta posição forte, o fundador admite não ter uma grande afinidade com a ópera, o que não impediu a saída a lume, em 2008, do álbum “All’Opera: Profumo di Violetta” [ECM 2068] de Gianluigi Trovesi.

[7] Ao referir o seu primeiro encontro com Eicher, é interessante a relação que Rüedi estabelece entre o trabalho de Jarrett e a ECM, enquanto obra de arte total, exposta deste modo: «Yes, I think it was 1974 when we first met in Baden near Zurich, at a Keith Jarrett concert in the modest auditorium of the local high school. The following day, Manfred Eicher arranged a long meeting for me with the pianist. The resounding success of this concert contributed substantially to the realization of Eicher’s dreams. Only recently has it become startlingly clear to me how many of Jarrett’s statements at that time apply to ECM as a whole, one might say, as a Gesamtkunstwerk.»

[8] Sobre o seu primeiro encontro com o “Art Ensemble of Chicago”, Eicher afirma: «I got the first records on Delmark and Nessa. The Jarman album on Delmark, As If It Were the Seasons, I listened to that all the time. And I wanted to see them, so I travelled to Paris and met with them, and slowly we began to work together. The Nice Guys album was the first recording, in 1978. It was also interesting to bring engineer Martin Wieland into this music. At first he was a little uncertain about it: “What is this?” It was new to him, but as he began to get a feeling for it, and went over the first borderline to somehow know what they were doing, he later was very much accepted by the Art Ensemble. And it was also just very nice to see them in this ultra-conservative area where the Studio Bauer was located, outside Ludwigsburg.»

[9] Acerca da relação entre Eicher, os designers e os músicos, oiça-se Steve Lake: «The Eicher/Wojirsch/Rehm team has never yet imposed a cover on a musician against his or her wishes. A few (very few) have insisted on, let’s say, more personal aesthetic approaches; the resultant covers stick out of the catalogue like the proverbial sore thumbs, and the discerning reader/viewer will have no difficulty in spotting them. Plenty of musicians, on the other hand, have delivered valuable materials that the designers have gratefully incorporated. I think of Barre Phillips’s map, Heinz Reber’s visually-arresting score for Mnaomai, Mnomai, Lester Bowie’s wonderful pre-World War I brass band photo from the family archive, the “free form” Arabic calligraphy Anouar Brahem located for Barzakh. There are many more instances. Keith Jarrett, Egberto Gismonti and Steve Tibbetts have all, at different times, taken up the camera and acquitted themselves quite honourably; examples of their photography can be found on ECM sleeves.»

[10] Leia-se o que diz Kemper sobre a íntima relação entre pintura e a cover art de Barbara Wojirsch: «The affinity with painting is often reflected in the language of her signs. Whether she uses watercolors or pen and ink, hieroglyphics or primitive, scribbled runes, the graphic elements are often endowed with the suggestive impact of psychological archetypes. Although the small CD format with its antiseptic, plastic “jewel-box” feel restricts the play of surface textures, of cardboard and paper, the tactile stimulus, the printing intensity, the washes and coatings, Barbara Wojirsch has made a virtue of necessity. The design of her CD book-lets, the artistic treatment of white and blank spaces, the arrangement of blocks of type, all of these elements seem to obey an almost anachronistic ideal of purity, imparting a magical sense of mystery that goes far beyond the mere emblematic use of signs.»

[11] Aspecto igualmente sublinhado no ensaio de Rüedi: «Manfred Eicher’s passion for cinematography (Godard, Bergman, Tarkovsky, Bresson, Angelopoulos) is the natural consequence of such synaesthesia: sound and image, word and gesture are overlapping, intensifying, relativizing, reflecting layers of a total scenario.»

[12] No LEFFEST, em 2010, Paulo Branco programa uma maravilhosa masterclass com o fundador da ECM, que inclui a visualização do filme “Sound and Silence”. Neste registo ímpar, ainda que seja apenas um fragmento do encontro, torna-se possível aceder ao tom da relação entre Eicher e Godard, bem como aceder à atitude poética do produtor, sobretudo quando este último afirma, de forma grácil, que conheceu Godard nos anos 90 e que passaram um dia inteiro, no seu escritório em Munique, a ouvir música e que teve a oportunidade de «discuss a lot without talking too much and exchanged thoughts without talking too much». Steve Lake, no ensaio «Looking at the Cover», acrescenta que Godard recorre com frequência ao universo musical da ECM para os seus filmes e que o departamento de design da ECM retribui o elogio, inspirando-se nos céus pictóricos de “Paixão”, filme de 1982, para a feitura das capas de “Trivium” [ECM 1431] do compositor e organista Christopher Bowers‑Broadbent, com a colaboração de Arvo Pärt, Peter Maxwell Davies e Philip Glass, e “Cello” [ECM 1464] de David Darling.

Sugestões de Leitura: Novidades na Filosofia, Setembro 2024

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Com a ajuda das fabulosas recensões críticas da Notre Dame Philosophical Reviews, apresentamos mais alguns títulos recentes do mercado editorial da filosofia.

Começamos com um volume de Tommie Shelby’s, The Idea of Prison Abolition, que analisa a proposta de Angela Davis sobre a abolição do sistema prisional nos Estados Unidos, criticando-a e propondo a sua transformação numa espécie de adaptação das prisões existentes de modo a executarem a sua função sem os defeitos que presentemente as regem. Depois, de Claire Horisk, Dangerous Jokes: How Racism and Sexism Weaponize Humor, uma análise de como a linguagem do humor perpetua hierarquias sociais, abordando vários actores nessa complexidade de relações como o público a quem a piada é destinada, o carácter meramente observacional ou a dimensão sócio-grupal da diminuição pelo humor, etc. Ainda, de David Papineau, The Metaphysics of Sensory Experience, uma abordagem ao debate entre realismo ingénuo e representacionalismo na epistemologia e na metafísica da experiência sensorial. E por último, de Danielle Allen, Justice by Means of Democracy, uma súmula do trabalho da filosofa especialista em pensamento clássico, fundadores da democracia americana e teorias contemporâneas de filosofia do direito.

Temos ainda, de Frederick Neuhouser, Diagnosing Social Pathology: Rousseau, Hegel, Marx, and Durkheim, um volume sobre filosofia política que traz paralelos entre a actividade das sociedades com a actividade dos organismos vivos, importanto a noção de patologia social de filósofos da antiguidade como Platão, os Sofistas e Tucidídes, relacionando-os com os autores contemporâneos referidos. De David Charles (ed.), The History of Hylomorphism, uma panorâmica sobre a famosa teoria aristotélica que postula todos os objectos do mundo natural como constituídos por matéria e forma. Ainda de Paul Thom, Opera as Art: Philosophical Sketches, um ensaio sobre filosofia de ópera a partir de Claudio Monteverdi, Orfeo (1607), e Alban Berg, Wozzeck (1925). Por fim, de Neil Van Leeuwen, Religion as Make-Believe, mais uma tentativa de enquadrar o fenómeno universal da religião numa teoria filosófica específica, neste caso numa versão do “fazer-de-conta” semelhante às teorias do autor alemão Hans Vaihinger, que distingue uma assunção factual de uma assunção ficcionada.

Avanços na Medição do Tempo: Relógios Nucleares

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. A construção do primeiro relógio nuclear representou um marco na tecnologia da associada à medição do tempo, o que elevou a ciência para além dos limites impostos pelos atuais relógios atómicos. Estes últimos, que já oferecem um nível de precisão extraordinário, baseiam-se nas transições eletrónicas em átomos de césio, que oscilam em frequências regulares quando expostos a micro-ondas. Esta metodologia permitiu até agora alcançar um erro de apenas um segundo ao longo de milhões de anos. Contudo, o relógio nuclear vai mais longe, utilizando a oscilação dos núcleos dos átomos, uma técnica que pode, em teoria, fornecer uma precisão bastante superior.

O princípio por trás deste novo relógio reside nas propriedades do núcleo de tório-229, cujas oscilações são incrivelmente estáveis e imunes a perturbações externas, como interferências eletromagnéticas. As transições nucleares, por serem mais resistentes a estes fatores externos, permitem uma medição do tempo com uma estabilidade ainda maior do que a proporcionada pelas transições eletrónicas dos relógios atómicos convencionais. Tal nível de precisão abre portas para o estudo de fenómenos quânticos e gravitacionais com um rigor que até agora era impossível.

A aplicação destes novos relógios nucleares não se limita à melhoria das medições do tempo. Eles têm o potencial de criar um impacto em áreas como a geodésia relativística, permitindo mapear com precisão milimétrica as variações gravitacionais da Terra. A sua extrema sensibilidade pode ser usada para detectar alterações minúsculas no campo gravitacional, o que pode ter implicações na deteção de matéria escura, um dos maiores mistérios da física moderna, e para a realização de estudos avançados sobre a interação entre a gravidade e as leis da física quântica.

Paralelamente, os investigadores do JILA, um instituto conjunto do NIST e da Universidade do Colorado, conseguiram recentemente medir os efeitos da relatividade geral a uma escala sem precedentes, utilizando relógios atómicos de estrôncio.

Einstein previu que o tempo flui de maneira diferente conforme a intensidade do campo gravitacional, e que, quanto mais próximo do centro de gravidade, mais lentamente passa o tempo. Os cientistas demonstraram este efeito com uma precisão impressionante, medindo a diferença da passagem do tempo entre dois pontos separados por apenas um milímetro. Esta experiência não só reforça a teoria da relatividade geral, como também demonstra que os efeitos gravitacionais podem ser estudados a uma escala microscópica.

O processo utilizado pelos cientistas do JILA envolve o uso de um “retículo ótico”, um sistema de feixes de laser que cria uma espécie de armadilha para átomos ultra-frios de estrôncio. Ao reduzirem a intensidade dos feixes de laser e distribuírem os átomos numa “grelha” mais uniforme e menos densa, conseguiram reduzir os erros causados pelas interações entre os átomos e a luz. Este método permitiu que os átomos oscilassem em sincronia durante um período recorde de 37 segundos, permitindo aos cientistas medir com exatidão a dilatação temporal prevista por Einstein.

Para além da precisão temporal, este avanço tem implicações em várias áreas. Relógios mais precisos podem melhorar a navegação espacial, especialmente em missões de longa distância, onde pequenos erros de tempo podem traduzir-se em grandes desvios de trajetória. Estes relógios também podem ser usados como sensores em áreas tão diversas como a física de partículas, a deteção de recursos naturais subterrâneos e o estudo da estrutura do universo. A capacidade de medir com precisão efeitos relativísticos em escalas microscópicas permite aos cientistas explorar a ligação entre os fenómenos quânticos e gravitacionais, um dos grandes desafios da física moderna.

Em conclusão, tanto o desenvolvimento do relógio nuclear como as inovações no uso de relógios atómicos de estrôncio representam avanços tecnológicos de grande importância. Estes novos relógios não apenas redefinem a forma como medimos o tempo, como também abrem novas possibilidades para a ciência fundamental, permitindo-nos estudar o universo com uma precisão e profundidade nunca antes vistas.

O Legado Histórico da Cultura Digital

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Herança Cultural: Como é que a passagem para o digital pode afetar o que deixamos para o futuro enquanto sociedade? Entender o passado é essencial para a preparação e construção de um futuro melhor. Ao longo deste artigo abordarei temas como o porquê de as civilizações antigas terem, ou não, uma considerável herança cultural deixada. É importante então refletir sobre a transição digital e sobre o rumo que a nossa sociedade está a tomar no que toca ao atual armazenamento de informações. Usarei assim uma abordagem a esses elementos bem como à sua evolução histórica com vista a entender o que de facto pode ser feito para prevenir que a nossa memória civilizacional caia no esquecimento. Palavras-Chave: Herança Cultural, Evolução, Transição Digital, Conhecimento.

Introdução

Ainda hoje o mundo se lembra das grandes civilizações antigas como a Egípcia, Grega, Romana e Maia, que marcaram o mundo deixando um legado duradouro com impactos sentidos na vida presente. No entanto, com o passar do tempo, a ideia de deixar uma marca para o futuro tem vindo a perder-se. Monumentos outrora construídos com fins ritualísticos para perpetuar a história e a adoração aos deuses foram substituídos por estruturas contemporâneas focadas na utilidade imediata, sujeitas à reconstrução se necessário. Antigamente muitas sociedades tinham como objetivo deixar a sua marca na história, construindo monumentos e estruturas diversas para que quem depois deles viesse soubesse que naquele local viveu e prosperou uma civilização. Este artigo tem a intenção de abordar o tema da transição digital a que a nossa sociedade tem vindo a submeter-se, passando de sociedade analógica e manual para digital e mecanizada.

Este é um tema de extrema importância pois é crucial que saibamos os impactos, positivos ou negativos, que esta transição pode trazer. Começarei por abordar como eram as civilizações antigas e como as sociedades do passado viam o seu papel no mundo, passando depois para uma comparação com a atualidade e com cada uma das épocas históricas. Perceber melhor as sociedades antigas e a forma como vemos o passado é essencial para melhorar o futuro. Atualmente os processos tecnológicos dos nossos macro e micro-cosmos encontram-se deveras mecanizados, onde o digital predomina. Isto parece algo de excelente: porém, e se se desse o caso de ocorrer um cataclisma digital à escala planetária? Que vestígios nossos encontrariam os futuros habitantes da Terra? Um dia mais tarde, saberão quem fomos, o que fizemos e que impacto tivemos? Será o nosso mundo digital sustentável? Estas são algumas das perguntas a que tentarei responder.

Irei abordar os legados das civilizações egípcia e grega devido a considerar que foram nestas duas gloriosas sociedades ancestrais que nasceram as bases do nosso mundo atual. Serve este texto como uma reflexão e previsão do futuro tendo sempre por base os acontecimentos do passado.

I PARTE — A ANTIGUIDADE

Civilizações Clássicas

É meu intuito reproduzir palavras de vários cientistas contemporâneos como Neil DeGrasse Tyson, Graham Hancock, Brian Cox e até Elon Musk, as quais nos dizem que as sociedades antigas são tão intrigantes ao ponto de levantarem questões a cada dia que passa. Embora se saiba já tanta coisa sobre a mundividência destas civilizações, há ainda muito por apurar. As sociedades do passado não são desconhecidas para ninguém: muitas delas foram a base para muitas das leis, pensamentos, valores, teorias e valores que demarcam a nossa sociedade atual; e deixaram um legado que perdura até hoje, desde a invenção da roda pelos nossos antepassados pré-históricos até às inovações científicas, artísticas e administrativas da civilização egípcia, passando pelos ensinamentos da civilização grega e pelos monumentos que os romanos nos deixaram.

Apesar de as sociedades antigas não possuírem as mesmas tecnologias e recursos de que hoje possuímos, isso não as impediu de prosperar na memória colectiva do mundo. A isto podemos chamar de herança cultural de uma civilização. Desde leis da física e da matemática, astronomia, medicina, filosofia, direito e até à própria constituição de valores e crenças, estas sociedades tinham de tudo e, embora existam ainda lacunas no entendimento que delas temos, cremos que essas lacunas representam precisamente o impulso que propulsiona o ser humano a fascinar-se por tudo o que conseguiram realizar.

No caso dos monumentos, como, por exemplo, as pirâmides do Egito ou os templos greco-romanos, ou até outras construções ancestrais, é importante entendermos o porquê de eles terem sido construídos. Pegando nas palavras de Graham Hancock, este diz-nos que “antigamente as construções daquilo que hoje em dia chamamos de monumentos tinham um motivo associado (…) fosse para adorar um deus ou um imperador, fosse para mostrar o poder daquela civilização para o mundo, fosse para deixar a sua marca na história, (…) todos eles tinham um motivo associado à sua criação”. Inscrições a partir de hieróglifos, ou até mesmo, mais antigamente, as pinturas rupestres, serviram para deixar gravado para o futuro histórias, conhecimentos e vivências das culturas antigas, que hoje são essenciais para entender melhor a história do nosso passado. Em suma, antigamente as sociedades tinham recursos e valores diferentes dos nossos e o facto de nos legarem obras, artefactos e monumentos que perduraram no tempo, perfazendo aquilo a que hoje se chama o devir, significa que a sua marca se consigna como um monograma indelével na história, de que a sociedade contemporânea pode usufruir, olhando para trás no tempo a fim de apreciar a sua conquista polivalente.

O Antigo Egito

Uma das mais fascinantes culturas para se estudar é a do Antigo Egito, civilização por muitos considerada como uma das maiores a agraciar o nosso planeta. O Antigos Egípcios foram e continuam a ser importantíssimos na atualidade, daí que Moustafa Gallada diga no seu livro que “durante o mundo antigo, até próximo à queda do Império Romano, o Egito foi considerado como o berço da civilização”. É no Egito que encontramos monumentos como as pirâmides, a esfinge e diversos outros templos. Todos eles representantes de como era o Egito antigo. Ainda hoje se levantam questões sobre o porquê ou como foram feitos, de que o exemplo mais contundente são as pirâmides. Muitos destes monumentos vêm acompanhados de hieróglifos. A partir deste sistema de escrita, podemos ver e conhecer a sua mundividência, as invenções e as crenças de quem os produziu, tornando assim a herança cultural dos egípcios numa das mais ricas de toda a história.

Não é só de monumentos e hieróglifos que vive o Egito antigo, pois temas como “os valores civilizados, a organização do pensamento, a organização do estado, ciência e medicina fazem parte da herança cultural desta civilização ancestral” (Gallada, 2018).

Ao longo dos tempos, o resultado do conhecimento desta civilização foi alvo de opressão por parte de diversos povos que com eles se cruzavam. No entanto “muitos relatos gregos e romanos sobre as glórias do Egito sobreviveram em escritos clássicos, (…) serviram para aumentar ainda mais o interesse pela cultura egípcia, além de criar uma aura de mistério, como a de um fruto proibido, em torno da sabedoria e cultura egípcias.” (Gallada, 2018)

Por isso, a herança cultural do Antigo Egito é enorme. Esta evidência leva a crer que muito daquilo que hoje os historiadores e cientistas, ou mesmo o vulgo, acham do Egito se deve maioritariamente a objectos, estruturas físicas e tecnológicas deixados para o futuro sob a forma de artefactos. Todos os monumentos, escritas, técnicas e pensamentos sobreviveram para que quem depois deles viesse soube que ali prosperou uma das mais belas nações.

Mas será que os egípcios conseguiriam deixar um legado tão rico e uma herança cultural tão vasta se estivessem dependentes de meios tecnológicos tal como hoje os concebemos? Para responder a esta pergunta, vamos assumir que os egípcios não tinham meios tecnológicos como os atuais, contrariando assim algumas teorias da conspiração. Caso o povo egípcio dependesse de máquinas e softwares para guardar a sua história, esta perder-se-ia à medida que os tempos passassem. Muita da mística associada a civilizações como a egípcia vem de objectos e artefactos característicos que nos foram legados por esta civilização, processo este legatário absolutamente crucial para que uma sociedade possa ficar carimbada na história do mundo. É difícil imaginar um mundo sem as pirâmides ou sem os hieróglifos, pois afinal, nunca é demais repetir, foram as civilizações que os produziram que deram a base para a nossa sociedade atual, e pensar que tudo isso pudesse ser apagado através de um click é extremamente assustador.

Neste caso, afirmar a dependência de uma sociedade do passado de softwares e conexões sem fios é arriscado. Na eventualidade de falharem, não havendo eletricidade com que a sustentar, não existindo sequer lugar para ficheiros perdidos e eliminados, atualizações de sistemas, etc., exclui-se a possibilidade de terem alguma vez logrado existir. Isto é, conceber uma sociedade tecnológica nos mesmos moldes que a nossa é algo de caricato. E dando-se a hipótese de alguma vez ter existido uma sociedade como tal, os seus ficheiros estariam seguramente comprometidos, os seus conteúdos perdidos e eliminados como se nunca tivessem existido. Este é um tópico de que falarei mais à frente e de maneira mais alargada.

A Antiga Grécia

Assim como o Egito, outra das civilizações que prosperaram, até hoje considerada como a base da nossa sociedade atual, é a Grécia Antiga. Os gregos foram os pais de certas áreas científicas, intelectuais e filosóficas sem as quais hoje o ser humano sentir-se-ia órfão: “a herança cultural deixada pelos gregos fora riquíssima e influenciara toda a civilização ocidental.” (Borges, 2011). Borges explica num artigo que “as concepções de beleza, retratadas nas obras de pinturas, escultura e arquitetura (…), suas produções filosóficas, científicas e teatrais foram fecundas e delinearam o pensamento universal até a Idade Moderna”, deixando assim clara a importância da Grécia Antiga no decorrer da história. Algumas das áreas onde a Grécia foi importante são a medicina, a religião, o teatro, a filosofia, a matemática, a física, literatura, o direito e a política. Os avanços nestas áreas levaram alguns teóricos a perguntar quais eram de facto os recursos tecnológicos de que a Grécia dispunha.

Para além da informação escrita que a Grécia Antiga nos deixou, podemos observar monumentos e artefactos, como por exemplo o Parthenon, diversos templos como o de Atenas ou o de Zeus, e o teatro de Dioniso, todos “representativos da cultura grega, da sua grandiosidade e ligação aos temas da religião e da filosofia” (Hancock).

Tudo isto faz parte da herança cultural da Grécia Antiga e é representativo das suas crenças, valores e da sua cultura como um todo. Assim como o Egito, acredito que grande parte do que hoje se pensa sobre a Grécia Antiga venha das coisas físicas que eles deixaram, todos os livros, monumentos, escritas e artefactos que fazem desta civilização ancestral uma das que possuem uma gigantesca herança cultural.

Como disse Brian Cox num determinado podcast “é necessário ter muita sorte para que a herança cultural de uma civilização ancestral chegue até nós”, frase complementada com as palavras de Graham Hancock quando no mesmo meio de comunicação diz “apesar de tudo o que sabemos sobre os Gregos, acredita-se que não sabemos nem metade do que realmente sabiam antigamente”. A crer nesta intervenção, esta civilização é maior e melhor do que o que deles especulamos. Mas será que a Grécia antiga teria chegado onde chegou se dependesse de tecnologia eletrónica e sistemas digitais como os nossos?

À semelhança do Egito, a Grécia não seria a mesma caso dependesse de meios tecnológicos; muita da informação daí decorrente perder-se-ia ao longo do tempo e a inevitabilidade dessa privação traria às sociedades dela legatárias (i.e., atuais) consequências inimagináveis — embora aqui se trate apenas de especulação, aliás de um ponto de vista pessimista que pretende que esta possibilidade ocorra numa sociedade imaginada como tecnológica e digital no passado apenas, não é de descurar a hipótese de que a nossa sociedade actual não sofra no presente consequências desastrosas devido a perdas de património cultural dos Antigos. De facto não sabemos quanto nos deixou, em termos quantificáveis, a antiguidade, e se não sofremos no dia-a-dia um complexo de orfandade.

Civilização Maia

A civilização Maia teve o seu início por volta de meados da Idade do Bronze no ano 2000 a.c. e perdurou até ao séc. XVIII. Os seus principais centros estavam localizados em Guatemala e no México. Vestígios dessa civilização também foram encontrados em El Salvador, Belize, Honduras, entre muitos outros países da América Central. Esta civilização foi “considerada como um ponto de referência em termos históricos e arqueológicos, atualmente mantém-se um pouco na sombra” (Akiyama, 2011) de outras civilizações com uma maior herança cultural deixada (exemplos do Egito, Grécia, Império Romano, etc.).

A maior prova de grandeza desta civilização são as suas construções características e a escrita hieroglífica com muitos dos seus traços “parecidos com os do Antigo Egito e com outras civilizações de diferentes partes do globo” (Hancock). Esta declaração é por si geradora de uma discussão merecedora de grande interesse, pois como é possível que duas civilizações de lados opostos do globo tenham características tão semelhantes?

Esta civilização, para além de possuir uma “arquitetura única e característica” (Navarro, 2008), ficou marcada na história por ser sintomática de “um povo de grandes conhecimentos (…)”, sobre o qual “estima-se que tivessem bibliotecas e conhecimentos sobre assuntos muito avançados para o seu tempo” (Hancock).

Sendo de facto este povo tão único e digno de interesse, porque é que não se ouve falar da civilização Maia com a mesma frequência com que se ouve falar dos povos referidos anteriormente? Isto talvez se deva à história de infelicidade que acompanha a América Central. “Em épocas como os descobrimentos (…) e na própria evolução da America Central (…) este território foi o palco de muitas guerras e conflitos, o que certamente destruiu imensos artefactos que nunca teremos oportunidade de ver e estudar” (Hancock).

Nos descobrimentos pós-quinhentistas, era hábito impor a religião do país colonizador ao país colonizado, e, muitas vezes, tudo o que remetia à cultura que os colonizadores tentaram erradicar era completamente destruído. Isto leva-me a concluir que a cultura Maia não tem um impacto maior na sociedade atual pois muita da sua herança cultural foi sendo destruída ao longo dos tempos — quer por desgaste natural dos objetos, quer por conflitos armados e invasões de outros povos.

Mas teria a herança cultural da civilização Maia tido um desfecho diferente caso tivessem tido acesso a meios tecnológicos do séc. XXI? Esta pergunta será provavelmente a única em que eu vejo a possibilidade de múltiplas respostas. Se por um lado acredito que as suas construções, escritas e conhecimentos seriam de extrema importância para o futuro da humanidade, por outro lado sabemos que esses vestígios nunca chegaram até nós. Talvez com tecnologia de armazenamento de dados como a atual, a herança cultural da civilização Maia estaria mais segura, caso fosse constantemente atualizada, e acredito que caso isso acontecesse a humanidade como a conhecemos hoje seria algo diferente.

Evolução histórica

A informação é algo que sempre assustou aqueles que estavam no poder. Neil DeGrasse Tyson afirma num podcast em que participou que “temos vários exemplos ao longo da história que nos mostram claramente que controlando a informação se conseguem controlar as pessoas”. Temos também vários relatos de que uma civilização destruía a herança cultural deixada por outra civilização como forma de impedir que aquele conhecimento fosse passado e como forma de demonstrar superioridade. Um exemplo claro disto é o Império Romano que alegadamente destruiu a Biblioteca de Alexandria, e uma das razões possíveis para isso é todo o conhecimento que lá estava ser visto como uma ameaça ao seu poder.

No entanto, nem só de conquistas e destruições se fez a história. A tecnologia evoluiu imenso e chegou eventualmente àquilo que temos hoje. Os processos que outrora eram manuais são agora mecanizados. A frase de Graham Hancock reflete bem esta evolução, quando diz que “antigamente as pessoas tinham que trabalhar usando as suas próprias mãos, depois conseguiram criar ferramentas (…) e agora estamos numa fase em que a pessoa nem precisa de segurar sequer na ferramenta pois tem uma máquina a fazê-lo por si”.

Aqui, entramos no tópico da digitalização e em como esta está a reformular a nossa sociedade, já que até se fala em humanos cyborgs num futuro não tão distante, juntando assim humanos a máquinas, robôs e inteligência artificial. Esta mecanização levou a que muitas artes e processos fossem perdidos ao longo do tempo: atividades artesanais como tapeçaria, olaria, entre muitas outras estão assim em vias de extinção. Isto tudo deve-se a nós humanos pois “em algum momento da história o ser humano achou por bem definir a sua evolução na lei do menor esforço”, como nos diz Neil DeGrasse Tyson em um podcast.

Porém a mecanização não foi globalmente má: permitiu-nos “alcançar feitos que nunca teríamos conseguido sem ela” (Tyson). Foi excelente em diversas áreas, como na construção, na ciência, na astronomia, entre tantas outras, pois deu-nos a possibilidade de “fazer muito mais com menos esforço, melhorando como nunca a produtividade do ser humano”, disse Brian Cox num podcast. Por exemplo, os estudos revelam que devido à evolução em áreas como a medicina, ciência, educação, entre outras “a população mundial cresceu de 500 milhões de pessoas ao redor do globo em 1500 para mais de 8 bilhões em 2023” (Harari, 2011).

Em suma, a evolução digital, apesar de poder pôr em causa muitos dos aspetos tidos como tradicionais, podem também trazer muitas coisas boas e que são fulcrais para o futuro do ser humano.

II PARTE — O DIGITAL

Atualidade


Este texto aborda de forma aprofundada a temática da herança cultural, destacando a importância de compreender como as sociedades contemporâneas estão a preservar as suas respetivas informações para as gerações futuras. Com os avanços tecnológicos que se verificam diariamente, apesar de estes representarem um progresso significativo e abrirem inúmeras possibilidades para o futuro, surgem também desafios relacionados com o armazenamento de informação, particularmente no que diz respeito aos suportes utilizados para a sua conservação.

O armazenamento seguro sempre foi uma necessidade fundamental para o ser humano, levando à criação de livros, inscrições em rochas e paredes, entre muitas outras técnicas de preservação. Atualmente, a digitalização assume um papel predominante, sendo que a maior parte da informação encontra-se agora em formato digital.

Guardar algo em suporte digital significa armazená-lo num formato não físico , acessível através de um dispositivo eletrônico e que requer uma atualização constante de forma a garantir a integridade total da informação. Caso contrário, pode correr o risco de se tornar inacessível e comprometida.

Antes de aprofundar este tema, gostaria de recuar algumas décadas, até à década de 1960, quando surgiu a fita de cassete, popularmente conhecida apenas por “cassete”. Estas eram descritas como “fitas magnéticas para gravação e armazenamento de áudio (…) revolucionaram os padrões de captura de áudio” (TechTudo, 2022).

As cassetes revolucionaram a forma como as pessoas armazenavam e acediam à informação, tornando-se uma tecnologia tão eficaz que foi adotada amplamente por diversos setores da sociedade. Desde música e filmes até materiais educativos e aplicações na área da medicina, quase tudo podia ser armazenado numa cassete. O seu impacto foi significativo, transformando por completo a forma como a informação era preservada e consumida.

“O problema da evolução tecnológica é que ela é muito rápida e aquilo que hoje pode ser considerado topo de gama e uma descoberta super inovadora, amanhã pode ser visto como antiquado.”: estas foram as palavras de Neil DeGrasse Tyson num podcast em que participou e é com elas que iremos continuar este debate.

Apesar da revolução trazida pelas cassetes, estas rapidamente caíram em desuso com o surgimento de uma nova forma de armazenar e aceder à informação: a disquete. A disquete, introduzida na década de 1970, veio substituir a cassete, no entanto, fora desenhada para oferecer funcionalidades semelhantes. O seu propósito era o mesmo: armazenar informação de forma a permitir um acesso mais fácil no futuro. A grande diferença era que as disquetes eram mais pequenas e como tal tinham menos capacidade de armazenamento, o que fez com que elas fossem “muito usadas para conteúdos mais ‘leves’ porém para coisas mais ´pesadas´ as cassetes continuavam a ser a preferência do público” (TechTudo, 2022).

Embora apresentassem várias limitações, estas duas formas de armazenamento dominaram o mercado durante alguns anos, até que, em meados da década de 1980, surgiu o CD. O CD é “fino e feito de policarbonato, usado para gravar principalmente dados e músicas, algo que até então nenhum dispositivo fazia com sucesso” (TechTudo, 2022).

Tal como os seus antecessores, o CD tornou-se rapidamente numa forma revolucionária de armazenamento de informação. No entanto, não durou muito tempo até que surgisse uma nova tecnologia de armazenamento: o DVD.

O DVD surge no final da década de 1990 e são descritos como “um formato digital criado para armazenar arquivos diversos, como sonoros e imagéticos, e possuem capacidade de armazenamento maior do que a dos CDs, devido a uma tecnologia óptica superior” (TechTudo, 2022). O surgimento do DVD teve um impacto significativo na sociedade, pois, até então, a gravação de conteúdos em formato de vídeo não era comum. Esta nova tecnologia permitiu armazenar não apenas áudio, mas também vídeo, revolucionando a forma como a informação era guardada e consumida.

Com a evolução da indústria e o avanço da tecnologia começaram a surgir outras formas de armazenamento de informação, uma das mais importantes foi o cartão SIM.

Conhecido também por cartão SD em algumas ocasiões, o cartão SIM transformou os conceitos de acesso à informação . Até então, todos os métodos de armazenamento mencionados anteriormente (cassete, disquete, CD, DVD) exigiam um leitor específico para aceder aos dados. O cartão SIM, por sua vez, surgiu integrado nos telemóveis, permitindo armazenar e aceder à informação de uma forma mais prática e imediata. Graças a esta acessibilidade o cartão SIM tornou-se uma peça essencial no que seria a ser uma espécie de revolução na indústria de armazenamento a partir dos meados dos anos 2000.

Avançando no tempo até à segunda metade da década de 2010, surgiu uma inovação que revolucionou ainda mais o acesso e o armazenamento da informação: as clouds digitais.

Atualmente, as clouds são umas das formas de armazenamento mais utilizadas, devido à sua grande acessibilidade praticidade. Trata-se de plataformas 100% digitais, acessíveis a partir de smartphones, computadores ou tablets. Alguns exemplos populares incluem o Icloud e o Google drive. Esta nova tecnologia veio resolver um problema recorrente ao longo da história: a necessidade de um leitor específico para aceder à informação armazenada, como acontecia com os formatos anteriores.

Neil DeGrasse Tyson afirmou, num podcast, que “esta transformação digital não só é boa para o avanço da sociedade como também é vista como algo essencial para alcançarmos sempre coisas maiores e melhores”. De facto, a evolução digital é rápida e está em constante mudança. No entanto, será que algo permaneceu inalterado ao longo dos tempos? Será que algo que sempre existiu, continua presente e perdurará no futuro?

Sim! A resposta está nos livros. É curioso pensar que um simples conjunto de folhas de papel com palavras e ilustrações se revelou mais resistente à mudança do que a tecnologia mais avançada da atualidade.

Os livros sempre foram considerados essenciais. Como afirma Graham Hancock num podcast em que participou “sem livros a sociedade nunca tinha avançado para além da Idade Média”. Embora esta frase possa ser polémica, contém uma verdade inigualável: ao longo da história, os livros têm sido o principal meio de transmissão de conhecimento, este mesmo transmitido de geração em geração, desde tempos remotos até à nossa atualidade.

Os livros são sinónimo de conhecimento, e conhecimento é poder. Como mencionado anteriormente, quem detém o poder raramente deseja que os seus súbditos tenham acesso ao conhecimento. Por isso, um dos primeiros atos dos povos colonizadores era a destruição dos livros que por sua vez destruía o saber das civilizações conquistadas. Exemplos marcantes deste fenómeno incluem o incêndio da Biblioteca de Alexandria, um dos episódios mais trágicos da perda de conhecimento da história.

Mas serão os livros mais seguros do que os sistemas de armazenamento atuais? A resposta a esta pergunta não é simples, pois ambos apresentam vantagens e desvantagens. Esta será, no entanto, uma questão que explorarei mais adiante neste artigo.

Em suma, os atuais meios de armazenamento da informação revolucionaram a sociedade e desempenham um papel crucial na evolução humana. No entanto, à medida que avançamos, essas tecnologias tornam-se rapidamente obsoletas. Esta é umas das grandes fragilidades da Era digital, pois exige que estejamos constantemente atualizados no que toca às mais recentes inovações. Caso contrário, corremos o risco de perder acesso a algo que, nos dias de hoje, é considerado fundamental: a informação.

Caso Prático

Para este caso prático resolvi fazer um questionário às pessoas, abordando alguns temas como o conhecimento que as pessoas têm de herança cultural, a herança cultural de algumas culturas abordadas anteriormente neste artigo e a previsão das pessoas para o futuro.

Os resultados obtidos aqui serão abordados e debatidos neste tópico do artigo e também irão contribuir para a último tópico de “Reflexão Final” com vista a darem algum suporte às respostas de algumas perguntas que foram sendo levantadas no decorrer da escrita deste documento. O questionário estará também no final do trabalho em forma de link.

As primeiras perguntas prenderam-se com entender se os inquiridos conheciam o termo “herança cultural” e se achavam que esta tinha ou não importância para o futuro de um país/civilização ou até possivelmente de outros países e civilizações. Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Conhece a expressão "herança cultural"?. Número de respostas: 40 respostas. Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Considera que a Herança Cultural de um país/civilização é importante para o desenvolvimento futuro dessa civilização/país? Ou até de outros?. Número de respostas: 40 respostas.

Ao analisar as respostas podemos ver que a larga maioria dos inquiridos sabia, ou pelo menos tinha noção do que era a herança cultural de um país, no entanto também gostava de destacar 12,5% dos inquiridos que afirmaram não conhecer a expressão.

Para além destas perguntas havia ainda uma secção de resposta aberta na qual os inquiridos poderiam explicar o que era para eles “herança cultural”. Das respostas que obtive gostava de destacar algumas:

  • Inquirido nº2: “Património ou patrimônio cultural é o conjunto de todos os bens, manifestações populares, cultos, tradições tanto materiais quanto imateriais, que reconhecidos de acordo com sua ancestralidade, importância histórica e cultural de uma região adquirem um valor único e de durabilidade representativa simbólica/material.”;
  • Inquirido nº26: “Herança cultural é tudo aquilo que é transmitido para as gerações futuras, desde crenças e hábitos a conhecimentos práticos. A herança cultural é transmitida e preservada através de imagens, escritas, construções ou verbalmente, ‘passando a palavra’ de umas gerações para outras.”;
  • Inquirido nº39: “É tudo aquilo que aprendemos dos nossos antepassados: as tradições, costumes, histórias, lendas, músicas e danças. A herança cultural pode ser transmitida por meio da educação, dos livros, dos museus e até mesmo por meio da linguagem.”.

 

Através desta análise consegui perceber que de facto os inquiridos sabiam, uns mais outros menos, o que era herança cultural, claro excluindo aqueles que previamente responderam que não conheciam a expressão.

Em seguida o questionário abordava as temáticas do Antigo Egito e da Grécia Antiga de modo a perceber o que as pessoas conheciam dessas culturas, como é que conheciam e o que achavam caso os meios tecnológicos tivessem estado presentes na época.

Começando com o Antigo Egito, a quase totalidade das pessoas respondeu de forma afirmativa quando questionados sobre se o Egito tinha uma grande herança cultural e se esta tinha sido importante para a evolução humana. Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Considera que o Antigo Egito tem uma grande Herança Cultural?. Número de respostas: 40 respostas. Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Considera que a Herança Cultural deixada pelo Egito foi/é importante para a evolução humana?. Número de respostas: 40 respostas.

Em seguida, e ainda no tema do Antigo Egito, o questionário inquiria sobre qual/quais a/as coisa/as que as pessoas associavam ao Egito, onde podemos ver claramente uma enorme quantidade de votos nos elementos físicos, como por exemplo as pirâmides. Esta pergunta levou-me a concluir que facto as pessoas associam muito mais a ideia de preservar a memória de um país/cultura em formato físico como monumentos e artefatos do que em formato falado de transmissão de valores e conhecimentos.

Foi ainda perguntado sobre o impacto que as obras feitas no Egito teriam tido na história do país caso nunca tivessem acontecido, pergunta à qual a quase totalidade dos inquiridos respondeu que o país não teria a mesma importância histórica que teve. Por fim, esta seção acabava com uma pergunta sobre o impacto da tecnologia no Antigo Egito, com 100% dos inquiridos a afirmar que a herança cultural do Egito seria afetada caso este povo tivesse tecnologia atual para guardar a sua informação.

Através da análise das respostas pude concluir que a opinião da larga maioria é de que de facto a tecnologia pode pôr em causa a herança cultural de uma civilização. Para complementar estes dados tinha ainda duas perguntas de resposta aberta (uma para cada gráfico) em que as pessoas podiam justificar a sua escolha e dar a sua opinião e das opiniões recolhidas gostava de destacar algumas: Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Imaginemos que o Egito Antigo tinha acesso a tecnologias do século XXI. Acha que a sua Herança Cultural teria sido afetada de algum modo?. Número de respostas: 40 respostas. Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Quando pensa no Antigo Egito o que vem á cabeça? (pode selecionar 1 ou mais opções). Número de respostas: 40 respostas. Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Considera que o Egito seria o mesmo e teria a mesmo importância histórica caso as suas obras não tivessem sido feitas?. Número de respostas: 40 respostas.

(Estas respostas são referentes à primeira pergunta sobre a importância das obras egípcias para a sua relevância histórica.)

  • Inquirido nº4: “As obras deixadas pelos egípcios ajudam, não só a compreender as antigas povoações, como também a aprender com os antigos, muita da ciência que temos hoje não seria tão avançada sem eles.”;
  • Inquirido nº16: “Na minha opinião não teria a mesma relevância, pois a sua cultura é muito conhecida em todo o mundo e sem a sua herança cultural não teria o mesmo reconhecimento, seria apenas mais um país igual aos outros.”;
  • Inquirido nº23: “A importância atribuída ao Egito rege-se em grande parte pelas suas criações. Aquilo que foi encontrado até aos dias de hoje e que continua a ser explorado, deste construções a técnicas utilizadas no antigo Egito fomentam o interesse por essa civilização. Muito está por descobrir e entender e isto reflete-se na importância histórica dessa civilização. Se não houvesse criações, provas da existência, poder e avanço do Egito, hoje seria uma civilização apagada, esquecida com o tempo. Por isso, as obras criadas foram fundamentais para que hoje o Egito tenha a importância histórica que tem.”;

(Estas respostas são referentes à segunda pergunta sobre o impacto da tecnologia no Antigo Egito)

  • Inquirido nº26: “Considerando que o uso das tecnologias ia ser aproveitado da mesma forma que acontece atualmente, a herança cultural do antigo Egito seria muito mais pobre. Na atualidade, a sociedade move-se pela lei do mais fácil e rápido e as tecnologias permitem que esse processo aconteça. Mais facilmente alguém escreve um texto na internet e/ ou procura informação na mesma do que recorre ao papel. Este processo enfraquece a herança material e torna tudo mais superficial e, ao mesmo tempo que mais acessível, também mais fácil de ser perdido. Se o antigo Egito tivesse acesso às tecnologias do século XXI, e as usasse da mesma forma, a necessidade de criação de elementos físicos diminuía exponencialmente e muito do que se conhece hoje do Egito não existiria. Talvez a importância que é dada ao Egito deixaria de existir, porque os elementos que cativam o estudo dessa civilização não existiriam.”;
  • Inquirido nº36: “Não haveria tanta história contada de forma tão especial como a vemos hoje no Egipto. Não haveria tantos monumentos e penso que não teriam tanta fé nos deuses e nas suas crenças o que afetaria muita no resto da história.”;
  • Inquirido nº19: “Se tivesse acesso às tecnologias do século 21, teria-se concentrado em desenvolver mais a tecnologia em vez de desenvolver a própria cultura.”.

Encerrando o tópico do Egito, passamos para a Grécia Antiga onde temos perguntas similares porém aplicadas a esta cultura. A quase totalidade dos participantes respondeu de forma afirmativa quando questionados sobre se a Grécia tinha uma grande herança cultural e se esta tinha sido importante para a evolução humana. Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Considera que a Grécia Antiga tem uma grande Herança Cultural?
. Número de respostas: 40 respostas. Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Considera que a Herança Cultural deixada pela Grécia foi/é importante para a evolução humana?
. Número de respostas: 40 respostas.

Em seguida, e ainda no tema da Grécia Antiga, o questionário inquiria sobre qual/quais a/as coisa/as que as pessoas associavam à Grécia, onde podemos ver uma maior distribuição dos votos por todos os campos, e com os fatores de ensinamentos, culturais e religiosos a serem mais associados aos gregos do que os fatores físicos como os artefactos e monumentos. Esta pergunta levou-me a concluir que neste caso as pessoas associam muito mais a ideia de preservar a memória de um país/cultura em formato de ensinamentos, como livros, e transmissão de cultura e valores do que propriamente com monumentos e artefatos.

Foi ainda perguntado sobre o impacto que as obras feitas na Grécia teriam tido na história do país caso nunca tivessem acontecido, pergunta à qual grande parte dos inquiridos respondeu que o país não teria a mesma importância histórica que teve, porém com algumas pessoas a opinar que a Grécia teria tido a mesma importância histórica caso as suas obras não tivessem sido feitas. Por fim, esta seção acabava com uma pergunta sobre o impacto da tecnologia na Grécia Antiga, com 75% dos inquiridos a afirmar que a herança cultural da Grécia seria afetada caso este povo tivesse tecnologia atual para guardar a sua informação, e 25% a achar que a herança cultural grega não teria sido afetada.

Estas respostas levam-me a concluir que devido a uma mudança de paradigma as opiniões mudaram. Se antes o Egito, conhecido por seus monumentos e obras físicas, teve mais pessoas a achar que as tecnologias impactam a sua importância histórica, neste caso da Grécia, sendo uma civilização mais ligada a temas culturais e da área do saber, algumas pessoas consideraram que as a tecnologia não teria afetado muito o que deixariam para o futuro. Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Quando pensa na Grécia Antiga o que vem á cabeça? (pode selecionar 1 ou mais opções)
. Número de respostas: 40 respostas.

Cada pergunta tinha também uma pergunta de resposta aberta onde os participantes poderiam justificar as suas escolhas e de entre as diversas respostas gostaria de destacar algumas: Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Considera que a Grécia seria a mesma e teria a mesma importância histórica caso as suas obras não tivessem sido feitas?
. Número de respostas: 40 respostas. Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Imaginemos que a Grécia Antiga tinha acesso a tecnologias do século XXI. Acha que a sua Herança Cultural teria sido afetada de algum modo?
. Número de respostas: 40 respostas.

(Estas respostas são referentes à primeira pergunta sobre a importância das obras gregas para a sua relevância histórica.)

  • Inquirido nº13: “Tal como o Egito, a Grécia também foi importante na constituição da nossa atualidade”;
  • Inquirido nº21: “Muita da importância histórica atribuída à Grécia Antiga deve-se às construções, escrituras e artes produzidas, que despertam o interesse no estudo dessa época. Por isso, a não existência das obras enfraqueceria a vontade de entender essa civilização, impactando a importância histórica da Grécia.”.

(Estas respostas são referentes à segunda pergunta sobre o impacto da tecnologia na Grécia Antiga)

  • Inquirido nº20: “O uso das tecnologias na atualidade diminui as criações físicas uma vez que a sociedade procura o mais rápido e acessível. Se na Grécia antiga se recorresse às tecnologias da mesma forma que hoje em dia, muitas das criações que marcam essa época não existiriam, logo a herança cultural seria afetada.”;
  • Inquirido nº24: “Tudo que é material tem tendência a passar por vários anos, o digital pode ser rapidamente apagado.”;
  • Inquirido nº40: “A tecnologia é capaz de afetar a forma como vivemos e fazemos coisas. Caso a Grécia antiga tivesse acesso a nossa tecnologia, isso também iria afetar a herança cultural deles.”.

A próxima secção do questionário é voltada para a evolução histórica e esta pretende entender a opinião dos inquiridos sobre temas como a digitalização e se ela põe ou não em causa a nossa herança cultural. Pretende ainda saber se muitos dos conhecimentos que se perderam ao longo dos tempos se deveram devido à crescente mecanização.

A primeira pergunta é referente ao aparecimento da tecnologia e se esta põe ou não em causa a herança cultural dos povos, nesta pergunta as respostas foram muito divididas com 50% a dizer que sim e 45% a afirmar que não. Por estas respostas podemos perceber que este tema é um tema um pouco polémico e que gera muita diversidade de opiniões entre o público. Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Acha que com o aparecimento da tecnologia a Herança Cultural dos povos atuais está em risco?. Número de respostas: 40 respostas.

A fazer a ligação entre este novo tópico e os anteriores vem a segunda pergunta em que os participantes são inquiridos sobre a perda de conhecimentos tradicionais ao longo dos anos e se acham que isso se deve à tecnologia. Cerca de 80% acreditam que de facto a tecnologia foi a causa da perda destes conhecimentos tradicionais, e somente 20% acreditam que a tecnologia e mecanização não foram os causadores desta perda.

Analisando estas respostas, posso concluir que a maioria das pessoas confirma a teoria de que as máquinas e sistemas digitais conseguem fazer o mesmo trabalho que uma pessoas, muitas vezes de melhor forma daí acharem correta a ideia de que a tecnologia veio acabar com muitas das práticas tradicionais.

Nesta pergunta havia ainda uma secção de resposta aberta onde os inquiridos podiam justificar a sua resposta, dos quais gostaria de destacar algumas respostas: Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Assumindo que muitos dos conhecimentos manuais de antigamente se foram perdendo ao longo do tempo. Acredita que isso se deu devido ao aparecimento e evolução mecânica e tecnológica?. Número de respostas: 40 respostas.

  • Inquirido nº19: “A utilidade da tecnologia nos dias de hoje é a facilitação da vida. Este interesse sobre a tecnologia estendeu-se, como sabemos, para todas as áreas na sociedade, havendo poucas áreas que continuam intactas à influência da tecnologia. Desde a medicina, à arquitetura, astronomia, todas as áreas hoje em dia têm o apoio da tecnologia. Essa prática não é necessariamente prejudicial, muito pelo contrário, se pensarmos nas melhorias que a tecnologia trouxe, nomeadamente na área da saúde, permitindo diagnósticos mais rápidos, eficientes e melhores respostas. No entanto, com essa facilitação, os processos manuais, que exigem mais esforço, conhecimento e técnica fôr deixados para trás e cada vez mais se vão perdendo no tempo.”;
  • Inquirido nº22: “Hoje em dia não é lucrativo, fazer o trabalho como antigamente, pois as máquinas vieram fazer mais depressa e com menos custos as mesmas coisas.”;
  • Inquirido nº15: “Os humanos em certo momento da história adotaram a lei do menor esforço, e muitas das coisas que requerem trabalho humano passaram a ser feitas por máquinas.”.

A pergunta final desta secção é direcionada diretamente ao tema do artigo, perguntado se os inquiridos acham que os meios digitais são a melhor forma de guardar e conservar a nossa herança cultural, ou se, por outro lado, acreditam que objetos/meios físicos são a melhor opção. Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Acha que os meios digitais são uma boa forma de guardar a nossa história? Ou por outro lado acha que através de elementos físicos (monumentos, escritas e artefactos) a nossa presença seria mais sentida futuramente?. Número de respostas: 40 respostas.

Apesar de algo repartido, as respostas tendem a cair mais para o lado de que os meios físicos seriam a melhor opção, visão da qual eu partilho. Esta pergunta tinha uma secção de resposta aberta, e, das respostas obtidas gostava de destacar algumas:

  • Inquirido nº22: “Se olharmos para as civilizações antigas, restou delas o que criaram, as obras físicas. Nesse sentido, se hoje deixamos todas as nossas marcas no formato digital, corremos o risco de sermos apagados da história, de não transmitirmos a nossa herança cultural e de não sermos um povo com interesse de estudo para as próximas civilizações. Muitas coisas boas resultaram do desenvolvimento da tecnologia, mas a cultura de facilitação, de “fast food” que vivemos pode condicionar o nosso futuro e a nossa marca. Podemos passar a ser nada, porque pouco construímos enquanto cá estivermos.”;
  • Inquirido nº18: “Seria melhor fisicamente pois duraria mais tempo e serviria de prova para mostrar que algo aconteceu. Considero o físico muito importante e acho que algo digital iria ser perdido em algum momento por falta de pessoas a acessar e por atualizações.”;
  • Inquirido nº40: “Acredito que os meios digitais, assim como um livro físico, tem poder de guardar e contar história futuramente.”;
  • Inquirido nº35: “Temos tanto interesse e curiosidade da história dos antigos povos, justamente por causa das coisas físicas que ficaram, por isso creio que futuramente algo físico seja tão chamativo como para nós agora.”;
  • Inquirido nº6: “Nada garante que os meios digitais permaneçam intactos futuramente. Ainda assim, a conjugação dos dois conceitos é o ideal para a preservação da Herança Cultural.”.

Para finalizar este questionário foram colocadas três perguntas onde os inquiridos faziam uma pequena previsão para o futuro. As perguntas consistiam em perguntar se as civilizações antigas abordadas anteriormente iriam continuar a ser fontes de interesse e de estudo no futuro, e sobre o avanço tecnológico e o impacto que este teria para nos fazer entender melhor o passado. A larga maioria dos inquiridos respondeu que “sim” à pergunta sobre as civilizações antigas e se estas continuariam a ser vistas como fontes de interesse e estudo no futuro, e respondeu também de maneira positiva quando questionados sobre se a evolução tecnológica iria permitir um melhor entendimento e estudo do passado.

Estas respostas estavam de acordo com o esperado e consigo concluir que de uma maneira geral as pessoas consideram de facto que a evolução tecnológica desempenha um papel essencial para o estudo do passado. Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Acha que o avanço tecnológico nos irá permitir entender e estudar melhor os acontecimentos do passado?. Número de respostas: 40 respostas. Gráfico de respostas do Forms. Título da pergunta: Acredita que no futuro as civilizações antigas como a Grécia e o Egito serão olhados como antiquados ou continuarão a ser fontes de interesse e estudo?. Número de respostas: 40 respostas.

Relativamente à pergunta sobre o avanço tecnológico e se este seria importante para estudar o passado, havia ainda uma secção de resposta aberta na qual os inquiridos podiam justificar a sua escolha. Das respostas obtidas gostava de destacar algumas:

  • Inquirido nº10: “Com a melhoria da tecnologia vai ser possível analisar artefactos que antes precisavam de pôr a vida humana em risco.”;
  • Inquirido nº40: “Pois o avanço tecnológico pode ser capaz de desvendar coisas do passado que ainda estão sem resposta.”;
  • Inquirido nº16: “A evolução tecnológica é uma peça fulcral para o entendimento do passado.”.

Para finalizar este questionário era pedido aos inquiridos para comentem a frase “entender o passado é essencial para construir o futuro”, e, das respostas obtidas, gostava de destacar algumas:

  • Inquirido nº6: “É através do passado que percebemos os nossos erros e acertos, e estudando isso podemos preparar o futuro muito melhor.”;
  • Inquirido nº26: “Aprender com os erros, saber o que foi feito e não correu bem e, do mesmo modo, entender o que correu bem, permite que tenhamos bases para construir o futuro. Sem passado não temos referências e por isso andamos ‘de olhos tapados’ a descobrir o mundo. Isto atrasa a evolução e condiciona-nos a começar tudo de novo, por isso conhecer e entender o passado é crucial para saber o que fazer (e não fazer) no futuro.”;
  • Inquirido nº24: “Entendendo aquilo que se fez, podem perpetuar-se hábitos que levam mais longe ou, pelo contrário, evitar comportamentos prejudiciais que já se tenham verificado.”.

Analisando estas respostas posso concluir que é praticamente unânime que as pessoas consideram que a chave para o futuro está no passado, e percebendo os acontecimentos e comportamentos antigos poderemos nos preparar muito melhor para o futuro.

De uma forma geral este questionário levou-me a concluir algumas coisas, de entre as quais gostava de destacar:

  1. A opinião popular é maioritariamente a de que a tecnologia não é nem foi uma coisa má por si mesma, porém a sua constante evolução ao longo dos tempos levou a que muitas coisas se perdessem.
  2. As civilizações antigas são muito importantes para a sociedade atual e possivelmente para as sociedades futuras também, no entanto isto só se deve ao facto de que certas civilizações nos deixaram uma herança cultural enorme, uma que resistiu ao tempo e conseguiu chegar até nós.
  3. O tema de qual é a melhor forma de preservar a nossa herança cultural é um tema que divide muitas opiniões, com diversas pessoas a achar que os meios físicos (monumentos, livros, artefactos, etc.) são a melhor forma, e com tantas outras a achar que os meios digitais são a melhor forma. Acredito então que a melhor forma de responder a este dilema seria juntar as duas formas. Juntando os meios físicos e digitais acredito que a herança cultural dos povos seria bem preservada, e acredito também que essa foi a opinião geral dos inquiridos.

Reflexão Final

Ao longo deste trabalho fui dando a minha opinião sobre diversos assuntos e perguntas que foram surgindo com o decorrer da escrita do mesmo, este tópico serve agora para explicar um pouco mais da minha opinião e para aprofundar um pouco mais também em algumas questões.

1. Será que os egípcios conseguiriam deixar um legado tão rico e uma herança cultural tão vasta se estivessem dependentes de meios tecnológicos?

R: Neste caso específico do povo egipcio acredito vivamente que caso os monumentos e artefactos não tivessem sido feitos, o Egito não teria a importância histórica que lhe é atribuída. Acredito nisto pois sou um grande adepto da preservação cultural em meios físicos pois considero que desta forma a herança cultural será mais resistente à passagem do tempo.

Como foi referido aqui neste artigo a passagem do tempo é algo que pode ser muito positiva pois traz novas inovações tecnológicas e científicas que ajudam imenso a humanidade porém é necessário ter em conta que a passagem do tempo requer uma constante atualização e aprimoramento dos meios usados o que me leva a crer que caso o Antigo Egito tivesse a sua herança Cultural guardada em meios tecnológicos, grande parte dela seria perdida com o tempo.

Acredito ainda numa opinião levantada por um dos inquiridos do questionário que diz que caso os egípcios tivessem meios tecnológicos como no séc. XXI eles preocupar-se-iam em evoluir os meios tecnológicos ao invés de evoluir a sua cultura. Deste modo acredito que caso esse fosse o caso a humanidade estaria num nível tecnológico muitíssimo mais avançado que o nível atual, porém em termos culturais acredito que o Egito não teria a mesma importância histórica que tem hoje em dia. Seria muito importante, mas acredito que não tanto como é considerado agora.

 

2. Será que a Grécia antiga tinha chegado onde chegou se dependesse de maquinário eletrónico e sistemas tecnológicos?

R: Assim como no Egito, acredito vivamente que a Grécia não seria a mesma caso tivesse-se tecnologia do séc. XXI.

Este povo é um tanto quanto diferente do Egito pois se no Egito as suas obras eram mais voltadas para objetos e construções físicas, na Grécia o foco foi em conhecimentos e avanços em diversas áreas da sociedade.

Como foi mencionado anteriormente a passagem do tempo é algo que pode ser muito positiva pois traz novas inovações tecnológicas e científicas que ajudam imenso a humanidade porém é necessário ter em conta que a passagem do tempo requer uma constante atualização e aprimoramento dos meios usados o que me leva a crer que caso a Grécia Antiga tivesse a sua herança Cultural guardada em meios tecnológicos, grande parte dela seria perdida com o tempo, porém não totalmente.

Acredito que os conhecimentos gregos em certa parte iriam beneficiar se fossem guardados em suporte digital pois chegariam mais claramente até nós sem correrem o risco de serem mal interpretados ou destruídos, ou simplesmente oprimidos por quem está no poder. Isto leva-me a crer que de certa forma a Grécia Antiga teria beneficiado dos meios tecnológicos.

Esta posição surpreende-me pois é algo que não pensava dizer, no entanto com tudo o que está associado a este tópico acho que caso os gregos tivessem tido tecnologia eles não só iriam continuar a ter uma enormíssima importância histórica, como uma herança cultural ainda maior, possivelmente. Visto que as obras gregas são focadas no conhecimento acredito que se eles tivessem a oportunidade de aprofundar mais esse conhecimento a humanidade como a conhecemos estaria num patamar infinitamente mais alto do que está atualmente.

 

3. Porque é que não ouvimos falar tanto dos Maias como dos dois povos que referi anteriormente?

R: A meu ver o problema reside em um distanciamento cultural demasiado grande para as civilizações europeias. Sendo que os Maias habitaram a região da América Central, e esta região possui, ainda hoje, culturas e povos muito característicos, é normal a civilização Maia não ser tão falada, contrariamente às civilizações anteriormente mencionadas que serviram de base para tudo o que temos atualmente, quer a nível social, quer a nível tecnológico.

Para além disso a herança cultural dos Maias foi muito afetada ao longo dos anos e não foi possível preservar tudo até aos dias atuais. Para além disto os Maias tinham a sua própria escrita e linguagem, sendo que muita dela ainda não foi decifrada o que torna muito mais difícil o estudo desta civilização.

4. O que acha sobre, apesar de tanta evolução tecnológica que ocorreu ao longo dos tempos, o livro ser o único meio que mantém consistente?

R: Este facto, para mim, é um dos mais fascinantes de todo o tema da evolução tecnológica. Considero que os livros sempre foram e continuam a ser uma das fontes mais credíveis de informação. Um exemplo claro é caso estejamos à procura de uma informação qualquer, se num livro estiver escrito uma coisa e num site qualquer da internet estiver escrito o oposto, o livro será sempre visto como a opção certa, mesmo que não o seja de verdade.

Os livros têm esta mística associada de que se alguém escreveu e foi publicado num livro é algo credível feito por alguém com conhecimento, e acredito que isto se deve maioritariamente ao controlo que é feito de quem publica um livro. Nem toda a gente pode ser escritora e antigamente esse cargo era ainda mais restrito, dado só a quem tinha de facto competência. Devido a isto acredito que este seja o principal motivo pelo qual os livros sempre se tenham mantido como a fonte primordial de guardar informação.

Apoio a que os livros continuem a ter a mesma relevância de armazenamento de informação que têm tido ao longo dos tempos e acredito que será isso que vai acontecer, porém a crescente digitalização assusta-me um pouco pois temo que em algum momento decidam passar literalmente tudo para meios digitais e que os livros comecem a cair em desuso. Espero que não aconteça, porém o medo é real e a ideia desta mudança é algo bastante concebível caso a humanidade continue a evoluir no caminho que está agora.

 

5. O que seria deste mundo digital caso uma catástrofe acontecesse no Planeta Terra?

R: Este tema das catástrofes naturais é algo que eu acho muitíssimo interessante, e que me dá muito prazer de investigar. Catástrofes como meteoritos cairem na Terra, tsunamis que causam destruição de civilizações, terremotos e outros são o prato do dia quando investigamos a história da Terra.

Para responder a esta pergunta vou assumir que a catástrofe falada é um asteróide cair na Terra, como já aconteceu tantas vezes no passado. Acredito, como é óbvio, que este evento levaria à morte dos humanos, se não de todos pelo menos da quase maioria de nós e naturalmente o mundo digital construído pela raça humana morreria também.

Este mundo digital requer pessoas a atualizá-lo e a mantê-lo estável a todo o momento, o que, naturalmente, não seria possível sem humanos a andar pela Terra. Isto eventualmente levaria ao seu colapso e subsequentemente à perda de toda a informação que nele estava armazenada. Por outras palavras, todo e qualquer vestígio do ser humano que estivesse em suporte digital morreria connosco.

Isto leva-me a concluir algo mais além desta pergunta. Será que os meios físicos como por exemplo as pirâmides do Egito sobreviveriam? A meu ver a resposta é afirmativa pois no período de vida das pirâmides elas já passaram por muitas catástrofes e sobreviveram para mostrar que antes de nós chegarmos a este mundo já tinha havido alguém cá antes de nós.

Tendo tudo isto em consideração acredito que a melhor forma de preservar a nossa história e a nossa herança cultural seja mesmo os meios físicos, capazes de resistir à passagem do tempo e que estarão por cá durante muitos anos para mostrar e dar a entender que nós também cá estivemos.

 

6. Que vestígios teriam os futuros seres da nossa presença aqui na Terra? Será que um dia mais tarde ninguém vai saber o que fizemos, quem fomos e que impacto tivemos?

R: Como referi antes acredito que a melhor forma de preservar a nossa herança cultural é deixando provas físicas da nossa presença na Terra.

Considero que atualmente a transformação digital está a decorrer a um ritmo muito rápido e isso preocupa-me. Os processos que outrora foram manuais agora são todos mecanizados e excluindo trabalhos que requeiram imaginação, criatividade e espontaneidade todo o resto poderia facilmente ser feito através de máquinas. Normalmente precisamos de um humano para supervisionar as máquinas, porém com os avanços da inteligência artificial provavelmente é uma questão de tempo até que todas as máquinas sejam supervisionadas por outras máquinas.

Assim como disse anteriormente acho que a transformação digital é muito boa porém acredito também que guardar tudo em meio digital e passar tudo para sistemas mecanizados e digitais não é, de todo, uma boa forma de preservar a nossa herança cultural.

Para responder diretamente às questões, acho que caso os humanos tenham a consciência de que o digital pode acabar um dia e se isso acontecer perdemos tudo o que construímos, e para isso fizerem esforços para deixar obras físicas em complemento com as digitais o futuro irá sim saber quem nós fomos e saberá a nossa herança cultural.

Se por outro lado a transformação digital não for controlada e todos os processos e informações passarem completamente para o digital acredito que é só uma questão de tempo até que tudo colapse e se perca toda a história humana.

Conclusão

Ao longo deste artigo fui me apercebendo de várias coisas, entre elas gostava de destacar a importância dos meios físicos na preservação cultural. A minha escolha de tema deveu-se a eu achar de antemão que os meios físicos iriam ser sempre melhores do que os digitais, e ao ver esta transição digital tão grande na sociedade atual assusta-me.

Espero que este artigo tenha respondido à pergunta inicial, pergunta esta à qual eu já tinha dado a resposta internamente há muito tempo. Espero ainda que este artigo sirva como uma forma de aviso e alerta para o futuro, pois se ele não for controlado será algo desastroso. As respostas obtidas no questionário realizado foram esclarecedoras de que a maioria das pessoas pensa como eu, provavelmente não totalmente, mas certamente nos pontos primordiais que guiaram a escrita deste artigo.

Em tom de conclusão gostava de agradecer a oportunidade ao professor Pedro Rosário por me ter deixado trabalhar este tema que me diz tanto de uma forma, espero eu, tão única e pessoal.

“Entender o passado é a base para a construção de um futuro melhor, através do passado podemos entender quem somos e de onde viemos para assim nos guiarmos neste caminho.” (Rafael Coelho, 2023).

Bibliografia

(Todos os sites e links listados aqui foram abertos pela última vez no dia 1 de junho de 2023 como forma de garantir que estão todos ativos e disponíveis para consulta)

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Akiyama, Eduardo (2011): Estudos sobre a Historiografia da Arqueologia Maia Curitiba: Disponível em: file:///C:/Users/rafae/Downloads/40497-150535-1-PB.pdf

Podcast Joe Rogan Experience, disponível em: https://open.spotify.com/show/4rOoJ6Egrf8K2IrywzwOMk

Link para o questionário realizado: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSfPj3LtdrngphOSRh4_Kbk_ExOGTaaUi5kksQGVgpJQQCVgGQ/viewform?usp=sf_link

Porquê (re)ler o prefácio de “A Volta no Parafuso” de Henry James?

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O leitor dado ao prazer imediato poderá desprezar a leitura de um prefácio. Julga-o uma introdução desnecessária; um embaraço ao seu envolvimento com o enredo. Mas as histórias começam num momento posterior e exterior ao seu início propriamente dito e, neste sentido, a leitura do prefácio de “A Volta no Parafuso” é condição necessária para a compreensão das dinâmicas intrínsecas à sua narração. O leitor que o despreze desconhecerá, pois, a sua complexidade narrativa. Isto porque esta não se trata somente uma inquietante história de fantasmas da época vitoriana. Trata-se, acima de tudo, de uma história sobre mecanismos de leitura; sobre efeitos que os livros – ou os seus narradores – prometem.

O prefácio de “A Volta no Parafuso” surge como uma antecâmara: pede ao leitor que retire os seus sapatos, que pendure o casaco e que se familiarize com a obra que tem em mãos. Corresponde a um espaço de receção e, simultaneamente, a um exercício de contextualização espacial e temporal da narrativa. Afinal, uma leitura interessada implica situar a história e conhecer o seu processo de transmissão.

Num primeiro momento, o prefácio revela como este romance remete para a situação tradicional de storytelling. É numa mansão vitoriana à noite, num círculo à volta da lareira, que “A Volta no Parafuso” é contada: “A história mantivera-nos, junto ao fogo (…) numa casa antiga exatamente como aquela que nos reunira”. Note-se como a relação entre a história e o espaço em que é contada é, aqui, potencialmente significativa. Se à data da leitura do prefácio é possível que se desconheça (ainda) o enredo, a proximidade com o fogo, elemento destruidor, surge já como um prenúncio de destruição. Mas mais do que localizar espacialmente a história, o papel destas páginas iniciais é o de clarificar a sua transmissão no tempo. Isto porque aquilo que chega assinado por Henry James é, na verdade, o resultado de uma complexa cadeia de narradores. E o prefácio tem uma função de esclarecimento destas figuras e das dinâmicas entre si.

Numa primeira instância, é apresentado o narrador que fala na primeira pessoa: o “eu”. Esta figura aproxima-se de James e tem relativa autoridade sobre a forma como os factos são apresentados. Desvincula-se da sequência de histórias contadas à lareira e concentra-se naquilo que lhe interessa mais: a reação de Douglas a uma dessas histórias (“Foi essa observação que suscitou de Douglas – não imediatamente, mas mais tarde nessa noite – uma resposta que teve a consequência interessante para a qual chamo à atenção.”) Antes de mais, é pertinente que se esclareça a resposta que aqui se refere. É na sequência do relato de um “caso em que uma dessas visões acontecera a uma criança” que Douglas conta a “A Volta no Parafuso” [1]. A sua resposta corresponde, portanto, à história deste romance. À promessa de algo mais terrível e retorcido do que aquilo que fora contado anteriormente.

Ora, o interesse do narrador pela reação de Douglas prende em si uma singularização desta personagem e, simultaneamente, uma transferência da ‘responsabilidade’[2] de narração. Para pensar este conceito de ‘transferência’ é necessário reconhecer que a história não está diretamente relacionada consigo. Este primeiro narrador surge à semelhança das restantes personagens reunidas à volta da lareira: “tendo eu [narrador] percebido que ele não estava a segui-la e tomado isso por um sinal de que ele próprio iria desencantar algo e que nós [ouvintes] só tínhamos de esperar”. É a utilização da primeira pessoa e a sua inclusão enquanto personagem que sugere este distanciamento em relação à história e uma permeabilidade aos seus efeitos narrativos. Significa isto que a sua relevância enquanto narrador não reside inteiramente no ato de narrar. Pelo contrário, reside também na seleção que faz de um outro narrador – um segundo elemento da cadeia de narradores. E esse outro, essa alteridade a quem é transferida a responsabilidade da narração, é Douglas.

A figura de Douglas foi já introduzida e dispensa, por isso, uma apresentação. Ainda assim, é relevante analisar a sua relação com a “Volta no Parafuso”. À semelhança do primeiro narrador, Douglas não é parte integrante da história. Atente-se o seguinte excerto que o confirma:

Depois perguntei-lhe se a experiência em questão fora com ele, ao que prontamente me respondeu:

— Oh não, graças a Deus!

— E o relato é seu? Foi você que o escreveu?

— Não, só a impressão que me causou é que está aqui escrita – bateu no peito. Nunca a perdi.

Apesar da confirmação de que não se trata da sua experiência, está implícita uma proximidade com a história. Mas como poderá Douglas estar próximo de algo que não experienciou? É através do relato/narração de terceiros – aqueles que de facto o experienciaram – que esta relação de proximidade se tece. O prefácio revela que Douglas conhecia a personagem feminina de “A Volta no Parafuso” (“Era a perceptora da minha irmã – disse calmamente – Era a mulher mais competente a afável que já conheci”.) Sublinhe-se como o conhecimento desta personagem o coloca numa situação de intermediário na cadeia de narradores. Como quem passa um testemunho, Douglas opera uma mediação entre Henry James e a mulher que viu (?)[3] estas aparições fantasmagóricas.

A utilização do termo ‘testemunho’ é ponderada: vem ao encontro de uma materialidade inerente à transmissão entre os narradores. Ainda que a circulação da história remeta para a tradição oral, há num suporte escrito material que a apoia. Antes da sua morte, a perceptora entrega a Douglas as páginas do seu relato. Estavam escritas “numa tinta velha, esmaecida, e com a mais bela das caligrafias”. Por sua vez, também Douglas, antes da sua morte – “quando a previa já” – confia o seu manuscrito ao primeiro narrador. “A Volta no Parafuso” é uma transcrição exata do texto de Douglas. É a passagem do testemunho que esclarece a relevância da análise desta sucessão narrativa. Não está em causa a autoridade e a credibilidade do narrador, mas a sua urgência de assegurar a continuidade da história, passando-a de mão em mão.

Esta urgência de partilha e continuidade está intrinsecamente ligada aos efeitos. As histórias surgem em resposta ao que fica gravado no peito. A apatia não é, pois, desejável no processo narrativo-literário: primeiro sente-se; depois escreve-se. E escreve-se para que o próximo o sinta também. Os três narradores [anteriormente identificados] transmitem esta história exatamente porque ela produz um efeito e porque esse resiste à sua transmissão. Mas de que se trata este efeito? A que se refere o narrador quando escreve: “com um efeito impressionante, começou a ler ao nosso pequeno círculo silencioso”?

Uma primeira análise revelará como o efeito que aqui se refere corresponde a uma espécie de inquietação. Esta deve-se – pelo menos em parte – ao mistério e à ambiguidade contidos na própria narrativa. De facto, a indeterminação da existência (ou não) de fantasmas parece ser mais significativa para a produção de efeito do que a confirmação da sua existência. A incerteza é fonte de um caos desordenado; de uma curiosidade inquietante que envolve o leitor até que encontre respostas. Mas na “Volta no Parafuso” não há respostas concretas. Perdura a ambiguidade e, neste sentido, o leitor terá de ser sensível ao seu segredo.

A par da inquietação que deriva da narrativa há também aquela associada ao seu adiamento. É apenas na quarta noite que Douglas começa a contar a história. Até então, procura conquistar o interesse do seu auditório e atiçar[4] a sua curiosidade (“Amanhã saberão o que ela soube” e “Logo se verá, não me quero adiantar”). Promete uma história fantasticamente terrível sob uma única condição: teriam de esperar para que a pudessem ouvir. O adiamento surge como um mecanismo de seleção do auditório. Há aqueles para quem a espera fomenta o interesse e aqueles que, por outro lado, não estão dispostos a esperar: “Oh, não posso esperar pela história!” Anseiam entregar-se de imediato às emoções terríveis outrora prometidas. “Mas isso apenas fez com que o seu pequeno auditório final fosse mais compacto e selecto, e se mantivesse, junto à lareira, preso a uma excitação comum.”

Pensar estas “emoções terríveis” conduz novamente à reflexão sobre os efeitos. Mais do que uma inquietação, esta história provoca no seu leitor um terror profundo. E de onde deriva este terror? O vínculo entre a dimensão fantasmagórica e a infância afigura-se, desde logo, como a receita para um arrepio. É na dicotomia entre a assombração e a inocência que a história assume os seus contornos terroríficos.

Para além disso, também a cadeia narrativa parece ser um ingrediente para o terror. Há uma reprodução contínua do ato de narração através de três narradores. Todos eles estão mortos e, ainda assim, a história e os seus efeitos permanecem vivos. Em “Obra Aberta”, Umberto Eco sugere a morte do autor como uma continuidade da obra. Esta associação entre texto órfão e a sua continuidade é útil à compreensão deste romance. Mas não será a morte do autor narrador também uma forma de potenciar o terror? Aquando da impossibilidade de formular respostas satisfatórias, segue-se um esboço de possíveis hipóteses:

  1. A morte do narrador significa que este não poderá reclamar a sua história. Àquilo que conta, poderão ser acrescentadas interpretações crescentemente terríveis que nunca serão corrigidas.
  2. Ouvir/ler a narração de alguém que se sabe já morto poderá contribuir para a terrível dimensão fantasmagórica da narrativa.

Note-se como a reflexão tecida sobre o terror não tem um teor exclusivamente subjetivo. Ao longo do prefácio, o auditório de Douglas revela progressivamente aquilo que lhe interessa numa história (“Naturalmente que várias vozes declararam que isso conferia à história o mais precioso valor.”) Este círculo de pessoas à lareira deseja envolver-se num horrível processo de destruição. Porque há um prazer que daí advém. Este processo torna-se especialmente prazeroso porque não os envolve diretamente. Trata-se, pois, de um fascínio voyeurista; de um interesse do leitor pelo “delicioso” sofrimento do outro. E este fascínio terá tanto mais intenso e prazeroso quanto maior for esse sofrimento.

Foi já referido que esta história é a resposta a uma «história sobre a aparição de um fantasma a uma criança. Mas se “a criança dá um efeito mais retorcido, como um parafuso a que se desse mais uma volta”, a inclusão de duas crianças nesta história dá-lhe um efeito ainda mais terrível: “Dizemos claro – exclamou alguém –, que são duas voltas! E também que queremos saber o que lhes aconteceu.” O parafuso surge, aqui, como uma metáfora para a intensificação do efeito. É mais ou menos apertado consoante os ingredientes da narrativa. Torna-se evidente que o título “A Volta no Parafuso” não é exterior ao universo da narração. Esta interioridade reside na sua indissociabilidade aos efeitos da narrativa. Isto significa que o título não só deriva destes, como os determina: como uma espécie de condicionamento inicial da leitura.

Diferentes títulos para a mesma história conduzirão, portanto, a leituras múltiplas e distintas. Por isso, é relevante analisar de que forma diferentes línguas respondem à problemática da adaptação dos títulos. Em italiano, por exemplo, o título para este romance é “Giro de Vite”. A palavra “vite” significa parafuso e corresponde ao plural de “vita” (vida). Neste sentido, “Giro de Vite” parece sugerir um efeito concreto no leitor – um rodopiar da sua vida. Mas a problemática do título transcende a temática da tradução e manifesta-se – inclusive é – no seio da mesma língua. Em português, o romance surge, por vezes, sob o título “Calafrio”. É um título (eventualmente) mais desviado, mas, ainda assim, contido na narrativa e elaborado ao longo prefácio: “Não era um cenário de dar calafrios, mas oh!” Cada um destes títulos evidencia um efeito ou um aspeto narrativo particular. Mas quem decidiu intitular este romance de “A Volta no Parafuso”? Ainda que comummente associado àquele que ‘detém autoridade’ sobre a história, este título é discutido entre as suas personagens no interior do prefácio:

— “Qual é o título que lhe dá?

— Não tenho nenhum.

— Oh, eu tenho – interpus. Douglas, porém, sem me prestar atenção, já começava a ler com uma voz clara e distinta, que aos nossos ouvidos transmitis a beleza da caligrafia da sua autora.”

O leitor que despreze a leitura desde prefácio desconhecerá a obra de tal forma que até o título surgirá como um enigma. O prefácio abre portas à descodificação do romance. E assim como a história que Douglas conta necessita de algumas palavras introdutórias para uma verdadeira compreensão, também este romance o necessita. Mais do que uma espera ou um adiamento, estas páginas são tempo de preparação do leitor. Pois que este ensaio sirva também para atiçar a sua curiosidade e fomentar a sua aptidão de leitura. Que sirva de convite à (re)leitura deste prefácio e de todos os outros outrora desprezados.

Notas:

  1. A referência ao título do romance surge, aqui, apenas para efeitos de simplificação e de esclarecimento da história contada por Douglas. A leitura do prefácio revelará que a personagem não intitula a história: “Qual é o título que lhe dá? Não tenho nenhum.” O título “A volta no parafuso” surge a posteriori da sua narração, ainda que nela esteja contido. Uma reflexão mais elaborada sobre o título encontrar-se-á adiante.
  2. O termo ‘responsabilidade’ poderá ser problematizado. A sua intenção não é conotar a narração com um sentimento de obrigatoriedade, mas remeter para o compromisso/pacto inerente à relação narrador-leitor.
  3. Mas viu mesmo? Serão os fantasmas reais? A ambiguidade da obra reside essencialmente na temática dos fantasmas e da sua (in)existência. (?) surge como símbolo do que permanece uma incógnita.
  4. As entradas de dicionário sugerem diferentes possibilidades de significação para ‘atiçar’: (1) Atear ou incitar o fogo; (2) Estimular ou incentivar; (3) Afrontar ou assanhar; enfurecer. No ato de “atiçar a curiosidade do leitor” reside uma dualidade de significação. Isto porque, durante a sua narração, Douglas está a estimular o seu auditório e, simultaneamente, a atear a fogueira: “Voltou-se para o fogo, pontapeou um tronco” e “atiçou de novo o fogo”. Está em causa a associação da arte de contar/ouvir histórias a algo que arde. A história é contada e perdura enquanto houver algo para arder. O fim do fogo é, consequentemente, o fim da história.

A economia da atenção e das emoções: uma crise contemporânea da identidade

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Numa entrevista, Reed Hastings, o patrão da Netflix, declarou que o maior concorrente da sua empresa era o sono dos indivíduos, e que como qualquer empresa, o objetivo era combater os concorrentes. Apesar do choque desta fórmula, a ideia atrás já tem algumas décadas. Com efeito, entre os anos 70 e 90, economistas e filósofos notaram uma modificação profunda da economia. Enquanto a economia clássica de produção de bens materiais fundava os seus cálculos na escassez das matérias, a economia contemporânea tem cada vez mais a ver com a escassez das capacidades de recepção dos consumidores. Há umas décadas, a produção cultural (apesar de ser enorme) ainda guardava uma forma de equilíbrio com as capacidades de atenção que um indivíduo podia dar. Mas com o desenvolvimento da internet e a revolução numérica, um abismo nasceu de repente entre por um lado o acesso quase infinito aos produtos, e por outro lado a atenção que podemos dar. Hoje basta comprar um computador ou simplesmente um telemóvel, e logo temos acesso a milhares de milhões de livros, filmes, imagens, músicas, vídeos, informações, isto tudo com a facilidade e a rapidez de um clique.

Diariamente, só no YouTube, o equivalente de várias décadas de visualização entra no site. Perante essa superabundância de conteúdos, as nossas capacidades de atenção são terrivelmente limitadas. E foi este desenvolvimento desproporcionado que induziu uma redefinição de uma parte da economia. A questão “como produzir um produto com o menor custo possível e poucos recursos?” passou a ser “Como é que o produto vai chegar a ser visto ou consumido pelo indivíduo?”. Ou seja, passámos de uma economia que pergunta na direção do produto a uma economia que pergunta na direção do consumidor. O recurso raro, já não é a matéria-prima, mas a atenção do consumidor.

A melhor resposta a este abismo teria sido uma forma de educação dos indivíduos para que escolham a maneira como dão a sua atenção neste mundo agora pletórico. O desenvolvimento da economia da atenção necessitava em contrapeso o desenvolvimento de uma ecologia da atenção, onde o indivíduo tinha aprendido o controlo da sua atenção no horizonte da formação da pessoa que é. Mas não foi a resposta que o nosso tempo deu. Em vez de adaptar a abundância aos indivíduos, fizemos para que os indivíduos se adaptem à abundância: redução do sono, multiplicação do tempo passado em dupla-tarefa onde forçamos a nossa mente a prestar atenção a várias coisas em simultâneo, isto tudo para correr atrás do comboio da oferta infinita que nos rodeia. Os psicólogos e os professores foram então em primeira linha para ver as consequências. A explosão dos casos de déficit de atenção (os famosos TDAH) nos últimos 20 anos está intimamente ligada à superatenção que a nossa sociedade criou. Ao puxar o ser humano além dos limites de uma atenção normal, estraçalhou a própria capacidade de dar atenção. E como na questão do ovo e da galinha, a causa e o efeito misturam-se, de tal forma que continuamos a cavar o problema quando desenvolvemos uma atenção cada vez mais rápida e efêmera. Vários estudos mostraram, por exemplo, que as sequências de imagens nos filmes eram mais curtas, isto para reduzir o tempo de atenção que o espetador dá antes de uma nova atenção a uma nova imagem. Bastava fazer uma experiência: pôr várias pessoas de idades diferentes a ver um filme dos anos 60, e ver se os mais jovens não acham o filme aborrecido, demasiado lento, pouco mexido, etc. Difícil, porém, culpar este julgamento da parte de uma geração que deixamos, logo com 8-10 anos, passar horas a ver milhares de vídeos de 30 segundos.

Neste aspeto, as aplicações modernas constituem um ponto fundamental na questão da identidade. Se podemos dizer que a atenção que escolhemos dar a certas coisas determina a formação da nossa identidade (intelectualmente, emocionalmente, socialmente, etc.), as novas aplicações inseriram-se na vida dos indivíduos como respostas estratégicas à superabundância da “oferta atencional”. No entanto, as promessas revelaram-se uma ilusão dramática, que podemos resumir em 4 paradoxos.

1) Quanto mais posso ser diferente, quanto mais sou previsível.

A maior parte daquilo que retém a minha atenção é-me proposto, algoritmicamente, a partir do que supostamente vai me agradar, isto relativamente à certas escolhas feitas no passado. Ou seja, o meu passado hipoteca o meu futuro, no sentido que estou levado a querer, gostar e escolher não tanto através do meu laboratório de curiosidade, mas através de tendências não escolhidas. O problema que sublinha as médias numéricas é que criam objetos que serão os meus objetos de atenção consoante ao registo da minha atenção passada, ou consoante ao registo das atenções dos outros. Não se trata aqui de negar a utilidade que pode ter uma ferramenta que ajuda a descobrir coisas provavelmente interessantes para mim (músicas, livros, pessoas, ideias, etc.), mas de considerar o perigo e o paradoxo de um mundo numérico onde supostamente podemos evoluir em todas as direções (porque não somos teoricamente limitados nas nossas escolhas), mas que realmente nos encerra num túnel de atenção (porque na prática vamos onde a aplicação nos conduz). Quanto mais a minha identidade pode ser fecundada pela variedade infinita à minha volta, quanto mais fico num cantinho previsível e predeterminado.

2) Quanto mais posso alcançar os outros, quanto mais estou sozinho.

A possibilidade de comunicação hoje não tem horários nem fronteiras. Não vale a pena lembrar as vantagens indubitáveis que isto trouxe. Mas temos de distinguir a possibilidade de falar virtualmente com os nossos parentes e amigos e a possibilidade de encontrar pessoas novas virtualmente. Esta distinção parece importante sobretudo relativamente aos jovens, porque construimos a nossa identidade através dos encontros da nossa vida. Nas aplicações onde encontrar pessoas novas (Instagram, Tinder, etc.) desenvolveu-se um mecanismo (ligado à própria estrutura das aplicações) sugerindo que o melhor vem sempre a seguir. Ou seja, aquilo que aparece como uma resposta a um desejo funciona na verdade como a fabricação de uma falta e de uma frustração. No caso de Tinder este mecanismo atinja o seu paroxismo, no sentido que transforma a própria definição de um encontro: o que será o outro, senão o precursor de um outro outro, e este o precursor de um outro outro outro, etc. O mecanismo, em si, não é novo: é o da máquina slot. A esperança de ganhar com a próxima moeda tem mais valor que a moeda em si. Assim é que uma pessoa pode ganhar muito, mas arruinar-se na mesma em benefício do casino. A invasão deste mecanismo no espaço íntimo dos encontros entre pessoas, isto é muito mais recente. No casino, este potencial de ganho é que me leva a perder e sair sem ter nada. Mas que tal quando se trata de encontros entre pessoas? A figura virtual do sempre “outro” é que me leva a deixar a todos sem nunca viver nada senão o meu próprio desejo.

Se pensarmos bem, até é lógico, no sentido que se o verdadeiro objetivo das aplicações de encontro fosse realmente o encontro, o número de utilizadores seria muito mais baixo, e o volume de negócio muito menos alto. Até poderíamos dizer que o conceito da aplicação trabalharia contra o próprio interesse, o que é pouco provável. Se estas aplicações fazem tanto dinheiro, é precisamente porque o encontro não é o objetivo, mas meramente o story-telling. O objetivo, ele, parece ser mais uma perversão e monetização de certas emoções: tentar reter-nos o mais tempo possível ao substituir o prazer do encontro pelo prazer da recompensa individual do “match”. Os dados não mentem: em 2023, por 80 milhares de milhões de utilizadores inscritos, Tinder registou 70 milhares de milhões de match (e 1460 milhares de milhões de swipes). Quanto aos encontros entre pessoas, ninguém fez estatísticas… Posso encontrar milhares de pessoas, multiplicar relações, porém a frustração e o vazia da espera são a minha companhia.

Em 1948, Orwell inventou o Big Brother para simbolizar a maneira como a redução das palavras e das ideias permitia a manipulação de uma população: tirem-lhes a subtileza infinita das palavras e das ideias, e já não conseguirão pensar! Antes de 2048, esperemos que alguém tão genial como Orwell escreve um 2084, onde Big Mother reduzisse as emoções e as suas expressões ao ponto dos indivíduos não conseguirem se inventar na complexidade de emoções partilhadas: tirem-lhes a riqueza subtil das emoções, e já não conseguirão ser pessoas; finalmente serão objetos!

3) Quanto mais posso explorar a minha personalidade, quanto mais me torno impessoal.

Entre o foco dado às profundezas do “eu” na literatura romântica do século XIX e depois com o aparecimento da psicanálise, parecia que os indivíduos eram cada vez mais capazes de explorar às singularidades do ser. É interessante notar que esta busca do “eu” autêntico começou ao mesmo tempo que a sociedade mercantil ajudou a formar identidades voláteis engatadas ao ato consumidor e aos produtos (Não será comum ouvir: “diz-me o que consomes, direi-te quem tu és?”). Mas esta contradição é só aparência: Edward Bernays, o sobrinho de Freud, pioneiro do marketing, aplicou as teorias psicanalíticas do tio à criação das técnicas de marketing. Ou seja, será tão surpreendente constatar que essa ideia de um “eu” único e autêntico se tornou argumento marketing? Os românticos identificaram a identidade às emoções, portanto o marketing fez delas a base instável de uma identidade indecifrável que vamos descobrindo nos atos de compras. As nossas emoções são assim provocadas, instrumentalizadas e modificadas até poderem se materializar num produto, no qual gozamos a partir da esperança de um lucro simbólico (não é por acaso que a ideia mercantil do proveito acabou por fazer parte da linguagem emocional: aproveitar das férias, aproveitar de uma pessoa, etc.)

No que diz respeito à nossa questão, o problema que isto criou foi que a intersubjetividade agarrou-se aos objetos de tal forma que as nossas emoções, supostamente o mais íntimo do nosso ser, não conseguem ser pensadas completamente fora de uma rede objetiva. Assim a intersubjetividade tomou a forma de uma interobjetividade. Para ilustrar isto, podemos pegar no exemplo muito interessante da jornalista inglesa Catherine Townsend, que escreveu artigos para o jornal The Independent sobre a sua vida íntima. Num artigo ela conta a maneira como se prepara para um encontro amoroso. A mulher vai comprar roupa e encontra um vestido bonito, mas caro. Tem uma amiga que lhe diz “este vestido terá o efeito pretendido, garanto-te, vais ficar tão sexy!”. Compra logo a roupa. A roupa foi aqui o objeto através do qual ela se achou sexy e talvez o objeto através do qual realmente o homem vai achá-la sexy. Este pequeno exemplo mostra como os objetos tornam-se vetores de emoções, expressão de si próprio ou criação de emoções nos outros. Assim as emoções agarram-se cada vez mais a uma estrutura material que supostamente vai apoiá-las ou dar-lhes realidade. O objeto vem carregado de uma certa dose de eficiência emocional.

Em si, podia ser genuíno, e afinal de contas, será que não usámos sempre objetos como metáforas de emoções? Metáforas, sim, ; suporte, talvez não. Numa metáfora conseguimos manter uma diferença entre a “coisa” e a imagem na qual ecoa. No caso que estamos a falar, o objeto é que faz a realidade da emoção, e esta não exista fora de uma rede objetiva. E quanto mais os objetos emocionais tomam o lugar das emoções, quanto mais entregamos as nossas emoções à sociedade, que primeiro vai mandar a maneira de expressar a sensibilidade do indivíduo, e depois vai mandar a própria sensibilidade. Sem nos aperceber, acabamos por viver experiências que achamos altamente íntimas, pessoais, mas que afinal se tornam impessoais. Daí nasce um conformismo emocional e uma despessoalização da sensibildade: já não conseguimos pensar o íntimo fora do “mercado emocional”. Neste sentido temos de perceber que muitos conceitos modernos, que são supostos descrever um estado emocional, na verdade não podem ser definidos sem um conteúdo objetivo (em vez de subjetivo). Podemos pensar aqui no conceito emocional recente de “cocooning”. Se perguntarmos à qualquer pessoa, a definição vai sempre falar de uma emoção muito vaga (um “bem-estar”) através de objetos quanto a eles muito específicos: sofá, manta, luz baixa, televisão ou ecrã, roupa quente e confortável, etc. E muitas vezes, o sentimento de “cocooning” é um momento de intimidade entre pessoas. De novo, a intersubjetividade, tão importante na construção da identidade, não consegue encontrar um caminho fora do suporte de objetos que dão realidade à emoção: a intersubjetividade tornou-se interobjetividade. De resto, não é por acaso que o termo de “cocooning” foi inventada por uma consultora de Marketing.

4) Quanto mais livre, quanto mais dependente.

O último paradoxo, talvez o mais perigoso, tem a ver com o fenômeno da dependência e a perda da criatividade. Se criássemos um prato que tivesse a capacidade de se encher sem dar a percepção do enchimento, qualquer pessoa comia mais que pretendido. As aplicações modernas funcionam exatamente desta forma. A diferença é que, enquanto o estômago conheça a sensação de saciedade, a mente, ela, não a conheça. Assim as aplicações funcionam como o lugar onde quanto mais consumo, quanto mais quero uma dose regular ou extra, sem fim. Uma coisa que notaram os analistas de dados é que, a medida que uma pessoa passa tempo numa aplicação, quanto mais muda de conteúdo rapidamente, ou consome vários conteúdos em simultâneo. E isto não por causa de não gostar do conteúdo, mas porque a mente reclama o prazer de mudar, o prazer de passar para algo outro (cf. o segundo paradoxo). O prazer não vem do conteúdo que receba, mas da pura mudança de conteúdo, e qualquer atividade que não consiste em passar de um prazer a um outro acaba por parecer absurdo à mente. Nestas condições, um minuto começa a parecer uma eternidade.

A partir daí, a mente perde algo essencial: o desejo de procurar uma fonte de prazer num horizonte de longo prazo. Se as dependências são tão terríveis e criam ansiedade e depressão, é porque elas não deixam lugar algum ao futuro. Prisioneiro de um presente bulímico e incerto, o individuo perde a capacidade de desenhar um futuro, perde a capacidade de se focar demoradamente em qualquer coisa, perde a capacidade de manter um pensamento estável nele próprio, e até perde a capacidade de tomar uma decisão ponderada.

Vários estudos mostraram que a dependência e a sobrecarga de dopamina (hormônio que recebemos quando sentimos prazer) acelerava a morte das células do cérebro. Empanturrar-se dos prazeres passivos e efémeros das aplicações induz assim uma perda da vontade e da criatividade, duas coisas fundamentais na formação de um indivíduo. Um prazer criativo por norma vem quando acabamos algo. Este sentimento vem em nós como a recompensa do nosso esforço e da nossa determinação, e assim assegura-nos que o nosso trabalho não é inútil, e mantém-se no horizonte de uma realização. Ou seja, o sentimento de prazer não é simplesmente prazer, mas também a fonte de qualquer motivação. Se sobrecarregarmos uma mente de prazeres, ela perde a razão que a faz procurar outras coisas. Muitas pessoas viciadas em aplicações sentem uma contradição, pois no fundo sabem que não estão a fazer aquilo que vai realizar quem são, mas ficam como desmentidos pela descarga de prazer que experienciam. Aí é que é o momento de se lembrar que a felicidade vai além de uma descarga de dopamina. Por isso a inteligência tem de ser “educada” a perceber isto. Portanto, em vez de nos preocupar tanto com o desenvolvimento da inteligência artificial, talvez chegou o tempo de nos preocupar da degeneração da nossa inteligência, e reencontrar o sentido da criatividade.

Como estes distúrbios são psíquicos e não físicos, ninguém parece altamente preocupado, e por enquanto achamos normalíssimo proibir drogas aos menores, quase todos acham absurdo proibir certas aplicações aos menores. No entanto, o mecanismo da dependência é o mesmo, e os danos no indivíduo tanto perigosos. Simplesmente menos visíveis e mais difíceis de medir. Além desta razão, a sociedade também tem dificuldade em perceber como é que a nova geração, repleta de conforto material, possa sofrer tanto, e por isso chama-a de fraca. Após tempos de falta, de dificuldade ou de tédio, é complicado enfrentarmos a ironia estridente do facto do nosso tempo sofrer precisamente da abundância, da facilidade e da distração. E a tarefa é grande, porque precisamos agora usar a disciplina para reaprender a necessidade da falta, o prazer da dificuldade, a fertilidade do tédio. Há pouco tempo essas coisas não tinham a ver com escolha e faziam parte da vida. Hoje, eis que somos obrigados a recriar artificialmente esses elementos através de uma autodisciplina, o que é muito difícil.

Conclusão :

Como se resolverão esses quatro paradoxos da crise de identidade contemporânea? Uma transformação do ambiente atencional parece necessário, tanto a nível social (através de leis capazes de limitar esses danos, e também através da educação) como familiar (através de atitudes comuns) como individual (através de autodisciplina). Cada indivíduo deveria retomar a questão de Nietzsche: será que já amei algo ou alguém ao ponto em que este amor fez brotar em mim a ideia que, para dar a este sentimento precário a realidade de uma arquitetura vibrante, seria disposto a assumir uma parte substancial do meu tempo e da minha energia, e aguentar dificuldades com paciência e fé? De uma certa maneira, temos de voltar a ser crianças. Aqui está uma ideia que parece ridícula, numa época onde precisamente culpamos às pessoas e sobretudo os jovens pela falta de maturidade e a incapacidade de ser adultos. Mas apesar da etimologia, a infantilidade tem mais a ver com a adolescência do que com a infância. A criança é sempre uma vontade de futuro e uma criação de si próprio. Basta ver uma criança que aprenda a andar: vontade de se ultrapassar, persistência na dificuldade, aceitação da dor para se realizar, orgulho e prazer no sucesso. Temos de voltar a ser crianças que aprendem a andar. “O homem seria metafisicamente grande se a criança fosse seu mestre” (Kierkegaard).

Finalmente, ainda teremos de dar mostra de audácia, à imagem de Diógenes, que ao receber a visita do grande Alexandre na magnificência do seu estatuto, simplesmente pediu que saísse da frente do sol dele. Meditemos a frase de Diógenes, pois hoje em dia, os Alexandres a brilhar a nossa volta são muitos, e o nosso sol, o da nossa identidade, anda a ser tapado.

O Fim do Liberalismo?

Texto de Filipe Nobre Faria, Universidade Nova de Lisboa, Ifilnova, e de Jonathan Anomaly, Universidad de las Américas, Centro de estudios en Filosofía, Política y Economía. Este artigo resume o seu recente trabalho académico, Can Liberalism Last?.

O liberalismo teve dois séculos de ascendência. Os ideais liberais de propriedade privada, comércio livre, liberdade de consciência e neutralidade estatal espalharam-se pelo Ocidente através de revoluções políticas históricas, como a Americana (1776) e a Francesa (1789). Após um século de conflitos e duas guerras mundiais, a maioria dos países europeus adoptou instituições liberais. Outros países seguiram o exemplo sob a pressão das instituições internacionais criadas depois de 1945.

Os países liberais do Ocidente gozaram de relativa paz e prosperidade, bem como de inovação científica e social. Mas o descontentamento nestes países está a crescer. Mesmo os liberais mais progressistas começam a perceber que a confiança na ordem internacional do pós-guerra está a diminuir.

Num artigo recém-publicado, defendemos que o liberalismo é provavelmente insustentável. As tendências recentes de baixa confiança social, conflito (identitário) intergrupal e a queda da natalidade resultam das instituições liberais e das normas sociais que elas promovem. Embora estas instituições possam não ser as únicas responsáveis por esses problemas, elas estão mal preparadas para os resolver. Em termos evolutivos, o liberalismo assemelha-se a um beco sem saída, mesmo que a curto prazo promova oportunidades de riqueza e inovação.

Imigração e confiança social

Os liberais tratam a liberdade de circulação como um princípio moral fundamental. O compromisso liberal com a abertura – permitindo a livre circulação de pessoas e capitais – tende a derrubar fronteiras e a incentivar as empresas e partidos a importar mais imigrantes do que os cidadãos das democracias liberais desejam.

As grandes empresas apoiam a imigração em massa porque esta traz trabalhadores qualificados, aumentando a produtividade, e trabalhadores não qualificados, que reduzem os custos de produção. Os partidos políticos liberais-igualitários têm incentivos para permitir a entrada de pessoas pouco qualificadas, pois estas são mais propensas a votar em partidos que oferecem benefícios sociais generosos. Já os intelectuais liberais progressistas parecem apoiar a imigração em massa porque acreditam que a diversidade é mais importante do que a coesão grupal.

Neste sentido, as democracias liberais tendem a promover a imigração em massa – através de fortes grupos de interesse – mesmo que a maioria dos cidadãos desses países se oponha a ela. À medida que este processo avança, a confiança social tende a diminuir. De facto, uma meta-análise recente demonstrou que uma maior diversidade étnica conduz a uma menor confiança social.

A erosão da confiança social reduz o voluntariado e aumenta os gastos governamentais em serviços públicos, que tentam compensar a falta de solidariedade social. Um baixo nível de confiança social também é um indicador de maior corrupção política, de menor obediência a mandatos governamentais e de maior desconfiança entre os grupos étnicos que habitam um país.

Uma vez iniciado este processo, as instituições liberais têm poucos recursos para lidar com as consequências, pois devem manter-se neutras quanto à superioridade de qualquer cultura ou código de conduta. Os regimes não-liberais, pelo contrário, podem simplesmente usar o poder do Estado para fechar fronteiras, deportar imigrantes indesejados, e limitar o poder de empresas e partidos que contrariem os interesses dos líderes políticos ou dos seus cidadãos.

Natalidade e estabilidade

O compromisso do liberalismo com a neutralidade estatal estende-se a questões de comunidade e família. Os governos liberais não podem privilegiar um estilo de vida ou uma religião em detrimento de outra sem renunciar aos seus compromissos basilares.

Mas numa época em que a natalidade está a diminuir em todo o mundo, este tipo de neutralidade política pode ser autodestrutiva.

As pessoas mais religiosas e politicamente conservadoras têm mais filhos. O mesmo acontece com os países: os mais religiosos e conservadores têm taxas de natalidade mais altas do que os países mais liberais e seculares.

Se as instituições liberais e as atitudes que promovem acelerarem a queda da natalidade, elas serão substituídas por outras que favoreçam o aumento da natalidade. A substituição de instituições mal-adaptadas por outras mais adaptativas ocorrerá por evolução cultural.

Nos países afectados, os cidadãos religiosos e conservadores provavelmente superarão em grande número os progressistas seculares. Com a continuação da imigração em massa, esse processo pode acelerar ainda mais. De facto, se as tendências actuais se mantiverem, os imigrantes muçulmanos oriundos de África e do Médio Oriente tornar-se-ão a maioria da população em vários países europeus durante o próximo século.

É claro que estas tendências não estão consolidadas. As coisas mudam. As revoluções acontecem. As sociedades desmoronam-se. As ideologias mudam. E os países entram em guerra, seja contra nações estrangeiras ou internamente. Prevemos que, neste século, o liberalismo recue e que os governos se tornem cada vez mais iliberais na forma como respondem aos desafios colocados pela livre circulação de pessoas e capitais, e pela queda da natalidade.

A religião e o nacionalismo são forças poderosas que podem levar a conflitos intensos entre grupos. No entanto, também promovem melhor a natalidade e a coesão social do que as instituições liberais. Em última análise, os vencedores do jogo evolutivo da vida são os que mais se reproduzem e se adaptam, e não apenas os que acumulam poder ou recursos num dado momento.

Arqueologia Transmontana: o passado arqueológico de Favaios e o Castro de Vilarelho

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Texto de Cláudia Barros, Mestre em Arqueologia (Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho); Doutoranda da Escola de Letras Artes e Ciências Humanas (ELACH), da Universidade do Minho; CEHUM – Centro de Estudos Humanísticos (Universidade do Minho), NETCULT – Núcleo de Estudos Transculturais. Resumo: Resguardada no interior transmontano, Favaios guarda em si uma grande riqueza histórica, arqueológica e cultural. Conhecida pelo famoso “Favaíto”, pelas intermináveis vinhas e pelo pão de trigo e de centeio – feito com tanta dedicação pelas padeiras da rua do Capelão Morais –, a vila preserva um passado arqueológico de castros, epígrafes, cerâmica, com toques da Idade do Ferro e dos romanos que lá chegaram. Neste artigo será apresentado o Castro de Vilarelho, um exemplo do património favaiense bem conservado na memória dos seus habitantes e à disposição de qualquer aventureiro que o deseje visitar. Palavras-chave: Favaios; Castro de Vilarelho; Idade do Bronze; Idade do Ferro; Arqueologia.

Vista de una ciudad desde lo alto de una montaña

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Vila de Favaios. Cortesia Paulo Ribeiro

Favaios ergue-se em pleno coração do Douro como uma recôndita aldeia vinhateira com raízes na cultura da vinha que tanto lhe deve. Conhecemos Favaios pelo seu doce e licoroso Moscatel Galego Branco e pelo pão que não encontra igual em mais canto nenhum de Portugal. Favaios é o limiar entre o sonho e o descanso, onde de manhã podemos escutar o cantar dos pássaros, e, em tempo de vindima, ver e ouvir as carrinhas a chegar à adega e observar os trabalhadores dedicados a este ofício que tanto suor lhes traz, mas que tanto prazer lhes dá ao final do dia.

De mão dada com a criação de animais, a produção cerealífera de centeio, milho e trigo, e a cultura do olival, surge no meio deste cocktail transmontano a vinha – quem viria a trazer fama à zona e prestígio à região num futuro bem próximo da nossa realidade. A cultura da vinha potenciara, nomeadamente nas freguesias de Alijó e Favaios, uma dedicação total dos seus habitantes à produção vinícola, tendo sido “autorizada a sua comercialização como vinho beneficiado sob a designação de «moscatel».” (Almeida & Almeida, 2004: 347).

Roma fez-se através da máxima panem et circenses[1], Favaios simplesmente trocara o circo pelo vinho, e mantivera o pão. Mas não só de pão e vinho se ergueu esta aldeia, o seu passado também guarda relíquias que poucos conhecem e apenas alguns recordam. O castro de Vilarelho é um desses exemplos. Até ao momento, foram-se fazendo alguns estudos sobre a zona e a Cultura Castreja no Noroeste de Portugal; contudo que mais haverá para descobrir?

Ocupação humana no concelho de Alijó

A presença humana no concelho de Alijó remonta aos períodos da Idade do Ferro, apesar de que “ao longo do I milénio a.C. os habitats da Idade do Bronze tinham esgotado a sua permanência activa, mas alguns deles estarão na origem dos castros da Idade do Ferro” (Almeida & Almeida, 2004: 347). Almeida e Almeida (2004: 347) salientam ainda que:

Os inventários realizados até agora a nível do concelho permitem contabilizar à volta de dezena e meia de castros, os quais se distribuem um pouco equitativamente por todo o território ou seja, há sensivelmente um castro por freguesia.

Com a chegada dos romanos à zona, depois da Idade do ferro, segundo Carvalho (2017: 270) o povoamento romano durante o século I d.C. “não terá conhecido alterações substantivas relativamente ao período anterior. A paisagem continua a ser marcada por povoados amuralhados, alguns de grandes dimensões”, ao qual o mesmo adiciona,

(…) ter-se-á também assistido a uma extensão progressiva desses lugares povoados para além dos perímetros amuralhados, deslocalizando-se as áreas habitadas para as encostas e sopés dos ancestrais cabeços habitados.

Apesar das mudanças que se vão notando, os povoados fortificados mantêm-se. Carvalho reforça ainda que os castros continuam a ter ocupação na Época Romana marcando fortemente estas paisagens rurais, desempenhando “um papel central na estruturação de territórios politicamente descentralizados” (Carvalho, 2017: 272).

Favaios, mais do que uma aldeia vinhateira, um local de nuances castrejas e romanas

A vila de Favaios encontra-se implantada no sopé da serra do Vilarelho e insere-se na malha administrativa do concelho de Alijó. Sobre o topónimo “Favaios”, o ilustre historiador do século XVI João de Barros (1549: 9-10) no seu Libro das antiguidades e cousas notaueis de antre Douro e Minho, e de outras m[ui]tas de España e Portugal, navega até às suas origens e deixa-nos o seguinte testemunho:

Fauaios é uma villa na parte da Galliza, e agora em portugal na comarqua de tras os montes, chamouse Flavia como dizem letreiros antigos que alli vi. Paresse que Ptolomeo lhe chama Flaviobriga, daqueles que edificou el Rey Briguo.

João de Barros menciona um pormenor interessante para a Arqueologia quando na frase “como dizem letreiros antigos que alli vi”, nos fornece uma pista sobre o passado romanizado da vila. Esses “letreiros antigos” poderão tratar-se de epígrafes romanas.

Vista de una ciudad desde lo alto de una colina

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Favaios, suas terras e vinhas. Cortesia Paulo Ribeiro.

Também o designativo latino Flavia parece automaticamente apontar para raízes romanas. Fora esta lógica que fez com que alguns investigadores atribuíssem o nascimento de Favaios a uma antiga comunidade romana que ali se estabelecera. No entanto, há quem discorde e há quem apoie a tese de que o termo Flavia/Flavius tenha originado “Favaios”. Num caso como este convém relembrar que “na passagem do latim para o português fla deu cha, como acontece com Chaves, que tinha a designação romana Aquis Flaviis” (Figueiredo, 2015).

No período medieval, segundo Rocha (2017: 67), D. Afonso II atribuiu, em 1211, uma carta de foral a Favaios[2]:

(…) durante o governo de D. Afonso II foram criados os municípios de Favaios (Alijó), logo em 1211, Vila Chã (Alijó), em 1217, e Vilarinho da Castanheira (Carrazeda de Ansiães), no ano seguinte[3].

As inquirições de 1220 de D. Afonso III demonstram que a vila se encontrava dentro das posses do monarca, tal como salienta Rocha (2017: 98) ao afirmar que o rei “detinha reguengos, casais e/ou herdades nas freguesias de Sanfins do Douro, Favaios e Vilar de Maçada”. Em 1270, Afonso III confirma a carta de foral atribuída por Afonso II, concedendo a Favaios autonomia fiscal e administrativa.

D. Dinis outorga um outro foral a Favaios em 1284[4]. De seguida, em 1384, D. João, mestre de Avis, “doou, por termo, à vila de Ansiães os lugares de Alijó e Favaios, com os seus próprios termos” (Rocha, 2017: 71).

Favaios foi vila e sede de concelho desde 1211 até 1853 – momento em que, através do Decreto de 1853, o concelho de Favaios foi extinto e integrado no de Alijó (Figueiredo, 2015). A 20 de Junho de 1991, foi-lhe novamente atribuído o estatuto de vila, contudo não teria o mesmo peso que o estatuto que tivera de 1211 a 1853 (Figueiredo, 2016).

Almeida e Almeida no artigo, As origens da vinha no planalto de Alijó – o contributo da Arqueologia, enumeram alguns dos sítios arqueológicos e respetivo espólio exumado, e achados isolados que constituem a herança patrimonial do passado da vila, como o Castro de Santa Bárbara[5], o Castro “As Muralhas”, a estela funerária dedicada aos Deuses Manes encontrada na Quinta de S. Jorge[6], e os fragmentos de dolia que imperam no registo arqueológico de S. Bento[7]. No trabalho de Pedro Carvalho, Há dois mil anos em redor do vale do Tua, entre o Douro e Trás-os-Montes: tempos de confronto, paisagens de transição, o autor (2017: 275) refere a possibilidade de que na área compreendida entre Favaios e Alijó, poderá ter existido um cruzamento de estradas romanas[8]. Apesar do potencial arqueológico que Favaios nos reserva, este artigo apenas visará o Castro do Vilarelho.

O passado camuflado na paisagem: o Castro de Vilarelho

Vista de una montaña

Descripción generada automáticamente Apenas os habitantes de Favaios conhecem o melhor caminho para ir ao encontro do sítio arqueológico; talvez um turista tenha alguma dificuldade em encontrá-lo, e com certeza se perderá pelas longas estradas de terra batida.

Os acessos ao castro não são propriamente fáceis e, pelo menos, até chegarmos bem perto do local, não há nenhuma sinalização na estrada que indique o caminho a seguir. Contudo, depois de descoberto, o trajeto não é complicado: seguindo pela estrada que liga a vila ao campo de futebol – N322 –, vira-se à direita na Adega Cooperativa e segue-se em frente, pela rua de S. Domingos, nunca mudando de direção e mantendo-se sempre nesta via. Depois de percorrer esta “longa” distância, ladeada por casas e terrenos, chega-se a uma estrada de terra batida onde se pode avistar o campo de futebol. Entrando neste caminho, apenas se sai na segunda saída à esquerda. Subindo de leve a encosta, chega-se ao famoso castro[9].

Perspetiva do topo do sítio arqueológico. Cortesia Francisco Chaves.

O Castro do Vilarelho aparenta ser o maior castro do concelho de Alijó. Trata-se de um povoado fortificado de grandes dimensões, situado na serra do Vilarelho, que parece ter acolhido uma vasta quantidade de habitantes. Já fora alvo de interesse por parte de diversos investigadores e interessados em desvendar o que nos dizem as suas pedras. A primeira referência que temos dele aparece na obra Breve Notícia da Terra de Panóias, da autoria de Francisco dos Prazeres Maranhão, em 1836.

“Gozando de uma ampla visibilidade sobre todo o território em redor (nomeadamente para a Burneira e a Senhora da Cunha ou para S. Domingos)” (Carvalho, 2017: 275), possui um excelente posicionamento topográfico na paisagem, o que lhe confere o controle de toda a região envolvente, demonstrando o seu forte interesse geoestratégico.

Una montaña de roca

Descripción generada automáticamente con confianza media Un arcoíris sobre una roca

Descripción generada automáticamente con confianza media A partir do castro, consegue-se compreender imediatamente o cenário: ao longe, a paisagem aparece envolvida por cadeias montanhosas, ao mesmo tempo que surgem montes, encostas suaves e vales nos quais a implantação humana se faz sentir. Observam-se zonas de povoamento concentrado, que vão alternando com as vinhas verdejantes e terrenos espaçosos onde pontualmente vão surgindo algumas residências.

Pormenor das ruínas do Castro do Vilarelho. Cortesia Francisco Chaves

Inserido numa zona de solos graníticos onde se vão destacando alguns afloramentos rochosos indomáveis, o sítio arqueológico é ainda governado por um extenso coberto vegetal no qual predominam os três tipos de vegetação característicos da zona: vegetação arbustiva (tojos, giestas), herbácea (fetos) e arbórea (pinheiros, nogueiras).

O sítio apresenta um sistema defensivo de onde saem duas linhas de muralhas que delimitam o espaço. Além das muralhas, podem-se observar “torreões, um fosso e um campo de pedras fincadas” (Carvalho, 2017: 275). De acordo com Armando Redentor (2000: 30), o torreão fora erigido no local mais alto do povoado, a partir do qual se desenvolveu “uma linha de muralha de perímetro semicircular pelos lados poente, ao longo da cumeada, sul, descendo a encosta, e oeste”. Por sua vez, a segunda linha de muralha “entronca na primeira nos cantos sul e norte, delimitando um amplo recinto de inclinação suave, no lado sudoeste” (Redentor, 2000: 30). Nos dias de hoje, ainda se preservam troços do aparelho original de ambas.

Os fragmentos de cerâmica são abundantes, maior parte encontra-se à superfície e insere-se nas tipologias típicas da Idade do Ferro[10]. Armando Redentor (2000: 30) assevera que, nesse mesmo espólio, se encontram materiais do período romano, os quais “Brochado de Almeida e M. Plácido consideram estarem em sincronia com o estilo do aparelho das muralhas”.

Quanto aos períodos de ocupação humana, Carvalho (2017: 275) refere que o castro parece ter deixado provas no registo arqueológico de uma ocupação bastante importante na altura da Idade do Ferro, e uma descontinuidade nessa mesma ocupação no período romano:

No seu interior, à superfície, revela essencialmente uma ocupação importante na Idade do Ferro. Os vestígios de Época Romana também surgem à superfície, mas neste caso de forma muito ténue, parecendo denunciar o abandono do Castro de Vilarelho numa fase inicial da ocupação.

Conclusão

Favaios, assim como o restante Noroeste Transmontano, encerra em si muitos espaços que carecem de estudo e dedicação. Talvez o interior não desperte tanto o interesse dos investigadores ou das massas mais jovens de arqueólogos e historiadores que se vêm a formar nos últimos anos, contudo é imperativo continuar a explorar estes locais trazendo à vida o património que ainda se encontra por explorar.

O concelho de Alijó possui um acervo de histórias e passados que estão ainda por desvendar. Os sítios arqueológicos mais antigos remontam ao Neolítico e ao Calcolítico, nomeadamente mamoas (Alto das Madorras), monumentos megalíticos (Anta da Fonte Coberta) e gravuras rupestres (Pala Pinta, gravuras da Botelhinha).

Os castros apresentam ocupações que remetem para a Idade do Ferro, mas guardam em si traços da romanização – espólio cerâmico e numismático –; e alguns ainda se estendem até ao período medieval. Pode-se estabelecer para esta zona dois tipos de castro: os de grandes dimensões e os de pequena/média dimensão. No caso do castro do Vilarelho este insere-se no tipo de povoado de área extensa, com uma cintura defensiva delimitada por muralhas que abrigaram estruturas e respetivos habitantes nos tempos idos – o mesmo sucede com o castro da Touca-Rota (Pópulo). Os restantes, de pequena/média dimensão, fazem jus ao tipo que lhes é atribuído, abrigando um reduzido número de construções.

A romanização fez-se sentir nestas terras e influenciou desde cedo os lugares por onde se espalhou. Vias, epígrafes com caracteres em latim, pontes (Rio de Moinhos), etc., são prova disso mesmo, uma herança comum fruto de vários períodos, contextos e políticas que deram à vila de Favaios os alicerces para continuar a prosperar diariamente.

Referências bibliográficas

Almeida, A. P. & Almeida, C. A. (2004) “As origens da vinha no planalto de Alijó”, Douro: Estudos e Documentos, IX (17), Porto: FLUP, 345-358.

Barros, J. d., 1549. Libro das antiguidades e cousas notaueis de antre Douro e Minho, e de outras m[ui]tas de España e Portugal.

Carvalho, P. C., (2017) “Há dois mil anos em redor do vale do Tua, entre o Douro e Trás-os-Montes: tempos de confronto, paisagens de transição”, in P. C. Carvalho (ed.), Estudo Histórico e Etnológico do Vale do Tua (Concelhos de Alijó, Carrazeda de Ansiães, Mirandela, Murça e Vila Flor), Porto: Edições Afrontamento, 241-383.

da Silva, A. C., (2015) “Será a sátira poesia?”, PRINCIPIA, Volume XXX, Rio de Janeiro: Departamento de Letras Clássicas e Orientais do Instituto de Letras, 1-4.

Figueiredo, M. C., (2016) “Favaios: a vila, um aniversário, dois conceitos” [Online]
Disponível em: http://manuelcarlosfigueiredo.blogspot.com/2016/06/favaios-vila-um-aniversario.html (Data da consulta: 14 de Setembro de 2021).

Figueiredo, M. C. A., (2015) “Favaios: Origem do Topónimo” [Online]
Disponível em: https://manuelcarlosfigueiredo.blogspot.com/2015/01/favaios-origem-do-toponimo.html (Data da consulta: 14 de Setembro de 2021).

Redentor, A., (2000) “Povoados fortificados com pedras fincadas em Trás-os-Montes”. Conimbriga, Volume XXXIX, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 5-51.

Rocha, A. R., (2017) “O Vale do Tua desde a formação da nacionalidade ao fim da Idade Média”, in P. C. Carvalho (ed.), Estudo Histórico e Etnológico do Vale do Tua (Concelhos de Alijó, Carrazeda de Ansiães, Mirandela, Murça e Vila Flor), Porto: Edições Afrontamento, 59-125.


  1. ‘Pão e circo’, expressão muito conhecida entre as camadas de investigadores que se dedicam à civilização romana, que segundo Ronai eram “as duas únicas coisas que interessavam ao povo romano de sua época” (da Silva, 2015). A expressão traduz, de um modo satírico, aquilo que movia as massas romanas – o pão enquanto alimento, e o circo enquanto distração. Contudo, muitos historiadores têm posições distintas quanto a esta e quanto à sua natureza.



  2. Segundo os dados recolhidos por Ana Rita Rocha (2017: 100), na Chancelaria de D. Afonso III, liv. II, doc. 8, 27-28, neste foral D. Afonso II determinara que os habitantes de Favaios “deviam dar de parada, entre outras coisas, um almude de pão cozido, metade de trigo e outra metade de centeio”.



  3. “As poucas cartas de foral concedidas por Afonso II e D. Sancho II revelam uma ação centrada em Trás-os-Montes, mais em concreto em torno de Vila Real, englobando uma nítida do Vale do Tua. Ou seja, houve uma intenção comum de povoar a zona central de Trás-os-Montes, acima do rio Douro, o que não impediu a fundação de concelhos mais a sul e até a norte.” (Rocha, 2017: 67). De acordo com a entrada no blog de Manuel Figueiredo (2015), Favaios, foi a primeira povoação a adquirir o estatuto de vila, com a Carta de Foral que lhe foi concedida em 29 de Setembro de 1211, por D. Afonso II.



  4. ANTT, Chancelaria de D. Dinis, Liv. 1, fls. 223-224.



  5. Sobre o castro de Santa Bárbara, Carvalho (2017: 274) deixa-nos o seguinte: “Do povoado de Santa Bárbara, situado num cabeço sobranceiro à vila de Favaios, pouco restará. O atual recinto religioso acaba por ocultar os restos das construções e das prácticas de outrora. O sítio, porém, terá sido um pequeno povoado fortificado romanizado, cuja ocupação progressivamente se terá deslocado para cotas mais baixas, em direção à área ocupada pela vila de Favaios.”



  6. No decurso da Romanização registada na região, nomeadamente na zona com faixa de contacto entre o granito e o xisto, “um bom exemplo de sítios romanos existentes nesta faixa, são S. Domingos, S. Bento, onde há sinais de uma possível villae e S. Jorge de Favaios com uma estela funerária dedicada aos Sagrados Deuses Manes por três irmãs – Faccila, Faccina e Materna – em memória de um irmão falecido na idade de 18 anos” (Almeida & Almeida, 2004: 352).



  7. “Em qualquer um destes sítios a presença de cerâmicas romanas está mais que atestada, mas são os dolia quem verdadeiramente imperam. A sua função foi a de guardar e conservar cereais e líquidos e nestes a primazia ia para o azeite e no caso vertente, bem mais para o vinho. Muitos destes recipientes fragmentados foram observados no Castelo de Vilarinho de Cotas, no Castelo de Castelo, em Casal de Loivos, nas Cortinhas/Piolho (S. Mamede de Ribatua) e em São Bento (Favaios). Tratam-se de zonas xistosas, mais propícias ao cultivo e produção de vinho, desde os tempos primeiros dos romanos nesta região.” (Almeida & Almeida, 2004: 353).



  8. “Considerando que nesta área de Favaios/Alijó poderia situar-se um cruzamento de estradas romanas (uma que viria de Roriz, no Douro, e outra dos lados de S. Mamede de Ribatua, depois de galgar o Tua), não será despropositado propor a presença de uma estalagem viária nesta área, podendo a povoação romana que se estendeu a sul do povoado de Santa Bárbara de Favaios ter-se precisamente constituído em torno desta mutatio”.



  9. A Câmara Municipal de Alijó elaborou um roteiro arqueológico que disponibiliza os acessos a cada um dos monumentos inventariados no concelho, incluindo o Castro do Vilarelho (41°16’ 41.4”N,7°29’38.5”W). Consulte o seguinte link: http://www.arqueologia.cm-alijo.pt/Roteiros_GE.htm .



  10. “O espólio recolhido é constituído por alguns fragmentos de cerâmica de fabrico manual atribuíveis à Idade do Ferro” (Redentor, 2000: 30).


Edição: Agosto 2024

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Em busca do tempo perdido: em mês que foi para a maioria de férias, lazer, e descanso, trazemos, com algum atraso, um panorama antológico de alguns dos magníficos ensaios que nos foram enviados por leitores amigos e conhecidos ao longo dos nossos dois anos e meio de actividade. Em setembro retomaremos a publicação de inéditos. Até lá, bom regresso ao trabalho.

Bárbara Virgínia: o Percurso da Primeira Realizadora de uma Longa Metragem Sonora em Portugal

Madalena e Rafael Romão Mira escreveram-nos uma biografia da cineasta portuguesa, particularmente focada no seu percurso nos anos quarenta do passado século e na realização da longa-metragem Três Dias sem Deus, de 1945.

A Paixão dos Ossos — uma conversa com Urbano Tavares Rodrigues sobre Ferreira de Castro, memórias, a natureza, a escrita e a vida

Ana Cristina Carvalho trouxe-nos aquela que será possivelmente uma das últimas entrevistas de Urbano Tavares Rodrigues, neste caso sobre Ferreira de Castro e a relação entre ambos, em Lisboa, a 6 de Maio de 2013.

Da matemática.

Viagem ao Cristal

Bernardo Ferreira trouxe-nos um texto com uma das suas paixões extra-literárias mais poderosas, onde traça reflexões sobre a relação entre o cristal e as suas figurações na literatura, na filosofia e na arte.

Do Restauro de uma Reputação

António Marques Pereira escreveu sobre as peripécias impostas a um famoso comediante norte-americano pela versão mais agressiva do movimento feminista MeToo.

Identidade de Género e Conformidade: Aspectos Psicológicos, Intervenções e Psicoterapia

E Sérgio da Borralha trouxe-nos uma revisão sistemática da literatura sobre os quadros associados à não- conformidade de género, apontando práticas psicológicas adequadas.

Da física.

Habitação e Metafísica

Ricardo Fortunato escreveu-nos sobre como a concepção de bens materiais em Portugal associa-os não a processos concretos que os trazem à existência, mas a uma materialização da metafísica, contornada pela pior versão da moral judaico-cristã — a do comiseramento erótico na pobreza e na escassez.

A Representação da Mulher como Vítima Passiva e sem Agência no Discurso Público Português

O mesmo colaborador, sempre atento à espuma do dia da imprensa, trouxe-nos também comentários sobre um relato de uma relação abusiva publicado na imprensa portuguesa, o padrão de desmerecimento da mulher que representa, e as reacções de algumas elites intelectuais.

Da arte.

Galeria: Colecção de Frases Escritas em Paredes de Lisboa

Uma simpática colaboração de Jorge Almeida, com fotografias do próprio, todas captadas na cidade de Lisboa, retratando vários tipos de proclamações, com os locais de captura indicados na legenda.

Da academia.

Dress-stories: From the 1900s to the 1980s

Um dos nossos ensaios mais populares e coloridos, cortesia da comerciante e amadora historiadora da moda Lily Kingston Chadwick.

Poder e Agência Feminina no Hinduísmo: um Estudo em Portugal

E Helena Maurício Sant´ana trouxe-nos um ensaio sobre estratégias de poder feminino em contexto migratório, ou como a manutenção da fronteira étnica pode favorecer agência e poder no grupo feminino hindu.

Notícias do mundo.Happiness: Capitalism vs. Marxism: the Peterson and Žižek Debate

Uma transcrição, em inglês, do debate entre dois dos mais famosos pensadores de pop-philosophy e pop- psychology da actualidade, ocorrido em Toronto, em 2019.

Evolução do Conceito de Marketing, 1990-2020

Cláudia Ribau escreveu-nos uma análise sobre as mudanças ocorridas na área do marketing, quanto ao seu conceito e prática, desde há três décadas para cá.

A Virtude do Livro: Autobibliografia e Metaficção em O Que Fazem Mulheres, de Camilo Castelo Branco

E Alexandra Cleanu trouxe-nos de volta à literatura com um belíssimo ensaio acerca do caráter metaliterário da obra O Que Fazem Mulheres, escrita por Camilo Castelo Branco em 1858.

Da política.

Eddie the Eagle

João Pedro Vala escreveu uma em parte ode, em parte biografia, sobre o herói improvável Eddie the Eagle, esquiador olímpico em 1988, uma autêntica “ave rara” das ilhas britânicas, que passou por inúmeras peripécias, na qualificação e durante a própria competição, que vale a pena rever.

Uma Proposta para Passar a Vida Deitado

E Nuno Lopes Margalha trouxe-nos uma divertida crónica com uma proposta utópica para equilibrarmos a pequeníssima diferença etária entre partes do nosso corpo.

E os funnnies deste mês.

Fotografia de Betty Parsons (1900–1982), artista, negociante e patrona das artes, conhecida em particular pelo seu papel na promoção inicial do Expressionismo abstracto.

Colónias: Vantagem ou Desvantagem Económica para o País Colonizador?

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A história da colonização é longa e complexa, marcada por conquistas, explorações e interações culturais que moldaram o mundo moderno. A colonização, enquanto fenómeno económico, político e social, desempenhou um papel crucial na formação das economias contemporâneas, tanto nos países colonizadores como nas colónias. Este ensaio examina a questão da existência de colónias como vantagem ou desvantagem económica para o país colonizador, apresentando argumentos a favor e contra, além de análises de casos específicos.

Argumentos a Favor da Colonização como Vantagem Económica

Acesso a Recursos Naturais e Matérias-Primas

Um dos principais argumentos a favor da colonização é o acesso a recursos naturais que, de outra forma, estariam fora do alcance do país colonizador. Durante os períodos de expansão colonial, as potências europeias exploraram extensivamente os recursos das colónias, como ouro, prata, especiarias, algodão e borracha. Estes recursos foram fundamentais para o desenvolvimento das economias europeias, permitindo o crescimento industrial e a acumulação de riqueza. Por exemplo, a exploração das minas de prata na América Latina, especialmente em Potosí (atualmente na Bolívia), foi crucial para a economia espanhola durante os séculos XVI e XVII.

Expansão de Mercados e Oportunidades Comerciais

A colonização também proporcionou aos países colonizadores novos mercados para os seus produtos manufaturados. A imposição de sistemas de comércio desigual, onde as colónias eram obrigadas a comprar produtos manufaturados do colonizador e a vender as suas matérias-primas a preços baixos, criou uma dependência económica que beneficiava a metrópole. O Império Britânico, por exemplo, utilizou as suas colónias na Índia e nas Américas como mercados cativos para os seus produtos, o que ajudou a consolidar a sua posição como uma potência industrial e comercial global.

Fortalecimento Geopolítico e Militar

Além dos benefícios económicos diretos, a posse de colónias frequentemente conferia vantagens geopolíticas significativas. As colónias serviam como bases navais estratégicas e pontos de apoio militar, ampliando o alcance e o poder dos impérios coloniais. O controlo de territórios em diferentes partes do mundo permitia que as potências coloniais, como a Grã-Bretanha e a França, projetassem o seu poder de forma global, protegendo os seus interesses comerciais e expandindo a sua influência política.

Desenvolvimento de Infraestruturas no País Colonizador

O influxo de riquezas provenientes das colónias frequentemente possibilitava o financiamento de projetos de infraestrutura nos países colonizadores. Estes projetos incluíam a construção de estradas, ferrovias e portos que facilitavam o comércio interno e externo. Na Inglaterra vitoriana, por exemplo, os lucros das colónias contribuíram para o desenvolvimento da rede ferroviária, que, por sua vez, impulsionou ainda mais a revolução industrial e a integração económica.

Argumentos Contra a Colonização como Desvantagem Económica

Custos Elevados de Manutenção e Defesa

Manter um império colonial era uma tarefa dispendiosa, que exigia recursos consideráveis para a defesa, administração e infraestrutura nas colónias. Os custos de manter forças militares, construir e operar sistemas de transporte, e administrar vastos territórios frequentemente superavam os benefícios económicos diretos. Um exemplo notável é o Império Britânico, que, após a Segunda Guerra Mundial, encontrou-se incapaz de sustentar economicamente os seus vastos territórios coloniais, levando à descolonização.

Dependência e Vulnerabilidade Económica

A economia do país colonizador pode tornar-se excessivamente dependente dos recursos e mercados coloniais, criando vulnerabilidades. Quando uma colónia se torna independente ou quando há interrupções no acesso aos seus recursos, o país colonizador pode enfrentar crises económicas graves. A independência das colónias americanas, por exemplo, foi um duro golpe para a economia britânica, que teve de se adaptar rapidamente à perda de importantes fontes de rendimento e mercados.

Resistência e Custos Humanos

A colonização muitas vezes provocava resistência armada e movimentos de independência nas colónias, resultando em guerras prolongadas e dispendiosas. O envolvimento em conflitos coloniais drenava recursos financeiros e humanos dos países colonizadores. A Guerra da Argélia (1954-1962) é um exemplo de como a resistência à colonização pode impor custos altíssimos, tanto em termos económicos quanto sociais, à potência colonizadora, no caso, a França.

Impacto Negativo na Economia Doméstica

A exploração de mão-de-obra barata e a exportação de matérias-primas a baixo custo das colónias às vezes resultavam na estagnação ou declínio de certos sectores da economia doméstica. Por exemplo, a abundância de recursos baratos das colónias poderia desincentivar o desenvolvimento de indústrias locais no país colonizador, criando uma economia dependente das colónias. Além disso, o foco nas colónias muitas vezes desviava investimentos de áreas importantes da economia nacional, como a educação e a saúde.

Análise de Casos Específicos

– O Império Britânico e a Índia
A relação entre a Grã-Bretanha e a Índia ilustra bem os aspectos contraditórios da colonização. Durante o Raj britânico, a Índia foi uma fonte vital de matérias-primas, como algodão, que alimentaram a indústria têxtil britânica. Além disso, o mercado indiano serviu como destino para produtos britânicos, ajudando a sustentar a economia britânica. No entanto, a colonização também teve custos elevados, tanto para a Grã-Bretanha quanto para a Índia. A construção e manutenção de infraestrutura, o custo da administração colonial e os esforços para reprimir revoltas indianas, como a Revolta dos Sipais em 1857, foram extremamente onerosos. Além disso, a dependência da economia britânica da Índia criou vulnerabilidades que se tornaram evidentes quando a Índia alcançou a independência em 1947, privando a Grã-Bretanha de uma importante fonte de riqueza e poder.

– O Império Espanhol na América Latina
A Espanha é outro exemplo de como a colonização pode ser uma faca de dois gumes. Durante o auge do Império Espanhol, as colónias na América Latina forneceram enormes quantidades de metais preciosos, especialmente prata, que enriqueceram a Espanha. Contudo, a riqueza mineral levou a um fenómeno conhecido como “maldição dos recursos”, onde a abundância de recursos naturais desencorajou o desenvolvimento de outros sectores da economia espanhola. A Espanha acabou por se tornar excessivamente dependente das suas colónias, e quando estas começaram a lutar pela independência no início do século XIX, a economia espanhola entrou em declínio.

– O Império Português e o Brasil
Portugal e a sua colónia brasileira apresentam um caso interessante de interdependência económica. O Brasil foi a colónia mais valiosa de Portugal, proporcionando enormes lucros através da exportação de açúcar, ouro e café. No entanto, o custo de manter e defender o Brasil, especialmente contra outras potências coloniais e piratas, foi substancial. Além disso, a dependência portuguesa dos recursos brasileiros fez com que a economia portuguesa fosse vulnerável a choques externos, como a independência do Brasil em 1822, que representou uma perda significativa para a economia portuguesa. No entanto, a relação entre Portugal e Brasil também mostrou uma certa mutualidade, onde o Brasil, após a independência, manteve laços económicos e culturais com Portugal, continuando a influenciar a economia portuguesa de forma indireta.

Conclusão

A colonização, como estratégia económica, apresenta um conjunto complexo de vantagens e desvantagens para os países colonizadores. Enquanto o acesso a recursos, a expansão de mercados e o fortalecimento geopolítico podem ser vistos como benefícios significativos, os custos elevados de manutenção, a dependência económica, a resistência local e os impactos negativos na economia doméstica são desafios que não podem ser ignorados. A análise de casos históricos como os impérios britânico, espanhol e português revela que os benefícios económicos da colonização muitas vezes vinham acompanhados de altos custos, que poderiam, a longo prazo, superar as vantagens.

No contexto moderno, o legado da colonização continua a influenciar as relações económicas globais, e as lições aprendidas com o passado colonial permanecem relevantes para a compreensão dos desafios económicos e políticos atuais. Portanto, ao avaliar a colonização como uma vantagem ou desvantagem económica, é essencial considerar tanto os ganhos imediatos quanto as consequências a longo prazo, tanto para o país colonizador quanto para as regiões colonizadas.

Uma Visão Optimista da Razão em Maquiavel

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Maquiavel, pragmático e consequencialista: uma visão optimista da razão em O Príncipe. Texto de João N.S. Almeida.

Em meados de 2016, ao chegar à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa para iniciar o curso de Mestrado em Teoria da Literatura, assisti a um seminário de um outro departamento, onde o tópico de discussão dessa sessão era, entre outros, Maquiavel. Apesar de não conhecer a fundo a obra desse autor, sempre me pareceu, à distância, um pensador complexo, ao contrário da forma como é comummente encarado, fixada no léxico com a expressão «maquiavélico», que tipicamente indica algum tipo de comportamento perverso, exercido de modo sub-reptício, tendo em vista fins considerados, em geral, também como maléficos. Nesse seminário de doutoramento na área da literatura, o autor foi descrito, para meu grande espanto, como um filósofo que louvava o «poder pelo poder»; alguém que quase nem seria um pensador digno desse nome, mas mais uma espécie de sádico, um epifenómeno literário dessas coisas a que chamamos crueldade ou maldade. Apesar de, na altura, a minha leitura de O Príncipe ser muito superficial, achei tal descrição muito suspeita; quando intervi no seminário, indaguei se não se poderia levantar a hipótese da dita obra ser muito simplesmente um manual prático do bem comum. A resposta a essa possibilidade, não só da parte da docente mas também da maioria dos colegas presentes, foi um rotundo não, um não estranho e pouco crítico. Segundo a leitura ali apresentada, Maquiavel, aparentemente, estar-se-ia «nas tintas para o povo». Resignado, calei-me; mas mais do que resignado — ou, talvez, menos do que isso — eu estava espantadíssimo: como seria possível apresentar, neste nível avançado de estudo das humanidades, um pensador como Maquiavel dessa forma tão redondamente simplista, era coisa que me intrigava — na verdade, ainda me intriga, embora já não me incomode tanto. O presente texto, e a apresentação em público para a qual foi inicialmente preparado, é assim como que um exercício de higiene depois desse episódio, mas também uma maneira útil de aproveitar o meu espanto para levantar questões sobre a filosofia de Maquiavel. Se tais questões parecerem redundantes ou anacrónicas, desculpo-me com o facto de pelo menos uma dezena de alunos de doutoramento e uma docente terem lido Maquiavel da maneira tão redutora e errada como descrevi.

Na descrição do autor feita nesse seminário, o que estaria a ser proposto era pensar em Maquiavel como alguém que se comprazeria no exercício do poder e/ou na crueldade que esse exercício implica. Ele veria assim o próprio poder ou o comprazimento no uso do poder como fins em si mesmos. A minha suspeição começa por dever-se, em parte, à grande dificuldade que tenho em atribuir a preponderância de qualidades teleológicas a processos ou objectos cuja definição envolva, à partida, uma espécie de omnipresença substancial. Isto ocorre, por exemplo, com o dinheiro, com o poder, ou com o sexo: é frequente estes conceitos me parecerem simplesmente meios muito universais e muito vastos que se usam para se obterem determinados fins mais precisos, acabando assim por ser uma representação destes, não se tratando de conceitos puramente objectivos. Assim, dei por mim a imaginar: como seria realmente ter o dinheiro, o poder, ou o sexo, como fins em si mesmos? Começando com o dinheiro, esclareçamos o seguinte: dinheiro é um símbolo de outros bens materiais, funcionando autenticamente como uma moeda de troca por outras materializações concretas. Quanto ao poder — o ser em potência, em termos aristotélicos — é um estado que leva naturalmente a actualizações; e parece que apenas no reino da metafísica especulativa se encontram potências pela potência, ou uma possível identidade entre actualização e potência, como proposto pelas concepções do divino em Aristóteles ou S. Tomás de Aquino. Finalmente, quanto ao sexo, uma leitura que o interpretasse como fim em si mesmo seria facilmente deitada abaixo pelas finalidades psíquicas complexas que a emergência do homem psicológico do séc. XX põe em destaque (já para não falar da finalidade muito estrita e muito evidente de criação da vida que é indesmentivelmente comprovada por cada uma das nossas existências).

Assim, olhando para estes conceitos com a devida distância, podemos imaginar como seriam tais meios se fossem pensados e experienciados enquanto fins. No caso do dinheiro, se imaginarmos uma criatura com um apetite pelo próprio dinheiro, ou somente pelas manifestações mais explícitas do conceito, seja na sua forma física (notas, moedas, cheques), ou, mais latamente, riqueza material (pedras preciosas, diamantes) ou, mais abstractamente, dinheiro virtual (notas de crédito, acções, produtos financeiros derivativos), será difícil encontrar uma pessoa, real ou ficcionada, que não associe o dinheiro aos fins a que possa corresponder, ou seja, à actualização dessa potência. Talvez uma excepção pudesse ser encontrada na personagem ficcional do Tio Patinhas, já que a sua forretice incurável e o curioso fetichismo com piscinas de moedas poderia levar-nos a vê-lo como alguém com um desses apetites excêntricos. No entanto, se o fim do Tio Patinhas for, na verdade, a poupança — como eu creio que é — então já não se trata de dinheiro pelo dinheiro, mas de uma representação que o dinheiro faz de segurança financeira projectada no futuro. Quanto ao caso do poder pelo poder, precisaríamos de encontrar uma personagem absolutamente devota da potência e quase inteiramente avessa às suas actualizações (pois, afinal, exercer o poder é perdê-lo). É certo que essas acções que anulem a potencialidade existente podem ter por fim a obtenção de mais poder em esferas conceptuais vizinhas ou superiores. Por exemplo, na emergência do nazismo, uma noite das facas longas destinaria-se-ia a acumular mais poder; mas tais acções do regime tinham como fins um genocídio e um imperialismo territorial e, portanto, podemos encarar o Führer seguramente como um quase vulgar tarado, mas não um tarado exótico do poder pelo poder. Por último, quanto ao sexo pelo sexo, existem de facto diagnósticos clínicos sobre casos de pessoas que têm um apetite desmesurado, irracional e insaciável pela prática sexual, ou seja, tarados. Mas é precisamente nesta terminologia que encontramos a maneira correcta de ver estas coisas: quando falamos de trocar os meios pelos fins estamos, afinal, a falar de taras, e não de quadros psíquicos corriqueiros.

Os diagnósticos psiquiátricos/psicológicos são exemplos bastante explícitos das taras, mas estas não se esgotam aí, pois existem taras perfeitamente inocentes que não chegam a perturbar a vida do seu portador, ou daqueles em seu redor, para merecerem tal atestado. Ser-se louco por chocolates, por touradas ou por jogos de tabuleiro não merecerá, em geral, uma conotação clínica. Mas o fenómeno da tara, mesmo nestes casos inocentes, é sempre algo bastante explícito, distorcendo de tal modo a distinção entre sujeito, desejo e objecto, que se torna difícil de ignorar; e é esse sinal da tara, essa distorção visível, que seria importante procurar na obra de Maquiavel, para sabermos se, de facto, estamos na presença de um mero tarado, ou, pelo contrário, de um pensador com uma complexidade acrescida.

Sendo assim, pretendo abordar, nesta exposição, três pontos distintos, um mais extenso e dois outros pontos mais secundários e abreviados. Em primeiro lugar, como só em circunstâncias muito esdrúxulas é que o poder pode ser considerado um fim por si só, e demonstrar como é que isso não está presente no texto de O Príncipe. Em segundo lugar, já mais distante dessa minha embirração específica, pretendo elaborar um pouco sobre a dependência que a filosofia maquiavelista tem de uma determinação mais exacta do princípio e do fim de um efeito. Por último, bastar-me-á salientar como o pensamento de Maquiavel é de um optimismo exuberante e salutar quanto à capacidade humana de avaliar efeitos e pôr-se um pouco mais perto do juízo divino, provavelmente não como seu igual mas como seu assistente, capaz de confiar mais — e perigosamente — nas capacidades intelectuais para substanciar uma noção de acto humano mais alargada e, consequentemente, tornar mais maleável o juízo moral aplicável às acções.

Ao propor-me à tarefa de encontrar sinais contrários a essa leitura, imaginei que iria ter de procurar muito até encontrar uma descrição inequívoca de como o poder está indissociavelmente ligado à manutenção do reino; mas, ao invés disso, encontrei com grande facilidade a exposição dessa doutrina, de forma bastante explícita em várias partes do texto — o que me leva a crer que só uma leitura ignorante ou mal-intencionada de Maquiavel, ou uma leitura parcial e fora do contexto, pode levar alguém a simplificar o autor do modo que enunciei. De facto, não encontrei as tais distorções evidentes da ligação sujeito-desejo-objecto, mas apenas um calculismo muito meticuloso, destinado unicamente à sobrevivência do estado. É certo que, mesmo assim, a finalidade dessa sobrevivência poderia coabitar com um prazer sádico na crueldade e na perversão; porém, no retrato do governante que Maquiavel propõe, não há nem tempo a perder, nem gosto a ter, com tal comprazimento. A satisfação de um desejo costuma ser acompanhada por uma expressão de prazer, e, no texto de O Príncipe, encontramos sempre essa expressão ligada à sobrevivência do reino. Isto só demonstra como o conhecimento de taras de quem imagina o texto ligado a uma noção como a do poder pelo poder é muito limitado, ou que então terão lido Maquiavel de um modo muito apressado e tendencioso.

Logo nos capítulos iniciais da obra, o autor deixa claro que actos cruéis por si só, sem uma finalidade precisa, podem trazer poder mas não trazem glória. «Still, it cannot be called virtue to kill one’s fellow citizens, to betray allies, to be without faith, without pity, without religion; by these means one can acquire power, but not glory».[1] Poderíamos aqui concluir temporariamente que a glória — seja lá o que isso for — está a ser descrita como uma finalidade superior à do poder; mas, mais à frente, o autor desenvolve o argumento:

I believe that this depends on whether cruelty be badly or well used. Those cruelties are well used (if it is permitted to speak well of evil) that are carried out in a single stroke, done out of necessity to protect oneself, and then are not continued, but are instead converted into the greatest possible benefits for the subjects. Those cruelties are badly used that, although few at the outset, increase with the passing of time instead of disappearing. Those who follow the first method can remedy their standing, both with God and with men, as Agathocles did; the others cannot possibly maintain their positions.[2]

Por si só, talvez estas passagens bastassem para deitar por terra o argumento do poder pelo poder: ao longo de toda a obra, o mal não é descrito como uma prática contínua que se auto-justifique ou que se redunde no comprazimento do governante, mas sim como um instrumento a ser administrado com precisão. Isto acontece, por exemplo, com a necessidade de oprimir as classes menores, que Maquiavel várias vezes prescreve, atribuindo a essa prática uma função meramente utilitária para a continuidade do poder. Tal continuidade, por sua vez, é também descrita como necessária para a obtenção do bem comum, e não como a manifestação de um vício de satisfação pessoal do príncipe.[3] Para ilustrar esta tese, temos, na seguinte passagem, a evidência do carácter anti-cristão, mas não necessariamente perverso, do autor:

Many writers have imagined republics and principalities that have never been seen nor known to exist in reality. For there is such a distance between how one lives and how one ought to live, that anyone who abandons what is done for what ought to be done achieves his downfall rather than his preservation. A man who wishes to profess goodness at all times will come to ruin among so many who are not good. Therefore, it is necessary for a prince who wishes to maintain himself to learn how not to be good, and to use this knowledge or not to use it according to necessity.[4]

Não há dúvida de que estas palavras são calculistas ao ponto daquilo que consideramos como imoralidade; mas não detectamos aqui qualquer comprazimento na crueldade, nem sequer naquela crueldade enquanto prazer puramente intelectual a que o adjectivo maquiavélico dá por vezes expressão.

Muitas destas passagens parecem enraizadas numa visão judaico-cristã do ser humano enquanto criação imperfeita, já que Maquiavel, apesar de não lhe atribuir directamente uma qualificação inerentemente perversa, descreve-o como portador de uma instabilidade emocional baseada em relações de afecto que não permitem o tipo de lealdade suficientemente fiável à manutenção da coisa pública:

But since it is difficult to be both together, it is much safer to be feared than to be loved, when one of the two must be lacking. For one can generally say this about men: they are ungrateful, fickle, simulators and deceivers, avoiders of danger, and greedy for gain. While you work for their benefit they are completely yours, offering you their blood, their property, their lives, and their sons, as I said above, when the need to do so is far away. But when it draws nearer to you, they turn away[5].

O uso da crueldade e do terror pelo príncipe parece destinado precisamente a colmatar essa falha inerente à criatura humana. Aliás, tal instabilidade parece fazer parte da essência não apenas da criatura, mas do próprio mundo; perante isso, o dever do governante é assumir um comportamento moralmente maleável, capaz de se adequar às circunstâncias, sempre com vista à obtenção do bem maior:

Therefore, it is not necessary for a prince to possess all of the above-mentioned qualities, but it is very necessary for him to appear to possess them. Furthermore, I shall dare to assert this: that having them and always observing them is harmful, but appearing to observe them is useful: for instance, to appear merciful, faithful, humane, trustworthy, religious, and to be so; but with his mind disposed in such a way that, should it become necessary not to be so, he will be able and know how to change to the opposite[6].

Se o problema em que Maquiavel se baseia para aconselhar tal postura se trata de um problema de desconcerto do mundo, de uma falibilidade — mas não necessariamente malignidade — inata à matéria, daí decorre que o exercício da manutenção do estado, o exercício da aplicação da ordem a uma substância perenemente instável, implica necessariamente um desequilíbrio moral da parte do agente, já que este está sempre dependente da moral de outros agentes, internos ou externos:

And so, as I said above, if a prince wishes to maintain the state, he is often obliged not to be good, because whenever that group you believe you need to support you is corrupted– whether it be the people, the soldiers, or the nobles– it is to your advantage to follow their inclinations in order to satisfy them, and then good deeds are your enemy[7].

Dado que é o estado que possibilita as condições para o exercício da moral — porque aquele não apenas representa mas legitima a coisa colectiva — a perpetuação da sua existência situa-se como que numa área pré-moral ou meta-moral. Deste modo, as relações de estado não se orientam pelos mesmos princípios que regem a vida comum. Mas Maquiavel não define a falibilidade do homem ou do mundo como tendendo em absoluto para o caos, e, por conseguinte, também não prescreve que o governante actue, em contraponto, como agente portador de uma impulsividade arbitrária; a sua concepção da perversão humana não é absolutamente negativa, já que a categoriza como previsível, e acrescenta que os homens raramente a exercem até ao ponto do absurdo:

But when the prince declares himself energetically in favour of one side, if the one with whom you have joined wins, he has an obligation towards you and there exists a bond of affection between you, although he may be powerful and you may be left in his power. Men are never so dishonest that they will repress an ally with such a flagrant display of ingratitude[8].

Bastar-nos-iam estes apontamentos para percebermos quão errada seria uma descrição de comprazimento na crueldade, ou da manutenção do estado para engrandecimento pessoal egomaníaco, que estivesse eventualmente presente no texto de O Principe. Além disso, uma consulta breve pela principal crítica maquiavelista tornaria também evidente como a aceitação dessas ideias é muito limitada. Maurizio Viroli, por exemplo, em Machiavelli, numa análise muito elogiosa do autor, descreve como O Príncipe não é um tratado científico — já que, por exemplo, não rejeita conceitos como a fortuna e o sobrenatural — nem é um tratado moral destinado ao público em geral, mas sim mais especificamente uma obra epistolar, dirigida ao Duque Lorenzo de Medici — ao contrário de Os Discursos, que é dirigido aos cidadãos. Esta qualidade epistolar representa, total ou parcialmente, uma tradição que é oposta ao tratado científico, já que o seu estilo deriva da tradição da retórica clássica e não de todo do argumento lógico moderno. Viroli vê também o conceito de virtú, tão presente na obra do autor, não como sinónimo de nobreza moral, numa visão inteiramente benigna, nem como impulso de raiz predatória, numa visão moralmente mais censurável, mas antes como um traço de carácter, de manifestações variadas, necessário à ordem e ao cumprimento das leis da república. Assim, Viroli descreve:

The image of the political leader, and more generally of the citizen involved in political deliberations, is very different from the stereotype of the cruel, cunning, deceitful, and ambitious man that bigots and bad scholars have attributed to him. The political man is for Maquiavel a magnanimous soul who commits himself, or herself, to goals that go beyond the horizon of self-interest, or family, or social group, but encompass the entire political community, the republic at large[9].

Leo Strauss, outro crítico, em Thoughts on Machiavelli, aceita a ideia de Maquiavel como «professor do mal», pressupondo que o exercício de alguma perversão é sempre necessário à administração do estado; mas essa perspectiva, segundo Harvey C. Mansfield,[10] apenas dá como adquirido que não iremos encontrar em Maquiavel a moral unidimensional da herança platónica e cristã. Strauss descreve a nossa impressão da maldade no autor como um preâmbulo necessário a compreender e também a transcender a sua filosofia, um pouco à semelhança da escada que se deita fora no final do Tractatus de Wittgenstein. Assim, não é certo que a reputação do maquiavelismo como uma doutrina da perversão seja uma falsidade, e talvez nem sequer um exagero, mas apenas uma leitura errónea e incompleta, se deixada no ponto das classificações morais substanciais e definitivas.

Por ora, podemos perceber o que Maquiavel não é. Já vimos que não é um sádico. O Príncipe também não parece ser uma sátira ou uma ironia, já que para Maquiavel a perversão é sempre explicitamente pensada como tendo em fim a manutenção da rede de segurança do estado. Além disso, a exposição da perversão é sempre literal, ou seja, não se trata de uma metáfora, algo que significasse simbolicamente uma outra coisa, mas sim de um epifenómeno do verdadeiro fim, a manutenção do estado. E a obra também não é uma exortação a Lorenzo de Médicis, apesar de lhe ser dirigida, pois algumas das passagens contradizem a prática da sua própria governação. Assim, Viroli conclui que O Príncipe não deve ser lido como um tratado moral — um erro que deriva tanto da Inglaterra puritana como da França moralista — mas sim, a par de Cícero, como um ensaio sobre a arte do estado, na tradição dos livros de príncipes. Mesmo assim, o pensamento intensamente original do autor não deixa de exercer, pelo menos parcialmente, uma crítica a Cícero, já que Maquiavel não equivale actos honestos a actos úteis, ao contrário do autor romano.

Passando agora a abordar mais especificamente o conceito de virtú em O Príncipe, vemos como este não é equivalente à virtude moral cristã, mas, segundo os críticos, mais próximo de uma raiz clássica, embora não se esgote nessa leitura. É uma virtú que parece ainda parcialmente alicerçada numa ética metafísica, ou seja, não depende apenas das consequências práticas; mas o idealismo de Maquiavel não é muito estrito, e rejeita em absoluto quadros morais puritanos que resultassem numa inacção com piores consequências do que a acção, mesmo que se trate de uma acção substancialmente perversa. Assim, apesar deste contraste entre uma virtú idealista e a virtú prática de Maquiavel, esta assemelha-se, mesmo assim, a uma ética mais idealista, não sendo exactamente idêntica a nível substancial, mas simplesmente coincidindo com aquela que seria a posição de uma ética tradicionalmente cristã. Por exemplo, na parte final da obra, mais dedicada à táctica militar objectiva, Maquiavel explica como o uso de mercenários como soldados não é tipicamente um acto virtuoso, não devido à falta de virtú idealista quer desse acto, quer dos mercenários individualmente, mas precisamente devido a uma consequência prática: a fraca fiabilidade desse tipo de soldados:

He has preferred to lose with his own troops rather than to win with those of others, judging that to be no true victory which has been gained by means of foreign troops. […] If a prince holds on to his state by means of mercenary armies, he will never be stable or secure. Mercenaries are disunited, ambitious, undisciplined, and disloyal. They are brave with their friends; with their enemies, they are cowards. They have no fear of God, and they keep no faith with men. Their ruin is deferred only so long as an attack is deferred. In peacetime you are plundered by them, in war by your enemies. The reason for this is that they have no other love nor other motive to keep them in the field than a meagre salary, which is not enough to make them want to die for you. They love being your soldiers when you are not waging war, but when war comes, they either flee or desert.[11]

Assim, se alguma da ética clássica e da moral escolástica medieval exigem que cada acto temporal e terreno seja uma imitação de um acto puro celeste, Maquiavel nega claramente a necessidade de tal equivalência; apesar disso, o seu pensamento tende quase para consubstanciar as duas esferas, já que a razão de princípio se confunde muitas vezes com a razão prática, como no exemplo anteriormente citado. Ao afastar-se da simplicidade de um binómio bem/mal, ou divino/telúrico, Maquiavel acrescenta-lhe uma complexidade: a liberdade intelectual humana para calcular os efeitos do acto, não incluindo assim a nossa percepção do acto, enquanto fenómeno delimitado num curto espaço de tempo, numa visão substancialista. Todo o conteúdo prescritivo de O Príncipe pode ser justificado deste modo: enunciam-se actos cujo efeito imediato é perverso mas cuja virtude do efeito, a longo prazo, em muito excede a perversidade inicial. E isto antecede, de modo claro, muito do foco sobre os efeitos trazido pela filosofia moderna, quer a nível da filosofia da ética, como no utilitarismo ou no consequencialismo, quer a nível da filosofia do conhecimento, como no pragmatismo.

Assim, é com essa noção de uma virtude moldada às circunstâncias, adaptada à esfera terrestre e não ao paraíso cristão, que Maquiavel conclui O Príncipe, numa passagem que irei citar por três razões distintas: a ressalva da liberdade humana, o optimismo perante o casamento entre essa liberdade e o desconcerto inerente ao mundo, e a visão de um estado de coisas negativo como necessário à produção de estados positivos superiores:

Nevertheless, in order not to wipe out our free will, I consider it to be true that Fortune is the arbiter of one half of our actions, but that she still leaves the control of the other half, or almost that, to us.I also believe that the man who adapts his method of procedure to the nature of the times will prosper, and likewise, that the man who establishes his procedures out of tune with the times will come to grief. I therefore conclude that, since Fortune varies and men remain obstinate in their ways, men prosper when the two are in harmony and fail to prosper when they are not in accord. And if, as I said, it was necessary for the people of Israel to be enslaved in Egypt to make known the virtue of Moses, and it was necessary for the Persians to be oppressed by the Medes to make known the greatness of spirit in Cyrus, and it was necessary for the Athenians to be scattered to make known the excellence of Theseus, then at present, to make known the virtue of an Italian spirit, it was necessary for Italy to be reduced to her present conditions, and that she be more enslaved than the Hebrews, more servile than the Persians, and more scattered than the Athenians: without a leader, without order, beaten, despoiled, ripped apart, overrun, and having suffered every sort of ruin.[12]

A partir destes pontos, torna-se evidente como é possível descrever Maquiavel tanto como um consequencialista precoce, ou uma espécie de proto-pragmático. Qualquer uma destas hipóteses parece bastante promissora a partir de vários pontos até agora levantados, aos quais acrescento as seguintes passagens, onde o autor descreve o benefício da perversidade aplicada na medida certa (envolvendo, assim, um cálculo subjectivo), a desvantagem comparativa da inacção (que assume, num calculismo pró-indivíduo, o papel decisivo do homem enquanto agente) e uma referência específica ao resultado final (que, mesmo assim, é generalista e aponta para um estado de coisas, não para um evento específico):

Therefore, a prince must not worry about the infamy of being considered cruel when it is a matter of keeping his subjects united and loyal. With a very few examples of cruelty, he will prove more compassionate than those who, out of excessive mercy, permit disorders to continue from which arise murders and plundering, for these usually injure the entire community, while the executions ordered by the prince injure specific individuals. […] In the actions of all men, and especially of princes, where there is no tribunal to which to appeal, one must consider the final result.[13]

Se o consequencialismo do pensamento de Maquiavel puder de facto ser descrito como uma filosofia do conhecimento proto-pragmática – e, adicionalmente, a nível da filosofia da ética, a virtú que leva ao bem comum estiver dependente dos efeitos – torna-se necessário perceber como se calculam os efeitos resultantes do acto e em que é que difere esse objecto-acto-efeito do tradicional objecto-acto-substância da moral cristã.

Na famosa passagem de Charles Sanders-Pierce frequentemente citada como definição da epistemologia pragmática, encontramos uma definição de objecto epistemológico que inclui os efeitos práticos decorrentes da sua existência, mas isto não deixa claro nem qual a diferença entre um «efeito prático» e um «efeito não prático», nem qual deve ser a delimitação daquilo que consideramos ser um efeito prático.[14] Neste quadro, as coisas não são tão simples como na lógica aristotélica ou na física newtoniana, onde é possível simplificar o mecanicismo da acção causal até ao ponto em que entendemos que o efeito prático cessa — quando, por exemplo, numa mesa de bilhar, a bola pára de se mover. Nessa esfera, uma tal descrição simplificada pode ser aceitável, apesar do movimento ter ainda reacções físicas que se lhe sucedem, não perceptíveis, além de efeitos mentais sobre os sujeitos que observarem a acção, por exemplo. Se aplicarmos à acção política esta mesma fórmula de causalidade física simples, a nossa concepção sobre a sua consequência terá de estar limitada àquilo que for empiricamente verificável já não a curto prazo — seria difícil exigir em política resultados tão imediatos como a acção de uma bola de bilhar sobre outra — mas sim a médio prazo; e é aqui que a diferença entre a ética de Maquiavel e a ética clássica e judaico-cristã mais sobressai. Nestas, um acto é substancialmente bom ou mau: o homem responde à acção com a reacção e deixa o resto a cargo da Providência; a moral maquiavelista vai além disso, já que eleva os limites da intervenção humana até mais perto da providência divina, e, de certo modo, redime o papel do acto telúrico, atribuindo ao homem a capacidade pseudo-omnisciente de julgar a benignidade dos seus actos não através da sua essência pré-determinada mas através da concepção temporalmente extensível dos seu efeitos. Porém, a diferença entre a consideração a curto prazo, mais próxima de uma natureza substancial do juízo moral, e a consideração a médio prazo, que inclui alguns, mas não todos, dos efeitos proporcionados pela existência/acção do objecto, é uma diferença de grau e não de espécie, já que o juízo moral aplica-se não sobre um objecto substancialmente diferente, mas sobre um alargamento da concepção desse objecto.

Ao contrário disso, nos sistemas platónicos — entre os quais podemos incluir o cristianismo — não há um prolongamento significativo do cálculo da consequência, a menos que consideremos o substancialismo da atribuição prévia de valor moral como uma espécie de cálculo por estimativa. Assim, é curioso como o platonismo, apesar de alicerçado em princípios metafísicos, na prática se aproxime mais de uma escala humana, já que é mais simples atribuir valor moral a partir de arquétipos que não envolvam um calculismo empírico complexo. Por outro lado, no proto-pragmatismo de Maquiavel, a concepção da totalidade do acto, que, ao incluir os seus efeitos, pode ser demasiado vasta e quase indeterminável, acaba por correr o risco de se inserir numa escala quase supra-humana, em que critérios irremediavelmente arbitrários definem os limites da nossa concepção do objecto. Assim, ao ultrapassar as consequências empíricas verificáveis apenas no imediato e permitir o alargamento do génio humano à consideração de efeitos mais distantes, Maquiavel — e as escolas filosóficas sucedâneas — acabam por se aproximar, curiosamente, de um idealismo ainda mais ousado do que o idealismo puramente essencialista da moralidade cristã: enquanto a moralidade idealista, de raiz platónica e metafísica, acaba por resultar numa aplicação mais visível, de efeito prático, ready-made e pronta-a-vestir, uma moral pragmática resulta em aplicações que parecem ser mais inconcebíveis para a escala humana, já que a estimativa das consequências do acto é feita a partir de dados empíricos que são necessariamente limitados. Por isso, tanto o proto-pragmatismo de Maquiavel como a filosofia do pragmatismo em si mesma não podem deixar de contar, também, com uma metafísica: já que a rede causal disposta defronte do sujeito colapsa para a sua parte perceptível e calculável, o resultado são representações mentais assumidamente incompletas, dependentes de uma teoria da correspondência imperfeita que precisa assim de um pressuposto metafísico para merecer credibilidade perante o sujeito.

As consequências deste hipotético pragmatismo em Maquiavel para uma filosofia da ética são mais claras; enquanto que uma leitura proto-pragmática das suas ideias implica impor ao autor um sistema epistemológico que não está explícito no texto de O Príncipe, no terreno da filosofia da ética; pelo contrário, o autor deixa perfeitamente claro como esta se define precisamente através desse calculismo consequencialista. Parece, no entanto, que o autor se distingue do utilitarismo de Jeremy Bentham, John Stuart Mill e Henry Sidgwick, e da teoria consequencialista em Elizabeth Anscombe, pois parece manter aspectos normativos na sua noção de justiça, de virtú e de ética política. Por exemplo, Maquiavel permanece fiel à noção de coesão social, à capacidade de resolução do indivíduo, e também considera a governação do estado como um fim supremo, não tendo necessidade de o justificar com nenhuma teoria meta-política. Enquanto Anscombe modifica o utilitarismo clássico com um ênfase na capacidade e no dever humano de prever as consequências dos actos até à medida do possível, alicerçando o juízo moral não só a partir desse âmbito limitado da acção e da intelectualidade humana, mas também num quadro assumidamente judaico-cristão que não põe em questão uma aplicação absolutista do binómio bem/mal a certas acções, Maquiavel parece assumir diferentes prerrogativas na sua justificação do estado e do governante como responsável pela coesão e pela acção correcta do estado enquanto gestor da coisa colectiva. Isto alarga a liberdade de acção do actor político para transpor fronteiras da moral tradicional e substancialista e pensar a manutenção da esfera pré-moral ou meta-moral do estado como superior quer a uma moral substancialista quer a uma moral consequencialista, alicerçando assim o seu pensamento numa normatividade que não passa necessariamente nem pelo utilitarismo conceptualmente confuso de Bentham e Mill, em que o conflito entre o interesse geral e o interesse particular nunca é resolvido de modo satisfatório, nem passa também pela distinção acrescida entre consequências previstas e não-previstas introduzida por Anscombe (embora se aproxime mais desse pensamento). Maquiavel permanece com um sistema de valores e de ética baseado em princípios simples como o da virtú individual e a primazia do estado, distinguindo porém a ética aplicada aos gentios da ética aplicável ao governante; aparentemente, enquanto o homem comum está sujeito às leis aplicáveis ao mundo terreno, substanciadas provavelmente por um fundamento divino, o governante não se encontra na mesma esfera, pois é ele que alicerça a aplicação da existência do estado, que é, como já vimos, condição necessária à existência de quadros morais no mundo terreno; assim, não é propriamente um sujeito extra-ético, mas é-lhe aplicada uma ética diferente, mais maleável, mais pragmática e mais consequencialista.

Para concluir, como já vimos, o conceito de acto e de efeito em Maquiavel parecem muito diferentes do pensamento anterior à modernidade, e antecedem claramente algumas das tendências da filosofia contemporânea, como o foco nos efeitos; mas, mesmo assim, o autor não parece colocar inteiramente de parte uma metafísica de que depende a sua filosofia. A diferença para com as éticas clássicas e cristãs, em termos sumários, é significativa: se em Maquiavel é possível prever consequências benignas a médio e longo prazo, mesmo de uma acção perversa, e atribuir a partir daí valor moral, no platonismo e no cristianismo a acção inclui apenas efeitos de curto alcance, ou chega mesmo a não os incluir de todo, numa concepção absolutamente substantiva do acto como cópia da forma platónica ou do acto puro divino. Enquanto a moral cristã entende o acto como uma unidade simplificada, mais próxima da forma platónica e da sua repetição no mundo da matéria, na moral proto-pragmática de Maquiavel a unidade da acção dissipa-se na extensão dos seus efeitos, o que pode acabar por correr o risco de destruir o seu valor moral substancialista. O summun bonnum, um bem comum, em Maquiavel, é perfeitamente concebível, e parece mesmo alicerçar muitas das premissas que sustentam o seu pensamento; mas a sua obtenção poderá estar muito distante de uma concepção imediatista da acção, correndo assim o risco de ser dissolvido nas perversões contingentes que são exigidas. No entanto, como já assinalei, Maquiavel admite essa licença à razão humana, o que não deixa também de ser exemplarmente optimista.

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  1. Machiavelli, Niccolò. The Prince. Ed. Peter Bondanella, Oxford University Press, 2005, p. 84.
  2. Id, Ibid, p. 86.
  3. Vd., p. ex., Ibid, pp. 88-89.
  4. Ibid, p. 106.
  5. Ibid, p. 113.
  6. Ibid, p. 116.
  7. Ibid, p. 117.
  8. Ibid, p. 130.
  9. Viroli, Maurizio. Machiavelli. Oxford University Press, 1998. p. 147.
  10. «Strauss, then, accepts the distinction between Maquiavelanism and Maquiavel, but believes it necessary to begin with Maquiavelanism in order to ascend from it.» (Mansfield 1975:378)
  11. Machiavelli, p. 93.
  12. Ibid, p. 87.
  13. Ibid, pp. 112-116.
  14. “Consider what effects, which might conceivably have practical bearings, we conceive the object of our conception to have. Then, our conception of those effects is the whole of our conception of the object. (EP1: 132)”

O contagioso (e o seu feedback)

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 Esta proposta encontra no SARS-CoV-2 uma contaminação de outro género: a do vírus da palavra e o feedback gerado pela sua retransmissão. Procura-se, na leitura que fazemos aos efeitos da pandemia Covid-19, revisitar a ideia chave de William Burroughs em A Revolução Electrónica, misturando com filmes, vídeos e pintura, para percebermos como o vírus da palavra domina desde sempre a produção do discurso e, procurando avidamente replicar-se, infiltra-se nas rotinas das gentes. PALAVRAS-CHAVE: Vírus da palavra, desejo, discurso, contagioso, Covid-19. Texto de Catarina Patrício[1].

Images. Millions of Images. That’s what I eat.

William S. Burroughs

na imagem: film still de Epidemic (1987) de Lars von Trier.

 

Uma máquina de escrever bate E-P-I-D-E-M-I-C. Os caracteres avançam. É o gesto tipográfico que atende quando a tarefa é começar do zero. O primeiro guião do filme, “The Inspector and the Whore”, perdeu-se porque um vírus se alojou na floppy disk. Para o superar, melhor fora bater tudo de novo mas à máquina, como se esse gesto segurasse melhor as palavras ao real (uma certa manualidade trabalha no teclar da typewritter por ser visível a ação da ferramenta – precisamente os tipos que dela se soltam e que, como martelos comandados pelo fervilhar dos dedos, golpeiam com tinta o papel). Falo de Epidemic[2] (1987) de Lars von Trier, tenso e infeccioso filme em torno de um guião dactilografado por dois cineastas amigos, Lars Von Trier e Niels Vørsel, que interpretando o seu próprio papel contam uma história com improvisos ao género docuficção.

A máquina de escrever bateu EPIDEMIC. A palavra permanecerá mecanograda a vermelho no canto superior esquerdo do ecrã o tempo que o filme durar. Uma maneira de mostrar que a ficção escreve o real – ou que ao golpear o presente (com a palavra escrita) o futuro daí há de escorrer [3].

Desdobra-se a história, entremeada entre o bater das teclas e as cenas do guião que se vai escrevendo. Evidentemente, a epidemia alastrou. O Doutor Mesmer, também interpretado por Von Trier, procura obstinadamente a cura para a doença viral, mas acaba por propagá-la ainda mais. Curioso notar no personagem o apelido de Franz Mesmer do Lebensmagnetismus – teoria do vitalismo ou magnetismo essencial entre as coisas animadas ou inanimadas; o mesmo Mesmer de mesmerismo e hipnose. Hipnose que viera afinal a ser essencial para o desenlace de Epidemic: é o corpo da medium que lê o guião que se oferece como meio de passagem da ficção ao real, contaminando todos os convidados do jantar, guionista e realizador incluídos, instalando definitivamente a doença num festim de gritos, esguichos, borbulhagem e copos partidos.

A máquina escreveu Epidemia vaticinando que a palavra é um vírus[4] e quer expandir-se, conquistar territórios. Essa é uma nota verdadeiramente política, instalando Epidemic como alegoria e trauerspiel às pragas da história da Europa, a todas elas, da peste negra às ideologias. E sob esse aspecto é o discurso que projeta o desejo de poder:

“Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, a sua ligação com o desejo e com o poder. Nisto não há nada de espantoso, visto que o discurso – como a psicanálise nos mostrou – não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo; é, também, aquilo que é o objeto do desejo; e visto que – isto a história não cessa de nos ensinar – o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar”. Cf. Michel Foucault, A Ordem do Discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada a 2 de Dezembro de 1970. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio (São Paulo: Loyola), 10.

Porque o discurso é da ordem do desejo, o vírus da palavra será o condutor a estas considerações sobre o que há de contagioso na palavra (e o seu feedback).

Comum a um qualquer animálculo, a um prolífico vírus, a uma planta em polinização, a uma ideia – à palavra – é essa vontade de projetar-se em todas as coisas. A avidez é o facto total[5], pensara Gabriel Tarde, enfatizando que as coisas são o que querem e o que têm. O verbo ser, imperativo da condição permanente, não poderia dar conta da voraz realidade processual das coisas e do desejo que as anima. Porque qualquer coisa, uma vez existente, quer projetar-se, e só será detida no seu caminho se deparada com um rival igualmente forte[6] – discorre Tarde sobre o objetivo fundamental das mónadas, fundando uma sociologia de tudo.

Assim se percebe como a história e a história antes da pré-história, continuamente, revelaram choques entre sociedades de coisas distintas que, por terem o mesmo objetivo, colidem – portanto a verdadeira história é a história do desejo.[7] Nessa colisão dá-se o “sim” ou o “nunca”[8] e de tempos a tempos ocorrem verdadeiros “choques civilizacionais”, i.e., quando com violência sociedades de tempestades derrubam sociedades de objetos naturais ou sociedades de construções humanas; ou quando sociedades de cometas extinguem sociedades de criaturas (como os Dinossauros); ou quando sociedades de humanos se apropriam à força de outras sociedades de humanos. Contudo, e mais silenciosamente, note-se como sociedades distintas cooperaram entre si, aliando-se, por exemplo, para travar um rival comum. Um historiador lê estes acontecimentos – ou como ideias, pessoas, furacões, tabelas Excel, exércitos, objetos [9] (de consistência mais rija ou mais soft, mais cristalinos ou mais compostos), fazem coexistir ou colidir o desejo que os anima. E isso é procurar pela vida social das coisas.[10]

Afinal um vírus, na sua micropolítica de infra-organismo acelular infeccioso, pode não ter a finalidade social de destruir o ambiente que parasita, não se fazendo então notar em sintomas malignos. Podemos mesmo nem ter como saber da sua presença. Esses são os chamados casos assintomáticos e a sua propagação pode alcançar resultados consideráveis.

SARS-CoV-2. Não é apenas este parente da família dos coronaviridae que contagia, são também os seus efeitos. Contagioso, sim. Mas eis o seu feedback.

Porque o vírus, sendo palavra, é também código e programa e, por esse motivo, é susceptível de ser trabalhado laboratorialmente, é passível de ser copiado e retransmitido; mas continuamos sem sair do domínio escrita, das antropotécnicas.[11]

E o que faz um vírus? Come. Come para fazer cópias exatas de si mesmo, mais e mais, fabricando novas cópias de si e assim, substituindo o hospedeiro, programa-se um corpo vazio. Espreite-se o depoimento técnico do poder do vírus:

“Gentlemen, it was first suggested that we take our own image and examine how it could be made more portable. We found that simple binary coding systems were enough to contain the entire image however they required a large amount of storage space until it was found that the binary information could be written at the molecular level, and our entire image could be contained within a grain of sand. However it was found that these information molecules were not dead matter but exhibited a capacity for life which is found elsewhere in the form of virus. Our virus infects the human and creates our image in him. […] This virus released upon the world would infect the entire population and turn them into our replicas […]. ” Cf. William Burroughs, Nova Express (New York: Grove Press, 1992), 49.

Um vírus, uma tapeworm[12], é também uma unidade ínfima de palavras e imagem. E “[a]ssim concebido, o vírus pode ser feito de encomenda no laboratório”. (Burroughs, A Revolução Electrónica, 64).

Pois bem, Covid-19, o contágio começa. E o vírus disse “Images. Millions of Images. That’s what I eat”. Este vírus é uma tapeworm e a sua influência está em ser gravador. Atente-se ao discurso:

— O Gravador 1 diz “I can’t breathe”[13].

— Gravador 2 retransmite “I can’t breathe”…. Everywhere. Anywhere (“retransmitir gravações de um acidente pode provocar outro acidente.”)

— Gravador 3, em modo megafone, “Black lives matter!” – diante desta desolação seria inevitável que Adão (gravador 1) recordasse a árdua caminhada que fez depois de o Senhor o ter expulsado do Jardim do Éden[14].

Sabemos como no princípio era a palavra escrita e depois a palavra foi vírus, suscitando a palavra falada, dita, clamada, reclamada, exorada. Gritar é um direito e o sítio de uma desobediência civil conquanto a agitação dos vectores seja colectiva[15] – porque uma mónada[16], um vírus, um indivíduo, nada pode sozinho. Daí que a palavra tenha de ser reinscrita, reproduzida, replicada, de forma a poder operar novas distribuições e inaugurar novos ciclos de contágio. Deveras contagiante: os efeitos sonoros de um motim, se retransmitidos em situação de tumulto, geram um verdadeiro motim, “apitos de polícia gravados atraíram os chuis. Disparos gravados e fá-los-á puxar pelas armas”.[17]

Mas a retransmissão abre também novas possibilidades de atualização do papel de informadores e agentes provocadores na tarefa de minar por dentro um movimento social (ou um aparelho instituído). Não é uma inovação, a utilização política de delinquentes é uma prática bem antiga e “que atingi[u] o seu pleno florescimento com a tomada de poder por Luís Bonaparte.”[18] Pois bem, “primeiro como tragédia, depois como farsa”[19] e, com novas roupagens, lá se há de tornar a repetir a história para voltar a ser tragédia. Ou farsa. Seja o que for, pois “todas as revoluções somente aperfeiçoaram a máquina em vez de a destruir[20] – o aforismo de Marx na sua fulgurante atualidade.

Se a ilusão é uma arma revolucionária,[21] a farsa também o é, podendo, enquanto máquina, servir qualquer um[22], em qualquer situação, com uma qualquer intenção, mesmo que nenhuma. Daí que na tapeworm se reúnam news, fakenews, avanços da ciência laboratorial[23], product placement e opinião publicada – e lá esteja o vírus da palavra a dominar a produção e a intrometer-se nas rotinas das gentes, fazendo com que o hospedeiro seja “[…] atacado simultaneamente por um vírus aliado, que lhe diz que tudo está bem, e por um vírus de dor e medo”. Atenção, este vírus sabe mesmo utilizar “o velho método de entrada do chui violento e do chui compincha[24].

O vírus da palavra infiltra-se. Diz Giorgio Agamben, acompanhando evolução da Covid-19 que

[…] é a própria linguagem como lugar de manifestação da verdade que é confiscada aos seres humanos. Agora, apenas podem observar mudos o movimento verdadeiramente real da mentira. Por isso, para deter este movimento, todos devem ter a coragem de procurar sem compromissos o bem mais precioso: uma palavra verdadeira.” (Agamben 2020, 37)

Entre verdadeiro e falso, mas também entre montras partidas e pilhagens[25] – no fim de contas que destino terá o flâneur no século XXI? – fica por perceber se assistimos a uma tragédia, se a uma revolução, se a uma farsa (ou tudo ao mesmo tempo). De Chicago, entretanto apelidada de Chiraque[26], mas também de Baltimore, de Los Angeles[27], de Nova Iorque, chegam notícias de tumultos e violência, efeitos de uma total desorientação. Lembremos Michel Foucault quando diz que [a] organização de uma ilegalidade isolada e fechada na delinquência não teria sido possível sem o desenvolvimento dos controlos policiais.[28]

Se a polícia não funciona, constituem-se milícias civis, os vigilantes[29]Batman onde estás? “Já tivemos a nossa quota de morcegos por agora,”[30] talvez seja melhor perguntar por Joker (2019), porque o filme de Todd Phillips mostra bem a matéria de que se alimentam as convulsões e as suas condições de possibilidade. Vemos esses sinais de forma oblíqua nos valores de fundo de Gotham: o acumular de sacos de lixo pela cidade, as paredes gastas, os tecidos desbotados, as lâmpadas tremulantes, as atmosferas densas e irrespiráveis, mas também as greves prolongadas e instaladas, a massa de desempregados amotinados, a precariedade dos vínculos, a solidão generalizada, em suma, os homo sacer[31] do capitalismo. Lá está, “Comedy is subjective, Murray”. E subjetivante. Daí que a figura de Joker seja capaz de desencadear a “forma colectiva da economia do desejo”[32]: o vilão já não está nele mas no canibal corporativismo do capitalismo[33] figurado nos bullshit jobbers[34] da Wayne Enterprises.

Se a política é “a arte de garantir uma unidade da cidade no seu desejo de futuro comum” (Stiegler, 2018: 18), pergunte-se se este deslaçamento do comunal não prefigura a Morte das Grandes Cidades Americanas.[35] A avaliar pelas notícias,[36] a fuga já começa: Escape from New York; Escape from L.A [37] – as cidades que John Carpenter filmou enquanto enclaves ou cidades-prisão, onde vale tudo menos sair. Um projeto técnico bem diferente da prisão-castigo ou prisão-aparelho, mas não menos engenhoso do que aqueles que o antecederam[38].

É muito mais fácil desencadear um sarilho do que pôr-lhe termo – dizia Burroughs e sabia bem do que falava. Este contágio está para durar, e fugir do vírus da palavra não resolve. Pode lembrar o bucólico retorno dos artistas ao campo no tempo da escola de Barbizon, mas até no quadro de Millet lá está o vírus a acenar: em L’Angélus (1857-59) dois camponeses suspendem o trabalho no campo para recitar a famosa anunciação do anjo Gabriel a Maria – deve ser rezada três vezes por dia, e lá atrás o bater do sino da igreja lembra a obrigação. Uma Tapeworm, e das antigas. Demasiado contagioso, o vírus da palavra, a intrometer-se nas rotinas diárias e a contaminar a produção no real. Desde o princípio.

na imagem: L’Angélus (1857-59), tela a óleo de Millet.

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  1. Universidade Lusófona, CICANT, Lisboa, Portugal; https://orcid.org/0000-0002-1904-2775 ; p4113@ulht.pt



  2. Um dos 3 filmes da trilogia “Europa” do realizador dinamarquês, antecedido de “Element of Crime” (1984) e sucedido por “Europa” (1991).



  3. Era essa a proposta de Burroughs e Gysin com o cut-up, uma técnica de remistura da palavra inspirada nos procedimentos dadaístas. Reconfigurando novas sequências, o cut-up poderá alcançar uma dimensão profética – ao cortar ou golpear o presente, o futuro há de eventualmente escorrer. Cf. William Burroughs e Brion Gysin [1978], The Third Mind (New York: The Viking Press, 2010).



  4. Para Burroughs, a palavra escrita é um vírus mortífero que se alojou nas gargantas dos primeiros hominídeos e permitiu a palavra falada depois de ter atingido um estado de simbiose estável com o hospedeiro. Cf. William Burroughs [1970], A Revolução Electrónica. Trad. Maria Leonor Teles e José Augusto Mourão (Lisboa: Vega, 2010).



  5. Tarde distancia-se de Durkheim ao admitir que todo o fenómeno é um facto social Cf. Gabriel Tarde [1893], Monadology and Sociology. Trad: Theo Lorenc (Melbourne: Re.press, 2012), 28.



  6. Cf. Tarde, Monadology and Sociology, 60.



  7. Dito por Deleuze e Guattari em entrevista. Cf. Gilles Deleuze e Félix Guattari [1973], “Capitalism: A Very Special Delirium” in Félix Guattari Chaosophy, texts and interviews 1972-1977. Ed. by Sylvère Lotringer (Los Angeles: Semiotext(e) 2009), 36.



  8. Releia-se Clarice Lispector na Hora da Estrela para agarrar esta contingência do encontro no choque entre moléculas: “Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve”. Cf. Clarice Lispector [1977], A Hora da Estrela (Lisboa: Relógio d’Água, 2002), 13.



  9. A proposta da teoria do ator-rede (ANT ou actor-network theory) é refundar a sociologia partindo da figura do ator-rede, alargado também a entidades não humanas. Uma boa metodologia, herdeira de Gabriel Tarde. Cf. Bruno Latour, Reassembling the Social (Oxford University Press, 2005).



  10. O antropólogo Arjun Appadurai aponta para a vida social das coisas partindo da relação que se mantém e sustenta na troca económica. É uma boa pista e reforça a relevância metodológica da ANT. Cf. Arjun Appadurai, “Introduction: commodities and the politics of value”, in The Social Life of Things: Commodities in Cultural Perspective (Cambridge University Press, 1986), 3.



  11. Cf. Peter Sloterdijk [1999], Regras para o Parque Humano: uma resposta à carta de Heidegger sobre o Humanismo. Trad. José Óscar Almeida (São Paulo: Estação Liberdade, 2000).



  12. Ténia. Mas usamos a palavra inglesa não apenas porque o encontrámos assim em Nova Express, mas também porque lembra tape enquanto cassette – a fita magnética.



  13. Aludimos à trágica morte de George Floyd. O racismo é hediondo e incompreensível, mas para o decifrar, percebendo a forma como atualiza a Guerra, consulte-se Michel Foucault, É Preciso Defender a Sociedade – Curso no Collège de France 1975-1976. Trad. Carlos Correia Monteiro de Oliveira (Lisboa: Livros do Brasil, 2006).



  14. Baseamo-nos claramente no ensaio “Feedback de Watergate para o Jardim do Éden”. Cf. Burroughs, A Revolução Electrónica.



  15. Cf. Hannah Arendt [1972], Desobediência Civil. Trad. João C. S. Duarte (Lisboa: Relógio D’Água, 2017).



  16. Uma mónada nada pode isoladamente, daí a sua tendência grupal. Veja-se como o explica Tarde: “It comes down to the fact that in a society no individual can act socially, or show himself in any respect, without the collaboration of a great number of other individuals, most of them unknown to him. The obscure labourers who, by the accumulation of tiny facts, prepare the appearance of a great scientific theory formulated by a Newton, a Cuvier, or a Darwin, compose in some sense the organism of which this genius is the soul; and their labours are the cerebral vibrations of which this theory is the consciousness. Consciousness means in some sense the cerebral glory of the brain’s most influential and powerful element. Thus, left to its own devices, a monad can achieve nothing. This is the crucial fact, and it immediately explains another, the tendency of monads to assemble”. Tarde, Monadology and Sociology , 34.



  17. Uma metodologia da Revolução Electrónica. Cf. Burroughs, A Revolução Electrónica., 40.



  18. Cf. Michel Foucault [1975], Vigiar e Punir, O Nascimento da Prisão. Trad. Pedro Elói Duarte (Lisboa: Edições 70, 2013), 323.



  19. Aqui aludindo a Karl Marx e ao 18 de Brumário de Luís Bonaparte, ensaio em que analisa meticulosamente os acontecimentos que levaram ao Golpe de Estado no qual Luís Bonaparte, sobrinho de Napoleão, se autoproclamou imperador. Cf. Karl Marx [1852], O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. Trad. Nélio Schneider (São Paulo: Boitempo, 2011).



  20. Cf. Marx, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, 141.



  21. “A ilusão é uma arma revolucionária. Eu salientaria algumas utilizações específicas das fitas pré-gravadas e seccionadas (cut-up), transmitidas nas ruas, como arma revolucionaria: para espalhar boatos […] para desacreditar adversários […] como arma de primeira linha para produzir e atiçar motins”. Cf. Burroughs, A Revolução Electrónica, 40.



  22. Precisamente porque serve qualquer um e para qualquer finalidade, Carl Schmitt escreve em 1929 n’“A Era das Neutralizações e Despolitizações”, que a técnica não poderá ser neutra. Contudo volteia-se o argumento logo de seguida, pois mesmo que a técnica tenha sido “capturada” ou mobilizada ao serviço de um fim preciso, os seus efeitos sociológicos sempre escapam ao controlo dos aparelhos de poder. Veja-se a dedução, algo encoberta, na seguinte passagem: «[…] it is because technology is magically linked to morality on the somewhat naive assumption that the splendid array of contemporary technology will be used only as intended, i.e., sociologically, and that they themselves will control these frightful weapons and wield this monstrous power. But technology itself remains culturally blind. Consequently, no conclusions which usually can be drawn from the central domains of spiritual life can be derived from pure technology as nothing but technology—neither a concept of cultural progress, nor a type of clerk or spiritual leader, nor a specific political system.» Cf. Carl Schmitt [1929]. “The Age of Neutralizations and Depolitizations,” In The Concept of the Political. Trad. M. Konzett e J. McCormick (Chicago: The University of Chicago Press, 2007), 92.



  23. A este propósito veja-se a noção de culturas epistémicas de Karin Knorr-Cetina, definidas enquanto “[…] amalgams of arrangements and mechanisms – boned through affinity, necessity, and historical coincidence – which, in a given field, make up how we know what we know. Epistemic cultures are cultures that create and warrant knowledge, and the premier knowledge institution throughout the world is, still, science.” Karin Knorr-Cetina, Epistemic Cultures. How the Sciences Make Knowledge. (Cambridge & London: Harvard University Press, 1999), 1., e de como, no centro das culturas epistémicas se destaca a figura do laboratório. Permitimo-nos citar mais uma passagem: “Laboratories not only improve upon natural orders, but they also upgrade social orders, in a sense. […] Yet the social is not merely ‘also there’ in science. Rather it is capitalized upon and upgraded to become an instrument of scientific work. Laboratory processes align natural orders with social orders by creating reconfigured, workable objects in relation to agents of a given time and place. But laboratories also install reconfigured scientists who become workable (feasible) in relation to these objects. In the laboratory it is not ‘the scientist’ who is the counterpart of these objects. Rather, counterparts are agents enhanced in various ways to fit a particular emerging order […]. Not only objects but scientists are malleable with respect to a spectrum of behavioural possibilities.” Cf. Knorr-Cetina, Epistemic Cultures, 28-29.



  24. Burroughs, A Revolução Electrónica, 46.



  25. Veja-se a massa de gente a partir montras e a roubar. Poderia supor-se que diante de uma profunda crise estivessem com fome. Não roubam comida mas roupa de marcas de grife como Dior ou Yves Saint Laurent. Real footage: https://www.youtube.com/watch?v=4Zv3l6HSwgE. Acedido a 13 de Agosto de 2020.



  26. Numa alusão ao cenário de guerra e destruição da guerra no Iraque. A violência torna-se num inescapável ciclo vicioso, algo ventilado por um dos elementos dos gangs que já é, nos seus vinte e poucos anos, um veterano de guerra. Veja-se esta reportagem para a BBC em https://www.bbc.com/news/world-us-canada-37323969. Acedido a 13 de Agosto de 2020.



  27. Veja-se este artigo do The American Journal of Emergency Medicine em que se analisam as tendências da violência relacionada com o uso de armas de fogo em grandes cidades americanas durante a pandemia provocada pela COVID-19. https://www.ajemjournal.com/article/S0735-6757(20)30344-2/fulltext. Acedido a 13 de Agosto de 2020.



  28. Foucault, Vigiar e Punir, 323.



  29. Os gangs terão começado assim, protegendo os bairros da criminalidade. Veja-se este vídeo, também chegado de Chicago, onde se vê o Gang Chicago Latin Kings protegendo o seu bairro das pilhagens aleatórias: https://www.youtube.com/watch?v=dD1DB3-e798 acedido a 13 de Agosto de 2020



  30. Veja-se o relato, de 30 de Março de 2020, do escritor Joshua Cohen: “Mas não há nenhum esquadrão de mutantes patriotas de capa que salvem Gotham desta vez. O melhor que podemos fazer é encolher-nos num canto, com o nosso pijama do Batman enquanto racionamos o nosso papel higiénico do Batman e nos lembramos de que muito provavelmente uma experiência interespécies, ou um acidente interespécies, que nos meteu nesta confusão. Já tivemos a nossa quota de morcegos por agora”. Cf: https://observador.pt/especiais/caos-em-nova-iorque-nao-ha-super-herois-que-salvem-gotham-desta-vez/ Acedido a 14 de agosto de 2020.



  31. Usando aqui o conceito de Agamben. Cf. Giorgio Agamben Homo Sacer: Il Potere Sovrano e la Nua Vita, 1995 2005, Torino: Einaudi*



  32. Para perceber a figura de Joker, leia-se Guattari: “Take desire in one of its most critical, most acute stages: that of the schizophrenic – the schizo who can produce something within or beyond the scope of the confined schizo, battered down by drugs and social repression. It appears to us that certain schizophrenics directly express a free deciphering of desire. But how does one conceive a collective form of the economy of desire? Certainly not at the local level. I would have a lot of difficulty imagining a small, liberated community maintaining itself against the flows of a repressive society, an addition of individuals emancipated one by one. But if desire constitutes the very texture of society in its entirety, including its mechanisms of reproduction, a movement of liberation can “crystallize” within the whole of society”. Cf. Guattari, “Capitalism: A Very Special Delirium”, 41.



  33. “Corporate Cannibal” é o título da música de Grace Jones que serve a Steven Shaviro para uma análise ao capitalismo. Em Post-Cinematic Effect (2010) diz que a Jones do videoclip “[…] consome qualquer pessoa e qualquer coisa que conheça, seguindo a lógica interna do próprio capital. Ela espera, desse modo, «fazer o mundo explodir». O mesmo é dizer, que faz uma jogada perigosa: aposta na possibilidade extrema do niilismo virulento do próprio capital poder conduzir à sua própria queda.” O último capítulo do livro de Shaviro, “Coda”, de onde extraímos a expressão e a analogia, foi traduzido por Manuel Bogalheiro para a Revista de Comunicação e Linguagens 45-46. Cf. Steven Shaviro, “Coda (de Post-Cinematic Affect),” in Movimento e Mobilização Técnica, Ed. José Bragança de Miranda e Catarina Patrício (Lisboa: Alêtheia, 2017).



  34. Na área da antropologia do trabalho destacamos o importante contributo de David Graeber, não apenas na sua grande obra dedicada à dívida, Debt: the first 5,000 years (New York: Mellvillehouse, 2011), mas auxilia aqui particularmente a leitura de Bullshit Jobs: A Theory (2018), onde distingue entre trabalho efetivo – de enfermeiros, médicos, professores, operários, pessoal de recolha de resíduos, pessoal das cadeias de distribuição de mercadorias, etc., do trabalho sem sentido ou da “treta” –dos flunkies (pessoal administrativo que existe para que “o chefe se sinta bem”, os goons (lobbistas e telemarketers que combatem outros lobbistas e telemarketers), duct tapers (pessoal de frontdesk cuja função consiste em resolver temporariamente um problema, engonhando), box tickers (aqueles que criam a aparência de coisas supostamente úteis) e “taskmasters” (o lugar das lideranças intermédias onde se geram mais bullshit jobs). Graeber não critica tanto o bullshit jobber em si, que muitas vezes tem de “fingir” ser necessário o posto de trabalho que ocupa, o que acaba por justificar toda esta cadeia onde proliferam sobretudo os chefes e os C.E.O. O centro da crítica é o sistema que recruta este trabalhador “da treta” para uma espécie de managerial feudalism, alertando com seriedade para as suas consequências: o alargamento do velho fosso entre ricos e pobres, a precariedade dos vínculos e, sobretudo, a desvalorização e degradação do trabalho efetivo. Cf. David Graeber, Bullshit Jobs: A Theory (New York: Simon&Schuster: 2018).



  35. Talvez um bom momento para revisitar o clássico – Jane Jacobs [1961], The Death and Life of Great American Cities (New York, Vintage Books: 1992).



  36. A título de exemplo, consulte-se https://edition.cnn.com/2020/05/02/us/cities-population-coronavirus/index.html. Acedido a 3 de novembro de 2020.



  37. Escape from New York (1981) e Escape from L.A. (1996), filmes de John Carpenter que parecem estar em vias de acontecer: no episódio de Nova Iorque, face ao aumento brutal do crime, Manhattan é encerrada sob muros e feita uma enorme prisão de alta segurança. No episódio de L.A., a cidade descola-se do continente depois de um forte sismo, convertendo-se numa ilha-prisão.



  38. Foucault. Veja-se a passagem completa: “Do ponto de vista da lei, a detenção pode ser realmente privação de liberdade. O encarceramento que a assegura envolveu sempre um projeto técnico. A passagem dos suplícios, com os seus rituais espetaculares, a sua arte misturada com a cerimónia do sofrimento, para penas de prisão enterradas em arquiteturas maciças e guardadas pelo segredo das administrações, não é a passagem de uma arte de punir para outra, não menos engenhosa do que aquela. Mutação técnica.” Cf. Foucault, Vigiar e Punir, 295.


Edição: Julho 2024

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Hot stuff: albinismo na Europa e África, música em vídeojogos, cosmética caseira, Nietzsche, entrevistar jornalistas, a invenção da adolescência, desenhos de contra-cultura, Ieltsin/Biden e a saída airosa, livros para a praia, When Harry Met Sally, história de Portugal, novidades na filosofia, a música erudita nas cortes da Ásia, e três oldies: evolução do conceito de marketing, o grande plano feminino no cinema e o mecanismo de Anticítera.

Tez de Lua Cheia: Entre o Breu e a Alvorada — Albinismo na Europa e África

R. Torres, J. Gonçalves, T. Rito e P. Soares escrevem-nos sobre a diferença na prevalência do albinismo entre a Europa e África, explicando também o que é e as dificuldades para quem vive com a condição.

Breve abordagem à música dos videojogos: características e impacto na experiência do jogador

Kim Serote Roos traz-nos um breve ensaio que trata da música presente num dos principais tipos de media, os videojogos, temática esta que tem vindo a ser, cada vez mais, alvo de estudo e investigação por vários académicos e compositores envolvidos no mundo dos media.

Comprehensive Guide to Crafting, Quality Control, and Safety in Homemade Cosmetics

Sara Garcia Diogo Gonçalves gives us an analysis of some critical areas of manufacturing handmade cosmetics, such as cleaning and disinfection, traceability spreadsheets, labelling rules, safety precautions, and quality control and testing.

Do Trágico como Sentido e Possibilidade para o Humano Face às Verdades Terríveis da Existência? – Breve Trilho pelo Pensamento de Nietzsche

Susana Vilarinho Mateus desenvolve o pensamento do filósofo alemão: como a verdade da situação humana é terrível, os valores epistémicos não são impermeáveis à ilusão e a descoberta de valores morais no mundo é uma falácia. É a ilusão necessariamente má, poderá o humano operar só através dela Como pode a vivência do trágico e a atitude dionisíaca face à situação humana restituir o vínculo à vida?

Ieltsin e Biden: a Busca pela Saída Airosa

Miguel Nunes Silva lembra-nos que quem viveu os anos 90 recordar-se-á da figura de Boris Ieltsin, o primeiro presidente russo pós soviético que havia sido fulcral na abolição definitiva do império comunista. O Ocidente estimava muito o líder russo, em parte, precisamente, pelo seu papel no colapso da URSS, mas também pelo seu compromisso para

com valores ocidentais como a democracia e o mercado livre.

Na ciência.

A Puberdade, a Idade Adulta e a Invenção da “Adolescência“

Ana Sérgio descreve como, no corpo da literatura universal anterior à semana passada, assim como no linguajar popular, é comum o uso da expressão aquando da primeira menstruação: “deixa-se de se ser menina e já se é mulher“. A isto acresce a concepção moderna de “adolescência”, baseada em critérios adicionais de maturidade psicológica, autonomia sexual e maioridade cívica. De seguida, debatem-se esses pontos.

Nota sobre como Jornalistas Não Gostam de Ser Entrevistados nem Corrigidos

Ricardo Fortunato traz-nos dois apontamentos que não servem para exercer qualquer tipo de ataque pessoal a qualquer profissional, nem sequer para pôr em causa a legitimidade de exercerem o ofício que exercem, mas para apontar que muito provavelmente existe um problema grave, aliás, vários problemas graves, com o perfil de pessoa que nos dias de hoje exerce o jornalismo.

Galeria: Catarina Patrício e Desenhos de Contra-Cultura

Uma refrescante galeria dos trabalhos da artista plástica Catarina Patrício, professora e investigadora de Artes Visuais na Universidade Lusófona, com muitos comentários e referências visuais de outros meios, em particular do cinema.

Excerto do Primeiro Jornal publicado no Reino de Portugal, de Novembro de 1641

João Manuel Almeida oferta-nos mais dois excelentes recortes históricos: o primeiro refere novas como “O Conde da Castanheira, que estava preso numa torre de Setúval pediu a El-Rei Nosso Senhor que lhe mudasse a prisão porquanto estava El-Rei Nosso Senhor usando de sua natural benignidade o mandou trazer para o Castelo de Lisboa.”, entre muitas outras.

Mais uma Galeria dos Reis de Portugal, esta mais detalhada, do séc. XVIII

E o segundo trata de uma magnífica galeria com representações de corpo inteiro dos reis de Portugal, retirada da Historia del Reyno de Portugal, de Manuel de Faria e Sousa [1730].

Sugestões: Livros para Levar para a Praia

A literatura mais pesada não tem de ser mais difícil nem mais desagradável. É para contrariar esta premissa tão familiar à divisão moderna entre trabalho e férias que recomendamos aqui, com toda a frontalidade, que levem para a praia colecções absurdamente volumosas da literatura mais densa e exigente que encontrarem.

Sugestões de Leitura: Novidades na Filosofia

Recomendamos, com regularidade quase mensal, e com a ajuda das magníficas sugestões da Notre Dame Philosophical Review, vários títulos recém-publicados no mercado editorial da literatura filosófica.

Crítica: When Harry Met Sally (Rob Reiner, 1989) e as Dinâmicas do Masculino/Feminino

Ana de Oliveira Sérgio escreve-nos sobre como a grande força desta película vem de apresentar a história de amor primariamente como um processo adversarial, construído com base em conflitos insanáveis, e não, como é mais comum na narrativa pós-romântica contemporânea, em descrições de compatibilidades.

Cronógrafos

Nuno Lopes Margalha fala-nos sobre como o tempo e os desportos estão invariavelmente ligados: ao longo dos anos, diversos tipos de contadores foram usados para avaliar o desempenho dos atletas. Os primeiros cronógrafos, usados nas corridas de cavalos, poderiam ser considerados os precursores do moderno vídeo-árbitro. Desde então, foram desenvolvidos aparelhos cada vez mais precisos e sofisticados.

A Música Erudita das Cortes da Ásia

Ana Sérgio continua a falar-nos de música tradicional de várias partes do mundo, desta vez elaborando, no seguimento da distinção entre música popular e erudita no mundo da música tradicional, sobre a música erudita das cortes da Ásia, onde o desenvolvimento civilizacional proporcionou condições para o surgimento de tradições musicais de alta cultura.

Evolução do Conceito de Marketing, 1990-2020

Por último, três oldies. Cláudia Ribau escreveu- nos uma análise sobre as mudanças ocorridas na área do marketing, quanto ao seu conceito e prática, desde há três décadas para cá.

O Close-Up e o Rosto Feminino na História do Cinema

Marta Silva de Almeida elaborou sobre o uso do plano do close-up do rosto da mulher ao longo da história do cinema, profusamente ilustrado com alguns excelentes exemplos.

O Discurso sobre a Roma Antiga em Olavo de Carvalho

E, finalmente, Nuno Lopes Margalha falou-nos sobre um artefacto do séc. I AC, descoberto no fundo do mar em 1900: um relógio astronómico muitíssimo complexo.

Fotografia de Harriet Shaw Weaver (1876-1961), activista inglesa pelo sufrágio universal e do progressivo político, patrona de várias iniciativas relacionadas com essas causas, assim como de várias iniciativas artísticas e literárias, tendo tido papel importante no lançamento do famoso romancista irlandês James Joyce. Agradecemos à nossa amiga Sofia de Ataíde Lobo Tully a sugestão. Já agora, no passado mês ficou por referir a nota biográfica da retratada: tratava- se da famosa cantora natural dos Barbados, Rihanna, presença multi-facetada importante na divulgação de certas vanguardas musicais e da moda contemporânea.

Sugestões de Leitura: Novidades na Filosofia, Julho 2024

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Recomendamos com regularidade, com a ajuda das magníficas sugestões da Notre Dame Philosophical Review, vários títulos recém-publicados no mercado editorial da literatura filosófica. Começamos com a obra de Peter Adamson, Don’t Think for Yourself: Authority and Belief in Medieval Philosophy, uma fascinante incursão em visões medievais de autoridade e crença, e em que medida é que devemos confiar na primeira ou antes estabelecemos as nossas próprias conclusões através do juízo individual. Seguimos com um volume de Jc Beall, Divine Contradiction, sobre como na área da teologia podemos encontrar terreno fértil para o papel lógico das contradições. Ainda, de Theron Pummer, The Rules of Rescue: Cost, Distance, and Effective Altruism, sobre como nos regemos por cálculos morais, materiais e filosóficos complexos nos nossos desígnios altruístas. Por fim, uma obra de André Laks, Plato’s Second Republic: An Essay on the Laws, apresentado a fascinante obra de Platão sobre as leis como um segundo capítulo do lendário e germinal volume A República.

Seguem-se mais quatro recomendações. De Markus Gabriel, Moral Progress in Dark Times: Universal Values for the Twenty-First Century, um ensaio sobre realismo moral como antídoto para os tempos turbulentos que por vezes vivemos. De Thomas Nagel, Analytic Philosophy and Human Life, um conjunto de recensões a obras relevantes para o notório filósofo. De Christopher Hill, Perceptual Experience, um amplo trabalho sobre filosofia da percepção e como esse campo abrange problemas desde os blocos básicos da percepção até à justificação epistemológica que os mesmos fornecem. Por último, de Joseph Raz, The Roots of Normativity, um conjunto de ensaios que abarcam questões desde motivações, intenções e acções que regem a aplicação de princípios e razões práticas nas nossas vidas, revelando o pensamento complexo do filósofo sobre essa matéria.

Sugestões: Livros para Levar para a Praia

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A literatura mais pesada — em todos os sentidos — não tem de ser necessariamente mais difícil nem mais desagradável, e a literatura mais leve — também em todos os sentidos, quer na dimensão física de bolso quer no conteúdo arejado e displicente — não tem de ser necessariamente mais descontraída nem mais prazenteira. É para contrariar estas premissas tão amigas da divisão moderna entre o trabalho e as férias que recomendamos aqui, com toda a frontalidade, que levem para a praia colecções volumosas da literatura mais densa e exigente que encontrarem. Vamos então divertir-nos, excitar a nossa imaginação e possivelmente fazer preparativos concretos para carregar estes veneráveis tomos até à praia.

Começamos por destacar um fabuloso conjunto de volumes da Macmillan and Free Press, em 12 tomos: a magnânime The Encyclopedia of Religion, coligida pelo famoso antropólogo Mircea Eliade. São doze exemplares, na edição original, e dezasseis, na edição melhorada, muito leves, tanto em termos de peso como de conteúdo — infelizmente não estão disponíveis em edição de bolso — sobre esse que é um dos capítulos mais relevantes da história das culturas e do pensamento: o domínio da religião, que alguns designam como o da espiritualidade, seja em forma de cultos organizados ou de disposições espirituais informais.

Adicionalmente, tendo em conta que não parece existir reunião de disposições mais perfeita do que estar na praia à torreira do sol a ler gigantescas enciclopédias sobre religião, acrescentamos outros títulos grandiosos e volumosos da mesma estirpe. A Schaff–Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, em treze volumes, a Encyclopaedia of Religion and Ethics, em doze, e, para aqueles que não estão para aturar edições abreviadas, têm a Theologische Realenzyklopädie, em trinta e seis tomos. Recomendamos também um estudo das complexidades da religião hindu em particular, numa edição muito recente, a Encyclopedia of Hinduism.

Recomendamos também a genial, incisiva e bastante numerosa colecção Loeb Classical, da Harvard University Press, que agrupa alguns — ou quase todos! — dos textos fundamentais da antiguidade clássica ocidental. Deste Platão a Aristóteles, passando por Plotino, literatura cristã inicial ou Santo Agostinho, e chegando até Marcos Vitrúvio e outros clássicos de temática diversa, a coleção, acima disposta na sua quase totalidade, possui a conveniência de estar configurada em volumes de bolso. Mas recomendamos que levem para a praia a totalidade da mesma, para terem muito por onde escolher, numa tarde de sol e mar.

Acrescentamos ainda recomendações de volumes cuja extensão não deixará ninguém aborrecido à procura de conteúdos noutro lugar: a edição completa da Wikipédia, com 27.000 páginas, e alguns dos maiores e mais longos livros jamais editados, produzida por Rob Mathews e também pelo mais recente projecto Printed Wikipedia, sobre os quais poderão ler mais aqui. Depois, se conseguirem encontrar quem faça uma cópia ou empreste o original, o lendário Atlas Klencke, um volume de 1,5 metros por 2 metros de comprimento e largura, ofertado por um consórcio de mercadores holandeses ao rei Carlos II de Inglaterra, em 1660. Estas edições acrescentam a vantagem de, além do carácter prático do seu transporte, poderem também ser usados como guarda-sol, corta-vento, etc. A literatura e a praia sempre tiveram, pelo menos para a burguesia da cultura, um casamento feliz: mas, neste caso, o agradável junta-se também ao materialmente útil, sendo estes volumes bastante práticos no auxílio contra as intempéries da beira-mar.

Por último, recomendamos literatura fundamental para quem frequenta intimamente o grande lençol das águas a que chamamos genericamente de mar: são manuais práticos com instruções explícitas sobre como salvar a vida a quem não sabe nada ou fique apanhado numa situação difícil na sua interacção com o oceano. Desejamos assim a todos excelentes leituras à beira-mar, segurança acima de tudo e que não tenham medo do que as pessoas acharem quando vos virem a carregar volumes de 12 quilogramas de pura leitura de férias para a vossa estadia no areal: a cultura não tem preço, mas, como todos sabemos, tem e tem de ter, necessariamente, peso.

A Música Erudita das Cortes da Ásia

No grande capítulo daquilo a que chamamos hoje, numa classificação maioritariamente discográfica, de música tradicional — ou, mais imperfeitamente, música do mundo — encontramos uma distinção muitas vezes importante e útil, embora nem sempre precisa, entre música popular e música erudita (sendo também usual referi-la como música clássica ou música de arte). Se a primeira, a tradição popular, requer simplesmente um ajuntamento social primário — na forma dos hábitos de uma tribo ou de uma povoação semi-dispersa, de cânticos de trabalho ou de celebração de religiões não-organizadas — na segunda, de tradição erudita, requerem-se estruturas civilizacionais mais robusta e desenvolvidas — como, por exemplo, a existência de uma corte real ou uma elite sacerdotal específica. Apresentamos assim hoje a música erudita das cortes da Ásia, onde o desenvolvimento civilizacional proporcionou condições para o surgimento de tradições eruditas facilmente reconhecíveis e imensamente apreciáveis e identificáveis.

Reparação que excluímos desta lista a maior potência asiática a todos os níveis, a China. Deve-se isso ao seu território e à sua força e diversidade abarcar tantas complexidades que preferiremos abordar todas as variantes das suas expressões musicais numa publicação mais especializada. Além do mais, a existência de música de corte, música erudita, nesse antiquíssimo e vastíssimo império do meio não surpreenderia ninguém: preferimos, assim, apresentar a novidade para muitos de músicas de corte em culturas e países onde talvez alguns não esperariam encontrá-las.

Começamos pelas ilhas da Indonésia, riquíssimas nas suas expressões musicais muito complexas — em particular nos ajuntamentos de percussões conhecidos por gamelão — onde sugerimos especificamente as ilhas de Java e do Bali, assim como o estreito de Sunda, em três sugestões discográficas específicas.

Passando rapidamente para as distantes ilhas do Japão, encontramos a prática do gagaku, que significa, literalmente, música elegante — também podendo ser traduzido por música de arte, música de alta cultura, música erudita, música clássica, como em qualquer dos géneros análogos que encontramos nas culturas desenvolvidas de todo o mundo.

Nas paragens da Coreia tradicional — hoje politicamente muito fragmentada, como se sabe — encontramos três grandes géneros de música erudita:

Nos territórios do Laos, a maioria das composições eruditas reportam à tradição desenvolvida na região de Luang Prabang, muitas entretanto perdidas e reconstruídas através de exaustivo trabalho de recriação dos instrumentos e das composições.

Nos territórios anexos do Cambodija, encontramos também tradições eruditas que remontam ao império Khmer, recolhendo influências hindus e também da ilha de Java. São semelhantes a algumas das linhagens musicais já apresentadas, como as de Laos, e do Vietnam, que apresentaremos agora de seguida.

No Vietnam, a tradição engraçadamente designada por nha nhac constitui-se por um conjunto diverso de estilos musicais e de dança que foram desenvolvidos na corte vietnamita entre os séculos XIV e XV.

Da Tailândia são mais conhecidas entre nós as exibições de dança peculiar, com delicados movimentos de mãos e pés, da parte de intérpretes femininas, claramente parte de uma tradição de corte.

Por fim, nos territórios do Burma, encontramos a grande tradição erudita do magahita, sobre a qual poderão ler mais aqui.

Um anexo a esta lista, abrindo o apetite para outras incursões nas tradições eruditas: se na Ásia temos grande fertilidade de civilizações com desenvolvimento material e cultural, em África não tanto, apesar de a riqueza de música popular tradicional — desde o canto tribal, laboral, até ao xamânico — ser quase inigualável no mundo. Há excepções, como a corte do Uganda. Deixamos aqui uma amostra desta tradição, com promessa de voltarmos a explorar esses territórios em busca de outras culturas de corte com riqueza semelhante às que aqui apresentámos.

Cronógrafos

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. O Tempo e os desportos estão invariavelmente ligados. Esta é uma relação tão evidente que muitas vezes passa despercebida. Ao longo dos anos, diversos tipos de contadores foram usados para avaliar o desempenho dos atletas. Os primeiros cronógrafos, usados nas corridas de cavalos, poderiam ser considerados os precursores do moderno vídeo-árbitro. Desde então, foram desenvolvidos cronógrafos cada vez mais precisos e sofisticados. A interpretação das suas escalas, assim como o entendimento do seu funcionamento e mecânica, permanece um enigma para muitos, um mistério que nos propomos a desvendar. Este é um artigo técnico de relojoaria dirigido para entusiastas e coleccionadores: caso fique com alguma dúvida entre em contacto com o Instituto Português de Relojoaria.

RELÓGIOS SIMPLES, CRONÓGRAFOS E CRONÓMETROS

Um relógio simples mostra as horas, minutos e segundos, mas ter a capacidade de indicar o tempo difere significativamente da capacidade de o contar. No universo desportivo, existem dispositivos específicos chamados cronómetros, que são utilizados para medir o tempo decorrido em competições.

É importante diferenciar entre contadores desportivos, erradamente designados de cronómetros, e cronómetros de relojoaria.

Na relojoaria, um cronómetro refere-se a um relógio cuja precisão recebeu certificação individual de uma entidade oficialmente reconhecida, como por exemplo a COSC (Contrôle Officiel Suisse des Chronomètres). Não confundir com os cronómetros utilizados nas competições desportivas. Estes aparelhos designados comumente de cronómetros, no desporto, são na verdade cronógrafos.

Contador Desportivo, frequentemente designado de cronómetro

Mas, afinal, o que define um cronógrafo?

Um cronógrafo é um relógio equipado com uma função adicional de contagem do tempo. O termo “cronógrafo” deriva de “crono” (tempo) e “grafo” (escrita), significando literalmente “escritor do tempo”, pois originalmente, estes dispositivos registavam o tempo de forma escrita.

cronCronógrafo de Nicolas Rieussec, imagem: Wikimedia Commons
Cronógrafo de Nicolas Rieussec-1822, imagem: Wikimedia Commons

A ORIGEM

O cronógrafo, conforme o reconhecemos atualmente, emerge das inovações de diversos relojoeiros ao longo da história. Georges Graham, em 1720, introduziu o primeiro dispositivo capaz de medir intervalos de tempo de forma independente, baseando-se na paragem e no reinício de um pêndulo. Embora, em 1822 Rieussec tenha batizado de cronógrafo sua invenção, que efetivamente marcava o tempo com uma gota de tinta no mostrador, é amplamente aceite que o “compteur de tierces” de Louis Moinet, criado em 1816, merece o título de primeiro cronógrafo da história.

Contador de terços de Louis Moinet em 1816
Contador de terços de Louis Moinet em 1816

Este mecanismo inovador operava com uma frequência de 216000 alt/h por hora, equivalente a 30Hz, permitindo assim subdividir o segundo em sessenta frações, tudo isso impulsionado por um oscilador de Foliot. A título de comparação, um relógio comum hoje funciona com uma frequência de 14400 oscilações por hora, ou 4Hz. Estes avanços constituiram algumas das contribuições iniciais mais significativas na evolução do cronógrafo. Contudo, existem outros inventores menos celebrados, como Adolphe Nicole, que também desempenharam papéis cruciais no aperfeiçoamento deste mecanismo, nomeadamente através da criação do primeiro sistema que permitia ao ponteiro regressar a zero.

ESCALAS E DIVISÕES

A grande maioria dos cronógrafos possui a capacidade de medir horas, minutos e segundos, utilizando para isso três ponteiros e escalas com divisões padrão. Contudo, além dessas escalas tradicionais, são frequentemente adicionadas outras mais especializadas, tais como as escalas taquimétrica e telemétrica. Os relógios equipados com tais escalas são denominados de acordo com a escala em questão, recebendo, por exemplo, os nomes de taquímetros ou telémetros. Estas são, de facto, as escalas mais comuns nos cronógrafos, mas existem outras, mais raras, como as pulsométricas, asmométricas ou decimais.

Patek Philippe Ref. 5975
Patek Philippe Ref. 5975

Os taquímetros são utilizados para calcular a velocidade de um objeto com base em tempos marcados por intervalos predefinidos. Para determinar a velocidade de um automóvel que percorre a distância entre duas marcas separadas por 1 km, basta activar o cronógrafo ao passar pela primeira marca e desativá-lo ao passar pela segunda. O ponteiro do cronógrafo indicará então a velocidade a que o veículo se movimentou. Por exemplo, se o ponteiro parar na marcação dos 30 segundos na escala padrão, um olhar atento à escala taquimétrica revelará que a velocidade correspondente é de 120 km/h. Se o automóvel levou 30 segundos a completar 1 km, isso significa que viajou a 2 km por minuto, o que equivale a 120 km/h.

Se o automóvel levou 30 segundos a completar 1 km, isso significa que viajou a 2 km por minuto, o que equivale a 120 km/h.
Se o automóvel levou 30 segundos a completar 1 km, isso significa que viajou a 2 km por minuto, o que equivale a 120 km/h.

Por outro lado, os telémetros permitem medir a velocidade de propagação do som, cerca de 330,7 m/s, ou aproximadamente 1 km em 3 segundos. Se, por exemplo, ativarmos o cronógrafo ao avistar um relâmpago e o pararmos ao ouvir o trovão, o ponteiro indicará a distância a que se encontra a tempestade. Esta escala foi muito aplicada em situações de guerra para medir a distância a que se encontravam as armas do inimigo.

Cronógrafo Pierce com telémetro utilizado pelos britânicos na Segunda Guerra Mundial
Cronógrafo Pierce com telémetro utilizado pelos britânicos na Segunda Guerra Mundial

Em alguns cronógrafos, especialmente nos mais complicados como o famoso Breitling Navitimer, encontram-se integradas réguas de cálculo que permitem realizar uma série de cálculos adicionais, como o consumo de combustível ou o tempo de voo.

Breitling Navitimer com régua de cálculo
Breitling Navitimer com régua de cálculo

ASPECTOS FUNCIONAIS

Os cronógrafos têm três funções básicas: iniciar, parar e retorno a zero, estas funções são normalmente operadas por dois botões. Então se há 3 funções para dois botões, necessariamente um terá de desempenhar duas funções. Um dos botões permite activar o início e a paragem, quando pressionado, o ponteiro do cronógrafo começa a mover-se a cada quinto de segundo, para um relógio de 18000 a/h e completa uma volta a cada minuto. Pressionar de  novo o mesmo botão, interrompe-se o sistema de cronógrafo. Durante esta paragem, um clique no segundo botão devolve o ponteiro de cronógrafo à posição inicial. Este é o funcionamento mais comum de um cronógrafo, porém, existem várias opções como por exemplo os cronógrafos de botão único, monopoussoir, ou monopusher, que actualmente permitem o desempenho de todas as funções, excepto o reinício após a paragem. Após a paragem, com recurso a um botão apenas, só é possível executar uma função e, naturalmente essa função tem de ser o retorno a zero e não o reinício da contagem.

Jaquet Droz Monopoussoir Chronograph
Jaquet Droz Monopoussoir Chronograph

Os cronógrafos são normalmente categorizados segundo aspectos funcionais, ou aspectos de construção mecânica. Os aspectos funcionais têm em conta a forma como as contagens são apresentadas, o que resulta do número de totalizadores, ponteiros, ou botões. 

Os cronógrafos simples possuem apenas um ponteiro central, independente, chamado de ponteiro de cronógrafo.  Todo o mecanismo é controlado por um único botão, que permite iniciar, parar e fazer o retorno a zero. Este tipo de mecanismo tem o inconveniente de fazer apenas contagens de 60 minutos. São exemplos o Omega Chronostop, o Singer Flytrack, ou ainda os relógios de parquímetro dos anos 70, que contavam os minutos de estacionamento decorridos. 

Singer Flytrack
Singer Flytrack

Os cronógrafos contadores acrescentam aos simples os totalizadores de minutos e por vezes de horas. Este é o sistema mais comum. Os totalizadores são submostradores com escalas e ponteiros próprios, que normalmente estão dispostos às 3h e às 6h, o que permite acrescentar pequenos segundos às 9h, criando assim alguma simetria. 

A.Lange e Söhne 1815 Rattrapante

Os cronógrafos de recuperação, rattrapante ou splitsecond, incluem movimentos mais complexos, têm dois ponteiros centrais sobrepostos, um deles o de cronógrafo, igual aos anteriores, e o outro o de recuperação, que permite fazer contagens intermediárias. Estes relógios têm dois botões, tal como os anteriores. O primeiro permite iniciar e deter o mecanismo e o segundo permite o retorno a zero. Para além destes dois botões, existe ainda um terceiro botão que, com um clique apenas, detém o ponteiro de recuperação, e com outro envia-o para junto do ponteiro de cronógrafo, seguindo ambos em simultâneo a partir desse momento. O Lange & Söhne Triple Split Ref. 424.038F é um óptimo exemplo de um rattrapante, especialmente porque foi seguido de duas maravilhas tecnológicas, o cronógrafo de recuperação duplo e triplo, que são simultaneamente cronógrafos de retorno instantâneo, tudo com recurso a três botões e 10 ponteiros. 

Lange & Söhne Triple Split Ref. 424.038F
Lange & Söhne Triple Split Ref. 424.038F

No início da aviação alguns pilotos recorriam a um tipo de cronógrafo muito particular que facilitava o cálculo de distâncias e velocidades, sem a necessidade da paragem e do retorno a zero habitual, em separado. Estes são os cronógrafos de retorno instantâneo, retour-en-vol, ou flyback. O funcionamento é muito simples, estes relógios iniciam o seu movimento no botão de partida e paragem, um segundo clique no botão de partida e paragem detém o ponteiro de cronógrafo e um clique no segundo botão permite o retorno a zero, tal como em todos os outros. Até aqui nada de novo. A diferença é que, após o início do ponteiro de cronógrafo, o segundo botão permite o retorno a zero, seguido do seu reinício automático. Ou seja, após uma leitura rápida, um clique permite iniciar uma nova contagem automaticamente. Os cronógrafos de retorno instantâneo são modelos frequentes em várias marcas.

Panerai PAM00246
Panerai PAM00246

Todos estes cronógrafos fazem contagens mínimas até ao segundo, mas e se for necessário dividir um segundo em várias partes? Nesse caso necessitamos de um cronógrafo com ponteiro fulminante, os termos mais usados são foudroyante em francês ou, split-seconds em inglês, os italianos chamam-lhe “diavoletto” – diabrete.

Graham Foudroyante Split-Second Chronograph
Graham Foudroyante Split-Second Chronograph

Na verdade esta é uma tecnologia bastante antiga, o  compteur de tierces de Louis Moinet, aquele que é considerado o primeiro cronógrafo, tem um ponteiro fulminante. Sempre que as contagens têm divisões superiores a um segundo e inferiores a um minuto diz-se que são cronógrafos com ponteiro semi-fulminante. Por exemplo o Zenith El Primero Striking 10th, tem um ponteiro central que dá  6 voltas por minuto, o que permite contar 1/10 de segundo, ou o Jaeger-LeCoultre Duomètre à Quantième Lunaire que faz a mesma contagem mas num totalizador dedicado.

Zenith El Primero Striking 10th e Jaeger-LeCoultre Duomètre à Quantième Lunaire 

Este mecanismo é possível devido às diferentes frequências, um movimento com 14400a/h, por exemplo, faz 4 oscilações por segundo, o que permite uma medição de 1/4 de segundo. O Zentih El Primero que faz 36000 a/h permite divisões de 1/10 de segundo, e com a mesma frequência, o  TAG Heuer Calibre 360, conta 1/100 de segundo. Estes cronógrafos com ponteiros fulminantes consomem bastante energia, e se o  F. P. Journe Centigraphe Souverain, recorre eficazmente apenas a um tambor, o  Jaeger-LeCoultre Duomètre à Chronographe  usa, com sobriedade, dois tambores para alimentar todo o mecanismo. Uma forma engenhosa de dividir um segundo em partes pode ser vista no Longines Nonius, no Tag Heuer Grand Carrera 36 RS Caliper, ou no Alain Silberstein iKrono.

TAG Heuer Calibre 360 |  Longines Nonius | Alain Silberstein iKrono

Todos estes modelos fazem uso de um nónio, invenção do célebre matemático Português Pedro Nunes. Nos exemplos do Longines Nonius e do iKrono, o Nónio encontra-se integrado diretamente no ponteiro do cronógrafo. A interpretação das medições não se afigura simples, exigindo o entendimento de qual marcação na escala do Nónio se encontra em consonância com a escala do cronógrafo e a contagem de todas as marcações precedentes, permitindo assim determinar os décimos de segundo com precisão.

A maneira como o ponteiro do totalizador de minutos se desloca permite também distinguir entre diferentes tipos de cronógrafos. Existem três padrões de movimento para estes ponteiros: podem ser contínuos, deslizando de forma constante; instantâneos, movendo-se num salto abrupto; ou semi-instantâneos, deslizando por metade da trajetória antes de efetuarem um salto. Os mais frequentes são os semi-instantâneos, nos quais o ponteiro do totalizador de minutos inicia o seu movimento a partir dos 58 segundos, e percorre metade do caminho até ao próximo minuto nos 2 segundos seguintes, findos esses dois segundos dá um salto final para assinalar a mudança de minuto. Este mecanismo pode ser claramente observado através de um vídeo gravado com telemóvel em modo de câmara lenta. Cronógrafos que incluem totalizadores de horas são encontrados com menor frequência e, geralmente, possuem totalizadores de minutos que operam segundo o modo semi-instantâneo.

ASPECTOS DE CONSTRUÇÃO MECÂNICA

A maioria todos os cronógrafos tem uma uma roda arrastadora (1), cravada sobre o eixo de segundos e engrenada na roda de embraiagem (2), o ponteiro de cronógrafo inicia o seu movimento quando a roda de cronógrafo (3) entra em contacto com a roda de embraiagem. No caso do famoso ETA 7750, a roda arrastadora foi substituída por um carrete oscilante.

Movimento 321 da Omega com destaque para roda arrastadora (1) , roda de emgraiagem (2) e roda de cronógrafo (3) e roda de colunas (4)

Neste processo estão envolvidos dois tipos possíveis de comando: mecanismo de cames ou roda de colunas.

Mecanismo de cames | Roda de colunas

Excêntricos ou cames são peças cujo eixo de rotação não está centrado, desta forma quando são pressionadas rodam até alcançarem uma posição única.

Para além do sistema de cames, existem outros excêntricos designados de coração devido à sua forma. No retorno a zero, estes corações desempenham um papel importante.

Cames identificadas em movimento de cronógrafo

Tanto a roda de embraiagem como a roda de cronógrafo têm dentes triangulares, porém os da roda de cronógrafo são em maior número e menos espaçados, o que reduz o salto que o ponteiro de cronógrafo faz, devido à engrenagem dos dentes das duas rodas. 

Roda arrastadora à esquerda | roda de embraiagem em cima (dentes triangulares) | roda de cronógrafo à direita  (dentes triangulares)

O comando accionado por rodas de colunas confere uma sensação de maior exactidão ao utilizar os botões, contudo, a sua montagem exige tolerâncias muito restritas e, frequentemente, considera-se que os custos de produção superam os benefícios trazidos pelo aumento da precisão. A transição da roda de colunas para outras soluções não foi simples, resultando em diversas patentes, dado que o ciclo de funções — iniciar, parar e reiniciar — é mais facilmente alcançado com uma peça que gira sobre si própria, como a roda de colunas, do que com peças que realizam apenas rotações parciais.

Roda de colunas

A roda de colunas é facilmente identificável devido à sua semelhança com um castelo redondo com muralhas e é visível em alguns mecanismos de alta qualidade, embora frequentemente esteja oculta nos cronógrafos da Patek Philippe.

Patek Philippe Ref. 5172 com Roda de Colunas oculta

 O funcionamento da roda de colunas tem início com o clique no botão de arranque/paragem, ao pressionar este botão estamos a mover uma alavanca designada de comando, com um gancho na ponta que encaixa na base da roda de colunas, constituída por uma roda com dentes Breguet, ou seja, em forma de serra. O referido gancho faz girar a base e, consequentemente, toda a roda de colunas, provocando a rotação desta roda na base, e por solidariedade, toda a roda de colunas que segue sempre o mesmo sentido, sem nunca o inverter. Este processo leva o bico da embraiagem a posicionar-se entre duas das colunas da roda de colunas e dessa forma empurra a roda de embraiagem contra a roda arrastadora, o que resulta no início do sistema de cronógrafo. A paragem ocorre quando o gancho provoca uma segunda rotação da roda de colunas, e dessa forma um posicionamento do bico da embraiagem, com o consequente afastamento entre a roda de embraiagem e a roda arrastadora ou carrete oscilante. O retorno a zero é accionado por meio de uma segunda alavanca que numa ponta tem um martelo e na outra duas penas, o martelo penetra as colunas da roda de colunas e quando isso acontece a pena faz rodar um excêntrico, posicionando-se na sua parte mais plana. A rotação dos dois excêntricos resulta no regresso a zero dos ponteiros dos totalizadores do cronógrafo.

Para além do comando do cronógrafo um outro elemento diferenciador é o sistema de embraiagem. Num carro, uma embraiagem transmite rotação do motor para as engrenagens da caixa de velocidade. Num relógio, a embraiagem transmite a rotação da corda e do tambor para as engrenagens do sistema de cronógrafo. Existem embraiagens horizontais e outras mais modernas, as verticais. As horizontais movem a roda de embraiagem até que os dentes desta engrenem com os dentes da roda de cronógrafo.

Embraiagem vertical do calibre Rolex 4130 que equipa o Rolex Daytona

Embraiagem vertical do Caliber 9SC5 que equipa o Grand Seiko Tentagraph

Nas embraiagens verticais o movimento é transmitido por fricção com a sobreposição concêntrica entre a roda arrastadora e a roda de cronógrafo, que partilham o mesmo eixo.

Pormenor do calibre Rolex 4130

É como se a roda de cronógrafo fosse um disco de vinil que cai sobre a roda arrastadora, o prato do gira-discos. Um bom exemplo dum movimento com embraiagem vertical é o calibre 4130 que equipa os Rolex Daytona mais recentes. Este sistema de embraiagem permite um arranque do ponteiro de cronógrafo mais preciso visto que não existe o salto inicial provocado pela engrenagem dos dentes. Na prática, porém, é muito difícil de perceber estas diferenças.

CRONÓGRAFOS ESPECIAIS

A batalha pela concepção do primeiro cronógrafo automático em 1969 é uma história frequentemente narrada, envolvendo o Zenith El Primero, o Seiko 6139 e o consórcio formado por Breitling, Buren, Hamilton, Heuer e Dubois-Depraz. Esta inovação — o cronógrafo automático — representou um marco importante para a época, especialmente considerando os recursos limitados disponíveis.

MB&F Sequential EVO

Ao longo dos mais de cinquenta anos que se seguiram, os mestres relojoeiros nunca cessaram de inovar, eis alguns dos exemplos mais inventivos. O MB&F Sequential EVO, com o seu sistema Twinverter, concebido por Stephen McDonnell, introduziu uma série de inovações notáveis, consistindo em dois cronógrafos independentes mas interligados no mesmo relógio.

MB&F Sequential EVO
MB&F Sequential EVO

Tal configuração permite a existência de um ponteiro de cronógrafo e outro de recuperação, ambos operando de forma autónoma. Este mecanismo, governado por duas rodas de colunas, dispõe de 4 totalizadores dois de 60 segundos e dois de 30 minutos cada um.

É accionado por cinco botões, cada um dos cronógrafos é operado por dois botões o quinto serve para activar a função Twinverter. Na prática, isto traduz-se da seguinte maneira: se ambos os cronógrafos estiverem parados, são iniciados simultaneamente; se ambos estiverem em funcionamento, são parados em conjunto; se um estiver a funcionar e o outro não, ao pressionar o quinto botão (o botão Twinverter) às 9 horas, o que está em movimento pára e o que está parado inicia-se. Este cronógrafo também inclui uma embraiagem vertical que não opera por fricção, mas sim por engrenagem com duas rodas simultaneamente. Como resultado, a operação do cronógrafo não interfere na amplitude do movimento do balanço.

Grönefeld 1941 Grönograaf

Grönefeld 1941 Grönograaf
Grönefeld 1941 Grönograaf

Outra inovação relevante veio com o Grönefeld 1941 Grönograaf, destacando-se pelo seu sistema que suaviza o retorno a zero do ponteiro de cronógrafo. Este movimento é usualmente brusco e causa desgaste a várias peças, podendo até levar à descravação dos ponteiros.

Grönefeld 1941 Grönograaf
Grönefeld 1941 Grönograaf

AgenGraphe AGH-6361

A solução adoptada recorre a dois contrapesos em ouro, que utilizam força centrífuga para suavizar este processo, de maneira similar à encontrada nos repetidores de minutos, tornando-se assim um verdadeiro espetáculo de mecânica relojoeira visível através do mostrador. Através da observação do mecanismo, descobrem-se outras inovações, como alavancas equipadas com martelos de rubi.

AgenGraphe AGH-6361: Singer Reimagined Track 01, Moser Streamliner, e Fabergé Visionnaire

O AgenGraphe AGH-6361, produzido pela AgenGraphe e utilizado no Singer Reimagined Track 01, no Moser Streamliner (modificado para o HMC 902) e no Fabergé Visionnaire, figura entre os cronógrafos mais inovadores dos últimos tempos.

O que imediatamente se destaca neste mecanismo é a sua insólita configuração em forma de donut, com os totalizadores do cronógrafo – segundos, minutos e horas – todos concentrados no centro, em vez de distribuídos ao redor do mostrador como é habitual. Com indicação instantânea de horas e minutos, roda de colunas e embraiagem vertical, este mecanismo automático tem o rotor situado por baixo do mostrador, acima do movimento. Dado que o centro é dedicado aos três totalizadores, no caso do Singer, as horas e minutos são exibidos em anéis rotativos na periferia; o anel exterior mostra as horas e o interior, os minutos, com o tempo correto sendo indicado por um ponteiro fixo às 6 horas.

Mais uma Galeria dos Reis de Portugal, esta mais detalhada, do séc. XVIII.

Fonte : Historia del Reyno de Portugal, de Manuel de Faria e Sousa [1730].

Excerto do Primeiro Jornal publicado no Reino de Portugal, de Novembro de 1641.

“§ Pelejou a Armada de Holanda com uma Esquadra da Armada Real de Castela, em que vinham muitas fragatas de Dunquerque: durou a pendência mais de vinte & quatro horas; foi-se a pique um Galeão dos Castelhanos, & ficaram alguns destroçados, & todos com muita gente morta. O Holandês com algum dano se retirou a este Porto, donde está aguardando a que El-Rei Nosso Senhor lhe dê socorro para sair outra vez a atemorizar os Portos de Andaluzia.

§ O Conde da Castanheira, que estava preso numa torre de Setúval pediu a El-Rei Nosso Senhor que lhe mudasse a prisão porquanto estava indisposto: & El-Rei Nosso Senhor usando de sua natural benignidade o mandou trazer para o Castelo de Lisboa.

§ Num lugar da Beira se afirma que houve um homem, que ouvindo dizer numa conversação de amigos que na feliz Aclamação d’El-Rei Nosso Senhor fizera o Crucifixo da Sé o milagre, que a todos é notório, disse que podia a caso a imagem do Senhor despregar o braço, & assim como acabou de dizer estas palavras caiu uma parede junto da qual estavam todos os da conversação, & só a ele matou.

§ Estando o Galeão S. Margarida para dar à vela disse o Piloto que não se atrevia a sair sem lhe darem mais gente do mar; inquietaram-se os soldados, & foi necessário acudir o General António Teles de Menezes, & alguns Senhores que o acompanharam na jornada de Cádiz: & despois de tudo quieto prenderam três soldados, que foram os cabeças, & a todos três os enforcaram.

§ Luís de Abreu que estava preso por cúmplice na conjuração, que se fez contra a pessoa Real, provou sua inocência, e saiu livre.

§ O Conde de Alba de Liste, & o Marquês de Alcanizes aos 19 de Outubro entraram pela vila de Isanes, & Malhadas com dous mil homens com ânimo de tomarem as munições, & a artilharia, que desta corte se mandava para a cidade de Miranda: porém os nossos lhe prenderam junto à vila das duas Igrejas (por donde a comboi havia de passar) uma hespia que lhe havia dado o alvitre & lhes vinha ensinando o caminho; & com a sua prisão mudaram de intento, & se foram: logo chegou o train ao lugar das duas Igrejas donde com grande pressa se recolheu, & se pôs em cobro: fizeram os inimigos na retirada algum dano: porém Rui de Figueiredo de Alarcão Fronteiro-mor de Trás-os-Montes, & Pêro de Melo Capitão-mor, & superintendente das armas na cidade de Miranda, juntaram 3000 infantes, & 100 cavalos, & com dous mil infantes mais que lhes mandou Francisco de Sampaio Fronteiro-mor da Torre de Moncorvo, de que era Cabo Domingos de Andrade Correia foram a Brandilanes cinco léguas de Miranda, donde o inimigo estava feito forte, & despois de duas horas de batalha ganharam a trincheira, em que mataram 70 homens, & os demais se retiraram a uma Igreja, donde resistiram até que os nossos puseram fogo a um barril de pólvora, para que eles cuidassem que os queriam queimar, & se entregassem. O que fizeram; mas ficaram mortos 400, entre os quais morreu Dom Inigo de Balandria governador da Cavalaria. Saquearam os nossos o lugar, & .vieram vitoriosos com mais de 300 armas de fogo, muito fato, grande número de gado, & outros muitos despojos; da nossa parte morreram sete ou oito homens.

§ Despachou El-Rei Nosso Senhor ao Conde da Vidigueira por Embaixador de França para assistir na Corte de Paris.

§ Dom Antão de Almada (que foi por Embaixador Extraordinário a Inglaterra) fica assistente para tratar dos negócios do Reino.

§ Veio Frei Dinis de Alencastre, a quem El-Rei Nosso Senhor havia mandado as partes do Norte: & não se sabe a que foi mas presume-se que efetuou tudo com a felicidade, que se esperava de um sujeito, em que concorrem tão soberana qualidade, & partes tão superiores.

§ O General Martim Afonso de Melo (sabendo que o inimigo estava em Valverde prevenindo-se para dar em Olivença) juntou do terço de D. João da Costa, de Aires de Saldanha, & de todas as fronteiras de Alentejo 3000 & tantos homens, & a 27 de Outubro saiu da cidade de Elvas no dia seguinte pela manhã, chegou a Valverde com a infantaria repartida em três esquadrões, & quinze mangas volantes, & a cavalaria em sete tropas. Foi visto dos inimigos: acudiram todos a defensa: preveniram-se os nossos para o assalto; imvestiram, & ganharam logo a primeira, & a segunda trincheira; & arrimando escadas entraram na vila, na qual não havia rua, que não defendesse a entrada com uma peça de artilharia porém os nossos romperam, & alhanaram tudo, & os inimigos se retiraram a uma Igreja, ao pé da qual havia um reduto, donde se defenderam valerosamente, & estando já os nossos ao pé da terceira trincheira, & o lugar quasi rendido, houve da nossa parte quem gritou que se retirassem, & cuidando todos que era ordem do General obedeceram, & cessou o destroço, que foi tão grande que não ficou em todo o lugar casa alguma que os soldados não saqueassem, & o que não podiam trazer ou o despedaçavam, ou lhe punham o fogo. Tornaram enfim para Elvas alegres com a vitória, & deixaram na vila mortos mais de 400 Castelhanos entre os quais morreu o Comissário da Cavalaria: trouxeram 55 prisioneiros, tomaram 3 bandeiras & muitos outros despojos; da nossa parte morreram pouco mais de 30 homens & os conhecidos foram o Comissário da Cavalaria, o Capitão Jerónimo de Castro, o Capitão João de Seixas, o Tenente de João de Saldanha Capitão de cavalos.

§ Veio nova que estavam os Galegos mui atemorizados despois que lhes desfizeram os redutos; tomaram-lhe os nossos algumas armas, & munições mataram-lhe, & cativaram-lhe alguma gente.

§ Onze homens de Castro Lobeiro que estavam na trincheira viram no campo doze cavaleiros castelhanos os quais vinham a reconhecer, & deram-lhes uma carga com que mataram sete, & cativaram os mais, & lhe tomaram as armas, & os cavalos, e os mandaram presos a Valença. Vinham atrás destes cavaleiros 300 infantes, & sem saberem do que lhes havia sucedido acometeram a trincheira: mas os onze mosqueteiros lhes deram duas cargas com que mataram alguns, & os mais fugiram, & não foram tão poucos os mortos, & os cativos, que não fosse por todos 31, & dos nossos ninguém perigou.

§ Em Caminha se tomaram três barcos de Galegos, donde se matou alguma gente, & outra se cativou.

§ Fez El-Rei Nosso Senhor mercê do Padroado do Crato ao Ilustríssimo Senhor D. Rodrigo da Cunha Arcebispo Metropolitano.

§ Prenderam um Frade Beguino estrangeiro, & dizem que veio a esta cidade por espia.

§ Estão nomeados por Mestres de campo Cristóvão de Melo filho do Monteiro-mor do Reino, & D. Sancho Manuel.

§ Publicou-se o subsídio Eclesiástico.

§ Abriu-se o comércio de .Moscóvia, & já veio uma Nau com mercadorias, & ficavam muitas para vir.

§ Dizem que estão quinze mil Franceses sobre Fonte Rabia.

§ Chegou a este Porto uma Caravela, que vinha das Índias com aviso, & os nossos a tomaram nas Ilhas. Traz vinte mil cruzados em patacas […]”.

Galeria: Catarina Patrício e Desenhos de Contra-Cultura

É com enorme gosto que apresentamos uma refrescante galeria dos trabalhos da artista plástica Catarina Patrício. A Catarina é professora e investigadora de Artes Visuais na Universidade Lusófona, em Lisboa, e tem vários trabalhos e exposições que poderão consultar no seu muito rico site pessoal/profissional, em https://catarinapatricio.weebly.com/. Nesta antologia que organizámos, encontrarão desenhos com muitos comentários a referências visuais de outros meios, em particular do cinema. Saudamos vivamente esta referencialidade inteligente no mundo das artes e parabenizamos a Catarina pelo seu trabalho, o qual desejamos que continue.

Nota sobre como Jornalistas Não Gostam de Ser Entrevistados nem Corrigidos

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Destacamos um pormenor numa interação recente, capturada em vídeo, entre um ativista nacionalista e uma jornalista do DN. Ao ser questionada pelo primeiro sobre uma reportagem por si assinada, em que, segundo aquele, o terá mencionado várias vezes mas nunca contactado directamente, esta responde que “não iria jogar esse jogo“. Tal bizarra formulação levou-nos a pensar: qual “jogo”? O jogo de fazer perguntas, que é o que os jornalistas fazem todos os dias?

A formulação parece de facto estranha tendo em conta que se trata de uma profissional da informação que está, aparentemente, a tratar a metodologia do seu próprio ofício como “um jogo“. Independentemente do juízo sobre o caráter benigno ou nocivo do exercício de fazer perguntas, que, aliás, tanto pode partir de um jornalista como de qualquer pessoa, e tanto pode incluir perguntas honestas e francas como também perguntas com armadilha para entalar o interlocutor, bastante comuns na comunicação social, o facto é que a inesperada formulação nesta interação parece lembrar um problema comum na profissão que pode ter ou não boas razões para existir: a aparente incapacidade e/ou desconforto dos jornalistas em se verem sujeitos ao mesmo exercício que praticam diariamente.

Lembremos, por exemplo, quão raro é jornalistas serem entrevistados por jornalistas — e, quando o são, nunca é para “apertar com eles“ mas sim modo geral para trocar simpatias e companheirismos de profissão. É decerto um problema advindo do corporatismo fanático da profissão.

Raras vezes a contradição desses profissionais está tão bem ilustrada como aqui. “Fazer perguntas” é um “jogo”, tentar apanhar o interlocutor em falso num momento ”gotcha”. Isto é o que os jornalistas fazem todos os dias mas não admitem que se faça a eles mesmos. Para reflectir.

Noutro apontamento, um profissional de comunicação social da revista Visão — que, a avaliar pela linha editorial frequentemente sensacionalista e pela postura descaradamente activista e por vezes q.b. ordinária de uma sua ex-directora — reagiu de péssimo modo a uma correcção que uma das contas de redes sociais da Revista Minerva pacificamente lhe endereçou. O tópico era o recém-nomeado candidato à vice-presidência dos Estados Unidos, J.D. Vance, e uma eventual comparação que o mesmo teria feito entre Donald Trump e Adolf Hitler. Inicialmente o jornalista terá escrito que Vance “chamou Hitler a Trump”, afirmação à qual propusemos a seguinte correcção: “Não é verdade. Em 2016, Vance escreveu ´I go back and forth between thinking Trump is a cynical asshole like Nixon who wouldn’t be that bad (and might be useful) or he’s America’s Hitler.´ Isto não é “chamar”: mais rigor, por favor.”. De forma completamente inesperada, injustificada e explosiva, o referido jornalista resolveu atribuir uma hipótese de comparação semelhante mas logicamente inviável que envolvia insultos abjectos, palavrões e ordinarice em relação a um dos nossos directores. Na galeria acima poderão verificar como, por muito que se tente, a discussão nas redes sociais — e a covardia que a virtualidade proporciona — mantém a tendência fácil para o nível abaixo de tasca e para o exercício de selvajaria da parte de classes intelectuais que não teriam coragem de o fazer de outro modo presencial, apenas em privado, entre os grupos rascas de amigos e colegas.

Acresce que o tópico em questão, no caso deste jornalista em específico, pode levantar enviesamentos cognitivos e tendências para a emotividade e para até o barbarismo inócuo, devido a um factor que temos de óbvia e frontalmente apontar: o mesmo é casado, segundo consta, com uma cidadã ucraniana, e é conhecida a sua preocupação e o seu partidarismo extremo no caso do actual conflito entre a Rússia e esse país. Por muito justa que seja a sua posição, isso pode, como é evidente, tanto influenciar a sua visão e descrição neutra e objectiva das complexidades que envolvem esse conflitos, como também proporcionar infelizes e tristes momentos de explosão emocional e de redundância no ataque pessoal e inócuo perante a simples amostra de uma correcção, sem qualquer antagonismo nem má-criação

Servem estes dois apontamentos não para exercer qualquer tipo de ataque pessoal a qualquer um destes profissionais, nem sequer para pôr em causa sua legitimidade de exercerem o ofício que exercem, mas simplesmente para apontar que muito provavelmente existe um problema grave, aliás, vários problemas graves, com o perfil de pessoa que nos dias de hoje exerce jornalismo, entre os quais: (1) a maturidade e a educação, (2) a capacidade para o pensamento lógico não informado por explosões emocionais e (3) o comprometimento com sectores políticos e ideologias e filosofias específicas, em geral minoritárias e alheias tanto ao modo mental da maioria das pessoas como também alheias àquilo que um leitor em teoria procura num exercício de reportagem.

Breve abordagem à música dos videojogos

Este breve ensaio trata da música presente num dos principais tipos de media, os videojogos, temática esta que tem vindo a ser, cada vez mais, alvo de estudo e investigação por vários académicos e compositores envolvidos no mundo dos media.

Os videojogos são de origem bastante recente, tendo aparecido por volta de meados do séc. XX. No entanto, devido às limitações tecnológicas da época, não era possível a parte sonora apresentar características que garantissem impacto na questão da experiência no jogo em si. Contudo, com o tempo e o progresso extremamente rápida do mundo da tecnologia, o áudio foi evoluindo até se tornar num aspeto essencial para uma experiência de jogo memorável e emocionalmente profunda, sendo por isso merecedor de estudo. Com este trabalho, pretendo fazer uma ligeira abordagem a este tópico tão fascinante, passando por aspetos como as principais funções deste tipo de bandas sonoras e técnicas composicionais utilizadas nas mesmas. Apesar de breve, pretendo que esta seja uma análise que traga novas aprendizagens e curiosidades para outras futuras investigações. Para atingir estes objetivos, basear-me-ei em trabalhos de compositores e autores experientes na área, tais como Winifred Phillips, que escreveu músicas para títulos conhecidos como God of War (2005) e Assassin’s Creed III: Liberation (2012), e Tim Summers, um autor que escreveu obras dedicadas à investigação na área da ludomusicologia, a área de estudo académico focada na música para videojogos.

1. No interior da música para videojogos

Como qualquer tipo de género musical, a música presente nos videojogos tem as suas próprias características. Enquanto que nas outras formas de media e nos filmes existe uma sequência de acontecimentos pré-definidos, o desenrolar de ações em videojogos depende maioritariamente da intervenção do próprio espetador, neste caso um utilizador ativo. Desta forma, cria-se um laço de interatividade entre o jogo e o jogador e, tal como todos os aspetos que compõem um videojogo, a banda sonora tem de demonstrar certas características de modo a se adequar a tal laço e a conseguir cativar plenamente o utilizador. Como Tim Summers afirma:

As players, we want games to be more than simply interactive. We long for those times when a game is so utterly absorbing, we lose track of time and our surroundings – we prize games that give us that rewarding sense of deep involvement in a fictional construct and gameplay mechanism.” (Summers, 2016, p. 58).

1.1 Tipos de música dentro do jogo

Como mencionado, uma das características mais evidentes dos videojogos é a interatividade. No entanto, dizer apenas que a música é interativa não é de todo suficiente para abranger todos os comportamentos que o áudio num videojogo pode demonstrar. Existem vários graus de interatividade na música, que passarei a analisar de forma sucinta.

Primeiramente, é preciso compreender termos como “diegese” e “dinamismo” aplicados à música. Por um lado, um certo som, tanto um efeito sonoro como música, pode ser considerado “diegético” quando faz parte do mundo do videojogo em questão, isto é, as personagens fictícias estão conscientes de tal som: “Diegetic sound is defined as music that happens in the game and that, therefore, ‘belongs to the game world’” (Ziegler, 2015, p. 8). Por outro lado, áudio que não é diegético refere-se aquilo que acontece fora do mundo fictício, sendo, por isso, apenas ouvido pelo jogador. Duma forma geral, este tipo de áudio é utilizado para ajudar à imersão do jogador e apoiar as suas ações, isto é, como modo de guiar o jogador para um certo estado de espírito (Ziegler, 2015, p. 8).

Abordando agora a questão do “dinamismo”, este relaciona-se diretamente com a interatividade, uma vez que se refere a áudio que varia de acordo com certos acontecimentos no jogo. Tendo isso em consideração, é possível afirmar que, no caso da música não demonstrar nenhuma reação relativamente ao que se passa no ecrã, ou seja, permanecer inalterada, então não poderá ser considerada dinâmica. Outro aspeto específico à música deste media é a ausência de linearidade: ao contrário do que acontece nos filmes, por exemplo, é impossível, até um certo ponto, prever o desenrolar da ação nos videojogos, uma vez que esta depende das escolhas do jogador e, por isso, o áudio tem também esse caráter imprevisível (Ziegler, 2015, p. 7).

Existem ainda mais algumas formas de classificar tipos de áudio em videojogos. De acordo com Karen Collins (2008, p. 139), a música dinâmica pode ser dividida em música interativa e música adaptável. A primeira refere-se àquela que está ligada às ações do jogador, enquanto que a segunda está relacionada com o próprio jogo, respondendo a ordens e eventos pré-definidos no código do mesmo.

Podem existir também combinações entre estes termos, o que causa ainda mais dificuldade na classificação de cada tipo de áudio. Na tabela 1, baseada na apresentada por Ziegler (2015, p.8), é apresentado um resumo simples do conteúdo descrito nos parágrafos anteriores, com a presença de exemplos para cada uma das combinações provenientes da minha experiência pessoal enquanto jogadora.

Tipo de áudio Diegético Não diegético
Interativo Sons produzidos pelo jogador e audíveis dentro do mundo do jogo: blocos a ser partidos em Dragon Quest Builders 2 (2018). Sons produzidos pelo jogador, mas que não são audíveis dentro do mundo fictício: sequência que toca quando, por exemplo, o jogador encontra um objeto num dos jogos de Pokémon (1996-presente).
Adaptável Sons dentro do mundo do jogo que são ativados pelo próprio jogo: aparecimento do som de grilos à noite em Stardew Valley (2016). Sons fora do mundo do jogo que são ativados pelo próprio jogo: mudança da banda sonora do dia para a noite em Legend of Zelda – Breath of the Wild (2017).
Não dinâmico Som de fundo num local do jogo, sempre constante mas audível no mundo do jogo: jukebox no bar em Stardew Valley (2016). Áudio de fundo no interface: música no menu principal em Slime Rancher (2017).

Tabela 1: Tipos de áudio presente em videojogos.

1.2 Principais funções da música

Uma vez feita uma análise um pouco mais aprofundada dos vários tipos de áudio presentes nos videojogos, tentarei agora delimitar algumas das principais formas em que a música é utilizada e como é que funciona dentro da estrutura do jogo.

Que funções é que a banda sonora e o áudio podem ter num videojogo? Existem demasiadas respostas a esta pergunta, mas numa perspetiva simples, a música deve ser construída de modo a acompanhar o jogador enquanto este explora e experimenta o desenvolvimento da narrativa. Contudo, há também a possibilidade da música se expandir e deixar de ser apenas som de ambiente para se tornar num guia fulcral no progresso do jogador. Isto significa que, em vez de ser somente “barulho de fundo”, a música transmite indicações que o jogador interpreta e utiliza de modo a decidir a sua próxima ação. É, assim, criada uma interligação muito próxima entre a música e o jogador, num género de ciclo, já que, por sua vez, as ações deste podem ter um efeito na própria música:

“Communication of gameplay-relevant information is critical in games because it directly influences the gamer’s actions, which in turn can alter the musical output. If the information is itself delivered musically, a feedback loop is created that makes the relationship of the music and player into a kind of reactive dialogue, rather than a simple one-way transmission.” (Summers, 2016, p.121).

Assim, este tipo de funcionalidade da música é útil não só em termos lúdicos como também num sentido psicológico, apresentando mesmo carácter pedagógico: ao utilizar indicações sonoras, o jogador tem mais um ponto de apoio e permite que os outros sentidos, como o visual, não fiquem sobrecarregados de informação. Como Stevens explica, “we could say that in video games players engage in ludic listening, interpreting the audio’s system-related meaning in order to inform their actions.” (Stevens, 2021, p. 77). Também pode acontecer que, na situação de outros aspetos do jogo apresentarem limites tecnológicos, a música adquire uma importância ainda maior, pois fornece um apoio sonoro para o jogador. De acordo com Tim Summers (2016, p. 60), mesmo que a parte gráfica do jogo seja tecnologicamente limitada, a utilização de sinais e referências pré-estabelecidas através da música melhoram condicionalmente a experiência de jogo.

Outra das principais funções da música prende-se com a parte emocional e forma como esta é afetada, o que, por sua vez, contribui para a imersão do jogador no mundo fictício. Com uma banda sonora adequada, é muito provável que o jogador ganhe uma crescente afinidade com o mundo e as personagens que o rodeiam: “music has the power to assist the player in establishing a deeper psychological relationship with gameplay, both on a cognitive and emotive level.” (Phillips, 2014, p. 46). Para melhor demonstrar este efeito, dou como exemplo a banda sonora de Legend of Zelda – Breath of the Wild (2017). Neste videojogo de exploração, o jogador controla Link, um guerreiro que acorda com amnésia depois de estar em coma 100 anos. Como em todos os jogos da série de Legend of Zelda, o objetivo principal é derrotar o antagonista e salvar o reino, mas, desta vez, o jogador tem total liberdade para explorar o mundo como achar melhor, sem ter a obrigação de completar a missão “principal”. Aliada a esta liberdade está a dimensão do mundo em si, que é incrivelmente vasto e repleto de biomas diferentes, inúmeras construções em ruínas e inimigos. Ora, ao embarcar na sua aventura, o jogador é confrontado com este ambiente de solidão e ansiedade iminente, transmitidos principalmente através do áudio. Não só os sons do mundo são importantes, sendo os passos de Link, o chilrear de pássaros ou o vento a abanar as folhas das árvores alguns dos muitos exemplos, como também a música tem um papel fundamental na transmissão das sensações procuradas: em vez de uma sequência sinfónica épica ou uma melodia forte e inspiradora, a única música que se ouve enquanto Link vagueia pelo mundo solitário é um piano a solo que vai tocando sequências curtas de melodias muito simples, separadas por pausas longas e contemplativas. Assim, através de uma adequação do áudio ao ambiente, torna-se fácil e muito eficaz comunicar emoções e estados de espírito ao jogador: “video game music, like in movies, supports the mood and gives the feeling of immersion to the gamer.” (Ziegler, 2015, p. 6).

1.3 Técnicas de composição mais utilizadas

Nos últimos parágrafos, foram analisados alguns aspetos específicos relativos à música de videojogos, desde os diferentes tipos às suas principais funções. De modo a concluir este capítulo, virar-me-ei agora para detalhes relacionados com a composição das obras musicais presentes neste media, recorrendo à banda sonora do jogo Undertale (2015) para apresentar exemplos concretos.

Logo em primeiro lugar está o leitmotif, que é provavelmente uma das técnicas de composição mais utilizadas e que, quando aplicada de forma correta, é muito eficaz. Proveniente do séc. XIX, o leitmotif consiste numa sequência musical, seja esta melódica, harmónica, rítmica, ou as três, que está interligada a uma certa ideia, um objeto, uma personagem, um sentimento, etc. Esta técnica é associada principalmente a Richard Wagner, compositor alemão desse mesmo século, que se recorreu ao uso de tais frases musicais na construção das suas óperas, especialmente na tetralogia Der Ring des Nibelungen, o que permitiu uma coesão musicalmente competente entre as quatro partes da narrativa. Assim, tal como Wagner e vários outros compositores usaram o leitmotif para construir as suas obras, também os compositores atuais a aplicam em diversas bandas sonoras de media tecnológicos, não sendo os videojogos exceção. Tal como mencionado no subcapítulo anterior, a música pode ser muito útil para a experiência do jogador, guiando-o para o seu próximo objetivo. Ora, a razão principal deste fenómeno deve-se precisamente à aplicação do leitmotif. Dependendo de como é utilizado, o jogador tem a oportunidade de se conectar melhor ao mundo fictício, de ter reações emocionais perante uma certa melodia ou tema musical, de usufruir de uma experiência de jogo mais profunda do ponto de vista psicológico, ou até mesmo todas estas opções ao mesmo tempo. Quer esteja ligado a uma personagem, a um local, a um evento, a um objeto ou a um sentimento, o certo é que, ao chegar aos ouvidos do jogador, um leitmotif terá sempre um grande impacto na sua experiência. De acordo com Phillips (2014, p. 47), “[m]usical themes are ideally positioned to help game players mentally organize the game world and emotionally interact with it”. Outro aspeto importante do uso do leitmotif relaciona-se com a interligação de eventos dentro do jogo. Normalmente, são necessárias bastantes horas, distribuídas ao longo de vários dias, para completar um videojogo, mesmo que o jogador se foque apenas nos objetivos principais. Por essa razão, a repetição de temas musicais ao longo da narrativa é fundamental de modo a que o jogador associe acontecimentos uns aos outros e se lembre daquilo que ficou para trás – “[…] theme music can be employed throughout the game acting as a form of continuity between scenes and as a bridge between previous scenes, helping the player remember key moments in the game.” (Dutta, 2020, p. 34-35). Além disso, o leitmotif pode também ser útil para criar uma sensação de antecipação ao jogador, tornando possível a previsão de um certo acontecimento de acordo com o tema musical ouvido. Este aspeto é confirmado por Vikram Dutta (2020, p. 34), que afirma que o “[…] leitmotif [can] be used to foreshadow the appearance of a character or an event in a video game”. Relacionadas com a ideia do leitmotif estão outras técnicas comuns como a utilização de variações dos temas e escolhas de orquestração. Tais técnicas são apenas formas de implementar o leitmotif de modo a que este não se torne demasiado óbvio ou repetitivo, um problema comum com que os compositores deste tipo de música se deparam:

Repetition fatigue occurs when a memorable or recognizable melody ceases to be entertaining and becomes an annoyance, either because the repeating track in which the melody appears is too short, or the track itself is repeated too often.” (Phillips, 2014, p. 43).

Assim, com a aplicação de variadas técnicas, é possível reutilizar material temático de uma forma eficaz e produzir na mesma os efeitos psicológicos ou emocionais desejados num certo momento da narrativa.

Vejamos um exemplo mais concreto daquilo que foi exposto no parágrafo anterior na banda sonora do jogo Undertale (2015). A narrativa deste videojogo não é muito complexa: uma criança humana, a protagonista, cai num reino subterrâneo, habitado por monstros, que foram forçados a viver debaixo de terra pelos humanos. O jogador tem o papel da criança e o objetivo principal é atravessar o reino subterrâneo de modo a regressar à superfície. No entanto, este videojogo é peculiar num aspeto: as escolhas do jogador afetam de tal modo a narrativa que pode transformar um jogo aparentemente inocente num pesadelo horrível. Apropriadamente, a música demonstra mudanças adequadas a estas opções principais e o impacto emocional que a utilização do leitmotif tem na experiência do jogador é devastador, seja qual for o final da história.

Dou como exemplo o leitmotif de uma das personagens, Alphys, a cientista da corte real que, apesar de ser brilhante e aparentemente bem sucedida, é muito insegura relativamente às suas aptidões. Assim, a faixa musical que se ouve quando o jogador a conhece pela primeira vez, intitulada Alphys, é uma peça com um caráter leve e até com um tom cómico. A instrumentação é digital e os timbres eletrónicos ouvidos fazem lembrar máquinas e tecnologia. Formalmente, a peça está dividida em três partes, apresentando três melodias animadas em cada uma delas. A primeira é representada por esta simples sequência:

A close-up of a music note

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Fig. 1 Leitmotif da personagem Alphys, na faixa Alphys.

Música composta por Toby Fox.

https://www.youtube.com/watch?v=xG2AtyD3elY

Esta é a primeira melodia que o jogador ouve ao encontrar a personagem e, desta forma, inicia-se de imediato um processo de associação psicológica entre a música e a personagem. No entanto, num momento posterior da narrativa, o jogador apercebe-se que as inseguranças da personagem têm, afinal, uma justificação, descoberta que ocorre quando se depara com uma secção escondida do laboratório dela. Ao explorar este novo local, escuro e misterioso, o jogador descobre todos os segredos que Alphys escondia, incluindo experiências falhadas para ressuscitar monstros que haviam morrido. Ora, perante este ambiente de tensão e conflito emocional, a música toma também um caráter mais fechado e sombrio, adequado a esta mudança de cenário. Assim, na faixa em questão, Here We Are, são reutilizadas as melodias da faixa mencionada no parágrafo anterior, assim como o leitmotif principal, que sofre alterações drásticas na forma como representa a personagem.

A picture containing line

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Fig. 2 Leitmotif transformado da personagem Alphys, na faixa Here We Are

Música composta por Toby Fox.

https://www.youtube.com/watch?v=y49b8aiQVBg

Aqui, as células rítmicas têm uma duração maior, o compasso sofreu uma mudança e a melodia ouve-se agora num registo mais grave. Além disso, nas faixas originais, é também importante mencionar a alteração em termos de orquestração: enquanto que em Alphys os timbres são suaves, fazendo lembrar máquinas e jogos antigos, em Here We Are, são ouvidos sons eletrónicos mais pesados, em registos graves, e o leitmotif transformado é apresentado em timbres vocais. É principalmente este último aspeto que dá à peça um caráter perturbador: é como se as vozes presentes na música fossem os lamentos das almas dos monstros que foram utilizados nas experiências. Como indica Phillips (2014, p. 43), “[c]hanging the instrumentation is the simplest of all thematic alterations, but can be highly effective.

2. Videojogos versus Cinema

Música e áudio estão presentes em inúmeros tipos de media tecnológicos e, sendo o cinema um dos géneros principais, é natural que tenha uma influência bastante grande nas composições para videojogos. De facto, como afirma Tim Summers (2016, p. 143), videojogos são de certa forma algo semelhantes a filmes, no sentido em que ambos pretendem apresentar narrativas audiovisuais. Deste modo, muitos compositores de música para videojogos baseiam-se na estética e na sonoridade das composições para o cinema, fazendo adaptações posteriores ao media em questão. É também comum haver “réplicas” de material musical de um media para o outro, principalmente quando é criado um jogo baseado num certo filme ou série televisiva.

No entanto, como foi explicado no capítulo anterior, há certas características que são únicas aos videojogos e, por essa razão, não se pode fazer uma transferência direta da música entre estas duas formas de media. Ao contrário do que acontece em filmes e na televisão, os videojogos não têm uma narrativa linear, devido ao seu caráter interativo, e, assim, não são sempre completamente previsíveis: “[Non-linearity] describes the character of video games as not entirely predictable and therefore not linear, unlike movies” (Ziegler, 2015, p. 7). Tim Summers argumenta que, apesar da necessidade de se adaptar o material musical ao trabalhar com os dois tipos de media diferentes, dado as características específicas, é importante não as separar completamente, já que a maior parte dos jogadores acaba por ser também espetadora no mundo do cinema, trazendo por isso muitas referências musicais dos filmes. Este autor relembra também, e indo ao encontro daquilo que foi exposto anteriormente, que os videojogos funcionam com a interligação entre elementos lúdicos e narrativos, sendo necessária por isso uma abordagem ligeiramente diferente ao aplicar-lhes as regras musicais:

“[…] games usually seek to make narrative elements relevant to the gameplay mechanics, and the ludic components narratively relevant. […] One way in which this musical function has been fulfilled is through the use of musical materials and tropes from film and television music (as highly narrativized media) to apply a narrative frame to the ludic gameplay” (Summers, 2016, p. 144-145).

Com todas as suas diferenças, a música para videojogos e para cinema tem os seus pontos comuns, especialmente em termos das técnicas utilizadas na composição. Uma destas é a chamada Mickey mousing, um efeito que, de acordo com Zach Whalen (2004)[1], “occurs in both animated and live-action cinema when the music provides a synchronized, aural imitation of what is happening on the screen […]”. Isto significa, por exemplo, que, num segmento, a música apresentaria uma melodia ascendente quando uma personagem sobe umas escadas, criando assim um género de relação interativa entre o áudio e a imagem, conforme complementa Ziegler (2015, p. 5). Outra técnica comum é a mood technique, que tem como princípio transmitir à audiência um ambiente emocional pré-definido de forma a que esta experimente uma imersão mais acentuada. Finalmente, a técnica mais comum, e como já seria de esperar, é o leitmotif e o efeito enorme que uma boa aplicação deste pode ter. Tal como foi explorado no capítulo anterior, a reutilização de material temático é sempre fundamental para cativar a audiência num nível mais emocional. Do mesmo modo que esta técnica tem um grande impacto na banda sonora de um videojogo, o mesmo acontece com a banda sonora de um filme. Por exemplo, na banda sonora de Puss in Boots: The Last Wish (2022), o leitmotif associado ao Lobo, que na realidade simboliza a morte, é uma melodia extremamente simples: contém apenas um arpejo de sol maior e ré maior, fazendo um movimento de I – V, sem resolver. Fora de contexto, esta sequência de notas ouvidas num assobio não provoca efeito algum no ouvinte, mas, no contexto do filme, a audiência experimenta sensações de medo e ansiedade cada vez que a melodia aparece, como é de esperar de uma personagem representativa da morte.

Desta forma, a aplicação destas técnicas composicionais cria uma aproximação entre a música composta para o cinema e para os videojogos que, embora com características e necessidades de abordagem diferentes, recorre a estratégias semelhanças para capturar a atenção da audiência e transportá-la para o interior dos mundos fictícios expostos no ecrã.

Bibliografia

Brame, J. (2011). Thematic Unity Across a Video Game Series. in ACT – Zeitschrift für Musik & Performance 2 (Jul. 2011), no. 2.

Collins, K. (2008) Game Sound – An Introduction to the History, Theory, and Practice of Video Game Music and Sound Design. Cambridge, Massachusetts: Massachusetts Institute of Technology.

Dutta, V. (2020). The Repetition of Video Game Music, its Impact on Video Game Enjoyment and How Best to Manage it (Tese de doutoramento). University of Huddersfield, Huddersfield.

Greenfield-Casas, S. (2017). Between Worlds: Music Allegory in Final Fantasy X. Austin, Texas: The University of Texas at Austin.

Jorge, R. P. (2003). A música dos videojogos. ReCiL – Repositório Científico Lusófona.

Phillips, W. (2014) A Composer’s Guide to Game Music. Cambridge, Massachusetts: Massachusetts Institute of Technology.

Redecker, B. (2022). Game Music as a Boundary Object. in Journal of Sound and Music in Games, Vol. 3, Number 1, pp. 36-49. Society for the Study of Sound and Music in Games.

Squire, K. (2006). From Content to Context: Videogames as a Designed Experience. in Educational Researcher, Vol. 35, No. 8 (Nov. 2006), pp. 19-29. American Educational Research Association.

Stevens, RC (2021). The inherent conflicts of musical interactivity in video games. in The Cambridge Companion to Video Game Music. Cambridge University Press, Cambridge, pp. 74-93.

Summers, T. (2011). Playing the Tune: Video Game Music, Gamers and Genre. in ACT – Zeitschrift für Musik & Performance 2 (Jul. 2011), no. 2.

Summers, T. (2016) Understanding Video Game Music. Cambridge, United Kingdom: Cambridge University Press.

Whalen, Z. (2004). Play Along – An Approach to Videogame Music. in Game Studies, Vol. 4, issue 1. (retirado de https://www.gamestudies.org/0401/whalen/).

Ziegler, J. (2015). Evolution of Game Music – A look at characteristic elements of music in video games across time (Tese de licenciatura). Hochschule Mittweida, University of Applied Sciences.

  1. Extraído de https://www.gamestudies.org/0401/whalen/

Ieltsin e Biden: a Busca pela Saída Airosa

Por Miguel Nunes Silva, Director Instituto Trezeno (https://www.trezeno.pt)

Quem viveu os anos 90 recordar-se-á da figura de Boris Ieltsin. O primeiro presidente russo pós soviético que havia sido fulcral na abolição definitiva do império comunista. O Ocidente estimava muito o líder russo, em parte, precisamente, pelo seu papel no colapso da URSS, mas também pelo seu compromisso para com valores ocidentais como a democracia e o mercado livre. 

Já os russos não o recordam com tanta saudade. Na verdade, Ieltsin entregou o país a oligarcas corruptos e mafiosos que depredaram o tecido industrial do país e depositaram os lucros em paraísos fiscais do Ocidente. Quanto à democracia, Ieltsin teve pouco pejo em agir de conluio com o governo de Bill Clinton na sua campanha presidencial de 1996, quando Washington concedeu a Ieltsin uma catadupa de vitórias diplomáticas e financeiras, destinadas a mantê-lo popular e no poder. Juntamente com o controlo oligárquico dos media, Ieltsin logrou ganhar ao famoso candidato do partido comunista russo.

Para a população da Federação Russa, Ieltsin acabou por ficar associado a um dos períodos mais humilhantes da sua história. A Rússia estava falida, endividada para com o Ocidente, os russos passavam fome e vendiam o pouco que tinham nas ruas, a máfia tornava-se obscenamente rica, as forças armadas eram corrompidas e viam os seus arsenais enferrujar, e o exército sofria derrotas vergonhosas às mãos de fanáticos jihadistas na Tchetchénia. A imagem de Boris Ieltsin foi ainda mais agravada pela sua vassalagem ao Ocidente e pela constante vergonha que os russos passavam, cada vez que os media ocidentais o apanhavam bêbado em cimeiras internacionais.

Em 1999, com quase 70 anos de idade, Ieltsin decide abdicar ao cargo e um político desconhecido, oriundo do meio autárquico de São Petersburgo, assume a presidência: Vladimir Putin. Consta que pressionado pelo aparelho estado, Ieltsin convenceu-se a deixar o poder em troca de um acordo posteriormente cumprido escrupulosamente pelos governos de Putin: a futura inimputabilidade da família Ieltsin. Hoje em dia Putin é visto como o líder que vergou os oligarcas e tal reputação foi conquistada graças a perseguições sem tréguas a alguns dos homens mais poderosos da Rússia, assim como humilhações periódicas dos que escolheram colaborar com o novo ‘homem forte’. O facto de que Ieltsin e a sua família nunca foram importunados parece confirmar a existência de tal acordo de bastidores.

Os EUA de 2024 passam por um momento político semelhante. Com 81 anos, o presidente americano sofreu uma derrota pesada no debate de 27 de Junho com Donald Trump. A prestação do presidente não foi minimamente surpreendente para quem segue o seu declínio cognitivo e físico dos últimos 4 anos mas desta vez toda a comunicação social norte-americana não hesitou em crucificar Biden e em expôr a sua fragilidade. O consenso mediático dos últimos anos evaporou da noite para o dia e em uníssono a imprensa exclamou ‘o rei vai nu’.

Em parte, a tolerância e cobertura da degeneração de Biden, foi facilitada pelo antagonismo entre os media e Donald Trump mas a verdade é que Biden nunca foi um líder amado ou carismático. Apesar de vice-presidente de Barack Obama e presumível sucessor, Biden permitiu que a candidatura de Hillary Clinton passasse à frente em 2016 e muito do apoio das estruturas do Partido Democrata adveio do sentido de dívida que tinham para com Biden. O actual presidente nunca foi, aliás, um líder popular, tendo-se candidatado ao cargo repetidamente sem sucesso e sofrendo mesmo escândalos no processo, como nas várias vezes em que foi apanhado plagiando discursos de figuras históricas. Ao longo da sua longa carreira no congresso e no governo, Biden nunca ficou conhecido por representar nenhuma causa ideológica ou ser coerente na defesa de nenhum eleitorado, em particular. A única constante no seu currículo foi ter sistematicamente sido uma voz de interesses estabelecidos e financeiros opacos. A prova foi o seu enriquecimento e o da família que – ao contrário de Donald Trump que perdeu dinheiro, contactos e oportunidades com a carreira política – hoje possuem dezenas de milhões de dólares no nome Biden.

Não ajuda que o 46º presidente americano teve um mandato catastrófico com uma subida brutal da inflação causada por políticas de expansão monetária da Reserva Federal e do governo, destinadas a pagar vários esquemas de subsidiação governamental, para não mencionar os custos dos confinamentos. Tudo isto agravado ainda pelas centenas de milhares de milhões para a Guerra da Ucrânia e pelas políticas energéticas ecologistas que desincentivam o investimento em combustíveis fósseis e subsidiam as renováveis, estas últimas menos fiáveis e mais caras para o consumidor. Como se não bastasse, Biden fica ainda associado à atabalhoada retirada do Afeganistão e ao mortífero conflito israelita em Gaza, que lhe vale o ódio da juventude esquerdista norte-americana.

Um qualquer político partidário, confrontado com a má vontade de um sistema mediático normalmente alinhado, consideraria seriamente uma saída de cena. Não se trata sequer de capacidade própria mas sim do facto de que a deslealdade dos media implica que o partido se está a afastar dele. Sem a protecção partidária, a família Biden teria que suster a frente de batalha de modo independente. A família Trump, por exemplo, não pertence ao sistema e é abastada por direito próprio mas os Biden não têm essa capacidade. A situação é ainda mais delicada atendendo às vulnerabilidades de Biden, dissimuladas durante a sua presidência. O seu irmão e o filho Hunter foram durante décadas parte fulcral de um alegado esquema de peculato e corrupção activa e passiva que enriqueceu a família Biden; a carreira de consultoria de Hunter Biden sendo a prova mais explícita, tratando-se de alguém negociando milhões sem qualquer tipo de qualificação profissional ou estatuto empresarial.

À semelhança de Ieltsin, Joe Biden representa uma decadência pessoal mas também nacional que se extremou ao ponto da sátira social e da descredibilização política. Ao contrário de Ieltsin, porém, o sistema político estado-unidense não consegue garantir aos Biden a imunidade que porventura eles desejariam. Para os democratas, a dissuasão só é garantida com uma retaliação própria.

Nos EUA, as eleições presidenciais ocorrem simultaneamente a eleições locais e estaduais, e muitos democratas receiam aparecer no boletim de voto com o mesmo partido do presidente senil e corrupto. Para precaver contra este efeito de colagem, muitos preferirão denunciar Biden ou no mínimo não se associarem a ele durante a campanha, o que penalizaria demasiado o esforço de mobilização de eleitores em Novembro. O desalinhamento dos media e as várias fugas de informação de dentro da Casa Branca e do Partido Democrata, anunciam que a dinastia Biden tem os dias contados.

O povo não quer Biden e o sistema não quer Biden. Para ele e os seus próximos, o desafio agora consiste em negociarem o acordo mais vantajoso possível enquanto ainda têm poder negocial. O futuro da eleição e do próprio Partido Democrata dependem do pragmatismo e da capacidade de improviso dos dirigentes. A urgência de uma solução é consequência da fuga para a frente em que todos foram coniventes até ao dia de hoje.

A Puberdade, a Idade Adulta e a Invenção da “Adolescência“

Na sequência de uma daquelas polémicas de redes sociais que duram algures entre meio dia e vinte e quatro horas, e poucas vezes talvez mais, vemos aqui deixar uma abordagem muito breve que esclarece a incapacidade algo fanática da modernidade em ver fenómenos milenares das culturas tradicionais como baseados numa lógica legítima. O fenómeno a que nos referimos neste caso em específico é o da primeira menstruação e como a mesma assinala a passagem ou o início da passagem para a idade adulta. É conhecido, no corpo da literatura universal anterior à semana passada e no linguajar popular que quando ela acontece “deixou de ser menina e já se é mulher“. Aliás é costumeiro apresentar tal leitura à própria criança que passa pelo caso — e a mesma, certamente algo preocupada com o momento traumático que atravessa, não deixa de ficar com algum orgulho em atingir tal estatuto (para quem não se lembra, e são muitos que já não se lembram, as crianças tipicamente têm inveja da liberdade e da autoridade dos adultos e desejam atingir esse estatuto tão cedo quanto possível).

No lado masculino passa-se o mesmo fenómeno, embora seja mais difícil determinar o momento em que a puberdade se inicia, ou, pelo menos, uma instância de transição tão dramática como a primeira menstruação: talvez a primeira polução, voluntária ou involuntária. Certo é que o princípio é o mesmo: tradicionalmente considera-se que o estatuto informal de “criança“ cessou ou começou a cessar aquando do início do funcionamento do aparelho sexual e reprodutor. Numa análise mais psicológica, pode também dizer-se que é “o fim da inocência“, fácil de perceber, para quem se lembre — e são muitos já não se lembram — o que significa passar cerca de uma década e pouco sem qualquer funcionalidade plena da aparelhagem sexual e, algures entre os 10 e os 14 anos, esse processo se iniciar e ativar toda uma série de órgãos, de disposições fisiológicas novas, de circulações hormonais e de alterações físicas evidentes, cuja notoriedade vai passar a sentir vinte e quatro horas por dia de todos os dias da vida adulta que aí se iniciou.

Quer se queira quer não, tradicionalmente, na sociedade pré industrial, pré burguesa e pré capitalista, a puberdade marcava o início da maturidade sexual, e a presença da maturidade sexual coincidia grosso modo com a maturidade cívica: ou seja, aos 13 anos já se poderia estar pronto para casar e, muitas vezes, assim se fazia. Não quer dizer que da união imediatamente resultasse prole, mas sim que as condições mínimas para tal ser obtido estavam já estabelecidas. Isto faz parte de uma sociedade maioritariamente rural, menos automatizada, menos próspera e menos livre que as nossas hoje, em que a existência de prole era fundamental para a sobrevivência e para a continuidade da unidade familiar. Filhos eram uma mais valia para a casa, mais braços para trabalhar — e daí a despreferência de muitas culturas pelas raparigas — e não um estorvo no nosso conforto burguês, como infelizmente hoje tantas vezes parece ser.

São as condições de enorme prosperidade material, e também de conhecimento, trazidas pelo desenvolvimento pós industrial que levou àquilo que commumente se costuma considerar a contemporânea sociedade burguesa capitalista, usufruindo de confortos proporcionados por automatismos mecânicos, económicos, sociais, e toda uma reorganização da vida cívica que permite o primado do culto da liberdade e da felicidade da pessoa individual e não tanto da coesão e sustentabilidade da unidade básica da família tradicional que, como sabemos, está em declínio; são estas condições, dizia-se, que levaram a uma invenção de um período da idade humana — e que certamente já poucos reconhecem como invenção moderna — a que entendemos chamar de “adolescência“.

Para entender a constituição de tal período temporal é importante perceber a série de novos critérios que foram acrescentados à ideia simples de maturidade biológica ou início da mesma, marcada pela puberdade: temos, além dessa, a maturidade psicológica — conceito totalmente alienígena para os pré industriais — a maturidade sexual — em termos de autonomia para a prática e a responsabilidade da mesma, e nos quadros legais do ocidente retemos ainda curiosamente uma vez que é muito baixa, dado que a idade legal do consentimento, para surpresa de muitos, situa entre os 14 e os 16 anos — e, por fim, a maturidade cívica, aquela que se atinge aos 18 anos e que fornece ao indivíduo todas ou quase todas as ferramentas e os direitos da idade adulta plena.

Todos esses critérios são subjetivos, arbitrários, ao contrário da objetividade dos sinais da maturidade biológica como o da menstruação. São critérios que, de certa forma, são luxo permitido pela prosperidade das sociedades pós industriais ou, como se costuma dizer hoje em dia, são privilégios. Na sociedade rural ninguém tinha propriamente tempo, conforto, vagar e lazer para pensar em adolescências. A infância, essa, necessariamente teria de existir em parte, pois de facto não é exigível a uma criança, por limitações físicas e mentais, além do óbvio sub desenvolvimento da capacidade reprodutora, todo o estatuto que se dá a um adulto. Mas não assim para o adolescente: o mesmo já tem ou já começa a ter — e pouco tempo leva até se verem os resultados disso — capacidade física, mental e, centralmente, sexual e reprodutor, plenamente ativa. É-se visto, nessas sociedades, como um jovem adulto, mas de facto já um adulto de pleno direito e responsabilidade.

Os outros critérios — da maturidade psicológica, da autonomia sexual e da maioridade cívica — são, voltamos a notar, inteiramente arbitrários, definidos por apreciação humana resultante de condicionantes sociais e culturais. É dado ao jovem adulto de, por exemplo, 14 anos, nas nossas sociedades contemporâneas, um tempo extra para se desenvolver, tempo esse que os estados ocupam com a escolaridade obrigatória e que a indústria da cultura ocupa com exploração económica das dúvidas existenciais que costuma surgir nesse período turbulento. O jovem adulto — que, por critérios simplisticamente fisiológicos, poderia ser já plenamente adulto de inteiro direito — tem o luxo de perder tempo a pensar na melhor maneira de como será adulto, ou então tem o luxo de simplesmente perder tempo num limbo, aliás muitas vezes rebelde e desordeiro, entre a infância e a idade adulta. A adolescência é um privilégio das nossas sociedades prósperas, não é de todo uma construção universal ou sequer baseada em grande medida em critérios objetivos, e existe tanto para dizer bem dela como para dizer mal.

Esse luxo pode, no entanto, estar contemporaneamente a ser sujeito a uma extensão que, essa sim, já se encontra em território bastante contranatura. Trata-se do fenómeno de acrescida infantilização da sociedade, em que, de algum modo, se está a achar tolerável que pessoas, rapazes e raparigas, de dezoito ou 21 anos sejam ainda considerados meninos e meninas, quando o último critério e o mais relevante que a sociedade dá, o da maioridade cívica, está já incontornavelmente atingido. O luxo da adolescência é, assim, esticado até aos, digamos, vinte e oito anos, e é possível hoje encontrar comportamentos em jovens adultos dessa estirpe geracional que noutros tempos não esperaríamos: homens a jogarem jogos de computador todos os dias, mulheres com enormes dúvidas quanto a autonomia e responsabilidade sexual, a saída de casa paterna e construção de família própria muito mais tardia ou inexistente, etc.

A adolescência é, assim, como tantas outras construções humanas, uma abstração cultural que individualiza um período de transição e o transforma numa espécie de fase da vida. É o tipo de coisa que, num arranjo tradicional de identidades sexuais, a mãe permitiria, por carinho e amor, mas o pai não, por achar inútil e perda de tempo. A sua existência enquanto acrescento positivo durante o período até os vinte anos é debatível; mas a sua extensão para além desse parece, à primeira vista, absolutamente maníaca. Talvez exista algo de viciante na abstração de um período de transição, um não lugar, que, consolidado como coisa de direito próprio, parece que permanece mas nunca permanece e, logo, nunca satisfaz. Por isso é possível, de certo modo, manter uma adolescência ad eternum, mas o constante ciclo e contra ciclo de paranoia aí envolto não será, seguramente, benéfico para a pessoa humana.

Tez de Lua Cheia: Albinismo na Europa e África

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Tez de Lua Cheia: Entre o Breu e a Alvorada — Como se explica a diferença na prevalência do albinismo entre a Europa e África? Texto de Rafael Torres, Janaína Gonçalves, Teresa Rito, Pedro Soares, Centro de Biologia Molecular e Ambiental, Universidade do Minho

Como chegámos a esta paleta Humana?

A cor da pele é um dos traços mais visíveis e distintivos da diversidade humana. A cor é determinada pela quantidade de pigmento produzido pelos melanócitos na pele e a sua variação entre populações humanas é o resultado da dispersão do homem moderno através de migrações, moldada pela adaptação evolutiva às diferentes condições ambientais ao longo da história.

É geralmente aceite que, com a perda de pelo, os primeiros hominídeos ficaram com uma pele clara, semelhante à dos chimpanzés, exposta ao efeito abrasivo do sol das savanas tropicais. Pressões seletivas levaram ao desenvolvimento de pele escura, rica em melanina, de forma a manter a capacidade de termorregulação da pele nua, mas aumentando a proteção contra os raios ultravioleta (UV) [1].

No entanto, com uma incidência muito menor de luz UV a altas latitudes, elevadas concentrações de melanina na pele não permitem a produção adequada de vitamina D, cuja deficiência pode resultar em raquitismo ou osteoporose, bem como cancro, doenças cardiovasculares, diabetes ou doenças autoimunes [2]. Consequentemente, uma população com pele mais clara está melhor adaptada para viver a latitudes mais elevadas. O desenvolvimento de pele clara em várias populações não africanas, devido a diferentes alterações genéticas, sugere que esta adaptação ocorreu de maneira convergente para diversas populações que se estabeleceram a partir de migrações fora dos trópicos africanos [1].

De modo inverso, um indivíduo com pele mais clara está menos protegido contra os danos da luz UV nas regiões de baixa latitude, que incluem queimaduras, dano do DNA e risco de desenvolver cancro da pele. Face a estes danos, uma hipótese para uma evolução no sentido da maior produção de melanina em populações de regiões tropicais é o garante de uma maior proteção contra danos actínicos e cancro da pele. No entanto, esta hipótese não é a principal explicação evolutiva para o escurecimento da pele, uma vez que estes danos raramente têm incidência numa idade que afete o sucesso reprodutivo.

Na realidade, atualmente prevalece a hipótese de que a vantagem evolutiva que advém da pele mais escura reside no facto de garantir proteção contra a fotodegradação do ácido fólico sistémico e cutâneo, que para além do papel importante na regulação da biossíntese de DNA e outras atividades metabólicas, está estritamente relacionado com a fertilidade humana [3].

O que é o albinismo?

O albinismo é uma condição genética rara que se caracteriza pela diminuição da pigmentação da pele, cabelo e/ou olhos, e problemas visuais, por deficiência na produção de melanina. Até ao momento, existem pelo menos 21 genes descritos associados com o albinismo [4], com mutações que podem resultar em vários tipos de albinismo, podendo ser classificados em três grupos principais: albinismo oculocutâneo, albinismo ocular e albinismo sindrómico. O albinismo oculocutâneo envolve a pele, cabelo e olhos, enquanto no albinismo ocular, a hipopigmentação afeta principalmente as células do epitélio pigmentar da retina, permanecendo a pele e o cabelo pigmentados. Nas formas sindrómicas de albinismo, como a Síndrome de Hermansky-Pudlak e a Síndrome de Chediak-Higashi, os fenótipos mais severos afetam uma vasta gama de células, além das células pigmentares, e são menos comuns do que os tipos de albinismo oculocutâneo e ocular [5]. Cada um destes tipos de albinismo tem características distintas e é causado por diferentes mutações genéticas. A investigação contínua nesta área está a ajudar a compreender melhor estas condições e potencialmente desenvolver tratamentos eficazes, embora atualmente a melhor forma de mitigar a extrema sensibilidade dos portadores de albinismo a danos solares é simplesmente a aplicação de protetor solar e o uso de roupa adequada que proteja dos danos solares. Infelizmente, mesmo este tratamento é muitas vezes inacessível para as populações com baixos recursos económicos e muito vulneráveis em termos sociais e climáticos, como é o caso das populações subsaarianas.

A sociedade e o albinismo

Além da função biológica, de proteção contra os danos causados pelos raios ultravioleta do sol, a tonalidade da pele foi desde sempre associada a conceitos de beleza, status social e identidade cultural. Este foi o ponto de partida para uma associação que levou a preconceitos, discriminação e racismo em muitas sociedades e que se perpetua até à atualidade.

Pessoas com albinismo enfrentam desafios e discriminação, desde o estigma social até à marginalização e exclusão, o que dificulta a sua plena participação na sociedade e o usufruir do exercício dos seus direitos humanos [6], sobretudo em sociedades com “maior grau de contraste na pigmentação” em relação aos que sofrem de albinismo (Organização das Nações Unidas). Em África, especialmente, algumas destas crenças associam o albinismo a práticas de conceção culturalmente inaceitáveis durante a menstruação ou consideram-no como um castigo dos deuses pelos erros de um antepassado [7]. Devido a esta discriminação profundamente enraizada, a qualidade de vida das pessoas com albinismo é significativamente afetada, numa sucessão de eventos cíclicos: O portador de albinismo tem maior probabilidade de abandonar a escola precocemente ficando desde cedo social e culturalmente excluído, conduzindo a uma situação de vulnerabilidade e dependência do núcleo familiar. Enfrenta, deste modo, maiores desafios para conseguir emprego e estabelecer relacionamentos matrimoniais em comparação com a população em geral. Para além de consequências ao nível do risco aumentado de desenvolver cancro da pele, em todo o continente africano, um número significativo de indivíduos com albinismo, especialmente crianças, têm sido vítimas de ataques brutais e assassinatos ou mutilações em nome de bruxaria, superstição e procura de riqueza [8]. Além disso, devido a mitos tradicionais relacionados com a etiologia do albinismo, os familiares dessas pessoas podem enfrentar discriminação por parte da comunidade, como é o caso de mães de crianças que sofrem com estigma e sofrimento psicológico [9].

Como se explica a diferença na prevalência entre África e a Europa?

No que diz respeito a estimativas, em África, a prevalência do albinismo surge com uma frequência que desafia a lógica aparente. Comparando estudos com metodologia adequada e uma população de amostragem suficientemente grande (>1 000 000) na Europa e em África, a prevalência média de portadores de albinismo em países europeus é de cerca de 1 por cada 12 000 indivíduos, enquanto em África é de 1 pessoa com albinismo por 4264 pessoas sem albinismo [10].

Como foi referido, a presença de melanina foi um avanço evolutivo essencial para a ocupação da África Subsaariana pelos humanos, pelo que seria expectável que um fenótipo que contraria o sentido da evolução fosse fortemente penalizado pelo ambiente, certamente de forma mais veemente, em países com altos níveis de radiação UV, resultando em prevalências de albinismo muito inferiores nos países africanos em relação aos europeus. Como se pode então explicar esta notória diferença na prevalência do albinismo, sendo precisamente nos países africanos, onde há maior contraste com a população que evoluiu para se adaptar a esse ambiente, mais relatos de violência e discriminação contra este grupo, assim como maior incidência de luz UV, que se regista uma maior prevalência?

A resposta a esta questão pode ser multifactorial. Em primeiro lugar, em países africanos, o diagnóstico de albinismo tende a ser mais imediato devido ao evidente contraste com a população predominante, o que pode resultar em estimativas de prevalência mais próximas da realidade do que em países maioritariamente caucasianos. Outro motivo poderia ser a existência de fenómenos de consanguinidade, o que aumentaria significativamente a prevalência de albinismo, já que é uma condição genética causada por genes recessivos, que precisam de ser herdados de ambos os pais, o que é mais provável entre parentes próximos. Estes fenómenos seriam explicados pelo isolamento religioso ou social de algumas comunidades africanas bem como o facto dos portadores desta condição se encontram muitas vezes marginalizados da sociedade predominante, sendo deste modo mais vulneráveis a ataques sexuais e formas de opressão. Finalmente, em certas sociedades, fatores sociais e mitos sobrenaturais podem facilitar a difusão de genes que causam albinismo por aumento da taxa reprodutiva.

As estimativas da prevalência do albinismo

Os diferentes tipos de albinismo (referidos anteriormente), traduzem-se em formas fenotípicas mais ou menos severas. No entanto, numa pessoa com feições tipicamente da África Subsaariana é notória a deficiência na produção de melanina, independentemente do tipo ou severidade do albinismo oculocutâneo. Contrariamente, em indivíduos caucasianos, essa deficiência é muito menos aparente, sendo menos evidente que se trata de alguém que, pela sua condição genética, diverge da população geral através da produção deficiente de melanina. Efetivamente, estudos sobre albinismo em África estão sobrerrepresentados, representando cerca de 44% dos estudos [11] no panorama global. Como tal, é possível haver uma significativa falta de diagnóstico do albinismo em sociedades caucasianas, resultando numa perceção exagerada de uma maior prevalência de albinismo em África. Contudo, estudos epidemiológicos e genéticos em populações europeias argumentam contra esta suposição.

Consanguinidade

Embora não existam dados concretos sobre a taxa de consanguinidade em muitos dos países do continente africano, particularmente na região subsaariana (Figura 1, retirada de [12]), é indiscutível que determinados costumes culturais e o isolamento de comunidades podem potenciar a ocorrência de casamentos dentro do núcleo familiar próximo. É bem conhecido que em populações com elevadas taxas de consanguinidade, a prevalência de albinismo é mais alta, como é natural para diversas doenças genéticas e evidenciado pela prevalência da condição nos povos Kuna do Panamá e Bhatti do Paquistão (5 portadores por cada 100 pessoas não portadoras e entre 5 e 10 por cada 100 pessoas não portadoras, respetivamente, [13]). Com base em observações e interações com indivíduos da população angolana, foi possível identificar algumas conceções sociais que podem ser responsáveis pela alta taxa de albinismo. Talvez a mais significativa seja a prática cultural que impõe o casamento dentro do mesmo grupo étnico, o que, indubitavelmente, aumenta a probabilidade de casamentos consanguíneos e nascimento de pessoas portadoras de albinismo.

Crenças e mitos

As crenças e mitos podem também contribuir diretamente para a seleção de pessoas com albinismo como parceiro sexual, consensual ou não consensual, aumentando assim a prevalência do albinismo. Um exemplo é a crença existente em vários países africanos de que ter relações sexuais com uma pessoa com albinismo pode curar a síndrome de imunodeficiência adquirida (SIDA) [14][15]. Esta crença acaba por culminar em episódios recorrentes de violações e agressão sexual às portadoras de albinismo. No mesmo sentido, há relatos de abusos sexuais como resultado da curiosidade de ter relações sexuais com alguém com albinismo, muitas vezes ilibado e mascarado pela falta de voz das vítimas na sociedade [15]. Outro exemplo é um fenómeno que é consequência da alteração do modo de vida dos portadores de albinismo. Foi descrito tanto nas tribos Hopi do Arizona, como no povo Kuna, que enquanto os não portadores de albinismo desempenham tarefas ao longo do dia sob o sol, os indivíduos do género masculino portadores de albinismo, devido ao elevado risco de danos por exposição solar, ficam na aldeia com as mulheres, tendo assim mais oportunidades para ter relações sexuais [16][17]. A verdadeira prevalência destes fenómenos não é totalmente conhecida, mas certamente contribuem para um aumento da prevalência desta condição.

Lubango, em Angola, o meu caso pessoal de contacto com pessoas com albinismo (Rafael Torres)

Interrompo o relato mais científico do albinismo enquanto condição genética e de vulnerabilidade social, para reportar a realidade de uma visita de 9 dias a Angola, em abril deste ano (Figura 2). Ao falar com pessoas que vivem com albinismo, nos municípios do Lubango e da Humpata, e tendo já conhecimento de alguns aspetos, pude perceber algumas das dificuldades que enfrentam diariamente. Desde a luta para obter cuidados médicos adequados até à simples compra de protetor solar (desproporcionalmente caros), cada obstáculo é uma batalha. A comunidade com albinismo é uma comunidade que vive em insegurança, marginalizada, com dificuldades em olhar os outros nos olhos, mas que tem de ser ajudada, atendida, com cuidados adicionais. Embora tenha conhecido pessoas capazes de verbalizar e descrever as dificuldades que enfrentam, também encontrei outras que, seja por trauma ou problemas de socialização, não conseguiam expressar o que sentiam. Ver crianças com feridas causadas pelo sol e sentir a aspereza da pele de alguém da minha idade durante um simples aperto de mão são experiências que me fizeram perceber a realidade desafiadora que enfrentam. Esses encontros pessoais destacaram não apenas as questões médicas, mas também os mitos e desafios sociais que cercam o albinismo. Foi possível perceber que por trás do tratamento desigual e até inumano, está a crença de que as pessoas que, de forma aleatória, herdaram dos dois pais genes causadores de albinismo, pela diferença no tom de pele, não pertencem à mesma etnia que os demais da comunidade em que nasceram. A realização de questionários simples é um desafio devido à pouca alfabetização destas comunidades, agravando-se a própria baixa auto-estima dos inquiridos. Ficou claro que, apesar da criação de instituições de apoio, é necessário realizar um trabalho adicional, até nas instituições, para efetivamente transformar a desafiadora condição enfrentada por centenas de milhares de pessoas, em Angola, de forma particular e em África, de forma geral, devido ao albinismo. Este esforço tem de procurar reverter a perceção negativa associada à condição, melhorando a vida das pessoas e a sua inclusão na sociedade.

Uma imagem com mapa, atlas, texto

Descrição gerada automaticamente

Figura 1 – Taxa de Casamentos Consanguíneos, por país (para países a cinzento não há dados). Retirado de worldpopulationreview.com

Figura 2 – Investigadores Rafael Torres e Janaína Gonçalves (lado direito) em conversa com portadores de albinismo no Tchivinguiro, Huíla, Angola.

Crítica: When Harry Met Sally (Rob Reiner, 1989) e as Dinâmicas do Masculino/Feminino

A película de comédia romântica, realizada em 1989 pelo bonacheirão e lendário actor de comédia Rob Reiner, When Harry Met Sally (que poderia ser estupidamente traduzido para português por Quando o Harry Mete na Sally, que foi precisamente o problema que deu origem ao pathos final do filme), parece, à primeira vista, mais um de muitos filmes menores, de encher salas, sem apreço da crítica inteligente, e até referido, muitas vezes, nas universidades — e não tanto pela crítica — com leviandade. Parece um pouco cópia do registo mais comum do cineasta Woody Allen, mas com um nível de neurose mais reduzido e mais tendente ao lirismo do que ao cinismo incorrigível desse realizador. O trabalho de Reiner, neste filme, assim como a montagem, são apenas ligeiramente interessantes, mas a grande força da película vem de apresentar uma história de amor primariamente como um processo adversarial, construído com base em conflitos insanáveis e não, como é mais comum na narrativa pós-romântica e contemporânea, em descrições de encontros e compatibilidades. É a história de dois amigos, um homem e uma mulher, que não conseguem ultrapassar o antagonismo fundamental das dinâmicas entre sexos opostos, dinâmicas essas que levam incontornável e necessariamente à união romântica.

Este tema está disfarçado de forma um pouco prosaica na grande questão do filme, enunciada como se fosse um brinquedo de mantra com que a narrativa de comédia se entretém: “será que o homem e a mulher conseguem ser apenas amigos”. Mas a ideia, na verdade, pressupõe um antagonismo a priori, em que um tratado de paz é celebrado apenas quando essa questão está resolvida, e a questão só consegue ser resolvida com o consumar de uma relação de amor ou com o apagamento da relação de amizade: não existe, ao que parece, meio-termo.

Para além disso, o filme inaugurou, em 1989, a era actual das comédias românticas, que dura até hoje, e que se sucede à anterior vaga dos anos trinta a cinquenta, na narrativa da grande indústria de Hollywood. O antagonismo entre homem e mulher sempre esteve presente no género, misturado muitas vezes com humor para diluir o mal-estar associado a essa enorme tensão — que pode levar até ao desastre —. Encontramos alguns exemplos dessas iterações da comédia romântica adversarial em Bringing Up Baby (1938), nalgumas comédias de Doris Day e Rock Hudson, e, mais tarde, em Annie Hall (1977), de Allen. When Harry Met Sally parece um pouco diferente dessas versões do antagonismo, por retratar este de forma mais crua, já que no aproximar de amizade dos protagonistas não existe necessidade da diluição com humor, o que traz à vista o problema de outra maneira. Retrata-o também de modo mais assumido, como se percebe na série de conversas abertamente filosóficas que os protagonistas têm sobre o tema. E, ainda, a abordagem chega até a ser um pouco meta-narrativa, como se entrevê nos segmentos mais abaixo descritos.

O humor existe, em termos de comédia dura, punchlines, situações, peripécias físicas, etc., mas não é servido em grandes quantidades: o antagonismo não é apresentado diluído numa massa de comédia coesa como acontece, por exemplo, em It Happened One Night. E, em certa medida, é também igualmente uma película que se insere na tradição de filmes sobre Nova Iorque — a que aliás o foco em relações humanas com exigências apressadas e neuróticas pertence inteiramente. Também inclui esta tradição uma série de entradas com a justaposição da cidade e do romance, como em Woody Allen e alguns filmes com Frank Sinatra, Marylin Monroe, e Audrey Hepburn. Existe também uma série de filmes contemporâneos com os quais talvez relações de proximidade possam ser estabelecidas: trata-se da série Before Sunrise, constituídos por enredos com diálogos muito prolongado entre um homem e uma mulher sobre precisamente os mesmos tópicos: o amor, as relações entre sexos, a vida.

Os nomes dos progagonistas, interpretados por Billy Crystal e Meg Ryan, são quase correspondências perfeitas. A criação da dualidade de Harry e Sally começa, ou passa um início muito marcado por um duplo encontro, um quarteto cuja disposição inicial acaba por se modificar, acabando por formar uma figura cruzada. O tema dos encontros e das conversas de Harry e Sally é o próprio amor, o que difere de uma associação por interesses exteriores comum, constituindo uma meta-associação. Quanto à técnica cinematográfica, pouco há a dizer, nada de muito mal e alguma coisa de bem. Alguns detalhes do trabalho: o plano da conversa do telefone, como um casal na cama, dois lados, mas dois espaços; os planos do outono nos jardins, de fotografia estrondosa, muito na tradição parcialmente lírica de Woody Allen e de outras películas de amor a Nova Iorque. Todo o ritmo do filme é lento, a montagem não se apressa, e há muita incidência do renascimento da comédia romântica, assim como algum experimentalismo.

Como tem sido correctamente apontado pela crítica, e como também os autores têm seguramente consciência, existe uma adequação total ao formato e à proposta do filme dos segmentos em que surgem casais mais velhos, em formato documental, intercalando a história de Harry e Sally, e descrevendo como se conheceram, tomando a função muito evidente de coro grego. Nota-se em particular, nessas sementes, como o evento particular da vida de cada um deles, o encontro da pessoa que permanece até à velhice, é como descrever um evento de uma guerra, de um nascimento, de uma crise, de um desordenamento imanente que através do tempo se vindica. Não é propriamente como descrever uma escolha, mas mais como descrever um acontecimento, uma efeméride de alguma espécie — e representa uma visão madura da ligação romântica, muito mais distante do individualismo heróico e muito mais próxima da tragédia e do pathos — porém em versão de amor fati. Aliás, toda a tipologia apresentada por essas histórias está muito mais próxima também da negociação, do mútuo acordo, e da antiga tradição do casamento combinado — seja pela família ou pelo acaso — do que propriamente pela agência prolongada e meditada do sujeito. Por exemplo, apesar de um dos casais que recorda o primeiro encontro relatar como o homem entrou no café, viu uma rapariga e disse vou casar com aquela rapariga, isto mais se assemelha a uma espécie de casamento combinado em que os negociantes são as próprias primeiras impressões e a determinação vinculativa a partir dessas, e não tanto um primado da emoção que, aliás, poderia perfeitamente tornar-se mais tarde volátil. Em resumo, o conflito, o antagonismo e a desordem estão evidentes tanto nos segmentos dos casais, que são súmulas de vidas em matrimónio, como na narrativa das personagens, e existe uma correspondência perfeita entre a narrativa e a meta-narrativa.

Famosamente o filme é muito bem conhecido por um excelente momento de humor, de algum vaudeville e desbraguez, em que Ryan, a protagonista, executa a simulação de um orgasmo feminino em pleno café, publicamente, para espanto de Crystal, e para provar-lhe que uma mulher consegue perfeitamente fingir tal expressão e enganar o homem. Mas a apresentação dessa tese, no corpus aqui presente e na ética de negociação enunciada ao longo do filme, é a de apresentar o orgasmo fingido como uma espécie de cumprimento ao anfitrião por ter sido bem servido, o que leva colocar a questão do que é fingimento. Expressar prazer sem que isso signifique uma reificação do clímax pode não ser necessariamente um fingimento e enquadra-se, mais uma vez, na disposição das relações amorosas como tendencialmente mais contratuais e menos espontaneamente agenciais.

Importa levantar aqui também, de modo mais claro, as diferenças entre o amor e a amizade que a mundivisão do filme propõe. A teoria, como já afirmámos, sustenta-se na ideia de que o amor é conflito, agonia, obstáculo, e a amizade acompanhamento, sociedade, parelha de mútuo interesse individual. Se, na amizade, uma parelha segue em sentidos semelhantes, na união erótica, o dualismo desaparece e dá lugar a uma outra coisa ainda não presente. Perante isso, o incómodo é severo, e entre homem e mulher constata-se uma distância insuperável. Pessoas juntam-se, psíquica e fisicamente, mas uma desejada união nunca acontece. O que acontece, um epifenómeno, é o filho. Mas o filho, mesmo assim, é apenas uma metáfora dessa união. Toda a problemática entre os dois protagonistas trabalha uma forma embrionária desses problemas, que se manifestam na união consumada. Efectivamente Ryan e Crystal passam todo o filme tentando manejar essa forma embrionária, chegando, finalmente, ao ponto de crise em que o ágon se resolve e se torna manifestação erótica efectiva.

É a esse ponto fulcral do enredo a que chegamos, quando o par de protagonistas, amigos e confidentes, acaba por sucumbir ao dualismo primário das dinâmicas homem/mulher e têm um envolvimento sexual. Após esse encontro decisivo, o homem e a mulher ali representados encontram-se na posição descrita por alguns autores dedicados à sexualidade: juntos na cama, abraçados, o primeiro quer fugir, com o medo freudiano de ser devorado; a segunda quer guardá-lo (devorá-lo?). O primeiro tem o olhar perturbado, a segunda o olhar pleno. Parte das reflexões do filme, consumadas neste momento torcionario, levam-nos também ao mote frequentemente citado entre conhecedores do tema da sexualidade: there is no guilt free sex. Esse enunciado curioso pode levantar a hipótese de os casais se juntarem em arranjos amorosos prolongados e comprometidos única e exclusivamente de forma derivada da culpa. E, de resto, a conclusão da película acabar por constituir um arranjo amoroso a longo prazo, em que ambos declaram, depois do pathos momentâneo, que não conseguem viver um sem o outro, e em comparação com um final alternativo em que se verificasse a admissão da impossibilidade do encontro nesses termos, constitui uma diferença irrelevante: se o final feliz que acabou por ser filmado foi forçado por exigências face ao público após primeiras exibições de películas de teste, juízo popular esse que não deve ser evitado, um alternativo final de características mais trágicas e meditativas, em que se encarasse a impossibilidade do amor nos termos da amizade, serviria o mesmo propósito. Não há aqui nenhum final feliz ou infeliz necessário, nem correspondência de um ou outro à substância da narrativa do filme, fundamentada na oposição entre masculino e feminino.

Por fim, observamos também, a partir das questões filosóficas levantadas pelo filme, a possibilidade de duas teorias conflituosas sobre interacção humana. Uma delas postularia a pessoa, no conceito humanista ou puramente anímico, como não tendo género de forma substancial: é-se primeiramente uma alma, uma personalidade, um ser. No campo oposto, temos uma teoria do género de tudo, em que todas as entidades conceptuais têm, de algum modo, género: a razão masculina, a emoção feminina, a lucidez masculina, o delírio feminino, o apolíneo e o dionisíaco, etc. Na tese dualista de alguns autores, como Nietzsche ou Camille Paglia, as coisas passam-se quase assim, na versão desta última teoria. Nesse caso, o princípio dominante que constitui a matéria ontologicamentr primária desta descrição do mundo, não é a coisa em si, a sua individuação, mas sim o dualismo. O princípio dominante é haver dois, que depois dá origem à materialização de um. A partir daí percebemos parte das tensões fundamentais do filme: quando o homem e a mulher se encontram — e nesta dualidade encontramos o pré-empírico, o pré-ser — a agonia é imanente, inevitável, reflexo desse binómio primário e, na manifestação dos seus fenómenos, a sua concretização em tensão resolvida ou irresolúvel na interação humana básica entre sexos, com união erótica ou não.

Breve Trilho pelo Pensamento de Nietzsche

Resumo: A verdade da situação humana é terrível. Os valores epistémicos não são impermeáveis à ilusão e a descoberta de valores morais no mundo é uma falácia. A realidade é fluxo e o humano encontra-se mergulhado na impermanência. Será a ilusão necessariamente má? Poderá o humano operar exclusivamente através dela? Como pode a vivência do trágico e a atitude dionisíaca face à situação humana restituir-nos o vínculo à vida? Palavras-chave: trágico, excesso, ilusão, sentido, apolíneo, dionisíaco, experiência estética, corpo aberto, linguagem, dança, vontade de poder.

Nous avons foi au poison. Nous savons donner notre vie tout entière tous les jours.

Jean-Arthur Rimbaud

Como pode a experiência estética atribuir sentido ao humano e abri-lo à afirmação da vida em cada sopro, mesmo ao mais terrível, em repetição do mesmo por toda a eternidade? Partamos da seguinte proposta. Que cada ato, pensamento ou omissão na existência do humano sejam trágicos. Que cada humano em cada gesto, em cada marca, em cada possibilidade impregne toda a sua ação de um sopro estético, titânico e olímpico, luminoso e terrível, visitado por Apolo e Dioniso no risco do abismo, no regresso às instâncias primordiais do ser, parindo uma linguagem nova. Este é o convite de Nietzsche a cada um de nós, pois cada existência só o é se o for esteticamente, assim como este exercício de escrita é um exercício de risco, um breve fazer trágico, longe do socratismo moral e perto do momento da celebração in artibus da dança entre a comunicação e a ocultação de todas as coisas, da vivência dos contrários, do entrecruzamento entre o positivo e o negativo, motores de uma metafísica da imanência e do devir, no resgate dos primeiros princípios, o Ur-Eine, subscrevendo que «só como fenómeno estético se vê legitimada a existência do mundo» (Nietzsche, 1886: 14).

Estamos às avessas das avessas nas quais o humano e o mundo frutificariam, pois é do mundo o erro, a ilusão, a aparência e o fingimento. São do mundo as manifestações primordiais, as fúrias e o excesso, as paixões e os sátiros e o gume da navalha, expressões da nossa psicofisiologia a não serem coartadas pelo garrote da moral que não é mais do que «um secreto instinto de destruição, um princípio de decadência, redução, calúnia, um início do fim» (1886: 16). Estas são as células do perspetivismo que fluem o nosso sentido, enquanto resposta necessária face às verdades terríveis da situação humana contra a qual se ergue o otimismo da tragédia, sendo que «no símbolo dionisíaco se atinge o limite extremo da afirmação» (1908: 72). A situação do humano é de luta e de desejo ao ponto da dissolução do sentido. Mas o que é o sentido? A identificação de valores morais no mundo, erguidas em instituições e metafísicas do transcendente constituem sintomas de decadência, um «instinto de degenerescência, que se vira com subterrânea sede de vingança contra a vida» (1908: 73). Este é o antípoda da vivência trágica afirmadora da vida e da pluralidade, do sim exuberante que floresce do olhar profundo e lúcido sobre a existência e tal inclui dizer sim às verdades terríveis da nossa situação. Isso é ser dionisíaco, «o dizer sim à vida mesmo nos seus problemas mais estranhos e árduos; a vontade de vida regozijando-se da sua inesgotabilidade no sacrifício em que lhe são imolados os seus mais elevados representantes» (1888: 137). Os valores não são descobertos no mundo, mas criados pelos existentes. Cada indivíduo é um potencial transmutador de valores. Aquando da sua fase sensacionista, Álvaro de Campos escreve-nos o seguinte: «Sentir tudo de todas as maneiras, / Ter todas as opiniões, / Ser sincero contradizendo-se a cada segundo» (Campos, 1916: 191) e conseguimos ouvir ecos de Nietzsche perpassados por notas da metafísica heraclitiana, de acordo com a qual «as coisas tomadas em conjunto são o todo e o não-todo, algo que se reúne e se separa, que está em consonância e em dissonância; de todas as coisas provém uma unidade, e de uma unidade, todas as coisas» (Heraclito, s/d: 197). Ou seja, estamos longe de quaisquer valores epistémicos que pudessem funcionar como guias existenciais, pois a realidade é fluxo e mudança de tal forma céleres que quaisquer crenças fundacionais que tomemos como certas no quotidiano e sobre nós próprios não escapam ao véu de Maya apolíneo, nem ao rasgo do véu por Dioniso. Já Hume nos advertia a respeito da falibilidade natural do julgamento humano, «que todos os nossos raciocínios sobre as causas e efeitos não provêm de outra coisa senão do hábito» (Hume, 1888: 227). Não queremos com estas asserções defender um ceticismo radical ou um relativismo de aniquilamento contra as instâncias do eu e da sua capacidade de conhecer ao ponto de lançar o leitor na esterilidade do niilismo negativo que Nietzsche tão veementemente procurou combater, através do seu apelo à vontade de poder, enquanto vontade de criação e melhoramento do indivíduo à mão do seu próprio martelo, pois «quando o niilismo triunfa, então e só então a vontade de poder deixa de querer dizer ‘criar’, mas significa: querer o poder, desejar dominar» (Deleuze, 1965: 266). E esta, de acordo com Nietzsche, é a maneira de pensar do escravo, pautada pelo ressentimento e pela vingança, ao passo que a vontade de poder enquanto criação é a vivência da dinâmica do trágico, sob a égide de Apolo e Dioniso. Queremos, sim, com o que nos diz Hume, resgatar a noção de justificação, não em termos de necessidade racional de justificação no sentido que Platão nos oferece no Teeteto, sendo que o conhecimento verdadeiro é, nesta obra, viabilizado por crenças verdadeiras justificadas, séculos mais tarde a sofrerem contraexemplos às mãos de Guettier, mas no sentido nietzschiano de justificação estética, ou seja, de uma perspetiva dionisíaca sobre a vida que nos justifica a existência, via sentido estético, trazendo os afetos para dentro da situação humana, ao mesmo tempo que a expurga da influência nefasta operada pelo racionalismo moral socrático e, via religião, pela negação da vida às mãos dos ideais ascéticos. A este afeto pela vida, Nietzsche faz corresponder em Ecce Homo, o «futuro dionisíaco da música» (Nietzsche, 1908: 75) capaz de trazer o excesso da vida para dentro da experiência de cada indivíduo e nessa vivência da experiência estética abrirmo-nos à ilusão, à máscara, à deceção, ao abismo, ao êxtase, ou seja, em última instância, ao sublime. É através da experiência do sublime que o humano pode transcender os seus limites, seja na sua vivência do quotidiano, seja relativamente às instituições nas quais o indivíduo se movimenta, mas, acima de tudo, na transcendência dos limites da sua razão, algo que evoca, inevitavelmente, as influências da terceira crítica de Kant em Nietzsche no terceiro ensaio d’A Genealogia da Moral, quando em oposição a Kant nos diz: «Kant julgou honrar, a arte, quando, entre os predicados da beleza, fez ressaltar os que constituem a honra do conhecimento: a impessoalidade e a universalidade» (Nietzsche, 1887: 87) com a agravante do facto de que Kant, para além de ter atribuído ao espetador um olhar desinteressado, não ter considerado a perspetiva do criador da obra de arte. Percebemos que, para Nietzsche, a vivência dionisíaca implica o encontro entre espetador e criador. Idealmente, ambos são um só, pois cada existente para o ser em autenticidade só o faz esteticamente. Desta forma, a apreciação desinteressada e impessoal da obra de arte está excluída, pois é desprovida de vitalidade, de emoção, de afetos. É seca e estéril. Oblitera qualquer hipótese de perspetiva ou fluidez. Percebemos que a experiência estética não depende de justificações epistémicas ou morais. Percebemos, igualmente, que o indivíduo restaura o seu elo vital face às terríveis verdades existenciais por via da vivência/experiência estética.

Mas como é que o ideal estético consegue operar ou restaurar o elo vital de afirmação e regozijo do indivíduo com a sua própria existência a tornar-se a cada instante aquilo que é até ao dia em que morre? Diz-nos Álvaro de Campos, ainda na sua fase sensacionista: «Multipliquei-me para me sentir, / Para me sentir, precisei sentir tudo, / Transbordei, não fiz senão extravasar-me» (Campos, posterior a 1917: 198). Podemos afluir Campos com Nietzsche em termos da pluralidade do sujeito, se pensarmos o sujeito lírico deste poema e a voz de Nietzsche em Ecce Homo, cuja divisa é bastante esclarecedora – Como se vem a ser o que se é – arrancando o conceito de sujeito à relação clássica sujeito/objeto e introduzindo, por sua vez, um sujeito enquanto «pathos, energia e intensidade de autometamorfose, movida por graus diferenciados de estar fora de si […] Aí ‘plural’ é bem-vindo enquanto pathos dionisíaco» (Molder, 2016: 274). Este pathos, que é o fluido heraclitiano que alimenta o elo vital do indivíduo, é o próprio exercício da vontade de poder ou potência que encontramos na manifestação dionisíaca do sujeito lírico do poema de A. de Campos e em Nietzsche na leitura da sua divisa. Não queremos com isto dizer que Nietzsche se outre como Pessoa o faz na sua heteronímia, embora ambos partilhem a intensidade dionisíaca de estar fora de si, ou seja, partilham «o drama de forças – instintos, impulsos, afectos […] o esforço de tornar-se interpretação» (Molder, 2016: 277) e é neste sentido que ambos são plurais e perspetivistas. Como se vem a ser o que se é é, por excelência, a recusa do sujeito cristalizado ou da falácia do eu acabado ou estanque, pois da mesma forma que se é o sujeito lírico em Campos nos versos citados, ser Nietzsche em todo o seu corpus, e neste aspeto comungando com Kierkegäard, é existir em ato e em devir e tal empresa não se desenvolve dentro do colete de forças da palavra sujeito que estes autores dispensam sem hesitação, mas sim dentro de um eu-eco, insubstancial que «resulta de um sistema, em princípio infinito, de ecos, espelhamentos, reflexos da projecção da energia do corpo sobre as coisas» (Gil, 2018: 267). Daí a importância crucial da máscara que em Nietzsche congrega o apolíneo e o dionisíaco e que Pessoa teoriza na importância do fingimento na criação poética. Como esclarece Nietzsche em Ecce Homo: «Comunicar […] uma tensão interna do pathos mediante sinais […] – eis o sentido de todo o estilo; […] a multiplicidade dos estados internos é em mim extraordinária, há em mim […] a mais multifária arte do estilo em geral, de que alguma vez um homem dispôs» (Nietzsche, 1808: 65).

De facto, não é o rigor ou a pertinência dos conteúdos proposicionais que preocupa Nietzsche, mas o entusiasmo, o pathos e a consequente restituição que a arte traz ao indivíduo, revelando a esterilidade da atribuição de sentido dada ao sofrimento por ascetas promotores da renúncia da vontade ou da assepsia de racionalistas decadentes. Assim, é na intensidade dos afetos que o humano é restituído à sua existência, sendo o sublime, como vimos, um dos caminhos que alimenta a elevação do indivíduo para instâncias para lá da linguagem ou da razão: «Sublimity […] refers to a moment when the ability to apprehend, to know, and to express a thought or sensation is defeated» (Ansell-Pearson, 229). Por via da experiência estética do sublime, o humano expande os seus poderes de perceção e de compreensão a caminho do Übermensch, «um tipo de suprema perfeição, em contraste com homens ‘modernos’, com homens ‘bons’, com cristãos e outros niilistas» (Nietzsche, 1908: 61), pois o filósofo-dançarino diz sim eternamente a cada instante da sua vida, a cada alegria, a cada tortura. A experiência estética, ou seja, a vivência do trágico anima a vontade e esse ânimo restabelece o elo vital do indivíduo consigo próprio. Ao contrário de anestesiar o sofrimento com panaceias promissoras de vida outra transcendente, como Nietzsche critica no Cristianismo, a anestesia do sofrimento por via da embriaguez dos sentidos e da sensibilidade e sensualidade estéticas são capazes de salvar o humano: «Talvez a sensualidade se não suprima na emoção estética, como pensava Schopenhauer, mas se transfigure de modo que não apareça à consciência como excitação sexual» (Nietzsche, 1887: 94). Ou seja, que a experiência interior seja uma experiência mística, de arrebatamento, na qual caminhamos no fio da navalha entre a angústia e o êxtase, como relembra Georges Bataille: «Chamo experiência a uma viagem ao fim do possível do homem» (Bataille, 1943: 20). E esta viagem manifesta-se no enlace entre o polo apolíneo do sonho e o polo dionisíaco do desregramento. Se Apolo nos traz a imagem, a escultura, a bela ilusão do principium individuationis na esperança de salvação e redenção, resguardadas no princípio da ilusão em resposta aos terrores da nossa existência, Dioniso enlaça-nos na intoxicação – Rausch – da manifestação primordial do sublime – Ersheinung – do horrível e do extático, na qual nos é oferecido um vislumbre da verdade a partir do excesso, capaz de dissolver o princípio de individuação e lançar-nos na unidade mística do silêncio e da escuridão do princípio de todas as coisas: «O excesso desvendava-se como sendo verdade, a contradição, o deleite nascido das dores falava de si a partir do coração da Natureza» (Nietzsche, 1872: 41). A vivência trágica constitui a descoberta da nossa geografia afetiva que se constrói a partir da experiência, da linguagem e do símbolo, cuja comunicação intrapessoal e interpessoal exige o corpo aberto, pois como refere José Gil: «para que ocorra uma comunicação de inconsciente, é necessário que os ‘corpos se abram’ […] Um corpo abre-se quando o inconsciente ‘sobe’ à superfície da consciência» (Gil, 2018: 77). E dançar, em Nietzsche, é abrir o corpo que se estende para além das partes objetivas que o constituem. É um corpo outro. É o corpo no exercício da tragédia, no qual a misteriosa massa interna extravasa as fronteiras da pele, sendo a carne vivida em afetos e não em categorias. O espaço indefinido, lido a partir da pele, já não é o espaço do visível, mas o do entendimento da nossa situação interior em relação ao mundo, aberta às vibrações de todos os outros corpos, humanos, não humanos, ou seja, de todas as substâncias do mundo e este tipo de perceção e de apreensão são afetivos na sua natureza e capazes de expansão, pois trata-se da partilha de um «espaço de intensidades, de osmose potencial, de visões e tatos à distância […] pronto a entrar em conexão com intensidades de outros corpos» (Gil, 2018: 79). Assim, todos podemos dançar, abrindo movimentos ao infinito, todos podemos rir, rir muito alto como os sátiros, todos «aptos para a dança, tanto pela cabeça como pelas pernas» (Nietzsche, 237) e, desta forma, através da vivência do trágico, aniquilaremos os sistemas grilhões que nos roubam à coragem de subir montanhas e de olhar o abismo com olhos de águia.

Bibliografia

Fontes primárias

NIETZSCHE, Friedrich (1872), Die Geburt der Tragödie oder Griechentum und Pessimismus; ed.ut.: O Nascimento da Tragédia ou Mundo Grego e Pessimismo, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 1997.

____________________ (1883-1885), Also sprach Zarathustra: Ein Buch für Alle und Keinen; ed.ut.: Assim falava Zaratustra. Um livro para todos e para ninguém, Lisboa, Guimarães & C.ª Editores, 1980.

____________________ (1887), Zur Genealogie der Moral: Eine Streitschrift; ed.ut.: A Genealogia da Moral, Lisboa, Guimarães Editores, 1997.

____________________ (1888), Götzen-Dämmerung oder wie man mit dem Hammer philosophirt; ed.ut.: Crepúsculo dos Ídolos ou Como se Filosofa às Marteladas, Lisboa, Guimarães Editores, 1996.

____________________ (1908), Ecce Homo; ed.ut.: Lisboa, Edições 70, 2020.

Fontes secundárias

ANSELL-PEARSON, Keith (2013), « ‘Holding on to the Sublime’: On Nietzsche’s Early ‘Unfashionable’ Project», in The Oxford Handbook of Nietzsche, Oxford, Oxford University Press: 226-252.

BATAILLE, Georges (1943), L ’Expérience Intérieure ; ed.ut.: A Experiência Interior, Lisboa, Edições 70, 2021.

CAMPOS, Álvaro de (posterior a 1917), «Sentir tudo de todas as maneiras», in Poesia, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002.

DELEUZE, Gilles (1965), Nietzsche; ed.ut.: Lisboa, Edições 70, 2009.

GIL, José (2018), Caos e Ritmo, Lisboa, Relógio D’Água.

HUME, David (1888), A Treatise of Human Nature; ed.ut.: Tratado da Natureza Humana, 3ªed., Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2012.

KIRK, G.S. et al. (s/d) ; ed.ut. : Os Filósofos Pré-Socráticos, 4ªed., Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1994.

MOLDER, Filomena (2016), «A diferença entre outrar-se e tornar-se naquilo que se é», in Nietzsche e Pessoa. Ensaios, Lisboa, Tinta-da-China.

Craft, Quality, and Safety in Homemade Cosmetics

Essay by Sara Gonçalves, Academic Clinical Center of Trás-os-Montes and Alto Douro – Professor Dr. Nuno Grande – CACTMAD, University of Trás-os-Montes and Alto Douro, 5000-801 Vila Real, Portugal; Department of Genetics and Biotechnology and CECAV, University of Trás-os-Montes and Alto Douro, 5000-801 Vila Real, Portugal; Associate Laboratory for Animal and Veterinary Sciences (AL4AnimalS), University of Trás-os-Montes and Alto Douro, 5000-801, Vila Real, Portugal

Abstract: Homemade cosmetics have opened up a fresh era of personalisation and innovativeness in elaborating skincare and beauty products. People can make their own cosmetics using natural ingredients, customise formulations, and minimise the use of harmful ingredients found in commercial products. Nevertheless, it’s vital to maintain safety, quality, and hygiene standards while making DIY cosmetics. The article examines some critical areas of manufacturing handmade cosmetics, such as cleaning and disinfection, traceability spreadsheets, labelling rules, safety precautions, and quality control and testing. Homemade cosmetics become professional, safe and efficient by embracing meticulous tool and equipment care, meticulous formulation record-keeping, compliant product labelling, and strict quality assessments. DIY cosmetics must be secure for personal safety, regulation and consumer trust. That’s why hygiene and safety should be considered. As more consumers move towards natural skincare and beauty products, transparency and security in the handmade cosmetic industry are essential to uphold high-quality standards. With its practical tips and suggestions, this article guides an aspiring handmade cosmetic formulator who wants to make products reflecting their creativity without neglecting hygiene and client. The ideas and recommendations allow homemade cosmetic enthusiasts to produce items that reveal their love and commitment to quality, safety, and consumer satisfaction.

Keywords: Homemade cosmetics; Cleansing; Disinfection; Traceability Worksheets; Cosmetic labelling

  1. Introduction

The popularity of cosmetics has surged in years due to a growing interest in natural and personalised healthcare and beauty products. Creating cosmetics at home offers people control over the ingredients, allowing them to personalise formulas to their needs and reduce reliance on commercial products that may contain potentially harmful substances. While DIY cosmetics offer possibilities and the assurance of pure components, they also prioritise safety, quality and cleanliness throughout manufacturing [1].

This article explores the basics of making cosmetics, focusing on equipment cleaning and disinfection traceability spreadsheets, labelling regulations, safety considerations, quality control and testing [2,3]. Paying attention to tool maintenance, accurate formulation records keeping, and clear product labelling that complies with regulations as rigorous quality assessments are crucial techniques that elevate homemade cosmetics from DIY experiments to safe, effective products manufactured professionally.

Ensuring sanitation and safety in DIY cosmetics is vital for well-being, meeting regulatory standards, and building consumer trust. As more customers seek alternatives to skincare and beauty items, upholding high-quality standards and transparency becomes paramount in the cosmetics industry.

This in-depth investigation dives into every area of handmade cosmetics manufacturing, offering practical instructions, professional perspectives, and references to established methods. By following the ideas and advice in this article, aspiring handmade cosmetic formulators can make goods that reflect their creativity while still meeting the highest hygienic requirements and client expectations.

  1. Equipment Cleansing and Disinfection

The safety, quality and efficacy of homemade cosmetics should depend on selecting the best ingredients and correctly handling tools and equipment involved in the production process. Cleansing of equipment and disinfecting are cardinal principles when creating cosmetic products that reflect ingenuity and adhere to supreme hygienic standards. This part provides an exhaustive procedure for cleaning and disinfection of equipment after every operation. Adherence to these guidelines provides some proactive measures to protect the integrity of homemade cosmetics and the well-being of those using them. These procedures are investigated in detail, emphasising their importance and practical strategies for maintaining a clean, safe, and efficient cosmetic-making environment.

  1. Pre-preparation

Cleanliness and personal hygiene come first in making homemade cosmetics. This is the first step to ensuring the final products are safe, effective, and high-quality. Here’s why paying meticulous attention to a clean workspace and personal hygiene is crucial:

    • Prevents Cross-Contamination: This minimises cross-contamination among different ingredients, equipment and products. Removing residual particles, allergens and pathogens in the environment decreases the chances of these contaminants making it into homemade cosmetics.
    • Maintains Product Integrity: The homemade cosmetics must be in a clean environment. Contaminants can change the products’ composition and properties in one way or another, leading to changes in their colour, texture, scent, and, in some cases, shelf life.
    • Ensures Product Safety: Cosmetic products in direct contact with the skin should be safe and non-irritant. A clean environment helps to minimise the prospect of bringing in harmful microorganisms, which may lead to skin problems such as irritation or infection.
    • Enhances Quality Assurance: The quality assurance principle implies workplace cleanliness. The formulator can better manage the factors affecting the final products’ consistency, stability, and safety when their environment is controlled and sanitised.
    • Sets the Tone for Good Practices: The first rule of the game is a clean workplace complemented by personal hygiene- a pre-condition for good manufacturing practices. It proves the company does not compromise on quality, making its cosmetics safe.
    • Boost Confidence in Products: Consumers’ society has changed dramatically; now, many sensitive consumers choose the substances on their skin very carefully. A clean environment and a focus on personal hygiene enhance confidence among clients about the product to be manufactured.
    • Adhere to Regulations: Manufacturers, including those creating homemade cosmetic products, have always been required by regulatory authorities to adhere to hygiene and cleanliness standards. Keeping the workplace clean is an act of compliance with these rules.

Practical Steps for Pre-Preparation:

Clean Work Area: The workspace should be neat and free from clutter. Clean the surfaces with suitable cleaning agents before starting the cosmetic creation journey.

• Washed Hands: Wash hands thoroughly with soap and water for at least 20 seconds before you touch any ingredients or equipment. It prevents the transmission of soil, grease and germs.

• Using Clean Tools: Before any work begins, all tools, utensils, and equipment should be cleaned and disinfected correctly.

• Hair and Clothing: Hair should be tied back, and there should be no loose clothing that could touch the products. This ensures that the cosmetics are free from hair and fibre contamination.

The stage is set for producing homemade cosmetics, emphasising safety, quality, and customer satisfaction through pre-preparation, emphasising clean workspace and personal hygiene.

  1. Cleaning Procedure

Cleaning equipment after every use is critical for producing quality and safe homemade cosmetics. Here’s a detailed breakdown of the process, including rinsing, using detergent, and thorough rinsing:

    1. Rinsing: The first step is to drain the equipment by running warm water over it. The first rinsing removes the visible residues, oils and any loosened particles from the surfaces. Use a slow, gentle stream of water to minimise splashing of contaminants.
    2. Using Detergent: After a preliminary rinse, use some softener or a specially formulated cosmetic soap. All equipment surfaces must be scrubbed using a dedicated brush or sponge. Care should especially be taken in corners, crevices, and the areas that come into direct contact with ingredients. Scrubbing the surfaces, albeit gently, helps to wash away any stubborn remains still stuck on the surfaces.
    3. Thorough Rinse: After detergent scrubbing, the equipment should be rinsed in running clean water. It involves removing any speck or residue and every bit of the detergent on the body. The equipment should be free from soap scum affecting the quality of homemade cosmetics.
    4. Air-Drying: The equipment should be on a clean and dry surface, and it should air-dry after the final rinse. Air-drying equipment should be allowed as moisture leads to the multiplication of bacteria and mould development. Towelling or wiping the equipment using a cloth is not recommended as it may bring particles and other contaminants onto the surfaces.

Practical Tips:

  • Separate brushes or sponges should be designated solely for cosmetic use to prevent cross-contamination between products.
  • If the equipment is dishwasher-safe, the manufacturer’s instructions should be checked before cleaning a dishwasher.
  • Equipment with small or intricate parts should be disassembled if possible to ensure thorough cleaning and drying.

Following these steps for cleaning equipment after each use minimises the risk of residual contaminants, oils, and particles finding their way into the homemade cosmetics. This diligent cleaning process contributes to the cosmetic creations’ safety, quality, and overall success.

  1. Disinfection Procedure

The following important measure towards safe homemade cosmetics should be proper disinfection of equipment to remove any potentially harmful microorganisms and guarantee quality and safety. Many effective disinfection methods are suitable for different equipment and materials. Here are three commonly used disinfection methods: with alcohol, boiled water or diluted bleach.

    1. Alcohol Disinfection: Alcohol is a potent germ killer for many microbes. To disinfect equipment using alcohol:

• A spray bottle of 70% isopropyl alcohol should be used.

• The equipment surfaces should be well sprayed to cover all the surfaces.

• Air dry on the surfaces with the alcohol. This process not only disinfects but evaporates quickly, leaving no residue.

These items, however, are particularly suited to alcohol disinfection, especially those that can take alcohol and surfaces that require instant disinfection.

    1. Boiling Water Disinfection: Heat-resistant equipment can be disinfected using a simple yet very effective process of boiling water. To disinfect using boiling water:

• A pot containing enough water to immerse it fully should also be filled.

• Let the water come to a whole roll boiling.

• To do this, immerse the equipment in boiling water for a few minutes while exposing all surfaces.

• It will be hot, so tongs or other utensils to handle the equipment should be used.

• The equipment must be removed and properly dried in the open space.

The appropriate method for this process is boiling water disinfection when the environment is favourable for all heat-resistant materials and equipment to withstand such temperatures.

    1. Diluted Bleach Solution Disinfection: Diluted bleach can kill various germs. To disinfect using a diluted bleach solution:

• One part of household bleach (containing 5.25–6.25% sodium hypochlorite) should be mixed with nine parts water to get a solution.

• Allow the equipment to soak in the bleach solution for a few minutes, ensuring the surface is covered.

• Lastly, rinse the equipment with clean running water to remove any trace of bleach.

• All equipment should dry thoroughly air-dry.

Non-metallic surfaces and equipment tolerating bleach exposure should be disinfected with diluted bleach solutions.

Safety Precautions:

• It is vital to ensure adequate ventilation when using alcohol or bleach and wear gloves to protect the hands.

• Metal equipment may corrode or react with bleach and should not be soaked in.

Choosing the Method:

• Table 1 shows the disinfection methods and their appropriateness for specific equipment materials, if any.

• Homemade cosmetics can be free of harmful microorganisms by incorporating such disinfection methods in the routine, improving their safety and quality.

Table 1. Comparison of Disinfection Methods and Compatible Material Types. Note: Always refer to equipment manufacturers’ recommendations and safety guidelines before using any disinfection method, especially on specialised or sensitive materials.

Disinfection Method

Compatible Material Types

Description

Alcohol Disinfection

Glass, Stainless Steel, Plastic, Silicone

Effective against a wide range of microorganisms. Suitable for heat-sensitive equipment. Evaporates quickly.

Boiling Water Disinfection

Disinfection Glass, Metal, Ceramic

It uses high temperatures to eliminate microorganisms. Adequate for heat-resistant equipment.

Diluted Bleach Solution

Plastic, Ceramic, Non-Metallic Surfaces

It offers broad-spectrum disinfection. Ensure thorough rinsing to prevent residual bleach.

Practical Tip: Elevating Disinfection with UV Sterilisation

UV sterilisation is emerging as an effective modern method of strengthening the disinfection program regarding homemade cosmetic products’ safety and hygiene requirements. UV sterilisation is readily available and provides additional protection against harmful microorganisms.

Why ultraviolet sterilisation?

  • Broad-Spectrum Effectiveness: UV sterilisation uses UV light to eliminate various microorganisms, from bacteria to viruses. It offers a complete solution for maintaining a clean environment.
  • No residue: Unlike some disinfectants, UV disinfection leaves no residue. This is particularly beneficial for equipment that comes into direct contact with cosmetic products as it ensures that any residue will not affect the quality of the product.
  • Speed ​​and efficiency: UV sterilisation is fast and effective. It works by inactivating microorganisms rapidly, making it a valuable addition to your cleaning and disinfection routine.

Ultraviolet sterilisation:

  • Choose the suitable UV Steriliser: Choose a UV steriliser for the size and type of equipment you want to disinfect.
  • Follow the manufacturer’s instructions: Follow the manufacturer’s instructions for the UV steriliser you choose. These instructions provide crucial information on use and safety precautions.
  • Uniform Exposure: Ensure that all equipment surfaces receive uniform UV light exposure. Arrange things accordingly to prevent shadows.
  • Regular maintenance: Keep your UV steriliser up to date. Follow any recommended maintenance schedules to ensure their effectiveness.

Safety Considerations:

  • Eye protection: UV light can harm the eyes. Always be sure to protect your eyes when using a UV steriliser.
  • Skincare: UV light can also harm the skin. Protect your skin by wearing appropriate clothing and gloves.

By incorporating UV sterilisation into your disinfection regimen, you can increase your home cosmetics’ overall safety, quality and effectiveness.

  1. Drying and Storage

However, equally essential steps come after the equipment is cleaned and disinfected to keep the homemade cosmetics in good condition. Proper air-drying of equipment and adequate storage of the final products play a substantial part in ensuring the security and quality of the end products. Here’s why these steps are essential:

    1. Prevents Microbial Growth: Dry airs air drying equipment must be dried after cleaning and disinfection to prevent microbial growth. Damp environments support the development of bacteria and mould, and moisture left on equipment can become a source of these contaminants. Air-drying cuts down the probability of a microbial increase.
    2. Maintains Product Stability: Homemade cosmetics may change their composition if the equipment is too moist. It can cause formulations to be diluted or separated from each other or promote spoilage. Air-drying the products to retain stability and other properties should be undertaken.
    3. Prolongs Shelf Life: Homemade cosmetics last longer when made in well-dried equipment. In addition, dry and sanitised equipment usually produces goods containing fewer contaminants, which often threaten their expiry date, quality, and longevity.
    4. Prevent Cross-Contamination: Protecting the equipment and making it dust-free is preventive contamination. When they fall on wet surfaces, the dust particles provide a suitable habitat for microorganisms. This ensures that the machine is protected from external contamination and stored correctly.
    5. Organisational Efficiency: Having all the equipment dried and stored suitably ensures the beginning of a new cosmetic-making session is set. This organised storage makes it easier to get tools when needed, keeps the working area clean and enhances the production processes.

Practical Tips for Drying and Storage:

  • Air-dried equipment should be placed on a clean and dry surface like a new towel or a drying rack.
  • The dried equipment should be kept where there are no possible contaminants such as dust, pet hair or cooking residues.
  • In addition, clean cloths or plastic covers may be used to cover stored equipment.

Understanding the value of air-drying equipment’s storage in clean and organised conditions allows taking the vital steps towards creating homemade cosmetics in perfect condition. Such attention to detail enhances cosmetic creations’ safety, quality and durability.

  1. Traceability Worksheets

Making cosmetics may seem like an act of artwork; however, it is far more than this- it is a long process involving the correct formulae, meticulous execution and minute observations. The tracing sheet is a valuable tool in this journey; it enables tracking every move, ingredient and decision made while preparing homemade cosmetics. In this section, we discuss the importance of the traceability worksheet and how it relates to accountability, quality control and regulation in cosmetic manufacturing. Digging more deeply into the traceability worksheet will reveal that this form encompasses the spirit of creativity and guarantees cosmetic products’ safety, consistency, and traceability to Our Traceability Worksheet.

  1. Worksheet Components

Developing a traceability worksheet is critical to maintaining accountability and transparency in home-grown cosmetic products. This tool provides a comprehensive record of the journey of each product, from shipment to final product. Here is a breakdown of the information you should include in a traceability worksheet:

    1. Ingredient labelling: All cosmetic ingredients should be labelled, following the International Nomenclature for Cosmetic Ingredients (INCI). All primary components and any additives or secondary components must be included.
    2. Source of ingredients: The source of each ingredient must be indicated, indicating whether it is obtained from reputable suppliers, home-grown, or feedstock. Providing clear source information helps ensure quality control and compliance.
    3. Batch Number: Each homemade preparation should be given a unique batch number. This allows them to trace specific groups to their corresponding organs and processes. The batch number of each component used must also be included.
    4. Dates of manufacture: The date of manufacture of each batch of cosmetics should be recorded. This information is essential for the evaluation of freshness and shelf life.
    5. Dosages: The exact dosage of each ingredient used in the product should be listed. Successful design helps continuously improve the product’s quality and allows for flexibility in future batches.
    6. Steps of manufacturing: The step-by-step manufacturing process should be specified. Each step should be explained in detail, from assembly to final packaging.
    7. Notes and Observations: A section for notes and observations should be provided. This space can capture deviations from a standard procedure, unexpected results, or biases in quality or performance.
    8. Safety information: Any safety information, such as potential allergens or irritants, precautions for use and storage recommendations, should be included.
    9. Test results (if applicable): If any tests are performed on the final product, such as stability testing or microbial analysis, the results should be included in the worksheet.
    10. Signature and date: Provide a designated area for the person in charge of batch preparation to sign and date the worksheet. This adds some accountability.

A complete record is created by carefully recording these items on a worksheet checklist to represent problems associated with medication use accurately. It ensures accuracy and care, and it is a homemade cosmetic product.

  1. Creating a Worksheet

Creating a complete traceability worksheet is essential to maintaining a careful record of your home cosmetics operation. This step-by-step guide ensures that each entry is accurate, consistent, and reflects the entire preparation journey. Table 2 provides an example of a traceability worksheet for accurately completing the traceability worksheet.

Table 2. Example Traceability Worksheet for Homemade Facial Cream (Batch Number: FC202301)

Traceability Worksheet: Homemade Facial Cream

Batch Number: FC202301

Ingredients Name (INCI)

Water (Aqua)

Sunflower Seed Oil (Helianthus Annuus Seed Oil)

Shea Butter (Butyrospermum Parkii Butter)

Glycerin

Emulsifying Wax (Cetearyl Alcohol, Ceteareth-20)

Preservative (Benzyl alcohol, dehydroacetic acid, Aqua)

Lavender Essential Oil (Lavandula Angustifolia Oil)

Source

Distilled water

Organic supplier

Certified fair-trade supplier

Vegetable glycerin

Cosmetic supplier

Cosmetic supplier

Organic essential oil supplier

Batch number

14567833

SF004/22

SB312/22

Gly70566

09876/66

COS987/22

LEO98/21

Batch Production Date: August 2, 2023

Manufacturing Steps

 

Measure and heat to 70°C

Combine with melted emulsifying wax

Stir gently until fully incorporated

Add lavender essential oil and mix

Add preservative and mix thoroughly

Transfer to sanitised jars and label

Ingredient

Water

Sunflower Seed Oil

Shea Butter

Glycerin

Emulsifying Wax

Preservative

Lavender Essential Oil

Quantity (g)

200

50

30

15

10

5

2

Notes and Observations:

– The cream texture is smooth and luxurious.

– Batch colour is consistent with previous batches.

– No unusual odours or irritations were reported.

Safety Data:

– For external use only.

Conduct a patch test before use to check for allergies.

Prepared by:

Sara Gonçalves

Date: August 22, 2023

Signature: _______________________________

Testing Results:

No bacterial growth detected.

A traceability worksheet is created by diligently following this step-by-step guide, an invaluable record of the homemade cosmetic journey. Accurate and thorough completion of the worksheet enhances replicating successful formulations and maintaining quality standards over time.

  1. Labelling Guidelines
    1. Required information

Properly labelling homemade cosmetic products is critical to consumer safety, regulatory compliance, and clear communication. Here is essential information to include in product labels:

    1. Name of the product: The name of the cosmetic must be clearly labelled. The name must accurately represent the purpose and content of the product.
    2. Ingredients: All ingredients should be listed, following the International Cosmetic Nomenclature (INCI) nomenclature. Ingredients should be arranged in order of quantity, with the ingredients with the highest amount listed first.
    3. Net Weight or Volume: Provide the ingredients’ net weight (for solids) or net size (for liquids). Appropriate grams (g) or millilitres (ml) should be used.
    4. Batch Number: The unique batch number assigned to the production batch should be included. This number helps in traceability and quality control.
    5. Manufacturer’s details: Must include the manufacturer’s name, work address and contact details. Their contact information may also be included if the cosmetic products are sold through a distributor or retailer.
    6. Instructions for use – Provide clear and concise instructions on how to use the product. This may include application methods, frequency, and special precautions.
    7. Precautions and Warnings: Any safety precautions or warnings regarding use should be included. For example, if the product is not intended to be used indoors or stored out of reach of children, this information should be clearly stated.
    8. Allergy-related information: If the product contains common allergens (such as nuts, dairy, or gluten), a statement should be included stating its presence. This is especially important for sensitive individuals.
    9. Date or Post-Opening (PAO): The Product Expiration Date or Post-Opening (PAO) marker shall be displayed, followed by the number of months safe for use after opening.
    10. Country of Origin: If applicable, the country of manufacture should be indicated.
    11. Symbols and Markings: Any relevant markings or markings, such as cruelty-free logos or recycling marks, should be included to communicate additional information about the product.
    12. Barcode (if applicable): If the plan is to sell cosmetics in retail stores, consider adding a barcode for easy reference during checkout.

Ensuring this vital information is on labels provides consumers with the information necessary to make informed choices and ensures label compliance. This transparency instils trust and confidence in homemade cosmetic products.

  1. Font and Size for Readability

When labelling cosmetic products, choosing a font and size that communicates information to consumers and ensures readability is essential. Here are the recommended label types and sizes for decorative labels.

Font type:

  • Arial: This sans-serif font is clean and straightforward, making it easy to read even at large sizes. It’s a versatile option that suits a variety of label designs.
  • Helvetica: Like Arial, Helvetica provides better readability. It’s a timeless font that works well on cosmetic labels, giving a professional and modern look.

Font size: The font size you choose depends on the shape of the label and the amount of text that needs to be included:

  • For small labels (e.g., jars of lipstick): 8-10 point labels provide readability by limiting the appropriate space.
  • For large labels (e.g., lotion bottles): A font size of 10–12 points ensures clarity without overwhelming the layout of the label.

Remaining consistent in font type and size throughout the font is essential for a nice, cohesive look. Once the labels are created, a print preview can be performed to ensure that the selected font and size remain readable.

  1. Placement of Information on Cosmetic Labels

Decorative labelling is essential for clarity, compliance and aesthetics. Each information serves a specific purpose and should be strategically placed to facilitate understanding. Here’s a guide on where to put any special ingredient on cosmetic labels:

    1. Product Name: This should be displayed on the label or in the middle to attract the customers’ attention. Use a font size that stays put and should match the brand’s aesthetic.
    2. Net weight or volume: This information should be placed at the bottom of the front label, usually below the product name or in the corner. It should be easy to notice and readable.
    3. Batch number: This should be included near the net weight/volume, usually on the same line. This is important for traceability and can be small in font size compared to the product name.
    4. Manufacturer Information: It can be placed on the back or bottom of the label. It should be clear and legible. If the cosmetic products are sold through retailers, the distributor’s information may be included next to or below a description.
    5. Ingredients: The name of the ingredients should be on the back label. Legible font size should be used, and content should be arranged in descending order of size to make it easier for consumers to find what is inside.
    6. Instructions for implementation: This information should be placed close to the content on the outer label. It should be easy to read and understand.
    7. Precautions and warnings: These should also be close to the instructions, emphasising safety. It should be visible and should not be obscured by other features.
    8. Allergy Information: This should be placed next to the list of ingredients, preferably with a different font or colour to indicate its importance.
    9. Expiration date or PAO: This should be included on the back of the line, usually near the bottom. It should be visible because it is essential for consumer safety.
    10. Country of Origin: This can be placed next to the manufacturer information or on the back label near the bottom.
    11. Signs and signs: These should be placed appropriately about the corresponding information. For example, cruelty-free or recycled labels could be added to the manufacturer’s profile or background labels.
    12. Barcode (if applicable): If the plan is to sell in stores, consider putting the barcode on the bottom or back labels for easy reference.

By maintaining a balanced system, the concept of a hierarchy ensures that consumers can easily access important information about homemade cosmetics products. Always double-check the design to ensure that all information is legible and organised.

  1. Safety Precautions

When manufacturing cosmetics at home, ensuring safety is paramount when working with cleaners, disinfectants and labels. While necessary to maintain proper hygiene and documentation, these items must be handled with care to protect product quality and welfare. Here’s how to prioritise safety and take necessary precautions.

a) Cleaners and disinfectants:

    1. Ventilation: To avoid breathing cleaning agents or disinfectant fumes, work should be done in a well-ventilated area. Windows should be open, or preferably a fan.
    2. Protective Equipment: Wear gloves, safety glasses, and a protective apron to protect the skin and eyes from possible bites or spills.
    3. Avoid mixing: Never mix different cleaners or disinfectants unless specified by the manufacturer. Certain combinations can produce harmful fumes.
    4. Reading labels: The manufacturer’s instructions and safety recommendations for cleaning and disinfecting labels should be carefully read and followed.
    5. Wash: After washing or disinfection, the equipment should be cleaned thoroughly to ensure that any residue that may come into contact with cosmetic chemicals remains.

b) Labeling materials:

    1. Cleanliness: Where labelling materials should be clean and free from debris. Any impurities can affect the adhesion of the labels.
    2. Use correctly. Follow the label usage instructions. A gentle touch must be used to avoid scratches or possible air damage to the label.
    3. Storage: The labels should be stored away from direct sunlight, heat or moisture to avoid deterioration,

General Safety Tips:

  • Handwashing: Hands should always be washed thoroughly before and after handling any substances related to homemade cosmetics.
  • Avoiding Ingestion: Cleaning agents, disinfectants, and labelling materials should be kept out of reach from children and pets to prevent accidental ingestion.
  • Emergency Preparedness: One should be familiar with the steps to take in case of accidental exposure or ingestion of any of these substances. Emergency contact information should be readily available.
  • Disposal: According to local regulations, used cleaning materials such as wipes and empty containers should be appropriately disposed of.

Prioritising safety throughout the homemade cosmetic production process not only protects oneself but also contributes to the quality and integrity of the products. Following these precautions creates a safe environment that aligns with the professional standards of cosmetic manufacturing.

  1. Quality Control and Testing

Quality control is fundamental to producing homemade cosmetics that meet the highest safety, efficacy, and customer satisfaction standards. It involves implementing rigorous processes to ensure that each batch of the products is consistent, free from defects, and safe for use. Quality control encompasses various practices, including sensory evaluation, stability testing, and microbial analysis. By conducting regular testing and quality assessments, one can maintain the integrity of homemade cosmetics and provide consumers with trustworthy products.

  1. Need for Quality Control: Quality control is essential to ensure home cosmetic products live up to their promises and meet consumer expectations. Consistent design, look, smell, and performance are crucial to brand loyalty and reputation. Quality control helps identify and correct deviations from standard chemicals, ensuring that your products are of the highest quality.
  2. Sensory evaluation: Sensory evaluation evaluates the sensory characteristics of homemade cosmetic products, such as colour, odour, texture and overall user experience. Regular sensitivity testing helps keep product quality consistent and identifies any changes due to raw material changes or product development. Involve more individuals in the testing process to generate different perspectives, contributing to a well-rounded product analysis.
  3. Stability: The stability of the product is related to its structural capacity, smoothness, and robustness, which are used to assess the long-term holding. These parameters help to determine the durability of materials and how safe, effective, and visually pleasing rather than be used for durability; testing with checking stability is significant for homemade cosmetics, which may lack the preservatives and stabilisers found in commercial products.
  4. Microbial Analysis: Microbial analysis examines homemade toiletries for the presence of harmful microorganisms such as bacteria, yeast and mould. Ensuring that raw materials are free of these contaminants is critical to consumer safety. Microbial growth can compromise product quality and pose health risks to users. Regular biological testing helps identify any potential problems and helps develop corrective measures to prevent contamination.
  5. Support for Stability and Safety: Regular quality testing and inspections contribute significantly to the stability and safety of homemade cosmetic products. Identifies and promptly addresses deviations from desired information by monitoring sensory factors, consistency, and microbial counts. Consistent product quality builds customer confidence and ensures each product delivers value, wanting to get it filled without hurting or irritating.
  6. Consumer confidence and compliance: Implementing effective quality control practices increases product confidence. When consumers know that homemade cosmetics are rigorously tested and tested, they feel assured of safety and effectiveness. Furthermore, compliance with quality control practices complies with regulatory requirements and demonstrates a commitment to manufacture cosmetic products following industry standards.
  7. Continuous improvement: Quality control testing also provides valuable insights for constant improvement. When areas for improvement are identified through test results, it is possible to refine formulation processes and discover new compounds that contribute to even better products. This development’s promise of continuity helps maintain competitiveness and innovation in the ever-growing domestic products segment.

Quality control and testing are essential to consistent, safe and effective homemade cosmetic products. Sensory analysis, stability testing, and microbiological analysis can be performed to maintain the highest product quality standards and customer confidence. Routine testing ensures that cosmetic products deliver the desired benefits and contribute to the growth of an informed and responsible cosmetics brand.

Continuing Quality: Quality control of homemade cosmetic products at home

In the case of homemade cosmetic products, it is possible and necessary to develop quality products in-house to ensure the products’ safety, stability and effectiveness. Although they do not have extensive laboratory coverage, many practices can be used to develop basic quality control systems. Table 3 describes the design of the in-house quality control system.

Table 3. Comprehensive Quality Control Tests for Homemade Cosmetics: Ensuring Consistency and Safety

Quality Control Test

Purpose

Basic Steps

Sensory Evaluation

Assessing product appearance, colour, scent, and texture to ensure consistency and quality

1. A well-lit and consistent evaluation area should be set up.

2. A sensory evaluation checklist covering attributes like colour, scent, texture, and appearance should be created.

3. Multiple evaluators should be involved to get diverse opinions.

4. Observations and deviations from intended characteristics should be recorded.

Stability Testing

Evaluating how the product holds up over time under different conditions to ensure longevity and performance

1. A few containers of each batch with batch numbers should be labelled.

2. Containers should be stored under room temperature, elevated temperature, and cold temperature conditions.

3. Products should be monitored over several weeks or months, noting any changes in appearance, scent, texture, and performance.

4. Observations and variations in a stability testing log should be documented.

Microbial Analysis

Minimising the risk of microbial contamination in the products

1. A clean and sanitised workspace before starting each batch should be ensured.

2. Sterilised equipment and containers should be used.

Ingredients and products should be kept covered to prevent contamination.

4. Introducing water into formulations should be avoided.

5. Signs of contamination, such as mould growth or unusual odour, should be monitored.

Consistency Checking

Ensuring that each batch matches established product characteristics for colour, scent, texture, and performance

1. New batches with reference batches of the products should be compared.

2. Attributes like colour, scent, texture, and performance should be assessed side by side.

3. Any discrepancies or variations in a consistency log should be noted.

Usage Testing

Evaluating the products for any adverse effects or irritations on the skin

1. One should use the products personally and ask friends or family to use them.

2. Any skin reactions, irritations, or adverse effects should be observed

3. Any negative experiences should be documented and assessed to determine whether adjustments are needed.

Documentation and Record Keeping

Maintaining comprehensive records of each batch, testing results, and observations

1. Detailed records of ingredients used, quantities, and production dates for each batch should be kept.

2. Logs for sensory evaluations, stability testing, microbial monitoring, and consistency checks should be maintained.

3. Any adjustments made based on quality control findings should be documented.

  1. Conclusion

Equipment cleaning and disinfection are essential in homemade cosmetic products, ensuring safety, quality and efficiency. Maintaining a clean work area following personal hygiene regimens and hygiene regulations is responsible for the safe and effective cleaning of equipment after each use, for hazards that contamination will occur are reduced. At the same time, appropriate disinfection techniques help to eliminate harmful microorganisms. Proper drying and storage of tools further contribute to the consistency of homemade cosmetic products.

The traceability worksheet is invaluable for auditing, quality control, and compliance throughout cosmetics manufacturing. It captures critical information from ingredient details to manufacturing steps, enabling accurate chemical mapping and consistent product quality.

Labelling guidelines are essential for transparent customer communication, ensuring compliance and building trust. Choosing the right fonts, sizes, and labels increases readability and clarity, making it easier for consumers to make the right choices. Safety precautions are essential when handling cleaners, disinfectants and labels. By following safety precautions, individuals can protect themselves and maintain product quality.

Quality control and testing are critical to the safe and sustainable distribution of cosmetic products. Sensory analysis, stability testing, and microbiological analysis contribute to product quality, customer confidence, and compliance with industry standards. Continuous improvement through test results ensures that home-grown cosmetics remain competitive and innovative. In summary, by implementing equipment cleansing and disinfection, using traceability worksheets, following labelling guidelines, prioritising safety precautions, and conducting quality control and testing, individuals can produce safe and high-quality homemade cosmetics and inspire consumer trust and satisfaction. Maintaining excellence in homemade cosmetic production is achievable through diligence and commitment to these essential practices.

  1. References

1. Baki G, Alexander K. Introduction to Cosmetic Formulation and Technology. 1st ed. Wiley; 2015.

2. Nutrition C for FS and A. Cosmetics Labeling Guide. FDA. Published online April 3, 2022. Accessed September 27, 2023. https://www.fda.gov/cosmetics/cosmetics-labeling-regulations/cosmetics-labeling-guide

3. Fontana CR, Bonini D, Bagnato VS. A 12-month follow-up of hypopigmentation after laser hair removal. J Cosmet Laser Ther. 2013;15(2):80-84. doi:10.3109/14764172.2012.758378

Edição: Junho 2024

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Três frescos de Pompeia antiga.

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Tivemos, nas últimas semanas, numa peça do jornal Expresso, finalmente acesso mais extenso e detalhado a relatos das cinco denunciantes que expuseram, em ocasiões diferentes e em graus distintos, alegações de abusos morais e sexuais da parte da direcção e de algumas figuras de relevo do Centro de Estudos Sociais, da Universidade de Coimbra, desde há alguns meses atrás. Aqui comentamos as alegações.

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A indignação algo performativa de uma jornalista brasileira em Portugal aquando de ser caricaturada numa representação visual levou-nos a elencar esta magnífica e celebrativa galeria de caricaturas políticas e não só.

Novidades, graças e curiosidades nas ciências exactas.

Oito Desenhos sobre Programas Eleitorais

Uma nova série temática do artista plástico Rui Cavaleiro, desta vez dedicada a visões sumárias e criativas sobre os vários tipos de promessas eleitorais que podemos encontrar no mundo da política e na arena da propaganda que antecede eleições.

Europa Doce

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Sobre filosofia.

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Aspetos da vida comum na Cidade de Lisboa, no séc. XIV, tendo em conta a análise de um pergaminho

Texto sobre a cidade de Lisboa com base em um fólio da Chancelaria de D. Fernando do séc. XIV.

Na academia.

Sugestões de Leitura: Grandes Compêndios de História da Humanidade


Entre algumas obra de importância antropológica notável e outros de acessibilidade ao leitor comum, estes volumes relacionados com a história da civilização permitem colocar em perspetiva assunções que temos sobre valores universais, valores locais e culturais, e aprender não apenas a distingui-los mas a saber como são simbioticamente relacionados uns com os outros.

Crítica: A Ressaca (Todd Phillips, 2009)


Adolfo Rolando Dias observa como o que sucede na ressaca é uma história de detectives, semelhante à exegese de geneologias: perceber o que existiu antes – seja “o início” ex nihilo ou, neste caso, pós narcótico. Um mundo anti tabula rasa, a favor de universo sem princípio e das coisas sempre existentes: esta é a teoria ontológica que o filme sugere.

Os funnies deste mês: sobre a imperfeição das democracias, o nosso lugar no cosmos e o activismo climático.

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Nuno Lopes Margalha escreve-nos sobre o fenómeno do jet lag. Não é possível dar corda à realidade, nem ela aceita pilhas. Como se isso não bastasse, revela-se imprecisa, pouco fiável e imprevisível, e na maioria das vezes, simplesmente não nos agrada. No entanto, rejeitá-la acarreta consequências indesejadas. O jet lag é um exemplo paradigmático dessa rejeição corporal da realidade.

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Sofia Alexandra Carvalho traz-nos mais uma vez, enquadrada na sua rubrica SKieron, uma re-publicação de uma excelente peça da sua autoria na plataforma jazz.pt sobre uma editora fundamental na história do jazz contemporâneo: a portuguesa Clean Feed.

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Por último, três oldies. O primeiro, de Helena Maurício Santana, sobre estratégias de poder feminino em contexto migratório no grupo feminino hindu em Portugal.

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Lembrar Júlio Dinis

E por último, Sebastião Nobre Viana escreve um louvor do romancista novecentista Júlio Dinis, por vezes imerecidamente visto como escritor menor.

Aspetos da vida comum na Cidade de Lisboa, no séc. XIV, tendo em conta a análise de um pergaminho.

Em consequência das Cortes de Lisboa de 1371, algumas foram as terras que tiveram reclamações a fazer ao Rei, mediante incongruências entre os Capítulos gerais das Cortes e a Legislação específica local, que o Rei logo procurou esclarecer e correger. Lisboa, note-se, acabou por ser uma dessas terras, e as suas reclamações, com as respostas régias, detêm certos aspectos da vida quotidiana que gostaria de elucidar aqui, para o conhecimento geral [Chanc. D. Fernando – fol. 84v-87]. O Concelho enviou um seu Procurador, que se encontrou com o do…

…Rei, para a elucidação de reclamações dos vizinhos do Concelho – o Rei respondeu argumentativamente aos capítulos expostos. O Rei inicia a exortação, recorrendo ao Foral da Cidade, outorgado por D. Afonso Henriques: os mercadores daquela terra tinham opções na questão do tributo – isto é, podiam optar por pagar o soldo por cabeça e anualmente [o nosso imposto convencional atual], ficando isentos de pagar portagem, ou o inverso. O Concelho argumenta que esta é uma prova cabal que ficam, pagando o soldo, escusados de pagar qualquer tipo de portagem, o que o Rei não concorda, pois afirma que a “portagem” mencionada no Foral é ambígua, e não faz menção a produto algum. As restantes argumentações do Rei vão, pois, a essa questão, pois o Concelho elucida a D. Fernando que, aquando da data, os moradores de Lisboa tinham privilégio na importação do pescado seco, nas especiarias, nos couros, mel, azeite, anil, e alguns outros produtos que mencionaremos depois. D. Fernando interpreta uma outra frase do Foral, dizendo que, de facto, existia uma isenção da portagem, mas para: a) os produtos que trouxessem das suas próprias terras para a subsistência; ou b) os produtos que vendessem e comprassem na vila ou no termo [arredores] dela, e complementa com um exemplo: diz que todo o vizinho [morador] de Lisboa que tivesse pão, azeite e figos em Santarém ou outros lugares, e os trouxesse à cidade para alimentar a sua família não deveria pagar portagem; quem os desejasse vender e regatar [vender a baixo custo], que a pagasse. Finda esta exposição argumentando que, se em outros tempos eram escusados de pagar portagem, devia-se à carência de boas Leis que abordassem o assunto. Os mercadores da cidade não costumavam regatar nem comprar mercadorias de fora, mas os mercadores de fora traziam as mercadorias para dentro, e pagavam a portagem que lhes era devida – os mercadores de dentro, que compravam a mercadoria daqueles, pagavam o dízimo do carregamento do produto. Não obstante, parece que haviam chegado por volta da década de 1330, mercadores do Continente [são mencionados os Genoveses], que faziam-se estaleiros e foram atribuídos foros de maior conta, o que levou os mercadores de dentro, que deixaram de ter tanto produto, a sair da muralha e comprar e regatar produtos, vendendo lá dentro a esses mesmos mercadores estrangeiros – lucravam mais, e o Rei ficava sem o seu direito ao tributo. Os Almoxarifes retomaram a cobrar esse justo tributo, e por isso o Concelho reclamou, à qual o Rei dá razão aos seus Oficiais. Diz ele que os moradores sempre pagaram tributo em víveres do pão, do vinho e do pescado, seja para regatar na cidade ou carregar para o exterior, pois são víveres que asseguram o mantimento geral do Povo, e ironiza por que causa haveria o Rei, neste caso, de isentar produtos de maior luxo como aqueles mencionados atrás. Ademais, os regatães [quem regata, quem vende a retalho], bufães, sapateiros e alfaiates, que muitas vezes não se confundiam com Portugueses, e eram Castelhanos, Galegos e outros, não davam tributo ao Rei, e auxiliavam a falência dos mercadores nacionais, e perdia o Rei potencial de enriquecer o Erário Público.

O Rei fala também de incongruências. Fala como existem homens de baixa condição, que eram, até, mouros libertos; ou homens de outras comarcas do Reino, ou homens estrangeiros, que exerciam ofícios vis [de terceira categoria, pobres] mas, por se dizerem vizinhos nas terras de onde vinham, era-lhes alugada casa e tomavam direitos, não só aos Portugueses, mas aos mercadores estrangeiros igualmente, porque não eram vizinhos em Lisboa, logo, não tinham esses privilégios. Iam aos Portos de Almada e Coina, compravam lá mercadorias, vinham para Lisboa dizendo que eram suas e que eram vizinhos, e a Alfândega deixava-lhes passar sem pagar portagem Logo vendiam às Lojas de mercadores estrangeiros, que pagavam mais, e os Portugueses faliam por desprovidos de produtos.

Quanto ao pescado seco, o Rei é assertivo: paga dízima, o pescado que vem de fora de Lisboa. Do pescado, o Rei logo acusa o Concelho, que afirmava ter isenção de portagem nos ditos produtos de luxo, como o ouro fiado, a prata, aljôfar. O Rei argumenta que o tributo imposto a estes produtos não é a portagem, mas a costumagem, onde pagariam os quatro direitos do maravedi [moeda da altura], como sempre fôra o costume entre os Reis de Portugal. O vinho é outra preocupação, porque os Almoxarifes voltaram a cobrar 1 almude e ½ de vinho por cada tonel que viesse de fora do termo ou, caso o vinho trazido não chegasse a 1 tonel, a valia do mesmo aquando da sua venda. O Rei aplica o duplo tratamento Aos homens suspeitos, não certos da quantidade de vinho que traziam, maus pagadores e referteiros [pertinazes, mentirosos], que se penhorasse imediatamente uma parcela do produto que traziam; aos sinceros, que não se tomasse penhora, e logo pagariam o tributo sobre o vinho quando o vendessem. Além disso, haveria outro critério para a tomada de penhores sobre o vinho, nomeadamente quem fosse para o extremo limite do termo de Lisboa, onde haveria o perigo de não voltarem sem o pagamento do tributo – o Rei dá o exemplo da Torre da Negra [não sei onde é] e de Alverca como lugares suspeitos, no extremo do logo, e logo aponta como alguns homens iam a Povos, ou a Vila Franca de Xira, ou a Alenquer [já fora da jurisdição de Lisboa] vender o seu vinho sem pagar tributo – por isso lhes era exigido a penhora. O Concelho de Lisboa ainda aborda a isenção de portagem concedida pelo Rei D. Afonso IV, aos homens de que carregassem o vinho, de fora do termo para a cidade, em odres [recipiente]. Ora, o Rei admite que essa não era escusa para a isenção, pois 1 almude mantinha-se por cobrar a cada moio de vinho – o odre, diz D. Fernando, já não era tão usado; e a isenção foi concedida por conta aos regatães pobres, que iam a Almada no tempo da venda do mosto [sumo de uva], comprar alguns odres de raspa, onde colocavam numa talha, em Lisboa, e vendiam com a modéstia dos preços e lucros que aquele produto acarretaria.

O documento é extenso e, como tal, muito poderia mais dizer-se. Acredito, no entanto, que este intróito é já bastante elucidativo de alguns trocos comportamentais dos Portugueses de Lisboa, no Reinado de D. Fernando.

Um Trecho: A Vida do Condestável Nuno Álvares Pereira

“De velha nobreza do Reino, transmontana e cruzada de nobre sangue leonês, era filho ilegítimo de D. Frei Álvaro Gonçalves Pereira, prior da Ordem Militar do Hospital, de monjes cavaleiros, regrantes de Santo Agostinho, e duma donzela da corte, Iria Gonçalves do Carvalhal, também de boa linhagem. Nascido, pelo S. João de 1360, em pleno coração do país, numa abadia militar da Ordem, a de Cernache de Bonjardim, na Beira Baixa, ali foi criado e medrando junto do pai, pelos vaticínios do horóscopo dum Mestre Tomás, astrólogo, que à nascença lhe prediziam um glorioso destino de cavaleiro invencível. Seus quietos anos de infância, os viveu a ‘gran viço’, longe do mundo e do seu tumulto, adestrando-se no exercício das armas, na equitação, em ardis de guerra, e enlevado nos mistérios litúrgicos dos ofícios divinos e em suas leituras de maravilhosas lendas do ciclo do rei Artur, pois, segundo a crónica, ‘muito usava ouvir e ler livros de histórias e especialmente a história de Galaaz em que se continha a suma da Távola Redonda’. O cavaleiro puro, de assombrosas façanhas, fizera o seu modelo ideal de regra de vida cavaleiresca; e, no silêncio da sua alma, fizera como ele o voto íntimo de virgindade, castidade perfeita, para que, por essa virtude, viesse a realizar grandes feitos de armas. Seu pai o levaria, por vezes, ainda mesmo, ao poderoso mosteiro-fortaleza da Flor da Rosa, no Crato, grande Comenda da Ordem, na fronteira do Alto Alentejo. Tudo isto, num tenro espírito de criança e de precocidade ardente, lhe elaboraria, ao alvor da adolescência, visões e ambições de indefinível riqueza espiritual e moral. E aos treze anos o levou a apresentá-lo na corte, então a coberto dos muros de Santarén, onde o rei D. Fernando, na sua ‘covardice de corazon’, se refugiara da invasão castelhana de 1372, com a rainha adúltera D. Leonor Teles, sem esboçar sequer um gesto de resistência; e logo ali despontava o génio militar do moço Nun’ Álvares, num reconhecimento a que seu pai mandou, com alguns cavaleiros e escudeiros da Ordem, a observar a passagem, perto de Santarém, do exército invasor sobre o seu objetivo estratégico – Lisboa. Entusiasmada com as lúcidas informações do moço, a rainha o tomou então para seu serviço na corte, instigando o rei a armá-lo cavaleiro, servindo-se das armas e do reduzido arnês doutro moço, apenas um ano mais velho do que ele, o bastardo real D. João, já Mestre de Avis. Singular presságio dum deslumbrante destino de indefectíveis irmãos de armas! Aos 17 anos, e a despeito da sua desesperada resistência pelo voto íntimo de castidade, via-se casado, em cumprimento da firme resolução paterna, com uma rica-dona, D. Leonor d’ Alvim, da mesma idade e viúva-donzela dum poderoso cavaleiro de Riba-Douro, cujas terras e honras, como segundo marido, o condenavam irremissivelmente a uma folgada mas amorfa existência de grande senhor rural, apenas ocupado a cobrar foros e rendas, e se desenfadar em caça de altanaria ou a montear cervos e porcos monteses. Desse casamento, entre outros filhos que não vingaram, Beatriz viria afinal a ser-lhe de grande consolo moral; mas, amargamente, Nun’Álvares via frustarem-se-lhe todas as altas ambições duma vocação ardente de grande cavaleiro, ao serviço duma casa sagrada. Em 1381, nos seus vinte e um anos, um primeiro apelo à guerra contra Castela o tomou de imoderado alvoroço, apressando-o a apresentar-se com seu contingente de escudeiros e peonagem na fronteira do Caia; mas a ofensiva cedo se gorou pela poltronaria dos capitães fronteiriços do Alentejo. No ano seguinte, pela primeira vinda dos ingleses do Conde de Cambridge ao Reino, como aliados, para nova campanha contra Castela, voltou o moço cavaleiro à fronteira do Caia, galopando de Lisboa, contra expressas ordens do rei, para estar também na batalha que se lhe antolhava iminente. De novo se lhe gorou o intento pela felonia do rei, num conchavo de pazes com o Castelhano, a ocultas dos aliados ingleses e a troco do ajuste de casamento da infantil herdeira de Portugal, D. Beatriz, com o infante herdeiro de Castela, prelúdio da entrega de Portugal à coroa de Castela. Seguiram-se-lhe, para consumação da perda da independência do Reino, a ignominia maior do casamento da mesma infanta, em Elvas (1383) com o próprio rei, já viúvo; e de todo esse acervo de torpezas políticas apenas ficou ressoando na História o escândalo de protesto violento de Nun’Álvares, em face da adúltera rainha D. Leonor, e nas próprias barbas do rei Castelhano, ao atirar a terra, com uma joelhada, uma das mesas do banquete de gala que devia celebrar o impudente entremês daquelas bodas principescas. Mais amargurado voltava Nuno Álvares às suas terras de Riba-Douro; mas de grande proveito, decisivo para a fulgurante glória do futuro Condestável, lhe tinha sido, imprevisivelmente, o estreito convívio de três meses com os aliados ingleses, então mestres na arte da guerra, cujos bons capitães, na camaradagem e longas conversas de acampamentos, o iniciavam nas profundas inovações de tática e arte da guerra que na Europa central se iam processando, não tanto pelo incipiente emprego da pólvora, como sobretudo por um novo fator, decisivo da vitória em grandes batalhas: o nascente predomínio da peonagem, infantaria da época, sobre o da orgulhosa cavalaria medieval, couraçada de ferro, cujas galopadas de carga eram detidas de longe, impedidas de chegar ao choque e alcance das lanças, e destroçadas, abatidas por armas de arremesso, sob saraivadas em massa de virotões, flechas, dardos de bons arqueiros e besteiros, a coberto de cavas, abatizes, covas de lobo, abertas no terreno. Foi uma verdadeira escola prática de guerra que ele aprendeu com os ingleses. Depois da morte de D. Fernando, em fins de 1383, a revolução de Lisboa, que abria novos horizontes aos destinos da Nação, propiciava enfim ao ardente paladino da independência o ensejo providencial de para sempre se consagrar a essa causa sagrada, como a sonhada empresa de grande cavaleiro, a exemplo de Galaaz. No quadrado dos Atoleiros (1384), a primeira batalha que em Portugal se fez pé em terra, e depois dessa radiosa manhã de vitória, do malogrado cerco castelhano a Lisboa e das célebres Cortes de Coimbra (1385) para aclamação do Mestre de Avis, D. João, Rei de Portugal começava já o Condestável do Reino, desde a tarde fulgurante de Aljubarrota (1385), a sua epopeia de Capitão Invencível, numa infatigável cavalgada heróica, de lés a lés no país ou por terras de Castela, de vitória em vitória. Ainda nesse ano, depois de Aljubarrota, entrou em Castela pelo Alentejo, e sobre o Guadiana infligiu aos catelhanos, em Valverde, uma derrota quase incrível. (…) Em todos os atos de guerra entre 1386 e 1411, ano do tratado de paz provisório, o Condestável tivera sempre intervenção decisiva, mesmo quando por insubordinações heróicas, inabalável nas suas concepções táticas ou estratégicas, como no Conselho Real de Abrantes, antes de Aljubarrota, e no cerco de Cória com os ingleses, em 1391. Suas entradas e correrias na raia castelhana do Alentejo valeram-lhe do inimigo o apodo de ‘Nuno Madruga, que tanto madrugas, por nos dañares’; e nas próprias deliberações políticas em assuntos de guerra, afirmara a sua autoridade de Condestável, acedendo às reformas militares de 1391, por injunção de ordem económica. Culminara o seu génio militar nas vitórias fulminantes de Atoleiros, Aljubarrota e Valverde, do que lhe proviera grande riqueza, com as sucessivas doações de terras e vilas, que o rei em prémio de tanto heroísmo e lealdade lhe fora fazendo – os condados de Ourém, de Barcelos e de Arraiolos; vastos reguengos em todo o Alentejo e no Algarve, terras e castelo de Vila Viçosa; os Castelos de Silves e de Loulé, e no Minho, os de Neiva e Guimarães; quase metade do Reino, que não cobiçara nem pedira, e de que o melhor dos rendimentos se lhe escoava em soldos e mantença dos seus homens de armas. Tudo dádivas espontâneas do Rei, o que não obstara à solerte calúnia, forjada por invejosos e detractores, dum pacto secreto entre ele e D. João, a quando da Revolução de Lisboa, para dividirem entre si o Reino, em caso de vitória. (…) Tantas foram as promessas e tentativas do rei castelhano para se bandear com o seu valor e a sua espada, como tantos fidalgos portugueses, inclusive seus irmãos, que na véspera dos Atoleiros, na própria manhã de Aljubarrota, como parlamentares o foram aliciar, com promessas do Castelhano, de ‘tantas mercês de que seria contente’. Que não teria ele podido então extorquir a rei tão magnânimo, para se tornar um dos mais poderosos ricos homens dum Portugal avassalado? E quanto à sua revolta de cólera, em 1396, ante a ameaça de anulação das doações e restituição das terras à Coroa – muitas delas já repartidas por seus mais fiéis companheiros de armas – de nenhum modo se tratava duma avara defesa de bens mal adquiridos, mas do que ele entendia na sua isenção ser uma injustiça e felonia indigna do rei. Bem patente viria, aliás, a tornar-se o seu ‘Nuno Madruga, que tanto madrugas, por nos dañares’; e nas próprias deliberações políticas em assuntos de guerra, afirmara a sua autoridade de Condestável, acedendo às reformas militares de 1391, por injunção de ordem económica. Culminara o seu génio militar nas vitórias fulminantes de Atoleiros, Aljubarrota e Valverde, do que lhe proviera grande riqueza, com as sucessivas doações de terras e vilas, que o rei em prémio de tanto heroísmo e lealdade lhe fora fazendo – os condados de Ourém, de Barcelos e de Arraiolos; vastos reguengos em todo o Alentejo e no Algarve, terras e castelo de Vila Viçosa; os Castelos de Silves e de Loulé, e no Minho, os de Neiva e Guimarães; quase metade do Reino, que não cobiçara nem pedira, e de que o melhor dos rendimentos se lhe escoava em soldos e mantença dos seus homens de armas. Tudo dádivas espontâneas do Rei, o que não obstara à solerte calúnia, forjada por invejosos e detractores, dum pacto secreto entre ele e D. João, a quando da Revolução de Lisboa, para dividirem entre si o Reino, em caso de vitória. (…) Tantas foram as promessas e tentativas do rei castelhano para se bandear com o seu valor e a sua espada, como tantos fidalgos portugueses, inclusive seus irmãos, que na véspera dos Atoleiros, na própria manhã de Aljubarrota, como parlamentares o foram aliciar, com promessas do Castelhano, de ‘tantas mercês de que seria contente’. Que não teria ele podido então extorquir a rei tão magnânimo, para se tornar um dos mais poderosos ricos homens dum Portugal avassalado? E quanto à sua revolta de cólera, em 1396, ante a ameaça de anulação das doações e restituição das terras à Coroa – muitas delas já repartidas por seus mais fiéis companheiros de armas – de nenhum modo se tratava duma avara defesa de bens mal adquiridos, mas do que ele entendia na sua isenção ser uma injustiça e felonia indigna do rei. Bem patente viria, aliás, a tornar-se o seu absoluto desdém dos bens terrenos, ao despojar-se, por fim, de tudo e, mísero como um mendigo, ingressar humildemente no seu mosteiro do Carmo como irmão-donato. (…) Ainda voltou ao serviço da guerra, quando em 1414, convocado para Torres Vedras, pelo rei com outros veteranos das batalhas da independência, aprovava também no alegre brado de ‘Ruços, além’, a grande empresa de Ceuta, a que ainda por fim acorreu, Capitão duma Nau, com gente sua, ‘a meter uma lança em África’. Era aos cinquenta e cinco anos, simbolicamente, o seu último feito de armas. Sob a sua égide e benção, de criador duma verdadeira Pátria, se iniciava como um símbolo, ligando o passado ao futuro, a expansão de Portugal além dos mares. Foi depois do seu regresso que, ao cabo de mais sete anos de grande lavrador, em 1422, num ato de renúncia total, repartiu em vida, pelos netos, o que lhe restava da sua imensa fortuna; distribuiu pelos escudeiros e fiéis servidores da lavoura os seus haveres pessoais – armas, cavalos, jóias, roupas, mobília. Ficava pobre como Job, o que fora o poderoso conde de Ourém, Barcelos e Arraiolos e glorioso Condestável de Portugal, e entrava em religião  por humildade e misticismo ardente no seu convento do Carmo, como frei Nuno de Santa Maria, sob uma grosseira samarra de estamenha, que mal o resguardava do frio. Em penitência dos seus pecados a remir, actos de violência, de agressão, de orgulho, de mortandades de guerra, os seus últimos anos andou esmolando pela cidade para os pobres, a quem na cozinha do convento ele próprio servia, de grandes caldeirões, a sopa que à sua custa mandava fazer. Assim viveu ainda mais nove anos, até 1431, um ano antes da morte do Rei, seu irmão de armas, a quem consolidara no trono, fundador da dinastia que faria a glória maior de sua Pátria. Morria com 71 anos, glorificado como herói pelo rei, pelos príncipes, pelos grandes do Reino e, como santo, pelo povo humilde, pelos pobres, pela legião de maltrapilhos, a quem socorrera com cristianíssima caridade, como lealmente servira a sua Pátria. Ficou sepultado em campa rasa, na crasta da igreja do seu convento.”

Europa Doce

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Europa Doce, é bom, é bom, é…

Sobre o CES, as Denúncias de Assédio Moral e Sexual, e o Ambiente Competitivo da Academia

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Tivemos, numa peça do jornal Expresso, finalmente acesso mais extenso e detalhado a relatos das cinco denunciantes que expuseram, em ocasiões diferentes e em graus distintos, alegações de abusos morais e sexuais da parte da direcção e de algumas figuras de relevo do Centro de Estudos Sociais, da Universidade de Coimbra.

O relato inicial tinha sido apresentado com uma forma muito dúbia, num artigo académico de valor científico sofrível que serviu, maioritariamente, para expor a situação que algumas das denunciantes achavam existir nesse centro, e, aplicando-lhe alguns preceitos de sociologia barata — a “auto-etnografia”, por exemplo — e de marxismo cultural da Escola de Frankfurt de forma generalizada — o eterno paradigma oprimido/opressor, que não podia faltar — produziram um texto pseudo-científico para, coberto de um verniz académico, parecer que era alguma coisa mais do que a mera peça de Correio da Manhã, sensacionalista e sexual, que no fundo acabava por ser.

Tal documento, no entanto, adiantava alegações relevantes, embora não necessariamente criminosas. Algumas das pessoas da direcção e de posições relevantes desse centro insinuar-se-iam recorrentemente de modo sexual a alunos, supondo-se um quid pro quo em que o sucesso académico era premiado conforme esses avanços fossem bem-sucedidos. Já nesse relato inicial a substância relevante das denúncias era pouca: uma “mão na perna”, um “abraço demasiado apertado”, “beijos [no rosto] demasiado molhados”, e algumas alegações de propostas sexuais verbais em concreto, também de enunciado nebuloso que poderiam perfeitamente corresponder a mal-entendidos. Tudo isto no meio de muitas outras descrições completamente inócuas — estudantes eram “coagidas” a ler poesia do professor em eventos públicos, eram incentivadas a congratulá-lo, etc, coisas normais em qualquer meio onde exista uma idolatria de um chefe ou líder, mas coisas não criminosas ou sequer em absoluto censuráveis moralmente. Este conjunto de vagas insinuações acabava por compor um quadro em que só crédulos se alicerçaram de início — inclusive num absurdo manifesto lançado poucos dias depois, promovido pela plataforma Buala, um documento absolutamente ridículo que tirava conclusões sobre oprimidos e opressores e putativos climas de insinuação sexual que permeavam toda a academia; e isto sem se saber nessa altura nada mais de relevante desse caso em concreto além do referido artigo pseudo-científico e de boatos e rumores. O referido documento acabou por agregar as assinaturas de mil (!) crédulos, maioritariamente professores e investigadores, entre cavaleiros andantes — os homens — e donzelas em perigo — as mulheres —, ou mesmo em muitos casos uma mistura dos dois estereótipos, cada um à sua maneira gritando ao mundo que queria dar e queria receber protecção dos fantasmas do assédio que supostamente assombrariam os corredores da academia.

Neste relato agora vindo a público na peça mais detalhada e mais desenvolvida do Expresso, temos acesso a muitas mais alegações e ao desenvolvimento da narrativa. Podemos dividir os elementos relevantes em três tipos: (1) propostas e/ou insinuações sexuais subjectivas e objectivas; (2) episódios de mal-estar e putativo assédio moral e (3) esboços de nexos de causalidade entre estas coisas — entre os quais esperaríamos ver, por exemplo, quid pro quo expresso de modo objectivo, descrições de pessoas a quem a vida correu melhor por aceitarem os convites sexuais e exemplos de pessoas a quem correu pior por não aceitarem, etc.

Importa esclarecer desde já que o artigo é composto por relatos de apenas três instâncias de propostas sexuais objectivas, 80% de conteúdos relacionados com mal-estar e agressões morais, comuns na academia, que podem ou não estar relacionadas com essas hipotéticas propostas, e absolutamente zero descrições em concreto de nexos de causalidade coerentes ou credíveis entre os dois pontos anteriores. Ilustraremos citações do artigo ao longo da análise. Analisando ponto a ponto, temos então os seguintes conteúdos.

Uma mão “entre as pernas”, não se percebe se prolongadamente, nem se tinha conteúdo sexual ou se meramente colegial, em particular nos códigos sociais sul-europeus e latino-americanos — sendo que facilmente uma mão pousada algures na parte superior das pernas entre duas pessoas que estejam sentadas a par pode ser descrita mais tarde como mão na virilha; elogios excessivos em público e, em dado momento uma mão na cintura, aspectos de pouca relevância; reuniões em casa em que o professor surgia de robe, algo não necessariamente invulgar num ambiente familiar entre pessoas; comentários sobre boa aparência e o físico dos estudantes, sem se perceber se se tratavam de insinuações sexuais ou de meros cumprimentos; sugestão de “uma relação especial” (após o doutoramento da estudante já concluído, porém) sem se perceber inteiramente o nexo do relato; lembrete de que uma das estudantes era a única pessoa próxima com quem não tinha uma relação de carácter sexual, uma outra instância em que o nexo não é inteiramente claro, pois não há nenhum relato de alguém com quem tenha existido de facto uma dessas relações; intenção de confidenciar com essa mesma pessoa sobre as denúncias que entretanto teriam vindo a público, o que sugeriria uma relação de proximidade, não se percebe se consensual; “beijos no rosto excessivamente molhados, uns abraços apertados”, episódios infelizes e comuns em homens com carência social ou apetite para contacto físico mas dificilmente escandalosos; email com poemas eróticos, não invulgar em pessoas que escrevam poemas; manifestação de desejo físico, não se percebe se com intenção de ver concretizada ligação carnal ou não; elogios excessivos da parte do professor numa situação pública (a que chamam de love bombing) e críticas devastadoras deste ao trabalho dos estudantes noutra, ou seja, preso por ter cão e preso por não ter; e, por fim, e muito estranhamente, zero relatos de pessoas que tenham tido, tenham presenciado ou tenham conhecimento de efectivas relações amorosas, eróticas, de facto carnais e actualizadas, entre esse professor e os estudantes — o que, a ter acontecido, não violaria necessariamente o regulamento interno da instituição, segundo sabemos e que, de modo algum, constituiriam por si só comportamento criminoso. É bom lembrar que estamos a falar de pessoas adultas e não de crianças.

É bom lembrar, dizíamos, pois se no meio de todas estas alegações podemos encontrar fundamentos para a existência de um ambiente de insinuações sexuais pontuais entre chefias do centro e subordinados, entre orientadores e estudantes, entre estudantes e colegas, nenhuma destas situações configura necessariamente violação do código do trabalho, do regulamento interno do centro, e muito menos crime. Estamos a falar de pessoas adultas, e, apesar de poder existir relevância global ou particular nesta história, muito da maneira como esta é apresentada sugere uma infantilização da pessoa adulta que deve ser o estudante e o investigador universitário, pessoa perfeitamente coesa na sua autonomia e inteiramente responsável pela sua dignidade. Apesar de insinuações sexuais poderem ser de facto inoportunas e até perturbadoras no local de trabalho da academia, as interacções desse tipo fazem também parte da vivência humana adulta. Não vivemos numa sociedade asséptica nem será desejável que isso venha a acontecer. Portanto assumimos aqui uma posição clara de cepticismo quanto ao tratamento de pessoas adultas como crianças acossadas por predadores.

As suspeitas de infantilização relacionadas com as denunciantes deste caso avolumam-se quando encontramos um rol de queixas que são apresentadas como penalizações por não terem acedido aos supostos convites eróticos, queixas de um tipo que quase todos os estudantes encontram ao longo dos seus percursos académicos sem que isso tenha necessariamente a ver com assédio sexual ou sequer moral. Exemplos disso, dados pelas mesmas, são coisas como comentários negativos e agressivos da parte dos superiores (professores ou orientadores) sobre trabalhos, o que é a coisa mais comum do mundo, às vezes bem, outras vezes mal; funções de pesquisa académica não remuneradas, frequentes em centros de estudo e não necessariamente censuráveis; alegações de medo e tortura psicológicas, infelizmente comuns no meio competitivo académico; obsessão do professor pela produtividade, o que não é propriamente uma crítica ao mesmo; instadas a citar o professor nos seus trabalhos por terceiros, o que nada tem de incomum; “todos os conceitos teóricos tinham que estar alinhados com os conceitos dele”, problema frequente em que o orientador se impõe sobre o conteúdo do orientando mas que é igualmente muito comum; tarefas administrativas do centro de investigação em excesso, realidade conhecida por toda a gente que se tenta aninhar profissionalmente num desses locais de trabalho; ou seja, toda uma série de alegações de uma banalidade atroz tendo em conta o meio competitivo académico de que estamos a falar e que serão certamente, para estudantes sérios e honestos que nos estejam a ler, conhecidas como coisas comuns, com mais ou menos gravidade, mas que não configuram necessariamente um quadro de assédio de qualquer espécie que seja, pelo menos nos termos em que são descritas.

Seguem-se também nos relatos algumas alegações que ora não se entendem ora não estão justificadas, nomeadamente a questão do nexo de causalidade entre as alegações de propostas sexuais e o êxito ou não êxito académico das denunciantes. Não é possível aferir tal nexo de forma lógica se não existirem exemplos de pessoas a quem, por exemplo, tenha sucedido êxito académico por terem aceite as referidas propostas, e não existe uma única denúncia desse tipo nestes relatos. De igual modo, seria pelo menos conveniente saber se todas as pessoas com probabilidade de serem apetecíveis para os fins de insinuação sexual da parte do professor ou de outros responsáveis do centro teriam tido insucesso académico por não terem correspondido aos avanços. Teríamos então um centro de investigação em que todas as pessoas de certa idade, disposição física e sexo teriam tido sucesso por esse motivo? E todas aquelas nas mesmas condições a quem tenham sido feitas propostas eróticas, implícitas ou explícitas, e as tivessem recusado, cairiam no percurso do insucesso? Uma investigação séria teria em conta todos esses factores e não se fiaria apenas na palavra de um pequeno grupo, pois a possibilidade de estarem simplesmente a descarregar a frustração do falhanço académico não é de descartar.

Aliás, a dimensão fisiológica, quase escatológica, com que algumas das denunciantes descrevem a sua situação não augura também nada de muito confiável. Ao descreverem as consequências da frequência do centro, docarem-se em “incontinência urinária“ e “tremores involuntários nas pernas“, “ataques de pânico e dores crónicas”, desenvolvimento de uma “doença autoimune”, pretendendo associá-los ao suposto assédio moral e/ou sexual que estariam a sofrer, pode ser visto como um insulto a centenas de alunos que têm exatamente os mesmos sintomas ou variantes de trauma físico desse tipo resultantes da mera pressão competitiva do meio. Não são muitos, comparativamente, e não são seguramente a maioria, mas existem. Não é de descartar, mais uma vez, a hipótese de todas estas pessoas estarem simplesmente a imaginar, de modo revanchista, ou a efabular, sob um estatuto de presa num cenário de caça, cenários de transação sexual onde eles não existiam, e estes sintomas serem simplesmente os sintomas do volume excessivo de trabalho e insegurança na posição laboral e académica que infelizmente subsiste no meio.

Efectivamente, toda esta conversa só aparentemente funciona — pelo menos, no registo do sensacionalismo — porque envolve sexo. Retirando o sexo da equação, teríamos um meio em que as chefias — os professores e diretores — têm preferências por alguns dos seus subordinados — os alunos e investigadores —, e menos preferências por outros, e tendem a simpatizar, beneficiar, tratar melhor, concordar com, apoiarem o trabalho de, aqueles por quem têm preferência. Ora isto é a descrição de praticamente todos os centros de investigação universitários no país e no mundo e não daí não releva nada de extraordinário, sendo que é no entanto perfeitamente possível no meio deste cenário duro encontrar exemplos de assédio moral verdadeiro e concreto, cabendo aos centros e às universidades saberem policiar esses abusos correctamente, estabelecendo um equilíbrio entre a dureza que a academia também de facto requer — ouvir críticas não pode ser interdito — com pesos e contrapesos em relação à tentação de professores e responsáveis serem umas bestas, um problema recorrente no ensino superior em Portugal e muito mais relevante e numeroso do que o assédio sexual, mas não tão popular porque não vende jornais.

Todo o movimento de denunciantes aqui exposto — e que se referem a si próprias, em registo muito gauchiste, como “um colectivo” — pode ter de facto razões naquilo que alega e terem de facto existido insinuações sexuais impróprias, mas nada disto configura, voltamos a afirmá-lo com toda a clareza pois estamos a falar do mundo das pessoas adultas e não da creche ou da pré-primária, necessariamente violação de regulamento interno e muito menos crime. Aliás, nem sequer se colocaria a questão criminal pois pelo que se sabe todos os prazos para apresentação de queixa em relação aos factos alegados já prescreveram.

Em conclusão, toda esta história não merece nem a atenção desbragada e sensacionalista que a comunicação social lhe dedica, pois é uma história de alegações muito ténues, entre episódios banais e nexos de causalidade não estabelecidos, mas que tem todo o romantismo do velho babado e das pobres donzelas indefesas, uma tipologia de narrativa que hoje não é assim tão comum na academia, cada vez mais dominada pela figura feminina, com todo o mérito; e não merece também, e muito menos, a elaboração de manifestos ridículos sobre o patriarcado, tresandando a teorias políticas de marxismo cultural da maior barateza, e que, como é vício não só dessas teorias mas do carácter das pessoas que as advogam, esquecem tanto a presunção de inocência como a autonomia e a liberdade da pessoa adulta presente naqueles que a infantilizam através da categoria do “oprimido”. Importa esclarecer que (1) entre pessoas adultas podem existir insinuações sexuais e cabe às instituições estabelecerem livremente e de pleno direito códigos de conduta quanto a isso ou não; (2) as pessoas adultas têm por vezes comportamentos desse tipo e cabe a outras pessoas adultas saberem como reagir, de preferência sem terem alguns dos sintomas completamente desbragados que foram relatados pelas denunciantes — não é admissível que uma pessoa adulta fique com tremores nas pernas e incontinência urinária por ter ouvido comentários de teor erótico; (3) é sempre preferível a denúncia interna e a resolução a nível de proximidade do que os chinfrins na comunicação social — a maioria dos quais, aliás, frequentemente escondem histórias mal contadas e alegações infundadas, o que pode ser perfeitamente aqui o caso, ou não.

Concluímos definitivamente pela reiteração daquela que é a nossa posição editorial em geral sobre esta matéria: não existe nenhum problema relevante de assédio sexual na academia portuguesa nem, provavelmente, na academia de qualquer parte do mundo ocidental. Existe, sim, um problema significativo de assédio moral da parte de professores universitários a alunos de todos os graus de ensino, na medida em que os primeiros se dão ao direito frequentemente de serem umas bestas, de terem critérios arbitrários tanto no trato como na avaliação dos estudantes ou subordinados, e de não existirem sistemas coerentes e fiáveis de fiscalização e de penalização desses eventuais excessos. Toda a energia dispendida no chiqueiro alarmista do assédio sexual devia ser gasta a falar destes problemas, estes sim, de recorrência diária e que toda a gente conhece. Como tanta coisa em Portugal e não só, deixamo-nos passar dias e meses e anos com problemas diários a que ninguém dá atenção para resolver porque dá muito trabalho e de repente excitamo-nos todos imenso com um fantasma qualquer. Não pode ser assim.

Sugestões de Leitura: Grandes Compêndios de História da Humanidade

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Partilhamos hoje vários auxiliares poderosíssimos para o conhecimento em praticamente todas as disciplinas do saber. Entre algumas obra de importância antropológica notável e outras também de acessibilidade ao leitor comum muitíssimo simpática, estes volumes relacionados com a história da civilização permitem colocar em perspetiva assunções que temos sobre valores universais, valores locais e culturais, e aprender não apenas a distingui-los mas a saber como são simbioticamente relacionados uns com os outros, em muitos casos ou todos.

Começamos pela monumental obra The Story of Civilization, do casal Will e Ariel Durant, escrito ao longo de quatro décadas (1935-1975). É um excelente volume antropológico, hoje algo datado em pormenores mas perfeitamente válido em quase todos os pontos e argumentos-chave que apresenta. Recomendamos em particular a sua versão em audiolivro, gravada ainda durante a década de setenta e disponível livremente no YouTube no seguinte link.

Continuamos com a muito recente edição do The Cambridge World Prehistory, de 2014, que coloca, segundo os editores, igual ênfase na arqueologia, no estudo da linguagem e na ciência genética para analisar a história antes da história, começando na raiz dos primeiros hominídeos, em África, e abordando as várias vagas de expansão dessas populações para a construção das primeiras culturas desenvolvidas e mais tarde civilizações.

Seguimos com o ainda mais recente The Oxford Illustrated History of the World, editado por Felipe Fernández-Armesto em 2021, conta com vários artigos de diversos autores dedicados a todos os períodos da espécie humana, desde o seu surgimento até às primeiras tecnologias, culminando na descrição histórica e antropológica do mundo de hoje.

De Fernand Braudel, um volume canónico nos anos sessenta europeus do passado século, A History of Civilizations, é escrito numa perspectiva anti-etnocêntrica e também mais focada na construção de uma narrativa macro-histórica e menos focada na mera descrição de eventos avulsos. Podem encontrá-la aqui, em livre acesso.

De David Graeber, uma espécie de historiador do capitalismo moderno, além de antropólogo de formação e anarquista de vocação política, temos The Dawn of Everything, de 2021, uma visão das culturas e civilizações de tendência anti-centralista, focada em comunidades descentralizadas.

Por último, literatura infantil e/ou para adolescentes: os volumes The Story of Civilization, compilados por Philip Campbell, dá uma perspectiva geral sobre as primeiras culturas e civilizações de relevo conjuntamente com uma série de pequenos detalhes e curiosidades de interesse para cativar a atenção dos mais jovens. Eis assim as nossas sugestões nesta matéria.

Crítica: A Ressaca (Todd Phillips, 2009)

O primeiro filme desta hoje bem conhecida e muito bem humorada trilogia nasce da indústria de Hollywood e é praticamente o único que merece comentário mais dedicado, já que os outros são decalques baratos da magnífica fórmula que lhe dá mote. A Ressaca, realizado por um cineasta ainda em início de carreira e estrelado por uma série de actores com interesses em projectos ecléticos e exóticos, em particular na comédia, parte da premissa simples de um grupo de amigos que festejam determinado acontecimento e que, tendo ingerido uma série de substâncias alcoólicas e de outros tipos, acordam no dia seguinte no seu quarto de hotel perante uma série de estados de coisas invulgares, sem em nada se lembrarem de como esses estados de coisas vieram a ter lugar.

Alguns destes incluem: um tigre na casa de banho, um bebé no frigorífico, um chinês nu no porta-bagagens, e um desses quatro amigos totalmente desaparecido. A quase totalidade do enredo do filme, assim, passa-se com os três amigos a tentarem desvendar, através de pistas e da reconstrução lógica dos acontecimentos, o que se terá passado na noite anterior.

Assim, as personagens encontram aspectos da realidade que têm alguma relação com eles, mas não reconhecem nada dessa relação. É semelhante esta situação a, por exemplo, situações de amnésia ou de esquecimento devido a ausência prolongada. Mas, mais relevantemente, é semelhante à situação de quando se nasce, se vem ao mundo pela primeira vez.

Existem, porém, algumas diferenças. Quando se nasce constrói-se exclusivamente a partir do a priori, de uma série de disposições que nos são fornecidas à partida, supostamente, sendo a partir desse momento que acumulamos um novo elemento na nossa formação: a experiência empírica. Mas aqui, na ressaca, constrói-se a partir de algo que foi destruído, e toda a gente — protagonistas desta película e espectadores em geral — sabe disso claramente. Não é como se se fingisse ou se soubesse que não havia nada antes: sabe-se. Difere, assim, de um estado neutro a que o estado de tabula rasa do nascimento talvez se assemelhe.

E talvez assim a ressaca se aproxime (analiticamente? Alegoricamente? Ou o quê?) do que acontece — talvez se aproxime objectivamente de se saber de um anterior, seja em forma de a priori ou em forma de anterior temporal e empírico, saber-se que o modelo da percepção em que hoje operamos, com o auxílio essencial da progressão do tempo, tem de envolver contraditoriamente uma negação do início. O filme sugere que a percepção não pode ter início: tem de ter existido sempre. 

Este é o estado em que existimos na nossa concepção de nós próprios ao nível da filosofia do ser em si, a ontologia. Parece assim dependente de uma concepção de eterno. Não se compreende que tenha tido um início. Semelhante à concepção de universo aristotélico, diga-se — que curiosamente tinha mais o homem no centro. Só mais tarde emergiu a abstração do monoteísmo e do homem-anterior-ao-homem, o divino. E justamente. Porém, é – conforme as grandes formas de arte – mais difícil de digerir, de processar, de ter naturalizada. No entanto hoje todos nós, com a cruz às costas, sabemos bem fazê-lo.

É assim mais fácil, na nossa pele actual, ou seja, é um facilitismo, regularmos a nossa disposição mental (aquilo que estamos dispostos a aceitar) conforme um quadro em que exista um antes, mesmo de um antes de poder existir antes. Ou seja, a nossa capacidade de digestão é dependente da nossa noção instintiva de um eterno. Tal é natural: só uma abstração monumental pode levar à concepção de nós mesmos não existirmos de todo (abstracção obviamente ligada à ideia de existir tempo), e só outra abstracção de quase igual monta pode levar à ideia de não existirmos antes (logo favorecendo a substituição por um divino). É aqui que nos encontramos quando chegamos à ressaca: o ponto em que surge uma terceira abstração, muito coincidente com as coisas tal como elas são: a ideia de se ter acabado de nascer – essa é a sensação – mas ao mesmo tempo ter clara percepção de que havia um antes e de que há pistas na realidade presente que levam a um antes.

O que sucede na ressaca é assim uma história de detectives, semelhante à exegese de geneologias: perceber o que existiu antes – seja “o início” ex nihilo ou, neste caso, ex narcótico. É um mundo anti tabula rasa. A favor de universo sem princípio, coisas sempre existentes. Esta é a teoria ontológica que o filme sugere.

A Liberdade da Caricatura: uma Galeria

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A indignação algo performativa de uma jornalista brasileira a trabalhar em Portugal, Amanda Lima, figura pública conhecida por comentar política e sociedade no canal de televisão CNN Portugal, aquando de ser caricaturada numa representação visual suficientemente inocente nas redes sociais, levou-nos a elencar esta magnífica e celebrativa galeria de caricaturas, políticas e não só. Para grande surpresa, não só a própria manifestou intenção de “provar que estão errados” e “punir” quem publicou tal caricatura, como também manifestaram a mesma intenção outros seus acólitos, colegas de profissão e cultores da censura conveniente em geral, apesar de serem na maioria dos casos pessoas ligadas à esquerda política, a mesma que repudiava a política política do antigo regime e o sistema do lápis azul, um estado de coisas que tolhia a livre expressão de cidadãos de todos os tipos a nível artístico, político e genericamente a nível social. Queremos assim lembrar o seguinte:

Mas que figura pública é que “vomita” por ver uma caricatura sua, em tom de fábula, o artifício mais comum nessa tradição?

Em Portugal, a liberdade de fazer caricatura política e social encontra-se amplamente protegida pelo artigo 37.º da Constituição da República Portuguesa, que garante a todos o direito de exprimir e divulgar livremente o pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, sem impedimentos nem discriminações, integrando-se na categoria geral da liberdade de expressão e de informação. A proteção abrange a sátira, o humor e a caricatura como formas de crítica social e política, com um âmbito reforçado quando se trata de figuras públicas ou assuntos de interesse geral, conforme jurisprudência do Tribunal Constitucional e do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (que reconhece o exagero e a distorção inerentes à sátira). 

Retratar uma jornalista figura pública com cara de porco enquadra-se tipicamente na liberdade caricaturística normal: a sátira e a caricatura política ou social recorrem, por natureza, ao exagero, à distorção e a metáforas animais para criticar comportamentos públicos, especialmente de quem exerce funções de relevância social ou informativa, sem que tal constitua, só por si, difamação ou injúria. Trata-se de um meio clássico de expressão crítica que beneficia de uma margem de apreciação alargada, desde que inserido em contexto de debate de interesse geral e não se reduza a ofensa gratuita ou gratuita à dignidade pessoal, conforme o princípio da proporcionalidade (art. 18.º CRP) e a menor intensidade da tutela da honra de figuras públicas. 

Esta proteção é fundamentada, designadamente, na jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem no caso Telo de Abreu v. Portugal (n.º 42713/15, acórdão de 7 de junho de 2022), em que o TEDH condenou Portugal por violação do artigo 10.º da CEDH ao manter a condenação de um blogger por caricaturas que retratavam figuras políticas locais como animais (incluindo uma assessora municipal como “porca” com traços caricaturais), afirmando que a sátira, pelo seu carácter exagerado e provocatório, merece especial tutela na esfera pública; no plano interno, alinha-se com acórdãos do Tribunal da Relação do Porto (ex. proc. 334/08.6GAVNF.P1 e 60/09.9TCFUN.L1.S1 do STJ) e do Tribunal Constitucional, que reiteram a ampla protecção da caricatura e do humor político como formas essenciais da liberdade de expressão (art. 37.º CRP), desde que não ultrapassem os limites da veracidade substancial e da proporcionalidade.

Ainda, no caso Vereinigung Bildender Künstler v. Áustria (TEDH, 2007), o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem considerou violado o artigo 10.º da CEDH quando tribunais austríacos proibiram a exposição de uma pintura satírica que retratava um político regional nu e em posição sexual com um animal, afirmando que a sátira artística, pelo seu carácter exagerado e provocatório no debate público, merece proteção reforçada, não podendo ser censurada apenas por ofender a honra, desde que contribua para o pluralismo democrático; e no caso Alves da Silva v. Portugal (TEDH, 2009), o TEDH protegeu um artista que, em ambiente de carnaval, exibiu um boneco satírico de um autarca com mensagens que o associavam a corrupção, considerando que o contexto festivo e o carácter humorístico da manifestação impediam que fosse vista como uma ofensa grave à reputação, reforçando a ampla margem de tutela da sátira política em Portugal quando inserida em crítica de interesse geral. Estes acórdãos, tal como o Telo de Abreu v. Portugal, sublinham que a caricatura e a sátira beneficiam de proteção especial na Europa, com limites apenas quando ultrapassam a proporcionalidade ou perdem o nexo com o debate público.

Curiosamente, têm sido os tribunais europeus a ditarem a bitola pela qual Portugal se rege nestas matérias de liberdade de expressão quanto à caricatura de figuras públicas: em linha com a jurisprudência do TEDH (que Portugal deve respeitar), os tribunais nacionais têm vindo a aplicar uma ponderação mais favorável à liberdade de caricatura quando esta contribui para o pluralismo democrático, não se limitando a uma ofensa pessoal sem nexo com o interesse geral. Não é uma regra automática — depende sempre do caso concreto —, mas demonstra que a absolvição ocorre quando a sátira se mantém dentro dos limites da proporcionalidade. O que é, claramente, aqui o caso nesta jornalista em concreto, e em todos os outros acima enunciados. Viva a caricatura!

O manifesto de um sonho azul

Pedro Costa / Clean Feed

Fotografia NUNO FERREIRA SANTOS

O espelho e os sonhos são coisas semelhantes,
é como a imagem do homem diante de si próprio.
José Saramago 

Quando a realidade apresenta uma falha, o sonho entra em ação e corrige o trânsito do infinito no finito, como diria Deleuze. Porém, não importa o dia em que a falha foi identificada, mas o da sua correção. Mais do que isso: importa conhecer o homem que sonhou a realidade que faltava, como lembra o paratexto de Saramago, escritor a quem é consagrada, aliás, a segunda música do primeiro álbum da editora Clean Feed. Pedro Costa é esse homem: fundador da Clean Feed, curador de festivais de jazz, organizador de conferências, professor de música improvisada[1] e até, em tempos idos, chauffeur do Jazz Agosto[2].

O erigir deste sonho começou de forma subtil e fraternal. Pedro Costa e os seus dois irmãos, Nuno e Carlos, alugaram uma loja de um centro comercial falido, em Oeiras, com o apoio do pai. Em seguida, Rodrigo Amado, saxofonista de alta qualidade, que Pedro Costa conheceu na Loja da Música, compra a quota de Nuno. A editora passou a ter as suas instalações numa casa no Jardim de Oeiras, que tivera como vizinho no piso superior Hélder Moutinho, irmão de Camané. As movimentações oníricas começaram, assim, a materializar-se: Carlos saiu da editora e abriu-se a mítica loja, empresa e editora Trem Azul[3], no Cais do Sodré, com as presenças de Ilídio Nunes, Hernâni Faustino e Pedro Costa, cujo encerramento, em 2014, comportou tristeza e desamparo para o mundo do jazz e para Portugal. 

No dia 7 de março de 2001 fez-se a escritura, com o apoio do pai de Pedro Costa, e a editora foi criada. No entanto, Pedro Costa não deixa de frisar que a data de nascimento da Clean Feed aconteceu, justamente, no dia 16 de Março, com o concerto e a gravação inaugurais promovidos pela editora, com as presenças de Lou Grassi e Steve Swell, dois músicos com quem Pedro Costa houvera assumido o seu primeiro compromisso editorial em Nova Iorque. Neste arco temporal de nove dias, o sonho conhece as primeiras tribulações que o fortalecem, a saber: Pedro Costa desafia Hernâni Faustino para criar uma editora e apostar na distribuição de discos. Decidem enviar uma proposta para a Dargil, mas o silêncio imperou. Seguem-se novos desvios: Pedro Costa que, à altura, trabalhava na Valentim de Carvalho, propõe abrir uma label de jazz dentro da Valentim, garantindo a distribuição a partir de Paço de Arcos. Não houve interesse. Paulo Gil entra a bordo da aventura do sonho, mas esta possibilidade também não vinga. O resistente do sonho tem um nome: Pedro Costa, admitindo desconhecer os processos orgânicos inerentes a gravações, microfones, misturas e masterizações e sem saber ler nem escrever música, torna-se o responsável pela editora portuguesa de maior saliência para o jazz contemporâneo mundial. No entanto, o sonho de Pedro Costa contou com dois companheiros: Hernâni, que ficou encarregue da Trem Azul, e Ilídio, responsável pela divulgação editorial.

Foi, então, lançado o primeiro gesto sonoro deste sonho azul: “The Implicate Order – At Seixal”, com Steve Swell, Ken Filiano, Lou Grassi, Rodrigo Amado e Paulo Curado. A Clean Feed, «um termo usado em vídeo que significa alimentar um sinal puro», cumpre o intento explícito do seu nome: não se trata de trabalhar em produção ou pós-produção, sequer de ter ideias para criar um diálogo entre instrumentos, mas oferecer «um sinal puro», isto é, «música a vir dos músicos para os ouvintes», esclarece Pedro Costa em entrevista a Hugo Pinto, datada de dezembro de 2023.

Este movimento de resistência encontra-se fixado no mote editorial que Pedro Costa não deixa de reiterar: «wrong but strong». Quem disse que o erro não é o maior aliado da força e parente íntimo do Sonho? O erro, a força e o sonho enrobustecem-se, sob um contexto de crise: a Clean Feed começa a instalar-se num mercado sui generis, ou seja, quando a venda de discos cai a pique e a Valentim e a Virgin já tinham fechado portas.

A verdade é que, mesmo desconhecendo os meandros técnicos e logísticos do mundo editorial, Pedro Costa, desde muito cedo, e por influência do irmão mais velho, começou a revelar interesse por editoras, estúdios de gravação, datas, produtores e instrumentos[4] aos oito anos. Por volta dos doze ou treze anos, é invadido pelo desejo de ter uma editora, isso mesmo afirmou a Hugo Pinto em entrevista. Aos quinze anos começa a ouvir jazz[5] e o sonho enraíza-se, mas oiçam-se as palavras do editor, numa entrevista imperdível de Gonçalo Falcão, em março de 2021, a propósito da efeméride dos vinte anos da editora, com a chancela da jazz.pt:

«Tenho essa coisa de querer conhecer toda a informação do disco, de contextualizar e conectar aquilo com outras coisas, de perceber de onde é que vem, porque é que foi gravado naquele estúdio, naquela altura, os gajos que estavam lá, o que eles tinham feito antes e o que é que fizeram a seguir. Tenho essa curiosidade que me faz falta para conseguir arrumar cá dentro, no meu disco rígido, a informação. Sempre gostei desse lado prático da música. Sem ser só a música, mas também como é que se organiza tudo à volta da música para que ela aconteça.»

O fermento onírico já há muito que habitava o espírito de Pedro Costa e, em 2000, numa viagem a Nova Iorque[6] com Carlos e mais dois amigos, decide começar a espalhar a boa nova de fundar uma editora internacional e estabelecer os primeiros contactos com músicos. O itinerário da viagem contemplava três a quatro concertos diários. Nesta atmosfera fervilhante, Pedro Costa conhece Lou Grassi e Roswell Rudd, que viriam à Europa tocar no ano seguinte, Wilber Morris, Steve Swell, Mark Whitecage, entre outros. As estrelas azuis alinharam-se: houve concertos no Hot Clube e no Seixal, com gravação e, passados dez anos de vida, a Clean Feed atinge o ano doirado das edições: 2011, com 60 discos editados.

O primeiro músico português a ser editado foi Mário Delgado (guitarra), com o “Filactera” [CF004CD], que conta com as colaborações de Carlos Barretto (contrabaixo), Alexandre Frazão (bateria), Andrzej Olejniczak (saxofone) e Claus Nymark (trombone), «uma lança em África», como admitiu o editor em entrevista supramencionada de Falcão. Seguiu-se Bernardo Sassetti – com quem Pedro Costa manteve uma bonita relação de amizade desde os seus dezoito anos – na companhia de Carlos Barretto e Alexandre Frazão, com o álbum “Nocturno” [CF008CD], com data de gravação de 3 a 8 de julho de 2002. O álbum de Sassetti teve muita projeção e uma excelente receção, graças ao trabalho diligente de Ilídio na divulgação, tendo vendido umas 10 mil cópias, admite Pedro Costa em entrevista de Rui Miguel Abreu, datada de março de 2021, sob a égide celebrativa das duas décadas de existência da editora.

No entanto, o álbum da editora que quebrou as fronteiras foi “Devil’s Paradise” [CF010CD], datado de 2003, de Gerry Hemingway (bateria), com Ellery Eskelin (saxofone), Mark Dresser (contrabaixo) e Ray Anderson (trombone), com liner notes de Bill Shoemaker, pintura de capa da autoria de Manuel Amado, design de Rui Garrido e fotografia de grupo de Alan R. Chandler. O sonho atingiu a imprensa internacional, as encomendas começaram a pulular e a editora deixa uma marca indelével no mappa mundi do jazz contemporâneo.

O catálogo da Clean Feed, que conta com as edições da Shhpuma, uma editora satélite de feição mais experimental, a “Guitar Series” e os álbuns Trem Azul, ultrapassa as 700 edições. É este “efeito cauda longa”, grafado pelo colaborador conceptual, Ilídio, que permite a realização anual de campanhas de fundo de catálogo. Todavia, Pedro Costa admite que, em Portugal, não se vende nada, sendo muito irregular a aposta de grandes distribuidoras, como por exemplo a FNAC, na oferta das edições da Clean Feed, lamenta o editor, que tem uma visão muito lúcida sobre o estado da arte em Portugal, senão leia-se:

«Quando vem no telejornal em rodapé, “cultura” ou “artes” e depois aparecem os Delfins ou os festivais pagos pelas multinacionais percebemos que ainda há muito a esclarecer. Este país não pode ser só festivais de Verão ou fadistas para os turistas. Há que perceber que uma coisa é o teatro de revista e outra é o teatro. O teatro de revista não é uma coisa nova, não tem intervenção, não marca uma época, não tem profundidade. Em todas as áreas há os gajos da chacha, e muitas vezes são esses os que aparecem nos media como “cultura”. Não é que os chachas sejam maus-mesmo-maus, mas não são nada. Esses organismos públicos e essas instituições também têm de desenvolver uma perceção mais clara desta distinção. Não vamos dar às pessoas só o que elas querem, o que elas já conhecem. Não podemos estar sempre a apresentar António Zambujo só porque é o que elas querem. A obrigação é a de estar sempre a puxar um bocadinho. E aí, nós somos completamente ignorados; não existe qualquer tipo de apoio ou sequer interesse. Já ouvi dizer que há uma malta da política a dar o exemplo da Clean Feed como uma coisa bem-sucedida. Acho que isso já ocorreu na Assembleia da República. Alguém da oposição referiu a ausência de edição em Portugal e alguém do governo deu o exemplo da Clean Feed, como uma editora de nível mundial, um bom exemplo. Mas a verdade é que nunca houve nenhum carinho connosco. É que eu não estou a falar de dinheiro quando falo de apoio: que dêem alguma atenção, que tenham interesse no nosso trabalho, que percebam em que é que nos podemos ajudar mutuamente. […] As Câmaras Municipais de Cascais, Oeiras e Lisboa não deviam mostrar interesse? Entregar-nos um espaço para trabalharmos? Lá está, algo que demonstrasse o seu interesse. Porque é óbvio que nós devíamos ter um espaço para fazer programação.» (Falcão, 2021)

As edições da Clean Feed, que englobam discos coreanos, chineses, colombianos, chilenos, franceses, noruegueses, entre outros, são altamente ecléticas e, ante esta diversidade de abordagens artísticas, Pedro Costa considera ser difícil classificar ou arrumar a linha editorial, afirmando, em entrevista a Rui Miguel Abreu, que a Clean Feed não é nem uma editora experimental nem uma editora de free jazz, mas uma editora não mainstream «que tenta representar o jazz e a música improvisada de hoje em dia». Ainda na mesma entrevista, Pedro Costa admite que o ano mais difícil para a editora foi em 2005, antes da saída de Rodrigo Amado: as rendas do espaço eram altíssimas e não existia ninguém responsável pela organização, o que se traduziu numa dívida de 120 mil euros. Porém, a entrada de Madalena Borges provocou uma viragem de cenário: a faturação entrou em dia e as dívidas esvaíram-se graças ao exímio planeamento de Borges.

O trabalho inexcedível da editora, quer em relação à promoção de jovens músicos portugueses (e.g.: Gabriel Ferrandini, João Almeida, Bernardo Tinoco, Pedro Melo Alves, entre outros), quer em relação ao dinamismo projetivo dos músicos nacionais e internacionais[7] na cena mais atual do jazz (a título exemplar, lembre-se a edição de seis festivais em Nova Iorque, e outros na Alemanha, Eslovénia e Portugal, sem nenhum apoio institucional ou estatal), merece destaque longo, como o efeito que os salva.

Neste sentido, as primeiras gravações da editora aconteceram no Shangri‑Lá, em Campolide, espaço onde Pedro Costa conheceu Madalena Borges, que pertence à família editorial atual da Clean Feed, na companhia de Travassos e Ricardo Leiria. Atualmente, a editora opta por deixar a escolha dos estúdios aos artistas e músicos, elegendo dois estúdios em terras nacionais: o Namouche e o Tchatchatcha.

Note-se que, inicialmente, os auditores e os amantes de jazz olhavam com um certo grau de suspeição para a editora e Pedro Costa chega a afirmar em entrevista a Rui Miguel Abreu que até José Duarte lhe dissera preferir não encontrar no catálogo algumas edições e que, muito em breve, Costa teria que começar a editar «músicos que não gostas». Mas Pedro Costa não cede e luta pelo seu sonho. Prova disso mesmo é o catálogo da Clean Feed, que ostenta uma plêiade variada de músicos, cuja unidade se encontra no gosto editorial do editor, exposto nestes termos:

«Por exemplo: não vou editar um disco de um grupo que já tem não sei quantos discos parecidos e grava em outra editora; ou de alguém que tem muitos discos editados e que já disse aquilo muitas vezes. Tenho mais interesse em editar coisas que não estão tão ouvidas e têm mais necessidade de edição. Coisas que me surpreendem, que têm um condimento especial. Obviamente, não vou dizer que os 600 e tal discos que tenho editados são todos altamente revolucionários. Não é necessariamente isso. Mas… muitas vezes é a composição que é sofisticada, que tem ali uma coisa que me cativa. Muitas vezes é a improvisação, a relação entre os músicos, e não necessariamente porque se trata de virtuosos do saxofone ou do piano. O que me atrai é a relação que os músicos têm entre si, o que é que eles procuram, uma forma de apresentar a improvisação. É uma coisa que se sente. A improvisação é uma coisa que me cativa. Há muitos músicos a improvisar, não é? Mas há coisas que me tocam mais do que outras num contexto de improvisação total. Também não estou propriamente numa altura em que quero editar discos de improvisação “não-idiomática” dentro daquilo que estávamos a falar…» (Falcão, parte 2, 2021).

Acreditando e defendendo que existem «tantas músicas como improvisadores», o que interessa ao editor é fazer do processo criativo o momento heurístico por excelência e, por isso, cada disco editado é visto pelo editor como uma nova abordagem, uma descoberta do artista ou uma inquietação que o leva a encontrar respostas distintas, outros efeitos e/ou outras formas, por outras palavras, «é preciso mudar outra vez, é preciso questionar outra vez, procurar novamente», afirma Costa a Falcão. Aliás, e para reforçar este aspeto do seu temperamento, Pedro Costa esclarece, em entrevista de 2021 à Lusa, que este seu gesto se prende com o interesse em que a editora se torne «uma coisa distinta» e, dado ser impossível ter sempre música nova, o que importa é que as edições espelhem «músicos autênticos».

Note-se que esta procura incessante pela distinção atravessa o design editorial da Clean Feed. A apresentação de capas de álbuns o mais diversificadas possível, sem nenhum modelo que as encarcere num fundo homogéneo e previsível. A este respeito, convém acrescentar que o primeiro designer da editora foi Rui Garrido, tarefa assumida posteriormente por Travassos. Porém, Pedro Costa admite, na segunda parte da entrevista a Falcão, que as capas do Rui «são porreiras, mas iguais a outras», apostando nas fotografias e no lettering, mas «os primeiros discos do Travassos, são outra coisa», pois a identidade da editora escusa-se a uma fórmula, arrisca e distingue-se por assumir o risco em várias frentes.

Em 2008, a Clean Feed atingiu o reconhecimento, há muito merecido, pela revista All About Jazz, tendo sido reconhecida como uma das cinco melhores editoras de jazz e três das suas edições foram nomeadas para álbuns do ano pela mesma revista, preservando a linha inovadora com que surgiu na cena jazzística. Fruto da qualidade das suas edições, em 2009, a Clean Feed foi considerada um case study.

Em 2011, a Clean Feed foi convidada por John Zorn para comissariar quinze dias de concertos no The Stone, em Nova Iorque, tal como afirmado por Nuno Catarino no site Bodyspace, espaço virtual que se juntou à celebração dos dez anos de existência da editora, com um belíssimo bolo de aniversário a dar conta dos discos mais relevantes do seu catálogo, sob a lente sonora de alguns amantes do jazz. Mas oiça-se o registo, em primeira pessoa, da experiência para a programação no The Stone:

«Quando recebi o email do Zorn achei que era a gozar. Era um John Zorn ultra simpático a convidar-me para fazer coisas e programar 15 dias em julho. Assim, preparei 28 concertos, dois por dia, durante 14 dias. Um inferno de calor.… o ar condicionado avariado. Em Nova Iorque quando está calor é a sério; passava os dias a suar, chegava à noite, aos concertos, a escorrer água. Foram lá os Fight the Big Bull num concerto lindo em que acabaram a cantar uma música de The Band, sem instrumentos. Foi um final incrível. Levei John Hébert em octeto com Fred Hersch a tocarem música do Mingus. Estava “à pinha” (olha, o Mingus é outro de que apetece ter tudo, e se não tenho tudo… tenho quase tudo).» (Falcão, 2021)

Do vastíssimo catálogo da editora, saliento apenas alguns discos, que se tornaram distintivos, quer para o editor, quer para os auditores, a saber: “Reed Song” [CF005CD] de Will Holshouser Trio, saído em 2002, espécie de «mise-en-scène» dual e emotiva, segundo a apreciação de Rafael Santos; Interface” [CF022CD] de Steve Lehman Camouflage Trio, um disco gravado em 2003 no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, e lançado em 2004, que conta com Mark Dresser (contrabaixo), Pheeroan Aklaff (bateria) e Steve Lehman (saxofone e composição), e apresenta design e design concept de Rui Garrido; “Beautiful Existence” [CF050CD] de Joe Morris Quartet, gravado em 2004, em Brooklyn, Nova Iorque, lançado em 2005, com design  de Rui Garrido, fotografia de capa de A. Mateur, liner notes de Tad Hendrickson; “Live In Lisbon” [CF063CD], marca sonora de Otomo Yoshihide’s New Jazz Quintet, saído a lume em 2006, com design de Rui Garrido e que, segundo Nuno Catarino, apresenta o registo de um concerto inesquecível, que aconteceu no auditório ao ar livre da Gulbenkian, um momento sonoro intenso que fez parte da programação do Jazz em Agosto de 2004; “Tamarindo” de Tony Malaby[8] (saxofone e composição), com William Parker (contrabaixo) e Nasheet Waits (bateria), álbum lançado em 2007, que conta com design de Rui Garrido e liner notes de Mark Helias; “4 Corners”, que conta com a composição de Adam Lane (contrabaixo) e de Ken Vandermark (saxofone e clarinete), Magnus Broo (trompete) e Paal Nilssen-Love (bateria), é um álbum gravado ao vivo em junho de 2006 no Salão Brazil em Coimbra, segundo nota de Nuno Leal, que foi editado em 2007, com design de Rui Garrido e notas de Rui Eduardo Paes; “Four Improvisations (Duo) 2007” [CF100CD], que conta com Anthony Braxton (saxofone) e Joe Morris (guitarra), é um disco quádruplo saído em 2008, mas gravado em julho de 2007 no Crowell Auditorium da Wesleyan University, com design de Rui Garrido e liner notes de Mike Chamberlain; “Guewel” [CF123CD], de Harris Eisenstadt, foi gravado em abril de 2008 nos Magma Studios, em Brooklyn, tendo saído nesse mesmo ano, com design de Travassos e fotografia de grupo da autoria de Scott Friedlander; “Life Between” [CF128CD] da pianista e compositora Angelica Sanchez foi um dos álbuns nomeados para melhor álbum do ano e foi gravado no Systems Two Studios, em Brooklyn, em 2007, e lançado no ano seguinte, com design de Rui Garrido e liner notes de Mark Dresser; “All Is Gladness in the Kingdom” [CF169CD], de Fight The Big Bull (feat. Steven Bernstein), álbum saído em 2010, que oferece «uma música para ouvir alto», «como se estivesses a ouvir Bartók, Frank Zappa, jazz de New Orleans, Duke Ellington…», esclarece Pedro Costa na primeira parte da entrevista a Falcão; “Deluxe” [CF174CD] de Chris Lightcap (contrabaixo e composição), gravado em outubro de 2008 em Brooklyn e editado em 2010, o álbum conta com Andrew D’Angelo (saxofone), Gerald Cleaver (bateria) e Craig Taborn (piano elétrico), com design de Travassos; “Motion” [CF177CD] de Bernardo Sassetti Trio[9], álbum gravado, misturado e masterizado na Valentim de Carvalhos Studios, que saiu em 2010 e conta com os músicos Carlos Barretto (contrabaixo) e Alexandre Frazão (bateria) e design de Travassos; “I Never Meta Guitar” [CFG005-009CD] é uma complicação que abarca diferentes colaborações, cujo acme se dá com “Study For Hairpin And Hatbox”, de Nels Cline, segundo Paulo Cecílio; “Insomnia” [CF215CD] de Tim Berne, álbum gravado no Flux Studios em 1997 e editado em 2011, conta com Erik Friedlander e Dominique Pifarély (violino), Chris Speed (clarinete), Michael Formanek (contrabaixo), Jim Black (bateria), Baikida Carroll (trompete) e Marc Ducret (guitarra de 12 cordas); “You Taste Like a Song” [CF216CD] de Júlio Resende Trio, álbum editado em 2011, que resgata o legado de Monk e outros mestres, segundo Hugo Rocha Pereira, e apresenta design de Travassos e fotografia de Sara Vieira; “Old and Unwise” [CF221CD] de Bruno Chevillon e Tim Berne[10], gravado em junho de 2010 no Namouche Studios e saído em 2011; “Injuries” de Angles 9[11], álbum de jazz avant-garde editado em 2014, com design de Travassos; “O Carro de Fogo” [CF522LP] de Sei Miguel[12], álbum gravado ao vivo em abril de 2018 no Namouche Studios e saído em 2019, também com design de Travassos, entre muitos outros álbuns, que distinguem a editora. Os desejos de novas edições continuam a habitar o espírito insaciável do editor, que confessa gostar da ideia de gravar outra vez Steve Lehman, Ken Vandermark, Mats Gustafson, mas nunca Jamie Cullum ou Norah Jones, depois da questão provocatória de Hugo Pinto.

Em 2023, aconteceu o festival Causa Efeito na Universidade Nova, um desafio lançado à Clean Feed, que incluiu concertos e palestras. A 28 de março de 2024, a jazz.pt dá conta do anúncio de mais um pacote de novas edições da Clean Feed, com TGB, Liba Villavecchia Trio + Luís Vicente, Rob Mazurek, “Meandering Demons” de Peter Van Huffel’s Callisto, um novo registo de CAVEIRA pela Shhpuma e, dando novo impulso ao sonho, no dia 26 de abril, a jazz.pt fixa um novo anúncio da editora, datado de 25 de abril, que contempla material discográfico da autoria de Miha Gantar, Simon Nabatov Quintet e “Te Ti​’​amā” de Christelle Séry e Jérôme Descamps.

Pedro Costa, um «menino da linha», como confirma em entrevista, e que se tornou um editor do mundo, não deixa, ainda assim, de ser invadido por um desejo bucólico de passar a vida na Malarranha – município de Mora, distrito de Évora, bem junto ao de Portalegre – afirmando que é um sonho trabalhar naquele espaço: de um lado, o computador a rivalizar com a piscina e os passeios rurais; do outro, ovelhas, burros, vacas e galinhas com nomes próprios, isto mesmo descreve o editor em entrevista a Hugo Pinto.

Em suma, o sonho, sendo fruto de um homem, não deixa de ser pertença da Humanidade. Mas há que alimentar o sonho e não o deixar morrer à míngua. Para isso não será necessário um banquete de Lúculo, basta um espaço de programação, um clube, uma sala, como sustenta Pedro Costa[13]. É preciso que os “homens” reconheçam e alimentem o sonho de um homem, que se torna, afinal, o sonho do Homem.

[1] Sobre a experiência de docência de Pedro Costa, oiça-se o que diz o editor a Hugo Pinto: «É muito giro. É algo que faço desde 2021. Agora vou com o Hernâni Faustino e o Pedro Sousa. Na primeira parte eu falo sobre a história do jazz, mostro uns vídeos, desde o princípio das canções do trabalho, o blues e por aí fora, o jazz propriamente dito, as várias correntes… E na segunda parte, os músicos vêm, eu distribuo os instrumentos da escola pelos alunos porque eles só tocam flauta nas aulas. No princípio todos traziam as flautas, mas agora já não trazem e utilizamos xilofones, metafones, caixas chinesas, pandeiretas, tamborins e eu dirijo a orquestra a tocar todos esses instrumentos e faço jogos com eles e os músicos improvisam por cima daquilo.»

[2] Leia-se o que diz Pedro Costa sobre a experiência de chauffeur, uma «experiência maravilhosa», que o permitiu conhecer vários músicos: «Sim, e adorei fazer isso. Ia buscar os músicos ao aeroporto, estive com Henry Threadgill, conheci-o, falámos de música.» (Falcão, parte 1, 2021) Um cidadão do mundo, Pedro Costa refere, ainda na mesma entrevista, quais os músicos que mais gostou de conhecer, assim: «Conhecer Charles Gayle… Estava eu, ele e o Hernâni num quarto de hotel no Chelsea, que era onde nós estávamos alojados. O quarto era só discos e malas, tudo ao molho. Estivemos lá horas a falar. O Charles ligava-me muitas vezes. Ou Tim Berne, que me liga e manda-me mensagens. Michael Formanek; é uma coisa de que me orgulho, de ter criado uma relação com ele que vai para lá da música. Tim Berne é um tipo com quem eu ia regularmente tomar o pequeno-almoço quando estava em Nova Iorque. Encontrávamo-nos num cafezinho. Ele morava em Brooklyn e eu ficava lá também numa casa.» E acrescenta, ainda: «O Vandermark. Adorei também conhecer James Blood Ulmer, Sam Rivers, Muhal Richard Abrams, Andrew Hill, estive várias ocasiões com eles. Quando estive a última vez com o Hill perguntei a John Hébert o que é que lhe podia levar. E ele disse-me que uma coisa que o Hill gosta muito é de bolo de chocolate. Então, em vez de comprar um bolo de chocolate, fiz eu, pela primeira vez, uns “muffins” de chocolate. O tipo ficou super agradecido. Era um gajo incrível. E David S. Ware, William Parker.» (Ibid.)

[3] Sobre a atmosfera vibrátil da Trem Azul, um espaço de eleição para a criação e a improvisação, oiça-se o editor em entrevista: «Ele [Gabriel Ferrandini] tinha lá a bateria e era lá que ensaiava. Antes dele tivemos Els Vandeweyer, não sei se te lembras. Era uma vibrafonista que conheci na noite em que ela chegou a Lisboa atrás do namorado. Vinha para passar 15 dias com o namorado, mas este já tinha outra. Conheci-a nessa noite em que ela estava completamente desorientada, não conhecia ninguém em Portugal, não tinha onde ficar e ajudámo-la. Falámos com o pai dela, ele mandou o vibrafone da Bélgica numa caixa feita de madeira por ele e ela ficou a trabalhar lá na sala de ensaios. Foi ela a primeira a aproveitá-la, ensaiando lá todos os dias. E começou a aparecer pessoal para tocar com ela. Na altura lembro-me de Alípio Carvalho Neto… Ela tinha vindo por 15 dias e acabou por ficar seis meses. Depois apareceram o Gabriel e o Pedro Sousa. Muito miúdos, tinham 18 ou 19 anos. Foi giro, ouviam música connosco, traziam pessoal para praticar com eles. Eu estava no escritório e começava a ouvir uma saxofonada. Abria a porta devagarinho e estava o Sousa, o Gabriel e outros músicos a ensaiar. Foi giro, porque apareceu gente de muitas latitudes diferentes. Desde DJ Ride a Sam The Kid, Norberto Lobo, Felipe Felizardo; muita malta que apareceu lá para coisas diferentes. Foi muito boa, essa mistura. Os gajos do jazz propriamente dito é que nunca apareceram. Nós tínhamos lá uma bateria montada, um contrabaixo, um amplificador de contrabaixo e eu estava sempre a dizer ao pessoal para ir lá ensaiar, mas os gajos do jazz nunca iam.» (Falcão, parte 1, 2021) A Trem Azul, inaugurada em 2004, alegrou o espírito criativo nacional e internacional durante dez anos, porém, quando pintaram a Rua de cor de rosa, o azul não aguentou, admite Pedro Costa a Hugo Pinto.

[4] Na segunda parte da entrevista a Gonçalo Falcão, Pedro Costa admite que «embirra» com alguns instrumentos, como a bateria, o piano, a harmónica de Toots Thielemans e o acordeão de Richard Galliano, mas que se rende aos efeitos sonoros do contrabaixo solo, nestes termos: «Se pudesse escolher tocava contrabaixo: adoro! E adoro contrabaixo solo. Adoro os discos de Dave Holland a solo, de Barre Phillips, Mark Dresser, Miroslav Vitouš… o contrabaixo solo sempre me encantou. Normalmente, gosto imenso de instrumentos a solo. Adoro ouvir violoncelo, as suites de violoncelo do Bach… Houve uma altura em que cada disco que encontrava das suites, comprava. Ficava doido com os Caprichos de Paganini. O piano solo de Cecil Taylor.»

[5] Em entrevista a Hugo Pinto, Pedro Costa admite que os primeiros discos de jazz, emprestados pelo seu amigo Gonçalo Canelas, que o fascinaram foram “Rejoicing” de Pat Metheny, com Charlie Haden & Billy Higgins e “Blue” de Terje Rypdal. Porém, o primeiro disco que ouviu de jazz foi “Joe Jackson’s Jumpin’ Jive”, confessando ter gostado dos saxofones, dos trompetes e dos trombones e rematando, de forma comovente, ter estado «a vida inteira à espera de ouvir isto.»

[6] Sobre a viagem a Nova Iorque de “um puto de 30 anos”, e outras alegrias, leia-se ainda a entrevista de Gonçalo Frota, saída a lume no Público a 19 de Agosto de 2021.

[7] O trabalho de divulgação da música e dos músicos, encabeçado por Pedro Costa, tomou diferentes proporções: uma delas, tal como admitido pelo editor na primeira parte da entrevista a Falcão, foi a influência do editor na promoção e divulgação de Portugal, gesto que se traduziu numa procura por casa em Portugal por uma série de músicos internacionais (e.g.: Paal Nilssen‑Love, Julian Argüelles, Andy Sheppard, Peter Evans, Michael Formanek, entre outros) e outros tantos músicos com essa intenção (e.g.: John Hébert, Tim Berne, Tony Malaby, entre outros).

[8] Este primeiro disco de Malaby na Clean Feed foi feito em Nova Iorque, no Living Theatre. Sobre este processo editorial, Pedro Costa afirma que foi «espantoso», pois «parecia que estava na igreja.» (Falcão, parte 1, 2021)

[9] Sobre este último disco do trio para a editora, leia-se o que diz Pedro Costa em entrevista a Rui Miguel Abreu: «(…) é intemporal, maravilhoso, e também pesa eu ter estado envolvido nesse processo com ele, termos feito uma tournée antes do disco, fomos para estúdio, vivi a banda por dentro e a música realmente é maravilhosa. Esse é um disco muito importante.»

[10] Pedro Costa afirma em entrevista a Rui Miguel Abreu que Tim Berne é um dos seus músicos prediletos, desde miúdo, e editar «um disco dele era um sonho e concretizou-se.»

[11] Sobre este disco, esclarece o editor: «É um disco de estúdio, de composição, que acho que é ume exemplo de como é que uma orquestra pode funcionar de uma forma muito diferente, ou seja, o Martin Küchen compõe os temas e grava no saxofone em camadas — ele não escreve música — e grava coisas intricadas, mostra aos filhos, eles ajudam e o gajo leva aquilo para os outros músicos e fazem ensaios de nove horas até toda a gente decorar a música — e não existem partituras. E tu vais ouvir a música, e quando a música é tocada do coração, sem as partituras e sem aquela coisa de estar sempre a olhar para a pauta, eles conhecem a música por dentro, aquilo soa de uma maneira que pode não ser tudo afinadinho, que eu também tenho pouco interesse nisso, mas pela emoção. É uma música altamente emotiva e fantástica a forma como aquela banda de nove músicos toca aquela música. Os discos deles são todos discos que eu adoro mas o “Injuries” é a obra-prima deles.» (Abreu, 2023)

[12] Admirador da pessoa e do artista, veja-se o que diz Pedro Costa sobre Sei Miguel: «É um gajo que não tem compromissos com nada, só lhe interessa a música, não está cá a pensar se aquilo vai vender, se não vai, tem a visão dele muito concreta e não mexe uma palha em relação a isso. Eu admiro-o muito. Os discos do Sei Miguel, de modo geral, para mim, são outros marcos da editora.» (Abreu, 2023)

[13] Mas leia-se: «Tem sido um objetivo nos últimos três anos, mas ainda não aconteceu. […] Ou somos acarinhados por uma autarquia que veja nisto um interesse cultural para o município, ou então é difícil. Tem de ser uma coisa com alma, com bom som e isso não é fácil de conseguir», disse Pedro Costa, lamentando não ter obtido respostas a propostas enviadas às câmaras municipais de Oeiras e de Cascais.

O Mecanismo do Jet Lag

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. Efetivamente, não é possível dar corda à realidade, nem ela aceita pilhas. Como se isso não bastasse, revela-se imprecisa, pouco fiável e imprevisível, e na maioria das vezes, simplesmente não nos agrada. No entanto, rejeitá-la acarreta consequências indesejadas. O jet lag é um exemplo paradigmático dessa rejeição corporal da realidade. Vamos explorar a sua mecânica.

O jet lag representa uma bofetada da realidade externa na nossa realidade interna. Este choque entre realidades deriva dos “zeitgebers”, um termo alemão que significa “dadores de tempo” ou “sincronizadores”. Na biologia, um zeitgeber é qualquer estímulo externo que ajude a regular o ciclo circadiano de um organismo. O ciclo circadiano é um ritmo biológico interno de aproximadamente 24 horas que influencia funções fisiológicas como o sono e a alimentação. A luz solar, a temperatura ambiente, os ciclos de alimentação e as atividades sociais podem ser considerados zeitgebers. Estes são cruciais para a saúde e o bem-estar de muitas espécies, incluindo os humanos. Interrupções nos zeitgebers naturais, como a presença ou ausência de luz, podem resultar em distúrbios do sono e outros problemas de saúde.

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O QUE É O JET LAG

Willy Fog levou 80 dias a percorrer 65.000 km, enquanto hoje demoraríamos apenas 80 horas. O personagem de “A Volta ao Mundo em 80 Dias” certamente não sofreu de jet lag. As longas viagens que implicam atravessar múltiplos fusos horários em poucas horas resultam no que chamamos de “Síndrome da Mudança de Fuso Horário”, ou jet lag. Os fusos horários actuam como fronteiras; viajar dentro do mesmo fuso não causa alterações, mas ao atravessar vários, as nossas necessidades internas desalinham-se das externas. Nessa situação, o nosso corpo mantém o ritmo a que está habituado, não se ajustando de imediato à nova realidade externa. Felizmente, possui a capacidade de adaptação.

COMO PREVENIR O JET LAG

Existem estratégias para que triunfe na luta entre a realidade interna e externa. Uma delas é marcar um voo que chegue ao destino no início da noite, preferencialmente até às 22h. Após chegar, ajuste a sua rotina para acostumar o organismo às mudanças de fuso horário. A ideia é adaptar gradualmente os horários de sono, refeições e exposição solar. Inicie esta alteração antes mesmo de começar a viagem. Nos dias após a chegada, procure descansar o máximo possível. Durante o voo, é crucial beber bastante água, pois a desidratação pode agravar os sintomas do jet lag. Se viajar à noite, tente dormir durante o voo, mantendo os padrões normais de sono. Óculos de sol podem ajudar na adaptação aos novos padrões de luminosidade. É essencial adotar imediatamente o horário do destino, o que implica manter-se acordado até anoitecer e acordar ao amanhecer, ajustando-se ao novo ritmo em poucos dias. Prefira refeições ligeiras e evite cafeína após o meio-dia, se for sensível a ela.

https://youtu.be/zFzeKbtfY4U?si=uy-kLskA7JlcSYKb

O JET LAG DA MIMOSA PÚDICA

Mimosa pudica, que poderia parecer um nome afetuoso adequado à mais delicada das namoradas, é na realidade o nome científico de uma planta muito peculiar. Sensível ao toque, um estímulo numa das suas folhas provoca uma reação em cadeia nas folhas adjacentes. Quando tocada, a folha retrai-se, afetando as folhas próximas que também se fecham. Durante o dia, a planta abre todas as folhas e à noite recolhe-as. Este movimento segue o ritmo circadiano da planta, regulado pela exposição à luz, entre outros zeitgebers. Se viajássemos de Portugal para a Nova Zelândia com a nossa Mimosa pudica, tanto a planta como nós próprios sofreríamos de jet lag e, ao fim de alguns dias, ambos estaríamos adaptados ao novo ritmo.

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O OSCILADOR CIRCADIANO

O ritmo com que o Sol se apresenta diante dos nossos olhos todos os dias gera efeitos que perduram mesmo na sua ausência. Se os relógios possuem uma espiral que oscila, os seres humanos são regidos por um ritmo circadiano. Nesta analogia, o Sol funciona como uma espécie de corda que fornece energia à espiral, mantendo seu movimento oscilatório. Nosso ritmo circadiano opera como o oscilador de um relógio, impulsionando-nos a sentir sono à noite e a perder esse sono durante o dia. O mesmo se aplica às plantas; no caso da Mimosa pudica, é como se as folhas dormissem durante a noite e despertassem durante o dia. Todos nós seguimos os ritmos e as oscilações naturais do planeta. Talvez seja também por essa razão que os relógios de corda manual nos pareçam tão naturais. A corda da maioria dos relógios é projectada para durar pouco mais do que um dia. Assim como sentimos uma nova energia a cada manhã, também damos corda ao nosso relógio diariamente. Colocando um relógio num cronocomparador, percebemos que as alterações feitas no registo não se manifestam imediatamente; é necessário permitir que o ritmo do relógio se adapte às novas condições. Ao viajar através de vários fusos horários, estamos sujeitos a várias alterações e, tal como um relógio sendo ajustado num cronocomparador, também nós levamos algum tempo a ajustar o nosso ritmo interno. A esta demora na adaptação do ritmo circadiano, chamamos jet lag.

REALIDADE A CORDA

Afinal, a realidade possui uma espécie de corda que é a rotação do nosso planeta e, com ela, a exposição periódica ao Sol, às variações de temperatura, etc. Inicialmente, inventamos o tempo para medir este processo. Durante o período dos impérios romanos e otomanos, utilizou-se mesmo um sistema de medição do tempo que respeitava a quantidade de luz diária. A este sistema chamava-se horas temporais. Os relógios com horas temporais, como os japoneses Wado-Kai, possuem marcadores móveis. Estes marcadores, normalmente doze, aproximam-se e afastam-se ao longo do ano de forma a garantir sempre seis períodos de luz e seis de escuridão. As horas temporais são uma maneira bastante engenhosa de medir o ritmo natural do planeta. Contudo, apesar das variações nos períodos de claridade e escuridão, os seres humanos necessitam de períodos de repouso fixos. Talvez seja esta a razão pela qual o sistema de horas temporais foi eventualmente abandonado. O ritmo circadiano obedece a períodos fixos e não a períodos variáveis; essa é a nossa realidade imutável.

O Azulejo como reflexão histórica de Portugal

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A azulejaria é um daqueles tópicos que nos recorda a ubiquidade da cultura. É uma tradição decorativa tão bem integrada na cultura e na paisagem portuguesa, que só a notamos na sua ausência. O azulejo encontra-se presente nas nossas residências, ruas, espaços públicos, igrejas e monumentos históricos. É uma arte já com uma longa história na Península Ibérica e também no mundo. Originalmente introduzida pelos romanos com os seus mosaicos, retomada e reintroduzida pelos padrões geométricos infinitamente repetíveis da cultura islâmica, herdada e transmutada pelas culturas cristãs, a azulejaria em si é um ramo entre muitos no autêntico tronco que é a arte feita a partir de peças. Alguns dos ramos vizinhos da azulejaria, que é feita principalmente em peças de argila vidrada, são por exemplo os mosaicos e os vitrais. Em Portugal, as duas artes de peças que predominam são o azulejo e a calçada.

Neste pequeno apontamento, falarei um pouco do azulejo, de como este se enraizou na cultura portuguesa, evoluiu e como se mantém relevante ainda hoje.

A azulejaria portuguesa tem as suas origens na decoração mosaica muçulmana, cujo extenso uso de padrões geométricos repetíveis é uma das características que a azulejaria portuguesa ainda hoje retém. É com este tipo de azulejo que os cristãos das Astúrias se vão deparando, à medida que as praças muçulmanas vão sendo conquistadas, fomentando assim lentamente o gosto por esta arte. Surge deste modo a azulejaria, um aportuguesamento da palavra árabe al zuleycha, uma continuação da arte mosaica num novo contexto cultural. Partindo da tradição andaluza, as primeiras produções de azulejos portugueses iniciam-se a partir do século XV. Os primeiros exemplos correspondem à heráldica e a temáticas religiosas, refletindo o interesse inicial por parte da nobreza e da igreja.

Até ao século XVI, a esmagadora maioria dos azulejos era feita a partir do aquecimento de pós metálicos sobre uma placa de argila. Cada tipo de metal produzia uma cor diferente ao vidrar-se e solidificar-se a altas temperaturas.

É no século XVI que surge outro pilar formativo da azulejaria portuguesa: a técnica majólica italiana, que permitia a aplicação direta de tinta no azulejo em vez da utilização de pós ferrosos. A majólica não só facilitou drasticamente o fabrico de azulejos como possibilitou novas formas de expressão artística que ultrapassaram a lógica da arte por peças. A majólica também foi responsável pela integração de pintores profissionais na prática, um passo importante no amadurecimento da azulejaria, agora em diálogo com as técnicas de pintura e seus desenvolvimentos. Assim, a qualidade do traço e o detalhe das obras melhoram consideravelmente a partir de finais do século XVI, algo que contribuiu para a profissionalização e afirmação social do que era até essa altura ainda um nicho artístico.

No século XVII, as produções de arte plástica portuguesas já se distinguiam das restantes da Europa, tirando partido do uso de elementos exóticos asiáticos e africanos. De facto, reflexão do império ultramarino, o imaginário artístico português incluía com maior predominância e familiaridade de objetos, paisagens, flora e fauna africana e asiática, algo que se refletia também na azulejaria. Como exemplo temos o Convento de Jesus em Setúbal, onde se destaca um elefante a apoiar um palácio num painel de azulejos numa das paredes interiores da Igreja.

O último momento fundador da azulejaria portuguesa manifesta-se na influência do maneirismo da Flandres, movimento artístico precursor da pintura barroca. Acompanhando simultaneamente a majólica, o maneirismo tornou-se a expressão base da azulejaria portuguesa do século XVII. O gosto dos clientes continuava firmemente ligado à influência original, preferindo produções da Flandres em vez de produções locais. Em finais do século XVII, em reação ao monopólio holandês e aos novos gostos artísticos, as oficinas portuguesas alinharam-se com pintores de grande destaque, como António Pereira, Manuel dos Santos e António Oliveira Bernardes e filho. Estas figuras transferiram, com grande sucesso, a pintura barroca para o azulejo. Este Ciclo dos Mestres possibilitou um contínuo crescimento da indústria da azulejaria portuguesa, a abertura de novas oficinas e o melhoramento das técnicas.

O Ciclo dos Mestres corresponde à altura em que a azulejaria portuguesa se integrou por completo na matriz cultural portuguesa. A partir daqui, a história do azulejo passa a acompanhar a história de Portugal, não só artisticamente, mas também cultural e socialmente. Pela primeira vez, a azulejaria portuguesa segue os seus próprios caminhos, possuindo agora um vigor artístico próprio e tornando-se inclusivamente uma fonte de inspiração internacional. A partir do século XVIII, a azulejaria deixa de ser somente um nicho arquitetónico, adquirindo uma expressão cada vez mais pública e universal com o avanço do tempo.

Artisticamente, o barroco substitui o maneirismo como expressão dominante do azulejo. Caracterizado pelo detalhe exaustivo, pelo foco no realismo das figuras e pelo estilo grandioso, o barroco encontrou no azulejo uma nova dimensão de decoração, sendo uma alternativa eficaz à pintura decorativa, feita em placas de madeira. Emulando o bicromatismo da decoração barroca, o azulejo passa a ilustrar cenas bíblicas e hagiografias do cânone católico com o icónico azul sobre branco, complementando os tons brancos e dourados típicos da arquitetura barroca. De facto, a azulejaria é uma técnica decorativa intrinsecamente ligada à arquitetura, acompanhando assim muita da mesma evolução estética.

A azulejaria provou ser uma adição tecnológica perfeita ao barroco português. Uma especificidade deste era a filosofia aditiva da sua aplicação. De facto, devido à extensão do império português, era prática comum deixar espaços vazios nas obras arquitetónicas para quando posteriormente houvesse novos recursos e/ou oportunidade, adicionar elementos decorativos. Esta é uma característica comum a muitos edifícios administrativos e religiosos da época moderna, tanto em Portugal como nos domínios coloniais. A azulejaria encaixa-se perfeitamente neste contexto, sendo de fabrico e instalação relativamente fácil e flexível, devido à sua natureza modular, que simplifica consideravelmente a manutenção e modificação dos trabalhos.

O terramoto de 1755, apesar de levar à perda de muita da produção lisboeta feita até à data, foi uma oportunidade para o amadurecimento artístico e redefinição social do azulejo. Por um lado, abriu caminho ao movimento artístico do rocaille, ou rococó como é popularmente conhecido, na azulejaria. O rocaille como movimento artístico pode ser descrito como um amadurecimento das práticas do barroco, no sentido em que tenta responder aos problemas do barroco, mantendo ao mesmo tempo o seu espírito. Comparativamente ao barroco, a arte rocaille usa elementos decorativos mais diversos em menor quantidade, rejeita o bicromatismo em favor de um balanço de cores, o que o torna visualmente menos exaustivo e mais equilibrado. O roxo e o amarelo surgem para suplementar o branco e o azul. Por outro lado, o uso extensivo do azulejo na reconstrução de Lisboa solidificou a função pública deste. O azulejo propaga-se dos palácios e das igrejas para as ruas. Estas mudanças artísticas e arquitetónicas foram possíveis graças ao apoio direto da Coroa, mais precisamente do Marquês de Pombal. A partir da chamada Real Fábrica do Rato, em Lisboa, o rococó foi introduzido em Portugal, ficando conhecido como o azulejo pombalino.

Contudo, a estadia do rococó em Portugal foi breve. Devido à associação que este movimento artístico teve com o Marquês, a sua substituição foi inevitável em finais do século XVIII pelo neoclássico de D. Maria I. Usando a mesma Real Fábrica do Rato, a Coroa portuguesa começou a liderar os percursos artísticos da azulejaria portuguesa, uma reflexão do absolutismo iluminado que dominava o poder político do Portugal do século XVIII.

Durante o século XIX, século de continuidades, novidades e rupturas, onde velhas estruturas se moldam face à força do tempo, surgem novas capacidades tecnológicas e mudanças culturais que levam ao inevitável aparecimento de novos tipos de arte e gostos artísticos. O azulejo transforma-se em resposta às novas circunstâncias desta época. Contudo, esta transformação teve de aguardar até à década de 1830, aquando das invasões napoleónicas e subsequente guerra civil entre absolutistas e liberais. Com uma monarquia constitucional às margens da revolução industrial, o contexto português levou ao aparecimento de novas fábricas de azulejaria, que trouxeram consigo uma nova geração de artistas com ideias e técnicas próprias. As novas tecnologias industriais fazem-se sentir na arte. A maior eficiência dos métodos de produção permite já uma aplicação do azulejo como arte pública, começando a aparecer em fachadas de edifícios. Aliás, com as melhorias na produção, o azulejo ganha uma nova clientela nas novas classes médias, enriquecidas nas colónias ou no próprio país. O azulejo aparece assim dentro de lojas e estabelecimentos comerciais da classe endinheirada, adquirindo também uma função publicitária. A realizar esta função temos a Arte Nova, movimento artístico europeu da passagem do século XIX para o século XX, que teve bastante expressão na expansão urbana, em particular na região do Porto. Surgem também azulejos com relevo, permitidos pelas novas técnicas e que, ainda hoje, constituem um nicho na azulejaria portuguesa. Vemos assim que, devido a estas influências e novidades, a azulejaria do século XIX é rica em diversidade artística e função. Padrões geométricos, representações de eventos mitológicos e do quotidiano, efígies, são alguns dos exemplos da produção desta época.

Esta variedade e vigor artísticos continuam em força no século XX, sempre acompanhando a evolução estética da arquitetura. Nas décadas de 20 a 40 assistimos ao predomínio da Arte Déco, movimento das cenas abstratas e do rígido geometrismo. A partir da década de 40, quando o Estado Novo toma as rédeas estéticas da arquitetura, a azulejaria torna-se um entre muitos meios de transmissão dos ideais do Estado Novo. Apesar do elo propagandístico, a azulejaria não perde o seu característico vigor artístico, que se alarga com a democratização em 1974. Querubim Lapa, Carlos Botelho, Jorge Barradas, Carlos Cavet, Paulo Ferreira, são alguns dos muitos artistas cujas obras definiram a estética da azulejaria do século XX. Possibilitaram esta produção aumentada o alargamento dos espaços urbanos e a construção de novas infraestruturas públicas, que criaram muito vazio com necessidade de ser decorado. Os passageiros de estações de comboio e de metropolitano foram, sem dúvida, uns dos grandes beneficiários deste processo.

Nos tempos atuais, a azulejaria continua viva e de boa saúde. Não tem falta de artistas, diversidade estética, expressões próprias e funções sociais. É hoje em dia uma arte muito apreciada nacional e internacionalmente, um dos muitos orgulhos portugueses.

Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controlo: Do Mundo Moderno ao Pós-Moderno

No início de década de 90, Gilles Deleuze, escrevendo para o L’Autre Journal, avançou as bases para a interpretação de um novo momento organizacional. Esta interpretação brotou, em termos analíticos, do trabalho desenvolvido (ao longo de todo o seu projeto filosófico) por Michel Foucault – a sociedade da disciplina. Para Foucault, “disciplina” é um mecanismo de poder que procura regular o pensamento e o comportamento humano a partir de meios subtis, ou seja, a disciplina envolve sempre um conjunto de relações de poder que são orientadas, mas não necessariamente impostas coercivamente. O papel primordial do poder disciplinar constitui aquilo que Foucault apelida de “sociedade da disciplina”. Todd May (2006), na sua reconstrução da obra foucaultiana, propõe uma definição clara do funcionamento desta sociedade:

Disciplina, enquanto termo foucaultiano, é mais específica do que um simples mecanismo de controlo comportamental de terceiros. Poderá ser definida como um projeto acerca da otimização do corpo, tornando o corpo numa máquina otimamente regrada através de uma desconstrução dos seus movimentos nos seus mais ínfimos componentes, seguido de uma reconstrução dos mesmos como um todo altamente eficiente. No entanto, este projeto não se cinge somente a indivíduos. Afeta, também, as suas relações. A disciplina assegura que o espaço é devidamente compartimentado, permitindo que os indivíduos se relacionem entre si de uma forma otimizada e eficiente. Deve, ainda, ser assegurada uma coordenação temporal adequada entre atividades, assim como dentro de cada atividade. É um processo que pode ser aplicado tanto a corpos, como à interação entre os mesmos.

Deleuze, ao longo do seu ensaio, afirma construir o seu projeto com base nas caraterizações avançadas por Foucault, procurando abordar, entre outros temas, a ascensão das forças do capital, as consequências da Revolução Industrial e a permanente evolução tecnológica. A simbiose entre o modo de produção capitalista e a Revolução Industrial permitiu um acelerado crescimento económico, assim como a criação de espaços com o propósito único da criação de bens e serviços por parte de uma classe trabalhadora assalariada. Esta nova classe trabalhadora surge como consequência direta de duas alterações significativas: 1) Urbanização da população, que abandonou o meio rural, pautado por um modo de produção antiquado e limitado, claramente incompatível com as necessidades produtivas cada vez maiores de uma população que crescia quer quantitativamente, quer a nível das suas necessidades individuais; 2) A importação de mão-de-obra e a divisão internacional do trabalho, que requereu uma disseminação mundial e total da organização disciplinar do corpo, precisamente para fazer face a uma tendência de crescimento produtivo que, teoricamente, seria ad aeternum. Esta época, para Foucault, foi o berço da sociedade da disciplina moderna, em que as instituições disciplinadoras e as formas de exerção/manipulação do poder trabalharam em conjunto para permear agentes, grupos e governos.

O modelo de sociedade de controlo tenta ultrapassar a necessidade de um espaço disciplinador para a moldagem dos corpos e das relações de poder. A sociedade contemporânea, para Deleuze, é caraterizada por uma nova forma de violência e manipulação de poder, acompanhada por uma reestruturação das dinâmicas operacionais do capital. Neste ensaio, Deleuze tenta prever e explicar as consequências desta transição. Sumariamente, Deleuze constrói uma visão que coloca a sociedade da disciplina como uma composição de recintos e moldes, essencialmente criando uma sociedade composta por inúmeras instituições e espaços claramente definidos, com os quais os membros integrantes da mesma interagem, sendo os mesmos moldados por esse espaço, passando, posteriormente, a frequentar outros espaços que também contribuem para a moldagem do sujeito. Por contraste, numa sociedade de controlo, existem módulos atomizados entre si, em que a modelagem e a exerção de poder são efetuadas de forma difusa, criando uma ilusão de liberdade e agência para o sujeito, fomentada pela ausência de uma plataforma central e visível de exerção de poder – disciplina transforma-se, desta forma, em controlo.

Embora Deleuze afirme que que a sua construção de uma sociedade de controlo deriva diretamente das construções disciplinárias do projeto foucaultiano (Deleuze, 1992, p.1), não existe nenhuma clara base analítica na obra foucaultiana que aborde diretamente esta transição. Contudo, esta afirmação poderá ser entendida como uma tentativa de clarificar aquilo que o próprio consideraria deficiências na aplicação do projeto foucaltiano a uma sociedade que poderá não corresponder àquela sobre a qual Foucault escreveu. Para Deleuze (1992, p.1; p. 4), as instituições que mais contribuíram para a criação da sociedade disciplinante – a escola, a família, a prisão, o hospital, a fábrica – encontram-se numa crise profunda de legitimação, “(…) isto é, a implantação progressiva e dispersa de um novo regime de dominação”. As fundações destas instituições encontram-se num ponto de rutura de tal forma significativo que as lógicas disciplinárias subjacentes se tornaram ineficientes na constituição do sujeito. Consequentemente, a moldagem do sujeito torna-se diluída e fluída em todas as camadas do processo social: “Os confinamentos são moldes, distintas moldagens, mas o controlo é uma modulação, como uma moldagem auto-deformante que mudasse continuamente, a cada instante, ou como uma peneira cujas malhas mudassem de um ponto para a outro.” (Deleuze, p.2). A compartimentação espacial da instituição disciplinante transmuta-se para um oceano de controlo indireto, subjacente e permanente.

Assumindo um colapso das fundações das instituições disciplinárias, então a distinção entre o intrassocial e o extrassocial dilui-se. Esta diluição é acompanhada por uma mudança holística na forma como o poder delineia o espaço durante a transição da modernidade (disciplinadora) para a pós-modernidade (controladora). Num plano macro como, por exemplo, o da soberania do Estado-Nação, o poder é exercido sobre um território definido (seja ele legitimamente reconhecido ou não), que se encontra em constante contato com o exterior desse território (outros Estados-Nação). Para os teóricos sociais modernos como Rosseau e Hobbes, a ordem civil encontra-se limitada a um espaço interior, que contrasta com o espaço exterior da ordem natural (o estado de natureza). Num plano cultural, a análise antropológica de sociedades ditas “primitivas” normalmente corresponde a um Outro que define as barreiras da sociedade civil a partir de uma relação dialética (Hardt, 1998). Neste contexto, o processo de “modernização” de qualquer sociedade está intimamente conectado a uma interiorização do Outro, isto é, da cimentação da amalgamação das caraterísticas do estado da natureza num estado civil reconhecido pelos seus agentes constituintes.

Contudo, no mundo pós-moderno, a dialética entre o interior e o exterior, entre a ordem civil e a ordem natural, tornou-se praticamente inexistente. Os fenómenos e as forças aparentam uma artificialidade e hibridade irreconhecíveis para os modernos, transmutando-se para um jogo de relações, graus e intensidades. O plano exterior e extrassocial também declinou naquilo que é a relação do espaço público e do espaço privado. Os espaços públicos da sociedade moderna – que, para a teoria política liberal, constituem o epicentro de análise – encontram-se em declínio, sendo a sua dissipação expectável durante o desenvolvimento do mundo pós-moderno. A tradição liberal coloca o sujeito como uma entidade que diferencia entre o espaço privado (a sua casa, por exemplo) e o espaço público (a escola, o local de trabalho, o hospital, etc.). O exterior (o espaço público) é o locus da política por excelência, onde o sujeito renuncia à sua esfera privada e é exposto a terceiros, com a finalidade de ser reconhecido como um agente participante no sistema sociopolítico. Contudo, na pós-modernidade, o espaço público torna-se cada vez mais num espaço privatizável. A paisagem urbana, atualmente, atravessa uma transposição da praça comum e do encontro público para um espaço fechado recheado de autoestradas, condomínios e centros comerciais. Existe uma tendência crescente para que a arquitetura e planeamento urbano das grandes cidades seja excludente ao acesso público generalizado e para que cada interação (fora de um espaço compartimentado) entre os seus agentes constituintes seja marcada por uma quase mera aleatoriedade temporalmente irregular, criando, por sua vez, uma primazia por espaços interiores e isolados que moldam as possibilidades de interação. O espaço público foi paulatinamente privatizado, atingindo, na pós-modernidade, um ponto de rutura que sugere que qualquer análise que tente compreender a organização da sociedade utilizando a dialética espaço público/espaço privado estará condenada ao fracasso. Se o espaço público da política liberal moderna tem vindo a desaparecer, então o teor politizado do mundo moderno desaparece com ele.

Para autores como Guy Debord (1994), a sociedade pós-moderna é uma sociedade de espetáculo que, atualmente, tem lugar num espaço virtual ou, mais precisamente, dentro de um não-espaço politicamente inerte. As imagens, instituições e estruturas que unem o tecido social são, quando aplicados ao meio virtual pós-moderno, uma projeção artificial e difusa, que esbate as barreiras entre o interior e o exterior do sujeito, o natural e o social, o privado e o público. A noção liberal de “espaço público” – o espaço exterior onde o sujeito age em relação com terceiros – foi simultaneamente universalizado (a partir de uma vigilância panóptica de normas, regulamentos, leis, etc.) e sublimado nos espaços virtuais do espetáculo. O fim do espaço público corresponde, portanto, ao fim da conceção liberal de espaço sociopolítico.

Numa perspetiva macro, i.e., no âmbito da ordem mundial contemporânea, o espaço exterior também desapareceu. Quando autores liberais como Francis Fukuyama afirmam que o momento histórico contemporâneo é marcado pelo fim da história, o argumento baseia-se na proposta de que a era dos grandes conflitos históricos, marcados por espaços/blocos claramente definidos, chegou ao seu fim. Consequentemente, o conceito de “poder soberano” esvazia-se, visto que não existe uma hostilização para com um Outro visível, mas sim uma ramificação de inúmeros conflitos e confrontos, que caminham para a (re)construção de uma ordem mundial que é simultaneamente homogénea e auto-replicável. Não está aqui em causa se esta ordem mundial é ou não a de democracia liberal ocidental, nem sequer se, de facto, existe uma homogeneização em favor de um determinado pilar civilizacional – algo que foi, é e continuará a ser altamente disputado dentro do espaço de debate académico. Trata-se, acima de tudo, da admissão de que a época do imperialismo, inter-imperialismo e anti-imperialismo findou, tendo em conta que estes fenómenos, em si mesmos, já foram desconstruídos numa multitude de micro-fenómenos que agem de forma independente do fenómeno do qual originaram. Todos os conflitos são, neste momento, simultaneamente locais e globais: uma guerra civil encontrará sempre agentes extra-estatais nos seus beligerantes, uma ação policial sobre manifestantes terá ramificações mundiais e os atores que reagem a estes acontecimentos englobam outros atores, que englobam desde o cidadão comum a organizações internacionais. Estes fenómenos deixaram de ser o centro da modernidade; manifestam-se. Somente. enquanto ramificações de uma origem tendencialmente indefinida. Em contraste com a ordem mundial da Guerra Fria, em que os conflitos no espaço externo eram marcados por dois blocos opositores, e em que os conflitos internos respeitavam a mesma índole (todos os membros opositores às ações de cada bloco eram vistos como pertencentes ao outro bloco), a pós-modernidade dilui todas as oposições. Era este Outro que garantia coerência e definição ao mundo moderno e aos seus conflitos. As binariedades que definiram a época moderna encontram-se, então, mais indistinguíveis que nunca. O Outro que delimitava o espaço do sujeito (e do soberano) tornou-se fraturado e indistinto. O momento atual é caraterizado por um Outro que não é visível e em que os opositores internos e externos permeiam todas as camadas da existência sociopolítica. O fim da modernidade deu lugar a uma proliferação de inúmeros epicentros de crises indefinidas dentro de uma sociedade de controlo, que se limita a definir os espaços localizados e as normas/termos contingentes aos mesmos.

Por fim, o triunfo do capitalismo de estado tardio é a principal manifestação do momento pós-moderno. O capitalismo de mercado, derivando das suas caraterísticas imanentes, tem como principal prorrogativa o esbatimento do espaço interno e o externo. Sujeitos que são excluídos da lógica global do mercado são ativamente perniciosos para o bom funcionamento do mercado, que prospera quando o Outro é transformado num “Eu”; lucros são gerados somente quando existe contacto, intercâmbio e comércio. A concretização de um mercado verdadeiramente global é o zénite desta tendência, pelo que, na sua forma ideal, não existe nenhum Outro: o Mundo inteiro deve prestar vassalagem às lógicas do capital. Da mesma forma que Foucault reconhecia o panóptico como o diagrama do poder moderno e da sociedade da disciplina, o mercado global serve como o diagrama para as relações entre poderes soberanos e, simultaneamente, para as dinâmicas internas da sociedade de controlo. A pós-modernidade representa uma época em que os principais fenómenos carecem de legitimação e identidade pela ausência de um Outro que sirva como um parceiro de dança dialético. O poder (e a sua exerção) carece de um locus – encontra-se em todo o lado, mas, simultaneamente, é também invisível e indivisível.

A progressiva ausência de uma distinção clara entre o plano interior e o plano exterior durante a transição da sociedade moderna para a sociedade pós-moderna acarreta importantes implicações na produção social da subjetividade. Uma das principais teses da teoria social moderna, no respeitante à análise institucional, é de que a subjetividade não é algo imanente ou pré-concebido, mas que é, por outro lado (pelo menos parcialmente), concebida no campo das forças sociais (Hardt, 1998). As subjetividades que interagem no plano social são, em si mesmas, substancialmente criadas pela própria sociedade onde estão inseridas. Neste sentido, estas análises institucionais esvaziaram progressivamente qualquer noção de subjetividade pré-social; a produção da subjetividade encontra-se, desta forma, profundamente enraizada no funcionamento quotidiano das principais instituições sociais da vida do sujeito, tais como a família, a fábrica, a escola ou a prisão.

Importa ressaltar dois vitais aspetos da produção de subjetividade. Primeiramente, a subjetividade não pode ser entendida como algo fixo ou assumido. É um processo de constante geração e reprodução, que poderá, inclusive, ser facilmente identificado nos mais aparentemente inócuos aspetos da nossa vida. A relação social entre um estudante e o seu professor, por exemplo, cria uma subjetividade a partir das práticas, rituais e socializações que ocorrem entre os agentes. De uma forma quase reflexiva, o sujeito é constituído e moldado a partir das suas próprias ações. Segundamente, as instituições da modernidade providenciam locais discretos (como a casa, a capela, a sala de aula, etc.) nos quais a subjetividade é produzida. As inúmeras instituições da modernidade devem ser entendidas como um arquipélago de fábricas de subjetividade (uma ideia que Deleuze herda do conceito de “arquipélago carcerário” de Foucault). Ao longo da vida de qualquer membro de uma sociedade moderna, é expectável que o mesmo atravesse, de forma quase sempre linear, cada uma destas instituições (da casa para a escola, da escola para a fábrica/empresa, entre outras), sendo moldado em todas as fases deste processo constitutivo: “O indivíduo não cessa de passar de um espaço fechado a outro, cada um com as suas leis” (Deleuze, 1992 p.1) Cada instituição tem o seu próprio conjunto de regras, normas e regulamentos, que subjetificam a experiência do sujeito. Não-obstante, o sujeito encontra-se (de forma parcial) protegido dos inputs de outras instituições, i.e., se um indivíduo se encontra na escola, então não estará a ser moldado pela instituição “família” da mesma forma que estaria caso se encontrasse em “regime de exclusividade” para com essa mesma instituição. A separação concreta entre o espaço interior e o espaço exterior é vital para o funcionamento das instituições da modernidade, visto que a delimitação do espaço disciplinante cria um meio estável para a exerção de poder sobre o sujeito.

A transição para a sociedade pós-moderna mantém a criação da subjetividade dentro de um espaço, talvez de forma ainda mais intensa. A construção social de uma realidade torna-se ainda mais acelerada, passando a ser reconhecida como inteiramente artificial. Esta transição torna-se, portanto, não numa oposição dicotómica, mas sim numa aceleração dos processos subjetificantes. A crise das instituições contemporâneas tem, como consequência mediata, a dissipação dos espaços claros de subjetificação, permitindo que esta aconteça em toda a esfera social, em detrimento de somente incidir sobre os espaços onde a disciplina pode ser exercida (a escola, a prisão, entre outros). Consequentemente, o espaço interior torna-se indistinguível do espaço exterior, afetando a forma como certas instituições se legitimam perante o corpus social. A crise do conceito de “família nuclear”, por exemplo, não pode ser entendida como um enfraquecimento da narrativa do patriarcado – pelo contrário, discursos e práticas relativas a “valores tradicionais” encontram-se cada vez mais difundidos pelas esferas sociais do nosso quotidiano. Por outro lado, a crise do sistema prisional – um alvo de contestação ativa por parte de várias parcelas da sociedade – manifestou-se numa nova organização social em que os seus discursos e práticas imanentes se disseminaram, de forma menos visível, para outros campos do nosso quotidiano. A disciplina, torna-se, portanto, num agente constante na vida do sujeito, deixando de estar condicionada a espaços onde é, a priori, expectável que esta seja exercida. O sujeito continua a ser moldado na escola ou na prisão, mas sem a necessidade de se encontrar fisicamente em qualquer um destes espaços. Na sua crise de legitimidade, as instituições disseminam- se, mas não quebram, tornando o seu funcionamento mais extenso e, possivelmente, ainda mais intenso. A sociedade de controlo de Deleuze corresponde, portanto, a uma intensificação e generalização do poder da disciplina, agindo para lá dos seus espaços originários de forma corrompida, mas sempre panopticamente presente para o sujeito.

Bibliografia

Debord, G. (1994), Society of the Spectacle, New York: Zone Books; Deleuze, G. (1992). Postscript on the Societies of Control; The MIT Journal;

Hardt, M. (1998) The Global Society of Control, Gilles Deleuze: A reason to Believe in this World, Wayne State University Press;

May, T. (2006). The Philosophy of Foucault, McGill-Queen’s University Press.

Pôr o poema a falar

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No princípio era o Lógos, ou o Verbo, como foi traduzido pela Vulgata. É assim que começa o Prólogo do Evangelho de S. João. E esta frase poderia servir de máxima para qualquer exegeta, seja ele teólogo ou crítico literário. Esta linha de orientação aponta para o primado da palavra e não da interpretação. A função do exegeta é procurar descobrir os múltiplos sentidos da palavra e não a usar para fins próprios. A apropriação da palavra é perversa porque a vê como um meio e não como uma verdade a atingir. Este é o erro que muitos críticos cometem, quando pensam que a verdade está naquilo que vão expôr e não no texto que estudam, que criaram a verdade quando, de facto, estão à sua procura, visto que o significado (tão erradamente singular) não se trata de uma laranja, da qual se podem extrair todos os sucos. Por isso Oscar Wilde dizia que Wordsworth encontrava nas pedras do lago os sermões que lá tinha escondido, porque usava os lagos como pretexto para o que queria verdadeiramente escrever. Ainda assim, a ideia de lago que Wordsworth tinha precedia os seus sermões e, por isso, era irrelevante que ele tivesse de visitar o lago para levantar as pedras. O Marco Polo e o Kublai Khan de Italo Calvino sabiam que o problema era teleológico, que pressupunha não só a busca da cidade perfeita, mas a descrição das cidades visitadas e imaginadas, o que implicava uma tradução fiel na sua execução, uma descrição interpretativa e uma discussão.

Esta busca pode ter caminhos tão diferentes quantos sentidos o texto tiver. Não há uma mathesis universalis, uma fórmula mágica que resolva o problema da interpretação, assim como não existe uma fórmula que se possa aplicar a qualquer tipo de problemas matemáticos. À semelhança dos tesouros que os contos de fadas acreditam existir no fim do arco-íris, há vários caminhos que se podem percorrer até lá, mas o tesouro permanece inefável. Esses caminhos são tantas vezes percorridos em conjunto, por tribos, ou comunidades interpretativas, como diria Stanley Fish, quando estas chegam a um consenso acerca do caminho que lhes parece mais acertado. Então escolhem a estrada dos tijolos amarelos ou outra estrada qualquer. Naturalmente que a escolha de um ou outro caminho já faz parte do processo da busca da verdade, caso contrário, cairíamos num relativismo absoluto, mas a mera escolha não é suficiente. As tomadas de decisão que Dorothy ou o bom samaritano fazem quando passam por quem encontram, trazem mudanças no seu caminho e na maneira como chegam ao seu termo. Por isso, o esforço na busca pela verdade não é imediato, mas gradual. No jogo de palavras que alguém fez quando as trocou no seguinte anagrama: “Quid est veritas – Est vir qui adest”, a pergunta permanece sem resposta, pois o homem que estava à frente do interlocutor não respondeu, apresentando-se como Verbo à espera de interpretação.

Na literatura, o conceito de tradição tem aqui um papel fundamental, pois nas escolhas interpretativas é impossível caminhar desprovido de heranças literárias, ou como diria Ricardo Reis, sem indícios de Homero no mais pequeno poema. Por isso, há a possibilidade de diálogo não só entre a comunidade dos vivos, mas sobretudo entre a comunidade dos textos, como propunha Ruy Belo, uma sala de convívio, na qual se cresce em experiência a partir da leitura, do confronto e da discussão. A busca da verdade do texto passará pelo confronto com a imitação de outros, mas também pela busca da sua imitação. Como é possível imitar tal texto ou o que há a imitar? Estas são as perguntas que levam à descrição, à paráfrase e à interpretação. Para que isso aconteça, é necessário tomar consciência da alteridade do texto, ou seja, estabelecer as fronteiras entre o sujeito e o texto, para que nesse confronto se possa entrar no texto sabendo aquilo que pertence ao sujeito e aquilo que pertence ao texto. Conta-se que Eduardo VII tinha no Castelo de Balmoral uma balança que pesava os seus convidados à chegada e à partida das férias de Natal que ali passavam. Da mesma maneira, só medindo aquilo que é nosso ou não é que é possível estabelecer relações de comensurabilidade e, depois de comparar, procurar tornar familiar ou não, próximo ou distante.

É nesse ambiente de discussão que nos apercebemos de que corremos para uma mesma meta, a velocidades diferentes, estamos em sítios diferentes da pista, com um nível de energia diferente. Esta busca por uma verdade única, leva-nos a crer que não tem cada um uma verdade diferente, mas opiniões e interpretações diferentes acerca da verdade, visto que somos diferentes e temos convicções diferentes. É o confronto que nos permite crivar as nossas opiniões em relação às dos outros e fazer escolhas, visto que, muitas vezes, aquilo que não compreendemos nos outros pode ajudar-nos a compreender algo sobre nós próprios, mesmo que não concordemos com eles. Isto há-de obrigar-nos a alterar o nosso discurso e a rever as nossas concepções. Este confronto não tem como objectivo último a vitória de uma opinião particular e o extermínio das restantes, mas a discussão e a procura conjunta pela verdade. Talvez os gregos não estivessem tão errados quando apresentavam o ambiente ambrosial do Olimpo como uma reunião de deuses diferentes com interesses diferentes juntos em simpósio. É que, mesmo dentro do contexto de uma tribo, as descrições e as opiniões serão diferentes, porque as pessoas são diferentes. É impossível que todos pensem da mesma maneira acerca de tudo. Por sua vez, mesmo quando têm uma opinião semelhante acerca de um assunto, será sempre descrito de forma diferente. Por isso não seria razoável pedir justificações particulares a cada membro de um partido quando vota alguma lei.

Uma opinião acertada será, então, o esforço honesto de compreender, descrevendo, argumentando e fazendo sínteses a partir das nossas próprias teses e das de outros e das antíteses alheias, não o de encontrar as conclusões que queremos ou que respondem aos nossos problemas, mas que justificam a verdade com que nos deparamos. Esta justificação procura dar voz àquilo que não responde caso lhe perguntemos o que significa, como um poema, um quadro, uma escultura, uma flor.

Oito Desenhos sobre Programas Eleitorais

Temos muito gosto em partilhar uma nova série temática do artista plástico Rui Cavaleiro, desta vez dedicada a visões sumárias e criativas sobre os vários tipos de promessas e programas eleitorais que podemos encontrar no mundo da política e na arena da propaganda que antecede eleições. Obrigado ao Rui, e boas eleições para todos neste domingo.

Sobre Canções Anti-Estrangeiros e Anti-Imigração

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https://youtu.be/kxgjMz4K2oQ?si=lLShh_KwS1rr8vlo

A propósito da canção “Auslander Raus” — uma versão da composição de música de dança tecnho intitulada L´Amour Toujours, de Gigi D´Agostino, à qual se sobrepõe a letra “Deutchland und Deutschen, Auslander Raus, cuja tradução será simplesmente “Alemanha aos alemães, estrangeiros fora” — que se tem popularizado na Europa cética quanto a imigração, e como gostamos de perspectiva, abordamos hoje outras micro-tradições, provenientes de outras partes do mundo, de movimentos especificamente contra estrangeiros e contra imigração em geral ou vagas específicas de imigração. Estes pontos de vista podem partir de uma concepção étnica da população nativa e da vaga invasora, ou de nacionalidade de modo mais abstracto e quase burocrático. A primeira será a mais comum, dado que se alicerça nos mecanismos naturais de afinidade e de rejeição que todos os seres humanos possuem e que põem em acção quer na relação comunitária entre o seu próprio grupo quer na relação de si próprios ou desse mesmo grupo em relação a grupos exteriores.

Começamos com o caso clássico da canção de intervenção “Kill the Boer”, popularizada durante a segunda metade do século XX na África do Sul dominada pela minoria étnica Afrikaander, de origem étnica do norte da europa, regime que aplicava uma política de apartheid baseada em desigualdades cívicas graves em relação à etnia bantu e outras de fenótipo negro, naturalmente maioritárias na zona. Usada inicialmente pelo African National Congress, o ANC, como protesto face à minoria branca latifundiária, dona de grandes unidades de produção de agricultura, evoluiu mais tarde para uma expressão sumariamente anti colonial. Depois da instauração da democracia plena, nos anos noventa, foi brevemente esquecida e têm sido pontualmente recuperada como símbolo de um novo nacionalismo étnico. É importante sublinhar que na expressão tribal africana sub-saariana, de modo geral, enunciados que aparentem promover a morte ou o assassinato possivelmente nem sempre representarão esse desejo literal, o que pode envolver uma questão de tradução turva ou ambígua, mas sim um desejo de aniquilação/expulsão/derrota do inimigo. No famoso combate de boxe entre os pugilistas Muhammad Ali e George Foreman, no Zimbabwe dos anos sessenta, as multidões locais, com as quais o primeiro tinha criado afinidade, gritavam “Ali, Boma Ye”, o que significa literalmente “mata-o”, embora seja muito duvidoso que de facto essa morte fosse uma literal. Podem ler mais sobre o assunto aqui.

Continuamos com um exemplo da ásia, não do ambiente cultural especificamente cosmopolita e de já mais de um século e meio de história de Hong Kong, mas da China interior, na cidade de Chengdu. “Stupid Immigrants”, de Xie Di, aponta o alvo aos expatriados anglófonos, maioritariamente do Reino Unido, que têm também presença regular em Portugal desde há alguns anos e que chegaram também à China, aproveitando a prosperidade económica de todo o país. As críticas presentes na música são tão diversas quão focadas num único objectivo: insultar, denegrir e enxotar os estrangeiros. Essas incluem a sua estupidez, o fascínio que as mulheres nativas ingénuas têm por eles — problema apontado em muitas culturas, inclusive na nossa —, a ideia de que os outros países enviam os seus piores elementos para lá, etc. Podem encontrar a letra completa algures aqui.

Por último, abordamos a cena musical de supremacia Hindu, em particular no seu aspecto anti-islâmico, que tem ganho força nos mandados já de mais de uma década do presidente Narendra Modi. Designada por hindutva pop, são composições populares simples focadas em letras de conteúdo antagonistico com a minoria islâmica, propostas de que vão para o Paquistão e saiam da Índia, louvores à religião hindu, nativa do território, etc. O crescimento da direita a nível parlamentar tem também coincidido com esta nova vaga de nacionalismo no país, e esta forma de expressão musical é, na verdade, das mais leves e tradicionais aqui descritas, sendo a sua maior força encontrada no conteúdo agressivo das letras e na associação próxima entre movimentos políticos e as canções. Podem ler mais aqui e aqui.

É importante notar que todas estas são canções de protesto e têm lugar no mesmo panteão de Woody Guthrie, Paco de Lúcia ou José Mário Branco. Se estes primeiros três defendem, grosso modo, classes económico-sociais por oposição a outras, os anteriormente abordados defendem comunidades étnico-culturais por oposição a outras, sejam recém-chegadas ou já estabelecidas, estejam em posições de poder ou não, mas de igual modo sobre condições de existência em grupo.

Edição: Maio 2024

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A defesa do arquipélago da Madeira durante a Segunda Guerra Mundial

Fábio Rodrigues escreve sobre como no contexto da Segunda Guerra, a Madeira, apesar de não possuir recursos naturais extraordinários, seria um local ideal para uma base aeronaval, importância que foi rapidamente compreendida pelos intervenientes no conflito e que levou a que desenvolvessem planos de invasão e ocupação da ilha.

The Most Perfect Tragedy: Brief Discussion of Aristotle’s Preference for Oedipus Tyrannus

Tomás Vicente Ferreira argues that to say Oedipus Tyrannus is thought of by Aristotle as being the most perfect tragedy is, though true, a potentially misleading statement. “Most perfect” does not mean perfect and, to some extent, though Sophocle’s play does stand out from most tragedies, it would be as well to say Aristotle considered it “the least imperfect tragedy”.

O Ciberespaço como Dédalo: Em Busca de Uma Individualidade (Quase) Perdida

Sofia Carrola escreve-nos sobre como o ciberespaço apresenta características semelhantes às de um labirínto: trajeto em constante transformação, sem um centro único, facilitador de ligações em várias direções e de todos os seus pontos, que avança num emaranhado de possibilidades que pode significar, entre outras coisas, a perda de individualidade.

Itália, 1520. Alfama, 1975. Terreiro do Paço, 1972.

Portugal a Jogo: “Artistas” VS “Liberais”

Um apontamento sobre as minúsculas tricas intelectuais do nosso pequeno país. Há dez anos, numa troca irracional de impressões na sociosfera virtual, o actual deputado Mário Amorim Lopes e a cineasta Raquel Freire travaram-se de razões sobre as causas da diferença salarial entre sexos. Um não sabia comunicar e a outra não sabia nada.

O “Ricardo A. Pereira” “tem muita graça”, é “muito culto” e “muito inteligente”

Desde o advento desta figura no entretenimento nacional que esta ganhou notoriedade, num país de campónios, por, além da comédia, ser supostamente uma figura de gabarito intelectual, conhecedor da alta cultura, e dono de uma extraordinária inteligência. Nada disto poderia estar mais longe da verdade e é uma quase completa efabulação.

Três pormenores de escultura em mármore: Francesco Queirolo, 1759; Louis-Philippe Mouchy, 1781; Giovanni Lombardi, 1864.

Dois Desenhos de Pedro Brito

Dois novos trabalhos de Pedro Brito: novamente uma uma caricatura do primeiro-ministro, o recém nomeado “rural de serviço”, e uma peça intitulada “a- certo”, abordando a Assembleia da República e seus problemas.

A Hipermodernidade Em Gilles Lipovetsky: Será A “Desdefinição” Dos Valores Estéticos?

Ernesto Hoguane fala-nos sobre como a estética sempre foi considerada: apesar de usar termos diferentes, não alterava o seu significado da contemplação do Belo, uma transformação dos elementos alcançáveis através da compreensão da arte e da intuição do interior. O belo e a beleza têm sido objecto de estudo ao longo da história da filosofia. Mas qual será a “desdefinição” dos valores estéticos nos dias de hoje?

Flores à Sombra: o Belo como Transgressor em Byung-Chul Han

António Rafael Rodrigues traz-nos este pequeno artigo, onde se analisam alguns pontos que parecem fundamentais para compreender a ideia de belo enquanto algo transgressor, uma força que brota do negativo, tendo por base o livro A Salvação do Belo, do sul-coreano Byung-Chul Han.

Três brincadeiras com ciências exactas: com números, com o método científico e com o mundo quântico.

Itchy Savoir

Partilhamos com os nossos leitores um projecto amigo: uma marca de T-shirt’s e itens do dia-a-dia, com design de autor, subordinado a uma fórmula muito precisa: a associação de filósofos, artistas e algumas celebridades a uma palavra forte, que, em geral, estabelece um contraste desafiante com a personalidade em causa. Espreitem a galeria no nosso site.

Três magníficos exemplares de armaduras: da Turquia, da China e Alemanha.

Apreciações sobre Reis de Portugal e Galeria das Suas Moedas

João Manuel Almeida traz-nos uma apreciação pessoal de dezasseis reis de Portugal, sublinhando pontos fortes e fracos dos seus reinados, e também um belíssimo compêndio visual de várias moedas cunhadas em diferentes períodos da história da monarquia portuguesa.

Sugestões: Novidades na Filosofia

Retomamos sugestões de literatura, em particular de filosofia, que esperamos continuar a divulgar mensalmente. Novamente, contamos com os conselhos sábios da Notre Dame Philosophical Review, a partir dos quais recomendamos estas oito obras.

Crítica: Smile (Beach Boys, 1966- 2004), ou como as obras incompletas são completas

Ana Oliveira Sérgio traz-nos uma crítica à obra inacabada dos Beach Boys. Não é suficientemente esclarecedor chamar a Smile, ou ao processo da sua produção, de labiríntico, como se fosse uma obra impossível de ser concluída. Não o é. Aliás, muitos dos alinhamentos possíveis serviriam como conclusão ao conceito, por isso convém não confundir a sobrecarga mental e o falhanço com a noção de obra impossível, que Smile não é.

É Possível um Novo Caminho para o Cinema Português. “A Febre de Maria João” Mostra Como

Fernando Martinho Machado traz uma crítica sobre um filme que saiu sem levantar ondas, e é provável que continue sem o fazer, mas a curta- metragem de duração generosa – quase 30 minutos – “A Febre de Maria João” (2023; produção da responsabilidade de Maria & Mayer, Lda.) aponta um caminho curioso para o cinema português: simultaneamente estranho e conhecido, desconfortável e cómodo.

E como é tradição no mundo das revistas, nas últimas páginas, os funnies deste mês.

Um Texto Sobre Relojoaria

Uma divertida crónica de Nuno Lopes Margalha, que nos sugere a seguinte metodologia: leia este texto e divirta-se muito a lê-lo. Quando terminar envie um e-mail a pedir mais ao editor.

Possivelmente não vamos escrever mais porque somos pessoas muito ocupadas. Leia cada uma das letras como quem observa a mais linda das paramécias ao microscópio. Reflita sobre a nossa intenção na escolha de cada uma das palavras. Encare o conjunto de frases como quem encara um estereograma.

O Canto do Mundo: a Editora Ocora Radio France

Ana Oliveira Sérgio inaugura uma nova rubrica sobre música tradicional de todas as partes do mundo. Começa por destacar uma lendária editora dona de um portefólio de dezenas de títulos com registos magníficos de inúmeras tradições musicais de todas as proveniências, desde tradições eruditas até populares, e focando-se em particular nas paisagens sonoras de locais do mundo mais obscuros e menos conhecidos para a psique ocidental, como as infindáveis tradições musicas locais da áfrica e da ásia profunda.

2001, Ano Zero: Fragmentos do Pós- 11 de Setembro Imediato na Cultura Visual

Por último, três oldies. Henrique Brazão traz-nos videoclipes musicais, cinema e literatura decorrentes dos estímulos heterogéneos da experiência humana da pós-modernidade.

Distributismo como Solução para Alguns Problemas Atuais

André Patrício Alexandre sobre como o distributismo, teoria política ainda desconhecida por muitos, pode ser solução para a desorientação cultural e a necessidade de um mundo mais sustentável.

Relações entre Fotografia e Poesia no Mesmo Objeto Artístico

E Vítor Alves Silva com um texto sobre uma abordagem à semiótica e ao hibridismo nas relação entre poesia e fotografia quando coexistem no mesmo objeto artístico.

Retrato de Madonna Louise Ciccone (1958), da autoria de Joe Sioufi, 2001, artista de música pop commumente conhecida como Madonna, coleccionadora e patrona das artes visuais, além de impulsionadora de vários movimentos de vanguarda artística que sempre incluiu no seu trabalho musical e performativo.

O Canto do Mundo: a Editora Ocora Radio France

Na despedida da rubrica de Cláudia Zafre, Peace to Mutants, cujas entradas podem encontrar aqui, inauguramos hoje uma nova série de contribuições regulares também dedicada à música. Intitulada O Canto do Mundo, em homenagem a uma lendária editora, a rubrica incidirá fundamentalmente sobre edições de música tradicional de todas as partes do mundo. Para começar, nada melhor do que destacar uma também muito lendária editora dona de um portefólio de centenas de títulos com registos magníficos de inúmeras tradições musicais de todas as proveniências, abordando desde tradições eruditas até populares, e focando-se em particular nas paisagens sonoras de locais do mundo mais obscuros e menos conhecidos para a psique ocidental, como as infindáveis tradições musicas locais da áfrica e da ásia profunda.

Fundada em 1957 pelo musicólogo Charles Duvelle e pelo experimentalista musical Pierre Schaeffer, o projecto pretendia inicialmente agregar conteúdos musicais reconhecidos e divulgados por equipas locais nas colónias francesas. Mais tarde, o projecto desvinculou-se da ligação exclusiva aos conteúdos relacionados com a soberania francesa — aliás, a descolonização que começava a ter lugar levou também a isso — e expandiu-se para se tornar um agregado fenomenal de música tradicional de todas as partes do mundo.

A título de exemplo, destacamos aqui três títulos específicos, que pretendem ser apenas um sortido avulso deste enorme universo que a editora representa dentro do também enorme e praticamente infinito universo da música tradicional por todo o mundo. Começamos pelas paisagens africanas, cuja polifonia complexa e visceral poderia perfeitamente ser confundida com uma composição de vanguarda do panorama ocidental do século XX.

Depois, abordamos também uma peça magnífica mas desta vez proveniente de um vasto mundo de tradições eruditas, de corte, de música de arte, do universo asiático.

Por último, e voltando a casa, destacamos a magnífica e hipnótica polifonia dos territórios da europa, mais especificamente da Itália.

Sugestões de Leitura: Novidades na Filosofia, Maio 2024

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Retomamos sugestões de literatura, em particular de filosofia, que esperamos continuar a divulgar mensalmente. Novamente, contamos com os conselhos sábios da Notre Dame Philosophical Review, a partir dos quais recomendamos estas oito obras. 

Primeiro, de Katharine Jenkins, Ontology and Oppression: Race, Gender, and Social Reality, Oxford University Press, um ensaio sobre perspectivas contemporâneas de áreas como feminismos, analítica e metafísica, aplicadas à dimensão ontológica da discriminação de certas minorias quantitativas ou qualitativas. Depois, Nancy Cartwright, Jeremy Hardie, Eleonora Montuschi, Matthew Soleiman, and Ann C. Thresher, The Tangle of Science: Reliability Beyond Method, Rigour, and Objectivity, sobre filosofia da ciência e como um projecto alternativo de fiabilidade além das premissas do empirismo. Ainda, Christopher F. Zurn, Splitsville USA: A Democratic Argument for Breaking Up the United States, um refrescante ensaio sobre uma possibilidade perfeitamente democrática e até, em parte, constitucional: a sesessão de estados dentro da república americana. Por fim, Gerald J. Postema, Law’s Rule: The Nature, Value, and Viability of the Rule of Law, um exercício na filosofia do direito que propõe o primado da lei como um preceito moral, independente dos seus conteúdos, a que a legislação dá suporte.

Também, de Neil Van Leeuwen, Religion as Make-Believe, uma teoria de como a religião é um “fazer de conta” totalmente diferente em conteúdo proposicional de outro tipo de asserções. De Theron Pummer, The Rules of Rescue: Cost, Distance, and Effective Altruism, um ensaio sobre as razões para o comportamento altruísta e sem ligação directa ao nosso interesse pessoal que muitas vezes temos, neste caso elaborando sobre um argumento não-consequencialista. Depois, de Owen Griffiths and A.C. Paseau, One True Logic: A Monist Manifesto, uma teoria neo-monista sobre a possibilidade de os vários modelos lógicos na tradição filosófica ocidental poderem ser agrupados num único, num volume de leitura bastante agradável. Por último, uma incursão na filosofia oriental antiga, de Tao Jiang, Origins of Moral-Political Philosophy in Early China: Contestation of Humaneness, Justice, and Personal Freedom, que serve tanto para introdução no pensamento chinês antigo como de resumo do estado-da-arte dos filósofos contemporâneos quanto à matéria em causa.

Itchy Savoir

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Partilhamos hoje com os nossos leitores um divertido e amigo projecto da nossa publicação: trata-se de uma marca de t-shirt’s e itens do dia-a-dia (pastas, máscaras, autocolantes, canecas, capas de telemóvel, etc.), com design de autor, subordinada a uma fórmula muito precisa: a associação de filósofos, artistas, e algumas celebridades de relevo, a uma palavra forte que, em geral, estabelece um contraste desafiante com a personalidade em causa. Podem encontrar a loja no endereço https://www.redbubble.com/people/savoir-itchy/. Em baixo poderão desfrutar de todo o catálogo dessa série em específico: primeiro, em forma de mosaico; de seguida, com toda uma série de legendas explicativas a acompanhar. Na loja, poderão encontrar muitas outras séries temáticas de interesse, que tentaremos abordar também em breve.

DO YOU PLAY THE PIANO? IS MUSIC ORGANISED SOUND, AS VARÈSE SAID?
This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays contemporary French Philosopher Gilles Deleuze (1925 – 1995), that wrote, with Guattari, “Mille Plateaux – Capitalisme et Schizophrénie” (1980). As known, Deleuze coined the “corps sans organes” (body without organs) concept. We think that Deleuze’s thought convoques us for the idea of ORGANIST, for he articulates sense like a musical performer can play its organ or synthesiser, don’t you think?
IS THERE A WAY OUT OF THIS CRAZY EXPERIENCE WE CALL LIFE?? WHAT’S YOUR THOUGHTS ON B. RUSSEL AND MOKSHA?
This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt and merch portrays contemporary British Philosopher Bertrand Russell (1872 – 1970). MOKSHA is a an attitude that denies his rational thinking, we think Russell should liberate himself from the corners of the mind towards pure spiritual bliss.
DO PEANUTS TASTE LIKE HEAVEN? ONCE UPON A TIME PEANUTS MADE THE TRAILER…
This t-shirt & merch is about PEANUTS, a delicious super food! If you enjoy arts you must know that this figure needs no introduction at all! A true Master of sense-perception & more, MR Alfred Hitchcock!
WHAT IS APEIRON? DO YOU SEE IT ON MOVIE THEATRES OR ON NETFLIX?
This t-shirt & merch is about APEIRON, a philosophical concept by Aniximader that means the boundless and infinite, the ultimate reality, here portrayed by a very well known reference artist, painter and movie director DAVID LYNCH!
This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the existentialist French Philosopher Jean-Paul Sartre (1905 – 1980), author of significant works as the seminal book “L’Être et le Néant” (Being and Nothingness). His philosophy was centred in an ontological view of man, influenced by phenomenology, where the human condition is a suffered one. EXIT is our proposition for the re-interpretation of his philosophy, one of the most atheist thinkers can sure use an escape from reality, an interruption of Existentialism is the word EXIT!
CAN THE END BE A NEW BEGINNING? WE @ ITCHY SAVOIR THINK THAT LIFE IS A PULSING FLUXUS OF DIALECTICAL COMPLEMENTARY ENERGIES, NO BEGINNING NO END! This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the outstanding Jim Morrison (1943 – 1971) – aka Lizard King – poet and singer / performer of one of the most important pop bands from the second half of the 60’s – The Doors. Jellyfish is a word that represents his transparent sagittarius attitude and at the same time the capacity that he had to transform and even harm the more fragile or conservative minds, JIMBO was a Jellyfish alright!
IS THERE A SEPARATION BETWEEN MIND AND BODY? WHAT DO YOU THINK?? SHARE IN THE COMMENTS YOUR OPINION WE, @ITCHYSAVOIR, THINK THAT THERE IS A CONTINUUM, NO REAL SEPARATION BETWEEN BOTH REALMS!! This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the precursor of rationalism, the French philosopher René Descartes (1596 – 1650), whose work was essential to philosophy, in general, and to the philosophy of science, in particular. His well known philosophical assertion “Je pense, donc je suis” (I think, therefore I am), corresponds to the delimitation of mind and body, i.e., of the res cogitans and res extensa. Hence we propose MINDAGAP, a non existing word, a neologism taken from the subway’s speakers announcements in London (Mind the gap), a word that reminds us that, even though there is no split between mind and body, there is always a gap in between perception and reality, between what we think we know about the world and ourselves and what is in fact the case! Think it over, but GET IT NOW!
WHAT IS A BEGINNING? SHARE YOUR THOUGHTS, WE @ICTHYSAVOIR WOULD LIKE TO HEAR FROM YOU!!! This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the Portuguese eminent Poet Fernando Pessoa (1888 – 1937), an exponent of Portuguese literature. AB OVO is a a latin expression that means from the beginning, we chose it to represent his work for Pessoa is, since his early age, a genius of such nature that we would frequently forget to eat, while obsessively writing at Martinho da Arcada (a café in Lisbon). Several times, so it is said, the owner of the café would offered him a fried egg (OVO), his only meal, hence AB OVO!
ARE YOU A CRYPTO CURRENCY FREAK? AN ENTREPRENEUR? OR JUST A PERSON WITH GOOD TASTE?
This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the french SEX SYMBOL & SUPERSTAR Brigitte Bardot (1934)! Once a movie star, today is an environmentalist, a true advocate for nature and all forms of life. She runs a foundation to protect animals and while she’s at it we propose a new currency BBITCOIN, an emissions free international crypto currency, that will allow you to invest in ecoproducts and in all things nature!!! We know you want to be part of this new eco-movement, to do so get this T’s & Merch!
ARE YOU A SUBJECT OR AN OBJECT? WHAT IS A READY-MADE? WE @ITCHY_SAVOIR WOULD LIKE TO HEAR FROM YOU!!! This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the French Philosopher, painter and avant-garde artist Marcel Duchamp (1887 – 1968), an exponent creator that invented the ready made concept and wrote several interesting texts as “The Creative Act”, an analysis to what does artistic creation means and what rules / structures the creative process. One of his main achievements was to influence many artists to come, laying out the foundations for what is now considered contemporary art, an art free from the static boundaries between artistic disciplines, towards interdisciplinary creation and integration. As he was French we chose the word FONDUE to help question and reinterpret his work and legacy in the universal culture, the fondue is delicious and fuses everything with everything, just like Duchamp did!
DO YOU DIG FIRE ANTS? OR DO YOU PREFER THE VELVET UNDERGROUND??? This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the North American icon and poet Lou Reed (1942 – 2013), an exponent of modern rock and roll, having recorded with Velvet Underground and also as solo artist, for example, the incredible “Berlin” album. Although close testimonies confirm that Lou was generous and kind spirit, he was also known to be grumpy, harsh and even impolite on interviews and towards journalists, using sarcasm, in your face irony and occasionally lying or being rude. To better understand this rock and roll god, we propose the word Fire Ant, although gentle and nice inside, this musical genius was an hardcore fighter!
IS LIFE AN ENDLESS WORMHOLE?? WHAT ARE BLACK HOLES??This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the irrationalist the German philosopher Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), a fundamental thinker, writer of the classic “The World as Will and Representation”. He is considered to be the first philosopher to incorporate eastern theories and concepts (for example: as hinduism / the Upanishads) in european philosophy, concepts as maya, samsara, karma and rebirth are considered in his philosophy. Being an irrationalist and a pessimist, Schopenhauer proposed several ways to escape and transcend our material and rational limitations, for example: the aesthetic way, through pure contemplation – of music, for example -, Men can access the realm of the sublime and go beyond the veil of illusion that the world is. Schopenhauer’s philosophy is an amazing voyage and to the inner depths of the unknown, and to understand it better we suggest that it is a WORMHOLE, so interiorise it and GET IT NOW!
HAVE YOU EVER RODE AN UNICORN?? THEY DO EXIST WE @ITCHY_SAVOIR ARE CERTAIN OF IT!!! This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays one of the major Pop Art figures, Andy Warhol (1928 – 1987), north american pop culture icon. His provoking character and artistic endeavours have made him a rich superstar, with a whimsical persona, a larger than life human! So strange he was, kinda magical, hence we chose UNICORN to define him, a mythical figure that belongs in a dreamworld akin to his art.
DO YOU BELIVE THAT INTELLIGENCE IS ALL AROUND US? NATURE IS A BEAST IN THAT SENSE, DON’T YOU AGREE? This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the Chinese revolutionary, founder and leader of the Peoples Republic of China Mao Zedong (1893 – 1976), a major historical figure, considered by some a criminal and by other a father almost divine figure. Being a materialist and communist, Mao didn’t believe in GOD, as his atheism was contextualised in the Marxist doctrine / theory, who defined religion as the opium of the people, serving the interests of the dominating capitalist class that oppressed the proletarian and peasant forces, the ones that produced real wealth. Hence we propose a word through which we can see Mao in another perspective: ANIMISM, a spiritual believe that implies that everything in nature is an animated expression of a transcendent force, a GOD like force, a contradiction? or a tight fit? you decide
ARE YOU A CRAZY GUY WITH A BIG HEART? THEN YOU ARE A LOOPUPPY This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays rising star Marc Rebillet. He poops and pieces all over da goddamn place, specially live on youtube or on a club near you!! Make sure to buy this beautiful design, it is Marc’s other side as sensible and loving side, instead of loop daddy we call him a LOOPUPPY!
DO YOU SHOP ON SALES? YOU SHOULD, FOR ART CAN BE A PROFITABLE BUSINESS FOR ENTREPRENEURS AS YOU!!! This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the unique Salvador Dali (1904 – 1989), a visionary surrealist Spanish painter and icon from our contemporary culture, whose enormous work is of undisputed beauty and profundity, exemplified in works such as the Persistence of Memory or the Christ of St John on the cross. Being a controversial figure, always pushing the boundaries between life, its meaning and the business of art, we propose REBAJAS, the spanish word used for the anual clothing SALES in Spain. Is art a free profound human endeavour or also a funky business? is the question we pose.
DO YOU DESIRE WHAT YOU’LL NEVER GET? WHAT IS THE NATURE OF DESIRE & WHAT FUNCTION DOES IT HAVE IN LIVE? This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the brilliant German philosopher Immanuel Kant (1724 – 1804), author of several seminal works as the “Kritik der reinen Vernunft” (the Critique of Pure Reason). His philosophy was an attempt to conciliate Man’s metaphysical urge with the limitations of his gnoseological apparatus. DESIRE is our proposition for the re-interpretation of his philosophy, one of the most rational thinkers sure could use some emotional bangs in his theoretical building!
SALAD WITH OR WITHOUT CROUTONS?? This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the outstanding Serge Gainsbourg – aka Gainsbarre – composer extraordinaire of unforgettable hits as Ballade de Melody Nelson or Je T’aime… moi non plus, with his cigarette trade mark he stands for a culinary delight: CROUTONS, some crunchiness for your salad or for your HEART, we propose!
DO YOU GO CLUBBING FREQUENTLY? ARE YOU A REAL PARTY ANIMAL? THEN, THIS IS JUST FOR YOU!! This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the amazing Czech thinker Sigmund Freud (1856 – 1939), the creator of psychoanalysis. According to Freud, human beings are driven by the pleasure principle, but one should be attentive and guided by the reality principle, in order to dominate the ID and put it in harmony with the ego and the Super ego. Neuroses and other problems are derived, so he said, by conflicts between these psychological domains and by the phenomenic interactions of parenting and social and love relationships. We propose the word CLUBBING as a pivotal anchor to rethink his work!
ARE YOU AN HARDCORE INSTAGRAMMER? OR ARE YOU JUST INTO NON VIRTUAL SOCIAL INTERACTIONS? This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the eminent Czech writer Franz Kafka (1883 – 1924), writer of extraordinary pieces of literature as “The Trial” or “The Metamorphosis”. In this last book, the salesman Gregor Samsa wakes up and finds himself transformed in a gigantic bug, Kafka describes the event in an impressive way, referring to his condition and how he tries to fight it and, eventually, learns to cope with it. This story is an universal literary classic. Nowadays, in the 21st century, we live in the rush of hyper communication, social networks started to virtualise our real access to the world, friends, lovers and products are found online and everyone is connected and immersed / transformed by this paradigm. Hence we proposed the word INSTABUG – obvious reference to a social media platform – because it seems that we are turning ourselves into bugs by virtualising the personal dimension of our being, by alienating our connections, emotions and ideals.
PLATONIC LOVE, DOES IT EXIST? ARE WE DEPENDENT ON RELATIONS OR ARE WE JUST SOME FORM OF NARCISSSSUSSS? This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the precursor of the Existentialism (1813 – 1855), the Danish philosopher Søren Kierkegaard. In his philosophy, Kierkegaard made an analysis of the stages of life – the aesthetic, the ethical and the religious -, and concluded that man in this world is prone to suffering, despair and boredom, if he is enslaved by the pleasures of the flesh or by the realisation in society, only through the religious experience can a man find his inner fulfilling and peace, all other human endeavours are prone to fail… It is known that Kierkegaard had a deep LOVE for Regine Olsen, but this love never materialised in a marriage, due to his own responsibility. To understand his philosophy we propose the word: GIRLFRIEND!!
SAMSARA IS A FUNCTIONAL MECHANISM OF REALITY OR IS IT JUST A WAY TO THINK THERE IS AN EXPLANATION FOR EVERYTHING THAT HAPPENS?? This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the materialist German Philosopher Karl Marx (1818 – 1883), major historical figure that wrote, among other classics, “Manifest der Kommunistischen Partei” or “Das Kapital” (the Manifesto of the Communist Party / The Capital). His materialist philosophy defined religion as the opium of the people, serving the interests of the dominating capitalist class that oppressed the proletarian and peasant forces, the ones that produced real wealth. His main intent was inform that the people should arise and to do the revolution, creating the dictatorship of the proletariat towards the creation of a new world, a new man, into a communist ideal. Being atheist, we propose SAMSARA, an easter religious concept that implies reincarnation and the notion of Karma, this concept is a nice proposal to reinterpret Marx’s ideas and postulates.
WHAT IS A HANDRAIL? DOES IT SERVE AS AN AID FOR THE EVOLUTIONARY PATH? OR AS STRIP POLE? YOU DECIDE!! This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the controversial / genius Philosopher Friedrich Nietzsche (1844 – 1900), author of significant works as the seminal books “Thus Spoke Zarathustra” or “Human, All Too Human”. His philosophy conveyed a vision where the will to power is a fundamental concept correlated with his Superman paradigm, where the new Man that would overcome all moral constrictions, towards the realization of his own underdeveloped potential. To reinterpret his philosophy we propose the term HANDRAIL, as his propositions could slide us upwards to a new realm of consciousness and action.
ARE YOU A MAN? DO YOU CRY – OR – BOYS DON’T CRY?? This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch presents Donald Trump, the greatest President ever of the USA!!! On this design we think that his expression is rather sad, and as he is always complaining and angry, bitching about everything (media, journalists, etc.), we @itchy savoir suggest that he is a BIG CRYBABY!!! So don’t take what he says seriously, he is only hungry and sleepy, give him a break!
FANCY YOU A PANEER TIKKA ON THE TANDOOR? INDIAN FOOD AND PHILOSOPHY??? WTF DOES THESE THINGS HAVE IN COMMON?? This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays the eminent German philosopher Edmund Husserl (1859 -1938), one of the most prolific thinkers of mankind, certainly the most of the XXth century, having written, among many other texts, “The Logical Investigations” and “The Idea of Phenomenology”. He is the precursor of the contemporary Phenomenology, having deeply influenced the works of philosophers as Martin Heidegger and Merleau-Ponty, just to name a few. His keen mind, always searching for what constituted true and real knowledge, made us think that he is like a human melting TANDOOR, the indian oven that cooks Nan and other delicious culinary delights. So if you want to rethink and his philosophy you better get this amazing t-shirt and merch right way!!
WHAT IS A LODGER? CAN YOU ANSWER US? EITHER YOU HAVE OR NOT A REPLY, THIS POST IS FOR YOU!!!
This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays contemporary French Philosopher Michel Foucault (1926 – 1984). This post-structuralist philosopher that wrote, among many other texts, the History of Madness in the Classical Ages (1961), analysed the concept of POWER. For him, POWER is, above all, the structure of relations between individuals, societies / collective forms organisation (such as governments). So, LODGER is our proposition to re-perspective Foucault’s work, in order for one to establish his power, one should act as a LODGER, paying his fee or his karmic debt, to be in charge of his own LIFE
ALLURING? COMPELLING? EXTRA_ORDINARY? WHAT DO THESE WORDS MEAN? LEAVE YOUR COMMENTS AND READ THE FOLLOWING!!! This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays contemporary Austrian Philosopher Ludwig Wittgenstein (1889 – 1951), the writer of the extraordinary “Tractatus Logico-Philosophicus” (1921), a book that questions the relationships between language, reality and the limits of knowledge. Being an analytical philosopher, his preoccupation with rigor and logic was strict, so we propose ALLURE in order to rethink is philosophy. One of his premises was “Whereof one cannot speak, thereof one must be silent”, that is an extremely alluring proposition, so DANCE to it, and while you are shaking your skeleton buy these t-shirts and merch NOW!
DO YOU PLAY THE PIANO? IS MUSIC ORGANISED SOUND, AS VARÈSE SAID?
This monotone bw, yet highly stylish, t-shirt & merch portrays contemporary French Philosopher Gilles Deleuze (1925 – 1995), that wrote, with Guattari, “Mille Plateaux – Capitalisme et Schizophrénie” (1980). As known, Deleuze coined the “corps sans organes” (body without organs) concept. We think that Deleuze’s thought convoques us for the idea of ORGANIST, for he articulates sense like a musical performer can play its organ or synthesiser, don’t you think?
SHINE ON YOU CRAZY DIAMOND, HAVE YOU EVER WONDER WHAT THIS SONG IS ABOUT?? OUR SYDEREAL ROGER KEITH BARRETT, A BRIGHT STAR!!! This highly stylish t-shirt & merch portrays composer, painter and poet extraordinaire Syd Barrett (1946 – 2006), one of the main founding members of the famous Pink Floyd. An extremely talented musician and lyricist, he was a precursor of psychedelic music, back in the late sixties. Having experimented with lots of substances, he suffered from mental health ailments. Although he went through a difficult process, concerning his health, he never ceased to create, painting until the end of his life. In his homage, oday that marks the 75th anniversary of his birth, we present this SYDEREAL design, for he has a cosmic sidereal place on the world’s podium of Larger Than Life Figures Thank you SYD.
HAVE YOU EVER SEEN A FUCHSIA? OR MAYBE HEARD OF ONE IN STEREO? This t-shirt & merch is about a delicate musical flower FUCHSIA, a reference in our common cultural horizon, MR L.! He left us too early, but he surely continues to be a larger than life figure!

As Moedas do Augusto Reino de Portugal, desde o Santo Rei D. Afonso Henriques, até Sua Majestade Sereníssima, o Augusto Senhor D. Manuel


De Sua Majestade Sereníssima, o Augusto Senhor D. Afonso II §1-2 – Face e verso de um Morabitino de Ouro. §3-4 – Face e verso de um Dinheiro de Bolhão.

De Sua Majestade Sereníssima, o Augusto Senhor D. Sancho II §1-2 – Face e verso de um Morabitino de Ouro. §3-4 – Face e verso de um Dinheiro de Bolhão.

De Sua Majestade Sereníssima, o Augusto Semhor D. Afonso III §1-2 – Face e verso de um Dinheiro de Bolhão. De Sua Majestade Sereníssima, o Augusto Senhor D. Dinis §3-4 – Face e verso de um Tornês de Prata.

Idem D. Dinis. §1-2 – Face e verso de um Dinheiro de Bolhão. §3-4 – Face e verso de outro Tornês de Prata.


Idem D. Fernando. §1-2 – Face e verso de uma Dobra Pé Terra de Ouro. §3-4 – Face e verso de uma Dobra Gentil de Ouro.

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Idem D. Fernando. §1-2 – Face e verso de um Forte de Prata. §3-4 – Face e verso de um Real de Prata.

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Idem D. Fernando. §1-2 – Face e verso de um Tornês de Bolhão. Do Augusto Senhor Mestre de Avis, ainda Regedor destes Reinos §3-4 – Face e verso de um Real de Prata.

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De Sua Majestade Sereníssima, o Augusto Senhor D. João I §1-2 – Face e verso de um Real de Prata. §3-4 – Face e verso de um Real de 3 Libras e ½, de Bolhão.


Idem D. Afonso V. §1-2 – Face e verso de um Real Grosso de Prata [percebe-de que data dos conflitos contra Castela por aquela Coroa]. §3-4 – Face e verso de um Real Branco de Bolhão.

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Idem D. Afonso V. §1-2 – Face e verso de um Espadim de Bolhão. §3-4 – Face e verso de um Cotrim de Bolhão.

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Idem D. Afonso V. §1-2 – Face e verso de um Escudo de Ouro. De Sua Majestade Sereníssima, o Augusto Senhor D. João II §3-4 – Face e verso de um Cruzado de Ouro.

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Idem D. João II. §1-2 – Face e verso de um Justo de Ouro. §3-4 – Face e verso de um Espadim de Ouro.


Idem D. João II. §1-2 – Face e verso de ½ Vintém de Prata. De Sua Majestade Sereníssima, o Augusto Senhor D. Manuel. §3-4 – Face e verso de ½ Manuel de Ouro.

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Idem D. Manuel. §1-2 – Face e verso de um Português de Ouro. §3-4 – Face e verso de um Cruzado de Ouro.

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Idem D. Manuel. §1-2 – Face e verso de um Tostão de Prata. §3-4 – Face e verso de ½ Tostão de Prata.

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Idem D. Manuel. §1-2 – Face e verso de um Português de Prata. [Como é evidente, há as moedas de pior qualidade, como os ceitis, os soldos, ou os bastardos, mas o espólio é de pouca qualidade] Apêndice Extra: §3-4 – Face e verso de um S. Vicente de Ouro [D. João III].

§3-4 – Face e verso de um S. Vicente de Ouro [D. João III].

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Considerações breves sobre os Reis de Portugal, classificados por ordem crescente

[N°16] D. Miguel I [1828-1834] A última esperança de um Portugal segundo as suas máximas fundamentais. Apoiado pelo Povo, despojou a vida procrastinadora e lutou contra os nossos sans-cullotts. O único 25 de Abril que preza congratulações é o de 1826, quando o Povo aclamou D. Miguel no Terreiro do Paço. Infelizmente, o dinheiro venceu, e veio a ser desentronizado em Evoramonte; a Lei do Banimento de D. Maria II, uma Rainha impopular, parece contraditória, visto que não se aplicou a ela mesma. Até Salazar, foi o último governante patriota.

[N°15] D. Pedro II [1683-1706] Tirando D. José, todos os nossos absolutistas foram exímios Governantes. Acautelando vindouras instabilidades por conta das influências de D. Afonso VI, o substitui e honra o ofício do Reino com benemérito. É quem finda, em papel, a Guerra da Restauração [que não fôra uma Restauração, mas sim uma Reposição]; foi um Homem sempre provido a ouvir os seus conselheiros com a maior das sabedorias; o desenlace das grandes manufaturas iniciam-se aqui, com a produção têxtil em Portalegre ou os lanifícios no Fundão; é. neste Reinado que as tropas portuguesas alcançam os arredores de Madrid, em intervenção na Sucessão Espanhola; a Lei dos Bons Costumes, fortemente protecionista. Em relação ao Tratado de Metheun, a incógnita incompreendida, tem condições para críticas abertas mas, na. vigência, muito contribuiu para a Economia portuguesa. Tínhamos privilégio na Inglaterra com os vinhos, privilégio que a Inglaterra não tinha com os seus panos aqui. Se alguém saiu prejudicado neste Tratado, foi a Inglaterra… e ainda bem, é sinal que não fomos nós.

[N°14]

D. Afonso II [1211-1223]

Um excelente administrador, que infelizmente partiu cedo. Aproximando-se o N°1 desta lista, a questão torna-se mais espinhosa, pois a impopularidade das opiniões pode transtornar a sinceridade da lista. Respondeu sabiamente ao conflito herdado de D. Sancho I, concernente ao Testamento das filhas deste com o Rei Afonso; foi o primeiro Rei a celebrar Cortes com o Clero e a Nobreza, em 1211; é o autor das primeiras Leis Escritas do Reino, abordando pontos imensamente complexos para a saúde nacional, sendo alavancado pelas Inquirições e Confirmações, exigindo do seu Reino uma maior acurácia e firmeza administrativa; preparou imensas embaixadas ao estrangeiro para obter tratados comerciais; enviou tropas a Navas de Tolosa e foi o primeiro Rei a submeter o Tesouro Real à dízima eclesiástica.

[N°13] D. Afonso IV [1325-1357] Reinado longo, de pendências que não pediu [Peste Negra, aturar o filho adúltero e Afonso Sanches, que desbaratou], mas um bom Governador. Participou pessoalmente na Batalha do Salado contra a Mourama, recusando o despojo após a vitória, digno do maior dos elogios. Eficazes acordos comerciais com a Inglaterra e aliança firmada com Castela e Aragão; implantação dos imparciais juízes de fora, superiores a qualquer mesquinhez arruaceira; proibiu a vingança privada e a intromissão da Nobreza na Justiça; aquando da. Peste Negra, dificilmente poderia escolher um melhor Rei – punição severa da usura, leis pragmáticas (embora estas de difícil cumprimento) e fiscalização dos campos; foi o Rei descobridor das Canárias. O romantismo em torno de Inês de Castro retirou-lhe o mérito sabedor.

[N°12] D. Duarte I [1433-1438] Talvez opinião impopular. Não é um mau Rei, pelo contrário. Apenas não é melhor que os outros. A sua Lei Mental é, primeiramente, inspirada no crer de D. João I (por isso é ‘Mental’); foi um desleixe esta expansão informe da Nobreza, neutralizada de forma respeitável. Era um filósofo, sábio, mas sentimental, falecendo agonizado no martírio do Infante Santo [Nota: o Infante Santo chegou a insinuar que, se a expedição a Tânger não fosse realizada, sairia do País; nem o Infante D. Henrique ‘deixou o irmão morrer’, que é uma opinião patética, nem D. Duarte. A Pátria é mais importante que cada um dos seus componentes]. Não deixa de ser, no entanto, o Reinado onde Gil Eanes dobra o Bojador e onde Afonso Gonçalves Baldaia alcança o Rio do Ouro. Perde em Marrocos, mas assim se fazem os Heróis.

[N°11] D. Maria I [1777-1816] Uma espetacular Rainha. Se ficou ‘louca’, talvez foi pelo vírus que os Maçons lhe passaram. É difícil herdar um Reino completamente definhado e mesmo assim ser julgada. Tirou o Pombal do Governo junto com o seu concubinato; deu amnistia aos presos…

…políticos daquele; revogou as políticas anticlericais e fruiu na sua Cúria os mais cristãos e deleitosos homens; extingue as monopolizações das Companhias decrépitas; caça abertamente as lojas livres; tratado comercial muitíssimo benéfico com a Rússia; política protecionista e criação de imensas fábricas gerais (chapéus finos, lã, algodão, botões, rendas, chumbo de munição, resina, lacre, verdete…); resolução do problema das estradas, minas e canais; retorno aos quadros Universitários pré-Pombal; fundação da Academia Real de Fortificações e da Ciência; o seu plano urbanístico com Pina Manique, um dos meus caçadores de sans-cullotts favoritos, iluminação dos centros e uma piedosa política de piedade aos religiosos e da gente pobre, veja-se as benesses que a mesma instituiu aos pescadores. Grande Rainha e cristã.

[N°10] D. João IV [1640-1656] Não deteve a mesura de grandiloquência que teve, por exemplo, D. João I. MAS, foi um Rei muitíssimo prudente nas horas de asfixia. Uma crítica (sempre de estatuto modesto, pois jamais me compararia a estes heróis da Pátria) que posso atribuir é a…

…sua indecisão em alguns e pontuais momentos, como na própria Conjuração. Foi um pouco hesitante na colocação de tropas na fronteira também, mas é necessário entender o contexto delicado; um passo mal dado poderia gerar a inexistência do nosso Portugal; e, se Portugal ainda. existe, a ele o devemos; coroou Nossa Senhora da Conceição, quem nos deu forças para tamanha guerra, como eterna Rainha de Portugal; é o Rei da Batalha do Montijo e da segunda vitória dos Guararapes; além das embaixadas secretas que o mesmo enviou ao estrangeiro. Louvemos.

[N°9] D. Sancho I [1185-1211] Talvez outro parecer impopular. É somente pela faceta militar que o coloco em 9°, pois é, indiscutivelmente, um dos maiores administradores que Portugal teve a honra de ver nascer e reinar. Cautelosamente, foi um Rei muito impregnado nas coisas…

…administrativas; chegou a enviar agentes da sua Cúria ao exterior para recrutar colonos às áreas conquistadas pelo pai, o que é louvável. É nestas ações que funda, por exemplo, a conhecida vila da Azambuja. Os Forais concedidos, por exemplo, a Viseu, ou Covilhã, ou Bragança…

..aliados a esta política de recrutamento, muito devemos pelo fortalecimento e preenchimento do espaço recheado pelo matagal entrincheirado. No seu Reinado, o Tesouro Real era aviltado. O problema foi o Testamento de 1209, que gerou o bem sabido conflito; além da perda de Silves.


[N°8] D. João V [1706-1750] Grandioso Rei, que restaurou a Portugal um protagonismo no panorama internacional. Promulgou as Ordenações Militares, pilar ignorado pelo Reinado seguinte; regimentos e a Aula de Fortificação e Arquitetura Militar; além do Tratado de Utrecht, fôra um..

…Rei imensamente vinculado na soberania portuguesa além-mar. Combateu os maratás, os mascates, desbaratou os Ingleses em Cabinda, venceu a Batalha de Surate e interviu fortemente na Batalha do Cabo Matapão, em favor dos Estados Papais, a quem sempre se submeteu; venceu a…

..Companhia do Rio da Prata, tomou o forte de Tiracol e fundou a Coudelaria de Alter para a sub-raça cavalar lusitana. O seu projeto arquitetónico e científico é comparável a qualquer um dos Reis acima. Convento de Mafra, Aqueduto das Águas Livres, Biblioteca da Universidade de Coimbra; fundador da Academia Real de História e do Patriarcado de Lisboa; política conducente ao Santo Ofício [aos moldes portugueses], fábricas de papel, vidros, pólvora, seda, sempre em um teor protecionista, coadunadas às suas Leis Pragmáticas contra o produto externo.

[N°7] D. Afonso V [1438-1477] É, debativelmente, o Rei que acarretou a mais intelectual Cúria na nossa História. Nuno Gonçalves, Zurara, Fernão Lopes, D. Jorge da Costa [o Cardeal de Alpedrinha], D. Luís Coutinho, entre outros; é, ele próprio, um dos mais cultos Reis da nossa..

…História – é de sua cabeça que nasce a faceta dos Painéis de S. Vicente; fôra um dos únicos no seu tempo que, na maior das cristãs mesuras, juntou um exército para uma cruzada a Constantinopla, aquando da sua queda; a missão não desencadeou, justamente pela apatia dos demais Reinos. Perde em Toro, MAS é o consagrador da ação missionária, do Evangelho de S. João, do Quinto Império. A procura da tomada do trono Espanhol era um passo importante a tomar. Muito se procura defender o Infante D. Pedro, tio deste que, prolongando indevidamente a sua. Regência após a maioridade, era augustiosamente ambíguo – era mais preocupado com a tomada de Aragão do que com a governança de Portugal, inclusive, serviu-se deste povo para alimentar o seu malévolo arsenal. SE D. Pedro vencesse em Alfarrobeira, não haveria Império. Estava. o maior dilema em jogo – ou um Império Glorioso, ou uma relevância local. Graças a Deus, ganhou o primeiro; é Rei da tomada de Alcácer Ceguer, Anafé, Arzila e Tânger; além das missões de povoamento. Fôra o último Rei-Cavaleiro da nossa Pátria. Subestimadíssimo.


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[N°6] D. Afonso III [1248-1279] General de S. Luís IX, fôra uma dádiva da Providência em momentos de grande agonia nacional. Abdicou de Bolonha para governar a Pátria dos seus, tornando-se o pai do Estado Português e o conquistador dos Algarves. É o primeiro a realizar Cortes…

…com a presença dos Três Estados, em Leiria; é quem transita a capital do Reino para Lisboa, visionando os benefícios futuros ao mesmo Reino; fundador de vilas, promoveu também o recrutamento de colonos e nacionais; Inquirições Gerias sob a influência do Direito Romano, que…

…é quem o traz para cá; homem virtuoso, de grandes qualidades, protetor das Ordens Mendicantes. Foi vítima de uma injusta excomunhão, como fôra vítima de favorecimento espanhol um outro Rei que apreciaremos ainda. A disparidade de posição entre este e D. Sancho II é evidente.

[N°5] D. João II [1481-1495] Um dos Reis que mais admiro, sem dúvida. Foi injustiçado pelo Papa Espanhol no Tratado de Tordesilhas [os Reis “Católicos” sabiam não ter qualquer hipótese contra a nossa Marinha, preferiram assim agir], mas sempre se acautelou contra as influências..

..destes na nossa política interna. O Duque de Bragança foi financiado pelo casal sorrateiro? Morto. O Duque de Viseu conspirava perante o Reino? Apunhalado pelo próprio. Fácil e eficaz. É quem saneia as finanças e estabelece um centralismo régio, necessário face a tão grandes. conspirações. É o Rei que ultrapassa o Golfo da Guiné; é quem obra a construção do Castelo de S. Jorge da Mina; é o Rei de Diogo Cão, de Bartolomeu Dias, de Álvaro de Caminha; é quem primeiro procura o Preste João; fundador do Hospital Real de Todos os Santos. Glorioso.

[N°4] D. Manuel I [1495-1521] Não esmorece perante a grandiosidade de D. João II. É o Reinado de Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Duarte Pacheco Pereira, Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque, que conquista Malaca, Goa e Ormuz; relações diplomáticas com a China e a…

…Pérsia; conquistador de Safim, Azamor e Agadir; obreiro do envio de missionários católicos a todas as partes do mundo; é também um Reinado de grande apogeu intelectual, de Pedro Nunes, Sá de Miranda, Damião de Góis; a arte patriótica manuelina; descobridor da Gronelândia e. da Terra Nova; como cereja no topo do bolo, com todas as justificações que a História nos reserva a respeito, é quem expulsa os J’s do País. Felizmente, foi Rei. Infelizmente, finda com a sua morte o maior apogeu da nossa História [obrigado, D. João III].

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[N°3] D. Dinis [1279-1325] O ano de seu nascimento corresponde ao primeiro ano após o começo da Idade do Espírito Santo, segundo Joaquim de Flora. A ideia da expansão do Catolicismo daqui advém. Um visionário, dos melhores e mais completos Reinados do nosso Portugal. É quem…

…remedeia a relação com a Santa Sé, por meio de uma Concordata; alia-se a Aragão; define as fronteiras em Alcanizes; proteção da Ordem do Templo; mais Inquirições e Códigos Legislativos; promulgador da língua portuguesa e fundador do Estudo Geral; enxuga o paúl de Ulmar e…

…semeia o Pinhal de Leiria, as madeiras que fecundariam as Naus futuras; distribui terras pelas pobres gentes; um Reinado fortemente marcado pela exportação massiva, prosperidade sem antecedentes; fundador de grandes Feiras Francas. Um Rei muitíssimo respeitado no Continente.


[N°2] D. João I [1385-1433] O conspirador que hoje em dia desejaríamos. Conduz a morte do invasor Galego; gere o País no seu momento de maior perigo; vai a terreno campal lutar pela sua Pátria, em Aljubarrota; é o Rei de Valverde e Trancoso; é a cabeça sábia dos Descobrimentos..

…aliada à santidade de Nuno Álvares Pereira; a expansão a Marrocos ainda é de seu tempo; descobre Porto Santo, a Madeira e os Açores; realiza imensas expedições às Canárias. Pela traição punida, este Reinado é o que nos reserva a mais portuguesa e patriótica frente de guerra; é o Rei de Windsor e da reconciliação com Castela. Passou fome, viu o seu povo igualmente faminto no Cerco de Lisboa, mas ambos não se prostraram diante do inimigo. Ouvidor sábio dos Três Estados, que recorrentemente convocava. A ele devemos desculpas pelo nosso estado atual.

[N°1] D. Afonso I [1143-1185] É D. João V quem inicia o estudo da santidade das ações de nosso primeiro Rei, vindo a argumentar na Cúria Romana com essa justa preocupação. No retorno de eventual Estado Confessional, mantenhamos a firmeza de reconhecer a santidade de suas acões…

…e reconheçamos do fundador de Portugal, o mais acérrimo defensor de Cristo. É o Rei de S. Mamede, Arcos de Valdevez, Cerneja; é o fundador dos Mosteiros de Alcobaça e S. Cruz de Coimbra; é o Rei de Ourique; conquistador inato, de Leiria, Santarém, Lisboa, Almada, Palmela,. Alcácer do Sal, Sacavém, Óbidos, Torres Vedras, Tomar, e poderia continuar. Em Sesimbra localiza-se a nossa primeira vitória naval, sob o comando de D. Fuas Roupinho; o seu Reino é legitimado pela Bula de 1179; perde em Badajoz, pois esses almóadas foram auxiliados por…

..Fernando de Leão, traiçoeiramente; é D. Afonso Henriques ‘Pius, Victor, Triumphator ac sempre Invictus’. Desservir D. Afonso na sua mensagem da Pátria material e espiritual, é igualmente desservir-nos a nós mesmos.

Flores à Sombra: o Belo como Transgressor em Byung-Chul Han

“Gosto muito de flores que amam a sombra” -Byung-Chul Han

Neste pequeno artigo irei assinalar alguns pontos que me parecem fundamentais para compreender a ideia de belo enquanto algo transgressor, uma força que brota do negativo, tendo por base o livro A Salvação do Belo, do sul-coreano Byung-Chul Han.

Desde já o leitor poderia ficar “indignado” com a premissa da qual estou a partir, porque deveria o Belo ser um elemento de transgressão e não o objeto comum ou o fruto de uma contemplação cuidada e despida de instintos perturbantes. Creio que de um modo geral posso aceitar desde já essa crítica em parte, o observador do mundo criado tem tudo para ver nele algo de belo, numa linguagem mais platónica, existem assinaturas do Belo em vários pontos que encontramos. Seria loucura minha colocar em causa a beleza dos Tigres de Bengala ou das cores vivas de uma pintura de Van Gogh.

Parece-me, no entanto razoável, ver constatar junto de autores como Roger Scruton como a pólis moderna se deformou, transformando-se numa máquina de viver ou até sobreviver o que está a anos-luz de um jardim humano. Seria tedioso ocupar-me aqui excessivamente da forma como as cidades prestam hoje culto ao feio, mesmo que talvez em muitos casos por pura ignorância ou passividade. O que eu não posso considerar que invalide o pathos de velocidade e eficácia que é no fundo o que está bem presente em todas as obras deste sul-coreano e que o mesmo denuncia.

De um modo geral, segundo consenso de vários filósofos antigos, todo o Homem busca a eudaimonia, que se pode traduzir de forma brusca como felicidade, mas que abarca um campo semântico mais vasto e toca por exemplo no aspeto fulcral do florescimento. Byung-Chul Han está no fundo a denunciar uma sociedade em que nos é vedada a possibilidade de florescer.

Este autor tem, além disso, como imagem de marca uma ontológica antipatia pelo culto à transparência, em certo livro apresenta a pedra como o eidos da opacidade e da ligação ao mundo. Sendo que este acaba por introduzir logo no primeiro capítulo da obra onde estou particularmente a incidir a ideia de polidez. Deixando uma pergunta e subsequente resposta: porque razão esta polidez nos atrai? Sendo que na sua compreensão existe uma ligação que

intuitivamente podemos fazer entre polidez e equilíbrio, em oposição ao anguloso que é cortante isto é, que produz dor. Como é comum em muitos autores, estamos geralmente a assistir a um combate entre dois cavaleiros opostos, e neste caso é assim mesmo, para entender Byung-Chul Han há que entender a dicotomia positividade-negatividade, que está presente em quase toda a sua obra publicada. Deixo propositadamente em aberto se esta identificação do polido com a ausência de dor e do anguloso que é negatividade com dor é ou não um salto lógico, ainda que muito eloquente.

A negatividade deve ser lida aqui em termos kafkianos, isto é, uma machadada da realidade, um dilúvio do adverso, um Processo que por mais absurdo que parece está-aí! Já a polidez transmite uma sensação ausente de contradição, é limpa, transparente, saborosa. O ataque nesta obra personaliza-se na figura Jeff Koons sendo, diria eu, o seu Ballon Dog um case study de como o vazio polido invadiu as galerias de arte: As galerias de arte foram tomadas por fantasmas.

Existe no livro uma tese, no mínimo problemática, e talvez por isso interessante: Uma associação entre polidez e hedonismo. Sendo muito claro que as campanhas publicitárias e a propaganda política apelam geralmente à polidez e os produtos de consumo se apresentem sempre mais polidos nos cartazes do que nos tabuleiros, não sei se não existe aqui uma generalização abusiva e não possa existir também um hedonismo no que é ausente desta camada de polidez.

Por seu lado, uma objeção que me parece mais difícil de assinalar seria a de que o belo polido foge da negatividade (não encontrará qualquer anúncio que lhe ofereça uma machadada kafkiana). Esta força negativa é quanto a mim a força do real, sendo infinitamente mais forte do que qualquer tentativa paliativa da amenizar, julgo que é desta negatividade que está-aí que podemos intuir um Criador e como tal de um Belo que é superior e transcendente, um belo que persiste vivo na doença, na morte e violência nas conceções morais humanas.

Observemos o trabalho de Jeff Koons e vejamos como nela reside uma completa ausência de negatividade, como o seu eidos é o do balão vazio, um existir balofo e teimoso de coisa nenhuma. Observemos agora a implacavelmente bela sabiá-laranjeira, obra estética que até o mais firme ateu entenderia como sobre-humana. Neste formoso pássaro sul-americano encontramos a negatividade, quer no voo, quer na mortalidade que o acompanha, ainda assim as suas penas alaranjadas trazem uma marca aristocrática de algo maior.

O autor sul-coreano faz menção a um ponto que me parece de alguma importância para o que está a ser aqui discutido, o mundo digital visto como lugar onde naturalmente se produz ao máximo coisas vazias de negatividade, isto é, rendidas à mera positividade de um “gosto” ausente de isso, “mas x”. Esta é uma crítica que se pode fazer de forma pertinente a outras dimensões da vida humana, nomeadamente da sua existência política, a democracia degradada atual, uma vez que o voto no partido x é uniformizado e polido e ausente de qualquer reserva, de qualquer, “mas x”, seguindo no fundo o modelo de qualquer rede social.

É da opinião de muitos que para haver arte tem que haver um certo distanciamento, isto é objetivamente verdadeiro quando se está numa galeria de arte, apenas a uma dada distância posso ver o quadro por inteiro. Há, portanto, uma linha de infinitude que separa um quadro de Goya de um anúncio de coca-cola. Goya ao contrário do anúncio da coca-cola não é promessa de consumo, nem de nenhum tipo de felicidade liberal, o que Goya nos oferece é mistério e enigma, que são estranhos para a máquina de produção e consumo pós-modernas.

Byung-Chul Han diz de forma clara que a fealdade é um elemento de dissolução adverso ao consumo; algo que só uma alquimia pós-moderna pode ressuscitar. É, portanto, para premente romantizar a fealdade, anulando-lhe completamente o seu eidos.

Uma das críticas que o sul-coreano faz é justamente à última versão do Iluminismo, o dataísmo, suportada por hábeis contadores de histórias como Yuval Harari, no fundo a proposta remete-nos já para um pós-modernismo sistematizado, dotado de uma pós-verdade (mera acumulação e processamento de dados) e uma pós-beleza, não existe espaço para o Belo quando tudo se reduz a dados.

Um dos pontos que nos permite chegar aqui pode ser encontrado no conceito de temor-a-si- mesmo, arma que combate em prol de uma falsa ideia de privacidade, sendo que o autor que melhor falou sobre em que é que isto consiste, e com a sua linguagem própria, Kierkegaard.

Existe uma passagem paradigmática desta nova religião laica, passo a citar: “O corpo encontra-se hoje em crise. Desintegra-se não só em partes corporais pornográficas, mas também em séries de dados digitais. A fé na mensurabilidade e na quantificabildade da vida domina a época digital no seu conjunto” (HAN, Byung-Chul. A Salvação do Belo. Lisboa: Relógio D’Água 2016. Pág.25)

Existe todo um vasto repertório que relaciona o corpo com a arte, nomeadamente as que encaram o corpo como veículo entre a alma e a obra, raramente podemos dizer que “alguém”

tenha chegado ao absurdo de reduzir a arte a algo quantificável e mero epifenómeno de um corpo. Desde já porque o sujeito vive em perpétuo devir, é um ser-no-tempo, isto é, uma metamorfose que caminha. Se essa metamorfose fosse mensurável e a sua expressão também, não teríamos arte, mas um mero resultado matemático de algo que desconhecemos a identidade.

O dataísmo visa converter tudo em dados, sem nunca ter sequer apresentado uma noção exata do que são estes mesmos dados em si. Isto é, parte de um pressuposto com um olhar vitorioso, mas às cegas para o comandante desse mesmo triunfo pós-humano. Claro é que a mera quantificação das coisas não é um sinal de progresso, a descrição de um café pelo seu teor de cafeína ou pelo volume de espaço que ocupa é altamente redutora do que é o café em si.

A resposta à minha primeira questão pode ser clarificada com uma bipartição dos termos em discussão: O Belo entendido como positivo e agradável, em oposição ao Sublime que é produtor de espanto e terror (por esse mesmo motivo Deus é o Sublime!). Encontramos em toda a História um belo que dói, que produz delírio, paixão, sendo que isso advém das religiões e mitologias mais primitivas até aos dias de hoje, a Pietà de Miguel Ângelo é um exemplo vivo disso. Byung-Chul Han vinca que há ternura do belo existe uma negatividade do Sublime, que é, em última instância tenebroso, agreste e rude.

Também o cinema é rico a expressar esta dicotomia Belo-Sublime, encontramos isso, por exemplo, no filme Veredas (1978) de João César Monteiro ou mais concretamente no magnífico cinema japonês dos anos 60, no Kwadain (1965), sequência de quatro histórias “contadas” por Kobayashi. Onde penso que também fica clara a possibilidade de beleza noanguloso. Posto isto é justo afirmar que o Sublime é Superior, o que está além-da-natureza, é o adjetivo que cada coisa carrega em si. O Sublime é como um Grande Sol, que ilumina tudo o que existe, mas que cega quem o tenta encarar de frente, daí o temor.

A própria forma como pensamos o belo altera a temporalidade, sendo que o autor de A Salvação do Belo nos mostra como o belo perdeu a sua carga erótica com o triunfo do digital. A temporalidade do belo digital é a do imediatismo, o abutre que mata o suspense alimentando o tédio ou a vida inautêntica. Eu acrescentaria, o belo absoluto, isto é, o Sublime, é o suspense absoluto em que o Criador nos deixou imersos.

E parece que esta obra está efetivamente em diálogo comigo, passo a citar: “O encobrimento erotiza também o texto. Segundo Santo Agostinho, Deus obscurecera propositadamente as Sagradas Escrituras com metáforas, com uma ‘capa de figuras’ para as tornar objeto de desejo. (ibidem pág. 41).

No capítulo Estética da Vulneração percebemos como este dataísmo e a ideia de progresso histórico avançam com a sua espada hasteada contra o eros, pois até no domínio das relações amorosas domina a lógica mercantil da lata de atum: Prazo de Validade (idade), sabor (aspeto), facilidade de acesso (preço). Ao longo de boa parte do livro Byung-Chul Han entra num cauteloso duelo com Kant, desferindo-lhe alguns golpes que culminam no capítulo intitulado Estética do Desastre quando este afirma: “Kant não conhece o desastre” (53). Reforçando essa ideia apelando a elementos violentos de ordem natural. Kant, segundo o sul-coreano, abriga- se cuidadosamente no seu quarto em dias de tempestade, refugia-se na interioridade, abrigado da agressão externa (não obstante é importante deixar notar que a sua estética apesar de ingénua para o autor, é, segundo o mesmo, longínqua do mero consumo).

Por sua vez Byung-Chul Han vê em Hegel uma leitura da estética um pouco diferente, embora para este autor o conceito seja central, ele concretiza-se no plano empírico e como tal a estética da negatividade é possível, sendo que em Kant tal não se coloca. A sabiá-laranjeira está aí para morrer e se desintegrar, a sua beleza sucumbirá, trata-se de uma beleza negativa que culminará em formosas penas e sangue desprovidos de vida, é uma beleza que está no tempo e sucumbe ao mesmo.

Neste ponto encontramos a maior tensão, uma vez que a buscamos a Beleza e também a Verdade, podemos propor que são dois movimentos em busca do mesmo, sendo o primeiro mais material que o segundo, e o segundo o Imperador que Reina sobre o primeiro e lhe aparece como negatividade.

Olhemos para o peculiar caso da beleza vista como verdade, um dado empírico que está homologado mostra-nos como a beleza é muitas das vezes uma arte para a ilusão, isto é, a busca não é feita com certezas de um encontro com a Verdade, em boa medida a Beleza de um Anjo Caído faz com que se instalem em nós grilhões difíceis de destruir. Ainda assim existe em Platão, e o sul-coreano reconhece-o, uma conceção de belo que é geradora ao invés de consumidora, uma conceção diferente da mera beleza que nos engana, ainda que esta beleza possa ser produtora de ilusões.

Ainda que tenhamos essas reservas legítimas convido o leitor urbano a ir à janela, provavelmente verá montras, anúncios e o ziguezaguear das massas, e ruídos de fundo perturbadores e incómodos. Mas, o leitor vê um pequeno vaso colorido onde desabrocha uma tulipa, essa tulipa é bela porquê? Neste contexto e à luz do que o livro nos oferece a resposta seria que a tulipa é bela porque transgride a ordem utilitária da existência, ela exala um perfume

diferente das coisas funcionais da máquina de viver. A beleza está aí, urdida sem mácula nem usura pelo Mesmo que fará dela pó.

Bibliografia
HAN, Byung-Chul. A Salvação do Belo. Lisboa: Relógio D’Água 2016

HAN, Byung-Chul. Louvor da Terra: Uma Viagem ao Jardim. Lisboa: Relógio D’Água 2020

Crítica: Smile (Beach Boys, 1966-2004), ou como as obras incompletas são completas

A obra aqui abordada surgiu na carreira da famosa banda de surf rock polifónico e experimental, os Beach Boys, logo no auge inicial da sua carreira e da sua popularidade, tanto a nível de fama como de apreço da crítica, e representaria, em projecto, mais um passo na direcção da inovação e das novas formas que o formato disco de rock assumia na altura. Não existe, porém, nenhuma versão definitiva da mesma: o projecto inicial abortou e restam apenas as gravações das sessões da altura e uma versão muito mais tardia, re-imaginada 40 anos depois.

Não é suficientemente esclarecedor chamar a Smile, ou ao processo da sua produção, de labiríntico, como se fosse uma obra impossível de ser concluída. Não o é. aliás, muitos e diversos dos seus alinhamentos possíveis serviriam como conclusão ao conceito, por isso convém não confundir a sobrecarga mental envolta na sua criação e o falhanço da sua conclusão atempada com a noção de obra impossível, que Smile não é.

Inicialmente projectado em 1966, logo a seguir à conclusão do também lendário álbum Pet Sounds, tido pela crítica como um passo evolutivo da banda e do seu principal mentor, Brian Wilson, em direcção à obra conceptual e à pop abstracta inaugurada pelos Beatles, Smile surge como o projecto à medida das ambições de Wilson: igualar ou ultrapassar a qualidade, o impacto imediato e a influência futura que teve a obra da banda de Liverpool, Sg. Pepper. A ambição é justa e alcançável: embora o talento musical de Beach Boys não seja tão diverso e concentrado como Beatles, a enorme e vanguardista visão de Wilson aliada aos dotes naturais para as harmonias complexas do restante conjunto permitem esse projecto.

A empreitada veio a abortar por volta de 1967, maioritariamente devido ao colapso mental de Wilson, alimentado por uma orgia de drogas e um perfeccionismo doentio. Seguiu-se o lançamento de uma versão muito reduzida, já em pouco ou nada correspondente ao projecto original, e a subsequente esquecimento do projecto até quase três décadas depois, em que o mesmo foi lançado tanto pela produção da banda, aproveitando as sessões da altura, quer numa versão do próprio Wilson. O Smile de que vimos falar hoje situa-se algures no meio de todas essas versões, sem nenhuma ser a sua definitiva. De certo modo, isto adequa-se perfeitamente ao carácter abstracto, quase transcendente, do projecto inicial, de uma ideia muito dominada por uma série de circunstâncias e contingências específicas daquele tempo e daquele conjunto de pessoas envolvido no projecto, além do estado mental de Wilson, além da confluência de livre associações de ideias, muito alimentadas pelo consumo de alucinogéneos, em que quase toda a banda se volveu no processo de produção. Mas pretender diluir Smile na grande quantidade de obras experimentais influenciadas por drogas da época é apenas um exercício estatístico: a peça — quer enquanto conceito, quer enquanto versão semi-concluída — tem valor apreciável por si só, como obra complexa, onírica mas de uma forma sólida, e até não inteiramente experimental, já que Wilson e os restantes estavam já suficientemente habituados a muitas das técnicas utilizadas.

Descrevendo objectivamente a música, elenquemos, para começar, alguns pontos. É, no seu todo, uma sinfonia para o divino, intercalando entre o hino e a cacofonia, mas sendo provavelmente o trabalho de Beach Boys que mais os denuncia como uma banda de praia e de religião. Aliás, também seja útil dividir as suas características, manifestas tanto em passagens ou estilos específicos como em ambiências sonoras menos objectiváveis, como uma alternância entre jogos verbais alucinados e polifonia tendencialmente religiosa, parcialmente no sentido new age. Noutras palavras, compativelmente com a identidade da banda, as deambulações líricas, até certo ponto racionais, lembram realmente praias e estados de espírito dengosos, enquanto que as harmonias, que parecem ocasionalmente procurar maneiras naturais de os cinco rapazes da banda, já experimentados na polifonia pop, encontrarem novas formas para as suas vozes, novos entendimentos, sempre presentes, tendem elas mesmas para a prece etérea longe do logos da linguagem.

O disco inicia-se preicsamente, de um modo muito claro, com esse primitivismo da voz polifónica e a muito explícita prece, e passa logo de seguida para uma cacofonia circense. Loog nesse ponto, sentimos que a individuação dos nomes e dos conceitos derrete-se, depois de reduzida a reiterações mais devotas do que maníacas, porque contemplativas. Ao longo de toda a obra, algumas faixas têm uma estrutura que inicia com polifonia leve mas aventurosa, e passa a um refrão mais berrante e que não chega a atingir o limite do insano, mas não terá sido por isto que o álbum pereceu.

As letras são delirantes, sistólicas, quase oníricas, e quase como que procurando um idioma em que sejam entendidas. A gramática é por vezes esquecida. Os versos são muitas vezes compostos por trocadilhos simples, jogos de linguagem primários, infantis, como no tema de Plymouth Rock, uma rocha que rola e rebolar: de certo modo é o rock a rebolar de novo, rock submetido ao rock, passando a barreira dos ácidos, chegando ao pré-rock, novamente. Artifícios muito utilizados são as passagens corais, de tonalidades oníricas, em algumas faixas, que são repetidas noutras, de forma ainda mais diluída, é sintomático de um ambiente mental onde a memória não está orientada por uma sequência temporal mas sim montada em forma de teia, sem fluxo fixo. O mesmo ocorre com as letras, em que até muitos versos vão beber ao cancioneiro popular: neles encontramos trocadilhos e imagens de bucolismo campestre às quais o delírio, primeiro, e a psicose, depois, se agarram. Essas referências, porém, parecem quase todas advir do mundo da música: You are my sunshine, home on the range, peace in the valley etc.

Os ecos de frases musicais e verbais, presentes em toda a obra, já referidos, tanto podem ser a inutilidade de um intoxicado como Brian Wilson, como a exacta representação de um válido espaço mental. De acordo com a sua colocação na peça, aparentemente colocam-se na fronteira, mas mais perto de uma disposição intencional e menos de um delírio icon. Sente-se, nas relíquias que temos da construção do disco, que a intenção inicial seria, em parte, a disposição da abstração desses ecos, assim como a integração de todas as partes da peça num todo abstratamente coerente, processo complicado e exigente que terá travado Wilson. Não parece que o objectivo a alcançar fosse assim tão alto, correspondendo a uma obra prima que por vezes o próprio descreveu como pretendendo ultrapassar os álbuns conceptuais de Beatles; ou seja, Smile na cabeça de Wilson não seria a melhor peça de sempre, mas simplesmente Wilson ele próprio, em termos de vida, corpo e estado mental, terá colapsado.

As frases e motivos musicais que se repetem ao longo do disco, porém, parecem abeirar-se, não sucessivamente, mas reiteradamente, da compulsividade, denunciando talvez o colapso do estado mental do autor, então. Ao longo de todo o disco, a sensação de que a moca venceu o corpo, de que o mundo alterado e terra prometida está lá, mas que o corpo venceu, não conseguiu alterar-se. As repetições, ou, em linguagem literária, anáforas etc, deanunciam isso. Isto lembra como o universo de subsumir, resumir e reduzir a capacidade mental é tão semelhante entre usuários de certas drogas e as crianças. Não é certo que a bitola moral, que nas crianças muitas vezes é descrita como descrita como inocente e nos drogados não tanto, seja idêntica. Mas os fenómenos de linguagem, tanto musical como verbal, presentes no álbum sou muito sugestivos dessa semelhança. Por exemplo, quando se referem as margaridas na cantina, que mantém os espíritos em alta, e depois sugere a Margarida que dance.

Os Beach boys são, e sempre foram, é bom não esquecer, uma mistura de religião com praia (corpo, adolescência, etc.). E esta obra em específico, uma que nunca foi inteiramente acabada mas que na verdade se entrevê perfeitamente coerente no conjunto das suas versões finais, é no fundo um álbuns de drogados, mas sendo tal apenas uma espécie de categoria mas não de definição do seu corpo e do objecto a que presta culto. Smile não é sobre um sorriso, mas sobre o objecto de um sorriso e sobre o carácter ferozmente abstracto que um alucinado é capaz de conceber. Quanto à conclusão geral desta breve recensão e crítica, será talvez que uma obra não necessita necessariamente de conclusão, de ponto final, de estrutura definitiva, ou sequer de mapa de intenções. Um esboço pode ser já uma obra completa/incompleta, conforme se sustente suficientemente na sua singularidade para que as partes em falta não façam falta.

O “Ricardo A. Pereira” “tem muita graça”, é “muito culto” e “muito inteligente”

Desde o advento da figura deste comediante no entretenimento nacional, há mais de vinte anos, que tem vindo a ganhar notoriedade, num país de campónios, por, além da qualidade para a comédia, ser, supostamente, uma sumidade de gabarito intelectual superior à média, fino conhecedor da alta cultura, e dono de uma extraordinária inteligência capaz de produzir argumentos fora do alcance do português comum. Uma espécie de Marcelo Rebelo de Sousa dos palhaços, portanto. Nada disto poderia estar mais longe da verdade e, com toda a probabilidade, é uma quase completa efabulação. Vejamos ponto por ponto.

O talento — que é um talento tanto artesão quanto comercial — da dita personagem para a produção de programas de comédia adequados ao seu tempo é um talento de uma qualidade inegável. O historial do seu trabalho na ficção televisiva é de irrepreensível sucesso e, alguns dirão, qualidade certamente superior à mediocridade vigente no país, tanto nos dias de hoje como no final do passado século. Não quer isso dizer, porém, que se trate de um comediante cujo talento se explique com uma capacidade inata para comédia, mas mais por as contingências históricas lhe terem proporcionado a feliz possibilidade de representar uma nova geração de palatos humorísticos. Nesse sentido, o seu papel, e o da pandilha que em tempos o acompanhava, antes de o mesmo se ter radicalmente independentizado — por ser, como é evidente, de acordo com a visão geral do vulgo, uma pessoa de enorme valor e talento, muitíssimo superior aos outros — é um papel de inquestionável domínio e importância.

Mas note-se que sempre foi observável, por algumas pessoas não facilmente rendíveis às modas, que qualquer grupo de amigos imersos numa dialéctica de boa disposição consegue emitir umas larachas de qualidade cuja densidade ficcional e ousadia metafórica é perfeitamente idêntica à deste comediante ou à de muitos outros da mesma geração. Aliás, consegue até dizer-se que muitos grupos de amigos compostos por pessoas comuns conseguem desenvolvimento humorístico bastante superior com a maior das facilidades. Não quer isto dizer que fossem capazes de converter esses conteúdos em formato audiovisual, ou sequer literário, de qualidade superior: esse é de facto um talento à parte, mas que se alicerça, primeiramente, no conteúdo propriamente dito, na fantasia — e nessa, a capacidade do comediante em causa não é extraordinária.

Com efeito, já o mesmo não poderia ser dito quanto à comparação do talento do vulgo com, por exemplo, os actores clássicos da revista à portuguesa: nenhum zé da esquina conseguiria suplantar o gigante Vasco Santana, nem nenhuma maria das iscas produziria larachas tão robustas como as da inimitavelmente castiça Laura Alves. Neste campo, o comediante aqui referido é claramente diferente em termos de categoria, e pertence a uma cultura mediática de época em que o medíocre é aceite como excelente e extraordinário.

De resto, a sua vaga inclinação para a literatura — ou seja, o rapaz lê uns livros, e escreveu outros tantos, talvez mais do que aqueles que leu — atestou-o também, neste país que ainda pensa que é um país analfabeto, como uma sumidade da cultura, convidado para apresentar obras, escrever prefácios e autorar paráfrases baseadas em banalidades de estudos literários, passando todo esse conteúdo como grande bagagem. Não é.Tendo aliás sido colega de alguns dos autores da Revista Minerva Universitária no Programa em Teoria da Literatura da Faculdade de Letras de Lisboa, sabemos do que falamos: é evidente que se trata de um eterno puto, comum estudante de humanidades em Portugal, e pouco mais culto quanto o bandalho médio que estuda e, nalguns casos, até ensina, naquela faculdade. Efectivamente alguns professores de literatura também não passam da mediocridade, e isso não tem problema nenhum: nem todos nasceram para serem génios ou extraordinários de algum modo. O que não é admissível, ou melhor, é ridículo, é recolherem admiração do comum burgesso pertencente ao público em geral, como se se tratassem de figuras admiráveis nessas áreas e não apenas, no caso deste em particular, como profissionais da comédia com vaga literacia adicional noutros campos. Tendo aliás sido colega de alguns dos autores da Revista Minerva Universitária no Programa em Teoria da Literatura da Faculdade de Letras de Lisboa, sabemos do que falamos: é evidente que se trata de um eterno puto, comum estudante de humanidades em Portugal, e pouco mais culto que o bandalho médio que estuda e, nalguns casos, até ensina, naquela faculdade. Efectivamente alguns professores de literatura também não passam da mediocridade, e isso não tem problema nenhum: nem todos nasceram para serem génios ou extraordinários de algum modo. O que não é admissível, ou melhor, é ridículo, é recolherem admiração do comum burgesso pertencente ao público em geral, como se se tratassem de figuras admiráveis nessas áreas e não apenas, no caso deste em particular, como profissionais da comédia com vaga literacia adicional noutros campos. 

Além disso, a referida pessoa portuguesa é da esquerda política, o que só fica bem, e é compatível com o panorama ideológico dominante em que a classe dos intelectuais do entretenimento, covarde, seguidista e burguesa, se insere hoje — desde os estúdios de Hollywood até ao Bairro Alto e ao Lux. Quiçá, se o dito rapaz fosse de direita ou, simplesmente — como o comediante Herman José — não fosse uma pessoa política —, se calhar não teria tanta graça, não seria tão amestrável, não serviria hoje para, de forma tão simpática, andar ao colo dessa classe urbana contemporânea, função que tem efectuado quase irrepreensivelmente desde há vinte anos.

Além disso, é também muito apreciado pelo actual Presidente da República, e os paralelos aqui presentes talvez sejam mais que muitos: essa é uma figura que, enquanto comentador político, emitia também e apenas mediocridades banais, e que, tendo impressionado o país com um tom professoral e uma certa pedalada acima da média, ganhou uma presidência que agora muitos, e em larga medida tardiamente, começam a reconhecer como um espectáculo não muito dignificante.

De modo análogo, o comediante, depois de décadas aproximando-se do modo humorístico de puto esperto amamentado pela dita classe intelectual de esquerda, a fazer as tais piadas que os grupos de amigos com uns copos também faziam, convertidas em formato televisivo sketcheiro, foi ganhando também os seus galões no número de comédia situacional, e agora aventura-se nas águas que afinal talvez sempre lhe tenham interessado — e que, frequentemente, representam uma confissão da sentença de morte criativa do humorista: são as águas do comentário político e da intervenção política. Este campo, no fundo, é aquilo que teria estado sempre latente.

Como é então, na actualidade, o humorista visto pela população urbana que na infância e adolescência o idolatrava? Na verdade, há muito que não se ouve descrevê-lo como “esse tipo é muito engraçado”, mas ouve-se antes alguns dinossauros vociferarem que “é um génio”, mas um génio na recordação deles, etc., justificando-se de seguida que já não tem graça, mas recusando-se a retirarem-no do pedestal em que se acostumaram a vê-lo. Claramente a alegação agora é outra — e sabemos o quanto terminologia como “o génio” é usada com certa vulgaridade, enquanto que “o engraçado” é, em oposição, usada com certa liberalidade. Paralelamente, em algumas fases de decadência cómica de Herman José, este optou pelo mote anímico de “vou apresentar concursos”, talk shows e o que lhe apetecesse. Ele contava, na altura, com um séquito de admiradores autómatos, e, nessa altura já avançada da sua carreira, a maioria da população achava que Herman José tinha graça porque sim ou então quando estava perante Herman José achava que estava na hora de ter graça. É isto então, de modo idêntico, que se passa hoje com o comediante referido.

Este, no entanto, optou por um tipo de decadência diferente, correspondente ao pior que a sua própria geração tem para oferecer: o sarcasmo e a política, herdeiro do tom horripilantemente condescendente, provinciano e ignorante do norte-americano Jon Stewart no seu marcante Daily Show, um prolongado espectáculo de preguiça intelectual e humorística lamentável, já com duas décadas de idade, a ensinar doutrina à geração urbana intelectual do milénio, e a explicar como descartar argumentos alheios aos progressismo da moda usando apenas sarcasmo e punchlines de adolescente charrado.

Esse estado de espírito, dominante tanto no Jon Stewart de hoje e de sempre, quanto no referido humorista português do presente, não é o estado de espírito do humorista tout court, mas sim uma rendição capitalista, servilista e covarde, ao modo mental descomprometido e pós-moderno, tão sintomático da geração X a que pertence, em que, burguesamente, se arredonda o cu no conforto da poltrona das muito bem-sucedidas civilizações ocidentais, as mais materialmente prósperas do mundo, e, ao mesmo tempo — tal como a banda de música Radiohead ou algumas personagens do cineasta Mike Leigh — criaturas sem qualquer herança cultural de relevo ou conteúdo mental suficientemente complexo são convencidas de que têm jeito para algo mais que serem os heróis do café lá da zona (café burguês, urbano, “intelectual” no sentido em que qualquer puto estúpido vai para a faculdade e se transforma num intelectual), e entram então num modo urbano-depressivo sardónico, derivado também de terem sido ensinados a achar que a culpa de tudo era uma culpa colectiva — um lamentável estado psicológico imaturo, derivado de não saberem lidar com o peso individual, e que é assim um modo de ser que frequentemente se expande para a grande arena dos frustrados intelectuais: a política.

Não era este o caso com Herman José: tal figura dedicou-se, na fase mediana e agora muito mais tardia da sua carreira, ao entretenimento puro e duro — na actual definição do próprio, ao “feel good humour” — e está-se nas tintas para politica e futebol, vendo-as como migalhas que o povo torpe aprecia comer do chão. Curiosamente o humorista abordado neste artigo adora essas duas dimensões da cultura. Isto diz muito.

Resta referir que o trabalho que se requer para um programa televisivo de comédia sobre politica é completamente preguiçoso: basta fazer umas montagens de vídeo com políticos a falar, interrompê-las quando entendem, e juntar umas larachas a seguir. Era possível fazer isto com padres, com espectadores de futebol (já existiu uma produção sobre isto: a Liga dos Últimos), com activistas dos direitos humanos, com personalidades do entretenimento e da TV (era muito esse o interesse de Herman José), com pobres da Cova da Moura, com ricos de Cascais, com pescadores, com intelectuais do Bairro Alto. O comediante em causa entende fazê-lo com políticos por uma simples razão: porque compatibiliza o seu interesse adolescente de idealismos mal formados, e de menoridade mental pouco evoluída desde então, com a facilidade logística que tais caricaturas requerem.

Tudo isto reflecte e é a consequência natural daquilo que foi sempre a sua comédia, que, na tradição burguesa e de pretensão intelectual, é apenas gozação observacional, não tendo nada de paródia mímica, quase nada de farsa gramática, pouco ou nada disso. É a figura do burguês confortável observando as restantes personagens do burgo e achando-se extraordinário em meramente fazê-lo. O tipo de comédia deste prodígio e da sua pandilha foi sempre apenas o invólucro onde uma geração com imaginação, mas com um certo tipo de castração mental e comportamental — a vidinha custa muito — projectava as suas fantasias de liberdade humorística e de criação com associações livres, narrativas do absurdo e observações sumárias, aquelas a que eles próprios, na sua limitação mental e social, não conseguiam suficientemente dar corpo sozinhos. Tristes gerações, cheias de “potencial” mas amordaçadas por alguns atavismos antigos e outros novos.

O humorista foi, assim, preenchendo esse lugar — certamente num nível superior à qualidade vigente, qualidade essa ainda pior que a sua própria mediocridade, tanto no público em geral como nos poucos sem qualquer talento relevante que foram para a comédia como poderiam ter ido para engenharia ou para enfermagem. O seu humor, apesar de superior em grau, nunca foi diferente em espécie da comédia generalizada dessas gerações, e, reduzida a termos simples, nunca passou da larachada de um miúdo pós-moderno do século XXI, perdido na vergonha judaico-cristã do falhanço da ideologia — nomeadamente a comunista, a sua, de génese — e preso numa adolescência perpétua. Isto vai desembocar, irremediavelmente, no papel do comentador e activista político a fingir que é comediante — e não é.

Hoje restam só essas larachas vulgares, intelectualmente posicionadas — e, já que quase todo o urbano adulto contemporâneo se encontra, para seu infortúnio, irremediavelmente comprometido com política e com ideologia, essas se tornam quase todas também dependentes desse substância horrorosa, e assim se explica o seu decaimento, e o decaimento aberrante, indigesto, lamentável, como de outros profissionais como Trevor Noah ou John Oliver, no sub-género pouco frutífero e pouco duradouro do comentário político com graçolas à mistura. Este parece ser o mundo da Revista Maria dos intelectuais frustrados — e, de facto, como se supõe que o nível daquilo que entendemos como intelectualidade tenha uma densidade e uma qualidade exigentes, correspondentes ao conceito, ao contrário do popular, mais lasso, confessamos que muitos de nós acabarão por preferir a Revista Maria, uma produção mais condicente com uma categoria credível.

Por último, uma declaração de interesses, ou melhor, de desinteresses: há mais de vinte anos que programas dos engraçados a comentar política vicejam na televisão generalista e nos canais noticiosos do meio português: o Eixo do Mal, o Governo Sombra, as Irritações, os vários programas do referido humorista, etc. Confessamos assim que, no nosso caso, o somatório de tempo assistido de todos esses programas juntos não ultrapassará os trinta segundos no total. Ao longo de vinte anos. Ou seja, ou entre nós temos o hábito de assistir pouco a televisão, ou esses programas são de facto muito maus. Admitimos que a segunda hipótese é muito mais provável.

A Hipermodernidade Em Gilles Lipovetsky: Será A “Desdefinição” Dos Valores Estéticos?

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Por: Ernesto António Mubango Hoguane[1]

Resumo

A estética sempre foi considerada como é tida hoje: apesar de usar termos diferentes, não alterava o seu significado da contemplação do Belo, uma transformação dos elementos alcançáveis através da intuição, da compreensão do Belo, da arte e depois da intuição do interior. O belo e a beleza têm sido objecto de estudo ao longo de toda história da filosofia. Neste artigo, procurar-se-á responder a pergunta: será a “desdefinição” dos valores estéticos nos dias de hoje? Dias, ou mesmo época considerada por Gilles Lipovetsky como a “Hipermodernidade”. No entanto, Gilles Lipovetsky entende a hipermodernidade como um modelo teórico pensado para compreender o mundo contemporâneo principalmente por uma relação entre três lógicas fundamentais: o mercado, a tecnociência e a cultura individualista democrática. Na hipermodernidade, não há escolha, não há alternativa, senão evoluir, acelerar para não ser ultrapassado pela “evolução. Olhando nesta perspectiva a hipermodernidade seria assim a imensa “inversão do tempo” e que constitui assim a supremacia do futuro sobre o passado. Esta realidade não é a versa a realidade moçambicana, por isso, o artigo procurará reflectir numa realidade moçambicana, onde a estética ganha um novo rumo, valorizando-se mais o lucro do que o valor da arte.

Palavras-chave: Hipermodernidade, desdefinição, estética.

Abstract

Aesthetics has always been considered as it is today, despite using different terms, it did not change its meaning from the contemplation of the Beautiful, a transformation of the elements attainable through intuition, understanding the Beautiful, art and after the intuition of the interior. The beautiful and the beauty have been the object of study throughout the history of philosophy. In this article, we will try to answer the question: is it the “since definition” of aesthetic values ​​today? Dias, or even time considered by Gilles Lipovetsky as “Hypermodernity”. However, Gilles Lipovetsky understands hypermodernity as a theoretical model designed to understand the contemporary world mainly through a relationship between three fundamental logics: the market, technoscience and democratic individualist culture. In hypermodernity, there is no choice; there is no alternative, but to evolve, to accelerate so as not to be overtaken by “evolution. Looking at this perspective, hypermodernity would thus be the immense “inversion of time” and thus constitutes the supremacy of the future over the past. This reality is not the opposite of the Mozambican reality, therefore, the article will seek to reflect on a Mozambican reality, where aesthetics gains a new direction, valuing profit more than the value of art.

Keywords: Hypermodernity, definition, aesthetics.

Introdução

O presente artigo tem como tema “A hipermodernidade em Gilles Lipovetsky: será a “desdefinição” dos valores estéticos?”.

As sociedades estão feitas de história, isto é, um tempo e um espaço. Estas noções são representadas por perspectivas distintas, segundo a complexidade técnica e simbólica da social. O tempo é sempre precursor da experiência humana e, qualquer forma de percepção identitária só será possível pelos princípios da inteligibilidade e alteridade. Neste sentido, procurar-se-á ao longo do trabalho compreender a hipermodernidade como um novo tempo histórico.

Novos tempos: novas expectativas, novos desafios, novos valores? É desta maneira que contextualiza-se a presente investigação e o presente artigo. O novo tempo gera muita insegurança, provoca também muito medo e é muito desafiador. Porque o novo tempo nos faz desprender dos paradigmas antigos que fizeram parte da nossa formação epistemológica, dos nossos valores éticos e até mesmo dos nossos valores estéticos.

Nas sociedades actuais, denominadas de “sociedades do conhecimento e da comunicação”, boa parte da humanidade está conectada nas redes sociais via internet. Entretanto, paradoxalmente, nesse novo cenário, está a se criando cada vez mais, isolamento e solidão entre as pessoas, os valores éticos estão a perder o seu efeito, isto porque a moralidade é substituída pela imoralidade; a técnica e a estética é substituída pela moda. Sobre isso, pode-se afirmar que a actual humanidade habita uma espécie de caverna digital. As relações com a realidade concreta, com o toque humano, cada vez mais, se tornam mais raras, são cada vez mais virtuais e, prejudicam a vida humana. É nesta perspectiva que busca-se neste artigo Gilles Lipovetsky para responder a pergunta: será a “desdefinição” dos valores estéticos nas sociedades actuais de modo particular a moçambicana? Numa época em que tende-se mais a dar valor o objecto, a técnica e o mercado, a chamada assim, a época do hiperconsumo”, “hipercomplexidade” e “hipernarcisismo” como trar-se-á ao longo do desenvolvimento desta pesquisa científico-filosófica.

O objectivo do artigo é compreender, a partir das ideias do filósofo francês Gilles Lipovetsky a “desdefinição” dos valores estéticos na sociedade em que vivemos. Mas para a concretização deste objectivo ter-se-á que contextualizar filosoficamente a hipermodernidade; caracterizar a época em que se vive actualmente a partir do profetismo de Gilles Lipovetsky e por fim falar da “desdefinição” dos valores estéticos em Moçambique.

Com efeito, a pesquisa é de natureza qualitativa porque na sua abordagem procura relacionar por meio de uma análise profunda os fenómenos e os pensamentos dos autores que versam sobre o assunto em causa e submetê-los ao juízo crítico, tendo em vista o contexto e os objectivos a alcançar; lida com uma reflexão de problemas que circundam a vivência de uma sociedade, moçambicana em particular. No que concerne ao tipo de pesquisa, é bibliográfica, pois é aquela que procura resolver um problema, com base nas referências teóricas, das obras já publicadas. Para a elaboração do trabalho usou-se o método hermenêutico, que possibilita interpretar as ideias do filósofo Gilles Lipovetsky em relação ao modo de convivência actual; e o método dialéctico, relacionando o dinamismo da ética e estética.

  1. A Contextualização Filosófica da Hipermodernidade

Gilles Lipovetsky[2] filósofo francês, considerado profeta do século XXI os seus escritos tem a sua relevância não só no contexto europeu, mas também, africano e concretamente moçambicano, entende a Hipermodernidade como “um modelo teórico pensado para compreender o mundo contemporâneo principalmente por uma relação entre três lógicas fundamentais: o mercado, a tecnociência e a cultura individualista democrática” (LIPOVETSKY, 2010: 155). Partindo desta concepção da Hipermodernidade pode-se constatar que a Hipermodernidade seria assim uma época, ou seja, uma teoria virada para o consumo e para o benefício próprio mas com auxílio da tecnologia.

Hipermodernidade será também entendida por Lipovetsky e Charles (2004: 25) “como uma sociedade liberal, caracterizada pela fluidez e pela flexibilidade”. Ao caracterizar a hipermodernidade como uma sociedade em movimento, fluida e flexível, Lipovetsky cria uma diferenciação para com a modernidade não mais apenas pela radicalização, mas também apresenta a hipermodernidade como um processo de constante mudança. Estamos numa sociedade em que a ordem das coisas foi invertida. Na modernidade, o indivíduo tinha que se adaptar ao conjunto de regras sociais; na hipermodernidade, os princípios estruturantes da modernidade buscam adaptar-se à sua própria radicalização, difícil seria conciliar esta interpretação com a realidade moçambicana, isto porque a história moçambicana é recente, mas só pelas histórias que temos acompanhado dos nossos antecessores podemos observar que a ordem das coisas até mesmo nas nossas pequenas sociedades foi invertida.

Por essa perspectiva, a hipermodernidade como um modelo teórico tem como função mais de ajudar no entendimento das transformações sociais por que as sociedades actuais estão passando. O principal motivo para Lipovetsky dominar o modelo teórico de hipermodernidade está na maneira como que ele interpreta as transformações actuais da modernidade. Lipovetsky vê nosso tempo mais como uma realização dos fundamentos da modernidade do que uma ruptura com esse período histórico como muitos outros filósofos apontaram nas suas lucubrações. Para Lipovetsky a hipermodernidade não seria só uma sociedade liberal, caracterizada pelo movimento, pela fluidez e pela flexibilidade como ficou descrito acima, mas também como “uma sociedade indiferente como nunca antes se foi aos grandes princípios estruturantes da modernidade, que precisaram adaptar-se ao ritmo hipermoderno para não desaparecer” (LIPOVETSKY & CHARLES, 2004: 25).

Lipovetsky fundamenta que não seria apropriado usarmos o termo “pós-modernidade” para indicar as transformações na modernidade. “Pós” e assim consideramos seria o mesmo pensar de maneira constante, não como um desenvolvimento que nos levará do ponto A para o ponto B. De acordo com Lipovetsky e Charles:

O neologismo pós-moderno tinha um mérito: salientar uma mudança de direcção, uma reorganização em profundidade do modo de funcionamento social e cultural das sociedades democráticas avançadas. Rápida expansão do consumo e da comunidade de massa; enfraquecimento das normas autoritárias e disciplinares; surto de individualização; consagração do hedonismo e do psicologismo; perda da fé no futuro revolucionário; descontentamento com as paixões políticas e as militâncias (Ibidem, 52).

Tendo em conta as características acima descritas Lipovetsky considera a época pós-moderna fracassou, por isso, deveria se passar da era do pós para a época do híper. É neste contexto que Lipovetsky considera da nova sociedade moderna como a hipermodernidade e caracterizada assim por mais duas eras, nomeadamente: hiperconsumo e hipernarcisismo. Esta nova era do híper trata-se não mais de sair do mundo da tradição para aceder à racionalidade moderna, e sim de modernizar a própria modernidade, racionalizar a racionalização.

Na hipermodernidade, não há escolha, não há alternativa, senão evoluir, acelerar para não ser ultrapassado pela “evolução”: o culto da modernização técnica prevaleceu sobre a glorificação dos fins e das ideias (Cf. Ibidem, 57). Olhando nesta perspectiva a hipermodernidade seria assim a imensa “inversão do tempo” e que constitui assim a supremacia do futuro sobre o passado. Com a hipermodernidade morre as utopias colectivas e intensificam-se as atitudes pragmáticas de previsão e prevenção técnico-científicas. Importa salientar com Gilles Lipovetsky nasce a “Ética do Futuro”. Por isso, que as suas ideias mesmo escritas no século passado, sem fazem sentir nos dias que correm; mesmo escritos no contexto europeu e francês, atravessa as fronteiras e o continente e toca as sociedades particulares, um dos exemplos desta realidade é moçambicana. Trilhando o pensamento de Lipovetsky e Charles constata-se que

na hipermodernidade, a fé no progresso foi substituída não pela desesperança nem pelo niilismo, mas por confiança instável, oscilante, variável em função dos acontecimentos e das circunstâncias” (Ibidem, 70).

Para Lipovetsky, a hipermodernidade aponta, no contexto actual, para uma nova mudança de temporalidade, configurando o que podemos chamar de “o tempo presente”. Daí ter-se algo como uma revolução permanente, uma revolução do quotidiano. Para Charles, pensar a questão temporal na hipermodernidade é situar o tempo presente como o centro de referências das transformações. De acordo com esse autor:

Tendo o passado e o futuro sido desacreditados, existe a tendência a pensar que o presente se tornou a referência essencial dos indivíduos nas democracias, pois esses últimos romperam definitivamente com as tradições que a modernidade varreu e se desviaram daqueles amanhãs que nem chegaram a enaltecer muito (Ibidem, 14).

Se a questão temporal é tão importante, principalmente com a primazia do tempo presente, para a compreensão das transformações do mundo contemporâneo, esse elemento não passa despercebido por outros pensadores, como o antropólogo francês Marc Augé, também atento à questão temporal, o qual diz que a “História está em nossos calcanhares” (AUGÉ, 1992: 2). Faz com isso referência ao encurtamento do tempo na ocorrência de situações históricas significativas, como, por exemplo, a queda do Muro de Berlim em 1989, um facto relevante para nossa história que ocorreu há menos de 30 anos. Outro pensador, Cornelius Castoriadis, também atento à primazia do aqui e agora, diz:

Mais precisamente, há actualmente um tempo imaginário que consiste na negação do verdadeiro passado e do verdadeiro futuro, um tempo sem verdadeira memória e sem verdadeiro projecto (2006: 259).

Castoriadis chama a atenção para algo que pode ser chamado de “achatamento”, no qual é dada a mesma importância e significação às coisas, configurando um “perpétuo presente”. Tudo o que fazemos é urgente, e em todas as esferas da vida, e não apenas no trabalho, para uma busca de maior produtividade, como estávamos de certa maneira acostumados a ouvir desde a intensificação da industrialização no século XIX. A urgência como forma generalizada de viver o presente, de ocupar todo o tempo, ou o máximo possível, com o que desejamos, sem esperar, e sem se restringir, é algo novo, uma transformação que chamou atenção desses pensadores.

A mudança do eixo temporal do futuro na modernidade para o presente na hipermodernidade, sem dúvida, tem influência nas transformações da cultura individualista democrática, mencionada no início desde capítulo como um dos três elementos de referência para as análises de Lipovetsky.

Lipovetsky (2005: XV) ao dizer que “estamos vivendo uma segunda revolução individualista” tem como referência a primeira revolução individualista, o individualismo nascido na modernidade e que apresentava uma liberdade de acção em face das tradições já anunciada pelos ideais das Luzes. A segunda revolução individualista liberta o indivíduo da referência do futuro para conceber seu bem-estar. Ao fazer relações como a apresentada, entre a primeira revolução individualista da modernidade e uma segunda sendo percebida mais recentemente, Lipovetsky deixa claro que é a modernidade seu principal parâmetro para pensar a hipermodernidade, sendo esta última uma maneira tanto de contemplar uma análise sobre a radicalização dos elementos da modernidade, quanto de observar na sociedade contemporânea fenómenos paradoxais.

  1. O Superlativo “Híper” como guia das Sociedades Actuais

Muitos pensadores procuram encontrar nomes para o tempo em que vivemos, alguns encontram traços com a modernidade e outros ainda não encontra nenhum traço com a modernidade, procurando assim denominar de tempo contemporâneo, e outros ainda mais colocam sugere algo novo em sequência da condição acima da modernidade colocando na condição “pós-moderna”. Para além dos termos descritos anteriormente não são os únicos constatamos também termos como “supermodernidade”, “ultramodernidade, “modernidade reflexiva” para nomear o novo tempo que vivemos. Charles porém, por outro lado, acredita que a “hipermodernidade” é o termo que melhor representa essa radicalicalização, ou seja, ele considera que a época em que vivemos poderia ser designada por “hipermodernidade”. Segundo ele

O termo hipermodernidade me parece o mais adequado pelo facto de o superlativo “híper”, como demonstrou Lipovetsky, adaptar-se melhor à ideia de uma radicalização da modernidade, como prova a sua reutilização sob diversas formas: hiperligação, hipertexto, hiperpotência, hiperterrorismo, etc. (CHARLES, 2009: 22).

Adoptando o superlativo “híper” como a melhor expressão de radicalização, Lipovetsky e Charles na obra Tempos hipermodernos” apresentam outros termos para além do “hipermodernidade” para caracterizar da melhor forma o tempo em que vivemos “hiperconsumo”, “hipercomplexidade” e “hipernarcisismo”. Imbuídos no pensamento de Lipovetsky e Charles caracterizar-se-á a seguir os termos mencionados. Segundo os autores:

Hiperconsumo: um consumo que absorve e integra parcelas cada vez maiores da vida social, que funciona cada vez menos segundo o modelo de confrontações simbólicos caro a Bourdieu; e que, pelo contrario, se dispõe em função de fins e de critérios individuais e segundo a lógica emotiva e hedonista que se faz que cada um consuma antes de tudo para sentir prazer, mais que revitaliza com outrem. O próprio luxo, elemento da distinção social por excelência, entra na esfera do hiperconsumo porque é cada vez mais consumido pela satisfaço que proporciona, e não porque permite exibir status (LIPOVETSKY & CHARLES, 2004: 25-26).

Na modernidade, cada vez mais mecanismos são gerados para aumentar o consumo. Metodologias de produção, técnicas de marketing, investimento em publicidade, tudo fez com que hoje exista um hiperconsumo, que não se restringe mais a um horário ou local específico. O comércio pode ficar aberto ainda em horário e dia específico, mas, com lojas na Internet, a empresa oferece a possibilidade de compra 24 horas por dia, da mesma maneira que não se restringe a uma oferta local, mas aproveita a possibilidade de comprar no mundo todo, não se direcciona mais a uma pequena classe de consumidores, e sim a todas as classes de consumidores, desenvolvendo produtos e serviços específicos, e segmentando a sociedade em idades, géneros, estilos. O hiperconsumo, sem dúvida, é um dos principais elementos da hipermodernidade e de influência na percepção de bem-estar dos indivíduos.

Outro termo destacado por Charles, a “complexidade”, como elemento a ser observado na hipermodernidade, tem ligação com a dificuldade de compreender o mundo actual: frequentemente termos como “ambiguidade”, “volatilidade”, “incertezas” são elencados para traduzir nossos tempos. Realmente complexos são movimentos como o da intensificação do desapego, já observado na modernidade com as tradições, convivendo com a motivação para, cada vez mais, visitar e conhecer o passado. Na hipermodernidade, esses e outros fenómenos paradoxais simultâneos tornam o que já era complexo, hipercomplexo. Para Charles:

Hipercomplexidade: pode-se entender uma sociedade liberal caracterizada por uma lógica paradoxal, lógica que existia na modernidade e na pós-modernidade, mas que foi levada ao extremo, na qual coexistem, por um lado, a crispação, a reacção, o conservadorismo, o recuo comunitário, o retorno à tradição, mas a uma tradição reciclada pela lógica da modernidade e, por outro lado, o movimento, a fluidez, a flexibilidade, o desapego com relação aos grandes princípios estruturantes da modernidade (a nação, o Estado, a religião, a família, os partidos políticos, os sindicatos), que tiveram de se adaptar ao ritmo hipermoderno para não desaparecer (CHARLES, 2009: 17).

O último dos três elementos destacados por Lipovetsky e Charles é o narcisismo. Os autores empregam o termo “hipernarcisismo”. Segundo eles

Hipernarcisismo: época de um Narciso que ares de maduro, responsável, organizado, eficiente e flexível e que, dessa maneira, rompe o Narciso doa anos pós-modernos, hedonistas e libertário (LIPOVETSKY & CHARLES, 2004: 26).

Lipovetsky, em 1983, dizia que “hoje em dia é Narciso que aos olhos de considerável número de pesquisadores, principalmente americanos, simboliza os tempos atuais” (Ibidem, 52). O autor resgata uma figura mitológica para ilustrar o processo crescente do individualismo que se intensificou na modernidade e que se radicalizava de uma maneira narcísica, expressada na relação de cuidado consigo mesmo e com seu corpo. O indivíduo demonstra o desapego cada vez maior em relação às tradições, mas também às obrigações sociais com o colectivo e com o futuro. Sem as referências externas limitantes, o indivíduo age de maneira individualista e hedonista. O “hipernarcisismo” refere-se ao indivíduo que, ao experimentar cada vez mais o cuidado consigo mesmo, e o contacto com o sentimento de liberdade diante das normas colectivas que o regiam, também entrou em contacto com sentimentos de desorientação e com a responsabilidade pelos seus actos. “Época de um Narciso que toma ares de maduro” é a referência à percepção crescente do indivíduo em relação à responsabilização.

A pergunta que se coloca é: quanta vez constatou-se a necessidade de mais consumo para os consumidores e lucro nos negociantes moçambicanos? Quantas vezes constata-se com o hipercomplexo para com os cidadãos moçambicanos? E quantas vezes cuidámo-nos de forma exagerada? É nesta perspectiva que afirma-se que Lipovetsky é um filósofo do futuro porque já havia previsto estas realidades que tem se feito sentir nos dias de hoje. Hoje não só no Ocidente, mas também, na África concretamente em Moçambique o hiperconsumo, hipercomplexo e hipernarcisismo é uma realidade. Mas será só isso que tem acontecido nas nossas sociedades?

  1. Será a “desdefinição” dos valores Estéticos dos dias de Hoje?

O tempo que vivemos hoje, cujo, o nome ficou acima descrito como o tempo dos híper, possui grandes e muitos desafios. Lipovetsky aponta a técnica, a mídia, e a estética como alguns desafios. Lipovetsky em muito dos seus escritos aponta o “consumo” como o grande factor do individualismo, do narcisismo e do egoísmo nos tempos actuais.

Para Lipovetsky a moralidade hoje é substituída pela imoralidade; a técnica e a estética é substituída pela moda. Neste subtítulo, por seu turno o último, procurar-se-á reflectir em torno da ética e estetização do mundo como um dos desafios da hipermodernidade. Antes mesmo de adentrar no ápice do presente subtítulo, importa conceptualizar e contextualizar o conceito Estética, conceito este, que será importante neste item.

A estética (aisthetikós, de aisthenesthai: perceber, sentir) é um dos ramos da filosofia. O termo “estética” foi criado por Baumgarten (séc. XVIII) para designar o estudo da sensação, a ciência do belo, referindo-se à empina do gosto subjectivo, àquilo que agrada aos sentidos, mas elaborando uma ontologia do belo (JAPIASSÚ & MARCONDES 2001, 68.).

Com o conceito acima dado mostra que a beleza é vista como uma harmonia das realidades naturais existentes no universo. Seria isso que atrai o homem a apreciar o belo não basta pelo aquilo que vimos mas sim pela beleza que está por de traz daquilo que o vemos. É o amor que nos leva a contemplar a beleza.

A estética enquanto disciplina filosófica surgiu na antiga Grécia, como uma reflexão sobre as manifestações do belo natural e artístico. O aparecimento desta reflexão sistemática é indispensável da vida cultural das cidades gregas, onde era atribuída aos dramaturgos, arquitectos e escultores desfrutavam de grande reconhecimento sociais. A estética é baseada na arte de bem interpretar o que nos chama atenção que cria um susto e espanto. Segundo Hegel,

a essência da arte consiste na livre totalidade de que resulta da íntima união entre o conteúdo e a forma que lhe mais adequada só na arte clássica aparece esta realidade que é conforme ao conceito do belo em que a arte simbólica, em vão procurou atingir (HEGEL, 1958: 7).

A arte clássica de muitos e vários modos procurou alcançar o seu lugar e colocar-se no seu contexto que tudo dava o sentido de que o seu carácter e de contemplar as coisas da natureza, assim ficou conhecida como sua característica. A arte clássica é caracterizada através da profunda união entre o conteúdo e a forma que se encontra no ideal, ela foi sempre suspeita e acusada de antropomorfismo, porque concebe a livre espiritualidade na maneira de uma individualidade de compreender e determinar as coisas postas nas suas manifestações. Hegel citando, Xenófanes diz:

se deus criou o homem à sua imagem, o homem fez o mesmo e criou deus à sua imagem humana. A arte clássica que o homem usava para descrever e contemplar o belo era insignificante, por causa da maneira muito popular sem transcender os sentidos da compressão que caia no concreto (Ibidem, 21).

Portanto, segundo Lipovetsky,

A pós-moralidade não é sinónimo de imoralidade. Três elementos possibilitam destacar bem a persistência dos ideais éticos em contexto individualista. Em primeiro lugar, o desaparecimento de uma moral incondicional não teve como consequência a difusão de comportamentos egoístas no conjunto do corpo social. Em segundo lugar, o relativismo de valores não contribuiu para o niilismo moral porque perdura um núcleo duro de valores democráticos, núcleo em torno do qual se afirma um consenso forte. E, por fim, a perda dos referenciais tradicionais não resultou no caos social, dado que a liberação individual, especialmente no pleno sexual, não produziu uma anarquia total dos costumes (Ibidem, 39).

Regressando ao mundo antigo e aos séculos passados constatamos que as artes em vigor nas sociedades ditas primitivas não foram em absoluto criadas com uma intenção estética e tendo em vista um consumo puramente estético, “desinteressado” e gratuito, mas com uma finalidade principalmente ritual. Nessas culturas, o que pertence ao estilo não pode ser separado da organização religiosa, mágica, clânica e sexual. Inseridas em sistemas colectivos que lhes dão sentido, as formas estéticas não são fenómenos com funcionamento autónomo e separado: a estruturação social e religiosa é que em toda parte regula o jogo das formas artísticas. Trata-se de sociedades em que as convenções estéticas, a organização social e o religioso são estruturalmente ligados e indiferenciados. Traduzindo a organização do cosmos, ilustrando mitos, exprimindo a tribo, o clã, o sexo, cadenciando os momentos importantes da vida social, as máscaras, os penteados, as pinturas do rosto e do corpo, as esculturas, as danças têm inicialmente uma função e um valor rituais e religiosos (Cf. LIPOVETSKY & SERROY, 2014: 14). Mas hoje o mundo, os valores estéticos, éticos, culturas são remodelados essencialmente por lógicas de mercantilização e de individualização extremas, isto é, todo é feito por meio mercantil e de negócio.

De acordo com Lipovetsky & Serroy (2014: 20) nos tempos em que vivemos há estetização dos mercados de consumo, o capitalismo artista multiplica os estilos, as tendências, os espectáculos, os locais da arte; lança-se continuamente novas modas em todos os sectores e cria-se em grande escala o sonho, o imaginário e as emoções. E isto leva a “desdefinição” dos valores éticos e artísticos.

Hoje a arte torna-se um universo de superabundância ou de inflação estética que se molda diante dos nossos olhos: um mundo transestético, uma espécie de hiperarte, em que a arte se infiltra nas indústrias, em todos os interstícios do comércio e da vida comum. O domínio do estilo e da emoção se converte ao regime híper: isso não quer dizer beleza perfeita e consumada, mas generalização das estratégias estéticas com finalidade mercantil em todos os sectores das indústrias de consumo. Uma híper arte também na medida em que não simboliza mais um cosmos, não expressa mais narrativas transcendentes, não é mais a linguagem de uma classe social, mas funciona como estratégia de marketing, valorização distractiva, jogos de sedução sempre renovados para captar os desejos do neoconsumidor hedonista e aumentar o facturamento das marcas.

Olhando a realidade moçambicana, observa-se nenhum objecto, por mais banal que seja, escapa hoje da intervenção do design e de seu trabalho estilístico, até os produtos que outrora eram estritamente utilitários e tinham um pouco a ver com a dimensão estética (telefones, relógios, óculos, material esportivo ou de escritórios, roupas de baixo, transportes colectivos) são agora redesenhados por designers, quando não artistas de vanguarda, repaginados continuamente, transformados em acessórios de moda. Um estilo que se estende até aos territórios dos aromas, dos sons e das sensações tácteis. Aquilo que outrora Lipovetsky considerou de “O estilo como novo imperativo económico” (LIPOVETSKY & SERROY, 2014: 36).

Hoje não só em Moçambique, mas em todo canto do mundo, não se vende apensa um produto, mas estilo, elegância, beleza, coll, emoções, imaginário, personalidade. Como afirmou Lipovetsky & Serroy que “o mundo mercantil se tornou ao mesmo tempo valor de uso, valor de troca e valor estético: o capitalismo artista é esse sistema no qual industria e arte, mercado e criação, utilidade e moda, marca e estilo não são mais disjuntos” (Ibidem, 37). E tudo é pensado e realizado para parecer o que Lipovetsky considerou de “tendência”, seduzir, ser imagem e novo, produzir efeitos visuais e emocionais.

Os termos utilizados para designar as profissões e as actividades económicas hoje também trazem a marca da ambição estética: os jardineiros se tornaram paisagistas; os cabeleireiros, hair designers; os floristas, artistas florais; os cozinheiros, criadores gastronómicos; os tatuadores, artistas tatuadores; os joalheiros, artistas joalheiros; os costureiros, directores artísticos; os fabricantes de automóveis, “criadores de automóveis”. Assim, o capitalismo artista não criou apenas um novo modo de produção, mas favoreceu, com a cultura democrática, o advento de uma sociedade e de um indivíduo estético ou, mais exactamente, transes tético por não depender mais do estetismo à moda antiga, compartimentado e hierarquizado. Vivemos num universo quotidiano transbordante de imagens, de músicas, concertos, filmes, revistas, vitrines, museus, exposições, destinos turísticos, bares descolados, restaurantes que oferecem todas as cozinhas do mundo (Ibidem, 22). Nisto nasce uma nova ética, a chamada “ética estética hipermoda” que segundo os autores a ética estética hipermoderna se mostra impotente para criar uma existência reconciliada e harmoniosa: nós a sonhamos voltadas para a beleza, e ela é voltada para a competição (Ibidem, 24).

O aumento dos profissionais das artes não é o único fenómeno a ser levado em conta. O capitalismo artista também é o sistema que contribuiu para democratizar largamente a ambição de criar, com um número cada vez maior de indivíduos exprimindo o desejo de exercer uma actividade artista paralelamente a seu trabalho profissional, observa-se hoje no nosso belo País Moçambique a “desdefinição” da estética, isto porque grande número de amadores tem níveis equivalentes a certos profissionais. E graças às ferramentas informáticas e à internet, o fosso entre profissional e amador não para de diminuir. São incontáveis os artistas plásticos, os videomakers e fotógrafos amadores.

Com a época hipermoderna se edifica uma nova era estética, uma sociedade superestetizada, um império no qual os sóis da arte nunca se põem. Os imperativos do estilo, da beleza, do espectáculo adquiriram tamanha importância nos mercados de consumo, transformaram a tal ponto a elaboração dos objectos e dos serviços, as formas da comunicação, da distribuição e do consumo, que se torna difícil não reconhecer o advento de um verdadeiro “modo de produção estético” que hoje alcançou a maioridade. Chamamos esse novo estado da economia mercantil liberal de capitalismo artista ou capitalismo criativo, trans-estético.

Conclusão

Do que foi dito pode se concluir que se a hipermodernidade é caracterizada segundo Lipovetsky por consumos emocionais e indivíduos preocupados com a própria saúde e segurança, não será a ascendência da barbárie sobre as nossas sociedades. Segundo o mesmo, o erro de uma visão reducionista, será o de considerar o sujeito hipermoderno hermético e desligado do passado e do futuro, em que a cultura do presente é aquela que assume a eternidade desse mesmo presente.

Conclui-se também que tal conceptualização deixa passar excessivamente em branco as tensões paradoxais que animam o regime do tempo na hipermodernidade. Na hipermodernidade, a fé no progresso foi substituída não pela desesperança nem pelo niilismo, mas por uma confiança instável, oscilante, variável em função dos acontecimentos e das circunstâncias, isto é, vive-se hoje nas nossas sociedades o tempo dos híper, o hiperconsumo, hipercomplexidade e hipernarcisismo.

Não navegamos na dúvida de os tempos mudam ou não. O nosso mundo hipermediatizou-se, no qual o papel social da arte, ao contrário do que pretendem algumas afirmações, não está de forma alguma em declive, mas sim, está a mudar o seu sentido clássico, porque hoje valoriza-se mais as artes que não educam do que aquelas que educam, as artes hoje não possuem o valor artístico mas sim está virada a moda e ao consumo. Uma última ideia, a de que a cultura não só produz uma percepção do mundo, mas num sentido mais radical, produz a realidade. Hoje vive-se a “desdefinição dos valores estéticos”. Mas que volte a se valorizar as artes e a estética tem que se dar o seu valor nas sociedades.

Bibliografia

AUGÉ, M., Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 1992.

CASTORIADIS, C., Uma sociedade à deriva. São Paulo: Ideias e Letras, 2006.

CHARLES, S., Cartas sobre a hipermodernidade. São Paulo: Barcarolla, 2009.

HEGEL, G. W. F., Estética, a arte clássica e arte romântica, 2ª ed., Guimarães, Lisboa, 1958.

LIPOVETSKY, G., Entrevista concedida à Carla Ganito. Comunicação & Cultura, Lisboa, 2010.

____________., A Era do Vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. São Paulo: Manole, 2005.

LIPOVETSKY, G. & SERROY, J., A Estetização do Mundo: viver na era do capitalismo artista. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo. Editora Schwarcz S.A. 2014.

LIPOVETSKY, G. & CHARLES, S., Os Tempos Hipermodernos. Trad. Mário Vilela. Barcarolla. São Paulo. 2004.

www.google.com/gilles_lipovetsky_acessado_20_Março_de_2020


  1. Ernesto António Mubango Hoguane, frequenta o Mestrado em Ética e Filosofia Política na Universidade do Porto (Portugal). É Licenciado em Ensino de Filosofia com Habilitações em Ética pela Universidade Pedagógica de Maputo (Moçambique). Professor de Filosofia e Ética, Pesquisador de Filosofia Africana afeto ao Grupo de Estudos de Filosofia Africana e Relações de Género coordenada pelo Professor Catedrático José P. Castiano no Departamento dos Estudos Filosóficos e Culturais da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia da Universidade Pedagógica de Maputo. Pesquisador no Instituto Filosófico da Universidade do Porto em Philosophy Public Space.


    Autor da obra Em busca da Felicidade Perdida: Da Felicidade Individual à Felicidade Colectiva, pela editora moçambicana Inter Escolas Editores publicada em 2021. Vários artigos publicados em revistas científicas e jornais de opinião.E-mail: netohoguane@hotmail.com



  2. Gilles Lipovetsky nasceu em Milau no dia 24 de Setembro de 1944 é um filósofo francês, teórico da hipermodernidade, autor dos livros A Era do Vazio, O Luxo eterno, A terceira mulher, O império do efémero, A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo, entre outros. Em suas principais obras, sobretudo em A Era do Vazio, analisa uma sociedade pós-moderna, marcada, segundo ele, pelo desinvestimento publico, pela perda de sentidos das grandes instituições morais, sociais e politicas, e por uma cultura aberta que caracteriza a regulação “cool” das relações humanas, em que predominam tolerância, hedonismo, personalização dos processos de socialização e coexistência pacifico-lúdica dos antagonismos-violência e convívio. (www.google.com/gilles_lipovetsky_acessado_20_Março_de_2020) importa salientar que Lipovetsky é o autor do termo “híper”.


É Possível um Novo Caminho para o Cinema Português. “A Febre de Maria João” Mostra Como

Saiu sem levantar ondas, e é provável que continue sem o fazer, mas a curta-metragem de duração generosa – quase 30 minutos – “A Febre de Maria João” (2023; produção da responsabilidade de Maria & Mayer, Lda.) aponta um caminho curioso para o cinema português: simultaneamente estranho e conhecido, desconfortável e cómodo. Revelador de uma ambição invulgar no panorama artístico nacional, suscita mais questões que respostas, e nesse jogo, tantas vezes perigoso ou, pelo menos, arriscado, encontra um medium para se fazer ver – tarefa central de qualquer peça fílmica, mas sistematicamente em falha nos produtos das últimas décadas.

“A Febre de Maria João” tem uma narrativa e, como tal, tem uma sinopse. Não a exporei aqui, por crer que o melhor é ver a curta desintoxicado de expectativas ou previsões – o primeiro passo para a desilusão, de resto, é esperar algo de um objecto que não está disposto a oferecê-lo.

(Diga-se, de passagem, que essa característica é transversal às grandes obras, sendo uma espécie de formulação que encontraram para resistir à usura do tempo)

Ora, mais interessante do que discutir o que o filme oferece, é pensar naquilo que ele NÃO oferece. Do mesmo modo que a personagem principal – Maria João – vai ansiando por que o seu pai conte a história que ela há muito quer ouvir, sendo obrigada a aguardar pelo momento que mais convier ao velho, também o espectador é feito esperar por uma revelação que talvez apareça… ou talvez não; essa definição depende da forma como “A Febre” for vista: se a expectativa pretender uma resolução definitiva, linear, então irá necessariamente desapontar. Isto porque a revelação, existindo, exige esforço ao espectador: ela é desenhada frame a frame, diálogo a diálogo, latir a latir; é um processo que se arrasta no tempo, diluindo-se ao invés de se intensificar, naturalizando, assim, a própria ideia de revelação ou de conclusão.

(“A Febre de Maria João” não oferece, assim, um desenlace; no máximo, oferece o sintoma de um desenlace)

Esse é, precisamente, o fundamento do misticismo (ou, de maneira mais lata, da experiência mística), tão profuso na tradição, artística e social, portuguesa: ele revela-se pedaço a pedaço, linha a linha – é feito, não de um instante de iluminação, de uma epifania, mas de pequenos momentos interligados. Os irmãos Afonso e Bernardo Rapazote, responsáveis pelo argumento e pela realização da curta-metragem, parecem compreender exemplarmente esse facto, munindo todas as cenas de uma simbologia pululante. Nisto, as personagens não funcionam só como personagens: também funcionam como adereços, retratos vivos de um Tempo histórico (o rescaldo da Guerra Civil entre liberais e miguelistas/absolutistas) que, aqui, se afirma como lugar a ocupar. Elas tanto pertencem à História, como a História lhes pertence; a tendência de esgotar as possibilidades na primeira dessas relações, felizmente, não é, neste caso, consumada.

Só pelo trailer, é desde logo impossível não pensar num género específico: o Western. Os jovens realizadores fazem questão de no-lo recordar: há armas de fogo, um forasteiro, um cão a latir. Há um passado por desvendar. Há histórias por contar. Contudo, nessa tela perfeitamente conhecida por todos, há uma voz dissonante – a língua portuguesa; uma voz que resulta, primariamente, pelos excelentes diálogos escritos pelos irmãos Rapazote, que por entre os naturais arcaísmos e ditados caídos em desuso, acrescentam apenas o suficiente para ir construindo, com vagar, a teia anteriormente referida.

(Uma teia tão transparente que quase não se nota.

Uma teia que, pensando bem, talvez nem exista mesmo.

No fim de contas, é essa a experiência mística)

Dito isto, o que fica d’”A Febre de Maria João”? Ficam imagens fortes (o trabalho de fotografia e de realização assim o propicia), actuações convincentes por parte dos actores e da actriz; fica a dúvida seminal sobre o que acontece às personagens após a palavra “Fim” surgir no ecrã. Acima de tudo, fica um potente sinal de que é possível um novo caminho para o cinema português, um caminho em que a ambição não é medida pela dimensão do orçamento ou pelo espalhafato audiovisual, mas pela força da visão dos autores; visão essa que não quer simplesmente mostrar – quer dar a ver.

E dar a ver é, de forma muito particular, revelar. Mesmo o que não se quer, de modo leviano, revelado.

(“A Febre de Maria João” foi nomeada para sete categorias nos Prémios Curtas 2024 incluindo para Melhor Curta-Metragem de Ficção. Por motivos que provavelmente nunca farão sentido, nem a realização, nem o argumento, estiveram nomeados nas respectivas categorias)

A defesa do arquipélago da Madeira durante a Segunda Guerra Mundial

Resumo:

Pela sua localização geográfica, a Região Autónoma da Madeira constitui o vértice mais a sul do Triângulo Estratégico Nacional (TEN), que no período histórico em estudo, incluía Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. A Ilha possui uma grande importância no que diz respeito ao planeamento e execução de operações combinadas que tenham como Teatro de Operações (TO) o Atlântico Central, o Norte de África e o Mediterrâneo.

No contexto da Segunda Guerra Mundial, a Madeira, apesar de não possuir recursos naturais extraordinários, seria um local ideal para uma base aeronaval. Essa importância foi rapidamente compreendida pelos principais intervenientes no conflito e levou a que os respetivos Estados-maiores das potências em conflito, desenvolvessem planos de invasão e ocupação da ilha da Madeira.

Palavras-Chave: Segunda Guerra Mundial, Arquipélago da Madeira, Artilharia Antiaérea, Bateria de Costa, Exército português, Defesa Costeira.

Introdução:

A 1 de setembro de 1939, as forças armadas alemãs (wehrmacht) invadem a Polónia, dando início à Segunda Guerra Mundial. Portugal é rápido a assumir uma atitude de neutralidade para com as potências beligerantes, mas respeitando os deveres da aliança Luso-britânica.  Manter este estatuto neutral, tornou-se uma questão fulcral na política externa portuguesa, durante os seis anos de conflito.

No entanto, na conjuntura internacional da época, não era de descartar a hipótese de um ataque/invasão ao território nacional, e as ilhas atlânticas, pela sua localização geoestratégica, eram particularmente apetecíveis.

O espaço Atlântico, sempre foi um local, onde os interesses das potências dominantes entravam em conflito e no contexto da Segunda Guerra Mundial, cedo se percebeu que o domínio dos mares era fundamental para a vitória final. Aliás, uma das batalhas decisivas do conflito, travou-se neste oceano. Aqui é facilmente percetível a importância estratégica da ilha da Madeira. No caso da Alemanha, o porto do Funchal era o local era ideal para estabelecer uma base para os temíveis submarinos U-boot,[1] aumentando-lhes exponencialmente o raio de ação e capacidade ofensiva aos comboios navais aliados. Para os Aliados, a Madeira era uma alternativa viável em caso de perda de Gibraltar, que se encontrava sob ameaça de ocupação germânica, através da Operação Felix, bem como daria à Royal Navy, uma base naval para os navios que patrulhavam o Atlântico.

O plano de defesa da Madeira:

Com a derrota da França em 1940, e a aparente invencibilidade da máquina de guerra nazi, a possibilidade de o conflito alastrar à Península Ibérica, torna-se cada vez mais real. Perante as ameaças que pendiam, sobre o arquipélago da Madeira, o Governo português, aprova a elaboração de um plano de defesa que procurasse dotar e reforçar a capacidade defensiva da Ilha. Um fato deveras interessante é que o plano de defesa, foi designado sem mencionar um inimigo específico, logo, todos os que pretendessem prejudicar a soberania nacional, sejam do Eixo ou dos Aliados, deveriam ser considerados hostis.

Nas linhas orientadoras do plano, referia-se que os esforços defensivos, deveriam dar primazia à defesa do Funchal, capital da ilha e procurar aproveitar ao limite a capacidade humana disponível no Arquipélago. Ou seja, grande parte dos efetivos empregues na defesa, deveriam ser madeirenses.

O coronel Luiz Augusto de Sousa Rodrigues (1883 – 1972), um dos autores do plano de defesa, afirmava que pela distância da Madeira aos continentes europeu e americano e pelo relevo da ilha, sobretudo, eram muito improváveis ataques por via aérea, podendo considerar-se mesmo impraticável a invasão da Ilha por forças aerotransportadas.

A única maneira de invadir a Madeira, seria por meio de ataques por via marítima/anfíbios, apoiados, naturalmente, por bombardeamentos de unidades navais de superfície e ações de aviação embarcada em porta-aviões.

É interessante sublinhar que o plano de defesa da Madeira, assentava sobretudo na defesa costeira, com a construção de pequenos redutos defensivos ao longo da orla marítima, muitas vezes tirando partido de cavernas naturais existentes nos locais a defender para tentar impedir a projeção de meios anfíbios inimigos, tentando desse modo evitar que se estabelecessem testas de ponte nas praias.

Como objetivo secundário, as forças destacadas no litoral, deveriam causar o máximo de danos possível ao invasor e em última instância, atrasar a progressão das forças adversárias em direção ao Funchal. A capital era considerada um ponto-chave na defesa da Ilha e onde se deveriam concentrar os esforços defensivos. Relativamente à construção das defesas, é de salientar o papel da 3.ª Companhia de Sapadores Mineiros (expedicionária), unidade de engenharia militar deslocada a partir do continente e responsável pelos trabalhos de fortificação.

Segundo o conceito estabelecido, dever-se-iam construir na costa e nos pontos considerados sensíveis, uma rede de pequenos postos fortificados, encarregados, de uma maneira geral, da vigilância permanente do mar e do ar, e de oferecerem uma primeira resistência a qualquer tentativa de desembarque anfíbio por meio de barragens de fogos.

Para efeitos de organização tática, a Madeira foi dividida em sectores operacionais, cada um com uma estrutura de comando específica e com uma missão bastante clara atribuída, evitar a “todo o custo” os desembarques anfíbios em qualquer ponto da Ilha, atrasar e deter o avanço de forças inimigas que eventualmente conseguissem romper as defesas costeiras, e repelir, se possível, os atacantes de volta para a orla marítima.

Todos os esforços defensivos, tinham em conta um pormenor deveras importante, a Madeira, conforme a sua condição insular, só poderia ser atacada por mar ou pelo ar e nesse sentido as fortificações defensivas refletiam essa realidade. As lições da Primeira Grande Guerra, com os bombardeamentos dos submarinos alemães, em 1916 e 1917, sobre o Funchal, estavam bem presentes na memória dos madeirenses e era necessário evitar a sua repetição. O reforço da capacidade em se defender de ameaças marítimas, tornou-se primordial e nos primeiros meses de 1940, iniciam-se os estudos para a construção de uma bateria de defesa de costa.

Para a instalação desta fortificação, escolheu-se o Pico da Cruz em São Martinho, no entanto, a seleção deste sítio, não foi aleatória, pois o local possuía uma vista desimpedida sobre a baía do Funchal e sobre a praia Formosa, considerada o melhor ponto para efetuar desembarques anfíbios. Era uma posição com enorme importância tática devido à cota em que foi edificada e cujas peças podiam bater com fogo, uma grande extensão marítima.

As obras iniciam-se a 5 de julho de 1940, no entanto, as peças de artilharia só chegaram do continente no dia 25 desse mês a bordo do vapor Carvalho Araújo e segundo o relatório elaborado pelo capitão Agostinho Correia Basto e Pereira, só foi descarregado alguns dias após a chegada, por dificuldades impostas pela alfândega do Funchal.

Foi necessário, entretanto, também alugar e montar um guindaste no molhe da Pontinha, pois o que acompanha o material, vinha noutra embarcação, que fora desviada para os Açores. O transporte até ao Pico da Cruz foi, segundo a descrição, muito difícil e moroso devido ao peso avultado do dito material, cujas peças mais pesadas tiveram de ser levantadas com o guindaste para poderem ser carregadas nos camiões que as transportaram. Ao chegar ao topo do pico, que era o único local onde havia estrada, foi necessário montar um guincho e um cursão   para facilitar a descida dos materiais até ao local de instalação.

O declive e a distância a percorrer tornaram os trabalhos extremamente difíceis e penosos. É de referir que o tubo que compunha o cano da primeira peça levou 2 dias a percorrer cerca de 200 metros e que os pedestais das peças frequentemente enterravam-se no solo, sendo necessário recorrer a ferramentas manuais para a sua libertação.

O capitão responsável pelos trabalhos afirma, num relatório interno, que o material deslocado para a Madeira, se encontrava colocado na frente marítima de Lisboa e que não havia sofrido qualquer beneficiação antes do seu envio, encontrando-se com alguma ferrugem em determinadas peças.

Esta unidade foi designada como Bateria Independente de Defesa de Costa n.º 2 e era constituída por três peças Krupp 15/40 CTR m/902 com um alcance máximo de 14 km, a obra de construção ficou concluída no dia 21 de novembro de 1940, cerca de 139 dias após iniciada, um feito notável, tendo em conta que os trabalhos foram feitos na maioria, com recurso à força braçal. O capitão de engenharia Floriano Bernardo das Neves, foi o diretor da obra e recebeu inúmeros elogios pelo seu desempenho e pela rapidez de execução. No total, durante a construção, movimentaram-se 7000 metros, cúbicos de terras, utilizou-se 2000 metros cúbicos de betão, tendo sido empregues 130 trabalhadores.

Durante a Primeira Grande Guerra, o avião prova o seu valor enquanto arma, no entanto, é na Segunda Guerra Mundial que a sinergia entre os meios terrestres e aéreos se torna fundamental para o sucesso da manobra ofensiva. Naturalmente, a conceção de um plano de defesa contra aeronaves, tem como pressuposto inicial a identificação dos objetivos prioritários do ponto de vista do inimigo. No caso do Plano de Defesa da Madeira, a prioridade era proteger o Funchal, sobretudo o porto, a estação de cabos submarinos e a “Casa da Luz”[2]. O plano contemplava evidentemente as caraterização da potencial ameaça aérea, neste caso particular, devido às distâncias envolvidas, teriam de ser utilizados bombardeiros pesados de longo alcance, aviação embarcada em porta-aviões ou hidroaviões.

A primeira bataria antiaérea que chegou ao arquipélago a bordo do navio Lima em 10 de janeiro de 1942, foi designada por 7.ª Bataria de Defesa Contra Aeronaves e era oriunda do Grupo de Artilharia Contra Aeronaves N.º 1 de Cascais, a unidade pioneira na defesa antiaérea em Portugal, montada a partir de 1932 pelo depois coronel e engenheiro madeirense Ernesto Florêncio da Cunha (1890 – 1980), que fora governador-civil do Funchal entre 1927 e 1928.

Era constituída por 4 oficiais, 8 sargentos e 102 praças. A segunda bataria chega em março do mesmo ano, ficando classificada como 8.ª Bataria de Defesa Contra Aeronaves e provinha igualmente do Grupo n.º 1 de Cascais e com um efetivo idêntico. As peças antiaéreas foram instaladas em São Martinho. Ao longo de 1942, a Madeira receberá mais subunidades, que vão culminar na constituição do Grupo de Artilharia Contra Aeronaves n.º 5.

A Bataria de Referenciação equipada com projetores de origem britânica, desembarca na Ilha em 25 de junho de 1942, e em fevereiro de 1943, chegam à Madeira a 3.ª bataria equipada com peças de origem sueca Bofors 40 mm.

Neste período, completa-se o dispositivo de defesa contra ameaças aéreas e o arquipélago passa a contar com as seguintes unidades: 1 bataria de 9,4 cm. fixa em São Martinho, 1 bataria de 9,4 cm. fixa na zona do Palheiro Ferreiro, batarias Bofors 40 mm. dispersas por pontos estratégicos na cidade e a bataria de referenciação, que se colocava em pontos com boa visibilidade nas zonas altas do Funchal.

As peças modelos Vickers calibre 9,4 cm. M/40 MK II, de fabricação britânica, eram multifacetadas e possuíam características que também lhes permitiam efetuar fogo contra alvos de superfície, complementando assim a artilharia de costa situada no Pico da Cruz.

Após a Segunda Guerra Mundial, a Bataria de Costa n.º 2 manteve a sua operacionalidade, realizando-se exercícios com fogo real, até ao início década de 70 do século XX. O aumento da construção de habitações e hotéis, nas proximidades do Pico da Cruz, levou a que fosse necessário suspender a utilização de granadas de 15 cm. para a realização de fogo real.

Síntese Conclusiva:

A opção pela neutralidade adotada pelo governo português, durante a Segunda Guerra Mundial é algo que teve, de certo modo, alguma influência no final do conflito permitindo ao nosso país negociar com as outras potências, muito acima do seu peso político. Portugal tinha na “manga” três trunfos essenciais que lhe davam poder negocial: o volfrâmio, fundamental para o esforço de guerra, as ilhas atlânticas e os tratados de não agressão, com Espanha e com a Inglaterra (Tratado de Windsor).

Como referido ao longo da investigação, os arquipélagos atlânticos possuíam uma enorme importância geoestratégica para os beligerantes. Na conjuntura da época, a possibilidade de invasão ao arquipélago da Madeira, chegou a ser equacionada pelos Aliados e pelo Eixo. É provável, que se a Espanha franquista tivesse cedido aos apelos de Hitler para entrar na guerra ou mesmo se o Eixo ocupasse a Península Ibérica sem o consentimento espanhol, as ilhas da Madeira, Açores e Cabo Verde, seriam imediatamente ocupadas pelos Aliados, para cimentar a sua posição no Atlântico.

Se utilizarmos pressupostos elementares de geoestratégia, é fácil entender a importância do arquipélago da Madeira, neste contexto de conflito mundial, os beligerantes tinham necessidade de possuir pontos de apoio no meio do Atlântico, que lhes permitissem deslocar meios e homens para as zonas de conflito, bem como controlar o espaço marítimo.

Tendo em conta os meios militares mobilizados para a Madeira e todos os trabalhos de construção e requalificação de postos defensivos, podemos concluir que seriam insuficientes para conter e neutralizar uma ameaça naval/anfíbia significativa, sobretudo se o ataque partisse dos Aliados. No caso particular da Alemanha, que não dispunha de nenhum porta-aviões[3] operacional e tinha poucos meios de assalto anfíbio, o sistema defensivo, poderia oferecer alguma resistência.

Com a invasão da União Soviética em 1941 (Operação Barbarossa) o foco da Alemanha centra-se nas operações na frente Leste, a relutância da Espanha franquista em entrar na guerra ao lado do Eixo e o posterior arquivamento da Operação Felix, têm como consequência, um alívio da pressão sobre a soberania territorial portuguesa. Nesta conjuntura, a ameaça de invasão das ilhas atlânticas é cada vez mais distante.

O presente artigo, propôs-se através da consulta de fontes primárias, descrever as linhas gerais do plano defensivo da ilha da Madeira, bem como enfatizar a importância do arquipélago da Madeira durante a Segunda Grande Guerra, e contribuir desse modo para a divulgação de informações pertinentes e inovadoras relativamente ao importante património histórico/militar que esse conflito mundial nos deixou.

Fontes e Bibliografia:

Arquivo Museu Militar da Madeira (AMMM)

Caixa n.º 1 / Correspondência do Comando Militar da Madeira 1940-1945.

Caixa n.º 2 / Processo Informações e Operações/ Defesa da Madeira II G.M. 1941 a 1945.

Caixa n.º 3 / Processo Informações e Operações / Defesa da Madeira II G.M. 1941 a 1945. Pasta: Grupo de Artilharia Contra Aeronaves N.º 5.

Pasta: Construção da Bataria de Costa n.º 2 1940-1945.

BOTELHO, J., VICENTE, R. – Regimento de Guarnição N. º3 das origens à actulidade 1864-2008. Funchal. Grafimadeira. 2008.

RODRIGUES, Fábio – O aparelho Defensivo na Madeira na Segunda Guerra Mundial. Funchal: Universidade da Madeira, 2023. Dissertação de Mestrado.

  1. Em alemão: Unterseeboot, literalmente “barco submarino”, tradução do autor.
  2. Nome pelo qual era conhecida a atual Empresa de Eletricidade.
  3. Com a exceção do Graf Zeppelin, que, no entanto, nunca chegou a estar totalmente operacional.

Um Texto Sobre Relojoaria

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. Leia este texto e divirta-se muito a lê-lo. Quando terminar envie um e-mail a pedir mais ao editor. Possivelmente não vamos escrever mais porque somos pessoas muito ocupadas. Leia cada uma das letras como quem observa a mais linda das paramécias ao microscópio. Reflita sobre a nossa intenção na escolha de cada uma das palavras. Encare o conjunto de frases como quem encara um estereograma.

A escrita de um texto é um processo complexo que envolve múltiplas habilidades e competências, desenvolvidas ao longo de vários anos. Inicialmente, é fundamental adquirir uma motricidade fina apurada, essencial para não falhar as teclas do teclado. Esta motricidade é desenvolvida desde cedo, através de atividades lúdicas e educativas, como empilhar cubos num jardim de infância ou praticar o picar linhas numa folha com um pico, uma técnica pedagógica ancestral. Além disso, o treino com ferramentas como lápis, canetas e pincéis contribui significativamente para o aperfeiçoamento dessa capacidade.

Com um domínio da motricidade fina bem estabelecido, é crucial compreender as regras da gramática e áreas relacionadas. Estabelecidas as capacidades mecânicas tanto da motricidade como da gramática sobram as mais mentais, como a inteligência e criatividade. A primeira pode ser inata ou produzir-se ao longo dos anos, com ausência de empecilhos emocionais, ou com bastante treino. A segunda, a criatividade, resulta acima de tudo de uma boa capacidade para fugir ao aborrecimento, principalmente através da capacidade para inventar histórias, aventuras, praticando uma espécie de sonho acordado. Esta fuga ao aborrecimento cria também capacidade para resistir à frustração, só por si uma das capacidades mais importantes para qualquer escritor de textos. Textos como estes resultam portanto de vários anos de treino, que devem ter início à nascença ou até talvez antes disso. Agora que compreende o valor destas palavras, esperamos que envie muitos e-mails a pedir mais textos. Assim que o Editor os receber, vai pedir-nos para escrevermos mais. Nós vamos escrever menos, mas vamos passar a cobrar mais. Temos o editor em muito boa conta, e sabemos que vai imediatamente perceber a melhor estratégia: passar a entregar os textos individualmente a cada um dos leitores, em vez dos entregar a um público alargado de forma gratuita. Infelizmente, como somos pessoas muito ocupadas, não vamos mesmo produzir muitos textos, apenas alguns, naturalmente sempre menos do que o necessário para satisfazer a elevada procura. Entre todas as coisas que temos para fazer vamos, ainda assim, encontrar algum tempo para criar a empresa Textos, S.A. Esta infeliz situação vai lamentavelmente criar a necessidade de se organizarem listas de espera e com o aumento das listas de espera, é expectável que surjam textos de contrafacção. Estes serão muito semelhantes esteticamente, mas ficarão muito aquém da qualidade dos originais. Os afortunados que conseguem receber os textos originais, vão gabar-se de os ter na sua posse. A qualidade dos textos vai mesmo misturar-se com a sua própria personalidade, espera-se que a gabarolice inunde os círculos de amigos, de familiares, todas as redes sociais e, enfim, todas as possíveis formas de expressão. Em simultâneo, vão ser organizados eventos com acesso restrito, apenas por convite. Nestes eventos os textos vão estar expostos mas não vão poder ser lidos na totalidade. Serão organizadas feiras mundiais com dias específicos para imprensa especializada e outros para o público, na qual a Textos, S.A. estará presente. Serão criadas revistas sobre o tema, grupos de fãs que se encontram em vários países e onde serão feitos discursos e jantares sobre os textos que só alguns dos presentes leram. Todo este movimento, inevitável, vai aumentar as listas de espera. É natural, por esta altura, que o valor dos textos originais inicie uma subida sem precedentes. Como consequência vai ser criado um aumento dos textos de contrafação. Esta será uma dura realidade que terá de ser ignorada pela Textos, S.A., pois será impossível combater e, na verdade, até indesejável. Os detentores de textos originais vão querer curar as suas colecções, manter apenas os textos que sejam consonantes com o tema da sua colecção, os restantes serão excluídos. Mas tendo em conta a elevada valorização, a exclusão vai consistir numa venda por um preço de mercado. Por essa altura, vamos criar campanhas para mostrar como os textos da Textos, S.A. são tão preciosos e como não devem ser vendidos em mercados paralelos. Vão surgir slogans como “Nunca somos verdadeiramente donos de um texto, apenas o guardamos para os nossos filhos”. Se não funcionar vamos passar a criar listas negras para aqueles que vendem os seus textos. Como será de esperar, nada disto vai resultar e o mercado paralelo vai crescer. Por essa altura vão até surgir leilões onde os textos vão atingir valores nunca antes vistos, especialmente os que foram comprados por pessoas famosas que já morreram. Estamos a falar de vários milhões. Como por essa altura a Textos, S.A. vai ser uma empresa bastante abastada, vai comprar os seus próprios textos nesses leilões, mas sempre em segredo. Isso será não apenas um excelente negócio, como vai permitir o aumento dos textos no mercado paralelo. Como o mercado paralelo não vai parar de crescer, a Textos, S.A. vai passar, também, a comprar os seus próprios textos e a guardá-los nos cofres da empresa. Quando todos os cofres estiverem bem recheados vai começar a vender os seus textos em segunda mão, por um valor equivalente ao do mercado paralelo, talvez até um pouco mais alto. Só que não lhes vamos chamar textos em segunda mão, vamos chamar-lhes: textos vintage certificados. Passamos a ser então os produtores de textos novos com longuíssimas filas de espera a preços normais, e ao mesmo tempo vendedores de textos originais vintage certificados, por valores muito superiores ao inicial. Quando chegarmos a este ponto vamos escrever um texto, possivelmente um dos últimos, para uma revista muito reputada, na qual vamos denunciar todo este intrincado esquema, só que em vez de usarmos a palavra “texto”, vamos usar a palavra “relógio”. Por isso leia este texto enquanto pode, divirta-se muito a lê-lo, depois envie um e-mail ao editor a pedir mais, porque, sinceramente, temos mais que fazer.

O Ciberespaço como Dédalo: Em Busca de Uma Individualidade (Quase) Perdida

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Resumo

Embora pareça cada vez mais livre e autónomo, o ser humano tornou-se crescentemente dependente de mecanismos que passaram a fazer parte do seu quotidiano. O computador, por exemplo, trouxe alterações substanciais, a nível individual e coletivo, tanto em termos profissionais e sociais, como pessoais e familiares. A comunicação e aprendizagem são realizadas sem presença física, sem fronteiras, num território designado por ciberespaço. Tal lugar (ou não lugar) apresenta características dinâmicas e semelhantes às de um desafiante e perturbador itinerário labiríntico. Trajeto em constante transformação, sem um centro único, facilitador de ligações em várias direções e de todos os seus pontos, que avança num emaranhado de possibilidades que pode significar, entre outras coisas, a perda de individualidade.

Palavras-chave: dédalo, ciberespaço, arte, consciência individual

Introdução

No conto O Jardim de Caminhos que se Bifurcam, publicado originariamente em 1941, Jorge Luis Borges explica com detalhe e apoiado no surpreendente labirinto de Ts’sui Pen que, cada vez que um homem se defronta com diversas alternativas, opta por uma e elimina as outras. Mas, a eleita é, por vezes, o ponto de partida para diversas e novas bifurcações. «Ts’sui Pen, opta – simultaneamente – por todas. Cria, assim, diversos futuros, diversos tempos, que também proliferam e se bifurcam».[2]

Escolhemos esta passagem, por se afigurar representativa daquilo que pensamos ser o ciberespaço. Efetivamente este conto, ao apresentar-nos o labirinto como algo imaterial, que vive em vários espaços e tempos, impele-nos à reflexão acerca da simbologia e natureza do labirinto e, também, sobre a afinidade entre labirinto e a navegação no ciberespaço.

Com o propósito de esclarecer a noção de ciberespaço e o seu âmbito, pretende-se desdobrar a presente análise em três momentos. No primeiro momento, empreender-se-á uma reflexão sobre as diferentes aceções do conceito de labirinto. Relativamente ao segundo momento, procurar-se-á compreender a realidade intrínseca ao ciberespaço. Por fim o escopo será o de pensar de que forma a arte pode ser o derradeiro «santuário» da consciência individual.

1-Ponto de Partida: Compreender o labirinto

1.1-A Natureza do Labirinto

Uma leitura atenta do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea revela que a palavra labirinto comporta, no mínimo, duas aceções. A primeira apresenta o vocábulo «labirinto» como um desenho linear organizado por uma série de anéis concêntricos conectados de uma forma elaborada, delimitando um único e só percurso. Partindo de um ponto externo, este trajeto avança sinuosamente em direção ao centro da figura, percorrendo a totalidade do seu espaço interior num movimento contraível que se desdobra sobre si próprio através de sucessivas mudanças de direção.[3] Uma vez no ponto central, a única possibilidade de saída será inverter o sentido e refazendo todo o caminho até ao exterior. A forma clássica[4] do labirinto caracteriza-se, deste modo, por ser uma via-única, «unicursiva», traduzindo-se num «sofisticado padrão de movimento»[5] contínuo e ininterrupto que conduz, de forma rígida, até ao seu ponto central e sem que o seu visitante tenha possibilidade de escolha. A palavra labirinto tem ainda outra aceção e que é a do dédalo.[6] Um dédalo é um labirinto com muitos becos, onde as entradas e as escapatórias são distintas e podem ser múltiplas. Nem todos os circuitos são necessariamente percorridos e é indispensável uma ponderação de estratégias para que o emaranhado de possibilidades não dificulte a escolha. Este modelo de encruzilhada materializa-se, de alguma forma, na descrição, agora retomada do labirinto de Ts’ui Pen, que Jorge Luis Borges bem concretiza. «Era um caminho que descia e se bifurcava, entre várzeas indistintas e uma rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades».[7] e assemelha-se com «(…) aquele espaço de comunicação aberto (…) assente numa realidade multidirecional, artificial ou virtual incorporada a uma rede global(…)»,[8] entendido por Pierre Lévy como ciberespaço.[9]

https://www.gutenberg.org/files/46238/46238-h/images/i_044.jpg

Fig.1- (exemplo de um labirinto) Baccio Baldini, Labirinto de Creta, (Crónica de quadros florentinos).

Em Matthews, William, Mazes and Labyrinths, Longmans Green and Co., Nova Iorque, 1922 p. 18.

Fig. 2- (exemplo de um dédalo) Maze at Charleval (After du Cerceau) em Matthews, William, Mazes and Labyrinths, Longmans Green and Co., Nova Iorque, 1922 p. 104.

2-O Dédalo Rizomático como Emblema do Ciberespaço

2.1- Diferentes formas de perspetivar uma nova realidade

São vários os autores que entendem o ciberespaço como dotado de uma natureza labiríntica. Lúcia Leão,[10] por exemplo, refere que as características do ciberespaço são próximas das do dédalo, e que, mercê da sua natureza rizomática, sujeita-se a transformações e conceções sistemáticas. Relembra-se que o conceito de rizoma foi importado da botânica para a reflexão filosófica por Gil Deleuze e Félix Guattari. O seu intuito foi o de entender o pensamento como um sistema concetual aberto, dotado, ainda assim, de um lado oculto e inicialmente invisível, tal como sucede com as raízes de uma planta. Este processo oferece uma alternativa às formas tradicionais de representar e organizar o conhecimento e ambiciona estabelecer um modelo de pensamento não linear, que abarque a multiplicidade de conexões, sem privilegiar este ou aquele conhecimento. O mapa rizomático é feito de conexões, é aberto, «desmontável, invertível, suscetível de receber modificações constantes.» «Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social».[11] Da mesma forma os chamados «realistas virtuais», como Benjamim Woolley, e o próprio Michael Benedikt, entendem que o ciberespaço não é nem um simples espaço matemático, nem uma mera metáfora de ficção científica,[12] mas uma “nova fronteira”, um “novo mundo” que está aberto à ação dos novos “navegadores”[13] e “colonizadores”, tal como um labirinto com características rizomáticas.

Fig.3- A Fresh Rhizome of Cimicifuga Racemosa em LLOYD, John Uri; LLOYD, Curtis Gates. Drugs and Medicines of North America. Cincinnati: Robert Clarke & Company, [1886]. Acedido em 07 de junho de 2020, em: https://www.henriettes-herb.com/eclectic/dmna/index.html

O modelo ou sistema hipertextual (que entendemos ser o constituinte da natureza do ciberespaço) encontraria na metáfora do labirinto uma analogia não apenas com os processos de desnorteamento e de certa «perdição» na rede, mas também remeteria a tentativas de estruturação do conhecimento e de organização.[14] O poder gnoseológico do hipertexto, labirinto que abriria possibilidades de trajetos plurais, manifestar-se-ia na superação da autoridade do autor[15] «(…) podendo qualquer cidadão entrar e participar na produção e publicação de uma nova literatura»,[16] na supressão da distinção ou da hierarquia entre autor e leitor, nas transgressões e escolhas realizadas através de leituras múltiplas em textos não lineares e destituídos de autoridade e, ainda, através de uma subjetividade que conquistaria a liberdade e desenvolveria a criatividade. Para os otimistas do ciberespaço, como, por exemplo, John Barlow e Pierre Lévy, a dubiedade, o inesperado, o aleatório, a interatividade e a liberdade, presentes nos processos de navegação na «matrix»[17], seriam garantes da autonomia e facilitadoras dos processos de aprendizagem descentralizados, abertos, criativos e dialógicos. O leitor/navegador não apenas percorreria um labirinto, mas, também, construiria labirintos. Se, por um lado, essa oportunidade ampliaria o risco de não mais encontrar a saída do labirinto hipertextual, por outro lado, engrandeceria a possibilidade de encontros com o outro, assim como salientaria a aventura de construir novas formas de aprendizagem adequadas às indeterminações do ciberespaço. A natureza labiríntica do hipertexto, associada tanto aos riscos de se perder no ciberespaço, quanto aos proveitos advindos da navegação em percursos múltiplos e imprevisíveis, pode oferecer a ilusão de uma subjetividade que se enriquece com escolhas e aprendizagens que são independentes de determinações e instruções cerceadoras. Ainda assim, não se pode ignorar o perigo, anunciado pelos críticos do ciberespaço (como, por exemplo, David Lyon ou Mark Poster) de se descobrir no hipertexto uma liberdade de escolha circunscrita a programas e a oportunidades pré-definidas. Tudo isso contribui marcadamente para a produção de «seres humanos modelados e controlados» que acabam por estar multiplicados em bancos de dados dispersos, entre mensagens eletrónicas descontextualizadas, dissolvidas e ‘rematerializadas’ continuamente, em algum ponto da incessante transmissão de dados.[18] Esta preocupação é magnificamente retratada em filmes como Blade Runner, escrito por Philip K. Dick e realizado por Ridley Scott ou 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clark, e Stanley Kubrick. Estes autores instigam a uma circunspeção sobre esta inversão de paradigma e do aprisionamento do homem às condições impostas pelas máquinas, a perda de humanidade e de consciência individual decorrente dessa situação e o processo de mecanização do ser humano. No primeiro, os robôs («replicantes») tornaram-se tão avançados que se tornou impraticável distingui-los dos humanos. No segundo, o Computador Hal 9000 demonstra mais emoção e capacidades que os próprios tripulantes da viagem espacial. Antevê-se, nesta ambivalência entre a «high tech (alta tecnologia) versus low life (baixa existência)»,[19] que a analogia entre o ciberespaço e o labirinto tem um âmbito mais alargado. Não se trata, unicamente, de procurar os contornos da navegação labiríntica nesta espécie de agio,[20] mas de compreender, similarmente, como pode o homem evitar perder-se de si mesmo.

3-Um possível Caminho de Navegação

3.1-A Arte como o derradeiro «santuário» da consciência individual

«O artista intui a catástrofe» que se abaterá sobre a humanidade se se persistir na contínua desertificação metafísica, embora utilize estratégias próximas da toda-poderosa razão científica, tentando definir uma base moral que pretende estar alicerçada na «natureza eterna das coisas», necessitando para tal de alimentar a ideia de que provavelmente existirá uma verdade objectiva do próprio ser.»[21]

O mundo Ocidental apercebeu-se, nos finais do século xviii, de que estava em curso uma transformação essencial das consciências e das mentalidades, uma mutação que alcançaria o auge durante a primeira metade do século xix, mas que perduraria durante o século xx. Esta modificação resultava diretamente dos tumultos causados pela Revolução Francesa, pelas guerras napoleónicas e pela crescente industrialização.[22] Submerso num total encadeamento de crises, o Ocidente procurou socorrer-se de outros valores que não os da lógica, do empirismo científico iluminista e dos discursos apologéticos da tecnologia. Privilegiando a crença nas emoções subjetivas do indivíduo, artistas, escritores, compositores e intelectuais, que professavam o ideal romântico,[23] valorizaram a força das emoções, da intuição e do indivíduo. A liberdade da imaginação e da criatividade substituíram as regras, os padrões e a lógica. A mente humana era o veículo da natureza, sendo que o objetivo do artista era aceder a este reservatório de realidades superiores e expressá-las. Entende-se, desta forma, que o Romantismo não foi apenas um estilo, mas também uma atitude, ‘uma autorização’ para abandonar a lógica vigente e seguir o génio criativo. Os princípios preconizados por este movimento mantiveram-se ao longo de todo o século xix, e também durante o século xx. No entanto, a partir da última metade do século xix, esses fundamentos são visíveis apenas em pequenos grupos[24] que adotaram uma práxis altamente pormenorizada e naturalista, enraizada num passado espiritual medieval, que funcionou como parábola da sociedade moderna. Em vez das bases iluministas de nobreza e da virtude, a sensibilidade romântica privilegiou a emoção, a imaginação, a espiritualidade[25] e a supremacia da natureza, numa clara tentativa de retorno a um certo tipo de locus amoenus.

Fig.4- ROSSETTI, Dante, Gabriel, Beata Beatrix.ca. 1864-1870. Óleo sobre tela. The Tate Gallery, Londres. Em JANSON, Horst, Waldemar, ob. cit., p. 907.

O papel dos artistas que adotaram uma atitude «reformadora» consistiu em criar intermitências ou espaços intercalares no sistema dominante. Relembrando Baudelaire, na senda da desconstrução da ordem instituída: «A arte pode e deve libertar-se de normas pretensamente intemporais»,[26] constituindo um promissor ensejo de preservação da consciência individual.

Considerações Finais

O ciberespaço é um agio sem presença física e com fronteiras diluídas. Dotado de características particulares, o ciberespaço reúne múltiplas possibilidades que o aproximam a um dédalo rizomático. Reconhecido por ser um sistema aberto com inúmeras possibilidades de conexões e de modificações, este «lugar» é o «mundo de mundos».[27] O local virtual onde os processos de conhecimento são criativos e dialógicos, mas onde o risco de desnorte e de perda de individualidade, mercê da sua realidade multidirecional, representa uma forte possibilidade. Uma práxis artística que privilegie a emoção, a imaginação e o retorno ao eu poderá incentivar uma ponderação sobre o modo de enfrentar o confuso Minotauro da rede global, sem que isso signifique perda de identidade.

Bibliografia

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  1. Aluna do Doutoramento em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa e membro integrado do centro de Filosofia da Ciência.



  2. BORGES, José Luis, Ficções, Editora livros do Brasil, Lisboa, 1982, p. 29.



  3. Sobre a questão da morfologia labiríntica Cf. Kern, Hermann, Through the Labyrinth- Designs and Meanings over 5000 years, Prestel, Munique 2000, pp. 23-24.



  4. Esse tipo de significação e de construção encontra-se materializada no popular mito Cretense, onde nos é narrado que o «celebérrimo artista Dédalo» construiu um enigmático edifício com «(…) retorcidas curvas e contracurvas de corredores sem conta» (Cf. OVÍDIO, Metamorfoses, Livros Cotovia, Lisboa, 2007, §159, p. 2) predestinado a esconder e aprisionar o Minotauro, e a ser o local do cerimonial da «Ariadne de belas tranças». (Cf. HOMERO, Ilíada, Livros Cotovia, Lisboa, 2017, Canto xviii, §590-594, pp. 384-385).



  5. KERN, Hermann, ob. cit. p. 23.



  6. À imagem do que sucede com a língua inglesa relativamente aos vocábulos labyrinth e maze, na nossa opinião, deveríamos reservar o vocábulo labirinto para designar os percursos sinuosos unicursais, em que a entrada coincide com a saída, e utilizar o vocábulo dédalo para nomear os percursos multicursais, em que a entrada e a saída são distintas.



  7. BORGES, José Luis, ob. cit., p. 80.



  8. LÉVY, Pierre, Cibercultura, Editora 34, S. Paulo, 1999, p. 92.



  9. A palavra ciberespaço foi criada, em 1984, pelo escritor de ficção científica William Gibson, e utilizada nos seus romances Neuromancer (de 1984) e Count Zero (de 1987). Na ficção Neuromancer, Gibson descreveu o ciberespaço como uma «alucinação colectiva» e posteriormente aclara este conceito referindo que com o termo ciberespaço procurava «(…) o ponto em que a informação se agrega e nos envolve e que é a expressão máxima da exclusão do quotidiano. No espaço virtual, assim como descrito, podemos estar literalmente envolvidos no meio sem nos apercebermos do que realmente está à nossa volta» (em WOOLEY, Benjamin (1992), Virtual Worlds, Oxford e Cambridge, Blackwell, p. 121).



  10. Cf. LEÃO, Lúcia, O Labirinto da Hipermídia: Arquitetura e Navegação no Ciberespaço, Iluminuras, S. Paulo, 2005.



  11. Cf. DELEUZE, Gilles, Rizhome, Les Éditions de Minuit, Paris, 1976, pp. 30-32). Lévy afirma que o rizoma, pensado como metáfora para as redes, é constituído por nós intercomunicadores que conectam diferentes pontos, independentemente da sua natureza. Para o autor, o conceito de rizoma intensifica a perspetiva de horizontalidade dos modelos de comunicação e organização sociais, contrapondo-se à lógica hierárquica a que a sua expansão vertical nos remete. Cf. LÉVY, Pierre, A Inteligência Coletiva: Por uma Antropologia do Ciberespaço, Instituto Piaget, Lisboa, 1997.



  12. Cf. Woolley, Benjamin, Virtual Worlds, Blackwell, Oxford e Cambridge, 1992. (Capítulos sobre “Virtuality”, pp. 58-71 e “Cyberspace”, pp. 122-135) e Benedikt, Michael, First Steps, Mit Press, Cambridge,1991, pp .9-29.



  13. Não esqueçamos que etimologicamente a palavra ciberespaço deriva do prefixo cyber (em inglês), ou ciber (em português), remonta ao grego kubernetes e significa embarcação, governo ou controle. Cf. Saunders, Robert, Ethnopolitics in Cyberspace: The Internet, Minority Nationalism and the Web of Identity, Lexington Books, Nova Iorque, 2011, p. 50. É por esse motivo que utilizamos a metáfora “navegação” quando nos referirmos à utilização da internet.



  14. No labirinto clássico, foi o fio de Ariadne que serviu de guia a Teseu. Este fio não é só instrumento que possibilita encontrar o caminho de volta, ele é, também, o instrumento com o qual o navegador consegue avançar, pois os corredores não explorados não têm o fio. Os browsers, de uma forma geral, recuperam essa marcação do fio de Ariadne ao assinalar os sítios web já visitados. Cf. Lúcia Leão, ob. cit. p. 100.



  15. Esta questão da autoria das obras tem fomentado importantes reflexões, algumas das quais desprestigiando o papel do autor. Foucault, por exemplo, desenvolve uma crítica radical à ideia de autor, mais precisamente do par autor/obra, deixando transparecer uma recusa à categoria de autor e ao gesto biográfico, chegando a defender o anonimato rigoroso. Ele subverte, assim, os princípios éticos da autenticidade autoral consagrada desde sempre. O filósofo parte da ideia de que a figura do autor deve ser apagada em proveito das formas próprias aos discursos, o que o conduz a investigar o que este desaparecimento permite descobrir, quais os espaços, as lacunas, e as funções livres que estes espaços deixaram descobertos. Cf. FOUCAULT, Michel, «O que é um autor?» Em Bulletin de la Societé Française de Philosophic, 63.º ano, n.º 3, julho-setembro de 1969, pp. 73-104. (Société Française de
    Philosophie, 22 de fevereiro de 1969; débat com M. de Gandillac, L.Goldmann, J. Lacan, J. d’Ormesson, J. Ullmo, J. Wahl).



  16. Cf. Ferrão, Hugo, Hipertexto, Axis Mundi das Manifestações Tecnoartísticas, Lisboa, Arte Teoria, n.º 6, 2005, p. 4.



  17. Vocábulo usado por William Gibson em Neuromancer e que significava a representação simbólica de dados e caminhos de dados, existente na virtualidade em que Case (o personagem do livro) se envolve. Cf. GIBSON, William, Neuromancer, Aleph, S. Paulo, 2013, p. 24.



  18. Cf. POSTER, Mark, The Mode of Information- Post-Structuralism and Social Context, University of Chicago Press, 1990, pp. 15-16.



  19. FERRÃO, Hugo, (2005) ob. cit. p. 4.



  20. Acreditamos que, no que se refere à localização e constituição, o ciberespaço aproxima-se daquilo Giorgio Agamben entende por agio, e que é o lugar vazio (no fundo, um não lugar) em que cada um se pode mover livremente. Cf. AGAMBEN, Giorgio, A Comunidade que Vem, Editorial Presença, Lisboa, 1993.



  21. FERRÃO, Hugo, Imersão Tecnológica e Desertificação Metafísica, «Ilhas» e «Arquipélagos» Românticos – Nazarenos, Pré-Rafaelitas e Nabis, Arte Teoria, n.º 9, Lisboa, 2009, p. 2.



  22. HOBSBAWN, Eric, A Era das revoluções, Editorial Presença, Lisboa, 1992.



  23. O termo romantismo deriva dos romances góticos de Horace Walpope, caracterizados por uma atmosfera de denso negrume, que se tornaram muito populares em Inglaterra na segunda metade de Setecentos. O Romantismo foi divulgado, de início, em França por Jean-Jacques Rosseau e na Alemanha pelo movimento Sturn und Drang. Cf. JANSON, Horst, Waldemar, A Nova História da Arte de Janson, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2010, p. 842.



  24. Como bem refere o professor Hugo Ferrão, esses grupos são os Nazarenos, os Pré-Rafaelistas e os Nabis. Esses artistas formaram pequenas «ilhas», ou «arquipélagos» e utilizaram práxis artísticas e temáticas estéticas diferentes das praticadas no período, em análise. Cf. Ferrão, Hugo, (2009), ob. cit., pp. 2 a 12. e JANSON, Horst, Waldemar, ob. cit., pp. 904-910 e p. 943.



  25. Esta evocação da espiritualidade é nítida, por exemplo, em Gabriel Dante Rossetti, (um dos artistas mais conhecidos da irmandade Pré-Rafaelita) particularmente na obra Beata Beatrix (Cf. Fig.4). A imagem é um retrato de Elizabeth Siddall, incorporando a personagem de Beatrice. Tem uma qualidade nebulosa e transcendental, dando a sensação de um sonho ou visão que é preenchido com referências simbólicas. Rossetti pretendia representá-la, não no momento da morte, mas transformado por uma «súbita transfiguração espiritual».  Ela é colocada numa atitude de êxtase, com as mãos diante dela e os lábios entreabertos, como se estivesse prestes a receber a Comunhão.  (Cf. ROSSETTI, Dante, Gabriel, Carta de 1873, acedido em 10/06/2020 no website da Tate: https://www.tate.org.uk/art/artworks/rossetti-beata-beatrix-n01279 e JANSON, Horst, Waldemar, ob. cit., p. 907).



  26. CRUZ, Teresa, (Posfácio) em: BAUDELAIRE, Charles, O Pintor da Vida Moderna, Nova Veja, Lisboa, 2013, p. 13.



  27. Expressão utilizada por Emanoel Pires de Assis para definir o ciberespaço. Cf. ASSIS, Emanoel, em «Ciberespaço e pós-modernidade em Neuromancer de William Gibson». In Anais do VI ENECULT – Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura. Salvador, maio 2010: UFBA: FACOM. Acedido a 31/05/2020 no website da UFBA. http://www.cult.ufba.br/wordpress/24841.pdf, p. 7.


Edição: Abril 2024

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A Dualidade Litoral-Interior – Desafios e Oportunidades da Efetiva Coesão Territorial

Beatriz Salafranca escreve sobre a dualidade litoral-interior no contexto do continente português, como se trata de um processo social e político de relevância e como podemos colaborar com a governança para promover uma maior e mais eficaz coesão territorial.

Nanoestruturas de Celulose: Aplicações Tecnológicas Emergentes

Ana Catarina Trindade escreve como a celulose, o composto orgânico renovável mais abundante na Terra, é um polímero natural sustentável fascinante e quase inesgotável. As suas vantagens — disponibilidade, baixo custo, baixa densidade, não toxicidade, biocompatibilidade e biodegradabilidade — tornam-no uma boa escolha numa gama de setores.

E-Sports: Evolução, Estatuto e Benefícios

Flávio Justino traz-nos uma breve mas relevante peça sobre a recente popularidade dos jogos electrónicos a nível competitivo e profissional: o seu desenvolvimento, o seu estatuto enquanto desporto e os benefícios da prática.

Os grupos étnicos do Japão

Crónica de Ana Rosado sobre como os japoneses aparentam, para o observador externo, ser um povo homogéneo, mas as estatísticas antropológicas e sociológicas indicam o contrário: incluem o povo mais comum (a etnia Yamato) mas também os seus povos indígenas, pessoas de raça mista, e imigrantes residentes no Japão.

Helena Roseta, a pessoa que menos percebe de habitação em Portugal

Vem esta consideração a propósito da sua participação num podcast recente, onde, no decurso da conversa, se percebe a miríade de vícios, mal- entendidos, falácias, e, principalmente, o buraco negro gigante de informações parcelares, erros de facto e de juízo, e redondas mentiras, a que as pessoas fundamentalmente ideológicas se entregam.

Sobre como a Associação #NãoPartilhes é um Mau Exemplo, uma Falácia e Talvez um Logro

A associação #naopartilhes, à primeira vista, pretende prevenir a partilha de conteúdos íntimos na internet sem consentimento; no entanto, várias falácias, contradições e aversão à crítica levam a suspeitar que seja apenas um veículo de auto-promoção dos seus dirigentes.

50 anos de Democracia Liberal

Nota Editorial sobre Cinquenta Anos de Democracia Liberal

Celebração que inclui correcções históricas, a constatação de que quase ninguém celebra abril, a comunicação social, homenagem a todos os regimes que nos antecedem, que democracia não significa socialismo, música de intervenção, liberdade académica, monumentos, entre outras coisas.

25 Desenhos para o 25 de Abril

Vinte e cinco belíssimos desenhos do artista plástico Rui Cavaleiro para celebrar os cinquenta anos da revolução de Abril de 1974, que instaurou a democracia liberal em Portugal.

Jornalismo, democracia, censura: história e atualidade

Cinco alunos de Ciências da Comunicação da UTMAD escrevem sobre as diferenças na prática jornalística entre o regime do Estado Novo e a democracia actual: a censura, a liberdade, a internet, e como seriam notícias hoje se visadas pelo lápis azul.

De 1383 a 1974: uma analogia revolucionária

Recuperamos uma peça do jornalista e empresário António de Sousa Duarte que questiona se terão sido a Revolução Social de 1383-85 e o 25 de Abril de 1974 processos históricos comparáveis em face de um conjunto de factores semelhantes e susceptíveis de analogia formal e de substância.

As Angústias de Luísa

Novo trabalho caricaturístico de Pedro Brito, desta vez visando o recém- empossado governo e respectivo primeiro-ministro.

Caça ao Eros (uma travessia com George Bataille)

Rafael Rodrigues traz-nos outro ensaio, desta vez com uma viagem pelos contornos do conceito do erótico, pegando em textos da antiguidade clássica, com o auxílio de George Bataille e da sua obra fundamental O Erotismo.

Dois Apontamentos Históricos

João Manuel Almeida, exímio caçador de relevâncias e curiosidades da idade média portuguesa, traz-nos, na sua rubrica O Assento das Ensinanças, Citações de Dos Privilégios E Prerrogativas que o Feminino tem por Direito Comum E Ordenações do Reino mais que o Masculino, obra entregue a Sua Majestade D. Catarina de Áustria, dez alíneas das cento e seis da obra de Rui Gonçalves, professor de direito e jurisprudência romana em Coimbra, no sec. XVI, sobre os direitos da mulher no quadro legal português dessa época, e Um Desconhecido Livro Português de Receitas de Doces e Confeitos, do séc. XVIII., passagens de “Arte Nova e Curiosa para Conserveiros, Confeiteiros e Copeiros, e mais pessoas que se ocupam em fazer doces, e conservas com frutas de várias qualidades, e muitas receitas particulares que pertencem à mesma Arte”, de 1788.

Psicomúsica — Uma abordagem ao Psicodrama

Flávio Justino escreve-nos sobre o uso da música e a sua importância no contexto da psicoterapia. Esta abordagem, denominada por psicomúsica, foi utilizada por Jacob Levy Moreno, criador do psicodrama.

Entre o Caseiro e o Comercial: A Jornada da Cosmética Natural

Sara Garcia Diogo Gonçalves traz-nos uma breve crónica sobre como numa sociedade imersa em produtos de beleza embalados e promessas reluzentes, a procura pela verdadeira essência da beleza encontra-se no cruzamento entre cosmética natural caseira e a comercial.

Quanto custa ser relojoeiro?

Nuno Margalha escreve-nos na sua rubrica Boa Hora, e também como parte da nossa série sobre quanto custam várias coisas pouco conhecidas, e em parceria com o Instituto Português de Relojoaria, sobre quanto custa ser um relojoeiro.

Peace to Mutants 11 — Twin Cosmos, William Parker, Kazuhiko Kato

Cláudia Zafre brings us another Peace to Mutants with three obscure and interesting musical itens: ethereal and mysterious sounds from a Japanese duo, a jazz power-trio and delicate and transgressive synth-pop also from Japan.

Conversa: Autoras Portuguesas do Século XIX com Ana Paula Santos

Um registo vídeo da longa conversa da nossa Ana Vieira Vicente com Ana Paula Santos, livreira, sobre as várias mulheres portuguesas que, no século XIX, deram o seu contributo ao mundo das letras.

Crítica: Flor de Buriti de João Salaviza e Renée Messora já estreou nos cinemas nacionais

Crítica de Magda Veiga da Costa sobre este documentário-ficção, que mostra a luta de uma tribo indígena para conservar o seu território e cultura perante as ameaças dos cupe (homem branco) e da negligência do governo do Brasil em relação à agressão dos gananciosos fazendeiros que queriam a todo o custo aumentar a extensão das suas propriedades e número de gado.

Inquéritos sobre Neologismos Irritantes

Desde o advento não só das redes sociais mas também de pessoas que não sabem distinguir entre falar telegraficamente e escrever português decente — e cujas consequências naturalmente se arrastam até ao mundo conceptual — animámos, na plataforma Twitter, uma série de inquéritos informais sobre este tema. Eis os resultados.

A Estatuária do (e pós) 25 de Abril

Por último, três oldies. O primeiro já foi citado na nossa nota editorial sobre os cinquenta anos da democracia liberal, e é um episódio triste: a lamentável estatuária dedicada ao tema.

A Ciência no Cinema

Vitoria Stilman escreve sobre como se realizavam os primeiros filmes, que instrumentos eram utilizados e a evolução dos mesmos, desde o século XIV até os dias de hoje, assim como o efeito que o cinema produz em nós, na nossa percepção e nas nossas mentes, desde o uso dos efeitos sonoros até mesmo às especificidades das cores.

Literatura e Liberdade na Pop de Lana Del Rey, PJ Harvey e Lorde

E, por último, Ana Sérgio apresenta-nos um texto delicioso sobre o contraste entre o lirismo especificamente feminino de três intérpretes e a figura mais comum do pop da segunda década do sec. XXI (Taylor Swift, Katy Perry, etc.).

Al-Mayassa bint Hamad bin Khalifa Al Thani, responsável pelos museus do Qatar, presidente do Doha Film Institute, e impulsionadora do Fashion Trust Arabia, uma das patronas mais importantes da arte no mundo árabe.

Peace to mutants #11 — Twin Cosmos, William Parker, Kazuhiko Kato

Ethereal and mysterious can be two appropriate adjectives to describe the music of Twin Cosmos, a Japanese duo comprised of twin brothers Morihito& Yasuhito Ito. 

Born in 1953 in Yokkaichi, the twin brothers soon developed an interest in space travel and spirituality and their father, an electrician motivated Morihitoto build his musical equipment. He also found work in the instrument and audio section of a department store which enabled him to keep up to date with the latest technologies. The other twin, Yasuhito developed an interest in philosophy and the arts. He was particularly inspired by artists like Sun Ra and Jonh Cage and soon adopted a very DIY attitude. 

The album “Double action” was completed at Victor Studios in Japan. It was mostly distributed and sold to family and friends and remained obscure. Even though not achieving commercial success, the duo of twins continued to make music for over the past four decades. 

It’s an interesting and peculiar album, since each side belongs to one of the twins. Side A was recorded by Morihito. His compositions are lucid and luminous. An oneiric ambiance is created through the use of dreamy synths, gentle guitar strumming and flowing vocal harmonies.  Side B recorded by Yasuhito assumes a darker tone and some experimental leanings are shown. In the end, both sides complement each other for there can be no light without darkness.

William Parker – Mayan Space Station

Captivating and electrifying album by William Parker that defies  conventions and brings a new game to the table. Over his long and prolific career as a bassist and composer, William Parker has collaborated with a vast array of musicians, poets, singers, painters and other artists and in this album he collaborates with drummer Gerald Cleaver and guitarist Ava Mendoza, creating an energic power-trio. 

Mayan Space Station dares to explore and unleash new boundaries while still mainting melody and familiarity within jazz. 

Kazuhiko Kato – Belle excentrique

 Delicate and a bit transgressive synth-pop from Japan. Kazuhiko Kato was born in Japan in 1947 and was a record producer, songwriter and singer. He was a member of the Folk Crusaders and established himself in the music world during the 60’s. He also gained worlwide recognition with Sadistic Mika Band, a project he started with his first wife Mika Fukui. Afterwards, Kazuhiko started to collaborate with a stellar array of musicians, most from YMO (yellow magic orchestra) such as Akiko Yano, Kenji Omura and Hideki Matsutake.

Nota Editorial sobre Cinquenta Anos de Democracia Liberal

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Esta é uma nota editorial sobre um aniversário de vinte e cinco anos, ou melhor, perdão, cinquenta anos — já tudo parece o mesmo, tal é a lentidão conceptual, histórica e tudo o mais deste pequeno país que alguns descrevem como atrasado, ortodoxo, retrógrado e conservador, a que chamamos de por-tu-gal. A questão aqui a tratar hoje é a Revolução de 1974 e o romantismo/saudosismo/modo de ser atrasado/vigília constante na espera de um pai salvador da espécie mais adequada ao tempo histórico/etc., l que a evocação do “dia inicial inteiro e limpo” frequentemente oferece, mas também o carácter especificamente maniaco desta era em que vivemos, em que um sistema democrático de sufrágio universal acaba por encerrar exactamente os mesmos problemas a nível conceptual que já eram evidenciados pelo antigo regime e por todos os outros antigos regimes. A democracia liberal não resolve todos os problemas, nem é necessariamente o regime que mais agrada a todos e a qualquer um.

Correcções históricas de facto e de categoria

Em poucas linhas, permitam-nos começar por estabelecer correcções de raiz histórica quanto a factos e de categoria relacionados com a data: (1) os movimentos que se opunham ao antigo regime tinham em comum o apreço pelo liberalismo cívico e não eram necessariamente de “esquerda” nem de “direita”; (2) o golpe de estado que finalmente o derrubou partiu de uma questão corporativista militar, e os movimentos políticos a ele ligados não tiveram um papel de todo fundamental; (3) forças de extrema-esquerda, como, principalmente, o partido comunista, não queriam nem nunca quiseram, pela própria natureza da sua ideologia, a implantação de uma democracia liberal “burguesa”, como eles dizem; não os devemos parabenizar por isso; (4) ainda assim, questões de poder político e militar fizeram com que o clima intelectual nesse Portugal de 74, sempre atrasado em relação ao resto do mundo, criassem um artificial consenso de que Portugal iria ser uma sociedade “socialista”, seja lá o que isso for; (5) partidos políticos de direita foram proibidos logo a seguir à revolução, e inscreveu-se um artigo na constituição nesse sentido, para evitar que forças ligadas ao antigo regime tivessem participação na nova democracia; (6) como todas as democracias, esta começou de forma imperfeita e tendenciosa e, como todos os golpes de estado em Portugal, quase nenhum espaço à mesa foi dado à parte vencida. De resto, a data é mais um menos unânime entre os portugueses como bem-vinda, apesar de algumas fortes asneiras logo posteriores.

Quase ninguém “celebra abril”

Sendo nós uma ponte entre o mundo académico e a sociedade civil, gostamos que as coisas circulem nos dois sentidos. Por isso, tantas vezes vemos o que as elites intelectuais pensam e dizem como um perfeito conjunto de disparates longe da vida real das pessoas. E vemos a vida real das pessoas com grande respeito, apreço e proximidade. Apesar de estarmos todos, por profissão ou vocação, no grupo dos primeiros, sabemos reconhecer as limitações tremendas do mesmo, da sua vida, das suas contingências sociais, da sua metodologia, do seu corporativismo e dos seus preconceitos. Conhecendo as pessoas reais, estamos à vontade para dizer o seguinte: só existem três ou quatro celebrações realmente transversais na sociedade, e o 25 de Abril não é uma delas. O Natal, os aniversários, a Páscoa e porventura o Carnaval são quatro celebrações verdadeiramente transversais e unânimes, talvez existam outras, além do conjunto de festividades locais, muitas delas associados a costumes pagãos traduzidos para a linguagem católica e transformadas em feiras, procissões, festivais. Mas, modo geral, ninguém “celebra abril” pela simples razão de que tudo o que essa mudança de regime unanimemente propôs fazer ficou feito poucos anos depois da sua implantação. Fez-se uma democracia liberal, onde vigora a liberdade de expressão e pensamento, a liberdade de associação e o primado do indivíduo. Livraram-se das colónias, bem ou mal. E abrindo os cordões à bolsa e terminando o isolamento e conservadorismo financeiro do antigo regime, investiu-se largamente, bem ou mal, dinheiros públicos, dívida e conversa fiada na modernidade, sendo a adesão à comunidade europeia uma continuidade disso. Tudo ficou cumprido. Não há qualquer necessidade de celebrar abril, uma mudança de regime bem-sucedida ou em que, pelo menos, os prós superam os contras — é a opinião da maioria da população — mais do que há necessidade de celebrar o cinco de outubro ou o primeiro de dezembro — importantes datas que celebram eventos políticos cuja celebração mais entusiasmada é acompanhada apenas por uma minoria dedicada, tal como a de abril. Só que a de abril inclui um credo largamente acompanhado e incentivado pela comunicação social.

A Comunicação Social

Os mediadores, neste caso a comunicação social, à semelhança dos anteriores equivalentes mediadores, tecem os louvores do regime atual. Parecem vinculados a uma dependência do mesmo, talvez sob a crença de que é só graças à instauração de uma democracia liberal que têm a liberdade de realizar a sua profissão em plenitude, consideração que compreendemos. Mas nunca se ouve da boca dos mesmos uma única palavra crítica face ao regime. Aos políticos em específico, sim: ao regime, não. É proibido. Não se percebe porquê: se o mesmo mudasse — para um regime presidencialista, para uma democracia musculada, mas seguramente não para uma ditadura, praticamente impossível no quadro ocidental hoje —, poria em causa a sua própria sobrevivência? Ou simplesmente se tornariam os mesmos mediadores sicofantes que são hoje adaptados à conjuntura de então? Quanto à população em geral, manifesta-se inicialmente apoiante do regime corrente mas depois progressivamente céptica (no caso presente, os níveis de abstenção nas eleições assim o atestam, até à chegada recente de um partido parcialmente de protesto de enorme sucesso). Modo geral, fora de parvoíces, não existe qualquer dúvida de que vivemos numa democracia e de que antes não vivemos numa democracia nem nada que se parecesse. Mas, nesta descrição das coisas — que não parece ser de grande modo pouco exacta — existe assim tanta diferença entre uma pseudo-democracia que mais concretamente poderia ser descrita como uma ditadura, o regime do estado novo, e uma democracia imperfeita que nunca em termos normativos poderia ser descrita como uma ditadura, mas cujos cidadãos, cujas elites, e cuja natureza humana dos seus participantes incide exatamente de modo geral no mesmo sentido?

Todo o passado permitiu chegarmos aqui

Esta é a questão que queremos deixar, com enorme saudações a todos os regimes históricos e sistemas sociais existentes desde sempre e que também nos permitem estar aqui nesse preciso ponto e neste preciso lugar. Neles incluímos o feudalismo, a idade da pedra, a escravatura, as tropelias do totalitário marquês que tem direito a estátua no centro de Lisboa, a ocupação filipina, a guerra colonial, os referendos do aborto e da regionalização, alcácer-quibir, a ocupação muçulmana, a reconquista, a expulsão dos judeus, a cloaca da primeira república, os protozoários, a vida unicelular e o grande nada que antecedeu a explosão ontológica que nos deu origem a todos há mais de milhões de anos atrás.

Os “valores de abril” não são a extrema-esquerda

Importa dizer que a proibição dos partidos políticos de direita pelo MFA resultou num regime inquinado à partida, extraordinariamente esquerdista em todas as suas representações. O povo, ignorante dessas coisas, portanto enormemente cheio de sabedoria de outros tipos, foi votando no que lhe mandavam votar, aplicando também o seu próprio critério intuitivo modelado pelos séculos de existência comunitária. E também dizer que a instauração de uma democracia liberal não implica de modo nenhum, e é muito larga medida oposta, à ideia de uma agenda marxista de transformação da sociedade. Apesar de por vezes parecer, e mesmo por vezes não parecendo, é necessário voltar a sublinhar aqui que a maior parte das pessoas em Portugal não se identifica todo com uma distribuição absolutamente igualitária da riqueza material, e nem sequer vê a vida exclusivamente como redutível a riquezas materiais. E muito menos vê a política como solução salvífica para todos os seus problemas. Quem vê as coisas assim, no presente momento histórico, são os avós, os pais, os netos e os sobrinhos de certas classes intelectuais que encontraram na teoria marxista a maneira mais entusiasmante de juntar o caráter ocioso da sua atividade intelectual e o carácter inútil da sua atividade social, num composto através do qual convenceram tais agentes que seria possível fazer um mundo melhor. A teoria marxista é hoje um rotundo falhanço a quase todos os níveis, para não dizer mesmo todos, tem a mesma utilidade e a mesma idade da locomotiva a carvão e deve continuar a ser estudada como artefacto histórico mas seguramente não como uma teoria válida de transformação do mundo, dada a total falência das suas aplicações práticas. Em Portugal, alguns dados objetivos que fundamentam tudo isto que estamos a dizer incluem: a taxa de abstenção presente, a votação da extrema esquerda no seu todo nunca ter ultrapassado os 20% e em geral se situar numa média entre os 10 e os 15, a classe média, mesmo que remediada, ser numerosa, e não existir adesão significativa a coletivos ideológicos, apenas à igreja católica apostólica romana e aos clubes de desporto.

Música de intervenção

A liberdade académica no estado novo

Um aspecto que é particularmente importante e relevante para nós é a possibilidade de se discutir, sem fantasmagorias nem romantismos, a real situação da liberdade académica durante o estado novo. A impressão que temos, pelo que nos transmitem as pessoas que viveram a época — não temos ninguém na nossa equipa de faixas etárias que tivesse a possibilidade — é que as universidades, ou melhor, os conteúdos leccionados nas salas de aulas das mesmas, não era um objeto de muito particular repressão política. É importante distinguir isto, é claro, do facto de as universidades, como pontos de conglomeração de novas gerações, terem sido o palco de discussões sobre o regime, a democracia, sistemas alternativos de governo, e naturalmente de movimentos formais ou informais de resistência ao sistema vigente de então. Dado isso, existiram naturalmente crises, perseguições e e exercícios de violência concreta que tiveram como palco a universidade, ou melhor, o campus. Mas não nos referimos a isso: essa é a dimensão contingente da existência universitária, sendo esta uma instituição que, ao contrário do que muitos pensam, não nasceu para “mudar o mundo“, mas sim para pensa-lo. Esta é a nossa posição. Assim, por terem existido muitas pessoas que estavam na universidade a exercerem atividades de resistência contra o regime tendo muitas vezes como palco o campus da própria universidade, não quer isso dizer que isso represente a atividade principal das universidades, tal como trocas comerciais não representam atividade principal das igrejas ou relações de amizade não representem atividade principal do ginásio, embora sejam coisas que possam coexistir. Quanto a liberdade académica tout court, era possível discutir o que era o regime, o que era igreja, que outros tipos de regimes é que existiam, o que era o comunismo, o que era o capitalismo, o que era o colonialismo, tudo o mais. O que não era possível, como também não era possível cá fora, era fazer propaganda política que pusesse em causa os fundamentos do estado ditatorial que se vivia.

Galeria de Monumentos do 25 de Abril: uma panóplia de aberrações

Convidamos todos a espreitarem o artigo que publicámos há uns meses com um brevíssimo panorama de uma desgraça nacional: os ajustes directos feitos por câmaras municipais para feitura de obras de arte de duvidosa qualidade, subordinadas a todos os tópicos, mas neste panorama em particular, dedicadas à data da revolução de 1974. Galeria em baixo:

Uma democracia liberal tem necessariamente de incluir forças anti-democráticas

Voltando atrás no raciocínio, na continuação da celebração de abril, desenvolvamos o seguinte tópico: uma democracia liberal tem necessariamente de incluir forças anti-democráticas.Em certa medida, os idealistas metafísicos que clamam pelos “valores de abril” são como quem clama pelos valores do estado novo: estão a pensar num sectarismo político totalitário muito específico e não numa democracia plural. A democracia liberal quer dizer precisamente que a vontade popular é absolutamente livre de escolher uma sociedade com participação forte do estado em áreas como saúde e educação ou se prefere um estado mínimo, autoritário e nacionalista. Nesse sentido, nenhum quadro basilar de princípios necessários à cidadania colhe obrigação, se incluir sistemas políticos desenvolvidos além da soberania do indivíduo. Sistemas compulsórios de saúde ou educação são como serviço militar obrigatório, nesse sentido. De resto, uma democracia liberal, o regime das possibilidades por excelências, que não inclua no seu quadro a possibilidade da sua própria negação é uma contradição em princípio e em termos: convém aliás lembrar que, de acordo com o progressismo que parece animar tantos entusiastas do sistema, se algum dia descobrirmos um regime que seja superior à democracia liberal mas ao mesmo tempo de algum modo anti democrático, não o conseguiremos implantar através de meios democráticos (por muito complexo e contraditório que este estado de coisas seja). Por isso uma democracia liberal que não inclua a possiblidade da sua própria contradição não é uma democracia liberal.

Dois pontos ainda: liberdade é prosperidade? E uniformidade e descontinuidade no Estado Novo

Se não é próspero, não é livre? Se não está livre, não é próspero? O regime chinês, com o “comunismo de características chinesas”, reformulou a partir de tradição oral o dogma marxista: a teoria científica foi transformado numa caça de ratos com gatos. Depois, faz sentido falar de todo o período do estado novo como uniforme em certas coisas (censura, falta de liberdade de expressão e associação em geral) mas não noutras (desenvolvimento económico, liberdade de actividade universitária — que não é “activista”, etc)? Outros pontos em que o progresso chegou antes da revolução de abril e que reflecte um movimento de desenvolvimento social e económico, também ligado ao capitalismo e à globalização: o estatuto da mulher; a liberdade académica; algumas liberdades políticas, sempre imperfeitas; o desenvolvimento económico, muito forte a partir da segunda grande guerra; a neutralidade neste conflito, gerida de forma muito benéfica, este ponto algo de bom sobre Salazar, a sua persistência na segunda guerra, mas a incapacidade de se adaptar depois, Caetano também; etc.

Epilogo: Waterloo

Waterloo. Um enunciado possível para o anterior regime ou para o novo, igualmente: “I feel like I win when I loose”. Nada mudou.

25 Desenhos para o 25 de Abril

Ceifeira.
Carga policial. 
Um disco de José Afonso, ou melhor, a capa de um disco. Uma memória.
Uma história, ou melhor, o começo da história.
Uma reunião de estudantes, em que se discutiu « como combater o fascismo ». 
Medo.
“A cadeira que fez aquilo que a bomba não fez”
Ocupação na reforma agrária.
Otelo.
Cravo Punho.
A fuga dos fascistas: nesse dia, em 1974, uns ministros se esconderam numa sala recôndita de um ministério do Terreiro do Paço. Depois, escavaram um buraco para a rua e fugiram com a ajuda de uma escada. É essa divertida peripécia que eu represento neste desenho em 3D.
Um poema visual.
Um soldado a retirar uma fotografia da parede . Não está a colocar uma fotografia na parede, não se iludam.
Povo na chaimite.
Adriano Correia de Oliveira.
Ceci n’est pas une pipe.
Francisco Sousa Tavares sobe para uma guarita e fala às massas, anunciando a rendição de Marcelo. Não deste Marcelo, do outro, claro.  O Sousa Tavares vestia um impecável fato cinza , com um lenço de seda no bolso da frente.
O momento em que os revolucionários começaram a ser aplaudidos pela multidão, que devia ter ficado em casa , mas não ficou.
Os manifestantes desfraldam uma enorme bandeira vermelha, perante a estupefação dos polícias.
“Um pide em cuecas”. Os militares deviam revistar os pides para verificar se levavam armas.  Esta cena foi real, mas eu resolvi não retratar o verdadeiro pide, que era gordinho e tinha uma barriguinha . Por razões estéticas, desenhei um tipo mais elegante. Liberdades de artista.
José Afonso.
O o primeiro telejornal não censurado. O Balsinha e o Fialho Gouveia puderam ler as notícias sem que ninguém lhes dissesse, “isto sim, isto não”.
Salgueiro Maia.
“O Preso de Caxias”. Entristece-me dizer que ninguém   adivinhou quem seria, mas é o Palma Inácio, esse mesmo. Aqui o podem ver no dia da sua libertação. “Ou saem todos, ou não sai nenhum!” disseram os presos.
O cravo gigante.
É verdade que a partir de determinada ocasião as coisas não corriam tão bem. Os jornalistas inventavam notícias, o militares enervavam-se, os espiões eram mais do que as moscas. Então, um dia, um jovem capitão teve de ler um comunicado, com a sua voz serena, para acalmar os mais agitados. 

Ode Marítima (Segundo Movimento)

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Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,

Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido,

Olho e contenta-me ver,

Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.

Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.

Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.

Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,

Aqui, acolá, acorda a vida marítima,

Erguem-se velas, avançam rebocadores,

Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.

Há uma vaga brisa.

Mas a minh’alma está com o que vejo menos.

Com o paquete que entra,

Porque ele está com a Distância, com a Manhã,

Com o sentido marítimo desta Hora,

Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,

Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,

E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.[1]

É fundamental reconhecer uma abordagem particular de leitura para o poema Ode Marítima, de Álvaro de Campos, que não pretenda ser um método definitivo. Ao expressar isso, quero lembrar aos especialistas que o estudo de poesia exige aventurar-se além dos limites do que já se sabe sobre o próprio poema, a fim de que possamos compreender e apreciar plenamente os princípios que sustentam a autonomia poética.

Esse último encontro acontece durante a chegada do primeiro paquete. É cedo, e, sob forte iluminação, a fisicalidade dos objetos em qualquer paisagem torna-se instável. A abundância de conceitos oprime. O presente, o fugaz e o eterno se manifestam definitivos. Nisso mora o cansaço e o tédio, que, pela sua existência tangível, esgota as faculdades de contemplação, “onde se instala a indiscutível intervenção do sobrenatural e o começo da angústia, sob o qual agoniza o espírito há pouco poderoso”[2].

Tanto aqui como ali, a Ode Marítima mostra a sua existência e a natureza misteriosa dos seus traços. Quaisquer ideias de localização, espaço e limites perdem o sentido. A forma tangível dos seus limites não pode ser simplificada em algo claro e imutável. Os seus versos superam o que pode ser percebido como irreal e, por meio da linguagem, expressam a potência dos símbolos marinhos, que, fragmentados e ocultos, se transformam no domínio das objetividades náuticas, que há muito são restringidas por interpretações limitadas.

A chegada do paquete, que entra pela barra após cantadas todas as épicas, liga-se à existência de cantos anteriores, surgindo como murmúrio do passado[3]. A compreensão do poema parece acenar à profunda ligação de Álvaro de Campos com tudo que, em sua abordagem apaixonada e dinâmica, se apropria dos múltiplos elementos da vida marítima como forma de compreensão. Nesse sentido, portanto, a ondulação dos versos capta a natureza das sensações, revelando o complexo funcionamento das substâncias existentes no mundo do mar, ou seja, tudo “se desfaz e se desconstrói no próprio movimento pelo qual se edifica, se instala e sistematiza”[4].

O paquete guarda o destino da navegação, como todas as criações que aguardam o seu tempo. Assim, embarcando em sua jornada, fluindo com o sonho das águas[5], o percurso da Ode Marítima compreende a maneira da arte alternativa, encapsulando os destroços (heranças) dos naufrágios e das entidades marítimas – no poema, “reflete-se a crescente autoalienação do indivíduo que faz o inventário do seu passado como haveres mortos. […] A alegoria abandonou o mundo exterior para se instalar no mundo interior. A relíquia vem do cadáver, o souvenir vem da experiência morta que, eufemisticamente, designa-se de vivência”[6]. No entanto, quanto mais perseguimos a tudo isso, mais nos afastamos “para poder encher toda a medida da nossa fúria imaginativa”[7], suportando o peso da verdade, a ira dos oceanos, resistindo ao ímpeto de rotular o exílio que os versos do poema imortalizam a partir de nossas partidas – que agora parece ser o mundo inteiro. Aqui jazem os destroços da Ode Marítima como conteúdos confusos de uma gaveta lançada ao chão[8].

Nesse sentido, a Ode Marítima supera as críticas e exige um leitor que descubra a verdade que molda a sua essência. Isto significa desconsiderar qualquer perspectiva que diminua a sua integridade artística e reduza o poema a um mero fato. Infelizmente, muitos estudos dedicados a Fernando Pessoa caíram nesse abismo. O próprio poema, no entanto, solicita que os seus leitores reconheçam a sua potência como fluxo em constante mudança – como ondas “dando de encontro a rochedos”[9]. É somente por meio desse reconhecimento que a Ode Marítima consegue existir, pois o poema carrega consigo uma verdade profundamente ancorada em sua natureza artística. Em essência, diz-se que os versos do poema são o epítome da arte objetiva, onde sua leitura expõe elementos reais que ressoam no mundo e exigem ser reconhecidos com base no seu conhecimento autônomo.

Para compreender a potência da Ode Marítima, é preciso mergulhar (ou talvez naufragar) na verdade profunda e na profundidade artística que envolvem a obra. O verdadeiro foco está em compreender o poema como fenômeno de linguagem – e não apreendê-lo em uma leitura biográfica ou de qualquer outra ordem, pois

uma história aprofundada da literatura deveria portanto ser compreendida não tanto como uma história dos autores e dos acidentes de sua carreira ou da de suas obras, mas como uma história do intelecto enquanto produtor ou consumidor de “literatura”.[10]

A presença da voz que canta o poema muitas vezes mascara esse fenômeno, criando uma ilusão de subjetividade poética. Porém, por trás dessa fachada, existem outras vozes dentro da voz de Álvaro de Campos, que falam devagar e revelam – “como a revelação brutal do abismo”[11] – a força da arte poética. Essa força, que é “alma a transbordar de Mar”[12], sugere metafisicamente o mundo, as suas sensações e as profundezas da alma humana (com um ímpeto de “apertar tudo isso ao peito, senti-los bem e morrer”[13]). Por meio da linguagem, que é múltipla e única, a Ode Marítima capta um instante da realidade que emula qualquer outro instante, desvendando o poder latente da expressão artística. O poder da verdade alinha-se ao poder de expressar o eu interior poemático, que, marginalizado por normas sociais, testemunha o inconciliável, “o soluço absurdo que as nossas almas derramam”[14]. À maneira de Álvaro de Campos, “sozinho, no cais deserto”[15], procura-se a reconciliação com a linguagem por meio de uma linguagem não verbal – ou seja, a essência artística da Ode Marítima prospera ao renunciar os parâmetros lógicos de pensamento.

Nesse sentido, a Ode Marítima faz com que os leitores se lancem no mistério da vida por meio dos fluxos e refluxos da palavra. Isso – que “vem do fundo do Longe, do fundo do Mar, da alma dos Abismos”[16] e que leva os leitores a mergulharem nas profundezas da verdade – desperta a chama que queima no vazio existente além do reino da palavra. Esta constatação leva-nos a compreender que a autonomia do conhecimento poético manifesta-se como ampla experiência, onde a sua potência é mais vibrante – “oscilação viciosa, vasta, violenta”[17]. Assim, o poema incorpora a própria essência da experiência marítima, como um arquétipo encarnado. Verso a verso, Álvaro de Campos levanta profundas questões metafísicas sobre a arte, afirmando que a sua consciência artística é o aspecto definidor da sua humanidade. No sentido do poema, declara: “Toda a vida marítima! Tudo na vida marítima! / Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina / E eu cismo indeterminadamente as viagens”[18].

“Com todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos”[19], a Ode Marítima tem um equilíbrio fascinante e delicado, solidificando a força da poesia e diferenciando-a de uma mera racionalidade sentimental. “Subitamente abrangendo todo o horizonte marítimo”[20], o poema incorpora forças opostas – reminiscência do conceito hegeliano – e existe como transgressão no âmbito poético. É neste ambiente, “um deserto dentro de nós”[21], que os versos se ancoram, posicionando-se como meio de sobrevivência e fenômeno da vida. Mas não é apenas um reflexo da vida, como “navios indo e vindo”[22], é personificação da potência artística que sugere uma experiência marítima que transcende a natureza fugaz da vida e origina a consciência genuína da arte poética – como um “espírito de bruxa dançando invisível em volta dos gestos”[23].

Neste domínio, um sentimentalismo notável, desprovido de qualquer ligação biográfica, habita a essência do objeto cobiçado, o paquete, e lança um ataque à distância (como quem atira uma bomba ao destino), desvendando a autêntica potência do poema – sempre “em direção a algo de aberto, de ocupável, talvez a um tu apostrofável, a uma realidade apostrofável”[24]. Esse processo acontece “através duma imaginação quase literária”[25] de um eu alternativo, em harmonia com o poder da linguagem, onde o objeto prospera e, “com tal velocidade desmedida, pavorosa”[26], passa por uma revitalização. Assim, a essência genuína da Ode Marítima, entidade intangível por si só, serve de baú para todas as imagens marinhas, e os seus versos são fusões transbordantes de sensações e intelectos, ou seja, a arte – “a máquina de febre das minhas visões transbordantes”[27].

A complexidade da potência artística da Ode Marítima está encapsulada num anseio profundo, “insensivelmente evocado”[28], onde o seu canto poético serve como evidência de um brilho evocativo e da persistência de uma linguagem poética que não consegue compreender a verdadeira essência da vida sem primeiro pronunciar o seu nome. De outra maneira, assim como as experiências de vida não têm significado para os vivos, os versos da Ode Marítima não se inspiram na vida, mas na persistência de uma realidade simples: a necessidade de soprar arte às estruturas da vida, “no seu conjunto nervoso, histérico, absurdo”[29]. Assim, a verdadeira vida acontece quando ultrapassa os limites da existência biológica e encontra a sua essência no reino das palavras.

Nesse sentido, podemos dizer que a Ode Marítima não tenciona a comunicação. Em vez disso, evolui para uma forma de poesia que rejeita a ideia da linguagem como transportadora de quaisquer significados numa “vertigem ténue de confusas coisas na alma”[30]. Esta poética, portanto, não pretende criar uma imagem ou réplica de algo, nem servir como instrumento de comparação. Ela, antes, está ancorada na consciência metafórica, que é então traduzida em um “chamamento confuso das águas”[31].

No âmbito da potência artística, a Ode Marítima assume grave importância, exigindo uma autonomia própria e uma estrutura única que a diferencie de qualquer outra obra, visto que evoca “a voz inédita e implícita de todas as coisas do mar”[32]. Seus versos representam o poder de uma linguagem distinta que preenche as lacunas entre a linguagem poética encontrada nas coisas e a linguagem dos seres humanos. A dívida poética para com ambas as linguagens não cria modelo ou equiparação, pois a linguagem poética não envolve uso prático ou utilidade, mas a nomeação das coisas e a vivência dos versos, que “não são, como as gentes pensam, sentimentos (esses têm-se cedo bastante), – são experiências”[33]. O próprio título do poema é um verso que serve como símbolo único da existência extraordinária e elevada que é moldada pela arte da poesia. Pulsa, portanto, nos versos de Álvaro de Campos, um retrato imperfeito da vida marítima, mas a essência da vida é expressa de forma inequívoca por meio “dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas”[34].

A linguagem poética expressa a essência fundacional da qual emergem os versos (assinaturas heteronímicas), tocando os aspectos intangíveis e inatingíveis da existência. Diz-se: “leitura embarcada: subimos a bordo, deixamo-nos levar, derivar em direção a costas desconhecidas; vamos ao ritmo das ondas, ao sabor das correntes”[35] e assim nos identificamos, “não necessariamente com o herói, mas como o movimento da escrita. […] Ao final de um momento, tenho pressa de escrever…”.[36] Esse não é um gesto metafórico, mas literal, que confere significado às ocorrências insignificantes da vida, dando-lhes o poder de um nome. Em essência, a consciência artística que há na Ode Marítima dissipa-se no tecido poético da existência, imbuindo-o da vitalidade que sempre almeja.

Esse é o propósito da poesia e a trajetória de sua autonomia. O poema funciona como advertências intelectuais, destacando a interconexão entre sensação e pensamento e afirmando que o conhecimento poético é um conhecimento por si só. Essa artisticidade, que por vezes sugere um conhecimento metafísico independente do sujeito, enfatiza agora o prazer de pronunciar palavras pelo seu valor artístico, sem ser sobrecarregado por quaisquer implicações implícitas ou explícitas. Os versos do poema ao luar, entre o horizonte dos céus e dos oceanos: riscos dourados, riscos carmesins, entre a verde espuma e o sal. “Afrodite nascida da espuma: é o que quer dizer seu nome”[37].

Se quisermos nos envolver com o poema, precisamos embarcar em uma viagem para além da superfície das palavras, mergulhando nas profundezas onde reside o Leviatã e a âncora meio submersa da imaginação[38]. Na Ode Marítima há um desdobramento de sensações desapegadas de constrangimentos físicos, e nossos olhos traçam os caminhos desse acordo tempestuoso com a poesia. À medida que o poema segue ao insondável horizonte ​​do mundo, o futuro aguarda, com olhos que antecedem a era da barba branca do velho marinheiro. O poema culmina num naufrágio, pois capta a essência das águas tumultuosas. Enquanto lemos, alcançamos a era das navegações, e a Ode Marítima ruma para um reino distante, enfrentando a cada instante a possibilidade de desastres náuticos. Há, assim, um delicado equilíbrio, que oscila entre o perigo iminente do naufrágio e o caos de seus destroços, pois “cada obra de arte é um instante; cada obra conseguida é um equilíbrio, uma pausa momentânea do processo, tal como ele se manifesta ao olhar atento”[39]. O poema, que mergulha nas profundezas do signo, ultrapassa os limites da compreensão.

Parece haver uma natureza poética dentro do verso Ode Marítima, um encontro puramente artístico de substância absoluta. Esse encontro separa-se da consciência empírica do leitor, criando uma autonomia para a compreensão da arte: uma experiência de segundo nível. Isso demonstra que o quadro empírico é substituído por uma qualidade artística objetiva das palavras, como o cais e a sua atmosfera que penetram fisicamente[40]. Nesse sentido, compreender a Ode Marítima não significa explicá-la, tendo em vista que o ato de explicar reduz o desconhecido e o novo ao âmbito familiar. O poema de Álvaro de Campos, no entanto, resiste a tal tratamento: “é a expressão harmônica de nossa consciência das sensações: isto é, nossas sensações devem ser expressas de tal modo que criem um objeto que será uma sensação para os outros.”[41]

O espírito da Ode Marítima não pode ser reduzido à mera representação mundana de marcação de pontos geográficos seguros para navegação. A expedição que o poema nos propõe enquanto experiência de leitura foi e continua a ser algo mais grandioso. Para compreender verdadeiramente a potência de seus versos, é preciso compreender a audácia e a coragem necessárias para nos aventurarmos no território incógnito da nossa própria existência. É só por meio dessa viagem que podemos viver plenamente o poder por trás dos últimos versos da Ode Marítima e prestar homenagem ao legado artístico de Fernando Pessoa e às múltiplas rotas de leitura que se desdobraram sob a sua força criativa.

Parte, deixa-me, torna-te

Primeiro o navio a meio do rio, destacado e nítido,

Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto,

Depois ponto vago no horizonte (ó minha angústia!),

Ponto cada vez mais vago no horizonte…,

Nada depois, e só eu e a minha tristeza,

E a grande cidade agora cheia de sol

E a hora real e nua como um cais já sem navios,

E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira,

Traça um semicírculo de não sei que emoção

No silêncio comovido da minh’alma…[42]

Assim como os vestígios da exploração literária de Álvaro de Campos, devemos continuar acompanhando os versos da Ode Marítima, observando como nos provocam ou nos dificultam, afirmando o seu domínio enquanto Arte. Mas seremos nós, tal como o poeta, capazes de traçar os vestígios da sua existência naufragada e, ao mesmo tempo, navegar numa rota de fuga à interpretação? Poderemos ler a Ode Marítima sem nos enredarmos nas nossas expectativas, abraçando a desorientação que o poema nos impõe como se estivéssemos num abismo? Teremos resiliência para suportar a intensa vertigem que os seus versos nos suscitam? Teremos capacidade? Em última análise, o que está diante de nós? O que buscamos? Estas são apenas algumas questões que a Ode Marítima nos apresenta, impulsionando-nos numa expedição contínua em direção ao Leste – aos confins do Leste. À medida que seguimos essa jornada, nossas memórias e nossos esquecimentos são moldados pelas indagações que surgem ao percorrer o caminho. É dessa maneira, portanto, que devemos abordar o poema: como se estivéssemos prestes a desencadear uma força sobre o destino ou como alguém que, tendo desencadeado essa força, procura o destino para enfrentá-la.

Referências

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______. Notas de literatura I. Trad. Jorge M. B. de Almeida. São Paulo: Editora 34, 2003.

BENJAMIN, Walter. Baudelaire e a modernidade. Trad. João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

CELAN, Paul. Arte poética: o Meridiano e outros textos. Lisboa: Cotovia, 1996.

LACOUE-LABARTHE, Philippe. Poetry as experience. California: Stanford University Press, 1998.

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MALLARMÉ, Stéphane. Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

NANCY, Jean-Luc. Demanda: literatura e filosofia. Trad. João Camillo Penna, Eclair Antonio Almeida Filho, Dirlenvalder do Nascimento Loyolla. Florianópolis: EdUFSC; Chapecó: Argos, 2016.

PESSOA, Fernando. Obra em Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

PESSOA, Fernando. O eu profundo e os outros eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

RILKE, Rainer Maria. Os cadernos de Malte Laurids Bridge. 3. ed. Trad. Paulo Quintela. Porto: O Oiro do Dia, 1983.

VALÉRY, Paul. Lições de poéticas. Belo Horizonte: yiné, 2020.


  1. PESSOA, 2015, p. 228-229.



  2. MALLARMÉ, 2015, p. 65.



  3. “Esse murmúrio é o som do discurso épico, no qual o sólido e inequívoco encontra-se com o fluido e ambíguo, apenas para novamente se despedir. […] As epopeias desejam relatar algo digno de ser relatado, algo que não se equipara a todo o resto, algo inconfundível e que merece ser transmitido em seu próprio nome” (ADORNO, 2003, p. 48).



  4. LACOUE-LABARTHE, 2000, p. 185.



  5. PESSOA, 2015, p. 235.



  6. BENJAMIN, 2015, p. 236.



  7. PESSOA, 2015, p. 244.



  8. PESSOA, 2015, p. 233.



  9. PESSOA, 2015, p. 236.



  10. VALÉRY, 2020, p. 12.



  11. LACOUE- LABARTHE, 1998, p. 54



  12. PESSOA, 2015, p. 239.



  13. PESSOA, 2015, p. 233.



  14. PESSOA, 2015, p. 231.



  15. PESSOA, 2015, p. 228.



  16. PESSOA, 2015, p. 247.



  17. PESSOA, 2015, p. 236.



  18. PESSOA, 2015, p. 233.



  19. PESSOA, 2015, p. 233.



  20. PESSOA, 2015, p. 247.



  21. PESSOA, 2015, p. 233.



  22. PESSOA, 2015, p. 232.



  23. PESSOA, 2015, p. 243.



  24. CELAN, 1996, p. 34



  25. PESSOA, 2015, p. 250.



  26. PESSOA, 2015, p. 244.



  27. PESSOA, 2015, p. 244.



  28. PESSOA, 2015, p. 230.



  29. PESSOA, 2015, p. 244.



  30. PESSOA, 2015, p. 250.



  31. PESSOA, 2015, p. 235.



  32. PESSOA, 2015, p. 235.



  33. RILKE, 1983, p. 41.



  34. PESSOA, 2015, p. 235.



  35. NANCY, 2016, p. 355.



  36. NANCY, 2016, p. 355.



  37. NANCY, 2016, p. 311



  38. PESSOA, 2015, p. 234



  39. ADORNO, 1993, p. 17



  40. PESSOA, 2015, p. 235



  41. PESSOA, 1995, p. 432



  42. PESSOA, 2015, p. 256.


Inquéritos sobre Neologismos Irritantes

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Desde o advento não só das redes sociais mas também de pessoas que não sabem distinguir entre escrever telegraficamente, ver séries televisivas pindéricas, e falar português decente — e cujas consequências naturalmente se arrastam até ao mundo conceptual, transformando o mundo verbal e cognitivo de todos numa espécie de fórum de internet do início dos anos 2000 ao vivo e a cores — animámos, na plataforma Twitter, uma série de inquéritos informais sobre este tema. Eis os resultados.

Psicomúsica — Uma abordagem ao Psicodrama

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Texto de Flávio Miguel Duarte Justino. Este texto pretende discutir o uso da música e a sua importância no contexto da psicoterapia. Esta abordagem, denominada por psicomúsica, foi utilizada por Jacob Levy Moreno, criador do psicodrama. Ao introduzir a música no psicodrama, Moreno pretendeu libertar a espontaneidade e melhorar a comunicação dos intervenientes, facilitando a catarse e a empatia bidirecional a que chamou de “tele”. A psicomúsica é atualmente utilizada em inúmeras situações, desde o acompanhamento a crianças autistas até à recuperação de toxicodependentes. Palavra chave: psicodrama, psicomúsica, tele, catarse, espontaneidade.

“Quem entenda a minha música nunca mais será infeliz.” (Ludwig van Beethoven, 1780- 1827)

Jacob Levy Moreno, psiquiatra, criou em 1921 uma psicoterapia em grupo na qual os intervenientes usam métodos dramáticos para explorar uma determinada ideia ou “verdade” (Moreno, 1964). Esta técnica, denominada por psicodrama, visa a catarse e a libertação da espontaneidade. “O psicodrama é o tratamento do indivíduo e do grupo através da ação dramática” (Gonçalves, Wolff, & Almeida, 1988, p. 43). Kellermann por sua vez, define psicodrama como sendo um método psicoterapêutico, no qual os clientes são estimulados a continuar e completar as suas ações, por meio da dramatização, do roleplaying e da autoapresentação dramática (Kellermann, 1998).

Nos primeiros tempos o psicodrama foi alvo de ceticismo por parte do público e da critica, nomeadamente, em relação à veracidade e autenticidade das encenações,levando mesmo Moreno a atravessar algumas dificuldades financeiras (Gonçalves et al. 1988). No entanto, esta abordagem influenciou Kurt Lewin (1890-1947) e Carl Rogers (1902-1987), entre outros, a desenvolver a terapia de grupo. Atualmente, o psicodrama é usado em vários tipos de terapia, como o aconselhamento pós-divórcio para crianças (Gershoni, 2003) ou o atendimento a pacientes internados em hospitais no Brasil (Câmara & Amato, 2014). Noutros países, como Portugal, o psicodrama também se encontra estabelecido, sendo representado, desde 1986, pela Sociedade Portuguesa de Psicodrama.2

Para Moreno, o conceito central no psicodrama é a espontaneidade, definida por ele como a resposta adequada para situações novas (Moreno, 1964). Sendo por isso, natural a introdução da música (psicomúsica) como libertador dessa resposta, pois é através da música “que expressamos e sentimos o antes incompreendido” (Lima, 2003, p.7). Moreno dividiu a psicomúsica em duas formas: (a) instrumental e (b) orgânica. Na primeira, são utilizados instrumentos como extensões da espontaneidade, enquanto na última é o próprio organismo que serve de instrumento. Moreno favorecia esta última forma por ser mais primitiva e facilitar a improvisação. No seu livro Psicomúsica y Sociodrama (Moreno, 1965) são relatadas duas experiências, uma em cada forma. É proposto um aquecimento com gestos e sons. De seguida, são representadas situações reais ou imaginárias acompanhadas por exclamações cantadas, prontamente repetidas pelo público em coro. Na segunda experiência, Moreno forma uma orquestra de improvisação com músicos da Orquestra Filarmónica de Nova Iorque em 1931.

Como anteriormente referido, Moreno foi o criador do psicodrama e do uso da psicomúsica nesse contexto. No entanto, foi Jaime Rojas Bermúdez que sistematizou estes processos, possibilitando uma melhor compreensão do ponto de vista metodológico (Bermudéz, 2016). Segundo ele, uma sessão de psicodrama é composta por cinco instrumentos: (a) diretor, (b) auxiliar, (c) auditório, (d) protagonista e (e) cenário; três contextos: (a) social, (b) grupal e (c) dramático; e por três etapas (a) aquecimento, (b) dramatização e (c) comentários. É neste contexto que Bermudéz considera que a música pode não só ser utilizada como objeto intermediário, mas também como um complemento às técnicas de aquecimento.

Bermudéz classifica a música em duas categorias principais de acordo com o seu alvo. A música pode ser dirigida ao individuo ou ao grupo. Se for dirigida ao individuo pode ter as seguintes funções: (a) indutora, (b) suplementar ou (c) complementar. A primeira tem como objetivo estimular o exercício de um dado papel pelo protagonista. A segunda tem como objetivo suscitar sentimento a uma dificuldade de desempenho do papel. A última tem o objetivo de salientar papéis complementares do interveniente. Se a música for dirigida ao grupo, terá uma função (a) homogeneizante,

(b) inibidora ou (c) facilitadora. A primeira, se usada no inicio, pode reduzir as

possibilidades temáticas. A segunda tem como objetivo serenar os ânimos, e a última tem como objetivo acelerar a aparição do tema ou da catarse.

Já na antiga Grécia, Aristóteles, filósofo Grego, refere-se à Catarse como uma descarga emocional, sendo um meio de libertação e purificação da alma. Porém a catarse de Moreno diverge com a de Aristóteles. Para Moreno, a catarse é vista do ponto de vista grupal, num sentido de relação interpessoal, ou seja, a catarse de uma pessoa depende sempre da outra pessoa do grupo (Moreno, 1978). Moreno dá assim inicio à Psicologia social, e pode reclamar para si o título de fundador da psicoterapia de grupo. Sendo a música algo que nos liberta e nos estimula a criatividade e improvisação, é naturalmente, um meio prazeroso e facilitador da catarse.

O neurocientista António Damásio, autor do best-seller “O Erro de Descartes”, trouxe uma visão inovadora sobre os sentimentos e as emoções. Segundo o autor, “a emoção humana, em seu refinamento, é desencadeada até mesmo por uma música […], cujo poder nunca devemos subestimar” (Damásio, 2000, p. 56). O corpo perante um ambiente pantomímico vai, ao som da música, libertando-se aos poucos. De início com pequenos movimentos, deste o tímido abanar da cabeça até ao balancear da anca. Dá-se dessa forma início ao aquecimento preparatório, sem recorrer a qualquer tipo de linguagem verbal, pois esta é substituída pela linguagem corporal que vai libertando o individuo no grupo (Moreno, 1966).

Esta ideia de movimento, ação, criatividade e espontaneidade que caracteriza o psicodrama, vai contra a terapia do divã, tão em voga na psicanalise de Sigmund Freud (1856-1939) e no antropomorfismo dos behavioristas, como John Watson (1878-1958). Moreno é sem dúvida o grande promotor do investimento no individuo e nas relações interpessoais. “Pode-se cartografar uma parte considerável do movimento psicoterapêutico desde o começo do século, tomando o paciente no divã e tirando-o daí para a cadeira, daí para seus próprios pés e, por fim, permitindo-lhe atuar ao vivo os seus relacionamentos” (Moreno, 1983, p.54).

A música surge assim como um elemento libertador do “Eu” (self) interior, sendo esta a forma a mais primitiva dessa libertação. Está presente em todas as culturas e religiões como forma de coesão social, e como força para o nosso self expressar as emoções (Davis, 2008; Koelsch, 2014). Neste contexto, o homem nasce inserido num átomo social, dentro da família, dentro do grupo. Desempenha um determinado papel, sujeito a transformações, evoluindo ao longo da vida e tornando-se dinâmico (Moreno, 1983). Segundo Moreno, “o desempenho de papéis é anterior ao surgimento do Eu. Os papéis não emergem do Eu; é o Eu que emerge dos papéis” (Moreno, 1964, p.25). Na mesma página, Moreno, tal como outros existencialistas, refere que a matriz de identidade é “a base psicológica para todos os desempenhos de papéis” fisiológicos, psicológicos e sociológicos. Deste modo, a teoria dos papéis enclausura a conceção do desenvolvimento biológico, psicológico e social do individuo, sendo naturalmente um dos conceitos fundamentais do psicodrama.

É nesta fase que surge o conceito “tele”. A compreensão empática do outro depois de anulada a transferência inibitória, ou seja, uma “perceção interna mútua entre dois indivíduos”, “a empatia ocorrendo em duas direções” (Moreno, 1965, p. 39). Como referido anteriormente, Moreno diverge de Freud, considerando que esta relação “Télica” é o verdadeiro eixo da cura (Laneiro, 2010; Moreno, 1983).

Atualmente a música continua a ser utilizada como uma forma de terapia, normalmente designada por musicoterapia. Nesta, as facetas físicas, sociais, mentais e emocionais da música são usadas para melhorar a sua saúde em vários domínios, como o desenvolvimento cognitivo e emocional, habilidades motoras e sociais, entre outros. Muitas vezes a música é utilizada com indivíduos com necessidades especiais, em crianças, em idosos, em vitimas de acidentes vasculares cerebrais e em recuperação de toxicodependentes ou alcoólicos (Sales, Silva, & Pilger, 2011). Este tipo de terapia pode ser usado universalmente, pois a música é um fenómeno presente em todas as regiões do globo e culturas conhecidas. Promove as emoções e a expressão das mesmas, favorece a coesão e consciência social, entre muitas outras funções. É especialmente útil para acalmar crianças, mesmo que apresentem desordens neurológicas, como o autismo (Davis et al., 2008).

É inegável a importância da música nas nossas vidas, seja como entretenimento ou como elemento de identificação cultural. Por exemplo, o fado ou os cantares alentejanos, recentemente eleitos pela UNESCO como património cultural imaterial da Humanidade que fazem parte do ADN português. Desde o pop rock americano até às grandes obras clássicas como a 9ª sinfonia de Beethoven ou o rei Lear de Shakespeare, a música forma o cordão umbilical da Humanidade.

Bibliografia

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Um Desconhecido Livro Português de Receitas de Doces e Confeitos, do séc. XVIII.

Da QUALIDADE DO AÇÚCAR

Há grande diferença nos açúcares porque o da Bahia precede a todos no doce e para obras de caldas e o de Pernambuco, Rio e outras partes, para cobrir o doce seco. O açúcar sempre é simples que toma as qualidades da fruta a que se junta, reprime os humores acres até na cútis, donde depois que tivemos este género dos Brasis, de sorte que se comunicou até aos pobres, cessou a sarna universal de que toda a Hespanha era infeccionada, assim como agora pela maior parte são as Ilhas do Mediterrâneo, onde rara vez aparece, e em seu lugar usam do mel, geralmente abrasador dos intestinos. Do mesmo açúcar somente se compõem muitos regalos confeitando-os só por si, como veremos em várias receitas deste livro.

CAROÇOS DE ALCORÇA

Pisar-se-ão dous arráteis de amêndoas, depois de descascadas em água fervente e se terá em um tacho arrátel e meio de açúcar no qual, depois de estar em ponto de cabelo, se lançará a amêndoa pisada incorporando-a de sorte que fica como massa. Dessa massa se tirará quanto leva um dedal e redondo em feição de caroço grande de pêssego se cobrirá com a massa de alcorça na qual se tomará com forma que faça os vincos e feições dos caroços dos pêssegos, consertando-os ao natural em forma que a mesma factura lhe dê o nome de caroços. As religiosas do Salvador de Lisboa os fazem recheando-os de ovos em lugar de massa de amêndoas, e em Odivelas todos maciços de açúcar, que não são tão gratos ao paladar.

FATIAS DA CHINA

Batem-se dezasseis gemas de ovos, com três amêndoas doces bem pisadas, tiradas as cascas, e depois de bem batidas se unta de manteiga uma sopeira redonda das Olarias vidrada de branco e se mete dentro de um tacho de água fervendo a dita sopeira dos ditos ovos batidos até se cozerem no tal tacho. E para se saber se estão cozidos os ovos se lhe mete uma palha no meio deles, até tocar no fundo, e em a dita palha saindo enxuta é sinal de estarem cozidos. E logo se tira a sopeira fora da água e enxugando-se se vira em um prato até cair nele toda a massa dos ovos cozidos, a qual se cortará em fatias, com faca subtil, para que não esboroe e cortadas as fatias se vão passando por açúcar em ponto e……compondo com elas o prato alguma coisa covo e se lhe meterão compassadas meias amêndoas torradas e depois escorrendo o tacho do açúcar por cima se podem assim quentes mandar logo à mesa, como deixá-las estar os dias que quiserem, porque cada dia vão estando melhores. Um arrátel de açúcar basta para este prato e, conforme os ovos, se forem trinta e duas gemas dois arráteis e se fossem mais, mais à porção; mas para se fazerem com mais brevidade e perfeição é melhor dezasseis gemas de cada vez.

DA CASQUINHA DE LARANJA DA CHINA

Toma-se um quarteirão de laranja da China e se parte cada uma em quatro quartos ao alto e depois se espreme cada um dos quartos de per si até ficar sem sumo, até ficar a casca só, os casulos dos gomos, os quais se cozem em água fervendo até serem passados da fervura. Depois se tornam a ferver arrátel por arrátel de açúcar, em este tendo ponto de espadana, e cozidas as cascas no mesmo açúcar se deixa estar do boião e se vão pondo ao sol sobre uma joeira e passando por açúcar alto até ficarem cobertas e enxutas e é o mesmo que costumam fazer as Freiras de Santa Maria. Desta sorte se faz a casca de limão cortada em tiras e enoveladas as da mesma laranja e lima que ficam ainda mais engraçadas pelo espirituoso cheiro que tem a sua casca.

COMPOTAS DOCES

O doce de compotas é o que mais se usa nos banquetes por ir quente à mesa Este doce nomeado compota se costuma fazer de frutos de maçãs, como pêras. Hão-de ser de casca doce, como são leiriosas, camoesas, etc. pêras de Cristo, pêras de Rio Frio, pêra parda, de engrocha, etc. E assim clarificado um arrátel de açúcar, e posto em ponto de cabelo, se lhe mete dentro outro arrátel de pêras e maçãs doces, bem aparadas da casca e pevides, e se põem  a ferver no dito açúcar, de forma que fiquem bem cozidas as frutas nele e logo que estão brandas se deitam no prato com a mesma calda e vai à mesa para beber água nevada sobre a dita compota. Desta compota se fazem todas as frutas, deitando na massa do folhado açúcar que a adoce algum tanto.

COMPOTAS DE PÊRA PARA LOGO

Apanhar-se-ão inteiras qualquer género de pêras, sendo as pequenas e as primeiras das frutas de S. João as melhores, e depois de……cozidas só com a primeira fervura se porá um ou dois arráteis de açúcar em ponto de espadana, com cravo da Índia e almiscar, quanto baste a odiferar a calda e nesta se cozerão as perinhas, de forma que fiquem de todo cozidas e brandas e se irá pondo em tigelas de caldo com o pé para cima e cobertas de calda, ou quentes ou frias se mandarão à mesa. E duram assim nesta calda perfeitas quatro dias, porque de ordinário daí em diante vão dessorando muito as pêras e adelgaçando muito o açúcar.

DO MODO COM QUE SE FAZ A MASSA DO ALCOÇAR PARA CAROÇOS RECHEADOS DE AMÊNDOAS, OVOS MOLES, NOS FEITIOS QUE QUISEREM, TAMBÉM DE QUEIJADINHAS

Três arráteis de açúcar refinado pisado e peneirado por peneiro fino, se lhe junte um vintém de âmbar, outro de almiscar, tudo pisado à parte, que fique em pó subtil, mais um vintém de alcatira, que estará de molho dous dias, e batida muito bem na tigela se côa pelo pano e depois se junta ao açúcar sobredito e o cheiro dito e tomando-se esta massa em termo de se poder lavar para o que quiserem fazer com ela.

RECEITA PARA AÇÚCAR ROSADO

Desfolhem a rosa e como estiver desfolhada a joeirem, indo tirando a grossa e boa para o açúcar rosado. E como esteja joeirada a pisam e a um arrátel de rosas lançam dois de açúcar. Tomarão a rosa depois de pisada e estará um tacho ao lume com água e como ferver lhe lançem a rosa e a vão baixando com a escumadeira e como torne a levantar fervura a vão tirando com a escumadeira e lançando-a em um joeira que estará posta em cima de um alguidar e assim na joeira lhe lançam por cima água fria e logo vazam a joeira em outro alguidar que esteja com água fria e vão lavando a rosa em três ou quatro águas e escolhendo-a se tem palhas ou algum pé ou folhinha verde ou coisa que se lhe tire e a vão espremendo com as mãos e tirando-a da água e posta em outro alguidar. Assim seca a deixam estar até que o açúcar se engrosse um pouco e esfrie. Como o esteja lhe vão lançando a rosa, desfazendo-a com as mãos como abrindo-a, e deitando-a no açúcar. Nele fica até o outro dia no que cozerão o açúcar rosado, até que o açúcar fica ponto de espadana e com isto está feito e o tirarão do lume e vão lançando-o nas panelas que fiquem bem cheias, porque baixa. (…)

[Como imaginam, este receituário é grande, esta é apenas uma amostra das receitas – as de chocolate ou de gelado, por exemplo, não estão aqui mencionadas]

De: “Arte Nova e Curiosa para Conserveiros, Confeiteiros e Copeiros, e mais pessoas que se ocupam em fazer doces, e conservas com frutas de várias qualidades, e muitas receitas particulares que pertencem à mesma Arte”, de 1788.

De 1383 a 1974: uma analogia revolucionária

Terão sido a Revolução Social de 1383-85 e o 25 de Abril de 1974 processos históricos comparáveis? Sim, digo, em face de um conjunto de factores semelhantes e quanto a mim susceptíveis de analogia formal e de substância. A razão pela qual acredito na pertinência científica e ontológica desta questão prende-se com uma razão essencial – a extrema analogia efectivamente erigida entre ambas as rebeliões que redundaram em revoluções. Com efeito, separados por 591 anos, ambos os processos partilham valências às quais, direi mesmo, não tem até ao presente sido dada a devida atenção. Desde logo as razões genético-sociais inerentes a ambos os momentos: de um lado uma sublevação classista, protoburguesa, socialmente empenhada mas numericamente restrita, a de 1383; do outro um pronunciamento militar assente na satisfação de um pequeno mas significativo conjunto de reivindicações profissionais de um grupo não alargado embora corporativamente unido e ideologicamente progressista. Tanto no caso de Abril de 74 como 1383, emerge como particularmente relevante o facto de os principais protagonistas do golpe/revolução assumirem a vertente de classe e de insatisfação profissional como razões absolutamente decisivas para o eclodir e provocar dos processos em que se envolveram e isso é evidente tanto nos mercadores que estão com D. João I como entre os capitães de Abril. Depois, as lideranças, protagonizadas nos diferentes momentospor dois comandantes indiscutíveis. De um lado, D. João, mais tarde Mestre de Avis e D. João I, que assassina o conde Andeiro, amante de D. Leonor Teles, dupla que se aprestava para entregar o reino a Castela; e do outro, Salgueiro Maia, o operacional anti-herói que enfrenta os canhões no Terreiro do Paço, derrota um brigadeiro na Ribeira das Naus, verga a GNR no Largo do Carmo e prende Marcello Caetano. Finalmente o terceiro denominador comum, que permite desenhar, diria quase a régua e esquadro, a transformação, em ambos os casos em apenas 24 horas, de um gesto maquinal, definido, objectivo e determinado por uma minoria que, por força da adesão e pressão populares, redundou, mais uma vez, sublinho, em ambos os processos, numa revolução que não começou mas acabou por sê-lo. Quanto à génese social da Revolução de 1383-85 há um autor que revela a sua tendência clara para uma interpretação inteiramente popular e massificadora do evento e que é António Borges Coelho. Claro que esta visão se prende com o facto de se tratar de um investigador assumidamente comunista e marxista e, assim, muito mais sensível ao peso do vórtice das camadas em detrimento da especificidade deste ou daquele interesse, desta ou daquela elite ou grupo de comando. Esta visão, total quanto à adesão e importância e influência populares, perde fulgor em autores como José Mattoso e Joel Serrão. Já sobre a revolução de Abril poder-se-á teorizar sobre as diferenças conceptuais nela existentes entre putsch, golpe de Estado, revolta, sublevação militar e revolução. É bem verdade que, a este respeito, a Revolução dos Cravos suscita as mais diferentes interpretações, pois “não foi um golpe de Estado militar clássico […]”, mas sim uma “sublevação militar”, depois “golpe de estado” que se apoiava “num vasto movimento popular” ou mesmo “rebelião”, como defendeu Foubert. Por isso, a Revolução há-de adquirir desde logo um carácter nacional, social e popular. Tanto em Abril de 74 como em 1383 a luta pela independência nacional funde-se com a luta contra os privilégios das classes mais altas, com vista à obtenção do poder político. Ambas as revoluções, ambas burguesas e pequeno-burguesas, se identificam assim com a luta pela independência nacional. Uma contra o duro autoritarismo imposto por Oliveira Salazar, outra pela defesa da soberania, as duas em nome do povo, embora manipuladas por novos grupos liderantes: em 1383, os burgueses e mercadores ricos; em 1974, uma plêiade de oficiais que ambicionam poder transferir o exercício de um novo poder no quadro de um regime democrático.

Citações de Dos Privilégios E Prerrogativas que o Feminino tem por Direito Comum E Ordenações do Reino mais que o Masculino, obra entregue a Sua Majestade D. Catarina de Áustria [Rui Gonçalves, 1557]

ABSOLUTIO

As pessoas que ofendem ou fazem injúrias a religiosos & pessoas eclesiásticas, incorrem pelo mesmo feito em excomunhão, da qual não podem ser absolutos senão pelo Sumo Pontífice: salvo quando a pessoa que incorrem em tal excomunhão está em artigo de morte, porque neste caso pode ser absoluto pelo Bispo da sua Diocese. E se alguã mulher incorrer nesta excomunhão & sacrilégio, pode ser absoluta por seu Bispo & Prelado, satisfazendo à pessoa ofendida & injuriada sem ser mais obrigada a haver absolvição do Sumo Pontífice. No qual benefício & prerrogativa são as mulheres de melhor condiçã & mais favorecidas que o masculino, & cõ muyta razão, porque seria coisa muyto perigosa a sua honestidade & honra irem buscar absolvição a partes tão remotas.

ABSENTIÆ CAUSAS

O que é acusado por delito em que há lugar pena de açoutes, ou outra mor pena que degredo temporal, há-de parecer pessoalmente em juízo se não está preso, pera se livrar do crime porque é acusado, & não pode livrar-se por procurador. E se for impedido de tal & tão evidente necessidade, que não possa parecer em juízo pessoalmente, em tal caso pode mandar alegar a razão de seu impedimento & ausência por procurador, & por qualquer pessoa do Povo, inda que seja mulher por que pera alegar as causas da ausência & impedimento pode a mulher parecer em juízo. No qual privilégio é igual com o masculino, & é limitação dos direitos que dispõe que a mulher não possa ter procurador, porque o poderá ser pera alegar as tais causas & impedimento.

ACCUSARE

Os acusadores que acusam alguns presos ou a outras pessoas que são obrigadas livrar-se em juízo parecendo pessoalmente: como são os que se livram com Alvarás de França, ou Cartas de Seguro, não podem acusar na primeira instância por procurador, porque são obrigados parecer em juízo pessoalmente a acusar os presos & seguros, tirando as pessoas que têm os privilégios & liberdades concedidos ao regedor & desembargadores. E em favor do feminino as mulheres que querem acusar alguns presos, ou pessoas das que são obrigadas parecer em juízo pera se livrarem, podem acusar por procurador assi na primeira instância como no caso de Apelação, sem serem obrigados parecer em juízo, como os homens, dando França às custas, emenda & corregimento, & hão-de parecer quando lhe for mandado pelos Juízes do feito. Neste benefício é o feminino de melhor condiçã que o masculino, pois pode acusar por procurador.

ACTIO BONE FIDEI

A Ação que comete à mulher pera pedir seu dote tanto que o matrimónio se aparte é Ação que o direito chama de boa-fé de que há muitas. E é muito grande benefício & prerrogativa, porque por virtude da tal Ação pode a mulher haver o interesse, frutos & usuras do dote, do dia que lhe retardarem o pagamento em diante, & gozará de muitos privilégios que têm as Ações de boa-fé. Na qual prerrogativa é igual o marido com a mulher, porque a Ação que tem pera pedir o dote que lhe for prometido é outrossim de boa-fé.

ACTIO FAVORE DOTIS

Regra é de direito que nenhuma pessoa pode ser ouvida em juízo pera demandar outra sem ação porque é necessário fundar seu direito na ação que tem. E enquanto não tiver ação eficaz pera fundar nela seu direito não há-de ser ouvido. As mulher porém em favor de seu dote sem embargo de não terem ainda ação há-de ser ouvidas em juízo, & de equidade o juíz lhe supre sua ação, ou podem intentar uma que o direito chama ação in factu. De sorte que neste privilégio é o feminino de melhor condiçã que o masculino, pois pode ser ouvido em juízo antes de ter ação ACTIO FURTI

A pessoa que faz algum furto é obrigada por ação de furto, & tem pena de morte se furta valia de marco de prata, ou meio marco, entrando em alguma casa que está fechada, conforme a Ordenação deste Reino, posto que de direito comum não tivesse pena de morte. A qual ação de furto & pena não se dá contra a mulher que durando seu matrimónio fizer algum furto a seu marido: porque diz o Jurisconsulto, que por honra do matrimónio não se há-de dar ação infame contra a mulher, somente podem pedir as cousas que foram furtadas, ou sua valia sem mais pena alguma. Nem se pode impedir a mulher a restituição de seu dote por as cousas que tomou ao marido durando o matrimónio. E não somente procede isto na mulher que faz furto a seu marido, mas também há lugar quando alguma mulher solteira está por barregã de homem solteiro, ou casado, ou clérigo, ou religioso, & lhe fugir & levar qualquer cousa furtada ou roubada, porque não poder ser por isso demandada, nem haverá pena alguma conforme à Ordenação deste Reino, sem embargo do direito comum que dispõe que a manceba fique obrigada de furto. E sendo amiga de homem casado, sua mulher pode demandar civelmente as cousas que foram furtadas ou roubadas a seu marido. E é grande benefício do feminino & de mui importância não se dar contra ele ação de furto nestes casos.

ACTUM

Nos feitos dos presos, tanto que é dado libelo contra eles, é necessário juntar-se o auto de sua prisão, & sem os tais autos não pode o Juíz ir pelos feitos em diante. Os quais autos terão o hábito & tonsura que o preso tinha ao tempo da prisão. E nos feitos das mulheres presas ainda que logo se onde o Contrato se fizer, jurando que outorga por sua vontade no Contrato, & fazendo-se em outra maneira é nulo. E se o marido depois que fizer alienação sem consentimento da mulher, a quiser revogar por ser nula, há-de ter o seu consentimento: & se ela não quiser dar consentimento, não pode o marido por si desfazer a alienação, senão se a mulher for tão desaisada que sem justa causa denegasse o consentimento. E a mulher pode revogar a venda & alienação com autoridade de seu marido, & não lha querendo ele dar, haverá provisão de. Pera fazer a demanda & revogar a alienação sem consentimento nem autoridade de seu marido, a qual autoridade lhe podem outrossim dar os Juízes do lugar onde forem moradores. E neste caso são as mulher de melhor condiçã porque revogam as alienações, posto que seus maridos lhe não queiram dar autoridade, & eles não podem revogá-las sem consentimento de suas mulheres.

ALIENARE RES DOTALES

Têm as mulheres outro privilégio & benefício por direito comum, o qual é que o marido não pode vender nem alienar os bens dotais ainda que a mulher dê a isso expresso consentimento, salvo com juramento, conforme a direito Canónico. E porque pela Ordenança do Reino não se põem juramento nem boa-fé em Contrato algum: fica sem dúvida que os bens dotais não se podem alienar por ser necessário e conveniente à Res Publica terem as mulheres os dotes inteiros. Pode porém o marido em favor de sua mulher trocar os bens dotais, quando são de pouco rendimento & muita despesa, por outros bens melhores & mais proveitosos segundo disposição de direito: & não é visto alienar os bens dotais quando os troca ou vende pera comprar ou haver outros mais frutuosos que fiquem dotais & tenham a natureza & condição de bens dotais. E por isto ser conforme a direito é estilo & prática curial deste Reino, conceder El-Rei Nosso Senhor cada dia provisões para os bens dotais de pouco proveito & muita despesa se venderem, & trocarem por outros de mais rendimento e proveito.

ALIENATIO

As cousas que ficam em testamento, ou outra última vontade: com condição que se não possam vender, nem alienar, dentro de certo tempo ou teçe cumprir alguma condiçã. E os bens sujeitos a restituição, como os de morgado, ou fidei comitio, em favor do feminino podem alienar-se pera dotar a filha do testador, ou herdeiro, se não há outros bens com que as possam dotar. E assi se poderão alienar pera o marido fazer Doação. Propter nupcias, a sua mulher. E da mesma maneira os bens dos menores, que se não podem vender, trocar, nem alienar, poderam alienar-se por causa do dote, ou Doação. Propter nupcias.

[Expus aqui 10 alíneas da obra, que tem 106 no total.]

Helena Roseta, a pessoa que menos percebe de habitação em Portugal

Arquitecta, mãe, avó, mas também, e talvez primeiramente, notável política portuguesa, com uma carreira de cinco décadas, Helena Roseta é aqui descrita, com alguma ousadia figurativa, como a pessoa que menos percebe de habitação em Portugal — ou, talvez melhor dito, como uma excelente representante do que é não perceber nada de habitação em Portugal. Vem esta consideração a propósito da sua participação num podcast recente, onde, no decurso da conversa/entrevista, se percebe a miríade de vícios, mal-entendidos, falácias, e, principalmente, o buraco negro gigante de informações parcelares, erros de facto e de juízo, e redondas mentiras, a que as pessoas fundamentalmente ideológicas se entregam.

Convém lembrar o papel próximo que Roseta teve, nas últimas décadas, nas questões de habitação — sendo desde já fundamental sublinhar que a situação há cinco décadas, pré 1974, era muitíssimo diferente e muito mais deficiente em termos de oferta. Roseta colaborou na redacção dos artigos constitucionais que dizem respeito a essa matéria, e teve, desde então, quer no parlamento, inicialmente ao serviço do PSD e mais tarde, e muito mais prolongadamente, do PS, quer na câmara municipal de Lisboa, responsabilidades e pelouros ligadas a essa área. Temos então aqui um excelente exemplo de como uma pessoa fundamentalmente ideológica pode passar a vida toda a tratar de um assunto sem nunca abordar com pluralidade e com realismo o mesmo, dado que a ideologia, essa patologia do homem moderno pós século XIX, deixa na sua visão alguns ângulos mortos que o impedem de ver toda a matéria na sua globalidade e todas as relações entre os seus elementos.

Certamente existirão outros exemplos do enviesamento ideológico de Roseta na visão da problemática, ao longo de cinco décadas de actividade, em muitas entrevistas, artigos, intervenções públicas, bibliografia, tudo o mais. Este podcast é apenas mais um. Nele notamos, em primeiro lugar, a conversa típica dos idealistas — que, curiosamente, numa situação paradoxal, é o nome de um portal de imobiliário de mercado livre — e também de uma certa geração mais viajada e cosmopolita da década de 60 do passado século que, ao verem diferenças avassaladoras entre estado de desenvolvimento de Portugal e o estrangeiro, nomeadamente a nível de condições de habitação nas periferias das grandes cidades — Maria Filomena Mónica e Roseta enquadram-se nesta categoria — ficam muito chocadas, acham que aquilo é muito diferente da vida burguesa que levam, ficam cheias de complexo de culpa e vai daí resolvem construir toda uma identidade política progressista, com intuito de “mudar o mundo“, baseada não em qualquer de conhecimento sistemático sobre as áreas que os preocupam mas meramente advinda apenas de impressões avulsas, muito à semelhança do diagnóstico que certas religiões, em particular a católica, fazem quanto à pobreza: vêem uns pobres, não sabe como nem porquê, nem de onde vieram nem para onde vão, acham que isso está tudo muito mal e então decidem que se deve acabar com a pobreza e que um rico não pode passar por entre a agulha de um camelo ou lá como é que se diz.

Roseta chega então ao patamar de estudo da habitação com esse espírito e, como a tantos idealistas desse tempo, calha-lhes uma revolução no colo: em Abril de 1974, um golpe de estado deita abaixo o interior regime e deixa nas mãos destes meninos e meninas de bem, elites do governo sombra em Portugal, maioritariamente lisboetas, burgueses e e progressistas, além de ignorantes na maior parte das matérias sobre as quais se debruçam, a tarefa de, veja-se só: escrever uma Constituição! Inscrevem nesse documento então todo o tipo de propósitos bem intencionados mas sem qualquer estrutura filosófica, política e conceptual minimamente adulta e passível de ser levada a sério a longo prazo. Inscrevem direitos sem fim, dizem que o estado tem de os proporcionar, preferencialmente de forma direta, para que eles próprios, já convertido em responsáveis políticos e com as mãos bem firmes nas engrenagens do poder — facilitados aliás pelas proibições tanto da Constituição como do Movimento das Forças Armadas de formação de forças políticas de campo de extremo oposto — e aproveitando uma vaga já tardiamente chegada a Portugal de ciclo político de Estatização da economia, possam ser, dizia-se, eles próprios os reconhecidos como salvadores da pátria e das pessoas, únicos, directos e miraculosos solucionadores dos seus terrenos problemas.

Roseta passa assim várias décadas nessa área espalhando generalidades sem qualquer tentativa de sistematização séria, além de breves lampejos, ao mesmo tempo que se dedica, corretamente, a resolver micro problemas — com o dinheiro público, claro está, não com o seu próprio — que qualquer outra pessoa minimamente competente seria capaz de resolver. Ela assim como se constitui uma “ideóloga da habitação“, como muitas outras pessoas ideólogas existem de outras áreas, em Portugal, e que funcionam da seguinte maneira: evoca-se um princípio vago de injustiça universal, em que cabe ao Salvador, seja este a Santa mão da igreja ou o sábio responsável político, corrigir, e fica toda a gente contente: o povo, porque nada sabe do assunto nem passa a saber, e o responsável, porque sem saber do assunto mas meramente com a conjugação de um ideal atrativo que leve a meter as mãos na engrenagem do poder consegue papaguear a sua douta e santa intenção ao mesmo tempo que resolve os problemas que qualquer outra pessoa resolveria conquanto os cordões à bolsa fossem abertos para esse sentido.

Os enunciados de Roseta, na atualidade, sobre a questão, quatro ou cinco décadas passadas desde o seu papel mais relevante nessa área, contém assim muitas das características que “especialistas políticos“ no Portugal pós revolucionário têm: (1) enunciados de princípios seguidos de breves correcções que quase inteiramente os modificam, (2) evocações da experiência pessoal em formato de panorâmicas de décadas passadas onde tudo estava atrasado mas sem dar a mínima perspetiva das razões políticas sociais e económicas para isso ser assim e (3) descrições de sua prova própria experiência e habilidade para, ao leme do poder político, resolver pequenos problemas contornando genialmente a burocracia que eles próprios, os políticos, também se esforçam para criar. São estes os grandes “especialistas“ nas áreas dos “direitos“, gente sem qualquer sistematização credível nem imparcial dos problemas que abordam, capazes de enunciarem dois ou três pontos fundamentais das áreas e esquivarem-se em absoluto a referência de outros, muito aliás a semelhança de muitos governantes do antigo regime.

O dogmatismo e as palas de burro aqui imperam. Vejamos exemplos em concreto: refere, por exemplo, que a habitação não pode estar só sujeita ao mercado, sem explicar exatamente e com que critérios em absoluto objetivos que papel é que cabe ao mercado e/ou ao estado na constituição da mesma. Diz que existem ideologias políticas que delegam a auto regulação do mercado quando ninguém advoga propriamente nesses termos tal coisa mas sim que a regulação governamental não deve interferir com as possibilidades de liberdade de procura e oferta que as trocas livres entre pessoas fornecem. Descreve o famoso problema das barracas que se estendeu desde a passar da década de 60 até à de 90, concentradas nas periferias das grandes cidades, não referindo que advinha maioritariamente de uma industrialização e de des-ruralização tardia do contexto português, não tendo isso propriamente grande coisa a ver com um problema de habitação por si só. Refere a questão do arrendamento passando por cima do problema monumental e de princípio e das rendas antigas, que vem desde a primeira república — problema esse concentrado maioritariamente nos grandes centros urbanos. Tem a lata suprema de, como é de forma falaciosa comum entre certos ideólogos da habitação, dizer que o mercado de habitação não é como os outros porque os solos são limitados — como se em cada solo não fosse possível a construção em altura, solucionando muitos dos problemas da procura que hoje se verifica em grandes cidades e de que, por razões misteriosas, ninguém fala. Por último, naquele que é um dos exercícios de demagogia mais graves deste tipo de pessoas, refere o número de casas desabitadas em Portugal como global e não como local, referindo-se portanto ao total do território, que inclui segundas habitações e esquivando-se por completo a perceber se existe ou não existe falta de oferta em zonas específicas como as das grandes cidades. No caminho, aproveita para enunciar alguns princípios completamente lunáticos, como aqueles que põem em causa o direito de uma pessoa possuir uma habitação ou uma construção que sirva para o que ela bem entende, nomeadamente para estar vazia, se assim for o caso. Essa falácia parte do monumental malentendido a que por vezes chamo a metafísica da habitação e que já abordei noutra peça: achar que as casas são um bem limitado que cai do céu como um mana divino e que só resta ao pobre do ser humano, nomeadamente o benévolo e sábio político, distribuir estes casos recurso pelas alminhas. Ora nada está mais longe da verdade. Nem com os solos que, como já devem ter reparado, estão longe de estar plenamente ocupados por habitações — nem com as habitações em si — que, como já devem ter reparado, são construídas por mãos humanas, não se tratando de grutas, vales ou outras construções naturais. Tais bens não são “finitos”: são produzidos por mão humanas e têm o número e a qualidade que a razão humana bem entender.

Tudo isto remete, mais uma vez, para o universo metafísico em que muitos políticos “do abril” mas não só se movem: princípios em geral importados, mal formulados, mal adaptados e mal entendidos, que só se tornam operantes conforme exista dinheiro para gastar e que acabam por resolver talvez menos de um terço daquilo que poderiam resolver se não se formassem nesta fornalha de má ideologia, má política, e má filosofia. Nesse sentido, um político chato, desapaixonado, tecnocrático e funcional é, ao pé destas figuras de grandes alentos mas pouca substância, uma pessoa de maior confiança e uma coisa de grande valor.

Entre o Caseiro e o Comercial: A Jornada da Cosmética Natural

No turbilhão de opções na indústria de beleza, a dualidade entre a cosmética natural caseira e a comercial surge como um conto fascinante. O ritual diário de cuidados com a pele desdobra-se num debate entre o feito em casa e o pronto para comprar. Numa sociedade imersa em produtos de beleza embalados e promessas reluzentes, a procura pela verdadeira essência da beleza encontra-se no cruzamento entre estas duas abordagens distintas.

Na cozinha, onde aromas e texturas se entrelaçam, nasce a cosmética natural caseira. Um universo onde ingredientes familiares, retirados da despensa, transformam-se em poções mágicas para a pele. Óleos vegetais, mel, e até mesmo abacates desempenham papéis centrais nesse palco de experimentação. O vislumbre de uma máscara facial feita de abacate e mel torna-se uma experiência sensorial, muito além da mera aplicação de um produto comprado.

Contudo, adentrar o mundo da cosmética natural caseira é como embarcar numa jornada artesanal. As estantes da cozinha tornam-se uma alquimia de ervas, enquanto os potes e frascos testemunham misturas e infusões. O aroma de óleos essenciais enche o ar, transportando-nos para um jardim perfumado. A simplicidade do caseiro, entretanto, esconde a sua própria complexidade, exigindo paciência e um apetite por descobertas.

Contrastando com essa jornada caseira está o reino da cosmética comercial, onde a ciência se encontra com o luxo numa fórmula cuidadosamente elaborada. Embalagens elegantes prometem resultados instantâneos, atraindo consumidores em busca da última inovação. Os laboratórios efervescentes, nos bastidores, desencadeiam uma dança de ingredientes meticulosamente selecionados. Aqui, os produtos prometem eficácia, conveniência e uma pitada de glamour.

A cosmética comercial oferece um passeio cativante pelo mundo dos ingredientes exóticos, tecnologia de ponta e embalagens que são verdadeiras obras de arte. Entretanto, no meio desses frascos brilhantes, a lista de ingredientes muitas vezes se assemelha a um código genético indecifrável. A procura por produtos naturais, no contexto comercial, torna-se uma aventura por entre rótulos complexos e promessas sedutoras.

É nesse choque de abordagens que o consumidor moderno encontra o seu dilema. A cosmética natural caseira oferece uma conexão mais íntima com os ingredientes, enquanto a comercial promete conveniência e sofisticação. A escolha entre estas duas filosofias não é apenas sobre produtos, mas também sobre valores pessoais, tempo e a busca constante pela verdadeira definição de beleza.

A cosmética natural caseira e a comercial coexistem como dois capítulos fascinantes num livro infinito de cuidados com a pele. Nessa narrativa, o importante não é qual caminho que escolhemos, mas a compreensão de que, em ambas as trajetórias, a jornada é tão valiosa quanto o destino. O segredo da verdadeira beleza talvez resida na habilidade de apreciar a arte de criar e a ciência de inovar, tudo dentro do contexto de um olhar que reconhece a beleza única de cada indivíduo.

Caça ao Eros (uma travessia com George Bataille) 

“Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?”

-Fernando Pessoa

Variadas obras tratam este tema tão complexo e latente no Homem, sendo que em muitos casos é a Literatura que faz uma mais sagaz descrição do mesmo. Recomendaria, por exemplo, a famosa literatura erótica japonesa, como o livro Chá e Amor de Yasunari Kawabata, onde encontramos espelhado muito do que aqui será dito em forma de mero conceito.

Eros é uma força tão misteriosa quanto presente na vida dos homens: já na sua Teogonia, Hesíodo reconhece-o como uma força unificadora, filha do caos primitivo reinante. Outros autores integram o eros mítico no Olimpo, ou seja, enquadram-no numa fase bastante posterior do Kósmos, sendo este apresentado como filho de Afrodite.

Para entender esta força, é, segundo muitos autores, fundamental compreender a separação dos elementos que ela atrai, como para Simão de Samaria, que apresentava o fogo como Grande Poder, isto é, como energia vital, que se manifesta no homem e na mulher de modos distintos. Simão concebe dois momentos de transformação pelos quais passa o fogo nestes dois sexos distintos. Se no homem, o sangue quente e vermelho (como o fogo) se converte em esperma, a mulher converte-o em leite, sendo o homem o potenciador do ato e a mulher o sustento da nova vida.

A statue of a person and person

Description automatically generated Platão, na sua célebre obra O Banquete, apresenta a génese do eros de uma outra forma: Terá sido fruto do acasalamento de Poros e Pénia, recebendo do primeiro a astúcia de caçador e da segunda um estado natural de carência.

A person holding a pen and talking on the phone

Description automatically generated A person and person in a forest

Description automatically generated O leitor familiarizado com Platão sabe como é difícil extrair teses acabadas dos seus diálogos deslumbrantes, sendo que uma leitura minuciosa frutifica, mas não encerra, com muitas das questões colocadas. Em certos momentos, Eros pode ser entendido como uma doença, um desvio da alma tirânico e que cega o apaixonado. É também conhecida a versão de Diotima na qual eros é um daimon (um génio) que estabelece a ligação entre os homens e os deuses.

Talvez algo mais próximo da ideia com que o senso comum ficou do pensamento platónico possa ser encontrada no diálogo Fedro, em que dado momento se sugere que a nossa alma, outrora participante da contemplação do Bem e do Belo, ao cair neste mundo e tendo sido feita prisioneira num corpo, consegue, por vezes, encontrar indícios desse Belo em alguém, o que desencadeia em si a ação das forças obscuras do eros, que são no fundo a consequência de uma carência que o sujeito tem de algo Superior.

Outra tentativa de acomodar o indomável eros no nosso espírito está presente no discurso proferido por Aristófanes n”O Banquete”. Este apresenta-nos um homem original com características para lá do extravagante: Quatro mãos, quatro pernas, quatro orelhas, etc. Sendo estes seres de grande poderio, os deuses terão deliberado separá-los, fragmentá-los, tornando-os nas mulheres e homens que conhecemos hoje, seres consideravelmente enfraquecidos e incompletos, eros seria assim a força que busca a completude original, isto é, em termos mais familiares da cultura popular, a cara-metade.

Nesta caça ao eros espantou-me o Prólogo de Georges Bataille que afirma no seu livro O Erotismo o seguinte: “De olhos fixos sobre uma tal visão de conjunto, o que mais me apaixonou foi a possibilidade de reencontrar numa visão de conjunto a imagem que obcecou a minha adolescência, a de Deus. Não porque regressasse à fé da minha juventude, mas porque estou certo de que no mundo abandonado que habitamos a paixão humana tem um só objeto (…)” (pág. 10, BATAILLE, Georges. O Erotismo. Lisboa: Moraes Editores,1980).

Para entender o aspeto fatal deste jogo, Bataille “denuncia” o Homem enquanto ser transgressor, uma vez que se trata de um ser descontínuo que busca fugir dessa condição. O Homem é, portanto, (e isto é fundamental para entender esta obra), um ser naturalmente descontínuo, que surge in medias res e que é mortal, mas, ao contrário da pedra ou da árvore que também perecerão com o tempo, o seu caso é diferente porque este não se conforma com isso.

A young child with wings sitting on a rock

Description automatically generated Esta noção de ser descontínuo é para Bataille a chave para entender, na medida do possível, qual é a natureza do eros, é esta descontinuidade que permite que dois seres descontínuos se encontrem num ponto, dando vida a um ser de igual natureza descontínua, é nesta força de atração física que reside o eros, daimon que confunde os sábios que tomam o humano como inevitavelmente só.

Embora pareça demasiado científico ou matemático, passível até de esquematização em folha branca de papel, Bataille atribui-lhe um sentido eminentemente religioso cuja ciência e a filosofia não conseguem extrair a essência fundamental. Trata-se de um misterioso e súbito de romper de fronteiras de duas individualidades fechadas.

Para este autor é absurdo fazer como muitos, na contemporaneidade, uma redução do eros a uma atividade lúdica entre corpos e corações, na realidade “(…) todo o erotismo é sagrado (…) a procura duma continuidade do ser prosseguida sistematicamente para lá do mundo imediato só pode ser designada por uma atitude essencialmente religiosa” (Ibidem, pág.17)

Tal como para os gregos, para Bataille o eros é essencialmente uma força violenta e transgressora (sem violência não existiria mudança, isto é, movimento), trata-se de uma transgressão em duplo sentido; além de ser um movimento este dirige-se para um querer-ser-como-os-deuses. Trata-se, portanto, de uma forma de mania, loucura, bem explícita nos versos pessoanos dedicados a D.Sebastião que escolhi como mote para este texto.

Este é o ponto fundamental, a tentativa de romper com a estrutura essencialmente solitária do eu, a busca por um esbatimento das fronteiras deste eu face ao outro. Podemos assim contrapor esta tese a algumas das afirmações mais comuns, que reduzem o eros a uma resposta a estímulos, sorvendo-lhe toda a metafísica e atribuindo-lhe a qualidade de coisa passiva à espera de ser desencadeada. Creio que Bataille glosa bem quando afirma que eros vai muito além do mero jogo anatómico, mas se for assim encarado poderá ser reduzido a uma modalidade desportiva com alguns traços particulares, mas ainda assim pouco mais que isso.

Não obstante, Bataille não nega a ação decisiva que é a procura da nudez, ou seja, de um dar-se a ver ao outro. Procura-se a nudez no recato livre do olhar alheio e, segundo o autor, este desnudamento era visto primordialmente como um simulacro da morte violenta, como é violento o ato sexual- aproxima-se do sacrifício.

É a partir deste momento que Bataille se torna claro para alguns e estranho para outros… É preciso vincar que eros é uma forma de hybris, isto é uma transgressão, estando subjacente por tal ordem de ideias uma proibição obscura, mas que estende os seus tentáculos aos pontos sensíveis da existência.

Quando o francês escreve a respeito do erotismo dos corações, descreve-o como “mais livre”, porque está separado da mera materialidade corporal e do aspeto imperativo que lhe reconhecemos. Várias foram as tentativas de definir este amor-paixão, muito presente em autores como Tolstói e Stendhal. Mas que se desengane aquele que começa a romantizar e a crer que aqui estamos a mencionar um território de paz, algo que de facto qualquer jornal sensacionalista desmente, assim como o “nosso” autor: “ Se é verdade que a posse do ser amado não significa a morte, também o é que a morte está necessariamente envolvida na busca dele. Se aquele que ama não pode possuir o seu amado, pensa, por vezes, em matá-lo, em muitos casos prefere matá-lo a perdê-lo” (Ibidem, pág.20).

O leitor ficará justamente escandalizado com estas cáusticas considerações, mas ela são, reitero, empiricamente comprováveis na imprensa e no quotidiano, mas é justo perguntar: A que forças dará o mais comum dos homens a mão a fim de se confrontar com o abismo da morte, isto é, do Tudo ou Nada (estado inerentemente religioso)?

O Aristófanes platónico e Bataille aparecem a responder em uníssono que o Homem é individualmente incompleto, isto é, uma presença-meio-ausente que busca a completude (que só pode ser encontrada no Divino).

Para o apaixonado, o ser amado é a Verdade, é assim que este lhe aparece e como tal induz-lhe uma sofreguidão de posse. Com ele a complexidade do Mundo parece desvanecer-se, focando-se este (pateticamente?) num(a) outro(a) mortal atribuindo-lhe o estatuto de unidade de sentido da totalidade do aparecimento, isto é, divinizando-a. Sendo que, assim como o rito sacrificial, o erotismo é uma procura do Eterno por um atalho.

Algo que ainda não foi dito mas que me parece importante vincar é que um dos pontos que faz divergir a sexualidade do Homem da do Animal, é a da posse neste primeiro desta coisa estranha a que por vezes damos o nome de interioridade. E, voltando ao que já tinha sugerido, e está presente em Bataille, o Homem Primitivo além de utensílios criou proibições, focando-se em dois pontos basilares da vida humana, a sexualidade e a morte.

Sendo que o erotismo nasceu, como podemos intuir no Antigo Testamento, da passagem da sexualidade inocente à sexualidade envergonhada, que passa, portanto, a fazer parte da vida moral, ou desta misteriosa interioridade.

Georges Bataille deixa sempre bem claro o facto de estar em território enigmático. A busca de eros não pode ser feita pelo tratado filosófico ou científico, mas sim eventualmente pela confissão. É em boa verdade nas confissões deixada por Santo Agostinho que encontramos uma das expressões mais exuberantes de amor, e no Salomão bíblico que encontramos algumas das passagens em que o erotismo é revelado no seu apogeu.

Não é possível conceber o erotismo na ausência de uma dicotomia do tipo proibição-transgressão. Existe, como sublinha o autor, uma cumplicidade entre a lei e a sua transgressão.

O termo que há pouco empreguei, confissão, deve ser corrigido acrescentando um outro elemento, a impessoalidade, pois se a experiência de eros fosse no campo fenoménico para x algo que nada tem de aproximado com y ou z pouco sentido faria falar-se de um eros porque este estaria carente te traços discerníveis. Dito de outro modo, o ato de morder a maçã é um bom arquétipo que se terá repetido incontáveis vezes até ao presente momento. Acompanhado de toda a angústia e sofrimento que advêm do instante primeiro e transgressor em que o Homem se achou sozinho no Mundo.

Trata-se, como Bataille reitera, de um rasgar-se a si mesmo e não um resultado de coerção externa, não, o Homem conhece, de alguma forma, a sua condição e procura transgredi-la. Sendo a morte, a procriação e o Divino a tríade louca que permite ter uma ideia do que é eros.

O leitor poderá achar que o francês exagera, ou interrogar-se sobre qual o motivo de tantas proibições, ao que este responderia que está a ser realista e que esta advém do trabalho, isto é da ação organizada, isto é, da razão, ainda que essas proibições sejam em muitos casos irracionais. Toda a atividade violenta como é o caso do ato sexual perturba o trabalho e como tal é passível de proibições.

A nudez sempre foi considerada digna em espaços e momentos específicos e vergonhosa noutros, sendo que esta separação tem vindo a ser diluída pela pós-modernidade em resultado da perda da noção de sagrado no quotidiano. Estamos a assistir ao definhamento do tabu, sendo importante definir este, trata-se de uma velha solução para um problema difícil e estrutural sendo que o seu questionamento faz abalar toda a estrutura. Um dos exemplos disso, e que é dado pelo autor é o incesto.

Quem lê O Erotismo depara-se com a descrição de horrores primordiais que serviriam de fundamento para os tabus poderá sentir-se a ler Lovecraft, assistindo a uma visão do humano no seu fundamento mais primitivo e cruel, não considero que se trate de um exagero e recomendo a quem assim pensa menor ingenuidade. Bem vemos como o estado de guerra conviveu sempre bem com a da violação, sendo a sexualidade usada também de forma bélica e criminosa quando se torna possível em estados de suspensão das proibições.

Bataille expõe insistentemente o erotismo comparando-o com outras formas de violência organizada como é o caso da guerra ou do rito sacrificial; apresentando o sagrado como a continuidade do ser que é revelada solenemente fixando a atenção na morte de um ser descontínuo. Sendo que a morte de alguém é mais traumática que o desejo violento da posse do outro, é também ela mais sagrada. Deus pedira a Abraão o sacrifíco do seu próprio filho como prova da sua lealdade.

Creio importante encadear dois aspetos; como diz o francês no começo do V capítulo, a transgressão não se resume à proibição, mas sim da sua superação consciente. Daí que possamos em seguida entender como a mesma sociedade que proíbe o homicídio pode permitir e até fomentar a guerra (para os animais não existem proibições, e como tal não existe o conceito guerra).

Uma chave fundamental para entender o que até aqui tem vindo a ser dito é o conceito de fecundação, apenas com ela é possível que numa ínfima parcela de dois seres descontínuos exista um instante de unidade. Como tal a atividade sexual parece colocar provisoriamente o isolamento em crise, o ato sexual potencia uma fuga de si mesmo. Faz de cada um de nós uma espécie de personagem hamsuniana, em que temos a figura do ermita que é perturbado pela beleza feminina, motivo pelo qual os pensadores ascéticos condenam de forma perentória a convivência entre homem e mulher, que inevitavelmente se irá traduzir numa injeção de mundo no sujeito que procura escapar dele.

O ato sexual é resultante de uma mortal superabundância, é embriaguez, grito descontrolado, sendo que somente os seres sexuados escapam dele com vida, nem sempre é assim por exemplo a fêmea louva-a-deus decapita usualmente o macho após o mesmo. Ainda assim segue-se no Homem aquilo a que usualmente chamamos ressaca e a que Bataille dá o nome de “pequena morte”.

Georges Bataille faz aliás na sua obra um gritante elogio à morte, que arrepiaria cada cabelo trans-humanista com pretensões criogénicas: “Só a morte inumerável faz sair de um beco estes seres que se multiplicam. Imaginar um mundo em que a organização artificial assegurasse o prolongamento da vida humana é apenas evocar a possibilidade de um pesadelo. Para lá de certo tempo a mais, nada conseguimos entrever. No fim reinaria a morte, invocada pela multiplicação, invocada pela superabundância de vida” (Ibidem, pág.90).

Uma posição que eu não poderia deixar de mencionar, e que vem à boleia do que tem vindo a ser dito, é a de que o êxtase sexual é no fim de contas a procura de um existir sem o peso de ser, como poderia ter dito Kundera, trata-se no fundo da busca de um esquecimento de si. Conforme tenho vindo a mencionar, segundo Bataille existe uma proibição fundamental obscura relativa à carne, sendo que, tanto no ato sexual como no sacrificial é a carne que é revelada enquanto excesso e em oposição à decência.

O ato sexual é, portanto, uma transgressão, um querer-ser-como-os-deuses, que de forma paradoxal reconduz na aparência o humano à animalidade. Trata-se de uma erupção excessiva desta energia a que damos nome vida, um excesso que irrompe da matéria inerte e que visa o crescimento (sendo que na reprodução se trata de um crescimento impessoal, em benefício de um outro ser descontínuo por vir, como tal, um rito de passagem).

O autor prepara-se para estabelecer uma divisão que eu já intuía: No caso da reprodução assexuada é a verdade última da morte que se manifesta, por seu turno na reprodução sexuada a mortalidade desses seres é mais frágil e pode levar tempo até que alguém se apaga da memória : “Um esqueleto pode durar milhões de anos” (Ibidem, pág.87). Permanecendo, ainda assim, a sua alma como elemento de descontinuidade que sobrevive ao ser corporal. Existe sempre esta clara ligação entre morte e eros em Bataille, sendo que este é um imperativo para sair-fora-de-si.

A violência do ato sexual abre uma ferida que está diretamente ligada com a angústia, reabre um abismo que há em nós. No entanto raramente é isso que aparenta ocorrer, na aparência parece ser o oposto, mas, “O movimento carnal é singularmente estranho à vida humana, desencadeia-se fora dela (…)” (Ibidem, pág.94) No ato sexual, aquilo a que chamamos personalidade encontra-se suspenso.

No capítulo X, Bataille começa por afirmar que geralmente o casamento e o erotismo não aparecem associados, pondo as coisas nos termos em que colocaria Kant ou Mandeville: “O casamento é, acima de tudo, o enquadramento da sexualidade lícita” (Ibidem, pág.99). Assim como o rito sacrificial, o casamento é um paradoxo, porque é uma transgressão carimbada. E se para os contemporâneos o casamento é cada vez mais uma experiência, podendo ser invalidada a qualquer momento, para os antigos possuia uma força imprimida pelo sagrado, tratava-se de uma união feita sob o olhar dos deuses.

Posto isto, e para concluir o meu texto, Bataille faz também referência ao fenómeno oposto ao do casamento: a orgia. Tal como podemos ver em autores como Eliade, a orgia é comum sobretudo em momentos de crise, exemplificando o autor no Erotismo com a figura do povo sem Rei, porque o Rei acabara de morrer. Instauram-se então ímpetos desagregadores da ordem e da hierarquia, que são em boa verdade os ímpetos que dominam a pós-modernidade. Como Bataille vê e bem, e talvez com uns anos de antecipação, mais do que ausência de pudor, a orgia é um sinal de que se vive um momento em que as forças do caos estão no comando.

Bibliografia

BATAILLE, Georges. O Erotismo. Lisboa: Moraes Editores,1980

PLATÃO. O Banquete, Fedro, Apologia de Sócrates / Críton. Edições 70

VANEIGEM, Raoul. As Heresias. Lisboa: Antígona,1995

Nanoestruturas de Celulose: Aplicações Tecnológicas Emergentes

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Texto de Ana Catarina Trindade, CENIMAT|i3N, Department of Materials Science, School of Science and Technology, NOVA, University Lisbon and CEMOP/UNINOVA, Caparica, Portugal e Universidade Atlântica e ESSATLA – Escola Superior de Saúde Atlântica, Fábrica da Pólvora de Barcarena, Portugal.

A natureza é uma rica fonte de inspiração para a ciência dos materiais, graças à evolução e à seleção natural. Ao longo do tempo, a vida na Terra desenvolveu uma vasta gama de moléculas e materiais multifuncionais, cada um com propriedades únicas. Dos animais às plantas, dos sistemas naturais às estruturas microscópicas, podem destacar-se uma variedade impressionante de funções distintas. Por exemplo, podemos observar a coleta direcional de água em teias de aranha molhadas, as propriedades antiembaçamento nos olhos dos mosquitos, a captura de água e a desaceleração das asas dos besouros, a variedade de cores nas asas de borboletas e a super hidrofobicidade e baixa adesão nas folhas de lótus. [1]

Recentemente, as cores estruturais têm recebido uma atenção especial em diversas áreas de pesquisa e investigação, devido às intrincadas interações entre a luz e as sofisticadas microestruturas presentes no mundo natural. [2] Esse fenómeno serve como base para algumas das mais impressionantes exibições de cores na natureza, como as observadas em borboletas, mariposas, besouros, escaravelhos, pássaros, peixes, plantas e frutas (conforme exemplos na Figura 1). Um exemplo clássico dessa coloração é encontrado nas asas da borboleta Morpho blue, onde a presença de estruturas lamelares nas suas cristas resulta numa forte reflexão num comprimento de onda específico. [3]

Figura 1 – Exemplos de côr estrutural na natureza: (a) Pollia condensata [4]; (b) escaravelho Dogbane [5]; (c) Penas do pavão [6]; (d) Borboleta Blue Morpho [7].

O interesse crescente no desenvolvimento de materiais ambientalmente sustentáveis, impulsionado pelo esgotamento dos recursos derivados do petróleo e pelos problemas ambientais, como o aquecimento global, tem destacado os materiais de base biológica como alternativas viáveis. A celulose, o composto orgânico renovável mais abundante na Terra, desponta como um polímero natural sustentável fascinante e praticamente inesgotável, amplamente utilizado em diversas aplicações do dia-a-dia. As suas inúmeras vantagens, como disponibilidade, baixo custo, baixa densidade, não toxicidade, biocompatibilidade e biodegradabilidade, tornam a celulose uma escolha atraente em uma ampla gama de setores, incluindo a indústria automóvel, de construção, eletrónica, desportiva e de lazer. [9] Além disso, a celulose é considerada uma alternativa aos polímeros à base de combustíveis fósseis. Mais recentemente, descobriu-se que a celulose é um material ecológico ideal para imitar micro e nanoestruturas periódicas que produzem iridiscência e coloração estrutural. [10] Originada na parede celular de plantas, algas, bactérias e alguns animais marinhos (como os tunicados), a celulose é uma cadeia principal de polímeros composta por unidades de β-glicose alternadamente invertidas a 180°, formando um polímero de cadeia principal por meio de ligações glicosídicas 1,4 formadas através de uma reação de condensação. As cadeias são estabilizadas lateralmente por ligações de hidrogénio, formando microfibrilas que são agrupadas em regiões cristalinas e desordenadas (Figura 2). Essas microfibrilas organizam-se em macrofibras e fibras, formando estruturas hierárquicas auto-organizadas. [11] O grau médio de polimerização () da celulose varia conforme a fonte, sendo aproximadamente 10.000 para celulose extraída da madeira e 15.000 para celulose extraída da lã. [12]

Figura 2 – (a) Estrutura química da celobiose, a unidade de repetição da celulose.
(b) Representação esquemática de uma cadeia de celulose, mostrando regiões amorfas e cristalinas.

O avanço da nanotecnologia, juntamente com o crescente interesse em materiais ecológicos de base biológica, tem suscitado grande interesse na nanocelulose. Ao ser reduzida para a escala nanométrica, a nanocelulose expande significativamente o leque de aplicações em que a celulose pode ser utilizada. Estes nanocristais de celulose apresentam diversas vantagens, incluindo rigidez combinada com baixo peso, uma relação área-volume extremamente alta, propriedades mecânicas impressionantes (conhecida como “nano resistência”), biodegradabilidade, baixa densidade (1,6 g.cm-3) e uma superfície reativa com grupos laterais hidroxilo, –OH, que facilitam a ligação de outros grupos funcionais, possibilitando a obtenção de diferentes propriedades de superfície. [11] Além disso, sendo um material nanoestruturado, a nanocelulose possui uma série de benefícios adicionais: é amplamente disponível em escala industrial, renovável, economicamente viável, ecologicamente amigável, biocompatível e não tóxica. Portanto, as propriedades químicas, ópticas e elétricas dos nanocristais de celulose (NCCs) têm inspirado investigações biomiméticas, visando a obtenção de materiais com propriedades semelhantes às encontradas na natureza. [8], [13]

Os nanocristais de celulose são obtidos por meio da remoção das regiões amorfas da cadeia principal, mantendo intactas a maior parte das regiões cristalinas. Esse processo de produção dos NCCs a partir das moléculas de celulose ocorre em duas etapas distintas (conforme mostrado na Figura 3): na primeira etapa, ocorre um processo químico ou enzimático que envolve a remoção da lignina e da hemicelulose presentes nas fibras, resultando no isolamento da celulose purificada, livre de impurezas; na segunda etapa, os cristais de celulose são extraídos da matriz amorfa por meio de hidrólise ácida. As dimensões geométricas dos nanocristais de celulose, como comprimento e largura, variam e dependem da origem das microfibrilas de celulose e das condições da hidrólise ácida, como tempo e temperatura. [8]

A extração de nanocristais de celulose por hidrólise ácida resulta numa suspensão composta por nanorods. [15] Acima de uma concentração crítica e sob condições adequadas, os nanocristais de celulose se auto-organizam na suspensão e formam uma fase líquida cristalina nemática quiral, devido à sua forma de haste. [16] Esse fenómeno foi observado pela primeira vez na produção de suspensões estáveis de cristais de celulose de tamanho coloidal por hidrólise com ácido sulfúrico de madeira e celulose de algodão em 1949. [17] O esquema apresentado na Figura 3 ilustra a forma helicoidal como os nanocristais de celulose se auto-organizam ao longo de seu eixo colestérico. O passo colestérico (pitch, P) é, por definição, a distância para uma revolução de 360°. Esse passo da hélice colestérica, formado pelo ordenamento orientacional das moléculas, é comparável à faixa de luz visível onde dispersará ou refletirá luz iridescente, e pode ser estimado usando a equação de de Vries. Por outras palavras, a cor da luz dispersada e, consequentemente, a produção de um efeito cromático, são comparáveis ao comprimento de onda da luz.

Quando o solvente é evaporado, esse arranjo colestérico pode ser “congelado” ou mantido, o que resulta em filmes sólidos preparados a partir de nanocristais de celulose com notáveis propriedades ópticas, como iridescência, reflexão seletiva de luz polarizada circularmente à esquerda e transmissão de luz polarizada circularmente à direita. [18] Fernandes et al. relataram que as propriedades mecânicas e ópticas de filmes finos celulósicos transparentes micrométricos podem ser ajustadas modificando as características do cristal líquido precursor do sistema e adicionando nanocristais de celulose. [19] Foram observados filmes celulósicos iridescentes, com propriedades mecânicas e estruturais de cor sintonizáveis, que imitam as estruturas encontradas em pétalas de algumas flores, cuja coloração é resultado do arranjo estrutural helicoidal em nanoescala.

Figura 3 – Representação esquemática da ordem quiral nemática apresentada pelas nanopartículas de celulose, demonstrando a dependência da estrutura e propriedades dos NCCs nas condições experimentais da sua produção. A equação de de Vries é representada como: θ – ângulo de incidência; λ – comprimento de onda da luz refletida; n – índice de refração médio da amostra; P – passo do colestérico (“pitch“).

A Figura 4 apresenta uma fotografia de alguns filmes finos celulósicos com coloração estrutural obtidos a partir de suspensões de nanocristais de celulose em água, além de uma imagem de microscopia eletrónica de varrimento (SEM) da seção transversal de um desses filmes, revelando a organização em estrutura helicoidal. Vale ressaltar que as suspensões colestéricas de nanocristais de celulose sempre apresentam uma estrutura helicoidal esquerda, enquanto nenhum arranjo helicoidal direito foi encontrado até o momento. [20]

Todos estes estudos demonstram que é viável a obtenção de materiais coloridos biodegradáveis, sustentáveis e economicamente viáveis a partir de suspensões de nanocristais de celulose em água. Além disso, a afinação da tonalidade será responsável pela coloração característica dos filmes sólidos obtidos a partir da suspensão de NCCs-água.

Figura 4 – a) Filmes finos celulósicos com coloração estrutural, provenientes de suspensões
líquido-cristalinas de nanocristais de celulose. b) Imagem da seção transversal de um desses filmes, capturada por microscopia eletrónica de varrimento (SEM), revelando a estrutura helicoidal esquerda.

Referências Bibiográficas:

[1] Z. Ha, M. Yang, B. Li, Z. Mu, S. Niu, J. Zhang and X. Yang, “Excellent structure-based multifunction of morpho butterfly wings: A review”, J. Bionic Eng., vol. 12, no. 2, pp. 170–189, 2015.

[2] S. Kinoshita, “Structural Colors in the Realm of Nature”, Front Matter, vol. 136, no. 1. Singapore: World Scientific Publishing Co. Pte. Ltd., 2008.

[3] S. Tadepalli, J.M. Slocik, M.K. Gupta, R.R. Naik, and S. Singamaneni, “Bio-Optics and Bio-Inspired Optical Materials”, Chem. Rev., vol. 117, no. 20, pp. 12705–12763, 2017.

[4] “Pollia condensata” [Online] Disponível: https://funflowerfacts.wordpress.com/2013/01/23/the-worlds-shiniest-plant-the-pollia-condensata/ [Acessado: 25-Março-2024]

[5] “Dogbane Beetle.” [Online]. Disponível: https://bugoftheweek.com/blog/2016/7/18/one-gorgeous-beetle-dogbane-leaf-beetle-ichrysochus-auratusi. [Accessado: 25-Março-2024].

[6] “Peacock Feathers.” [Online]. Disponível: https://pixabay.com/images/search/peacock
%20feathers/ [Accessado: 25-Março-2024].

[7] “Morpho Butterfly.” [Online]. Disponível: https://pixabay.com/images/search/blue%20morpho%20butterfly/ [Accessado: 25-Março-2024].

[8] J. George and S.N. Sabapathi, “Cellulose nanocrystals: Synthesis, functional properties, and applications”, Nanotechnol. Sci. Appl., vol. 8, pp. 45–54, 2015.

[9] J.P. Borges, J.P. Canejo, S.N. Fernandes, P. Brogueira, and M.H. Godinho, “Cellulose-Based Liquid Crystalline Composite Systems”, Nanocellulose Polym. Nanocomposites Fundam. Appl., vol. 9781118871, pp. 215–235, 2014.

[10] A.G. Dumanli, A.G. Dumanli, G. Kamita, J. Landman, H. van der Kooij, B.J. Glover, J.J. Baumberg, U. Steiner and S. Vignolini, “Controlled, bio-inspired selfassembly of cellulose-based chiral reflectors”, Adv. Opt. Mater., vol. 2, no. 7, pp. 646–650, 2014.

[11] M. Kaushik, C. Fraschini, G. Chauve, J.-L. Putaux, and A. Moores, “Transmission Electron Microscopy for the Characterization of Cellulose Nanocrystals”, Transm. Electron Microsc. – Theory Appl., 2015.

[12] G. Siqueira, J. Bras, and A. Dufresne, “Cellulosic bionanocomposites: A review of preparation, properties and applications”, Polymers (Basel)., vol. 2, no. 4, pp. 728–765, 2010.

[13] M. Shishehbor and P.D. Zavattieri, “Effects of interface properties on the mechanical properties of bio-inspired cellulose nanocrystal (CNC)-based materials”, J. Mech. Phys. Solids, vol. 124, pp. 871–896, 2019.

[14] H. Kargarzadeh, M. Ioelovich, I. Ahmad, S. Thomas and A. Dufresne, “Methods for Extraction of Nanocellulose from Various Sources”, Handb. Nanocellulose Cellul. Nanocomposites, pp. 1–49, 2017.

[15] M.S. Reid, M. Villalobos, and E.D. Cranston, “Benchmarking Cellulose Nanocrystals: From the Laboratory to Industrial Production”, Langmuir, vol. 33, no. 7, pp. 1583–1598, 2017.

[16] U. Gill, “Mechanical Properties of Cellulose Nanocrystal Thin Films,” 2017.

[17] S. Beck-Candanedo, M. Roman, and D.G. Gray, “Effect of reaction conditions on the properties and behavior of wood cellulose nanocrystal suspensions”, Biomacromolecules, vol. 6, no. 2, pp. 1048–1054, 2005.

[18] S.N. Fernandes, P.L. Almeida, N. Monge, L.E. Aguirre, D. Reis, C.L.P. de Oliveira, A.M.F. Neto, P. Pieranski and M.H. Godinho, “Mind the Microgap in Iridescent Cellulose Nanocrystal Film”, Adv. Mater., vol. 29, no. 2, 2017.

[19] S.N. Fernandes, Y. Geng, S. Vignolini, B.J. Glover, A.C. Trindade, J.P. Canejo, P.L. Almeida, P. Brogueira and M.H. Godinho “Structural Color and Iridescence in Transparent Sheared Cellulosic Films”, Macromol. Chem. Phys., vol. 214, no. 1, pp. 25–32, 2012.

[20] A.P.C. Almeida, J.P. Canejo, S.N. Fernandes, C. Echeverria, P.L. Almeida, and M.H. Godinho, “Cellulose-Based Biomimetics and Their Applications”, Advanced Materials, vol. 30, no. 19. pp. 1–31, 2018.

Os grupos étnicos do Japão

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Os japoneses aparentam, para o observador externo, ser um povo homogéneo. No entanto, as estatísticas antropológicas e sociológicas indicam a existência de algumas etnias minoritárias com características muito distintas e interessantes. Entre o povo mais comum (a etnia Yamato), temos também os seus povos indígenas, pessoas de raça mista, e imigrantes residentes no Japão. Em particular os povos indígenas possuem uma história e posição atual interessante de várias maneiras. Um pouco de informação sobre eles:


Povo Ainu

Grupo étnico indígena do Japão e da Rússia. Habitam as ilhas japonesas referidas como Ezo, hoje conhecido como Hokkaido. Os seus inícios remontam o século XIII e expandem-se até ao presente.

O número oficial de ainus é 25 mil, mas estimado em 200 mil. Têm uma língua própria, e a religião que praticam venera a natureza, muito como o xintoísmo, praticado pela maior parte da população japonesa atualmente.

Pontos interessantes da sua cultura incluem:

  • Tatuagens

Estas simbolizam maturidade e proteção contra maus espíritos.

Fig.1 – Tatuagens tradicionais Ainu.

O seu vestuário é feito com materiais naturais, como pelo ou penas de animais, ou fibras retiradas de árvores, e os seus sapatos são feitos com escamas de peixes ou pele de veado.

Uma imagem com Material natural, sapatos, sapato

Descrição gerada automaticamente

Fig. 2 e 3 – Trajes tradicionais Ainu.

  • Religião

Historicamente, o animismo seria o termo mais aproximado para caracterizar a religião Ainu, que se centraliza na veneração da espiritualidade presente em todos os seres vivos, como animais e plantas, e até ferramentas. Estes espíritos, ou os deuses ainu, chamam-se Kamui. Nesta religião, não existe um deus ou ídolo supremo.

Com o passar do tempo até à atualidade, o budismo foi-se tornando a sua religião principal, devido ao aumento do contacto com o povo japonês “comum” (Yamato).


Uma imagem com ar livre, céu, escultura, pássaro

Descrição gerada automaticamente
Fig. 4 – Estátua de espírito Kamui.

  • Arquitetura

As casas ainu, chamadas de chise, eram construídas utilizando materiais naturais. Estes variavam um pouco consoante a região, mas normalmente são reconhecidas pelo seu aspeto exterior retangular, com telhado e paredes de folha de bamboo.

Uma imagem com edifício, viga, interior, madeira

Descrição gerada automaticamente

Fig. 5 – As casas “Chise”.

Povo Ryukuano

O povo ryukyuano é um grupo étnico nativo das ilhas Ryukyu. Eles falam uma língua ryukyuana, e o seu número estimado de habitantes ronda acima dos 2 milhões. Tal como o povo Ainu, praticam uma religião mista, focada na natureza, e também na veneração dos seus antepassados. Geneticamente, são uma mistura do povo japonês Jomon e de outras populações asiáticas.

Fig. 6 Traje tradicional Ryukyuano e dança tradicional “Zo”.

Aqui ficam algumas curiosidades sobre o povo:

– Existem na verdade cinco línguas Ryukyuanas: Amami, Okinawa, Miyako, Yaeyama e Yonaguni;

– As danças de Ryukyu (ou de Okinawa) dividem-se em três estilos: clássica, Zo, e moderna. Estas danças são consideradas Património Cultural Imaterial devido à sua relevância e riqueza cultural;

– Alguns pontos de passagem interessantes incluem:

Castelo Shuri: era o palácio do Reino de Ryukyu.

Uma imagem com céu, ar livre, Arquitetura chinesa, Arquitetura japonesa

Descrição gerada automaticamente

Fig. 7 – Castelo Shuri.

Jardim Shikina-en: O Jardim Shikina-en, ou Shichina Nuudun, era a maior villa da família real Ryukyu.

Fig. 8 – Jardins Shikina-en.

Com a sua identidade própria e culturas ricas, estes povos sofrem ainda nos dias de hoje de tentativas de abafamento por parte do governo japonês, que pretende passar uma imagem de homogeneidade étnica, tendo já contado historicamente com tentativas de assimilação destes povos para assim provocar a sua erradicação. Isto sucedeu especialmente na época Meiji (época entre os anos 1868 e 1912). Esta ideia continua enraizada na sabedoria comum da população. As culturas e história de ambos estes povos são ricas, mas na verdade a sua existência é instável, e o seu destino incerto. Esta foi sem dúvida, e permanece ainda, uma questão de preservação de identidade cultural e de direitos humanos.

Referências:

https://www.ff-ainu.or.jp/web/english/details/post-8.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Ryukyuan_people

https://en.wikipedia.org/wiki/Ryukyuan_culture

https://jojoscope.net/2015/11/07/ryukyu-buyo-as-dancas-de-okinawa-aqui

https://www.traveljapan.com.au/the-ryukyu-kingdom-a-brief-history

https://www.city.naha.okinawa.jp/kankou/bunkazai/shikinaen.html

https://okinawa-nanjo.jp/sefa/en/

https://jojoscope.net/2015/11/07/ryukyu-buyo-as-dancas-de-okinawa-aqui

Sobre como a Associação #NãoPartilhes é um Mau Exemplo, uma Falácia e Talvez um Logro

À primeira vista, a associação que quero abordar nesta peça parece ser uma excelente iniciativa destinada à prevenção da circulação de conteúdos íntimos em suportes digitais nas redes contra a vontade dos retratados.

No entanto, tendo algumas interacções com a mesma quanto aos seus princípios e filosofia revelado óbvias confusões e falácias; o facto de, contraditoriamente ou não, os seus membros possuírem redes sociais pessoais altamente erotizadas; e o facto de, como infelizmente é tão comum nas individualidades ou colectividades contemporâneas, se mostrarem muito avessos ou mesmo ariscos à crítica, capazes de evidentes ordinarices e má-criações nas respostas; tudo isto, dizia, levou-me a investigar um pouco melhor qual o ethos que domina esta associação e o sentido de tudo o que fazem.

As conclusões a que cheguei são, infelizmente, decepcionantes, e levam-me mais uma vez a constatar que, por muito que determinadas causas possam parecer à partida meritórias, são os oportunistas e os aldrabões os primeiros a chegarem-se à frente para as defender — ou melhor, não para as defender, mas para as usarem em proveito próprio. Veremos a seguir como é que isso se processa.

Em primeiro lugar, descreverei qual o objectivo da colectividade. Pretende, através de acções de sensibilização e de propaganda, presenciais e online, sensibilizar para a indecência moral de partilhas de conteúdos privados de terceiros, em geral eróticos, captados inicialmente por meios lícitos ou ilícitos.

A expressão mais significativa deste fenómeno ocorre, segundo dizem, em grupos online, constituídos maioritariamente por rapazes e homens, que trocam entre si conteúdos que variam entre:

  • (1) fotografias e vídeos de raparigas e mulheres de conteúdo erótico mas sem nudez explícita livremente acessíveis em plataformas como redes sociais;
  • (2) fotografias e vídeos de conteúdo erótico com nudez e actividade sexual explícita captadas em privado, livremente enviadas a terceiros, e, mais tarde, partilhadas ilicitamente, em geral aquando do fim de relações amorosas (“revenge porn“);
  • (3) fotografias e vídeos do mesmo tipo que, por estarem em suporte electrónico, são hackeadas por desconhecidos e posteriormente divulgadas na internet com intuitos comerciais.

A estas categorias posso ainda acrescentar outras duas, talvez menos numerosas mas mesmo assim igualmente graves no ilícito que constituem:

  • (4) fotografias de conteúdo erótico com ou sem nudez e actividade sexual explícita divulgadas em redes como OnlyFans por livre iniciativa e mais tarde reproduzidas em circuito externo (“pirataria” de conteúdos visuais, portanto);
  • (5) fotografias e vídeos de conteúdo erótico ou não captados ilicitamente sem o conhecimento sequer da pessoa de que estaria a ser fotografada.

Aqui levanto a primeira dúvida quanto ao princípio que rege a associação, e que configura toda a sua linha: a ideia de que toda a mensagem preventiva quanto a acidentes deste tipo deve ser dirigida exclusivamente aos terceiros que expõem os conteúdos alheios e não aos próprios retratados, ou, mais frequentemente, às próprias, que se permitem serem captadas nessas condições em formato digital facilmente reprodutível.

Esta linha ética que a associação adopta — e que, em grande medida, se torna dogmática e obsessiva — faz parte de uma tendência mais ampla, contemporânea, juvenil e assustada: a de um foco obsessivo e judaico-cristão na questão da culpa como razão e não como causa. Não se pode, segundo esta mundivisão errada, culpar a vítima: o que quer dizer, em termos resumidos e até neuróticos, que não se pode sequer abordar o assunto de a vítima estar a colocar-se numa situação obviamente vulnerável, sob pena de a traumatizar e enfurecer, quando partilha conteúdos desse tipo em (1) suportes digitais de reprodução automatizada e (2) com pessoas com quem não terá absoluta razão de confiança.

Neste contexto, não é possível, por meras razões de tabu moral, colocar a questão na mesa sobre a óbvia imprudência em que a vítima poderá estar a incorrer ao deixar-se retratar nesses preparos — como se alguém que atravessasse um bairro de reputação duvidosa com um maço de notas de centenas de euros na mão não pudesse ser concebido como alguém que está a ter diminuta prudência na sua acção. Esta é uma visão de crianças, para crianças, e seria talvez conveniente que um juízo mais maduro, pragmático e extra-moral, fosse aqui levantado.

Isto permite-nos então desenhar o primeiro ponto desta crítica, que parece ser o principal problema de fundo: o slogan “não partilhes” dirige-se, e bem, a quem partilha fotografias de terceiros mas não se dirige — nem é permitido que se dirija, pela própria ética da associação — aos próprios que partilham fotografias suas de excessiva exposição íntima nas redes públicas. Esta é uma posição confortável quer para a associação quer para aqueles que dizem proteger: o sujeito inicial retratado na partilha fica escudado no seu papel social sob o estatuto de vítima e livre de qualquer crítica ou auto-crítica que apontasse a sua própria imprudência inerente à partilha de conteúdos íntimos próprios em formato digital, mesmo que dirigidos a namorados ou pessoas de muita confiança.

Toda esta questão é interessante e requer honestidade de carácter e frontalidade ao lidar com o mundo real: alguém que hipoteticamente partilha conteúdos privados seus com terceiros, num mundo digital em que a reprodução das mesmas é algo facílimo, poderá ficar muito surpreendido ao ver esses conteúdos circularem por outras vias? Certamente tal configura crime e não estará correcto a nível moral, mas alguém ficar de facto surpreendido com isso corresponde a esse alguém estar possivelmente a viver no mundo da lua. Por isso talvez seja importante reorientar o mote da associação: “não partilhes” deveria ser um imperativo dirigido primeiramente às pessoas, em geral jovens, em geral raparigas, que ingenuamente partilham com namorados, ou com clientes de plataformas de partilhas, tais conteúdos, e não concebem a possibilidade de, no mundo digital, não haver muita coisa a fazer caso infelizmente esses conteúdos vazem para o domínio público. A associação não o faz nem nunca o fará pois está em completa contradição com a sua ética de vitimismo moralista, ética essa que é contraditória, facilitista e que covardemente se esquiva a abordar todas as vertentes de um amplo problema.

O segundo ponto, que pode ser ou não contraditório, como já dissemos, refere-se à dimensão erótica das fotografias nas redes sociais de alguns dos seus membros, nomeadamente membros fundadores, e que é uma questão incontornável e que nenhuma censura moral me impedirá aqui de abordar.

O fenómeno de excessiva exposição, objectivação e sexualização do corpo nas redes sociais da parte de jovens raparigas, fenómeno que muito vezes começa na adolescência e se estende até à idade adulta inicial, é hoje uma situação indesmentível e que tem levantado preocupações não apenas da parte de pais e de psicólogos mas também da parte de adolescentes e jovens adultos que não se identificam com esse comércio carnal nas redes. É importante assim abordar a possível contradição e complexidade aqui presentes: pessoas que — pela palavra das próprias, expressas inclusive em entrevistas televisivas — se afirmam como pessoas de sexualidade frontal e explícita, que gostam de se vestir de forma sensual e atraente, e que, aliás, alimentaram, durante anos, páginas em redes sociais públicas onde esse conteúdo estava perfeitamente acessível a qualquer pessoa — algumas que ainda se mantém activas, tendo no entanto moderado a exposição e a linguagem devido provavelmente às consequências da maturidade —, pessoas que claramente aproveitaram esse potencial sexual, aliás mais acessível ao sexo feminino, para venderem o seu produto visual e se tornarem influencers — e cujo conforto com esse tipo de exposição se estendeu, como é lógico que se estenda, à captura de conteúdos íntimos mais pesados e à sua divulgação nas redes semi-privadas ou privadas — são pessoas que vêm agora fundar uma associação cujo mote é impedir terceiros de partilharem o tipo de conteúdos que passaram a vida a criar.

Esta dimensão não seria tão suspeita e potencialmente contraditória se a associação lidasse directamente com o fenómeno social da sobre-exposição de conteúdos eróticos nas redes sociais públicas e a sua ligação com as partilhas privadas; como não o faz, uma parte significativa da equação fica obliterada e toda a fórmula não convence.

O terceiro e último ponto resume-se a, ao serem confrontados publicamente, através de plataformas sociais, por alguns colaboradores da nossa publicação, com estes problemas e contradições, a reacção não ser a melhor. Tanto as dirigentes como os seus seguidores, quando inquiridas, presentearam-me e a várias pessoas com uma série de indignações pífias, insultos variados e inócuos, acusações ocas de “misoginia” que nada mais escudam do que a falta de argumentos, e um generalizado mal-estar e postura agressivamente defensiva perante aquela que é crítica legítima. Se não é positiva a reacção inicial às críticas e chamadas de atenção da parte das dirigentes, e não augura nada de bom, as outras respostas, de conteúdo malcriado e selvagem, da parte dos seus seguidores, são precisamente a típica reacção de quem se acha tão munido da superioridade moral que não aceita reparos nem críticas, e esperamos, com sinceridade, que sejam marginais à ética da associação e as reacções das primeiras, institucionalmente mais polidas, não representem uma versão truncada dessas outras, habituais nas multidões da internet, que por nós já eram esperadas.

A explicação para isto pode ser em parte biográfica. Efectivamente, depois de alguma investigação, cheguei a conclusões de princípio sobre a questão no seu todo e sobre o móbil da associação. Como já foi referido, algumas dirigentes da associação passaram anos e anos da adolescência e jovem idade adulta, como tantas outras pessoas, a produzir e partilhar on-line imagens de sexualização do próprio corpo, ou, nas palavras que uma das próprias usou em redes sociais, “aputalhadas”. Estas imagens foram divulgados tanto em fóruns públicos como em relações privadas. Um dia, a coisa correu mal. Como se constrói um arco redentor para este percurso tão comum, tão vulgar e tão irrelevante? Uma pessoa ambiciosa arranja sempre maneira: monta-se uma associação e assim dá-se continuidade às carreiras de “influencers”, associação essa que representa um admirável monumento falacioso de contradição. Repito: são pessoas que passaram a vida a ganhar notoriedade através da partilha de conteúdos erotizados, de modo público ou semi-público, nas redes sociais e na internet, e agora surgem como dirigentes de uma associação dirigida à proibição da partilha desses mesmos conteúdos por parte de terceiros. Creio que existem formas mais discretas de resolver traumas e de ser hipócrita.

O mais grave disto é a consequência para outros, principalmente pessoas mais jovens, que hoje se encontram a fazer exactamente o mesmo tipo de partilhas que estas pessoas faziam quando eram jovens. Tudo leva a crer que a mensagem da associação, meramente de pregação moral mas sem avisar seriamente quem incorre nessas produções do risco que está a correr, se encontra minada de ineficácia, irresponsabilidade e irrealismo e que, conforme a leitura biográfica que proponho, provavelmente serve mais para lavar a imagem das próprias do que para ter qualquer efeito concreto nesse fenómeno. Aceito, claro, reparos a esta posição, mas não se aceito de modo nenhum que este ângulo do debate esteja interdito.

Adicionalmente, dirigentes desta associação têm comportamentos públicos extremamente duvidosos e, alguns, objectivamente criminosos. Damos dois exemplos. Um, ter denunciado publicamente um suposto autor de um vazamento de fotografias privadas de uma actriz portuguesa, em redes, sem qualquer prova do mesmo — algo que foi negado pelo próprio e que desconhecemos em absoluto se corresponde ou não à verdade.

Outro, ter-se publicitado a si mesma, também em redes sociais públicas, num vídeo captado aliás sem consentimento dos visados, a responder a um suposto piropo que lhe teria sido dirigido, e que não está obviamente visível no registo, com um acto abjecto de escarrar para cima da pessoa, rindo-se de seguida. Ora a um crime — algo que hoje o piropo pode de facto constituir, quer se queira quer não — com outro crime não é algo que deva ser glorificado. As massas da internet responderam com a selvajaria do costume, aplaudindo o acto aberrante e covarde. Uma peça jornalística foi elaborada sobre o assunto, aqui. Posteriormente, publica noutra rede social um vídeo designado “tutorial sobre como mandar escarras para quando somos assediadas“, outra apologia da selvajaria inconsequente.

Estes são comportamentos que indiciam uma falta de seriedade de carácter e que dão toda a razão para quem quer que seja desconfiar de todo este panorama. De facto, fundar uma associação dedicada a dizer que a culpa não é de todo de quem se expõe dessa maneira no meio digital mas sim de toda a gente que partilhou ilicitamente duas ou três das trezentas mil fotos “aputalhadas”, nas palavras da própria, que tinha produzido, é evidentemente um argumento duvidoso e, principalmente, uma péssima mensagem de destesponsabilizacao vitimista para dirigir às milhares de raparigas que inocentemente fazem o mesmo. Com isto perdem principalmente essas jovens que continuarão sujeitas ao abuso das suas imagens, tanto daquelas que voluntariamente publicam em perfis públicos como daquelas que permitem capturar em momentos privados sem consciência de que o formato digital é de reprodutibilidade imediata. 

Por último, uma coda a toda esta série de argumentos, que se pretende franca, aberta e incisiva — e que aliás em nada objectam ao móbil terceiro da associação, o da prevenção de partilha de conteúdos sem consentimento.

Efectivamente há que distinguir os juízos analíticos, que simplesmente descrevem as situações tal como elas são, e os juízos morais, que estabelecem lógicas de “culpa” muitas vezes completamente empecilhos para a resolução dos problemas. Este é um vício não só de um certo estado mental de colapso das faculdades lógicas, um vício beato e fanático, mas também um vício bem português: achar que reconhecer frontalmente como as coisas são vincula os juízos morais vigentes em cada tempo, e de facto não é assim.

Por exemplo, alguém reconhecer, em 1950, que uma mulher não poderia viajar para fora do país sem autorização do marido, e que a que se propusesse a isso à revelia estaria a lamentavelmente violar a lei e teria problemas, não significa de modo algum que se concordasse moralmente com esse estado de coisas. O mesmo se aplica aqui: por afirmar, de forma completamente adulta e desempoeirada que algumas fotografias em questão, sejam das fundadoras da associação sejam de jovens mulheres em geral, devido à exposição suficientemente explícita do corpo, será interpretada de modo sexual por muita gente, particularmente homens mas não só, não significa que esteja a dizer que isso está “certo” ou “errado”, mas simplesmente que é irónico que a presidente de uma associação designada por “não partilhes” se apresente com fotos que convidará alguns a essa mesma partilha.

Por isso, se essa postura e outras configura uma mensagem que assume todos estes pontos adicionais que estou a levantar, é uma mensagem interessante; se simplesmente ignora essa dimensão, é ingenuidade. Parece que faltará aí alguma maturidade, dado que, com um critério cego ao potencial sexual do corpo de forma diferenciada, qualquer parte do corpo seria de valor neutro e de admissível exposição na esfera pública, e esse é um sonho que toda a história das culturas e das civilizações nos mostrou que não tem pernas para andar e cabe a quem acha o contrário perceber porquê.

Por último, sublinho mais uma vez: não tem a ver com culpa, tem a ver com análises sérias e adultas da questão, em primeiro lugar. Toda a gente tem direito à sua privacidade, mas não adianta partilhar imagens íntimas e esperar que nunca nada aconteça: isso é, pura e simplesmente, ingenuidade ou sonsice premeditada. No final de contas, é muito provável que a referida associação tenha um papel muitíssimo negativo, contraproducente e inerentemente contraditório no que diz respeito à prevenção, em sentido lato, destas situações, dado que uma mensagem objectiva que avisasse os jovens que é praticamente impossível, por vários factores, controlar a reprodução digital, seria provavelmente muito mais eficaz do que o foco ingénuo e beato em “não culpar a vítima”. Tal mensagem nunca será dada porque seria uma admissão da própria estupidez inicial das dirigentes, que nunca admitirão o próprio erro em deixarem-se captar nesses formatos perante pessoas com quem não tinham confiança. Assim, serve a referida associação mais para lavagem e justificação, sob uma lógica circular, dos próprios erros, do que para qualquer abordagem séria, abrangente e adulta dos problemas.

A Dualidade Litoral-Interior – Desafios e Oportunidades da Efetiva Coesão Territorial

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Resumo

Num mundo em constante mudança, é preciso perceber se esta acontece ao mesmo tempo para toda a gente e todos os territórios. Com este artigo procurarei fornecer algumas informações sobre a dualidade litoral-interior no contexto do continente português, e como se trata de um processo social e político de relevância e como podemos colaborar com a governança para promover uma maior e mais eficaz coesão territorial. A metodologia passará por uma contextualização teórica, multiautoral, uma análise SWOT dos territórios e sua análise assim como sugestões de desenvolvimento de modelos de governança colaborativa, valorização de recursos e regionalização.

Palavras-Chave

Litoral, Interior, Coesão territorial, Políticas

Introdução:

A densidade populacional bruta do continente centra-se na sua maioria em Lisboa e no Porto, salvo algumas exceções. Os Censos de 2021 referiram que metade da população vive em 31 concelhos, que representam um décimo dos concelhos em Portugal, sendo os dez mais populosos Lisboa, Sintra, Vila Nova de Gaia, Porto, Cascais, Loures, Almada, Matosinhos, Oeiras e Braga. Com isto, observamos que o peso da população residente em Lisboa e no Porto é superior aos alojamentos disponíveis, assim como mais de metade do poder de compra se concentra nas grandes áreas metropolitanas, dados constantemente presentes nas notícias atuais, porém já se trata de um problema antigo.

As diferenças demográficas, culturais e socioeconómicas levaram o país a delimitar os territórios continentais e regionais menos povoados, mais envelhecidos e menos dinâmicos economicamente. São chamados territórios do interior, mas abrangem uma multiplicidade de regiões, ao todo são 165 concelhos e 73 freguesias de norte a sul (Craveiro, s.d.), desertificados, desordenados, onde faltam pessoas, mas também diversidade na atividade económica e emprego, a população envelhecida com défice de meios e infraestruturas. O mapa provido pelo Programa de Valorização do Interior, segundo entrada no Diário da República (2020), pesa 50% na densidade populacional, o restante o conjunto de dados de uso do solo, variação populacional, pirâmide demográfica, relação entre jovens e idosos, perfil de povoamento, rural e urbano, rendimento médio mensal, peso da população com terceiro ciclo do ensino básico, condições de acesso a bens, serviços e a capital regional. Estes dados são onde se fundamentam para determinar as políticas públicas.

Porém, garantir que, quando falamos de interior, falamos de interiores distintos, o interior alentejano não é igual ao interior beirão, que o algarvio não é igual ao transmontano, e mesmo com a proximidade, Beira Baixa não é igual à Beira Alta, porque o interior é uma multiplicidade de fatores, que vão desde as dinâmicas sociais, aos riscos, à vulnerabilidade e à capacidade de resiliência e resistência das populações e dos ecossistemas, inúmeros fatores, que se tenta enquadrar num todo.

Territorialidade e Coesão

A questão da territorialidade está cada vez mais presente na agenda política, seja na europeia, mas também nacional, o destaque vai para a coesão territorial, considerada como um dos três pilares da Política Regional perante a União Europeia, juntamente com a coesão económica e social (Delgado et al, 2022).

Esta presença nos temas políticos advém do objetivo de “ressalvar a governança territorial enquanto motor da cooperação institucional” (Marques et al., 2018 cit por Delgado et al, 2022), assim como atenuar as diferenças adjacentes aos diversos territórios, seja geograficamente como socialmente, de forma a contrariar a discriminação e a segregação territorial, partindo de uma definição da coesão territorial como uma ação pública que contribua para a redução de disparidades em regiões e a mitigação desses efeitos na qualidade e no acesso aos serviços (Delgado et al, 2022).

As diferenças entre o litoral e o interior de Portugal, dá destaque ao litoral com território mais dinâmico e concentrado a nível populacional, enquanto o interior sofre com a segregação geográfica, subdesenvolvimento, isolamento e desertificação, “trata-se de um território debilitado economicamente, com fraca densidade demográfica, população envelhecida, que se vai esvaziando e desertificando”. Promover a coesão e o desenvolvimento das geografias do interior e da interioridade em Portugal, através de ações concertadas e eficazes envolvendo atores público-privados, promovendo um novo olhar sobre o interior que promova a reconstrução e a libertação da segregação (Nascimento, 2018).

Sociedade do Risco e o Papel da Ciência nas Políticas

Numa nova versão da modernidade, Beck (1996) inaugurou a temática da sociedade do risco, numa sociedade onde os riscos são produzidos pela própria atividade humana, seja ela a tecnologia, a indústria e a ciência e não apenas por eventos naturais. Caracterizou os riscos como globais, que afetam toda a sociedade, independentemente da sua posição social ou geográfica. Ou seja, a definição advém da falta de controlo perante os riscos, assim como a incerteza e a necessidade da tomada de decisões adequadas. Implicando sempre as particularidades dos territórios e das populações.

A dificuldade de encontrar soluções institucionais para lidar com uma nova sociedade de risco, derivada as questões da globalização, que esteja num ambiente abrangente de seguro. Segundo Beck (1996), as respostas institucionais para estes desafios ainda não foram pensadas, inventadas ou testadas com sucesso, apesar que, desde a redação desse texto, até aos dias de hoje, já tenha havido progressos neste tema. Porém o autor refere a importância de reexaminar todas as abrangências da sociedade, neste caso, as questões territoriais e como as políticas deverão ser executadas para procurar uma inclusão.

Já em 1997, Beck, ao abordar o papel das subpolíticas, aborda a relação entre o indivíduo e o sistema, numa crise institucional assim como a influência de fatores, como proteção social, regulamentação do trabalho, e educação, entre outros. Discute-se então a mudança na perceção da sociedade em relação à proteção ambiental e à responsabilidade do setor privado e público em relação a essas mudanças de paradigma.

A redefinição dos quadros da política, só pode ser realizada em sistemas locais complexos e em grande medida autónomos. A isso se chama de regionalização, que pressupõe uma mudança de estruturas institucionais assim como uma redistribuição do poder político (Beck, 1997).

Ou seja, abordar a regionalização é abordar uma nova forma de ver a política e de disseminar a informação a toda a população e a todo o território, devido a questão do risco e como este é visto perante os territórios. As políticas devem ser adequadas e adaptadas a todas as questões e não a uma generalização das populações mais centradas no litoral. Encontramos um aliado na ciência, num panorama multidisciplinar, na geografia humana e física, assim como nos papéis das ciências sociais, e ciências exatas, que fundamentam os papéis territoriais e da “segregação política” adjacente da divisão do território. As estratégias de difusão e disseminação do conhecimento científico, existem diferentes abordagens que correlacionam a política e a ciência; Callon (1999) abordou esse tópico na relação política-ciência, sendo que o primeiro modelo é baseado na confiança que as pessoas comuns têm nos cientistas enquanto o segundo modelo enfatiza a representatividade na tomada de decisões políticas. Já o terceiro é baseado na coprodução de conhecimento entre especialistas e grupos de pessoas afetadas por essas questões, enfatizando a importância da participação destes grupos na tomada de decisões políticas. Neste ponto conseguimos conciliar com a versão de Beck (1997) nas subpolíticas também, onde pretende que os cidadãos façam uma participação cívica ampla através da cidadania; “A subpolítica não é simplesmente uma forma diferente de política, mas a expressão de uma mudança fundamental na natureza da política, que implica na desintegração das estruturas de poder existentes e na emergência de novas formas de ação coletiva e mobilização social” (Beck, 1997).

Ou seja, conseguimos entender, através destes autores que a política é uma ação que deve ser participada, exatamente por quem tem lugar de fala, e a representação do interior na governança portuguesa, e talvez em panoramas externos, falha neste ponto, um grande exemplo é que Lisboa consegue eleger mais deputados para a assembleia da república do que o interior todo (48 deputados por Lisboa, 5 Vila Real, 3 Bragança, 8 Viseu, 3 Guarda, 4 Castelo Branco, 2 Portalegre, 3 Évora, 3 Beja, 9 Santarém, que perfazem 40) (Visão, 2019). Falar de Regionalização, Políticas Eleitorais e representação política, são três assuntos obrigatórios ao abordar este dilema.

Desafios e Oportunidades da Coesão Territorial – Uma análise SWOT da Dualidade

Alcançar a coesão territorial em Portugal requer uma ação coordenada, eficaz e eficiente dos atores públicos e privados a níveis local, regional e nacional. Paisagens, recursos endógenos, patrimônio natural e cultural e populações precisam ser integrados para melhorar a diversidade geográfica, aumentar a sustentabilidade e fortalecer áreas montanhosas, fronteiriças e segregadas. Além disso, é importante equilibrar a preservação e proteção de valores com novos usos sustentáveis ​​de forma a mobilizar e incluir o património natural e cultural no processo de desenvolvimento territorial, de forma a beneficiar as comunidades locais de forma a atrair turistas e novos residentes, e mesmo os novos nómadas digitais (Nascimento, 2018).

Avaliar as forças, fraquezas, oportunidades e ameaças de ambos os territórios torna-se um passo fundamental para a compreensão destes, assim como uma ferramenta fundamental para a aplicabilidade das políticas de efetiva coesão territorial, e o claro papel da ciência no assunto.

A análise SWOT é uma das técnicas mais utilizadas em investigação social, estando na elaboração de análise organizacional ou na elaboração de planos. Neste caso, pretendo elaborar uma análise SWOT específica da população do interior e do litoral português, baseando-me em dados estatísticos, permitindo compreender e estudar o comportamento desta população face a vulnerabilidade do território (Salafranca, 2022).

Conseguimos avaliar impactos internos e externos, no que concerne a pontos fracos e fortes (forças e fraquezas), e ameaças e oportunidades, respetivamente, conseguindo conceber onde se poderá avaliar a resiliência da comunidade perante adversidades e os seus riscos e vulnerabilidades (Salafranca, 2022), assim como, estes poderão influenciar as políticas do território, como um todo.

ANÁLISE SWOT DO INTERIOR (BASEADO EM DADOS DAS CIMs VISEU DÃO-LAFÕES E BEIRAS SERRA DA ESTRELA

Análise Interna

Forças

Fraquezas

  • Diversidade de recursos naturais
  • Acesso e conhecimentos a recursos agrícolas e florestais
  • Boa base para a fixação de empresas e indústrias
  • Localização geográfica estratégica no contexto ibérico**
  • Capacidade empreendedora da população (do ponto de vista da presença de órgãos de apoio ás empresas e ao investimento dos politécnicos na região, para a captação de jovens e promoção da ciência e tecnologia*
  • Existência de Parques industriais e tecnológicos com especializações setoriais **
  • Existência de serviços de apoio aos investidores **
  • Capacidade de atração de empresas em sectores emergentes **
  • Boa cobertura e diversidade de equipamentos sociais **
  • Consolidação dos núcleos urbanos principais sedes de concelho ****
  • Boa cobertura territorial pela rede viária ****
  • Proximidade da fronteira
  • Presença de áreas protegidas e no âmbito da rede natura 2020
  • Sediação local de infraestruturas técnicas e de ensino superior (IPV, IPG, UBI)
  • Falta de estratégia para a valorização dos recursos naturais
  • Estrutura de apoio social e económico deficiente ou que não chega a todos
  • Litoralização das massas em idade ativa
  • Rede de transportes deficitária ***
  • Limitações à ocupação e utilização do território e degradação do solo ***
  • Cobertura insuficiente ao nível da drenagem e tratamento de águas residuais ***
  • Abandono dos espaços rurais ***
  • Território disperso e de baixa densidade ****
  • Esvaziamento de núcleos de pequena dimensão ****
  • População envelhecida, aumento do grau de dependência****
  • Presença de população com baixo ou nenhum nível de escolaridade (Censos, 2021)
  • Défice no âmbito da literacia digital
  • Área tendencialmente prejudicada pela seca e pelos incêndios florestais
  • Baixa taxa de natalidade face à média do país ou áreas litoralizadas

Análise Externa

Oportunidades

Ameaças

  • Procura ativa da ruralidade como turismo
  • Aparecimento de novas tecnologias
  • Possibilidade de implementação do desenvolvimento sustentável
  • Parcerias e estudos com o ensino superior local
  • Potencial económico e ambiental das energias renováveis***
  • Possibilidade de aproveitamento da biomassa***
  • Fortalecimento de parcerias público/privadas***
  • Sinergias intermunicipais, nomeadamente entre municípios com relações mais intensas ****
  • Centralização de serviços
  • Falta de atratividade laboral e especialista nas camadas jovens
  • Desertificação
  • Concorrência direta de territórios mais competitivos e atrativos e de sistemas urbanos em desenvolvimento ***
  • Custos de contexto associados à interioridade
  • Alterações climáticas ***
  • Continuação do processo de desertificação humana (decréscimo e envelhecimento populacional) e do solo ***
  • Fraca cultura de cooperação institucional***
  • Isolamento da população sem transporte individual ****
  • Planeamento do território ainda pouco objetivo nos critérios de localização das atividades ****
  • Estradas sinuosas e com fortes declives ****

* 21% da população da CIM se encontrava empregada por conta própria. Ainda assim, acima da média da Região Centro (20%) (Beiras e Serra da Estrela, s.d.)

** (Beiras e Serra da Estrela, s.d)

*** (CIM BSE, 2015)

**** (CIM Viseu Dão Lafões, 2016) ANÁLISE SWOT: UM ESTUDO DE CASO EM UMA EMPRESA DELIVERY LOCALIZADA EM  JUAZEIRO-BA Resumo: O presente estudo tem como objetivo e

(Salafranca, 2022)

ANÁLISE SWOT DO LITORAL (BASEADO NOS PDM E REOT DAS ÁREAS METROPOLITANAS DO PORTO E LISBOA)

Análise Interna

Forças

Fraquezas

  • Boa base para a fixação de empresas e indústrias
  • Presença de órgãos de apoio às empresas e ao investimento dos politécnicos e universidades na região, na captação de jovens e promoção da ciência e tecnologia*
  • Existência de Parques industriais e tecnológicos com especializações setoriais **
  • Existência de serviços de apoio aos investidores
  • Boa cobertura e diversidade de equipamentos sociais mais especializados
  • Consolidação dos núcleos urbanos principais
  • Boa cobertura territorial pela rede viária
  • Sediação de infraestruturas técnicas e de ensino superior
  • Grande captação de jovens e famílias de outros territórios
  • Elevados fluxos migratórios e de turistas
  • Boa rede de serviços públicos centrais, universidades
  • Elevado número de eventos culturais
  • Forte empregabilidade na área dos serviços *
  • Valorização da proximidade ao mar
  • Boa oferta em equipamentos de saúde, proximidade com serviços especializados, por ex. IPO **
  • Grandes estruturas comerciais
  • Desenvolvimento centrado na economia
  • Centro de decisão económica, política nacional
  • Falta de estratégia para a valorização dos recursos naturais
  • Fraco peso do setor agrícola
  • Degradação do edificado
  • Oferta limitada de habitação a preços acessíveis
  • Dinâmica insuficiente do mercado de arrendamento **
  • Insuficiente rede pública de equipamentos sociais de proximidade (Creches, ATL, ERPI e Centros Dia) **
  • Vulnerabilidade à pobreza da população desempregada e dos reformados, assim como trabalhadores com ordenados baixos
  • Elevado número de sem-abrigos (cerca de 4100 só em Lisboa) ***
  • Elevado número de dependentes de assistência social
  • Carência de espaços verdes
  • Risco sísmico
  • Consumo excessivo de recursos naturais
  • Poluição sonora e luminosa
  • Sobrepopulação
  • Elevado tempo em rede viária, que poderá levar a perda de tempo de lazer
  • Riscos Tecnológicos adjacentes à grande industrialidade

Análise Externa

Oportunidades

Ameaças

  • Procura ativa como zona de turismo
  • Aparecimento de novas tecnologias
  • Fortalecimento de parcerias público/privadas
  • Centralização de serviços
  • Atratividade laboral e especialista nas camadas jovens
  • Territórios mais competitivos e atrativos
  • Sistemas urbanos em desenvolvimento
  • Cultura de cooperação institucional
  • Grande rede viária e transportes públicos (metro, comboio, barco, aeroportos)
  • Diversidade étnica com forte potencial económico **
  • Atração de estudantes universitários, nacionais e estrangeiros **
  • Função do Litoral como porta de entrada para a Europa **
  • Melhoria das questões de acessibilidade
  • Qualificação elevada da população ativa **
  • Qualificação ambiental das áreas costeiras e ribeirinhas
  • Dotação de equipamentos sociais e mecanismos de proteção social abrangentes de forma a combater a pobreza **
  • Planeamento do território com enorme urbanização trazendo perdas e défices de zonas verdes
  • Saída da população para áreas suburbanas com oferta de melhores preços da habitação **
  • Congestionamento urbano e poluição ambiental em algumas áreas **
  • Excessiva concentração de população em bairros sociais **
  • Aumento da criminalidade
  • Risco de redução de investimento
  • Baixa taxa de natalidade

* (REOT Lisboa, 2009) ** (PDM Lisboa, s.d.)

*** “Portugal terá cerca de 8200 pessoas em situação de sem-abrigo, segundo resultados de um levantamento nacional que revelam que mais de metade dessa população se concentra na área metropolitana de Lisboa” (Diário de Notícias, 2019)

PDM – Plano Diretor Municipal

REOT – Relatório de Estado de Ordenamento do Território

Análise:

Conseguimos conceber, após avaliação das análises SWOT, que as particularidades destas duas regiões se cingem muito à sua interioridade e à centralização de bens e serviços.

Ao fazer duas análises em separado permitem-nos conceber uma realidade mais macro de ambos os territórios, e uma forma clara de conceber as reais diferenças desta dualidade.

Em análise da primeira tabela, observamos que a própria população, sendo por si só, mais envelhecida, isolada e distanciada da informação ou mesmo do seu acesso, com grandes valores no índice de envelhecimento demográfico, algum nível de analfabetismo, agregados com mais de 65 anos, implica um risco. Aliás, a CIM Viseu Dão Lafões já aborda este tema como ameaça e como alvo de severo investimento económico (Salafranca, 2022). Talvez, não da forma que pretendemos aprofundar neste trabalho, mas sim de um ponto de vista de mobilidade e combate à segregação territorial.

Quando procuramos enquadrar com a realidade litoral, apercebemo-nos do grande contraste, e a base desta dualidade, podemos reunir então um conjunto de conclusões sobre o artigo e sobre as análises concretizadas:

Diferenças Demográficas:

As diferenças demográficas entre o litoral e o interior de Portugal são notáveis, sendo a densidade populacional no litoral é maior devido à presença de grandes centros urbanos e atividades económicas. Por outro lado, o interior enfrenta desafios como o envelhecimento da população e o êxodo rural, resultando em uma menor densidade populacional.

Infraestruturas e Acesso a Serviços:

O litoral apresenta condições mais desenvolvidas, incluindo serviços públicos como saúde, educação e transporte. Em contrapartida, o interior tende a ter uma infraestrutura limitada e menor oferta de serviços básicos e especializados, dificultando seu desenvolvimento económico e qualidade de vida das populações.

Setor Económico:

O litoral possui uma maior diversidade, que engloba turismo, indústria, comércio e serviços, assim como a sua proximidade com o mar e centros urbanos. Já o interior depende mais da agricultura, pecuária e dos recursos naturais, com obstáculos na diversificação económica e criação de empregos. No respeito aos recursos naturais e ambiente, observa-se que o litoral conta com recursos costeiros e marítimos abundantes para turismo, pesca e energia, porém sobre com um excesso de urbanização e um consumo excessivo de recursos, enquanto o interior dispõe de terras agrícolas, florestas e potencial energético renovável.

Pressão Ambiental e Riscos:

O litoral enfrenta problemas como turismo excessivo, urbanização desordenada e eventos climáticos extremos (tempestades, inundações e erosão costeira, agregando o risco sísmico); o interior, por sua vez, lida com incêndios florestais, secas, ondas de calor e de frio assim como perda de biodiversidade, que obriga a ações de conservação e adequado ordenamento de território. Incluindo também diferenças claras na topografia, no clima e consequentemente sujeição aos riscos diversos.

Políticas Públicas – em busca da equidade na coesão territorial

Avaliar o património cultural, material e imaterial, público e privado, é uma atividade de grande relevância, assim como a pesquisa de recursos naturais e culturais, realizar cartografia, desenvolver e disseminar o conhecimento e aprimorar habilidades e qualificações. É fundamental uma articulação com a população, preservando os valores culturais e naturais. É crucial atrair atores individuais e coletivos nos objetivos partilhados e nas decisões estratégicas conjuntas, responsabilizando-os conjuntamente pela missão de criar condições favoráveis ao desenvolvimento das áreas onde habitam e exercem suas atividades profissionais (Nascimento, 2018), assim é uma forma de contrariar a segregação e promover a efetiva coesão territorial.

Há muito que é debatido e proposto um conjunto de medidas e de políticas que visem a coesão territorial, a segregação imposta pela governança, pelas populações e pelos atores público-privados, impõe uma desigualdade de acesso em diferentes versões.

Tende-se a observar o interior como território sem valor político, porque os representantes políticos são insuficientes, porque se trata de um território empobrecido, porque a máquina capitalista se encontra no litoral, um território que tende a estar fadado à desertificação, por não haver oportunidades para os jovens e não haver captação de rendimento, falta de recursos e centralização de serviços públicos, ou insuficiência destes, uma população mais envelhecida que não vê o seu acesso adaptado aquilo que são as políticas de modernização (ex. SIMPLEX). É importante que o poder político olhe além dos resultados eleitorais, olhe além dos eleitos, olhe além dos preconceitos, priorizando a coesão, a justiça e a equidade. É imperativo que os resultados das inovações científicas, e que as políticas sejam adaptadas aos territórios, através de uma negociação adaptada e não um modelo semelhante para todas as regiões, aplicar uma política interventiva e não meramente formal.

A dualidade litoral-interior é perpetuada pela perceção dos territórios, porém os fatores políticos, sociais e mesmo de carácter administrativo acabam por dificultar a questão demográfica, este desafio é combatido através de políticas públicas específicas, e a coesão prende-se com mitigação de desigualdades sociais e de acesso a serviços. O papel das populações e dos representantes públicos e privados, assim como a esfera civil e o terceiro setor, paralelamente com a comunidade científica procurem mitigar as desigualdades existentes nas políticas públicas, que juntos proponham projetos que salvaguardem a realidade de todo o país e não apenas parte, adequando e criando propostas no âmbito do território e todas as suas particularidades.

Anexando estas soluções de participação cidadã ativa e de todos os atores abrangidos, na literatura é possível encontrar um conjunto de caminhos e estratégias para alcançar o melhor e mais eficiente desenvolvimento territorial: Incluir o desenvolvimento sustentável e inclusivo como meio, nos territórios de baixa densidade, com desafios e riscos inerentes ao despovoamento e à falta de dinamismo económico. O papel das capitais territoriais na atração de novas atividades socioeconómicas, culturais e científicas. A valorização de ativos endógenos, como o património natural e cultural, que têm de ser vistos como singulares e autênticos e não passíveis de destruição. A promoção do empreendedorismo social assim como o (auto)empoderamento, de forma a promover a participação cívica ativa dos diferentes atores sociais, com ações conjuntas de cooperação. Promover e alocar o ensino superior nestas regiões como um ativo fundamental e válido para dinâmicas de restruturação sustentável e inovadora, assim como uma agenda inovadora da investigação nos territórios do interior português de forma a reforçar oportunidades (Vaz & Nofre, 2017).

Conclusões

É importante que as políticas públicas, com o apoio dos poderes locais, façam um processo preventivo e promotor mais centrado “na pessoa”, ou seja, no tipo de população residente, não podemos colocar os portugueses todos no mesmo copo, pois aquilo que nos distingue é de onde vimos, e cada pessoa reage e previne-se nas bases do seu círculo social, cultural, político e económico.

O interior, por si só, tende a ser o parente pobre da governança, segundo a oposição política e testemunhos dos seus residentes, e é importante o papel dos poderes locais na descentralização das políticas públicas e do conhecimento, de forma a propaga-lo da maneira mais adequada à sua população, e fazer esta análise mais científica do interior, aproveitando a multidisciplinaridade no que concerne à investigação do risco, juntar as ciências exatas com as ciências sociais, para que se possam tratar objetivos da forma mais adequada possível.

Um território do nosso país altamente contrastante com os fenómenos demográficos, onde se rege pelas tendências demográficas negativas, um abandono populacional e uma taxa de envelhecimento demográfico de em média 291 idosos para 100 jovens (Censos, 2021), quase o triplo, a perda de dinamismo económico demonstra uma clara fragilidade administrativa perante o litoral, assim como, perante as políticas propostas e perante a ação implementada.

Neste artigo pode-se avaliar de forma clara essas diferenças, e o papel destas na políticas públicas de efetiva coesão territorial, o que se observa hoje em dia são políticas generalizadas, concebidas por pessoas do litoral, que não agregam ou melhoram a totalidade dos territórios, incluir os agentes das subpolíticas e a ciência local, é fundamental na criação de propostas legislativas, assim como grupos de trabalho locais que possam trabalhar em conjunto com os decisores, por exemplo o Ministério da Coesão Territorial. Descentralizar estes serviços também é fundamental, será esse o papel da regionalização, aproximar os serviços e trabalhadores aos territórios que não os têm, ou que os têm, mas com grandes défices. Dividir um território em regiões com características semelhantes, que já acontece, para promover o desenvolvimento equilibrado e melhorar a governança. Fatores como geografia, população, economia e cultura, a regionalização descentraliza a tomada de decisões e facilita políticas públicas específicas para cada região, reduzindo disparidades e promovendo coesão social e económica, promovendo uma equidade no que concerne ao acesso e aos direitos.

Bibliografia

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Plano Diretor Municipal Lisboa (s.d.) Análise SWOT. https://www.lisboa.pt/fileadmin/cidade_temas/urbanismo/pdm/EstCarat_RAnaliseSWOT.pdf

Resolução do Conselho de Ministros nº 18/2020, Aprova a revisão do Programa de Valorização do Interior (2020). Diário da República nº 62, Série 1 de 27 de março de 2020. https://www.portugal.gov.pt/pt/gc22/governo/programas-de-acao-governativa/programa-de-valorizacao-do-interior/valorizacao-do-interior/revisao-do-programa-de-valorizacao-do-interior-pdf.aspx

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Vaz, D. & Nofre, J. (2017). Conhecimento, Criatividade e Novas Dinâmicas Urbanas: Repensar os Territórios de Baixa Densidade em Portugal. Revista Portuguesa de Estudos Regionais, nº49. https://www.review-rper.com/index.php/rper/article/view/498/414

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E-Sports: Evolução, Estatuto e Benefícios

Este trabalho abordou a crescente popularidade dos desportos eletrónicos profissionais, denominados por “e-sports”. Discutiram-se os fatores que levaram ao seu desenvolvimento, desde um pequeno nicho de fãs até ao actual fenómeno à escala global. Independentemente de não haver consenso sobre se os e-sports podem ser considerados como um desporto, é inegável que tal como em qualquer outra atividade desportiva profissional, os jogadores têm uma grande exposição mediática, estando sujeitos a stress, com consequências na vida social e familiar, que foram também estudadas. Refletiu-se ainda, sobre os benefícios da prática deste tipo de atividade, enfatizando o acompanhamento em diferentes áreas disponibilizado pelas organizações aos seus jogadores, desde nutricionistas a psicólogos.

Palavras-chave: videojogos, e-sports, jogadores profissionais, qualidades mentais, stress

Abstract

This work focused the growth of the professional electronic sports’ popularity, also known as “e-sports”. We discussed the fators that caused that development from a small fan-based niche to the current global phenomenon. Regardless of the lack of consensus about the e-sports’ status as a sport, its undeniable that as any other professional sports activity, the players have a great media exposure, being subject to stress, with consequences on their social and family life, that were also studied. We reflected on the benefits of practicing this kind of activity, emphasizing the monotoring in different areas provided by the organizations to their players, from nutritionists to psychologists.

Keywords: videogames, e-sports, professional players, mental skills, stress

A evolução do desporto tem acompanhado a evolução da Humanidade, desde os confrontos nas arenas romanas onde os gladiadores lutavam corpo a corpo pela sua vida até aos grandes eventos olímpicos e mundiais da atualidade, que visam celebrar o desporto, mesmo em altíssima competição, como uma forma de entretenimento sociocultural. Naturalmente, é difícil prever como esta evolução vai continuar, mas com o aumento e globalização da tecnologia surgiram novas atividades que, neste momento estão a começar a ser consideradas como práticas desportivas. O maior exemplo deste tipo de atividades são os jogos eletrónicos (em computador, consola ou telemóvel), que quando são praticados num ambiente de alta competição denominam-se por “Electronic Sports”, vulgo “E-Sports” (Miah, 2016).

Por “jogo eletrónico” ou “videojogo” entende-se qualquer jogo em hardware baseado em circuitos lógicos electrónicos, que permitam algum grau de interactividade com o jogador, e que mostrem num écran o resultado dessa interactividade. Esta definição foi evoluindo ao longo da história dos videojogos à medida que novas tecnologias iam sendo usadas. As primeiras definições eram muito mais técnicas, requerendo a existência de um sinal (de vídeo) transmitido para um tubo de raios catódicos (CRT), excluindo assim, algumas aplicações actualmente aceites como sendo jogos (Donovan & Garriott, 2010).

Tendo em conta a definição actual, os primeiros videojogos surgiram na década de 1950, normalmente associados a projectos universitários, com pouca visibilidade no público geral e com pouca influência entre si. Um dos primeiros jogos electrónicos deste tipo foi criado em 1950 por Josef Kates (1921). Recebeu o nome de “Bertie the Brain” e permitiu ao utilizador jogar o “jogo do galo” (tic-tac-toe) contra uma inteligência artificial (Simmons, 1975). Em 1961, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) adquiriu vários minicomputadores com capacidade para poderem ser programados, possibilitando aos alunos e empregados criar os seus próprios jogos. Stephen Russell (1937) criou no ano seguinte o famoso jogo “Spacewar!”, no qual dois jogadores, cada um controlando uma nave espacial, tentavam destruir a nave adversária. Russell copiou o jogo para vários computadores dentro e fora do MIT, fazendo do Spacewar! o primeiro jogo competitivo não apenas disponível num único local (Russell, Graetz & Witaenem, 1962). Embora se possa especular que os jogadores de Spacewar! terão disputado entre si alguns prémios nos anos seguintes à criação do jogo, o primeiro torneio reconhecido apenas teve lugar em 1972 na universidade de Stanford, quando os estudantes jogadores (de Spacewar!) competiram por uma subscrição anual da revista “Rolling Stone”.

Na década de 1980 começam a surgir os torneios em larga escala. O primeiro, organizado pela produtora de jogos “Atari”, chamou-se “Space Invaders Championship” e teve a presença de mais de dez mil participantes. Este torneio ajudou a massificar o fenómeno comercial que foi o jogo “Space Invaders” desenvolvido pela “Taito”, que vendeu 300 mil máquinas no Japão e 60 mil nos Estados Unidos nos anos seguintes (Kohler, 2016). Nessa década formaram-se várias equipas semiprofissionais, como a “US National Video Game Team”, que percorria o país num autocarro, desafiando os jogadores locais e tentando estabelecer recordes para a revista “Guinness World Records”. É nessa altura também, que começam a aparecer as primeiras revistas especializadas em vários países do mundo. Desde a britânica “Computers and Videogames”, até à americana “GamePro”, passando pela japonesa “Famitsu”, a espanhola “MicroMania” e até a jugoslava “Pilot Video”, todas contribuíram para tornar os videojogos como uma das formas de entretenimento mais popular (Borowy, 2012).

A década de 1990 trouxe o uso global da Internet, e com ele os primeiros jogos online. Os fabricantes de jogos tradicionais, onde um jogador competia contra o computador (single player) começaram a incluir modos de multijogador, nos quais o jogador compete e/ou colabora com outros jogadores em qualquer parte do mundo. Esta mudança foi particularmente fácil e eficaz em jogos de luta, como as sagas Street Fighter e Tekken, pois neste tipo de jogos basta substituir a mente artificial do adversário (bot) por uma personagem (avatar) que reage aos comandos do utilizador rival. Outros jogos que se tornaram muito populares durante esta década foram os jogos de tiros, como o Quake3 e o Unreal Tournament, graças à facilidade com que os fabricantes criaram mapas (arenas) com avatares que competiam entre si (deathmatch, last man standing) ou em equipas (team deathmatch, capture the flag) (van Waveren, 2001).

Com a mudança de século, os E-Sports tornaram-se um verdadeiro fenómeno de popularidade, especialmente nos países asiáticos. A massificação do uso da banda larga e o surgimento de plataformas de vídeo online (streaming) como o “Twich” tornaram os jogos e os torneios facilmente acessíveis aos fãs (Burk, 2013 & Popper, 2013). De apenas 10 torneios em 2000, passou-se para 260 torneios com prémios a dinheiro. Alguns dos mais bem-sucedidos foram o “World Cyber Games”, o “The Intel Extreme Masters” e o “Major League Gaming” que ainda hoje reúnem milhares de espectadores em pavilhões e estádios, são vistos por milhões via Internet e distribuem centenas de milhar ou mesmo milhões de euros em prémios (Warr, 2014).

Atualmente existem várias equipas que estabeleceram e aperfeiçoam uma estrutura cada vez mais complexa e profissionalizada de apoio a jogadores cada vez mais bem pagos. Esta estrutura inclui, entre outros serviços, a venda de produtos com a marca da empresa (merchandising), o apoio logístico e burocrático aos jogadores, publicidade e interacção com os fãs e parceiros. Algumas destas estruturas são mesmo transversais a vários jogos; da mesma forma que alguns clubes de futebol possuem equipas de basquetebol, andebol e outros desportos, também algumas organizações têm equipas de dota2, counter-strike e outros (Jacobs, 2014).

Mesmo com toda a popularidade e profissionalismo que os e-sports vão tendo, ainda há uma grande controvérsia sobre se deverão ser considerados de facto desportos. Os dois principais argumentos dos que defendem que os videojogos nunca alcançarão esse status são a falta de actividade física necessária noutros desportos, como o futebol, e o facto de não haver a necessidade de serem praticados ao ar livre ou em qualquer recinto desportivo (Elsa, 2011). Os defensores dos e-sports enquanto desporto contra-argumentam referindo que essas duas razões não são requisitos, caso contrário, desportos amplamente aceites, como o xadrez, deixariam de o ser. Argumentam ainda que ao exigirem “planeamento cuidadoso, tempo preciso e execução hábil” (Jonasson & Thiborg, 2010), os e-sports não podem ser distinguidos dos outros, especialmente tendo em conta a sua natureza competitiva e a sua imensa popularidade.

Aos poucos, este debate vai tendendo para o lado de quem considera os e-sports como desporto, à medida que organizações desportivas os colocam ao mesmo nível em eventos, disputando medalhas, como nos “Asian Indoor Games”. Essa opinião tem vindo a ser reforçada por organizações governamentais, que começam a atribuir vistos desportivos e licenças a jogadores de modo a facilitar a presença destes nos torneios locais (Paresh, 2013). O próprio comité olímpico internacional (COI) considerou em 2017 que “os e-sports podem ser considerados uma actividade desportiva, e os jogadores envolvidos preparam-se e treinam com uma intensidade comparável à dos atletas de desportos tradicionais” (Grohman, 2017). Conclusões semelhantes levaram à possibilidade de se incluir os e-sports nos jogos olímpicos de Paris em 2024, ajudando-os a manterem-se relevantes e interessantes para as gerações mais jovens (Pham, 2018).

Se estas tendências se mantiverem no futuro, é espectável que mais cedo ou mais tarde os e-sports sejam perfeitamente equiparados aos desportos tradicionais, com representação olímpica, campeonatos do mundo, e com ligas e associações próprias (Miah, 2016). Naturalmente, nem todos os jogos têm uma popularidade que justifique essa transição, e portanto, importa distinguir quais os jogos ou tipos de jogos que têm reais possibilidades de o conseguir.

Os muitos milhares de jogos criados ao longo dos anos podem ser categorizados em apenas alguns géneros diferentes. Na década de 1990, os mais populares eram os jogos de luta, no qual o jogador tem como objectivo golpear um adversário até ele ficar sem “health”, e os jogos de tiros. Nestes, o jogador controla um avatar, normalmente vendo o mundo dos seus “olhos”, na primeira pessoa, (daí serem chamados de First Person Shooters ou FPS). Existem vários modos de jogar FPS, mas tipicamente envolvem atingir os adversários com projécteis até esvaziarem sua a “health”. Atualmente, este tipo de jogos tem vindo a perder popularidade a nível profissional, mas existem alguns títulos que ainda sobrevivem, como o famoso “counter strike”, lançado em 2000.

Muitos dos videojogos simulam actividades desportivas tradicionais, como o futebol ou o basquetebol. Nestes, o utilizador controla um jogador ou a equipa completa e tenta marcar mais golos ou fazer mais pontos que o adversário. Estes jogos são normalmente patrocinados por marcas ou associações desportivas envolvidas no jogo tradicional, tendo por vezes o nome da própria associação seguido do ano de lançamento (FIFA2018, NHL2016, NBA 2017, entre outros). Do mesmo modo, existem jogos que simulam corridas de automóveis ou motas que, embora não tão populares, têm alguma representatividade.

Um dos tipos de jogos com mais popularidade são os role-playing games (RPG). Nestes, o utilizador controla um avatar que vai evoluindo, ganhando novas habilidades e equipamentos, à medida que progride numa história. Um dos exemplos mais notáveis deste tipo de jogos é a saga “Diablo”, cujo título mais recente foi lançado em 2012, mas cujos títulos mais antigos, um deles lançado em 2000, continuam a ser jogados diariamente por muitos milhares. No entanto, a própria natureza do jogo limita o seu uso a nível profissional.

Para um jogo ser suficientemente popular e adequado para ser jogado a nível profissional tem de cumprir uma série de requisitos que são mais naturais em alguns géneros do que noutros. Antes de mais, é necessário que seja competitivo entre jogadores, isto é, deve permitir que os jogadores se defrontem, estabelecendo rankings e encorajando o treino. Depois, é fundamental que o jogo se processe em tempo real, de modo a poder ser transmitido e acompanhado pelas massas. Deve ser suficientemente complexo para permitir diversas estratégias, sem que nenhuma delas seja dominante, e deve estar em constante mudança e actualização para encorajar a procura de novas estratégias. Tendo estas características em conta, o género de jogo que mais se adequa à profissionalização é o de estratégia em tempo real (RTS), como o warcraft ou o starcraft. Nestes jogos, o utilizador controla uma base, recolhe recursos, desenvolve e treina unidades, usando-as para conquistar as bases inimigas.

Um subtipo de RTS que é particularmente adequado enquanto e-sport (e daí ser o mais popular) é o Multiplayer Online Battle Arena (MOBA). A juntar às vantagens anteriores, os MOBA são jogados em equipa, e como tal, são mais imprevisíveis. São também facilmente expandidos, criando novos avatares, habilidades e itens, gerando portanto uma complexidade superior, e tipicamente, têm uma duração adequada (cerca de uma hora) para uma transmissão televisiva ou pela internet. Os MOBA foram inicialmente criados pela comunidade de alguns jogos que permitiam mudanças (mods) aos mesmos. Estas mudanças começaram por ser tão simples como mudar a cor de uma armadura ou a textura de um edifício, mas rapidamente se acumularam, alterando a mecânica e o objectivo desse jogo, criando um novo.

Atualmente o jogo mais popular e com maiores prémios na comunidade de e-sports é o “Defense of the Ancients 2” (Dota2), cujo antecessor foi criado como um mod do jogo warcraft3. Não só por ser o mais popular, mas também por representar bem o que são as vantagens, desvantagens e desafios dos e-sports, o Dota2 é um bom exemplo de como um jogo foi pensado para os jogadores amadores e profissionais simultaneamente, e portanto, importa analisar com maior detalhe.

Um jogo de Dota2 é jogado por duas equipas adversárias (radiant e dire), cada uma com a sua base. Estas encontram-se em lados opostos num mapa, que inclui outros elementos como lojas, onde os jogadores compram e vendem itens; shrines, onde os jogadores recuperam após as batalhas; e outras personagens controladas pelo computador (NPCs) que ao serem mortas dão recursos (Gold) e experiência. O objectivo último do jogo é simplesmente invadir a base adversária e destruir um edifício (the ancient), no entanto, as estratégias para o conseguir são muito variadas e dependem da habilidade e coesão da equipa.

Pode-se dividir um jogo de Dota2 em duas fases bem distintas, cada uma com os seus desafios próprios. A primeira fase (draft) consiste na escolha dos avatares (heróis). Cada equipa escolhe 5 avatares dos mais de 100 disponíveis e bane 6, que deixam de poder ser escolhidos (por ambas as equipas). Este processo decorre alternadamente, de modo a ser o mais equitativo possível, embora tipicamente as equipas prefiram ter a última escolha. O draft é um processo complexo que muitas vezes dita o resultado do jogo. Equipas cujos jogadores sejam mais flexíveis (joguem bem com muitos heróis) podem adaptar as suas escolhas aos heróis adversários de modo a suprimir as vantagens e explorar as desvantagens destes. Esta flexibilidade é um dos factores que normalmente separa os jogadores profissionais dos jogadores amadores, pois estes últimos, apesar de por vezes serem melhores com alguns heróis, vêem esses heróis constantemente banidos pela equipa adversária.

A segunda fase é o jogo propriamente dito. Nos primeiros 12 minutos (“early game”), três dos jogadores (carries) tentam ganhar o máximo de experiência e recursos possível, enquanto os dois restantes jogadores (supports) proporcionam apoio e tentam matar ou pelo menos limitar as acções dos heróis adversários. Estes minutos requerem uma enorme eficiência e atenção ao detalhe, visto que pequenas diferenças de recursos têm tendência a aumentar rapidamente e a decidir o jogo. Nos 20 minutos seguintes (“mid game”) a maioria dos heróis já adquiriu alguns itens e habilidades necessários para combaterem eficazmente. Esta fase é marcada por constantes ataques (ganks) de 2 ou 3 heróis contra um dos carries adversários, de modo a limitar-lhes o progresso. Durante estes minutos, os jogadores necessitam de comunicar e reagir rapidamente para executarem esses ganks e sobreviverem aos do adversário.

A maioria dos jogos de Dota2 é decidida nesta altura, quando uma das equipas começa a obter itens cada vez melhores permitindo-lhes ganhar as batalhas maiores. No entanto, muitas vezes as diferenças entre as equipas não são suficientemente grandes para atacar directamente a base inimiga. A partir dos 30-35 minutos (“late game”) a maioria dos heróis tem todos os itens que necessita. Alguns destes heróis são particularmente bons nesta fase (daí terem sido escolhidos como carries) enquanto outros deixam de ser tão úteis. Equipas mais fracas têm a tendência de escolher heróis mais eficientes no early e mid game de modo a tentar ganhar o jogo o mais depressa possível. Por seu lado, as equipas mais fortes escolhem um herói que seja muito bom no late game (hard carry) tentando protege-lo a todo o custo nas fases iniciais.

Um jogo típico de Dota2 ilustra bem as quais as qualidades necessárias a um jogador para se tornar profissional nesse ou noutros jogos. Primeiramente, é necessário que os jogadores tenham espírito de equipa (Birrer & Morgan, 2010), estando dispostos a sacrificar o seu progresso para o bem comum. Uma das funções dos supports é a de comprar itens que não os beneficiam directamente, como poções para restaurar a health dos carries. No entanto, em caso de ataque, muitas vezes eles são deixados para trás para permitir a fuga dos carries. Naturalmente, os jogadores (especialmente os carries) têm de saber lidar com a pressão. Se a equipa investe todos os seus recursos para tentar manter um herói vivo, esperam que ele consiga levá-los (“carry them”) à vitória (Araújo et. al., 2009).

Como se viu anteriormente, os jogadores têm de ser flexíveis (Fletcher & Wagstaff, 2009), conseguindo jogar com dezenas de heróis diferentes para se adaptarem às bans e à equipa adversária; mas ainda mais importante, têm de ser adaptáveis, visto que o jogo sofre alterações constantes. Em cada actualização do jogo, um herói pode ser melhorado (buffed) ou prejudicado (nerfed). É portanto natural que em dois torneios separados por algumas semanas, os heróis escolhidos pelas equipas, e como tal, a própria dinâmica do jogo, seja completamente diferente.

Vealey (2007) propôs um modelo para ajudar atletas de alta competição a melhorar as suas características mentais para obterem um maior rendimento. Hilvoorde (2016) adapta o modelo de Vealey para definir as qualidades mentais necessárias a um bom jogador de e-sports. Ele propõe que quatro conjuntos de qualidades mentais: (a) base, (b) performance, (c) desenvolvimento pessoal e (d) de equipa. As qualidades base são transversais a qualquer actividade, como por exemplo a autoconfiança e o pensamento produtivo. As qualidades de performance ajudam os desportistas a executar bem uma determinada tarefa, como a atenção ao detalhe ou a gestão de energia. As qualidades de desenvolvimento pessoal, como a motivação, estão relacionadas com a constante procura do aperfeiçoamento pessoal. Por fim, as qualidades de equipa estão naturalmente relacionadas com a interacção com terceiros. Entre elas, Hilvoorde destaca a liderança, comunicação, coesão e confiança (na equipa).

Da mesma forma que uma boa forma física é requisito, mas também um benefício, da prática de desportos tradicionais como o futebol, estas qualidades mentais devem ser treinadas e aperfeiçoadas para se ter sucesso enquanto jogador profissional. Mesmo para os muitos jogadores que não conseguem alcançar tal estatuto, os e-sports proporcionam uma forma de melhorar essas qualidades. Os benefícios dos e-sports não se limitam pela melhoria de algumas qualidades mentais. O jogador tem a possibilidade de ganhar muito dinheiro fazendo uma actividade de que gosta, tem a oportunidade de visitar países diferentes, conhecer outras culturas e de fazer amizades com outros jogadores e fãs. Aprende a lidar com o stress, com os erros, com as vitórias e com as derrotas, podendo extrapolar essa experiência para outros aspectos da sua vida (Hallmann & Giel, 2017).

Por fim, para aqueles que conseguem lidar bem com a fama, os e-sports permitem-lhes sentirem-se importantes e conhecidos por literalmente milhões de fãs. A maioria dos videojogos proporciona uma vantagem notável nesse aspeto quando comparados com os desportos tradicionais. Enquanto uma equipa de futebol é um grupo fechado que treina entre si e joga contra outras equipas também profissionais, os jogadores profissionais de e-sports na maioria das vezes treinam em casa contra jogadores amadores. Além de ser cómodo e conveniente, muitos desses jogadores amadores são muito bons em certos aspectos do jogo (como serem especializados num único herói), o que permite aos profissionais testarem-se contra desafios diferentes daqueles que outro jogador profissional lhes criaria. Para os jogadores amadores, esta possibilidade é uma enorme forma de motivação para continuar a jogar e melhorar. Poder jogar na mesma equipa ou poder vencer um jogador profissional está ao alcance de muitos, que não sendo profissionais, já desenvolveram as qualidades mentais acima referidas, e como tal, usufruem dos seus benefícios (Freeman & Wohn, 2017).

Nem tudo são vantagens. Os jogadores são o centro das atenções e tudo depende deles para equipa ganhar. Eles sofrem um grande stress, devido a muitas horas de treino, poucas horas de sono e, por vezes, má alimentação. As poucas horas de sono são causadas pelas longas viagens, jet-lag, pressão mediática e treinos intensos para melhorar a técnica, habilidade e aprenderem todas as consequências das actualizações que por vezes surgem apenas uns dias antes de torneios importantes (Burk,2013). Essas viagens constantes provocam também saudades de casa, da família e dos amigos, especialmente porque, a grande maioria dos jogadores são especialmente jovens.

Outra fonte de stress, esta partilhada com outros desportos, são as exigências dos treinadores, patrocinadores e fãs em geral, para obterem bons resultados. As equipas tornaram-se muito profissionais, com uma estrutura apoiada em pessoas com diversas competências, financiada por vários patrocinadores, que naturalmente querem ver retorno do seu investimento sob a forma de vitórias e a consequente exposição da marca (Ruiz, 2013).

A necessidade de estar constantemente a treinar impede períodos de ausência superiores a uma ou duas semanas, impactando a vida familiar e social dos jogadores (Taylor, 2012). As muitas horas passadas em frente ao computador na mesma posição e a repetir os mesmos movimentos provocam também desgaste físico, e por vezes problemas anatómicos. Lesões nas costas e nos tendões dos dedos e pulsos são muito comuns. Por vezes estas lesões são tão graves que colocam em causa a carreira do jogador, chegando mesmo em casos especialmente graves, a provocar o seu fim (Verardi et. al., 2012).

Muitos dos jogadores aspirantes a profissionais, e mesmo em alguns profissionais, estão sujeitos a incompreensão familiar e social por terem escolhido uma profissão nova e completamente diferente das profissões escolhidas pela maioria das pessoas. Estas profissões mais alternativas ainda são relativamente incompreendidas ou mesmo mal vistas pela sociedade, que precipitadamente não as considera como um trabalho a sério. Mesmo alguns dos jogadores mais bem pagos, e portanto menos sujeitos a tais críticas, já tiveram essa experiência no passado. Outra fonte de stress relacionada pode ser a ansiedade provocada pela hipótese do jogo em que se especializaram passar de moda. De facto, é impossível prever quanto tempo durará o entusiasmo, mesmo pelos jogos mais populares actualmente, como o Dota2 ou o League of Legends. No passado, jogos como o Quake eram os mais populares e acabaram por ser abandonados excepto por uma pequena comunidade de aficionados.

Por fim, uma das grandes fontes de stress da maioria dos jogadores profissionais está relacionada com a precariedade laboral. Embora as equipas de topo tenham uma estrutura de apoio bem estabelecida, e os jogadores sejam suficientemente bons para serem contratados por outras equipas, a maioria dos jogadores não é assim tão valorizada. Algumas equipas forçam os jogadores a treinar até 16 horas por dia (Fields, 2014), outras estão envolvidas em combinações de resultados para favorecer apostas desportivas (Good, 2014), e outras não pagam os valores contratualizados ou atrasam-se nesses pagamentos. Recentemente, as organizações dos maiores torneios internacionais tomaram medidas para que as equipas inscritas tenham necessariamente de providenciar seguros médicos aos seus jogadores, disponibilizem apoio psicológico e tenham os pagamentos em dia (Gafford, 2014). Por outro lado, várias universidades nos Estados Unidos têm vindo a atribuir bolsas a estudantes para participarem em torneios (Comerford, 2012).

Espera-se que nos próximos anos alguns destes problemas possam ser mais mitigados à medida que os e-sports sejam universalmente reconhecidos como um desporto, e tenham mais aceitação e cobertura mediática. Esta cobertura pode vir a ser impulsionada pelo constante aumento dos prémios, pela entrada de novos patrocinadores e pela aposta de clubes desportivos. Atualmente alguns dos clubes de futebol mais conhecidos do mundo, como o Paris Saint Germain (PSG), já se associaram a equipas profissionais (neste caso, à equipa de Dota2 LGD, renomeada para PSG.LGD) e espera-se que esta tendência venha a continuar (Johnson, 2016).

Se é verdade que os jogos foram acompanhando a evolução da humanidade, hoje estamos seguramente a dar mais um passo nessa evolução. Os desportos eletrónicos são indiscutivelmente uma tendência para o futuro, embora ainda não equiparados a outros como o futebol ou basquete. Mas o futuro promete ser promissor para esta modalidade que se quer afirmar como desporto, desvinculando-se do estigma do sedentarismo. Ao longo deste trabalho abordamos as várias etapas que levaram ao desenvolvimento deste desporto e dos seus jogos mais famosos. Expusemos questões que achamos pertinentes, focando principalmente as características mentais necessárias para se ser um jogador profissional neste tipo de desporto, quais as vantagens de o praticar e quais as consequências negativas que daí podem advir.

Referências Bibliográficas

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Portugal a Jogo: “Artistas” VS “Liberais”

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Chamamos a atenção para um episódio já costumeiro de “indignação do dia”, frequente entre as turbas irracionais das redes sociais. Neste, um tweet de 2015 de um recém eleito deputado da IL, Mário Amorim Lopes, alegava que a desigualdade salarial entre sexos em parte se explicava com a ocorrência da maternidade. Para quem está informado sobre o assunto, isto não é sequer matéria de polémica, já que o facto de que a maternidade é um dos principais factores da desigualdade salarial entre sexos não está sequer sujeito a discussão, conforme atestado em inúmeras peças jornalísticas e estudos (vd. role of pregnancy in gender pay gap, https://www.pwc.com/gx/en/issues/c-suite-insights/the-leadership-agenda/the-motherhood-penalty-is-widening-the-pay-gap.html, https://www.nytimes.com/2017/05/13/upshot/the-gender-pay-gap-is-largely-because-of-motherhood.html).

A afirmação de Mário Amorim Lopes era meramente o enunciar de um facto. Já sabemos que a reação de pessoas claramente incultas, analfabetas ou de má-fé, que não sabem ler, leva-as a procurar um enunciado prescritivo naquele que é simplesmente uma descrição indesmentível. Mas na conversa inicial, que já tem 10 anos, encontramos um tom ainda mais delirante: a realizadora Raquel Freire brinda o deputado, devido à referida intervenção, com os adjectivos “fascista”, “nazi”, “misógino”, “machista” e a sua ideia como “anticonstitucional”. Esta insigne representante da classe artística portuguesa, notória cineasta com vários prémios amealhados e representação em festivais internacionais, tem aparentemente a capacidade de interpretação antropológica, sociológica e económica de uma adolescente de quinze anos, com vocabulário a condizer. Mesmo que existisse o mínimo de dúvida quanto ao carácter obviamente descritvo da afirmação, convocar tais categorias completamente descabeladas para a arena não corresponde a um estado mental de sanidade, atenção e cogitação mínima. E tal é surpreendente, vindo de uma pessoa da alta cultura.

Outros exemplos deste estado de coisas francamente alucinado foram encontrados recentemente na intempestividade com que a comediante Beatriz Gosta apelidou de fascista o seu colega Rui Sinel de Cordes, ou como o actor João Reis, na altura também marido de outra representante da classe artística, Catarina Furtado, do alto do seu privilégio dissertou sobre a necessidade de termos menos crescimento económico — isto, num país dos mais pobres da europa.

A ideia, também por vezes adiantada, de que é preciso “ser mulher” para perceber as causas da desigualdade salarial entre sexos é uma ideia absurda e de crianças, como se alguém para se curar de uma constipação exigisse que o médico também estivesse constipado. Não se sabe do que está a falar se, até mesmo dez anos depois — dado que a posição da dita não mudou — ainda não percebeu que a maternidade é das principais causas dessa desigualdade, não a única, e que, à falta de políticas que a mitiguem, “é natural” que a globalidade do rendimento da trabalhadora acabe por ser menor. Isto não está sequer sujeito a discussão, todos os estudos o indicam. Para uma resolução correcta dos problemas é essencial começar por um bom diagnóstico, mas Raquel Freire, como tantos infelizes exemplares da classe artística, sempre com “a luta” na boca mas em absoluto ignorantes das matérias que abordam, deviam dedicar-se, nesse campo, mais ao saber técnico e menos ao moralismo inócuo. Os romances de Eça estão cheios de personagens como estes artistas, que são tanto causa como sintoma do atraso do país.

Recapitulemos: a ocorrência da maternidade é das principais causas da desigualdade salarial entre sexos, isto é um facto, não está sujeito a discussão, e se alguém acha que enunciar esse facto é algo “fascista, nazi, misógino, machista”, alguns dos epítetos com que a cineasta brindou Mário Amorim Lopes há uns anos, então devemos dizer que vive num mundo de delírios, de fantasmas, de absoluta alienação da realidade, um mundo que nada tem a ver com a maneira como abordamos, e como se devem abordar, os problemas. São mais que conhecidos os exemplos de quando a classe artística se mete nos “activismos” sobre matérias de que nada entendem e que ouviram falar no bairro alto e no Lux. São maus exemplos.

Este é, então, o mundo dos artistas, maioritariamente subsidiados, e das suas ideias sociais e políticas. É um mundo que não se vê, não se dá com, e despreza o outro: o dos economistas, dos advogados, dos gestores. Um é de esquerda e julga-se porta voz do bem e da verdade; o outro é de direita e julga-se mero intérprete da literalidade do mundo. Estes dois mundos não falam um com o outro e, quando falam, o desastre ocorre: ninguém se entende, cada um julga que o outro é “fascista” ou “comuna”, insultam-se, desprezam-se e, finda a contenda, retornam cada um à respectiva bolha.

É, assim, um país, ou um modo de vida e forma de cultura, não muito diferente do pátio de uma escola primária: grupos enturmam-se por afinidades mínimas, odeiam os outros que não as possuem, sem os conhecer, e vivem toda uma vida adulta plantados nesta cola social feita de preguiça mental, de tribalismo primário e de surdez cognitiva. Certo é que as redes sociais são particular chamariz para este tipo de gente, assim como a política, o jornalismo, as profissões em que se “aparece em público” — próprias para narcisistas.

Os conselhos com que terminamos esta breve apresentação são os seguintes: não confiem em advogados, economistas e gestores para falar em público; não confiem em membros da classe artística ou das burguesias intelectuais portuguesas para falar do que quer que seja; e não frequentem redes sociais sob pretexto ou razão alguma.

Crítica: Flor de Buriti de João Salaviza e Renée Messora já estreou nos cinemas nacionais

Este documentário-ficção mostra a luta de uma tribo indígena para conservar o seu território e cultura perante as ameaças dos cupe (homem branco) e da negligência do governo do Brasil em relação à agressão dos gananciosos fazendeiros que queriam a todo o custo aumentar a extensão das suas propriedades e número de gado.

Os realizadores retratam duas gerações de uma tribo pacífica, quase “gandhista” no sentido romântico do adjetivo. O sangue derramado na terra Krahô durante o massacre de 1940 e a angústia e preocupação recente das mulheres da aldeia quando os jovens adultos se juntam a uma espécie de guarda florestal. Acima de tudo, a beleza da sua forma de viver: natural, tranquila, em harmonia com a fauna e flora circundante, respeitosa e baseada na interajuda e união dos membros da tribo. Essa é a grande lição e exemplo a partir do qual podemos aprender de maneira comparatista e anti-etnocêntrica com este segundo filme antropológico da dupla brasileira João Salaviza e Renée Messora. 

Depois de A Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos (2018), agora em 2024 a real Flor de Buriti brotou em Portugal no mês da Primavera, dia 21 de Março.

Sem qualquer complexo de carrasco e/ou falso sentimento de dívida histórica, convido-vos a visualizá-lo nem que seja só pela direção de fotografia, sensibilidade e laivos de sentido de humor nos diálogos. Um verdadeiro prato visual de humanidade e humildade sem nunca deixar de ser um grito de chamada de atenção para a injustiça suportada pelos Krahô, infelizmente, não sendo este um caso isolado no mundo. 

A FLOR DO BURITI foi exibido mundialmente, pela primeira vez, na Seleção oficial do Festival de Cannes – Un Certain Regard, onde venceu o prémio Elenco e seguidamente ganhou inúmeros prémios nos festivais internacionais

Sessões Especiais: 

 LISBOA 

21 MARÇO | 21H15

CINEMA IDEAL

Conversa com os realizadores João Salaviza e Renée Nader Messora e Susana Viegas (antropóloga e investigadora da Universidade de Lisboa)𝗔𝗳𝘁𝗲𝗿 𝗣𝗮𝗿𝘁𝘆 𝗻𝗮 𝗖𝗮𝘀𝗮 𝗱𝗼 𝗖𝗼𝗺𝘂𝗺 a partir das 𝟮𝟯𝗵 𝗰𝗼𝗺 𝗗𝗝 𝗦𝗲𝘁 𝗱𝗲 𝗟𝗜𝗔𝗡:𝗘 (entrada livre)22 MARÇO | 21H00CINEMA MEDEIA NIMAS 

Conversa com os realizadores João Salaviza e Renée Nader Messora e Liliana Coutinho, programadora de Conferências e Debates na Culturgest 

24 MARÇO 

CINEMA FERNANDO LOPES | 16H00 

Conversa com os realizadores João Salaviza e Renée Nader Messora e os Cinéfilos que Ninguém Pediu 

CINEMA MEDEIA NIMAS | 21H00 

Conversa com os realizadores João Salaviza e Renée Nader Messora e Leonor Rosas

COIMBRA 

CASA DO CINEMA I 21h30 

Conversa com os realizadores João Salaviza e Renée Nader Messora e  Patrícia Vieira

Edição: Março 2024

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Às portas da primavera: orientalismo, cortiça, iluminuras, sensacionalismo, coleccionadores, Ksar Sghir, Fedro, Aristófanes, senhoras e cavalaria, autopsicografia, Lispector, Ondjaki, rasgar quadros, activismo racista, Antero, galerias de arte e estado-tutor.

Deambulações pelo Orientalismo, Discursos de Poder e Outros Cruzamentos

Texto de Raquel Roxo tendo como ponto de partida o Orientalismo de Edward W. Said, reflectindo-se sobre o discurso hegemónico e integrado num nexo entre linguagem e poder, que convoca várias ideias e conceitos.

A Cortiça: Arte milenar e muito portuguesa

Marco Serote Roos fala-nos de Portugal como maior exportador mundial de cortiça. Contribuindo com cerca de um terço de toda a produção de cortiça no mundo, a exportação portuguesa de cortiça faz- se na forma de rolhas, pois é uma indústria sinergética com a vinicultura. Apesar de factualmente corretas, estas afirmações não são representativas da realidade complexa desta indústria histórica.

Algumas Iluminuras do Livro de Horas de D. Manuel [c.1517]

Algumas iluminuras do Livro de Horas do Augusto Senhor D. Manuel [c.1517] com os arredores do Portugal antigo, e outras questões.

De quando o sensacionalismo jornalístico se junta ao academismo activista

Sobre as falácias graves de um estudo que permitiu chegar à conclusão de que “ciganos e negros têm respectivamente 43 e 21 vezes “mais probabilidade de serem mortos pela polícia”.

Quatro Muito Diferentes Coleccionadores do Séc. XX

Breve crónica que na tradição de agruparmos pessoas muito distantes mas com algo em comum. Quatro coleccionadores: José Berardo, Hermann Goering e William Randolph Hearts.

Escavando as origens de Ksar Sghir e a conquista portuguesa do Norte de África

Cláudia Barros escreve sobre como em 1415 dá-se a tomada de Ceuta, e a Coroa lusa estabelece-se em Marrocos até 1769. A conquista de Ksar Sghir (1458) será uma das peças chave para compreender os inícios da expansão portuguesa em África. Atualmente, as ruínas do sítio arqueológico de Ksar são testemunhas de um passado antigo, islâmico e português, que têm fornecido aos pesquisadores um amplo campo de estudo.

A autoria de Fedro: a reescrita de Derrida, a escrita de Platão, e as falas de Sócrates

João Pedro Carvalho escreve sobre o problema da autoria em Fedro, que nasce na sua assinatura e desenvolve-se, dramatiza-se, pegando em ideias de Derrida sobre se houve alguma vez algum diálogo entre as personagens Sócrates e Fedro e o papel do autor Platão.

O Vulgar, o Alegórico e as Mulheres em Três Peças de Aristófanes

Uma breve crónica de Ana Sérgio sobre dimensões pouco conhecidas para o leitor comum presentes em peças dramáticas da antiguidade: o uso de tropos boçais, uma alegoria com proto-comunismo e esboços de feminismo anti-patriarcal.

Do dia da mulher.

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Na ciência, dois dilemas e funções da vaca e dos lacticínios.

Crítica: Estudos Comparados em “Viagem à Petrópolis”, C. Lispector e “O homem mais magro de Luanda”, Ondjaki

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Da boa fotografia: Pierluigi Praturlon, Steve Given, Jean Cocteau.

Da normalização do “activismo” vândalo sobre obras de arte

A brincadeira algum dia teria de acabar mal. Por brincadeira referimo-nos à recente moda, absolutamente primitiva, animalesca e cultista da ignorância, de danificar obras de arte em protesto.

Grace Jones e pessoas da mesma época.

Roger Dubuis: A Ascensão de um Império Relojoeiro pela Visão de Carlos Dias

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Peace to Mutants #9 — Carm Mascarenhas, Betty Davis, Goblin


Cláudia Zafre digs into strange and ancient sounds, this time featuring some psychedelic pop with exotic tinges and two soundtracks, one with dueling bluegrass banjos and another for a campy horror movie.

Sugestões de Cinema: Plágio de Realizadoras e Filmes Europeus Históricos de 1950-1965

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Do Racismo Extremo dos “Antirracistas”

Nota editorial sobre um vídeo de propaganda, com fundos públicos, racista, divisivo, distante da realidade comum de pessoas de todas as raças, de incitamento ao ódio e desconfiança.

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Três oldies: de Sofia A. Carvalho, sobre a consciência, a reconstrução biográfica e a noção do eu em parte da obra do poeta português Antero de Quental.

Millennials e a Arte Contemporânea: uma Análise Sociológica

Laura Carvalho Torres com uma análise ao mundo da arte contemporânea de um ponto de vista teórico e sociológico, de modo a compreender a ligação dos millennials ao mundo da arte, analisando as técnicas de marketing dos museus e galerias.

A Imprensa e o Engodo do Estado Tutor

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Submissões Abertas

A Revista Minerva Universitária é uma revista de âmbito académico dirigida ao público em geral e tem uma chamada para artigos, aberta permanentemente, sobre todos os temas universitários: Artes e Letras, Ciências, Engenharia, Direito, Arquitectura, Psicologia, Medicinas, Ciências Sociais, e tudo o resto. Escrevam-nos sobre temas das vossas áreas de estudo e investigação ou sobre os tópicos que preferirem. Aproveitem conteúdos desperdiçados — trabalhos para cadeiras e seminários, apontamentos, estudos parciais, trabalhos de campo, relatórios, registos de conversas e debates, etc. — e teremos todo o prazer de ajudar a convertê-los em formato legíveis pelo público em geral. Contactem-nos em geral@revistaminerva.pt e revistaminerva.pt.

Retrato de Gertrude Vanderbilt Whitney (New York, 1875-1942), por Robert Henri, 1916; herdeira abastada e patrona das artes no início do séc. XX,

fundadora do Whitney Museum of American Art.

Peace to mutants #10 — Mark Mundy, Deliverance OST, Son of Dracula OST

Mark Mundy self-released an album in 1971 that has stood the test of timeand has recently come to light as one of the most interesting private pressreleases. The self-titled album is an amusing and captivating collection of love songs that were recorded after he emigrated from Cyprus to the US. Mundy’s accent and earnest delivery only add to the charm of the songs that depict the hazards, and perils but indelible joy of falling/being in love. 

There is a definite naiveness that is quite appealing and that transverses the songs, giving them a bittersweet quality. There is melancholy and sadness in a young person navigating their feelings that are still relevant to our current day. 

The music is ’60s psychedelic pop with some exotic tinges, it has an addictive quality making you hum and perhaps singalong once you get the lyrics right. 

One of the private press releases to have gained some popularity today and that is both surprising and familiar. 

A neat and illustrative soundtrack for John Boorman’s film “Deliverance” (1972). The music in it is bluegrass to the extreme with well picked and played banjos, so it serves as a lovely introduction to instrumental bluegrass. 

These tracks were originally recorded in 1963 and were subsequently re-released as a soundtrack for the film. Eric Weissberg and Marshall Brickman duel their banjos and create some vivid imagery that takes us back to the movie, at least the beginning of it with the appalachian landscapes and the beautiful river. The songs are rather short, never reaching the 3 minute mark and make up for wonderful vignettes of passionate and pure bluegrass. Definitely, a must-have for people who enjoyed “Deliverance”. 

Fun and lively soundtrack for the movie Son of Dracula (1973) starring Harry Nilsson and Ringo Starr that became quite the cult classic, despite never been released on video and poor prospects of being released in dvd. The movie is indeed somewhat of an acquired taste and Ringo Starr has stated that the movie is terrible, however there is a campy charm to it that can’t be denied. 

The soundtrack is made up of some Nilsson’s songs and the addition of sound excerpts from the film. A cool addition if you like Nilsson’s work and need some camp in your life. 

Jornalismo, democracia, censura: história e atualidade

Texto de Adriana Coelho, Ana Filipa Rodrigues, Daniela Sousa, Francisca Silva, Rafael Coelho, alunos de Ciências da Comunicação na UTAD. Resumo: o presente artigo académico pretende observar de que modo a censura e a democracia afetam o jornalismo, tendo em conta a perspetiva histórica e atual. É abordado ainda o caso portugês, com o Estado Novo a ser o caso de estudo deste artigo. Implementado em 1933 e derrubado com a Revolução de 25 de Abril de 1974, este regime ditatorial tinha como seu principal objetivo o controlo de todas as estruturas de Estado, afetando o jornalismo através da criação da Direção Geral dos Serviços de Censura em 1933, como forma de reforçar o seu poder e autoridade para com a imprensa e os jornalistas. Com a queda do regime, um novo panorama nacional eclodiu, desta feita nasceu um Portugal democrático. A censura que previamente estava na ordem do dia era agora substituída por liberdade de expressão, situação esta que também é abordada neste artigo. Na sequência são ainda abordados temas como o surgimento da internet e o impacto da mesma no mundo do jornalismo. Para finalizar este artigo conta ainda com uma parte prática em que são mostrados diversos casos de notícias, atuais e antigas, explicando como estas foram, ou seriam, impactadas pela censura do Estado Novo.

Palavras-chave: Jornalismo; Censura; Democracia; Estado Novo

Abstract

This academic article aims to observe how censorship and democracy affect journalism, taking into account historical and current perspectives. The Portuguese case is also discussed, with the Estado Novo being the case study of this article. Implemented in 1933 and overthrown with the Revolution of April 25th, 1974, this dictatorial regime had as its main objective the control of all State structures, affecting journalism through the creation of the General Directorate of Censorship Services in 1933, as a form of to reinforce its power and authority towards the press and journalists.

With the fall of the regime, a new national panorama emerged, this time a democratic Portugal was born. The censorship that was previously on the agenda was now replaced by freedom of expression, a situation that is also addressed in this article. Next, topics such as the emergence of the internet and its impact on the world of journalism are also covered.

To conclude, this article also has a practical part in which several cases of news, current and old, are shown, explaining how they were, or would be, impacted by the censorship of the Estado Novo.

Keywords: Journalism; Censorship; Democracy; Estado Novo

 

 

Introdução

A profissão de jornalista é uma das mais importantes, quer da atualidade, quer do passado. Sendo muita das vezes referida como o quarto poder, o jornalismo tem como função regular aqueles que estão no poder, dando a conhecer ao público o que está a acontecer ao seu redor.

No entanto, esta função reguladora do jornalismo não pára por aqui, pois este é essencial para a manutenção de uma sociedade democrática, onde a liberdade de expressão e de informação se tem por base.

A democracia, por sua vez, exerce a função inversa sobre o jornalismo, sendo esta também necessária para a execução desta função. Juntas regulam-se mutuamente, e fazem com que a sociedade consiga progredir.

Mas seria possível o exercício do jornalismo, numa sociedade onde a democracia não está presente por base? Será que, caso alguém controlasse a informação que circula, o jornalismo deixaria de existir, ou seria simplesmente uma marionete de quem está no poder? Será que demasiada liberdade afetaria negativamente o jornalismo?

Estas são algumas das perguntas, que pretendemos dar resposta ao longo deste trabalho. Analisando o caso do Estado Novo, a ditadura militar que esteve presente em Portugal e que marcou o século XX, procuramos verificar como esta usava o jornalismo a seu favor e como a censura era a palavra do dia, em meados do século passado.

Além disso, pretendemos ainda analisar como o jornalismo se moldou e se adaptou a uma sociedade democrática que evoluiu até aos dias atuais, e perceber se temas como a emergência da internet e um foco altíssimo nas liberdades individuais, afetaram, ou ainda afetam o jornalismo e de que forma o fazem.

Iremos por fim, apresentar alguns casos práticos de maneira a exemplificar como certas notícias de hoje, atuariam na época do Estado Novo e como determinadas notícias do Estado Novo foram influenciadas pelo Comité de Censura, desta que foi uma das mais marcantes ditaduras europeias.

1- Censura

A denominação “censura”, é muitas vezes utilizada de forma inapropriada. É então importante que esta seja diferenciada de outros casos nos quais a restrição à liberdade de expressão seja outra coisa que não a censura (Carvalho 2021: 17).

Definida como “a imposição do silêncio a um dissidente” a censura caracteriza-se pela sua dimensão menos visível sendo imposta por uma autoridade através de métodos como violência institucional ou social, ou, em casos mais extremos, através de violência física, que “visa alterar, modificar, silenciar, interditar manifestações de produção simbólica” (Costa 2013: 5, Carvalho 2016: 17 & Pereira 2014: 35). Através desta perspectiva, a censura foi sendo descrita como “algo mau para os cidadãos e restrita aos regimes autoritários” (Berg 2002: 79 & Pereira 2014: 30).

A prática deste fenómeno esteve presente na ditadura portuguesa do Estado Novo através do controlo dos meios de comunicação, através do controlo das publicações dos jornais, e na propagação de ideais favoráveis ao regime, através da propaganda política que era feita nos mesmos (Carvalho 2016: 25).

2- Estado Novo

O Estado Novo foi um regime político ditatorial que vigorou em Portugal entre os anos de 1933 e 1974. Originalmente este regime era visto como o ponto final num ciclo político instável, marcado por lutas partidárias que, quer na população quer no Parlamento, originaram um clima de fragilidade e incerteza danosos para a governação (Cabrera 2022: 277).

O regime, fundado e liderado por António de Oliveira Salazar, foi responsável por diversas estruturas e estratégias que lhe permitiram ficar no poder, até à sua substituição na Presidência do Conselho de Ministros, por Marcelo Caetano em 1968. Apesar da esperança de modernidade e maior liberdade por parte do povo português Caetano procurou dar continuidade ao seu antecessor, embora colocando novas vestes às velhas leis fundadoras do Estado Novo (Cabrera 2022: 272-273).

Um dos períodos mais importantes do início do Estado Novo foi quando a Constituição de 1933 veio substituir a Constituição Republicana de 1911, pois isto marcou o final de um período conturbado que abalava o país, sendo o novo documento constitucional aprovado a 19 de março através de plebiscito, uma votação que consulta os cidadãos para averiguar a sua opinião antes que seja tomada uma medida legislativa (Cabrera 2022: 277).

Este documento contava, no seu artigo 1º, que a todos é lícito manifestar livremente o seu pensamento, incluindo a Imprensa. Este facto foi algo a que a oposição regularmente recorreu durante o Estado Novo, alegando uma política contraditória ao que estava presente na Constituição em vigor, em função do período de censura vivido (Cabrera 2022: 278).

É importante realçar que o procedimento adotado pelo regime era centrado na preocupação de evitar a contestação pública e tudo que pudesse colocar em causa o seu projeto político. O controlo de uma imprensa silenciada pela censura, ou aliada ao governo foi a chave para desacreditar os opositores e passar confiança nas políticas de estado (Cabrera 2022: 283).

2.1- Como o Estado Novo usava o jornalismo a seu favor

Independentemente do período censório que seja estudado, o direito à informação por parte dos cidadãos de um estado opressor é assumido por quem está no poder como um não direito (Gama 2009: 1).

O Estado Novo não foi exceção e a censura foi usada como instrumento político, para evitar ideias contrárias ao regime e para condicionar a discussão de opiniões (Gama 2009: 1). No entanto, e ao contrário do que se acredita, a ditadura, inicialmente, não exerceu qualquer tipo de censura sobre os jornais. Foi um período breve em que o poder era controlado por Mendes Cabeçadas, porém, a substituição deste por Gomes da Costa levou à instauração da censura propriamente dita (Sousa 2008: 32).

Estava então implementada a censura em Portugal, processo que ficou oficializado através de uma carta dirigida pelo segundo-comandante da polícia de Lisboa aos diretores dos jornais (Sousa 2008: 32). A censura tomou rapidamente a ordem do dia, sendo que a partir de 1945, os crimes por abuso de liberdade de imprensa passaram a ser julgados pelos tribunais plenários de Lisboa e Porto. Jorge Pedro Sousa vai mais além, ao dizer que “a repressão sobre a imprensa adquiriu, em concomitância, um sentido vincadamente ideológico” (Sousa 2008: 33).

Para além disso, o regime de Salazar somente permitia a inserção de publicidade nos jornais que eram seus apoiantes, o que “agravou as difíceis condições em que sobreviviam os jornais mais ou menos oposicionistas”, o que levou a que muitos acabassem por desaparecer (Sousa 2008: 33).

O ano era 1958 e o assunto do momento era a candidatura de Humberto Delgado à presidência da república num momento que abalou o regime e criou a icónica frase “obviamente demito-o” quando questionado sobre o que faria a António Salazar caso vencesse as eleições (Cabrera 2022: 276).

A imprensa cobriu largamente esta campanha, mobilizando os seus “melhores e mais competentes repórteres”, porém as reportagens e a informação são manipuladas sofrendo com uma censura reformulada em 1944. “A cobertura jornalística, desta campanha eleitoral, marca assim as origens de uma mudança no jornalismo em Portugal” (Cabrera 2006; Baptista & Correia 2007).

Este acontecimento viria a deixar as suas marcas na sociedade portuguesa pelo que nos anos 60 e 70 os jornalistas e o jornalismo estavam num processo de transformação, com “as redações a serem palco de um embate entre duas gerações” (Cabrera 2022: 307). De um lado uma geração mais jovem com formação universitária, de outro uma mais antiga e acomodada aos velhos processos. Estes embates geracionais foram fortemente impulsionados pela lembrança latente na memória dos jovens da campanha de Humberto Delgado (Cabrera 2022: 308).

Com a substituição de Oliveira Salazar no poder por Marcello Caetano o povo ficou esperançoso numa mudança porém para o novo presidente do conselho de ministros, “nem os portugueses, nem os jornalistas, nem os políticos estavam preparados para viver sem censura” (Cabrera 2022: 309).

O período marcelista ficou então marcado pela contestação dos jornalistas que exigiam liberdade de imprensa. Quem também foi bastante pressionado foi o Sindicato dos Jornalistas, que se viu “forçado” a eleger uma nova direção manifestamente de esquerda (Cabrera 2022: 311).

Em janeiro de 1973 chegaria, do ponto de vista jornalístico, a grande novidade da governação de Caetano. O lançamento do semanário Expresso “mudou o panorama jornalístico nacional”, e, apesar de todas as dificuldades, pressões e cortes da censura, o projeto liderado por Francisco Pinto Balsemão foi essencial para a mudança que tanto se esperava no jornalismo português (Cabrera 2022: 311).

Neste período do Estado Novo é importante relembrar que a censura “transformou-se numa espécie de Lei do Silêncio, que incluía não só a censura propriamente dita, do lápis azul e da tesoura, mas também a repressão interior, pela autocensura” (Gama 2009: 1). Manuel Gama conclui dizendo que “esta é a censura do medo: do medo da prisão, do medo da agressão, do medo de perder o emprego, do medo de fazerem mal aos familiares, do receio de ser, frequentemente, incomodado por certos telefonemas anónimos, o medo de ser perseguido”, isto só viria a ser alterado com a revolução do 25 de abril de 1974 (Gama 2009: 1).

2.2- Impactos do Estado Novo no jornalismo

O jornalismo português tendeu para uma acomodação às regras, efetivas ou implícitas, do Estado Novo. A vigilância era constante e devido a isso as redações “converteram-se em espaços muito burocratizados onde imperava a rotina e se dava pouco espaço à iniciativa pessoal” (Lima 2017: 113).

Os jornalistas passaram a ser redatores, redigindo notícias condicionadas préviamente, sendo este o único género de escrita praticado, sem qualquer tipo de relevo para reportagens ou entrevistas caracterizadas por Helena Lima como “essenciais nas dinâmicas informativas sendo também elementos de atração de públicos”, a autora vai mais além ao afirmar que “tudo isto contribuía para o tom monocórdico e cinzento que caracterizou o jornalismo português até ao final da década de 60 e inícios da seguinte, do século XX” (Lima 2017: 113).

Aos jornais não eram permitidas críticas ao Estado Novo, nem às suas figuras, com todo e qualquer ato que significasse oposição ao regime a ser considerado “impublicável” (Lima 2017: 113). Tudo era alvo de apertado controlo por parte dos Comités de Censura, com menções à moral e à religião a sofrerem especial atenção (Lima 2017: 113).

O objetivo era moldar o pensamento coletivo de maneira a torná-lo dócil (Lima 2017: 113). No entanto e apesar da lógica preventiva e repressiva pautada pelos censores, “a decisão de deixar passar ou cortar determinada notícia ou excerto dela dependia do censor em causa” devido ao grande fator de aleatoriedade de quem fazia esses controlos (Arons de Carvalho 1999: 45).

O processo iniciava-se quando “um funcionário de uma redação, dia após dia, ia a uma Comissão de Censura com as provas do seu jornal” (Gama 2009: 3). De lá poderia regressar com dois carimbos, um com a palavra “visado”, o outro com uma das variantes possíveis: “autorizado”, “autorizado com cortes”, “suspenso”, “retirado” ou “cortado” assinalados a lápis azul (Gama 2009: 3 & Sousa 2008: 32).

Apesar do corte de certas notícias, os jornais não podiam deixar espaços em branco ou outros indícios de censura, porém a recusa em seguir as ordens dos comités poderia trazer sérios problemas aos jornais (Sousa 2008: 32). As represálias podiam ir desde a suspensão de qualquer publicação, apreensão de exemplares, multas e até mesmo à prisão para jornalistas, editores e vendedores (Sousa 2008: 32).

Em certas ocasiões os “os órgãos jornalísticos viam-se, também, impedidos de enviar jornalistas ao exterior para cobrir determinados acontecimentos”, principalmente quando estariam em causa oficiais do regime (Sousa 2008: 32).

As chefias dos jornais e os responsáveis editoriais viram-se então forçados a implementar condicionamentos próprios às provas levadas para avaliação de censura. Não só estes mas também os próprios jornalistas se “adequaram a esta dinâmica e acabaram por condicionar a sua forma de escrita”, aderindo ao modelo auto censor (Lima 2017: 113).

A atuação da comissão de censura e a necessidade que os jornais tinham em não serem penalizados “fez com que estes se tornassem meios preferenciais para a proliferação da mensagem única e da propaganda” , fazendo com que o jornalismo contribui-se para “criar uma perceção colectiva de uma visão distorcida da realidade social e política do país” (Lima 2017: 113 & Rodríguez 1998: 115).

Escapar à pressão que o regime fazia sobre as redações e as administrações dos meios de comunicação era praticamente impossível e a aceitação destas práticas não foi comum a todas as redações (Lima 2017: 113). Porém, até mesmo os maiores opositores foram forçados a aceitar as práticas do regime como forma de evitar uma autodestruição que, apesar de não ser dita, estava já anunciada.

3- Pós Estado Novo até aos dias atuais

Desde a aprovação da Constituição Portuguesa de 1933 até à Revolução de 25 de abril de 1974, vigorou em Portugal um regime político ditatorial denominado por Estado Novo. A partir do seu derrube em 1974, a censura ainda continua a ser tema de debate que predomina em Portugal e, por isso, é fulcral entender as práticas pós-censórias que ainda existem no país e de que forma é que causam algum tipo de impacto na democracia. (Carvalho, 2021)

Este período pós-censura causa um enorme impacto naquilo que é a liberdade de expressão, partindo do princípio que se fazem ainda incidir práticas autoritárias no momento democrático em que Portugal se encontra. O termo “pós-censura” é identificado através de alguns elementos que quando aplicados a um episódio real, permitem não só compreender o significado da palavra “censura”, mas também demonstrar que tal está presente. (Carvalho, 2021)

A nova denominação de censura nos dias atuais, expressa de forma mais abrangente, causa um novo entendimento na própria palavra e na forma como esta atua no país. Nesse sentido, diferenciando as práticas censórias que existiam no passado das práticas censórias que existem na atualidade, estas são denominadas de “pós-censura”. (COSTA; SOUSA JÚNIOR, 2018, p.28-32)

Na atualidade, é claramente visível que no que toca aos meios de comunicação social em Portugal, estes enfrentam uma profunda crise no setor, derivado dos problemas a vários níveis que o país tem atravessado nos últimos tempos. (Bastos, 2014)

Consequentemente, os profissionais da área enfrentam a precariedade, a degradação da qualidade do trabalho, os salários baixos e um excessivo número de pessoas licenciadas em jornalismo num mercado de trabalho limitado, que não está claramente preparado para oferecer oportunidades a todos, e isto porque os jornalistas não têm tendência a mudar de emprego, dificultando assim a entrada de novos membros na profissão. (Bastos, 2014)

Todos estes fatores levam a que os profissionais da área tenham receio de perder o seu emprego, o que prejudica o ambiente nos locais de trabalho, como as redações, e o próprio trabalho do jornalista que acaba por ser colocado em causa, devido à diminuição da audiência em canais de televisão ou até mesmo na imprensa, por exemplo. (Bastos, 2014)

Tendo em conta todos estes aspetos, os meios de comunicação social e os seus respetivos profissionais acabam por não criar tantas expectativas para o futuro profissional e, desta forma, o jornalismo que tanta importância tem na atualidade e para a democracia, acaba por ficar mais frágil e sem reconhecimento. (Bastos, 2014)

4 – Democracia

Desde a antiguidade, o termo “democracia” remete a uma forma de governo, onde o poder reside nos cidadãos que constituem uma comunidade, estando sempre ligada a dois grandes princípios: liberdade e igualdade. Esta é entendida por muitos como um conjunto de normas e processos políticos, que determinam uma forma de governação (Oliveira, 2016: 40).

Aristóteles afirma que democracia é um modelo governamental, que “exibe a igualdade absoluta, isto é, a lei coloca os mais pobres ao mesmo patamar que os ricos, e assim pretende que uns não tenham mais direitos que os outros, mas que as condições sejam semelhantes” (Oliveira, 2016: 42).

Ao compreender o paralelo entre o pensamento dos filósofos gregos e o pensamento moderno, é possível observar com clareza a continuidade histórica de ideias, como a liberdade e a igualdade, sendo estes os princípios fundamentais ao regime democrático (Oliveira, 2016: 43).

Como disse Ansart em 1978, “Na democracia, há liberdade de expressão, uma pluralidade de vozes, o confronto ideológico e o governo precisa de renovar o discurso, e responder às críticas da oposição que são veiculadas, principalmente, pelos meios de comunicação” (Ansart, 1978).

Com o termo democracia definido, é importante discutir a liberdade de imprensa existente em diferentes regimes políticos (Soares, 2009: 104). Comparando formas de comunicação política, é inevitável relacionar regimes autoritários com censura e falta de liberdade de expressão, em que a comunicação existente é utilizada como forma de propaganda. Já em regimes democráticos, a liberdade de expressão é tida como base da sociedade, com o governo a responder às críticas da oposição, disseminadas pelos meios de comunicação (Soares, 2009: 104).

4.1 – Papel da democracia no jornalismo

As declarações que constam na Constituição dos EUA vieram dar um novo patamar e legitimidade às funções da imprensa. Nela atribuem-se à imprensa quatro funções principais: proporcionar um fórum para a discussão de ideias; dar voz à opinião pública; ser os olhos e os ouvidos dos cidadãos para avaliar a cena política e o desempenho dos políticos e agir como “vigilante”, que avisa quando deteta sinais de mau comportamento, corrupção e abuso nos corredores do poder (Bastos 2015: 94).

Apesar de tudo, ainda existem autores com posições contraditórias quanto à importância do jornalismo na manutenção da democracia. Se por um lado, há aqueles que apoiam o jornalismo e o consideram essencial para a manutenção de uma democracia, por outro lado, existe alguns críticos que vêm o jornalismo como tendo “um conteúdo enviesado, o que as leva a ter uma atuação tendenciosa na sociedade, favorecendo posições, pessoas e grupos, construindo representações distorcidas da realidade” (Bastos 2015: 95).

Enquanto teóricos debatiam estas questões éticas, os jornalistas, por outro lado, foram criando e aperfeiçoando um conjunto de códigos e valores destinados a reger as suas funções e papéis, que viria a ser conhecido como “ideologia do jornalismo” (Bastos 2015: 100).

Esta “ideologia” está assente em alguns pilares, que garantem a sua integridade. Mark Deuze destaca alguns, tais como: as noções de serviço público (os jornalistas prestam um serviço público como vigilantes e disseminadores de informação); a objectividade (são imparciais e credíveis); a autonomia (são livres e independentes no seu trabalho); a instantaneidade (têm um sentido de instantaneidade, actualidade e velocidade) e a ética (os jornalistas têm um sentido de ética, validação e legitimidade) (Deuze 2007: 1).

Isto leva a que, para que o exercício da profissão do jornalista seja bem-sucedido, este deve ser objetivo no relato das informações a transmitir ao público, sendo importante que haja um permanente contacto entre os cidadãos e a informação disponibilizada (Sousa 2009). O papel social do jornalista é, então, o de informar a sociedade com verdade e transparência (Soares 2009: 117).

5 – Surgimento da internet e passagem gradual para o webjornalismo

A chegada da internet permitiu que os media migrassem para o universo digital, gerando associações entre os mesmos. Esta união do jornalismo com a internet surgiu, também, de uma necessidade de acompanhar a revolução tecnológica, sob a ameaça de “ficarem para trás nesta corrida” (Cardoso 2006: 45).

No ano de 1995, foi onde o jornalismo online em Portugal teve o seu rebentar , tendo uma fraca evolução na sua primeira década (Bastos 2006). A internet surgiu como uma nova ponte, ao oferecer conectividade a todos os meios de comunicação, deste modo possibilitando com que os media encontrassem novas maneiras de chegar ao seu público, e de criar novos públicos (Cardoso 2006).

O primeiro meio de comunicação social a entrar neste mundo digital foi a RTP em 1995, seguida do Jornal de Notícias e o jornal Público. Também em 1995, o Diário de Notícias estreava a sua versão online e no ano de 1996, foi a vez da TSF se deslocar para a Internet. O jornal Expresso, em 1997, começou a sua passagem para a Internet. Com o começo do novo milénio, foi divulgado o Portugal Diário, e, no ano seguinte, a versão online da revista Visão (Granado 2002).

Em relação aos meios televisivos, a RTP, em 1993, seguida da TVI, em 1996, proporcionaram conteúdo aos seus utilizadores por meio de um noticiário online. A SIC só viria a ingressar na internet em 2001 (Granado 2002).

Na sua primeira década o ciberjornalismo ficou assim marcado por um desenvolvimento lento, com as empresas jornalísticas a terem pouca capacidade de resposta relativamente aos sites noticiosos, bem como uma carência no que diz respeito à oferta de formação superior dos estabelecimentos de ensino (Bastos 2006).

O aparecimento da internet causou várias transformações que foram sentidas no mundo jornalístico, o que fez com que os meios de comunicação e dos jornalistas tivessem que se adaptar a uma nova etapa. Assim uma das principais mudanças que a internet introduziu no jornalismo foi a interactividade, conseguida através da variedade de plataformas digitais. (Reis 2016: 21).

Com a evolução do jornalismo online o jornalista passa então a ser um produtor de conteúdos multimédia de cariz jornalístico. Isto levou a que estes profissionais tivessem de entender a natureza interactiva criada pelos media digitais, e reconhecer as diversas formas de utilizar num mesmo texto (Bastos, 2006).

Em vez de uma cópia da versão impressa para a internet, os vários os meios que arriscaram numa nova forma de distribuir os seus conteúdos, conferiram um maior uso ao jornalismo online (Reis 2016: 26). Para Canavilhas (2005), “a passagem do jornalismo online para o webjornalismo criou a profissão de webjornalista”.

Deuze em 1999, introduziu o conceito de webjornalismo, referindo-se ao mesmo como “não apenas o ato de redigir um texto num computador e observar o mesmo disponibilizado online, mas também como explorar todas as formas possíveis de modo a providenciar a confluência”.

Ao mesmo tempo, outro dos grandes desafios ao webjornalismo surge por meio da procura de uma linguagem que “se consiga adaptar às exigências de um público e que aspira a um maior rigor e objetividade na informação desenvolvida” (Canavilhas: 2005).

Desta forma o webjornalismo introduz uma nova forma de escrita, ao afastar-se do método da pirâmide invertida, mudando assim para um texto onde se é dada a prioridade aos assuntos de destaque, e de seguida apresentando aqueles que são considerados como complementares (Reis 2016: 27-28).

Esta ligação para o webjornalismo, embora tenha possibilitado novas e melhores formas de interagir com o seu público, gerou dificuldades para os profissionais no que se refere às suas habilidades, dificuldades essas que os media têm combatido, melhorando a cada dia que passa (Reis 2016: 30).

5.1 – Desafios que a internet traz ao jornalismo

Após séculos de regimes extremamente repressivos, como foi o período do Estado Novo que vigorou até 1974, surgiram sistemas democráticos em que a liberdade de expressão e o acesso à informação constituem uma relação importante na Constituição Portuguesa (Gomes, 2020).

Com a afirmação dos meios digitais, o destaque vai para uma série de desafios, cuja profissão do jornalista terá de enfrentar ao longo da sua carreira e enquanto este domínio digital permanecer na sociedade. Por isso mesmo, o aparecimento da tecnologia levou a novas formas de abordar temas, especialmente por parte dos profissionais nos meios de comunicação social (Gomes, 2020).

Nesta nova era, a produção de conteúdos no âmbito online é cada vez mais uma grande aposta na divulgação da informação, visto que permite um número elevado de visualizações. Ou seja, esta acaba por chegar a mais pessoas pelo facto de existir também um grande contacto destas com os meios digitais o que torna a informação jornalística melhor sucedida neste modo de tratamento por ser mais rápido e mais acessível a grande parte da sociedade, tornando-se este algo indispensável nos dias de hoje (Carvalho, 2021).

Apesar disso, os jornalistas não deixam de ser vítimas de violência, intimidação, assédio, suborno e pressão, mesmo durante o exercício das suas funções. Todas estas situações que já aconteciam no passado, com a censura tradicional, decorrem também nos dias atuais, não deixando de ser desafios à profissão (Carvalho, 2021).

O acesso à informação tornou-se um método necessário e importante na vida das pessoas, assim como no exercício da profissão de jornalista, que não só deve ter noção dos riscos calculados destes novos meios, como também saber geri-los a todos. De facto, nesta nova era digital, reforçar o controlo do meio virtual é uma tendência relevante, uma vez que a liberdade de expressão e os direitos humanos são temas cada vez mais importantes e abordados pela sociedade (Gomes, 2020).

Tudo o que está relacionado com o ambiente digital, incluindo a internet, as redes sociais e as plataformas digitais, por exemplo, tem um grande impacto naquilo que é a profissão do jornalista em plena democracia. Efetivamente, a forma como a sociedade se informa e molda a sua opinião advém do impacto do digital no ambiente informativo, no qual o jornalista tem um papel importante, assegurando as suas fontes e todas as informações publicadas, respetivamente. (Gandour, 2019)

Este cenário deve-se ao facto de a sociedade, hoje, estar exposta, por um lado, a informações geradas pelo profissionalismo do jornalista e, por outro lado, a rumores ou boatos gerados por outras fontes que podem, não corresponder à realidade. Deste modo, as plataformas digitais podem mesmo chegar a enfraquecer aquilo que se chama de “agenda pública”, “esfera pública” e “opinião pública”. (Gandour, 2019)

Perante toda esta situação, o jornalista tem de enfrentar todos estes desafios colocados pelos meios digitais. O jornalista deve, por isso, querer saber mais sobre determinado assunto, sendo assim curioso, investigar a situação aprofundadamente de modo a obter a veracidade dos conteúdos, como também ter a capacidade de ser humilde e admitir quando faltar entendimento sobre algum caso, pois só assim estará a fazer um bom trabalho, um trabalho honesto. (Gandour, 2019) O não cumprimento desses princípios pode colocar em causa a veracidade da informação que é transmitida ao público. (Gandour, 2019)

 

6- Casos Práticos

Nesta parte do trabalho iremos abordar, através de exemplos práticos, o poder que a censura pode ter numa notícia. Numa primeira parte procuraremos mostrar notícias reais do século XX, e explicar como estas foram impactadas pelos Comités de Censura do Estado Novo. Numa segunda parte iremos apresentar notícias recentes de um Portugal democratizado do século XXI, tentando mostrar como as mesmas seriam impactadas caso a censura ainda estivesse presente nos dias que correm.

 

6.1- Como as notícias foram impactadas pela censura na época do Estado novo

 

 

Legenda: Diário de Notícias, 05/07/1937

Esta notícia vem no seguimento de um atentado a Oliveira Salazar, uma tentativa de assassinato em plena luz do dia num espaço publico que o Chefe de Estado frequêntava regulamente.

O título “Um crime que visava a nação” é muito interessante de ser abordado, numa época em que qualquer palavra que fosse usada para falar mal do Governo era automaticamente censurada, Salazar é posto num patamar superior aos demais. A ideia de que Salazar é a representação viva da nação portuguesa e de que caso se desse a sua queda, o país inteiro cairia juntamente com o seu líder.

Num paralelo traçado por Ana Cabrera em 2006, Salazar era o soberano da nação, vangloriado pela media como se fosse um rei, como se a sua eventual saída do poder fizesse com que Portugal se perdesse novamente, como tantas vezes aconteceu ao longo da História com diversos reis.

Salazar é tratado como um salvador, sendo considerado “a alma de uma nação”, esta notícia demonstra ainda um sentimento de orgulho por parte do povo português e de uma quase veneração pelo chefe de estado, dizendo que os portugueses eram incapazes de fazer algo para maltratar o seu líder, insinuando ainda o envolvimento de “mãos de estrangeiros” como justificação para o ataque.

Este sentimento é contrastante com a realidade vivida no país, em que os cidadãos eram oprimidos, não tendo qualquer tipo de liberdade de expressão e, muitas vezes, até de pensamento. Esta técnica de enaltecer o líder e os seus seguidores era usada pelos Comités de Censura durante todo o período do Estado Novo.

 

Legenda: Diário de Lisboa 05/07/1937

No seguimento dos acontecimentos relatados acima, o jornal Diário de Lisboa decide não abordar o tema do ataque a Salazar, escrevendo sobre o estado económico do país. Neste artigo intitulado “Na Brecha”, o jornal enaltece novamente o governante português, afirmando mesmo que este era “uma derradeira esperança” no que toca ao equilíbrio das contas do país.

O artigo continua a enaltecer a figura de Oliveira Salazar descrevendo-o como “o professor de finanças que se revelou estadista, demonstrando que só a virtude tinha direito a gerir os dinheiros do Estado”. Esta glorificação do chefe de estado era resultado da censura que os jornais sofriam regularmente por parte dos Comités organizados do Estado Novo.

As doutrinas de Salazar continuam a ser vangloriadas ao longo deste artigo, com o seu lema “Deus, Pátria e Família” a estar presente ao longo do jornal. Este jornal diz mesmo que “Há cinco anos que ele, alargando a sua ação, de forma a poder dar corpo á mística e a doutrina que trazia no pensamento, traz o país entre mãos, não como o barro modelado pelo artista, mas sim como o espírito que cede à razão e à persuasão”. Esta passagem é claramente uma alusão à glorificação do líder que era visto como o salvador da pátria.

O artigo conclui-se com uma dedicatória a Salazar, como aliás era comum de acontecer no jornalismo da época, dizendo: “Formulamos os mais sinceros votos, para que o seu labor seja abençoado por Deus e as gerações de hoje nunca se esqueçam do homem que lhes deu a fé e a confiança para vencerem as dúvidas e temores da hora em que nasceram”. Isto era novamente contrastante com um país oprimido que, internamente, desejava a queda do regime, mas que se via forçado a enaltecer as ações de Salazar por medo de represálias.

6.2- Como seriam as notícias atuais na Época do Estado Novo

Exemplo 1 – A seguinte notícia apresenta críticas feitas pelos advogados ao governo depois do mesmo realizar alterações às ordens profissionais. A bastonária da Ordem dos Advogados mostra o seu descontentamento em relação à remuneração de estágios, aos não licenciados exercer funções jurídicas, à ausência da ministra da justiça e à falta de tato por parte do governo em ouvir as suas queixas. Se esta notícia fosse fiscalizada pelos Comités de Censura do Estado Novo, fazendo uma alusão ao famoso lápis azul, a notícia ficaria desta forma:

 

 

Legenda: Sic Notícias 19/06/2023

Legenda: Sic Notícias 19/06/2023

 

 

Legenda: Sic Notícias 19/06/2023

 

 

Legenda: Sic Notícias 19/06/2023

 

Legenda: Sic Notícias 19/06/2023

Esta notícia, segundo a censura do Estado Novo, teria de ser alterada, por exemplo nos seguintes moldes: o título seria alterado para uma tipologia mais neutra e que não prejudicasse o governo como “As alterações feitas pelo Governo as Ordens”, de modo a não manchar a imagem do governo nem pôr em causa qualquer decisão tomada por este; As questões e as críticas colocadas pela bastonária, Fernanda de Almeida Pinheiro, seriam retiradas e as mudanças apresentadas feitas nas Ordens continuariam como conteúdo da notícia, novamente este tipo de críticas seriam ocultadas de modo a preservar a boa imagem do governo e a destacar as suas políticas pela positiva; Ao longo da notícia, os tópicos que desaprovam as atitudes do governo seriam substituídos ainda por aspectos que enaltecem o mesmo, mostrando a história de outra perspectiva que favorece-se o governo.

Caso o jornal levasse tornasse esta notícia pública, ignorando assim as “sugestões” dos Comités, este incumbiria num crime de afronta ao poder e poderia ser punido, com multas, restrições na impressão de exemplares futuros ou até a total proibição de publicar durante um determinado período de tempo.

Exemplo 2 – Nesta notícia é apresentada as acusações da Ordem dos Médicos realizadas ao governo por desistir dos médicos portugueses, querer apostar e atrair os médicos do Brasil. O bastonário, Carlos Cortes, expressa a sua frustração através desta notícia em relação ao governo e ao Ministério da Saúde.

Legenda: Público 5/08/2023

Legenda: Público 5/08/2023

 

 

Legenda: Público 5/08/2023

Com os critérios do Estado Novo, a seguinte notícia apenas teria a última imagem como forma de mostrar o interesse do Ministério da Saúde em querer atrair médicos, denotando assim a preocupação do governo para com os seus cidadãos; As insatisfações por parte do bastonário seriam completamente retiradas, como forma de não manchar a imagem do governo, fazendo assim com que não aparecessem críticas às decisões do mesmo.

O título, por sua vez, seria alterado para “Governo quer atrair novos profissionais na área da medicina”, ou algo que mostrasse claramente o objetivo do governo em contratar profissionais.

Assim como no exemplo anterior caso o jornal levasse a público esta notícia, ignorando assim as “sugestões” dos Comités de Censura, este incumbiria também num crime de afronta ao poder e poderia ser punido, com multas, restrições na impressão de exemplares futuros ou até a total proibição de publicar durante um determinado período de tempo.

Exemplo 3 – Esta próxima notícia aborda uma suspeita que houve sobre o Primeiro Ministro António Costa numa alegada prevaricação. Esta notícia continua por abordar outros ministros, como João Galamba, acabando por atacar o governo e questionando certas atitudes e leis do mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Legenda: CMTV 5/01/2024

Esta notícia quando confrontada com os critérios do Estado Novo teria de ser alterada, uma vez que ressalta aspectos negativos no governo. As alegadas prevaricações de membros de Estado, incluindo o primeiro-ministro , não passariam pelo lápis azul da censura exercida durante o regime ditatorial. Este é um caso de uma notícia que seria completamente cortada, sem espaço para alterações nem ajustes.

Assim como nos exemplos anteriores caso esta notícia viesse a público, ignorando assim as “sugestões” dos Comités de Censura, este órgão de comunicação incumbiria também num crime de afronta ao poder e poderia ser punido, com multas, restrições na impressão de exemplares futuros ou até a total proibição de publicar durante um determinado período de tempo.

Tendo em conta o teor da notícia, e atendendo ao histórico de publicações similares deste órgão é bastante plausível ponderar se uma punição mais pesada não poderia ser ainda aplicada. Acreditamos que, devido a estes fatores todos, o encerramento forçado deste órgão de comunicação seria uma punição que poderia acontecer caso o Estado Novo ainda estivesse de pé nos dias que correm.

Conclusão

Com a elaboração deste artigo, ficou clara a importância do jornalismo para a sociedade, pois sendo esta uma profissão que pauta pela qualidade e rigor, tem a capacidade de se integrar na sociedade atual, combatendo todos os desafios que lhe são apresentados diariamente.

A queda do regime ditatorial português e a implementação da democracia foram um marco histórico no mundo do jornalismo em Portugal, e, se por um lado o jornalismo tem sido capaz de se adaptar às crescentes exigências da sociedade, quanto às suas competências profissionais e tecnológicas, por outro lado, ainda existem desafios com os quais o jornalismo é confrontado que se tornam difíceis de lidar.

Foi verificável ainda o modo como a ditadura militar que esteve presente em Portugal fazia uso do jornalismo e da imprensa para benefício próprio e como a censura era termo diário usado nos meados do século passado.

Neste sentido, o jornalismo moldou-se e adaptou-se a uma sociedade democrática que registou uma evolução até aos dias de hoje, em que o aparecimento das tecnologias afetaram, e continuam a afetar, o exercício da profissão de jornalista e todo o meio envolvente.

No seguimento de todas as explicações dadas, a presença dos casos práticos foi fundamental para compreender como determinadas notícias atuais decorriam na época do Estado Novo e, por outro lado, como outras certas notícias do Estado Novo tiveram influência dos Comités de Censura, desta que foi uma das mais marcantes ditaduras a nível europeu.

Num mundo em que, cada vez mais, está tudo a passar para os meios digitais, é importante vermos e estudarmos as nossas origens, e de onde veio uma das mais importantes profissões de todas, a de jornalista. O jornalista é a ponte que liga aqueles que não têm voz àqueles que estão no poder, prezando sempre pela transparência e fazendo prevalecer a verdade.

Perceber as origens e o percurso do jornalismo pode ajudar a planear e prever o futuro que aguarda a profissão. As diversas lutas que passou e continua a passar diariamente são resultado de uma sociedade em constante evolução e é exatamente isso que torna o jornalismo numa área tão apelativa.

 

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De quando o sensacionalismo jornalístico se junta ao academismo activista

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Chamamos a atenção muito rápida e brevemente para mais uma apontamento a que infelizmente já estamos habituados e que, neste caso, junta o sensacionalismo e a falta de seriedade do mundo jornalístico com o academismo activista. Foi hoje noticiado no jornal Público, com direito até a destaque principal na capa, um estudo da investigadora Ana Rita Alves, do CES, em Coimbra, que permitiu, aparentemente, aos jornalistas — ou à própria autora — chegar à conclusão de que “ciganos têm 43 vezes mais probabilidade de serem mortos pela polícia” e “pessoas negras 21 vezes mais probabilidade de ser morta pelas autoridades do que uma pessoa não negra”.

Ora, ditas as coisas assim, o caso seria grave. Mas grave como? O que passa pela cabeça de um incauto, um leigo ou um comum mortal ao ler tais asserções tão cruas? Que a polícia, conforme a cor da pele ou traço étnico de outra espécie, tende a abrir fogo mais facilmente — somente e apenas somente devido a isso? Não. Ao que tudo indica (v.d. https://sicnoticias.pt/pais/2024-03-18-Estudo-diz-que-ciganos-tem-43-vezes-mais-probabilidade-de-serem-mortos-pela-policia-aaadf876), não é isso que o estudo diz. De todo.

O que o estudo faz é simplesmente comparar a desproporção entre a representação de ciganos e negros nesse conjunto de vítimas com a sua representação na população em geral. Achando portanto muito mais vítimas, proporcionalmente falando, do que seria expectável conforme o seu peso na população, sugere que isso revelará um viés racial. Ora isto é completamente inexacto, abusivo, ingénuo, sensacionalista e anti-científico. Não é possível fazer um exercício destes sem constatar um facto estatístico, comportável facilmente através de estatísticas das populações prisionais, as únicas em relação às quais temos dados étnicos, que é a sobrerepresentação dessas minorias na prática de crimes — nomeadamente de criminalidade grave que envolva resposta armada da parte da polícia — em relação à população em geral.

Deixemos de parte a discussão de “porque é que é assim”: pode ser por razões culturais, viés social, racismo, tudo o mais, mas o facto é que o é. E essa sobrepresentação, obviamente, torna-se um dado fundamental da questão, que, se colocada devidamente na equação, anula por inteiro o relevo da conclusão original e a suposição de que existiria um viés racial da parte da polícia ao usar a força. Só é possível determinar isso se se proceder a estudos muito detalhados, que os académicos portugueses em geral não estão para fazer — para a FCT meia dúzia de tretas sobre coisas “estruturais” e “sistémicas” chega — e muito menos os jornalistas — dado que o seu público também é manso, quanto mais sensacionalismo melhor —: tais estudos exigiriam comparação de situações exactamente iguais ou muito semelhantes que requeressem uso de força, para se determinar se existia um padrão diferente quando os infractores eram de uma raça ou de outra. Isto não foi feito.

Logo, não existe, em toda a honestidade, qualquer conclusão possível a tirar de qualquer viés racial. O que existe é o corolário da sobre-representação dessas minorias étnicas na prática de certos tipos de crime e por conseguinte a sua infeliz sobrerepresentação também nas vítimas do uso da força policial. Nos Estados Unidos, embora a imprensa também seja amiga do sensacionalismo, já estão mais vacinados contra estas matérias há muitas décadas, dado que o problema racial é mais abertamente discutido. Não é assim tão fácil passar estatísticas desonestas e falaciosas deste tipo e esperar que todo o povo engula mansamente. Aqui, esperamos que um dia, ou a começar desde já, também saibamos destrinçar o trabalho horrível, desonesto, de autêntica banha-da-cobra, feito em geral pelos jornalistas sozinhos mas por vezes tendo a colaboração da academia activista.

A Cortiça: arte milenar e muito portuguesa

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Quando vem à conversa as contribuições portuguesas para os mercados internacionais, é quase inevitável aparecer o exemplo da cortiça. É um facto bem conhecido: Portugal é o maior exportador mundial de cortiça. Contribuindo com cerca de um terço de toda a produção de cortiça no mundo, a exportação portuguesa de cortiça faz-se maioritariamente na forma de rolhas, pois é uma indústria sinergética com a vinicultura, outra exportação portuguesa famosa. Apesar de factualmente corretas, estas afirmações não são representativas da realidade complexa desta indústria histórica.

A cortiça não é uma indústria dominante na economia portuguesa nem mesmo na exportação. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, a exportação de cortiça, bruta e manufaturada representou cerca de 2,8 % da exportação total em 2023 (1). Aliás, os maiores setores de exportação portuguesa não são os agroflorestais, mas sim os industriais, nomeadamente metais, minérios e maquinaria (2). E mesmo no setor florestal, a cortiça e produtos derivados constituíram somente 20% das exportações em 2021, o que corresponde à segunda maior depois de papel e cartão (35%) (3).

Apesar de tudo isto, o sobreiro e a cortiça são um elemento importante na economia, na paisagem ecológica e na cultura portuguesa. Em 2011, o sobreiro foi nomeado a árvore nacional de Portugal no Parlamento, ocupando assim o mesmo repertório de símbolos nacionais que o galo de Barcelos, o fado, o pastel de nata e a esfera armilar. Contudo, esta dimensão é bastante exclusiva do contexto rural, perdendo-se a sua percepção nos meios urbanos, onde se vê reduzida a rolhas e artesanato de feira.

Gostaria, por isso, de dar a conhecer melhor esta indústria, não única, mas tipicamente portuguesa: a sua história, as suas práticas e como se adaptou e perdurou até aos dias de hoje.

O sobreiro encontra-se em maior concentração no território português, o qual acolhe 34% de toda a população mundial (4). Reside nos chamados montados, ecossistemas semi naturais tipicamente mediterrânicos ocidentais, criados e mantidos desde a Antiguidade. São designados sistemas agroflorestais, pois sustentam-se a partir de um equilíbrio entre a flora florestal e a agrícola, e só podem ser sustentados manualmente. Este hibridismo permite suportar inúmeras espécies de flora e fauna, bem como sustentar várias atividades agrícolas, como a criação de gado, o cultivo de cereais, a agropecuária e a exploração florestal. É um ecossistema que domina muita da paisagem rural portuguesa a sul do rio Mondego, assim como, embora em menor quantidade, das planícies espanholas, da costa mediterrânica francesa, da zona litoral do zagreb e da península italiana. Os montados têm diversas tipologias determinadas pela espécie arbórea predominante: a azinheira, o sobreiro, o carvalho e o castanheiro. Os dois primeiros, os azinhais e os montados de sobro, são os mais prevalentes em Portugal. Enquanto o azinhal se caracteriza por ter uma finalidade mais agrícola, no cultivo de sequeiro e na criação de gado de médio e grande porte, o sobreiral tem uma finalidade mais florestal, na extração de madeira e de cortiça.

E que outro melhor material para extrair! A cortiça é deveras versátil: é um excelente isolador térmico, acústico e elétrico; é também impermeável e flutuante, imputrescível e inócuo, leve e maleável (5). Para além desta já vasta panóplia de propriedades, a cortiça tem ainda a vantagem ser um material completamente natural, sendo por isso renovável e reciclável. Face a este repertório de qualidades, percebemos bem o uso da cortiça desde muito cedo por diversas culturas mediterrânicas. Gregos, romanos, egípcios, babilónios e ibéricos de todas as épocas, fabricavam as suas ânforas, bóias, batoques, tarros e outros objetos, a partir da cortiça (6). Para além destes artefactos, a cortiça provou também ser um ótimo material de construção, graças às suas qualidades isoladoras e à sua longevidade. No contexto português em específico, revestimentos e coberturas de pranchas de cortiça são um elemento recorrente da arquitetura rural e até mesmo religiosa, compondo paredes e tetos de vivendas, silos, celeiros e inclusive conventos, como, por exemplo, o Convento dos Capuchos em Sintra e o Convento da Arrábida em Setúbal.

Contudo, a cortiça apresenta uma desvantagem determinante: o sobreiro é uma árvore de crescimento lento e sensível, fazendo da sua exploração um processo igualmente demorado e difícil. Do lande (ou seja, da bolota) à árvore, o sobreiro demora cerca de 30 anos a enraizar e a crescer. Quando o tronco atinge um diâmetro de 60 ou mais centímetros (6), é feita a primeira tiragem da cortiça, entre maio e agosto. Usando somente a machada corticeira, um rancho de tiradores “descasca” o sobreiro da sua cortiça sem danificar o tronco, o que poderia, doutro modo, comprometer a habilidade de regeneração do sobreiro e a subsequente qualidade da cortiça criada. É um trabalho rural que permanece praticamente inalterado desde, pelo menos, a Idade Média, cujo conhecimento e experiência continua a ser passado oralmente através de um sistema de aprendizagem. E sendo um ofício altamente especializado, que requer muito cuidado, perícia e paciência, o novelo (ou seja, o aprendiz) tem de aprender durante três anos antes de poder realizar a sua primeira tiragem. Após cada descortinamento, o sobreiro necessita de nove anos para regenerar uma nova camada de cortiça, que vai ficando progressivamente mais espessa e menos porosa com cada tiragem, atingindo o seu auge de qualidade a partir da terceira ou quarta época, tendo em conta condições ideais e ausência de imprevistos. Doenças, maus anos agrícolas, um golpe descuidado, insetos como a cobrilha da cortiça, que forma galerias dentro da cortiça (7), são algumas das fontes de ansiedade para a indústria corticeira.

É, curiosamente, esta dificuldade, este temperamento, que sempre garantiu uma posição privilegiada de Portugal na prática corticeira. Enquanto os processos foram evoluindo no tratamento, na transformação e nos usos potenciais da cortiça, a tiragem permaneceu intocável ao progresso. A automatização do processo de tiragem é ainda hoje um desafio de engenharia por resolver, devido essencialmente à complexidade do processo e ao cuidado requerido. Mais ainda, mesmo com os melhores cuidados e práticas na plantação e tratamento do sobreiro, não se conseguiu ainda acelerar os seus processos biológicos. Isto significa que a única forma pragmática de aumentar a produção de cortiça passa por aumentar o número de montados de sobreiros e tiradores, recursos que Portugal tem em abundância por quase todo o seu território. Ou seja, Portugal conseguiu manter a sua predominância na indústria corticeira devido à superioridade numérica, uma vantagem que a sociedade portuguesa soube sempre aproveitar e adaptar às novas realidades e obstáculos desta prática.

Vemos uma das primeiras manifestações desta competência na atitude protecionista do senhorialismo medieval português face aos montados e aos sobreiros. Temos literatura administrativa que mostra intento por parte da nobreza, e mesmo da coroa, em proteger e regular a exploração dos sobreiros e o uso da cortiça. D. Dinis I, em particular, foi um defensor voraz do montado de sobro. O seu reinado viu a criação de várias coutadas e chegou-se mesmo a proibir o abate de sobreiros em vários lugares (8). Este interesse prendia-se não só com a cortiça mas também com a caça, atividade típica da nobreza. Vemos este protecionismo régio também manifestado por D. Afonso V, quando concedeu a um mercador estrangeiro de Bruges o monopólio da exportação da cortiça portuguesa. De facto, este ato, na lógica política da época, insinuava que toda a cortiça para exportação era posse régia, pois um rei só dá o que possui. Estas atitudes demonstram que as elites políticas portuguesas cedo se aperceberam do potencial económico e comercial que a cortiça lhes podia proporcionar.

Contudo, muita desta ambição não passava para lá de manter um monopólio natural, fazendo com que muita da ação fosse reativa relativamente aos competidores internacionais. Aliás, a reação à mudança é um tema recorrente na indústria corticeira portuguesa, é a estratégia preferida, e claramente visível, a partir do século XVII, quando as ondas do avanço tecnológico e da crescente pressão dos mercados atingem a cortiça com a invenção da rolha no sul de França. Começa assim a exploração sistemática da cortiça em França, que veio sustentar a crescente atividade vinícola no Mediterrâneo. É um evento chave, que marca a viragem da cortiça como um bem de uso alargado e maioritariamente local para a lógica capitalista de produção, principalmente destinada a rolhas, lógica esta que perdura até hoje. Deixando de ser um nicho regional, a cortiça começa a atrair o interesse de culturas extra-mediterrâneas, nomeadamente do norte da Europa. No ambiente de vigor científico da Revolução Industrial, a cortiça ganha novas formas de tratamento e novas aplicações, inovações estas protagonizadas nas nações industriais. Talvez a maior destas inovações sejam os aglomerados de cortiça, teorizados e inventados no final do século XIX em França e no Reino Unido. É um material feito de cortiça, normalmente de baixa qualidade ou de restos, que é triturado, comprimido e agregado nas formas desejáveis: rolhas, placas, telhas, tijolos, entre outros. Graças a esta inovação, a cortiça deixa de ser percepcionada apenas como uma indústria auxiliar da viticultura, passando a ser um material com grande potencial, com uma enorme possibilidade de aplicações.

Portugal, sendo um país que se industrializou tarde, beneficiou desta vaga de mudança, tornando-se no principal fornecedor de cortiça em bruto aos países industrializados, onde a transformação era feita. O modelo de exploração sistemática foi adotado em Portugal por completo no século XVIII, no contexto do Tratado de Methuen de 1703, que garantia a maior competitividade dos vinhos portugueses face aos franceses nos mercados ingleses. Com a crescente importância que a cortiça adquire, a indústria de extração portuguesa nunca mais deixou este modelo, ficando somente exclusiva à parte da extração, e não à transformação e manufatura.

Portugal manteve esta posição privilegiada mas marginal até à década de 1920, quando a procura da cortiça em bruto começou a descer. As causas foram várias, mas podemos destacar as duas principais. A primeira prende-se com o facto do mercado vinícola ter perdido muitos dos seus melhores clientes, nos Estados Unidos e na Rússia, ambos por motivos de ideologia, o primeiro devido à lei de proibição de consumo de álcool e o segundo devido à revolução bolchevista. A segunda causa foi o crash da bolsa de 1929, uma crise económica verdadeiramente mundial, à qual quase nenhum país ou indústria escapou. Há que salientar também a maior competitividade da França e dos seus territórios no norte de África e a invenção de novos materiais sintéticos isoladores, que vieram a substituir a cortiça na construção nos primeiros países que se industrializaram, como os Estados Unidos, a Alemanha, entre outros. A indústria corticeira portuguesa viu-se, assim, obrigada a adaptar-se às novas circunstâncias.

Sob o modelo corporativista do Estado Novo, a chamada Junta Nacional de Cortiça (JNC), criada em 1936, tinha como intuito gerir e transformar esta indústria histórica. Durante este período, esta indústria tornou-se, de facto, industrial, assistindo-se à adoção de processos de tratamento, de transformação e mesmo de fabrico de objetos em cortiça. Esta modernização trouxe consigo novos interesses neste material. Começa a haver maior interação entre setores. Sob a tutela da JNC, a cortiça chama a atenção de entidades científicas e engenheiras, que vêem nesta o mesmo potencial de aplicações que os franceses e ingleses tinham já visto no início do século XX. Um exemplo disto foi a “redescoberta” da cortiça como material para a construção, aspeto que se tinha perdido anteriormente na priorização da exportação do material em bruto e no fabrico de rolhas. Os primeiros ensaios de construção com cortiça foram realizados nas décadas de 1930 e de 1940, organizados pela JNC, e envolviam o uso da cortiça como cobertura na construção de casas desmontáveis temporárias para os mais desfavorecidos. Estes projetos eram tanto experiências na viabilidade económica de tais residências, como campanhas de propaganda para o Estado Novo, que se afirmava como o “promotor (…) de habitação [e de] (…) os supostos valores e modos de vida tradicionais da população portuguesa” (9). Estas demonstrações eram de relativo sucesso. Muita da produção continuava a ser para exportação e o elevado preço da cobertura de cortiça não tornava viável a construção de habitação social. Entre sucessos e fracassos, Portugal recupera o seu monopólio nos anos 60, exportando agora cortiça já transformada e fabricada em aglomerados. Com a crescente liberalização dos mercados europeus, o Estado Novo vê-se pressionado a deixar muito do seu dirigismo económico. Com a Revolução dos Cravos, todo o sistema corporativista é abolido, incluindo a JNC.

Atualmente, a indústria corticeira portuguesa existe num equilíbrio entre o dirigismo estatal e o descentralismo das cooperativas. As fases do processo de produção da cortiça, tiragem, tratamento e transformação são realizadas por diferentes entidades. Os grémios e os laboratórios da JNC, que antes eram responsáveis por este intercâmbio, foram substituídos por associações profissionais, como, por exemplo, a Associação dos Industriais de Cortiça do Norte, e por institutos técnicos e superiores, como o Instituto Superior de Agronomia (10). É uma prática complexa que hoje envolve elementos de quase toda a sociedade portuguesa: agricultores e tiradores; operários e gerentes das fábricas; engenheiros, biólogos e técnicos agrários das universidades e dos institutos de investigação; arquitetos, artesãos, etc.

Apesar das dificuldades inerentes próprias do sobreiro, a cortiça está cada vez mais presente no nosso quotidiano: pranchas de cortiça forram muitas das nossas bibliotecas; malas, carteiras, cintos, sapatos, guarda-chuvas, vasilhas, recipientes térmicos e apetrechos de cozinha são alguns exemplos dos artigos em cortiça que podemos encontrar atualmente um pouco por todo o lado. A relevância da cortiça continuará a ser, sem dúvida, uma constante no presente e no futuro do país. Face ao desafio das alterações climáticas e à necessidade de mudar certas práticas, o setor corticeiro representa uma alternativa possível de simbiose entre a natureza e a humanidade, entre o interesse privado e o público, entre a tradição e o progresso. Longe de ser um material ubíquo, ou mesmo uma bala de prata, isto é, uma solução derradeira para a economia, a cortiça não deixará nunca de ser um símbolo importante no futuro do nosso país.

  1. https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&contecto=pi&indOcorrCod=0005720&selTab=tab0
  2. https://www.pordata.pt/portugal/exportacoes+de+bens+total+e+por+tipo-2327
  3. https://www.pordata.pt/portugal/exportacoes+dos+principais+produtos+de+origem+florestal-3691
  4. Carrusca, Sofia. O sobreiro e a cortiça: identidade, cultura e biodiversidade. 2015. Promontoria, Ano 12, Nº12. p. 91. URL: https://sapientia.ualg.pt/handle/10400.1/18356
  1. Carrusca, Sofia. O sobreiro e a cortiça: identidade, cultura e biodiversidade. 2015. Promontoria, Ano 12, Nº12. p. 94-5. URL: https://sapientia.ualg.pt/handle/10400.1/18356
  2. Mendes, Hélder. As Árvores de Cortiça. 1999. RTP. Matos, Bosques e Brenhas: Florestas Portuguesas. min. 4:30

URL: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/as-arvores-da-cortica/

  1. Mendes, Hélder. As Árvores de Cortiça. 1999. RTP. Matos, Bosques e Brenhas: Florestas Portuguesas. min. 8:04

URL: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/as-arvores-da-cortica/

  1. Carrusca, Sofia. O sobreiro e a cortiça: identidade, cultura e biodiversidade. 2015. Promontoria, Ano 12, Nº12. p. 93.
  2. Peredo, Ignácio Garcia. Junta Nacional de Cortiça (1936~1972). 2009. Euronatura: Lisboa. p. 75.
  3. Peredo, Ignácio Garcia. Junta Nacional de Cortiça (1936~1972). 2009. Euronatura: Lisboa. p. 99, 101.

Quatro Muito Diferentes Coleccionadores do Séc. XX

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Abordamos hoje quatro muito distintos coleccionadores de arte do século XX, um deles ainda connosco. O impulso que leva ao coleccionismo pode advir de origens variadas mas, na maior parte dos casos, requer a existência de significativos recursos já existentes. A prática pode ter ligações familiares ao diagnóstico psiquiátrico do hoarding — a acumulação compulsiva de coisas para além do logisticamente razoável — mas, em geral, é regida pela necessidade de gastar o dinheiro nalguma coisa que não na actividade principal do colecionador, em geral prática e usurária, uma dedicação paralela, preferencialmente nobre e duradoura, critério para o qual as obras de arte servem perfeitamente. 

Começamos assim o magnata da imprensa da primeira metade do século, William Randolph Hearst, que, por muito que o próprio tivesse feito esforços em contrário, ficou mais conhecido pela adaptação/inspiração livre da sua biografia até então no filme Citizen Kane, de Orson Welles, 1941. Hearst era o empresário de comunicação social mais abastado do seu tempo e ao mesmo tempo exímio e compulsivo coleccionador de arte, desde pintura, escultura, artefactos históricos, peças exóticas e tudo o mais, acumuladas no castelo que começou a construir na Califórnia mas nunca terminou. Recomendamos Hearst the Collector, obra sobre as colecções, se ainda a conseguirem encontrar, em https://www.abebooks.com/9780810972834/Hearst-Collector-Levkoff-Mary-Angeles-0810972832/plp.

Depois,  Solomon R. Guggenheim, empresário americano, da área da mineração, que criou uma fundação dedicada à preservação da arte, particularmente da arte moderna, e para a qual contribui também a sua talvz mais conhecida sobrinha, Peggy Guggenheim, figura social e apreciadora de arte e amiga dos artistas.

Ainda, uma figura mais sinistra, quiçá aberrante, cujos métodos de acumulação de arte foram muito mais discutíveis mas cujo impulso, na sua base, talvez seja idêntico: o marechal nazi Hermann Göring, figura excêntrica e algo excessiva, aproveitou-se do saque aos bens judaicos para acumular quer em propriedade pessoal quer em propriedade do estado variadíssimas obras de arte daí provenientes.

Por último, o empresário português madeirense José Berardo, da área da mineração, da agricultura e mais tarde da finança, que começou a coleccionar por hobby itens de pouco valor como selos e postais, passando mais tarde, com a fortuna, às obras de arte, acumulando uma notável colecção em particular de arte moderna que hoje está exposta em Portugal. 

Senhoras e Cavalaria no séc. XVIII: um Exercício de Imaginação Histórica

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Tenho muita estima por esta imagem que me diz tanto e que está cá em casa há muitos anos: uma senhora dirige-se ao ferreiro da vila porque o seu cavalo perdeu uma ferradura.

(Nesta época – provavelmente século XVIII – o ferreiro tem o ofício de trabalhar o ferro em todas as suas vertentes e ainda não há uma “especialização” em ferrador de cavalos. Por isso o mencionei como ferreiro)

A senhora veste um traje de equitação constituído por um caso curto cingido à cintura e uma saia comprida. Como adereço deste traje tem um chapéu preto (não me parece que o nome adequado seja chapéu, mas desconheço o nome correto) e na mão direita tem um pingalim que é nada mais do que uma varinha comprida.

Gosto de pensar que esta senhora está a causar choque ao senhor à direita, que a observa com um ar desconfiado e ao mesmo tempo trocista, pensando: “por que raio veio sozinha ao ferrador? Ninguém a acompanha? Onde está o palafreneiro?! [moço responsável pelos cavalos que acompanha os senhores nas caçadas e passeios]. Que vergonha estar uma mulher sozinha a falar com homens ainda para mais tão rústicos! E o que percebe ela de cavalos?! Aqui está uma boa intriga…”

Mas naturalmente ela percebeu o desconforto da sua montada e assim que chegou à vila apeou e encaminhou-se ao ferreiro. A sensibilidade feminina percebe a importância do bem-estar do animal e não o submete a incómodos desnecessários.

E na verdade, ela está acompanhada porque mais atrás, junto às casas está um senhor com uniforme de montar a conversar com uma senhora e desabafa “veja lá, D. Genoveva! Ela insistiu em ir sozinha! Com aquela conversa tão descabida de” não me acha capaz de resolver o assunto sozinha? ” e veio por aí a diante! Que hei-de fazer?! Não posso dizer nada… Claro que se vai comentar… Ficar falada aí na vila… E olhe quem lá está também… Pois é. E para quem sobra, diga lá?”. D. Genoveva, em cuidados com a reputação da nobre senhora afiança ao seu bom amigo que tudo fará para a informar dos perigos eminentes. Uma tão boa senhora, não pode de maneira nenhuma cair em desgraça para bem das alminhas que ela socorre. 

Mas esquecem-se que desde cedo esta mulher, muito embora o título de senhora, foi em tempos a pequena menina que corria até ao riacho, subia às árvores e frequentava às escondidas as festividades populares para mal dos pecados da sua perceptora.

Ainda no estabelecimento do ferreiro, o senhor que a olha de soslaio com ar de troça inicia o seu intento de fazer estremecer a confiança desta bela mulher. “Senhora, por aqui? Acaso o seu criado não poderá trazer o animal sem a sua presença? Não pretendo de todo avaliar a sua conduta, desde sempre imaculada…” Esta, habituada aos chistes de senhores pretensiosos afirma, “Caro senhor, se porventura é do conhecimento geral a minha conduta, não será agora motivo de preocupação. Todos nesta vila são testemunhas do zelo que coloco em toda a administração da minha casa. Ao contrário de outras senhoras, não me incomoda sujar o meu vestido e trocar palavras simples com as gentes desta terra. Seria até injusto alterar a minha conduta para com estas pessoas. Desde tenra idade que percorro estes caminhos que agora trilho de olhos fechados. É também público o cuidado que devoto a todos os que estão sob a minha alçada. Mas uma vez que se referiu a esta tarefa em particular deixe-me acrescentar o seguinte: da minha educação proveio também a minha afeição aos cavalos, como bem sabe. Sempre fiz questão de obter conhecimentos práticos este é um deles. Uma ferradura solta não permite que a minha montada usufrua tanto como eu dos nossos passeios e vim apenas tratar do assunto. Como vê, não há motivo para temores infundados.”

“Vossa Senhoria, aqui o nosso Tejo está pronto. Este malandro bate com os cascos na porta e é o que dá! Desde poldro com esta manha! Amanhã vou para os lados das Moreiras ver a junta do Albano, aquilo é obra senhora! Faz agora quinze dias que se lhes deu uma moléstia e agora o homem não trabalha! Perdão.. Isto quando me dá para falar até as gralhas se calam!” “Não se preocupe e agradeço-lhe ter-me informado.” 

O jovem ajudante de ferrador apressa-se a colocar o animal pronto e já Gerónimo se aproxima ajudando a sua senhora a montar novamente. “Obrigada, não se esqueça dos meus cavalos! Precisam de uma vistoria e quero-os de saúde.”

No caminho de regresso reflete sobre os últimos acontecimentos. “Temem-nas. As mulheres letradas a quem os pais deram uma educação igual à dos varões são temidas. Só um néscio como aquele com as suas palavras veladas e que desconhece o valor da compaixão para falar assim…”

Entrega o cavalo a Filipe e avisa-o da visita próxima de Gerónimo quando chega D.Genoveva: “Que te trouxe aqui? Está alguém em cuidados na vila?” “Não senhora, aquilo é gente forte… Enfim.. Olhe , que Deus me perdoe mas sabe que sou assim e não se me cala a boca! A gente viu a senhora lá no Gerónimo mas não tivemos como avisá-la…. O filho do Dr. Teixeira chegou agora de Coimbra e dá-se a ares de doutor…. Perguntou por si.. Diz que queria saber da sua saúde… Mas aquilo é má rez.. Ó se é!” “Descanse. Não irei recebê-lo de forma alguma. Insiste na venda da minha propriedade. Diz que o avô teima em incomodar-me com a gestão das terras, que uma senhora não devia ocupar-se de semelhante tarefa. Há quantos anos saiu daqui? Desconhece o valor que aqui está que não se quantifica em dinheiro. Estudou em Coimbra, esteve em Lisboa a pavonear-se e decidiu regressar. “ “Deus a abençoe!”

Chamava-se Mariana. O seu avô, conhecido na região, atribuiu à neta a quem criara com todo o desvelo a gestão das terras a riba do Tejo. Os seu pais vivem na capital e apesar das visitas frequentes permitiram que a sua jovem e ousada filha se educasse segundo os preceitos da província. Mas sem a excessiva religiosidade e as crendiçes destas terras.

É provável que Mariana, apesar da época em que nascera, não seja única mulher a tomar a dianteira  na vida rural. 

A autoria de Fedro: a reescrita de Derrida, a escrita de Platão, e as falas de Sócrates

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O problema da autoria em Fedro nasce na sua assinatura[1] e, seguidamente, desenvolve-se: dramatiza-se. Platão escreve o diálogo de Sócrates e Fedro, porém ­— simplesmente pelo texto — é impossível saber como Platão ouve o diálogo, ou se sequer o ouve, ou se houve alguma vez algum diálogo entre Sócrates e Fedro. As perguntas (hipotéticas) multiplicam-se (como um diálogo): Platão, hipoteticamente ouvindo o diálogo, apresenta-se a um dos interlocutores, ou aos dois? Ou ouve-o enquanto se oculta? Ou ouve-o relatado por Sócrates? Ou ouve-o relatado por Fedro? Ou ouve-o relatado por um terceiro? Um qualquer terceiro? Ouve-o inalterado, como uma gravação? Ou como um relatório? Ouve-o alterado? Sintetizado, acelerado? Ou detalhado, desacelerado? Ou exagerado, hiperbolizado? Ou comentado — descontinuado —, analisado? Ouve-o inventado? Narrado ou dramatizado? Ou ouve-o de múltiplas formas? E/ou altera Platão o diálogo para completar os vazios, as falas em falta, conforme o pensamento do seu mestre? Ou altera Platão o diálogo, completando-o com o próprio pensamento filosófico? Ou inventa inteiramente o diálogo para completar o seu pensamento filosófico[2]? Estas hipóteses problematizam a autoria, centralizando-a: apresentando o texto ora como transcrição (direta) da memória de Platão, ora como transcrição (indireta) da memória de Sócrates, ora como transcrição[3] da ficção de Sócrates, ora como ficção[4] de Platão, ora como uma fusão de géneros textuais, ora como uma fusão de autores. Sócrates não escreve, mas isso não lhe retira a autoria: se foi transcrito (inteiramente?); tal como o escriturário-dactilógrafo do tribunal não é o autor dos testemunhos, tal como Milton é o autor d’O Paraíso Perdido, porque o ditou (cego: fala pura) — Homero é o autor da Odisseia e da Ilíada, porque ouviu e escreveu e alterou as rapsódias[5]. Assim, as hipóteses autorais de Fedro subentendem um segundo diálogo: o diálogo entre a fala de Sócrates e a escrita de Platão; ou o diálogo entre Sócrates, a personagem histórica, e Outro: Sócrates, a personagem literária.

Aliás, parte da literariedade do diálogo é notada imediatamente numa síntese deste: Sócrates convenientemente se depara com Fedro, que lhe conta, encantado (apaixonado), que ouviu um discurso de Lísias sobre o Amor; Sócrates duvida das qualidades do discurso, e exige que Fedro o repita, proibindo-o de o tentar fazer de memória[6], obrigando-o a ler de um pergaminho que convenientemente trouxera consigo e que Sócrates convenientemente notara; Fedro convenientemente obedece[7]; Sócrates, como ator[8], reconta o argumento de Lísias de forma retoricamente superior; Sócrates, como filósofo, discursa com um argumento original[9] e, narrando um mito[10], filosofa sobre a superioridade da oralidade sobre a escrita; Fedro é persuadido, e grava, amorosamente, o discurso de Sócrates na memória, aprendendo que o Amor é indispensável na Didática, religando os dois Temas[11] do diálogo, como duas partes de um único movimento coerente. Esta coerência manifesta a narratividade do texto: literário (autoral), representando Sócrates como protagonista, Lísias como antagonista e Fedro como recompensa do vencedor do conflito — vencido por Sócrates razoavelmente: pela sua razão, a sua inteligência, a sua arte de persuasão, superior (a sua verdadeira arte retórica, contra a falsa de Lísias, inferior). O texto é assim instigado por uma intriga teatral, enfatizada pelo primeiro discurso de Sócrates: teatro dentro do teatro, anacronicamente shakespeariano, representando metateatralmente o interesse do leitor (espetador metonímico) pelo drama (que é Fedro) através do interesse (também amoroso) de Fedro pelo discurso teatral de Sócrates.

No ensaio “Plato’s Pharmacy”, Jacques Derrida torna esta teatralidade, este simulacro, na Diferença entre Escrita e Oralidade (entre Morte e Vida, no idioma socrático):

The powers of lḗthē simultaneously increase the domains of death, of nontruth, of nonknowledge. This why writing, at least insofar as it sows “forgetfulness in the soul”, turns us toward the inanimate and toward nonknowledge. But it cannot be said that its essence simply and presently confounds it with death or nontruth. For writing has no essence or value of its own, whether positive or negative. It plays within the simulacrum. It is in its type the mime of memory, of knowledge, of truth, etc. (Derrida, 1981: 105)

O “esquecimento” total na “morte”, representando no rio Lete, desliga o indivíduo do mundo, e da “verdade”; contudo, não o liga ao falso, tal como o teatro não é falso: liberta-o para a “não-verdade”[12], liberta-o do constrangimento mundano da palavra “verdade”, liberta-o da vida (explicitando a última enumeração: o “etc.”[13]), através de um teatro, um “simulacro”. Simetricamente, “escrever”[14] possibilita ao indivíduo a “verdade”, protegendo-a no tempo, mantendo-a viva, possibilitando o seu estudo, a sua memorização. Esta bifurcação do “escrito” define (indefinidamente) a mimese: transcrição e subversão: mesmo e contrário, “positivo” e “negativo”. A “memória”, o “conhecimento” e a “verdade” são imitados e invertidos, representados num palco “sem valor ou essência seus”: a “escrita”, sem início, sem fim, escrevendo-se apenas a si mesma, apresentando-se livre[15], até de uma “essência”, como um ator. “Escrever” não “tem” “essência”, adquire aquela daquilo sobre que escreve, ou, mais radicalmente: literariamente, torna-se nessa “essência”, torna-se a Razão do seu suposto tema, relativizado sob o seu novo absoluto (a Escritura). Desta forma, este é absolutamente relativo e relativamente absoluto: pode tornar-se tudo e não se submete a nada, nem à sua “essência”, pois não a “tem”. Simétrico, o “escrito” age “simultaneamente”, duplamente exponencial: aumentando os “domínios” “positivos” (“memória”, “conhecimento”, “verdade”, “etc.”) e os “negativos” (“esquecimento”, “não-verdade”, “não-conhecimento”, “morte”) — tudo se radicaliza: ora grafia inanimada, fixa, morta, tinta e papel inorgânicos; ora voz metafórica, animada[16], viva, disseminando-se[17] em infinitos significados. A “escrita” expande cada domínio, apontando-os “em direção” (“toward”) ao infinito, como um espelho: multiplicando os vazios e os não-vazios. Descrevê-la “simplesmente” seria estilhaçá-la ao meio, não a compreender (completamente), seria lê-la “pelo menos” (“insofar”), quando de mais a mais “escrever” aumenta os “domínios” contrários, tal como um espelho aumenta um quarto (e os seus vazios). A simplicidade descritiva[18] desconstrói-se: complexamente, apresentando as aporias de ler o “escrito” “presentemente”, quando este também se esconde: ora vivo, ora morto. O próprio uso do verbo “semear” (vivo: criando vida que possibilita a Vida), para descrever o aumento do domínio da “morte”, “confunde” uma metáfora com a outra (com a “morte” metafórica) — como a mimese se confunde com a “mímica”[19], expressão não-verbal: absolutamente contrária à “escrita” —; ostentando o verbo “confundir” num texto que “confunde” (religa) os dois tipos de “domínios” e nega confusamente uma possível confusão de “escrever”, do “escrito”, da “escrita”, com a “morte” (a confusão platónica que incita o ensaio de Derrida!), recriando a tensão entre os dois tipos de “domínios”, a sua Diferença (a sua Confusão).

A intriga, a diferença entre protagonista e antagonista na obra de Platão, concretiza o pensamento filosófico socrático-platónico (e derridiano), percorrendo as diferenças entre a oralidade e a escrita. Ao ouvir e ver Fedro a ler Lísias, Sócrates fala de um “delírio” (Platão, 2000: 29), como o texto escrito possuísse o leitor, tiranamente (autoritariamente: autoralmente), dominando-o: não dialogando, impondo as suas palavras, que não se harmonizam com o leitor, que não são democráticas. Analogamente, na narração do mito da invenção da escrita, a personagem a quem são apresentados os benefícios da escrita, o rei (ironicamente autocrático), imediatamente a critica: “Ela [a escrita] tornará os homens mais esquecidos, pois […] deixarão de exercitar a memória, confiando apenas nas escrituras, […] teus alunos […] passarão a receber uma grande soma de informações sem a respectiva educação!” (idem, 121); assim, a escrita seria para “a memória” um veneno[20], apenas oferecendo ao leitor “informações”, sem o ensinar a tratá-las, a retirar-lhes a essência para esta se fixar neles, tornando-se parte da sua sabedoria, tornando-os sábios.

O ensaio derridiano citado é, aliás, incitado pelo uso da palavra “pharmakon” (“remédio” (ibidem) e veneno): ponto de abertura de significado, subvertendo-se o próprio texto, desconstruindo a crítica do rei a partir de dentro (o veneno e o “remédio” destroem a partir de dentro, respetivamente, o corpo e a doença que se tornou parte do corpo):

Socrates compares the written texts Phaedrus has brought along to a drug (pharmakon). This pharmakon, this “medicine”, this philter, which acts as both remedy and poison, already introduces itself into the body of the discourse with all its ambivalence. This charm, this spellbinding virtue, this power of fascination, can be — alternately or simultaneously — beneficent or maleficent. (Derrida, 1981: 70)

Esta “droga”, medicinal “e”/“ou” venenosa, ganha aqui uma “virtude enfeitiçante”, como “poção amorosa” (“philter”), encantando o leitor, como uma “droga” recreativa, viciante, ritmando-o[21] (nesse instante), dominando-o como um viciado, aproximando-o da morte, enquanto o sobrecarrega de prazer, e de vida. A própria “ambivalência” da palavra “pharmakon” exemplifica o “fascínio”, amoroso, que estimula Derrida a escrever o ensaio[22], e, em nós, a lê-lo. Ostensivamente, esta “ambivalência” duplica a sua duplicação: “alternativamente ou [“alternativamente”] simultaneamente”: “alternativamente” e (“simultaneamente”) “simultaneamente” — introduzindo-se positivamente “e”/“ou” negativamente no “corpo” do leitor, como o amor, sem se poder prever o seu carácter antes, nem se poder calcular o resultado depois, devido à perpetuação do “encantamento”[23], que continua em nós muito depois do ato amoroso da leitura (e que continua a não se deixar calcular: aparece e reaparece apenas, e “introduz-se” e reintroduz-se em nós, absortos[24], surpreendidos, fascinados pelo seu mistério).

Depois da interrupção e/ou incorporação do mito da invenção da escrita (como a interrupção e/ou incorporação do anterior excerto derridiano neste ensaio), Sócrates continua a crítica do rei:

os discursos: falam das coisas como se estas estivessem vivas, mas, se alguém os interroga […], limitam-se a repetir sempre a mesma coisa. Mais: uma vez escrito, um discurso chega a toda a parte, tanto aos que o entendem como aos que não podem compreendê-lo e, assim, nunca se chega a saber a quem serve e a quem não serve. Quando é menoscabado, ou justamente censurado, tem sempre necessidade da ajuda do seu autor, pois não é capaz de se defender nem de se proteger a si mesmo. (Platão, 2000: 122, 123)

Segundo Sócrates, o escrito apenas se repete a cada nova interrogação, não respondendo às interpelações do leitor, deixando-o sozinho no próprio silêncio, nas próprias dúvidas. “Mais:” o texto divulga-se, chegando a quem o compreenderá e a quem não o fará, arriscando sempre ser mal lido, por má compreensão; ou por má intenção: por leitores que queiram usar o texto para os seus próprios propósitos[25], não se podendo este defender, frágil como uma folha de papel, tão frágil às críticas justas como às injustas. “Mais:” é implicitamente delatada a artificialidade da escrita, enumerando-se a lista de invenções (“os números e o cálculo, a geometria e a astronomia, bem como o jogo das damas e dos dados e, finalmente, […] os caracteres gráficos” (idem, 120)) que o deus Thoth teria inventado antes desta: final produto do seu divino artifício, oposto à naturalidade, à espontaneidade, da oralidade: primordial, pura, sincera, supostamente.

Sobre este último ponto, Derrida marca a diferença (em Sócrates) entre a verdade e o escrito: a sua insinceridade, a sua artificialidade:

The incompatibility between the written and the true is clearly announced at the moment Socrates starts to recount the way in which men are carried out of themselves by pleasure, become absent from themselves, forget themselves and die in the thrill of the song (Derrida, 1981: 68)

Quando lê (o “escrito”), e quando escreve (leitura radical), o indivíduo liberta-se de si mesmo, esquece-se de si mesmo (tal como um morto, depois de beber do rio Lete), desaparecendo a sua consciência da “verdade”: a droga, alucinatória, quebra os limites da realidade, enlouquecendo-o no excesso de “prazer” (excessivo para a autoconsciência), alienando-o — assim se introduz a referência de Sócrates aos quatro tipos de loucura: a Demência (exemplificada na esquizofrenia fingida do primeiro discurso[26] de Sócrates: teatral), a Profecia (exemplificada pela possessão da voz de Sócrates, narrando o mito da invenção da escrita, dedicando a sua voz aos deuses, como uma possessão oracular), o Amor (exemplificado pela tripla loucura amorosa de Lísias, Sócrates e Fedro, especialmente na loucura ciumenta de Sócrates, ameaçado pelo louvor a Lísias por Fedro, que estimula o drama) e o Poema (como forma radical de literatura[27]: forma radical de escrita: forma radical de expressão — tornando este texto metapoético, e poético: Escrito).

Esta última delação de Sócrates, sobre a artificialidade da escrita, reconduz-nos circularmente (retoricamente) para a primeira crítica desta: o simulacro escrito. A escrita simula (artificialmente) a vida, enganando o leitor, aproximando-o da morte, afastando-o da vida, da boca, do fôlego — como Derrida explana:

For it goes without saying that the god of writing must also be the god of death. We should not forget that, in the Phaedrus, another thing held against the invention of the pharmakon is that it substitutes the breathless sign for the living voice, claims to do without the father (who is both living and life-giving) of logos, and can no more answer for itself than a sculpture or inanimate painting, etc. (idem: 91, 92)

A droga (o “pharmakon”) “substitui” a vida, sendo a forma desesperada[28] de lidar com o trauma[29], de evadi-lo: evadindo-a, criando um novo mundo: substituindo Deus (o “logos”), colocando-se fora do poder Dele, saindo do mundo (como a “morte”), e recriando-o, com outra Razão (outra Lógica), já não ligando o sensível ao inteligível, como um intermediário, mas fundindo os dois: sentindo aquilo que se intelija. A “escrita” é assim blasfemadora[30], como, ostensivamente, são os textos heréticos que O alteram: como os textos de João Calvino ou Lutero[31]. A comparação da “escrita” à “escultura” e à “pintura” não é apenas descritiva: estas são obras de arte, novos absolutos: contra Deus[32]. Aliás, o deus central de cada religião separa-se repetidamente do reino da “morte”, como uma falha no poder desse deus-rei[33]: Zeus não domina Hades, Rá não domina Anúbis, até Deus não domina totalmente Satanás, cujo poder é inferior[34] a Deus, mas ambiguamente livre, reinando absolutamente no seu submundo[35]: o espaço da verdadeira “morte” (no Céu, revive-se, e reza-se), a verdadeira não-vida. A “escrita” “substitui o signo sem fôlego pela voz viva”: a “escrita” anima o morto (o “inanimado”), substituindo o “pai” (Deus), “dando vida” em vez Dele (roubando-lhe o poder), subvertendo a razão divina, subvertendo a Diferença entre vida e “morte” — coerentemente, esta substituição é ambígua: dupla, pois também a “voz viva” é substituída pelo “signo”, transformando-se neste; o fôlego também desaparece, sufocado pelos caracteres gráficos, num assassínio: sem a permissão (judicial) do “pai”. As semelhanças entre a “escrita” e a “morte” não se limitam a esta simbologia: “escrever” é morrer, é tomar consciência dessa inevitabilidade[36], é expor a mortalidade do humano, é manifestar a sua efemeridade na durabilidade da “escrita”.

A segunda crítica de Sócrates à escrita é a tirania (como a Morte: absoluta), seguindo servilmente a primeira crítica: a escrita é tirana porque não vive, não dialogando com o leitor, simplesmente se impõe através dos seus caracteres gráficos imutáveis, num monólogo. No entanto, Fedro também é manipulado por Sócrates, que impõe que o seu interlocutor leia o texto de Lísias, para, de seguida, o poder persuadir, para o pôr sob o seu poder. O próprio método socrático, dialógico, envolve uma contínua e subtil manipulação através de perguntas, direcionando o interlocutor para certas respostas, criando a ilusão de que o discípulo chega sozinho à conclusão, como esta fosse natural. Neste sentido, toda a comunicação é, mais ou menos, tirana: uma força, contra-atacada ou não, mas sempre exercida sobre o Outro, que se harmoniza, mais ou menos, forçosamente.

Em Derrida, a tirania da oralidade — a tirania inversa à delatada por Sócrates ­— manifesta-se no próprio rei do mito da invenção da escrita, rei dos deuses[37], que avilta ostensivamente o deus Thoth: “God the king does not know how to write, but that ignorance or incapacity only testifies to his sovereign independence. He has no need to write. He speaks, he says, he dictates, and his word suffices.” (idem, 76); “Deus” “não precisa de escrever”[38] (e, logo, não escreve), a sua voz já é imortal — só alguns dos seus profetas escrevem, enlouquecidos (inspirados) pela “palavra” divina: como a lessem. Desta forma, a escrita é a possibilidade do mortal conceber algo imortal, divino, igualando-se por um instante[39] a “Deus”: é o húbris original[40], do qual o castigo é a irónica ostentação da fragilidade (da mortalidade, da inferioridade) do humano na duração da sua escrita, dos seus pequenos caracteres gráficos, meros traços num papel, que duram até muito depois de o indivíduo morrer, que duram até muito depois de esse infinitamente complexo indivíduo se simplificar como vaga memória, ou mero nome, que duram até muito depois de qualquer memória ou registo de esse indivíduo ter desaparecido, e este ser esquecido (como também todos os outros indivíduos tivessem morrido), como este nem tivesse morrido (ou vivido).

A crítica seguinte de Sócrates (na voz do rei) à escrita é o seu carácter amnésico, facilitando de tal forma a aquisição de informação que a memória se definharia, como um músculo ocioso. Contudo, a escrita, quando utilizada com curiosidade, funciona como um sistema de anotações, fixando partes do presente para revisitações futuras, funcionando como auxiliar de memória, uma muleta para nós (os coxos: sem memória fotográfica) — tal como o deus Thoth, autor mítico da escrita, a entende, contra a opinião de Sócrates, autor deste mito da escrita. A própria metáfora de Sócrates “gravando na alma” (Platão, 2000: 127), descrevendo o bom discurso oral, é ambígua: Sócrates implicita que a escrita (gravação) dura, que não se esquece, tal como o bom discurso oral, metaforizado nela: análogo. Não só a escrita dura fisicamente, através da inscrição de caracteres que duram mesmo depois da morte do autor (como no caso de Sócrates, morto há mais de 2400 anos, ainda lido agora) e dos interlocutores, coetâneos, mas também dura através de uma presença na escrita, um estilo, uma particularidade, que ressuscita o autor em cada leitor, aparecendo-lhe, quase oral: quase de “viva voz” (idem, 128), como um fantasma. Essas palavras até poderão durar mais do que aquelas que se ouvem num discurso oral espontâneo, pois a escrita poderá ser ponderada, esculpida com o tempo, aperfeiçoada, manifestando o trio “do justo, do belo e do bom” (idem, 124) de forma superior às próprias possibilidades da oralidade, tão falível quanto os instintos humanos. Quantos textos escritos se gravam nas almas dos leitores, como os poemas aprendidos de cor: no coração, na alma[41]? E quantos desses textos não foram ponderados: escritos, parcialmente rasurados, e rescritos até atingirem o seu estado atual: duradouro porque artificioso?

A duração do texto[42], extrema na poesia, provém do seu carácter ditatorial[43], ditando-se na voz que lê, que canta, que relê (citando agora Derrida em Che cos’ è la poesia?):

Mesmo que de todo não pareça, pois desaparecer é a sua lei, a resposta vê-se ditada. Eu sou um ditado, profere a poesia, aprende-me de cor, recopia-me, vela-me e guarda-me, olha-me, ditada, sob os olhos: banda sonora, wake, traço de luz, fotografia da festa em luto. […] Ela vê-se ditada, a resposta, sendo poética. E, por isso, tendo de se dirigir a alguém, singularmente a ti, mas como se se dirigisse ao ser perdido no anonimato, entre cidade e natureza, um segredo partilhado, a um tempo público e privado, absolutamente um e outro, absolvido de fora e de dentro, nem um nem outro (Derrida, 2003: 5)

O poema (e a escrita metonimicamente) dirige-se singularmente a cada leitor, transformando-se pessoalmente através da leitura, marcada pelas experiências de cada um, tornando-se num objeto valiosíssimo para esses, que guardam o poema como este fosse morrer (“desaparecer é a sua lei”), tentando gravá-lo na sua memória[44] para o proteger do tempo — enquanto o contrário ocorre: o poema continuará escrito depois da morte dessa memória, reaparecendo a cada leitor devotado, que substitui todos os que leram e morreram. Toda a leitura é assombrada pela morte: “festa em luto”, celebrando o instante triunfante da “poesia”, enlutado pela consciência de que esse instante passa, só sobrevivendo uma “banda sonora” (o poema como canção), uma “fotografia” (o poema como contraste entre “luz” e escuridão, imagem total: “traço de luz” rasgando o tempo); estas representações tentam preservar o instante, como um “wake”, uma vigília por um morto, a presença intempestiva (e dolorosa: insone, como a morte fosse um sono hiperbolizado) homenageando o que se perdeu: absolvendo-se do pecado de ficar, de viver. Neste movimento, o leitor devota-se, torna-se anónimo (“perdido”), e decora o poema, que se grava nele, que o torna pura voz, virada para “dentro” (memorando-se, dirigindo-se a si mesmo, ao seu “segredo partilhado” com o poema) e para “fora” (recitada para os Outros, para eles o gravarem, para o protegerem da morte do recitador). O leitor-recitador ama o poema, e aprende-o “de cor”, gravando-o no coração, fundamentando o mais fundamental dos símbolos poéticos, a metáfora mais enraizada na língua: o coração amante.

De seguida, Sócrates critica a repetição eterna da escrita, que nunca responde às perguntas do leitor. No entanto, no próprio método socrático também nunca se dá as respostas às perguntas do interlocutor, apenas se coloca novas perguntas, tal como um texto escrito, que, em cada releitura, se reescreve, perguntando algo de novo ao leitor, sugerindo um novo texto: dando novos significados às leituras anteriores, que se multiplicam diferentemente: que nunca se repetem.

Esta multiplicação é um jogo (como mais um jogo de linguagem de Wittgenstein), como joga Derrida em Of Grammatology:

Here one must think of writing as a game within language. (The Phaedrus […] condemned writing pre­cisely as play — paidia — and opposed such childishness to the adult gravity [spoudè] of speech). This play, thought as absence of the transcendental signified, is not a play in the world, as it has always been defined, for the purposes of containing it, by the philosophical tradition (Derrida, 1997: 50)

A “escrita” não tenta conter (representar) “o mundo”: esvazia-o (ou, pelo menos, ostenta os seus vazios: desconstrói-o) e recria-o: apresentando um mundo Diferente, já não contido pelo transcendente, por Deus, pelo pai (“adulto”), grave, libertando-se criativamente Deste; este movimento não deixa uma carência, mas abre um espaço: uma potência, possibilitando os extremos da criação, agudos. Este “jogo”, este “teatro” (duplo significado de “play”), joga-se inocentemente: esquecendo “o mundo”, como uma criança, que não o tenta imitar, mas representar a sua imaginação nesse, como esse fosse um palco, contendo a criança os referentes mundanos, usados originalmente, como excêntricos vestuários para as personagens. “A tradição filosófica”[45], grave, paternal, tentou definir a “escrita” como “ausência”, sendo o trabalho da Desconstrução (de Derrida) mostrar que a “escrita” não pode ser contida por essa “tradição”, porque se liberta a cada instante, como cada “jogo” é sempre diferente do anterior: marcado no tempo e no espaço atuais, vigentes, absolutos: Agora e “Aqui”.

Pensando nesta Diferença: entre jogo e fixação (e gravação), entre multiplicação e singularidade, podemos responder à crítica seguinte de Sócrates: a omnipresença do texto escrito, que, não conhecendo e não escolhendo o leitor, não se relaciona diretamente (amorosamente) com este, não o tocando fertilmente para (pro)criar conhecimento. Na verdade, a propagação indiscriminada é, pelo contrário, uma vantagem para a fertilidade do texto escrito, que, ao não encontrar o leitor perfeito, se multiplica a cada leitura, sempre imperfeita, mas infinda, abrindo-se ao longo dos tempos. Aliás, o duplo final em “chave de ouro” (como um clímax, também retórico) — na palavra “comum” (Platão, 2000: 131) para a última fala de Fedro e na palavra “vamos” (ibidem) (na primeira pessoa do plural) para a última fala de Sócrates —, além de ostentar a literariedade do texto (e o seu carácter ponderadamente escrito: crescente: estruturado: não-espontâneo), também relembra que o escrito também é germinal para a conceção de uma comunidade cultural, inscrevendo-se numa memória coletiva (também escrita), como, por exemplo, o escrito Fedro se inscreve na memória coletiva do Ocidente, mais seguramente (profundamente) do que uma tradição oral, frágil como a memória de uma geração, tão frágil quanto violentas são as modas, amnésicas, da humanidade. Além disso a propagação do escrito também não é indiscriminada: o leitor transforma o texto com as suas experiências, e transforma o texto em algo necessário, algo que o procurou, algo que o tinha de procurar.

De seguida, Sócrates critica a fragilidade da escrita; que pode ser sempre atacada, e até desapossada, devido à ausência do seu autor, especialmente com o passar do tempo, e com a diversificação das suas leituras, por vezes cada vez mais afastadas do texto original. Esta ataque à escrita, contudo, inversamente, subentende um dos pontos fortes dela: a sua resistência ao tempo, a sua resistência à morte do autor (ao contrário da oralidade: de “viva voz” (idem, 128)), compensando a possível fragilidade enunciada. Além disso, também a oralidade é frágil: o discurso de Sócrates constantemente luta contra si mesmo: ataca-se e distingue-se, como o estilo paradoxal, tenso, de Sócrates fosse a sua própria singularidade, aquilo que faz com que o texto resista ao tempo, como evento textual único. O discurso oral pode ainda, exatamente como o discurso escrito, ser reinterpretado pelo ouvinte mais tarde, regravando-se na sua alma, conforme as suas experiências futuras, possivelmente corruptoras. Por outro lado, o escrito também tem mecanismos de defesa, pois outros leitores protegerão o texto, através das suas leituras fiéis, que contra-atacam quando comunicam com os leitores infiéis: os não-leitores, que corrompem o texto, quando aparentemente o descrevem ou o ponderam. Ostensivamente, Fedro, esse texto também sobre a força da oralidade, é frágil porque foi transcrito, porque durou: ainda hoje escrito, ainda contradizendo uma das suas próprias teses.

Esta durabilidade da escrita, esta luta contra a morte, ostentada belicamente, é a tensão, o desejo, que estimula o indivíduo a escrever (voltando a citar Derrida em Che cos’ è la poesia?):

Ouves a chegada da catástrofe. Desde então, impresso no próprio traço, vindo do coração, o desejo do mortal desperta em ti o movimento (contraditório, acompanha-me, dupla restrição, imposição aporética) de proteger do esquecimento esta coisa que ao mesmo tempo se expõe à morte e se protege (Derrida, 2003: 7)

Na escrita, a “morte” é invocada, desafiada e combatida: dramaticamente. Contudo, a contradição interna torna a escrita protagonista e antagonista, combatendo a “morte” e matando o leitor (e o escritor) inocente — pois escrever também é morrer, é escrever a mortalidade em nós, é saber[46] que todo o humano já morreu pouco[47] depois de nascer, é saber que o escrito vai durar mais do que nós. Pelo contrário, divididos na aporia, que tiranamente se impõe (forçando-nos a escrever), escrevemos para tentarmos sobreviver, para evitarmos o “esquecimento”, tentamos guardar a nossa voz para a posteridade — esquecemo-nos que escrever é já esquecer o mundo, é separarmo-nos dele, que escrever é acelerar a nossa morte, é protegermos somente “esta coisa”, que não é a nossa voz (oral); “esta coisa”: sem definição, que não conseguimos conter, mas que nos impele a protegê-la, mesmo sacrificando a nossa vida. Escrever é imortalizar o escrito, nunca o escritor — deste apenas dura “o desejo” que o escrito sobreviva, o medo provocado pela ameaça da “catástrofe”: a consciência da morte, a consciência que é escrever e que impõe escrever, esquecendo o indivíduo que também ele queria sobreviver.

Por último (como já tínhamos revisto), Sócrates acusa a escrita de artificialidade, de insinceridade, contra a espontaneidade, a naturalidade, da oralidade, sincera. É assim peculiar que ele exemplifique repetidamente o contrário: primeiro, obriga Fedro a ler Lísias, já que o último se encontra “presente” (Platão, 2000: 13) no pergaminho, contradizendo a própria ideia de que só existe presença do autor na oralidade e usando este novo pressuposto, agora vantajoso, para desconstruir o escrito de Lísias, que não pode responder; usando depois as técnicas de retórica que critica em Lísias para persuadir Fedro. Aliás, a quase-didascália “Vou cobrir a cabeça para falar” (idem, 36), antes de Sócrates começar o seu discurso retórico, apresenta a possibilidade de se fingir oralmente, e até de se mentir, de se colocar uma máscara (dissimulada ou ostensiva) para falar. Noutros momentos, ainda outros sofismas são usados: na crítica ao discurso de Lísias, este é discutido como fosse um exemplo de todos os textos escritos, generalizando características específicas desse texto; outras vezes, usando uma falácia ad hominem, Sócrates ataca os valores pessoais do discursador para desacreditar os seus discursos. Desta forma, Sócrates mostra que a presença pode ser usada para intensificar o engano, usando o amor da comunicação íntima como meio de traição, de persuasão, tornando o orador num ator, e possivelmente num sofista. Inversamente, nada impede de se escrever com toda a sinceridade, por exemplo, numa carta amorosa que escave o íntimo do autor, ou num testamento, já sem os habituais motivos para a insinceridade: publicado post mortem, sem a “viva voz” (idem, 128), demasiado preocupada com as possíveis respostas alheias.

Ultimamente, em Of Grammatology, Derrida desconstrói a questão da artificialidade da escrita, a questão da naturalidade da oralidade, reescrevendo a origem das duas:

[De acordo com o Fedro de Platão] Writing is the dissimulation of the natural, primary, and immediate presence of sense to the soul within the logos. Its violence befalls the soul as unconsciousness. Deconstructing this tradition will therefore not consist of reversing it, of making writing innocent. Rather of showing why the violence of writing does not befall an innocent language. There is an originary violence of writ­ing because language is first, in a sense I shall gradually reveal, writing. “Usurpation” [termo saussuriano] has always already begun. (Derrida, 1997: 37)

A “linguagem” é “primeiramente” “escrita”: a partir do momento em que a “escrita” foi inventada, a nossa forma de usar a “linguagem” mudou radicalmente, como uma nova invenção desta: como a linguagem pré-escrita e a “linguagem” pós-escrita não estivessem ligadas, como a “escrita” tivesse inventado a “linguagem”, e a oralidade “ocorresse azaradamente” (befall) depois. A “usurpação” “sempre” existiu, a oralidade “sempre” teve em si o desejo de se imortalizar, de resistir à morte, à memória, aos humanos, aos barulhos do mundo, e, por isto, a “escrita” foi inventada, por isto, antes da “linguagem”, os humanos desenhavam (caracteres?), tentando imortalizar uma pré-linguagem: o pensamento que neles corria. Na invenção histórica da “linguagem”, na necessidade de comunicar com o Outro, já se desejava a imortalização: tornar o indivíduo resistente à sua morte, passando uma parte sua para o Outro[48]; a “escrita” é a radicalização deste desejo — contudo, foi de tal forma radical que colocou a oralidade contra o desejo da “linguagem”: contra o próprio desejo da oralidade (a “usurpação” é, assim, também da oralidade, que tenta tirar o lugar “original” da “escrita” — como a “escrita” tenta, e consegue, usurpar a “alma”, o indivíduo, o mundo e Deus).

Regressamos então ao amor (ao desejo), à forma como Sócrates define a ligação mestre-discípulo[49]. Esta ideia didática percorre o texto, de tal forma que se torna parte do estilo de Sócrates, parte da singularidade que o torna autor (nem que seja um autor dentro do autor Platão, como um heterónimo pessoano dentro do “drama em gente”). Este estilo socrático, sistematizado no método socrático, apenas dura pela sua passagem à escrita, essencial para o carácter autoral de Sócrates; aliás, funcionando a oralidade analogicamente à escrita, como ensinamento que se concretiza diferentemente em cada discípulo, tal como o texto escrito se concretiza diferentemente em cada leitor. De igual forma, afirmar não-escrever, apenas andar (sendo tão difícil simultaneamente escrever e andar) e falar, é parte do seu estilo, metáfora da mobilidade do diálogo, contra a escrita, imóvel, ponderada, sentada. A sua voz, autoral, concretiza-se ainda na sua ironia singular: quando descreve Lísias como “presente” (Platão, 2000: 13), quando enuncia a Fedro um discurso para Fedro nunca mais lhe ler um discurso (ironicamente, Sócrates reconhece a autoria, a autoridade, de Lísias, submetendo-se ao autor: tirano). Todas estas características criam o autor Sócrates, gravando-o na memória dos discípulos, não por ser oral, mas por ser autor: singular (e pseudo-oral: mais uma parte da sua singularidade). Assim, o Fedro de Platão persiste, “gravando na alma” (idem, 127) dos leitores as mesmas palavras há quase 2400 anos, escolhendo os justos leitores (tal como Sócrates escolhia os seus discípulos), aqueles que o leem devocionalmente, amorosamente, aqueles que compreendem o texto, ignorando aqueles que meramente atravessam o texto com os olhos, e não o compreendem.

Considerada a bipolaridade[50] (oral-escrita) da autoria de Sócrates, coloca-se uma pergunta: a autoria é sempre escrita? Vejamos as palavras de Sócrates: “os nossos políticos mais vaidosos são justamente aqueles que fazem muitos discursos, que se dedicam à logografia, ansiosos de deixarem os seus escritos para a posterioridade” (idem, 82); é irónico (e coerente: tenso) que este mesmo desejo pareça mover Sócrates: Sócrates quer que a sua voz se grave na alma de Fedro, que fique para “a posterioridade”; ou seja, quer que o seu estilo dure, pois Sócrates sente vaidade deste (como fosse a verdade), ostentando-o a Fedro. Assim, poderia parecer que pode existir um estilo sem escrita; no entanto, isto apenas acontece numa inversão da relação da oralidade com a escrita (tal como na desconstrução de Derrida): a escrita deixa de ser a representação possível da espontaneidade da oralidade, e a oralidade passa a ser a tentativa de representar a ponderação da escrita — a oralidade passa a ser uma teatralização da escrita: através da prosódia, dos gestos, da retórica, tornando a oralidade numa mera metáfora da escrita, um estilo que inverte singularmente a origem da escrita e da oralidade, criando uma singularidade estilística, um autor: Sócrates (tal como Derrida narra outra origem da escrita e da oralidade).

Bibliografia:

– Derrida, Jacques (1981), Dissemination, trad. Barbara Johnson, Chicago, University of Chicago Press.

– Derrida, Jacques (1997), Of Grammatology, trad. Gayatri Chakravorty Spivak, Baltimore e Londres, The Johns Hopkins University Press.

– Derrida, Jacques (2003), Che cos’ è la poesia?, trad. Osvaldo Manuel Silvestre, Coimbra, Angelus Novus, Editora.

– Platão (2000), Fedro ou Da Beleza, trad. Pinharanda Gomes, Lisboa, Guimarães Editores.

  1. Consideremos que Platão assina antes do corpo do texto, como numa capa de um livro.

  2. Tal como Pessoa, para completar a sua poesia, inventa o próprio mestre.

  3. Duplamente indireta: ficção Doutro.

  4. Diretíssima: uma ficção é a sua própria origem: transcreve-se.

  5. Os recitadores das rapsódias são neutros: não-autorais; mas os rapsodos problematizam a sua autoria, ora recitando, ora recriando-as (reescrevendo-as, metaforicamente).

  6. Convenientemente, Fedro ainda não decorara o discurso de Lísias.

  7. Considerando o texto ficcional, note-se a paródia (literária) do estilo de Lísias (também personagem histórica).

  8. Mascarando o seu amor por Fedro, como um jogo de sedução.

  9. A palinódia (a retração do argumento anterior) ostenta a literariedade do texto, a sua desconstrução de normalizações linguísticas, subvertendo a aparente sequencialidade das frases: rasurando-as e reescrevendo-as, enquanto se escrevem: uma autocrítica hiperbólica: literária, e metaliterária.

  10. Texto literário dentro do texto: metaliterário (e literário).

  11. Socraticamente, já a Retórica se fundira antes com a Didática.

  12. E não para a inverdade — Derrida (através da sua tradutora, Barbara Johnson) não usa o termo “untruth”, mas “nontruth”, como não usa “unknowledge” (desconhecimento), mas “nonknowledge”, enfatizando a negação dos termos (usando a palavra “não”, em vez de um outro prefixo com significado possivelmente igual, mas, assim, menos enfático, por possivelmente não ser pura negação): a simetria, que não é uma carência, mas uma abertura no sentido contrário.

  13. A vida multiplica-se, infinita, no “etc.”, que subentende reticências — a “morte” finda em pontos finais: duas vezes depois de “não-conhecimento”, uma vez depois de “não-verdade” e outra vez depois de “negativo”.

  14. “Writing” tem três traduções possíveis, tendo triplo significado em inglês: como nome, é “escrito”, fixa-se, é “morte”; como verbo, é “escrever”, move-se, é vida, ação; como nome da ação é “escrita”, jogando com a vida e com a “morte” — “simultaneamente”.

  15. Somente “no seu tipo”: sem “tipo”.

  16. A palavra “alma” (“soul”) provém do latim “anima”.

  17. O ensaio “Plato’s Pharmacy” encontra-se no livro Dissemination, com outros ensaios de Derrida.

  18. A grafia como “simplesmente” mais um sistema semiótico.

  19. A palavra “mime” é complexamente ambígua neste excerto: é o nome de um género de drama grego: uma farsa paródica (como o discurso de Lísias); assim como é a “mímica”: a expressão de ideias sem recurso a palavras: metaforizando a grafia através de um antónimo, tornando a “translação” (da metáfora) o mais extensa possível — adicionalmente, a “mímica” é o que imita e não, reforçando a necessidade do elemento prefixal “não” na negação dos “domínios” “positivos”.

  20. O contrário do “remédio” (ibidem) que o deus Thoth, criador (escritor, autor) da escrita, prometera.

  21. Como o hábito de um viciado.

  22. Como uma carta de amor é estimulada.

  23. A importância da escrita na magia (nos livros de encantamentos, nas palavras mágicas) é aqui sugerida: misteriosa, antiga (perpétua), eticamente ambígua, tal como a escrita, tal como o amor — cujos rituais funcionam aos pares: entre amado e amante, entre escrito e leitor, entre encantador e encantado.

  24. Absortamente, o próprio Derrida parece, contra o próprio texto (ambiguamente, bifurcadamente: apropriado ao próprio texto: linearmente: contra o próprio texto, etc.), tender para a leitura positiva de “pharmakon”, usando a palavra “virtude”, manifestamente positiva — ainda desconstruindo o sentido cristão da palavra, usando-a para descrever a bruxaria, hiperbolicamente blasfemadora: não havendo dito mais sacrílego do que o de um feitiço.

  25. O caso extremo deste fenómeno é a apropriação dos termos nietzschianos pela ideologia nazi.

  26. Em relação ao segundo discurso: socrático.

  27. Tal como o Teatro.

  28. A morte é não esperar.

  29. A desconstrução do uso de drogas talvez possa começar por uma famosa citação de Tom Waits: “A realidade é para as pessoas que não conseguem lidar com as drogas”.

  30. Sendo fundamental para o Islão que o profeta Maomé tenha decorado o Corão, e nunca o tenha escrito. Coerentemente, podemos pensar na fatwa a Salman Rushdie pelo romance (literário: Escrito) Os Versículos Satânicos — o próprio nome do seu presumível movimento literário (o Realismo Mágico) é já blasfemador: criando uma nova Razão (mágica, satânica) para o mundo.

  31. Note-se também na relutância histórica da Igreja Católica em permitir traduções da Bíblia, pois traduzir, transcrever para outras línguas, é subverter Deus, é reinterpretá-Lo.

  32. Note-se ainda que o Islão proíbe a representação do profeta Maomé: a sua transformação em imagem: a sua subversão.

  33. A omnipotência de Deus, o nosso terror omnipresente, parece desaparecer depois da “morte”, quando a nossa eternidade já ficou decidida.

  34. Também geograficamente.

  35. Subterrâneo: oculto, tal como a “escrita”: silenciosa.

  36. Tomar (como uma droga) consciência da “morte” é começar a morrer, é começar a sentir os efeitos desta.

  37. Ostensivamente tirano.

  38. A apresentação do cognome de “Deus” sem pontuação (“God the king” em vez de “God, the king(,)”) oraliza a escrita, representando estilisticamente a divina incapacidade de escrever.

  39. O instante em que o indivíduo é aquilo que concebe, em que se esquece na escrita: sendo-a.

  40. A maior blasfémia possível: a vaidade extrema — o recorrente instigador das tragédias gregas.

  41. Rememorando, de cor: sem citar bibliograficamente (por agora), Derrida em Che cos’ è la poesia?.

  42. A sua gravação na alma do leitor.

  43. Derrida desconstrói a noção de “pontos fortes” ou “pontos fracos” da escrita: cada ponto é essencial para a existência de todos os outros, como a loucura é necessária para a criação do sublime.

  44. Desesperadamente: sendo a memória tão vaga e o poema tão preciso.

  45. Pelo menos desde a sua origem socrática-platónica.

  46. Pela História (escrita), pelos obituários (escritos).

  47. Relativamente à História.

  48. Que este desejo não se cumpra: que o Segredo de cada um não passe para o Outro, quer na oralidade, quer na “escrita”, não apaga o desejo, pelo contrário: aumenta-o, torna-o mais violento — por muito violenta que seja a “escrita”: matando o mundo (e o leitor, e o escritor), o desejo louco de o escritor se tentar imortalizar não desaparece.

  49. Enfatizando a origem etimológica da Filosofia: o amor pelo conhecimento.

  50. Também o Amor é bipolar, até nas relações amorosas polígamas: que multiplicam os pares amorosos.

Roger Dubuis: A Ascensão de um Império Relojoeiro pela Visão de Carlos Dias

Carlos Dias

O Instituto Português de Relojoaria apresenta regularmente histórias relacionadas com os portugueses no mundo da relojoaria. Entre elas há uma que é impossível de contornar: a da Roger Dubuis, companhia que, sob a visão estética e empresarial de Carlos Dias, se expandiu de uma modesta equipa de três para uma empresa robusta de 350 colaboradores.

Há alguns anos atrás, a indústria relojoeira suíça acolheu um novo nome que rapidamente se tornou sinónimo de luxo e ousadia estética. Carlos Dias, um empreendedor nascido na pacata vila de Águeda, Portugal, fundou a Roger Dubuis, uma marca que hoje é um ícone global. O sucesso meteórico deste fabricante de relógios reflete não só o engenho técnico mas também uma compreensão perspicaz das tendências fashion.

Carlos Dias

Trajetória de Um Fundador

O percurso de Carlos Dias é tão fascinante quanto os relógios que a sua companhia criava. A paixão pela mecânica foi herdada do pai, uma influência que o acompanhou da infância até à fundação da sua própria marca. Dias, que inicialmente sonhou com o estudo das ciências económicas, escolheu o exílio em vez de uma vida sob a sombra da ditadura de Salazar. A Revolução dos Cravos encontrou-o em Paris, onde a sua jornada de autodescoberta e inovação realmente começou.

Roger Dubuis

A Ousadia de Roger Dubuis

Corria o ano de 1980 quando Roger Dubuis, um jovem artífice que havia aprimorado o seu ofício na Patek Philippe, decidiu trilhar o seu caminho em solo próprio. Já na casa dos quarenta, o seu atrevimento levou-o a desenhar complicações sob encomenda das marcas mais prestigiadas. Mas seria apenas em 1995, ao unir forças com Carlos Dias, ex-colaborador de Franck Muller, que fundaria a aclamada Roger Dubuis Horloger Genevois.

A Fuga e o Renascimento

O caminho de Dias foi pontuado por uma série de reviravoltas. Desde empregos modestos em França à gestão de uma cadeia de hotéis, onde se distinguiu pela excelência, até à aventura no design de mobiliário na Itália, que mais tarde o conduziu ao universo da moda. Cada uma destas etapas foi crucial para a formação do esteta e do empresário que viria a revolucionar a relojoaria suíça.

Genebra: O Berço de um Sonho

A paixão pela relojoaria foi um fio condutor na vida de Dias. Este fascínio desabrochou desde cedo com um simples relógio de bolso do avô e foi crescendo até se transformar num empreendimento que desafiaria as normas estabelecidas. Ao associar-se inicialmente com Franck Muller e depois ao lançar a sua própria marca, Dias trazia consigo uma visão que casava a excentricidade com a elegância. Lentamente, a marca construiu a sua reputação, concebendo obras-primas complexas que surpreendiam os mais exigentes conhecedores. Grandes complicações e inovações tecnológicas tornaram-se a assinatura da casa, produzidas em quantidades limitadíssimas, mas sempre celebradas pela sua beleza e engenho

Poinçon de Genève

O prazer que Roger Dubuis retirava de superar as adversidades levou-o a procurar o Poinçon de Genève não apenas para alguns, mas para todos os seus relógios. Uma garantia de que um relógio foi rigorosamente verificado quanto à durabilidade, qualidade de construção e consistência, e de que foi engendrado pela herança e tradição suíças inteiramente em Genebra.

Com o Selo como prova de sua mestria, a Roger Dubuis emergiu como uma figura de proa no mundo da relojoaria. Em cada feira de relógios, coleccionadores aguardam, com expectativa, pelo menos um novo calibre revolucionário. Em 2005, a marca celebrou o seu décimo aniversário com o Excalibur RD01, equipado com um duplo turbilhão e ponteiros retrógrados, precursor de outros modelos vanguardistas como o Velvet Secret Heart.

Roger Dubuis – Quatuor de 2013 – o relógio turbilhão sem turbilhão

Quem poderia esquecer do Excalibur Quatuor de 2013? Os seus quatro balanços interligados por cinco diferenciais distribuem o efeito da gravidade por quatro planos, valendo-lhe a alcunha de ‘o relógio turbilhão sem turbilhão’.

Roger Dubuis – Easy Diver

O Easy Diver da Roger Dubuis foi o primeiro relógio desportivo a incorporar um turbilhão e a cravar um diamante numa luneta de borracha. As incursões do atelier são destacadas por peças como o Velvet Amethysts And Spinels, mas também impressionam com proezas de engenharia como o Excalibur Perpetual Calendar Minute Repeater Tourbillon de 2007.

Da Expansão Acelerada à Aquisição pela Richemont

A empresa de Carlos Dias cresceu de forma rápida e imprudente, culminando na construção de uma enorme fábrica em Meyrin, nos arredores de Genebra, em 2001, que foi expandida em 2004 para mais de 13935 metros quadrados. Esta expansão foi impulsionada pela obsessão de Dias em fabricar relógios internamente, levando a empresa a adquirir os direitos de fabrico dos movimentos cronógrafos Lemania cal. 2310 e a estabelecer a sua própria oficina de esmalte, gerida por Dominique Baron (que mais tarde se tornou chefe de esmalte na Stern Creations mas faleceu em 2012).

Antes da recessão de 2008, a empresa, renomeada para Manufacture Roger Dubuis, orgulhava-se de quase trinta calibres próprios, incluíndo um exótico duplo turbilhão e um movimento cronógrafo de oito dias. Contudo, a maioria dos calibres tinha problemas funcionais devido à expansão acelerada. Após investimentos de cerca de 150 milhões de francos suíços e enfrentando uma procura decrescente devido à falta de fiabilidade dos seus relógios, a empresa endividou-se e começou a perder dinheiro, resultando na demissão de metade dos funcionários e na pressão do banco Credit Suisse para recuperar o seu investimento. Dias realizou uma saída apressada mas rentável em 2008, vendendo a sua participação de 60% na empresa para o grupo Richemont por um valor estimado em 150 milhões de francos suíços (os restantes 40% pertenciam a Akram Aljord, nascido na Síria e distribuidor da Cartier em Dubai, que vendeu a sua quota à Richemont em 2016).

Como retorno do seu investimento de nove dígitos, a Richemont adquiriu uma fábrica massiva com capacidade para produzir quase todos os componentes de um movimento de relógio, inclusive a espiral do balanço. Na época, muitos especialistas do setor especulavam que o conglomerado de luxo suíço tinha comprado a Roger Dubuis mais pela sua capacidade de produção do que pelo nome da marca. Uma boa parte dessa capacidade produtiva foi redirecionada para outras marcas da Richemont, incluíndo a Cartier, e a Roger Dubuis passou por uma reestruturação completa. Todos os movimentos produzidos internamente foram reengenheirados e a maioria descartada.

Roger Dubuis, contudo, mostrava-se satisfeito com a atenção e falava com entusiasmo da reviravolta que a Richemont promoveu na empresa. Hoje, a Roger Dubuis factura cerca de 50 milhões de francos suíços por ano, produzindo aproximadamente 5000 relógios, e tende a canalizar o espírito de Carlos Dias, em vez do do falecido Roger Dubuis, cuja visão efémera mas gloriosa da relojoaria de Genebra poderá, quem sabe, ser ressuscitada no futuro por outro empreendedor ambicioso.

O Futuro de Carlos Dias

Num movimento que espelha a sua visão empreendedora e o seu laço sentimental com a terra natal, Carlos Dias dedicou-se à vitivinicultura, ampliando assim o seu império através da aposta em produtos de alta qualidade que prometem levar o nome de Portugal mais além. Dias não esconde o seu amor pela Bairrada, a região que o viu nascer e que agora serve de palco para o seu mais recente investimento vitivinícola.

O Vinho e a Bairrada: Uma ligação Pessoal

Carlos Dias compara o terroir bairradino aos melhores solos de Bordeaux, região que o cativou há anos. A sua aspiração é elevada: alcançar o reconhecimento mundial dos vinhos da Bairrada, à semelhança do que fez com os relógios na Suíça.

Uma Diversidade de Produtos Premium

Não é só de vinho que se faz o portfólio actual de Dias. Em colaboração com Gianni Capovilla, uma destilaria especializada foi criada para o desenvolvimento de destilados de bagaço e frutas. Há também o presunto Pata Negra do Alentejo e queijos finos a caminho. Carlos Dias acredita que o vinho português sofre de falta de reconhecimento internacional. Para ele, o caminho para o sucesso global passa por Portugal afirmar a qualidade e unicidade dos seus vinhos e investir na promoção e visibilidade dos mesmos.

Dias é um exemplo de como a paixão pelas raízes e pela qualidade pode transpor fronteiras e criar uma marca de prestígio global. Seja no campo dos relógios de luxo ou nas vinhas da Bairrada, a sua filosofia de negócios mantém-se consistente: busca por excelência, desafio e inovação. Com uma visão que se estende para além dos vinhos – abrangendo destilados, presuntos e queijos de alta qualidade – Dias constrói um legado que promove não só o seu sucesso empresarial, mas também a riqueza e diversidade dos produtos portugueses. Enquanto se aventura por novos territórios e mercados, o empresário leva consigo um pedaço de Portugal, compartilhando com o mundo os sabores e a tradição da terra que o viu nascer.

A história de Carlos Dias e da Roger Dubuis é uma inspiração para todos nós. Mostra que, com talento, paixão e um pouco de coragem, é possível deixar uma marca indelével no mundo – uma marca que não é medida em horas, minutos e segundos, mas na alegria e admiração que cada criação única traz.

Comunicação intercultural: cultura, representações sociais e desafios comunicacionais

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Introdução

A globalização fomentou o contato intercultural num nível que antes não seria possível. Em cada encontro entre indivíduos, não apenas duas pessoas se encontram, mas duas culturas interagem. Pela cultura que cada pessoa carrega, é possível interpretar o mundo que a envolve, sendo, inclusive, positivo o encontro de pessoas de culturas diferentes, porém nestes encontros podem surgir problemas comunicacionais, mesmo que as duas pessoas falem a mesma língua.

Neste sentido, mais do que desenvolver sensibilidade intercultural, é necessário fomentar a inteligência intercultural em cada pessoa, especialmente, considerando que são os referenciais culturais próprios e representações sociais que nos auxiliam a interpretar os conteúdos de mensagens de outras pessoas.

Propõe-se assim tratar conceitos como cultura, representações sociais e estereótipos de modo a desenvolver uma reflexão sobre comunicação intercultural, na qual se aborda a improbabilidade da comunicação, fazendo referência a Luhmann, e, por fim, apresentar medidas que podem melhorar o contato intercultural, nomeadamente, a comunicação e a desconstrução de estereótipos.

Cultura, representações sociais e estereótipos

Todos os indivíduos nascem no seio de uma cultura, sendo socializados nela e reproduzindo essa mesma cultura. A cultura é o referencial a partir do qual os indivíduos percebem e se movimento no mundo repleto de significados partilhados.

O conceito de cultura é polissémico, na medida em que apresenta diferentes definições, o que também se reflete nas diferentes ciências sociais. A profusão é tão vasta que Kroeber e Kluckhon (1952), identificaram mais de 150 definições. Tylor (1920, p. 1), a define como “conjunto complexo que inclui conhecimento, crenças, arte, moral, lei, costumes e muitas outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade”[1]. Cultura é, na aceção de Tylor, o que nos torna humanos, distinguindo-nos dos seres que vivem subjugados aos elementos deterministas da Natureza. Ou seja, atitudes, comportamentos ou símbolos que são partilhados por um conjunto de pessoas, define, de uma maneira ampla, cultura.

Em função dos referenciais culturais, os indivíduos criam representações sociais. As representações sociais são entendidas como “sistemas de pensamento mais largos, ideológicos ou culturais” (Cabecinhas, 2004a, p. 3), caraterizando-se por serem “versões hiper-simplificadas da realidade” que não refletem verdadeiramente a realidade (Cabecinhas, 2004b, p. 3). Assim, as representações são um conhecimento prático que permite ao indivíduo simplificar a realidade social, considerando que são amplamente partilhadas por vários indivíduos e servindo de “guias para a comunicação” (Vala, 1993, apud Cabecinhas, 2004b, p. 3), na medida em que permitem ao indivíduo interpretar e orientar o comportamento individual em função do Outro.

As representações sociais tendem a criar e reproduzir estereótipos. À semelhança do que sucede com as representações sociais, os estereótipos também se apresentam enquanto simplificações da realidade e de pessoas de outros grupos sociais (Lippmann, 1998, p. 80). Deste modo, pessoas de determinados grupos são todas encaradas como homogéneas e portadoras individualmente das caraterísticas de todo um grupo e, havendo algum elemento que seja visto como não incorporando as caraterísticas e ele imputadas, é encarado como uma exceção.

Por exemplo, nalguns grupos da sociedade portuguesa existem estereótipos criados que envolvem pessoas da etnia cigana. Alguns destes estereótipos os categorizam como pessoas que não querem ou não gostam de trabalhar. As pessoas que afirmam estes estereótipos não possuem dados empíricos que corroborem aquela afirmação, contudo, a generalizam a toda uma etnia. Se se encontrarem com um elemento desta etnia e a observarem a trabalhar, isso não irá desconstruir o estereótipo que possuem, mas apenas o definirem como uma exceção ao que eles consideram ser a realidade.

Comunicação intercultural

Este campo de estudos tem sido estudado sob quatro prismas diferentes: comunicação intercultural, comunicação transcultural, comunicação internacional e comunicação comparada de massas (Gudykunst, 1987, p.  848 apud Rodrigo Alsina, 1999, pp. 25–26). A comunicação intercultural baseia-se na comunicação entre povos com sistemas culturais (ou subsistemas) diferentes; a comunicação transcultural procura comparar formas de comunicação interpessoal entre diferentes culturas; a comunicação internacional, remete para os estudos internacionais e aos meios de comunicação de massas e, por último a comunicação comparada de massas procura analisar o tratamento que um mesmo evento é retratado em diferentes meios de comunicação.

A comunicação intercultural assenta em duas formas comunicacionais: verbal e não verbal. Todavia é a vertente não verbal que assume uma preponderância maior (Schröder, 2008, p. 39) e que pode conduzir à maior probabilidade de desentendimentos comunicacionais (o mesmo sucedendo à comunica). Por exemplo, uma pessoa que tenha sido educada no contexto cultural japonês pode encarar como rude uma pessoa que gesticule bastante enquanto comunique, enquanto uma pessoa que tenha sido enculturada numa sociedade na qual a ausência de gesticulação possa ser considerada como alguém que comunique de forma pouco entusiástica e sem interesse.

Luhmann (1999, pp. 42–43), identifica três improbabilidades da comunicação: isolamento da consciência individual, difusão e a seleção do sentido pelo recetor da mensagem. Assim, significados de uma mensagem podem diferenciar-se em função do número de pessoas que a recebem, que varia em função do contexto social e experiência da pessoa, ao que se pode acrescentar a seletividade que cada pessoa interpreta essa mesma mensagem, dificultando a compreensão completa de uma mensagem. Assim, quando duas pessoas comunicam, é realizado um trabalho individual de tradução pelo recetor de uma mensagem, que é realizada com recurso à experiência individual e referenciais culturais, com um significado atribuído pelo emissor da mensagem que pode não ser inteiramente compreendido.

As representações sociais e estereótipos podem, igualmente, influenciar na forma como se desenvolve a comunicação intercultural, especialmente considerando as generalizações acerca de um outro grupo, levantando barreiras comunicações. Assim, o desenvolvimento de sensibilidade intercultural através da alteridade e inteligência cultural permitem que algumas das barreiras sejam diminuídas.

O conceito de alteridade opõe-se ao conceito de etnocentrismo. O etnocentrismo carateriza-se pela avaliação e hierarquização de outras culturas e grupos pelos princípios e valores da minha própria cultura (Eriksen, 2010, p. 10; Neto, 2004, p. 112), enquanto a alteridade remete para a capacidade de poder observar o mundo através das lentes do Outro, o que pressupõe igualdade e relatividade de valores.

A inteligência cultural carateriza-se como uma habilidade individual que se repercute na forma como o indivíduo atua num meio cultural diferente (Ang et al., 2007, p. 337). Devido à globalização e, no caso dos países Ocidentais economicamente mais desenvolvidos, com o acolhimento de migrantes e refugiados, a aquisição e sensibilização para estas caraterísticas tornam-se cada vez mais prementes, sob pena de as sociedades se fecharem, por incompreensão do Outro ou de uma simplificação do Outro com base em estereótipos e preconceitos.

A aquisição de competências intercultural, especialmente no domínio da comunicação, passa, primeiro, pela realização de um autodiagnóstico que permita conhecer o nível de influência cultural nos comportamentos e atitudes (Ramos, 2011, p. 196). Este primeiro diagnóstico permite iniciar a desconstrução de estereótipos e representações sociais acerca do Outro, ao mesmo tempo que alerta o grau de etnocentrismo, permitindo desenvolver a sensibilidade intercultural. Por outro lado, só é possível compreender o que se conhece, e nesse sentido, a participação em ações pedagógicas e de contato com pessoas de culturas diferentes.

Sabendo que no processo comunicativo a probabilidade de se produzirem mal-entendidos, com base nos repertórios culturais individuais, das representações sociais e estereótipos que se criam pela pertença a um grupo social, mas também da experiência individual, torna-se necessário enfrentar os desafios comunicacionais de forma consciente e proativa.

Considerações finais

À medida que o mundo se torna mais interconectado e a realidade multicultural tem se apresentado como uma realidade, a comunicação intercultural torna-se essencial para um convívio, não apenas harmonioso, no qual se diminui a discriminação, mas também produtivo, considerando que os locais de trabalho agregam pessoas de contextos culturais diferentes.

Assim, a cultura, os estereótipos e as representações sociais assumem um papel significativo no modo como os indivíduos comunicam e interpretam as mensagens que recebem, podendo surgir situações de mal-entendidos ou barreiras.

Promover a inteligência cultural e fomentar a sensibilidade intercultural, através da promoção da alteridade, são formas de fomentar o respeito, compreensão, como também a empatia entre grupos culturais diferentes, considerando que o recurso a simplificações baseadas em conhecimentos incompletos acerca do Outro são minimizados. Por outro lado, o desenvolvimento de habilidades interculturais permitem que a sociedade se torne mais inclusiva e colaborativa, reduzindo barreiras culturais e fomentando a integração social harmoniosa.

Referências bibliográficas

Ang, S., Van Dyne, L., Koh, C., Ng, K. Y., Templer, K. J., Tay, C., & Chandrasekar, N. A. (2007). Cultural intelligence: Its measurement and effects on cultural judgment and decision making, cultural adaptation and task performance. Management and Organization Review, 3(3), 335–371. https://doi.org/10.1111/j.1740-8784.2007.00082.x

Cabecinhas, R. (2004a). Representações sociais, relações intergrupais e cognição social. Paidéia, 14(28), 125–137. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-863X2004000200003&lng=pt&tlng=pt

Cabecinhas, R. (2004b). Processos cognitivos, cultura e estereótipos sociais. Actas do II Congresso Ibérico de Ciências da Comunicação. https://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/1650

Eriksen, T. H. (Ed.). (2010). Ethnicity and nationalism: Anthropological perspectives (3a ed). PlutoPress.

Kroeber, A. L., & Kluckhohn, C. (1952). Culture: A critical review of concepts and definitions. The Museum.

Lippmann, W. (1998). Public opinion. Transaction Publishers.

Luhmann, N. (1999). A improbabilidade da comunicação (2a ed). Vega Limitada.

Neto, F. (2004). Psicologia social das migrações. Em F. Neto, Psicologia social aplicada (pp. 81–117). Universidade Aberta. https://elearning.uab.pt/mod/resource/view.php?id=894247

Ramos, N. (2011). Educar para a interculturalidade e cidadania: Princípios e desafios. Em L. Alcoforado, J. A. G. Ferreira, A. G. Ferreira, M. P. de Lima, C. Vieira, A. L. Oliveira, & S. M. Ferreira, Educação e formação de adultos: Políticas, práticas e investigação (pp. 189–200). Imprensa da Universidade de Coimbra. https://doi.org/10.14195/978-989-26-0228-8_16

Rodrigo Alsina, M. (1999). Comunicación intercultural. Anthropos.

Schröder, U. (2008). Comunicação intercultural: Uma desconstrução e reconstrução de um termo inflacionário. Cadernos de Linguagem e Sociedade, 9(1). https://doi.org/10.26512/les.v9i1.9259

Tylor, E. (1920). Primitive culture: Vol. I (6a). https://archive.org/details/primitiveculture01tylouoft/page/n17/mode/2up

  1. Tradução livre do original: “Culture or civilization, taken in its wide ethnographic sense, is that complex whole which includes knowledge, belief, art, morals, law, custom, and any other capabilities and habits acquired by man as a member os society”.

Conversa: Autoras Portuguesas do Século XIX com Ana Paula Santos

Nesta conversa, falamos sobre as várias mulheres portuguesas que, no século XIX, deram o seu contributo ao mundo das letras.

Da normalização do “activismo” vândalo sobre obras de arte

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A brincadeira algum dia teria de acabar mal. Por brincadeira referimo-nos à recente moda, absolutamente primitiva, animalesca e cultista da ignorância, de danificar obras de arte em protesto. Se frequentemente as mesmas se encontram, em museus, por detrás de vidros protectores, que impedem que os típicos ataques de tinta não as desifgurem irreversivelmente, hoje não foi assim. Hoje, no Trinity College, em Cambridge, Reino Unido, manifestantes pró-palestina destruíram a pintura de Lord Balfour, primeiro-ministro inglês do início do passado século responsável por uma declaração a favor de um estado judaico. Destruíram-na não só com tinta mas também a golpes de faca, parcelando-a e deixando a sua recuperação em tons muito duvidosos. É este o destino das brincadeiras abusivas das “crianças”: deixa-se abusar, e as mesmas esticam a corda até partir e até chegar ao ponto em que o ensaio de dano se torna dano irreversível. Para o “activista” protestante, educado no fanatismo e na neurose, nada mais existe além “da causa”, seja a palestina, o ambiente ou o mundo em geral. E um neurótico sob ameaça existencial é capaz de tudo, até da ameaça à vida humana. Tivemos hoje assim a consequência, resultando em algo que no mundo ocidental é um abuso grave: a destruição de património cultural e artístico. Partilham com outros “activistas” noutras partes do mundo e da história semelhantes comportamentos: os Taliban, incorrigíveis iconoclastas, e o regime nacional-socialista alemão, notórios psicopatas avessos a manifestações de cultura estranha à sua. Pedimos assim a quem deixou que a brincadeira continuasse, entendendo que não era assim tão grave, tenha agora vergonha. Entre esses incluímos o poder político, os apologias do “activismo” extra-legal e extra-moral, a comunicação social e todos os que vêem em adultos de vinte e muito anos uma espécie de crianças rebeldes à descoberta do mundo ao invés dos embriões de psicopatas que realmente são. Fica para reflectirem, em jeito de nota editorial, com sadios e francos desejos de um bom fim-de-semana para todos.

Crítica: Estudos Comparados em “Viagem à Petrópolis”, C. Lispector e “O homem mais magro de Luanda”, Ondjaki

Texto de Estéfany Melo de Lima e Pablo Ítalo Moura Anchieta

Esse ensaio visa discutir particularidades internas aos contos “Viagem à Petrópolis” e “O homem mais magro de Luanda”, expondo as ideias acerca da composição dos textos literários e como eles podem se relacionar, trazendo aspectos semelhantes e discrepantes nas histórias, assim como se constrói a narrativa em cada uma delas.

As narrativas dos contos relacionados trazem aspectos intrigantes acerca da visão dos narradores à Mocinha (protagonista de “Viagem à Petrópolis”) e ao Val (protagonista de “O homem mais magro de Luanda”), onde ambos são caracterizados como pessoas magras, silenciosas, misteriosas e que causam certa estranheza no leitor, visto que ambos são personagens comuns, não muito valorizados pelos demais personagens em ambas as histórias. Tornou-se instigante a análise comparativa de dois contos que, mesmo tão distintos em narrativa, possuem personagens que compartilham de características semelhantes, e que por isso, sua comparação é evidentemente conveniente ao estudo.

Em “Viagem a Petrópolis” de Clarice Lispector, Mocinha, uma senhora, vive “de favor” na casa de estranhos que, cansados de sua estadia, optam por mandá-la para Petrópolis, onde viveria a partir de então com seus familiares. Clarice em seu livro A legião estrangeira, coletânea de contos de temas variados, aborda questões familiares, infantis e a solidão, sendo um deles “Viagem à Petrópolis”. Clarice permeia reflexões existenciais com maestria em sua obra, com domínio singular das palavras, ela transmite emoções em seu conto que trazem o leitor para dentro da história. Grande romancista, pertence à terceira geração modernista, tem A hora da estrela como uma de suas obras mais famosas.

“O homem mais magro de Luanda”, de Ondjaki, tem como tema a festa do tio do protagonista, regada de cerveja e pessoas alcoolizadas que tem como peripécia a presença inesperada de Val, o dito homem mais magro de Luanda, visita essa que surpreenderia o tio e viria a instigar o protagonista. Ondjaki em seu livro Os da minha rua, coletânea de 22 contos que remetem a infância do autor, é um livro em que os contos podem ser lidos individualmente ou em formato de romance. Escrito em primeira pessoa, há a presença de elementos brasileiros nos contos que exprimem a sua influência na cultura angolana, como a referência ao cantor Roberto Carlos e a novela “Roque Santeiro”. Ondjaki escreveu belas histórias em seus contos, sempre trazendo a perspectiva curiosa de Ndalu, a personagem principal, sobre sua vida cotidiana e todos os acontecimentos presentes em suas vivências, que não são incomuns em “O homem mais magro de Luanda”. Ganhou em 2017 o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco pela sua obra Os da minha rua.

O conto “Viagem a Petrópolis”, inicia com a descrição das características físicas e emocionais da protagonista Mocinha, retratando como ela era velha, vivia e dormia de favores na casa de estranhos. Mesmo não dando despesa, não comendo muito, e dormindo em pequenos espaços, continuava sempre sendo grata. Essa dependência ocorre uma vez que seus parentes mais próximos já haviam morrido, o fato de que já é velha e fraca fez com que a família que a acolheu decidisse mandá-la para Petrópolis juntamente com o filho da casa e sua namorada. A ideia de viajar deixou Mocinha nervosa ao ponto de não conseguir dormir na noite anterior à viagem, a fazendo viajar por lembranças passadas de parentes queridos.

Na manhã seguinte, Mocinha parte adentrando ao carro com os demais passageiros, sentada à janela pôde observar a paisagem, no percurso tirou um cochilo, onde teve um sonho com seu marido falecido vendo-o de paletó e de sua amiga Maria Rosa, começando a rever recordações. Os passageiros agitados se incomodavam com a presença de Mocinha querendo deixá-la sozinha, confiando na possibilidade de conseguir outro local para ela ficar.

Finda a viagem, Mocinha desce do carro e adentra a casa de uma alemã que a acolheu e lhe deu um pouco de comida, a dona da casa a investigava e desacreditava de que a velha tivesse chegado a casa por recomendação de sua cunhada. O marido da alemã, não satisfeito com a presença de Mocinha, deu dinheiro para que a mesma pegasse um trem rumo ao Rio, para ficar com sua mãe, Mocinha aceita e sai à rua.

Em devaneio, caminhando, seus pensamentos voltaram ao marido, pouco a pouco, se afasta da estação, em meio a sua epifania, continuava a caminhar, sentia sede, mas não parava, era quente, logo ela encontra um chafariz, onde bebe com vigor a água que escorria em suas mãos, se sente saciada e sobe à estrada novamente onde senta em uma pedra junto a uma árvore para apreciar o céu azul, cansada, olhando para a estrada, branca e vazia, encosta a cabeça no tronco da árvore e morre.

No conto, “O homem mais magro de Luanda” começa com a “descrição” da casa do tio do protagonista chamado Chico, o qual de acordo com o mesmo, tinha talvez a cerveja mais deliciosa de Luanda. O narrador personagem (Ndalu) e sua tia tinham a ocupação de servir a cerveja para os clientes. Seu tio reconhecia as pessoas que adentravam somente pela maneira como apertavam a campainha, o tio oferecia além da cerveja, acompanhamentos para os camaradas degustarem ao bebê-la.

O tio possuía o hábito de construir, chegando a construir um espaço do tamanho de um quarto para guardar os estoques de sua cerveja. Entretanto, aconteceu um dia de seu tio não reconhecer quem tocou a campainha e pedir para o miúdo (Ndalu) atender, quando a tia o interrompe não deixando-o atendê-la sozinho, e logo, acompanhando o menino, abre o portão, e era Vaz, que era talvez o homem mais magro de Luanda procurando por seu Chico que o recebe. O tio pergunta se Val tem medo de o cumprimentar, e Val, mesmo com relutância, vai em sua direção, e Chico o cumprimenta de maneira que é apertado com força. Em seguida, Chico pede para o garoto trazer uma cerveja para Val que bebe a bebida sem pudor. Depois do jantar, o menino ouve Chico falar no telefone com alguém, ele e sua tia ficaram curiosos em saber do que se tratava, seu tio pede para Rosa trazer uma cerveja e ao pegá-la brinda sozinho desejando saúde à Val enquanto se dirige à seu quarto. Tio Chico explica de forma curta e breve que Val estava no estava no hospital com duas costelas quebradas, não mais falando, apaga o candeeiro, em seguida Tia Rosa prepara a acomodação do garoto para não ser picado por mosquitos nos braços durante a madrugada, Ndalu dorme.

Os dois contos são narrados, sendo o primeiro conto narrado por um narrador onisciente (que tem total conhecimento da personagem e dos fatos). No segundo há a presença de um narrador personagem (Ndalu, o “miúdo”) que faz parte da história, narrando os fatos enquanto acontecem.

Em “Viagem a Petrópolis”, muitos são os espaços descritos na história, estes espaços têm grande importância para o desenvolver do conto, sendo eles a casa de estranhos onde vivera, o carro que viajou, a casa da alemã em que ficou, a rua por onde caminhou, a fonte que sua sede saciou, a pedra onde descansou e a árvore onde findou morrendo.

O segundo conto se passa somente em um espaço, a casa do tio, que pouco descrita pelo narrador, apresenta somente algumas características do ambiente que se encontrava a festa, sendo quintal, tendo próximo dois quartos construídos pelo tio, um pra refrigerar e outro para armazenar cervejas, onde se passa toda a narrativa do conto.

No primeiro conto há a presença do tempo cronológico, onde os fatos são narrados conforme vão acontecendo, tendo sempre uma visível progressão na narrativa que torna fluido o acontecimento de cada cena descrita pelo narrador, há também a presença do tempo psicológico, que ocorre no momento em que Mocinha se encontra de passageira durante a viagem de carro, onde alucina com memórias passadas.

No segundo conto é visível a presença do tempo cronológico uma vez que a narrativa é descrita de forma que os acontecimentos ocorrem. Começando com o garoto servindo cervejas e depois de um tempo chegando o homem mais magro de Luanda e subentende-se que depois de algumas horas ocorre a chegada da notícia de que Val estava no hospital com as costelas quebradas, indicando de que o conto ocorre em tempo cronológico.

O enredo de “Viagem a petrópolis” se resume aos estágios finais da vida de Mocinha, onde ela, após ser expulsa da casa em que vivia, embarca em uma viagem em busca de uma nova acomodação, chegando em uma outra cidade, Mocinha é recebida em uma casa que logo a enxota novamente, caminhando estrada a fora, mocinha se desvia do percurso, onde, assentando próxima de uma árvore, inclina sua cabeça no tronco e morre.

O enredo de “O homem mais magro de Luanda” se inicia com um garoto que serve cervejas junto com sua tia para camaradas do seu tio em seu quintal. Contudo, ocorreu de seu tio não reconhecer quem tocava a campainha, chamando a atenção do garoto, uma vez que, seu tio sempre reconhecia quem chegava no estabelecimento pela forma que a pessoa tocava a campainha. Então, entra Val, o homem que é considerado o homem “mais magro de Luanda”, que logo se torna o enfoque do garoto por passar um ar misterioso que gera um certo estranhamento no mesmo.

Os personagens do primeiro conto são, a Mocinha (protagonista do enredo), os passageiros do carro (o filho da casa, sua namorada e as duas irmãs, coadjuvantes), a mulher alemã e seu marido (antagonistas do enredo) que dificultam a permanência de Mocinha em seu lar, que, após expulsá-la de sua casa, encadeiam sentimentos incompreensíveis a mocinha, que relutam em sua morte.

Os personagens do segundo conto são, o garoto, o tio, a tia, o Val (o homem mais magro de Luanda) e os camaradas. Val é o protagonista da história, uma vez que os acontecimentos giram em torno do mesmo, o tio é considerado antagonista, pois é o que atrapalha o objetivo de Val, que seria curtir a festa, mas Val se sente desconfortável ao ser tratado grosseiramente pelo anfitrião e não consegue alcançar seu objetivo, o garoto, tia e camaradas são considerados coadjuvantes pois auxiliam o acontecimento principal da história.

Foi trabalhado a contextualização dos contos seguidamente de suas respectivas análises, permeando a teoria de Ricardo Piglia, que poderiam ser postumamente, argumentadas como contos que abordam personagens intrigantes e que apresentam aspectos que geram comoção nos leitores, suas narrativas são consideravelmente distintas, porém, ambas remetem a magreza, a solidão, a incompreensão, e o desprezo. Ambos os contos se constroem dentro da verossimilhança. Um aspecto interessante que pode ser mencionado é que não há a relutância do protagonista em relação às investidas dos antagonistas, de modo que eles não exprimem indiferença com suas investidas, apenas aceitam as ações. Assim, é destacada a relevância dos contos para os estudos de gêneros textuais que permeiam a solidão e a incompreensão nas narrativas de outros textos literários.

A comparação foi eficaz pois, a partir dela, foram trabalhados diferentes pontos de vista em relação aos acontecimentos dos contos, possibilitando a visualização de diferentes perspectivas dos personagens. Os contos não foram de complexa análise, seus enredos são de simples entendimento e compreensão, ambos são agradáveis de ler tanto de forma individual como de forma comparada. Durante o processo comparativo, analisamos como se comportavam as personagens dentro do enredo, discutimos suas características similares e como se relacionavam suas diferenças em todo o contexto da comparação.

Referências bibliográficas:

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LISPECTOR, Clarice. A Legião Estrangeira. São Paulo: Siciliano, 1995.

ONDJAKI. Os da minha rua. Rio de Janeiro: Língua Geral Livros Ltda, 2007.

PALLASEDITORA. Produto. Catálogo de produtos. Disponível em: <https://www.pallaseditora.com.br/produto/Os_da_minha_rua/328/12/#>. Acesso em fevereiro de 2023.

SOUZA, Warley. “Clarice Lispector”; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/biografia/clarice-lispector.htm. Acesso em 27 de fevereiro de 2023. WIKIPÉDIA. Artigo. Catálogo de publicações. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Legi%C3%A3o_Estrangeira>. Acesso em fevereiro de 2023.

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O Vulgar, o Alegórico e as Mulheres em Três Peças de Aristófanes

Tocamos hoje num dos mais notáveis dramaturgos da antiguidade, Aristófanes (446 – c. 386 AC), e em três das suas peças, cujo conteúdo não só contém todos os tropos da comédia que ainda hoje reconhecemos como vulgares, mas também alegorias muito curiosas e prescientes. São unidas pelo tópico da mulher, a que Aristófanes deu particular atenção cómica, e que pode ser observada de duas formas: se, por um lado, a natureza imprevisível e a tendência para o caos cósmico pode ser detectada como uma associação pejorativa, por outro a forma como o autor pinta a destreza e a inteligência implacável das suas personagens femininas, mesmo que o enredo acabe por não favorecer os seus intentos, o que nem sempre acontece, revela um respeito sólido pela magnificência própria da psique da mulher.

Começamos com Mulheres na Assembleia, uma sátira extraordinária a uma forma de proto-comunismo, também envolvendo a associação da figura da mulher ao instinto maternal, transformado em medidas pródigas e ruinosas para o estado. Nesta série de peripécias, as mulheres da cidade trocam as voltas aos patriarcas e apoderam-se do governo, instituindo medidas altamente radicais como a abolição da propriedade privada e a igualdade no acesso às interacções sexuais, de forma forçada. Se, por um lado, a golpada inicial podia ser interpretada como uma iniciativa de um feminismo embrionário, depressa se nota que o ridículo em que toda a situação decai representa mais concretamente uma extraordinária menorização de regimes colectivistas e das ideias utópicas que lhes dão origem.

Noutra obra, Lisístrata, encontramos uma greve de sexo, proposta pela protagonista, que dá nome à peça, em que todas as mulheres dos dois lados do conflito entre Atenas e Esparta, na guerra do Peloponeso, se escusariam a dar satisfação sexual aos seus maridos, os combatentes, com o propósito de terminar a guerra. Temos mais uma vez uma proposta de inversão da ordem patriarcal, em que a população feminina tenta ser agente principal das acções colectivas, tomando em seu próprio controle aquilo de que dispunham; no caso, a dependência sexual dos homens em relação às suas dádivas. Mas, mais uma vez, a proposta fenece parcialmente: embora efectivamente cesse a guerra entre homens, as tensões são desviadas desse cenário para uma guerra entre sexos, assim como uma guerra de cada uma dessas partes consigo própria — já que não só os homens mas também as mulheres começam a comportar-se erraticamente devido à falta da sua satisfação. No final, porém, tudo se resolve.

Na terceira obra que aqui abordamos, Mulheres que Celebram as Tesmofórias, encontramos alguma metaficção, já que cabe à personagem de Eurípides, também um dramaturgo contemporâneo de Aristófanes, servir de bode sacrificial para uma série de mulheres que pretendem matá-lo, cansadas de serem ridicularizadas nos seus textos. Reunindo-se como numa assembleia de homens, as mulheres decidem como levar a cabo essa empresa — mas Eurípides tinha pedido a um afilhado para se disfarçar de mulher e espiar os planos, mas é descoberto. Daqui nascem todo o tipo de peripécias de algo teor alegórico e metaficcional, em que o dramaturgo se disfarça de várias personagens das suas peças para tentar libertar o afilhado do jugo feminino, o que consegue.

Em todas estas peças encontramos elementos que perduram através dos tempos e das culturas: a guerra entre os sexos, a descrição dos homens como bélicos e manipuláveis e das mulheres como irracionais e dependentes, as tensões cómicas que advém dessa dialéctica, e a capacidade de todas as pessoas, de todos os sexos, de se rirem disto, sem julgamentos morais que almejem transformar a sociedade numa tábua rasa em que todas estas diferenças substanciais fiquem aplainadas.

Desengane-se também quem pense que o obsceno, o ordinário, o humor popular e labrego relacionado com buracos, pilas, porcarias, cópula, mau cheiro, narizes compridos e pessoas nuas com cuecas na mão se remete apenas à revista à portuguesa, ao vaudeville e aos bas-fonds das más companhias. Está presente na mui afamada comédia grega em doses cavalares, em particular nestas três peças e na maior parte do trabalho de Aristófanes. O leitor que passar os olhos por muitas destas passagens encontrará pouca diferença de uma rábula no parque Mayer ou de uma canção de Quim Barreiros. Atente-se À seguintes:

Terminamos por recomendar uma pertinente obra académica dedicada precisamente ao papel, ou melhor, aos vários diferentes papéis das mulheres nestas peças de Aristófanes, Aristophanes and Women (Routledge Revivals), de Lauren Taaffe, que podem encontrar aqui.

Trabalho Digno em Casal de Cambra até 2030: Um Pilar Estratégico ou um Pilar Esquecido?

Este artigo explora a implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8 (ODS 8) em Casal de Cambra, um microcosmo dos desafios e oportunidades globais enfrentados por comunidades locais num mundo cada vez mais globalizado e competitivo. Focado no fomento de um crescimento económico inclusivo e sustentável, bem como na promoção de emprego pleno e trabalho decente, o estudo adota uma abordagem mista que combina análise de literatura, inquéritos e entrevistas qualitativas com stakeholders locais.

Os resultados, baseados em dados quantitativos recolhidos através de inquéritos e complementados por insights qualitativos de entrevistas, revelam que, apesar dos desafios impostos pela concentração de poder corporativo e pelas dinâmicas de mercado global, é possível implementar estratégias alinhadas ao ODS 8 que sejam adaptadas à realidade local de Casal de Cambra. As estratégias propostas incluem iniciativas para emprego jovem, promoção do desenvolvimento económico sustentável e estabelecimento de parcerias estratégicas. Estas iniciativas são cruciais para transformar a economia local e elevar a qualidade de vida e dignidade humana dos habitantes.

O estudo conclui que a implementação do ODS 8 em Casal de Cambra não só oferece um modelo para o desenvolvimento local sustentável e inclusivo, mas também se alinha com os princípios globais dos ODS, contribuindo para um futuro mais justo e equitativo. Este caso serve de exemplo para outras comunidades e abre caminho para futuras pesquisas sobre a aplicação dos ODS em contextos locais diversos.

Palavras-chave: Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8, Casal de Cambra, Desenvolvimento Sustentável, Emprego Digno, Crescimento Económico, Inquérito.

Introdução

Num mundo cada vez mais influenciado pela globalização e inovações tecnológicas, assistimos a uma transformação significativa no cenário empresarial. Esta era de mudança, evidenciada por Wind & Mahajan (1997), está intrinsecamente ligada à globalização, afetando profundamente o modo como as empresas, especialmente as pequenas e médias empresas (PMEs), operam e competem no mercado global. Esta realidade é particularmente notória em comunidades como Casal de Cambra, onde a capacidade de adaptação e inovação destas PMEs é crucial para enfrentar os desafios de um ambiente económico em constante evolução.

O aumento da concentração do poder corporativo, um fenómeno global sublinhado por Clapp (2021), reconfigura os mercados e as tecnologias, impactando diretamente as condições de trabalho e a sustentabilidade em diversos sectores. Este cenário é complementado pelas análises de Akcigit et al. (2021), que demonstram como o aumento do poder de mercado pode reforçar a concentração de mercado, prejudicando a diversidade empresarial e a inovação, um desafio que se reflete também em comunidades como Casal de Cambra.

Thomsen & Pedersen (2000) exploram a concentração de propriedade e o seu impacto no valor para os acionistas e na rentabilidade, ilustrando as implicações diretas para a estrutura empresarial e práticas de mercado. Casal de Cambra, com a sua concentração de PMEs, oferece um exemplo vívido de como estas dinâmicas globais influenciam as práticas locais de negócios e a qualidade do trabalho.

A globalização económica exige uma reavaliação das filosofias de gestão, como discutido por Tampakoudis, Subeniotis, & Eleftheriadis (2012), enfatizando a necessidade de inovação e adaptação. Em Casal de Cambra, essa necessidade de adaptação e alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, particularmente o ODS 8, é essencial para garantir a sustentabilidade e competitividade a longo prazo.

A análise das condições de trabalho, agravadas pela falta de regulação e proteção dos direitos dos trabalhadores (Hafiz, 2020; Sukdeo, 2018), revela uma crescente desigualdade de rendimento e salários estagnados, uma realidade que também afeta Casal de Cambra. Os estudos de Stiglitz, Genicot e Basu (1998) aprofundam essa discussão, mostrando como leis de salário mínimo inadequadas podem exacerbar esta situação, reforçando a necessidade de uma abordagem equilibrada que considere tanto a eficiência económica quanto a equidade social.

Perante este cenário, a implementação do ODS 8 em Casal de Cambra surge como um elemento-chave para o desenvolvimento socioeconómico sustentável. Este estudo procura analisar como as tendências globais de complexidade empresarial e competitividade económica afetam as condições de trabalho e a sociedade em Casal de Cambra, focando em como a implementação do ODS 8 pode promover um desenvolvimento mais equitativo e sustentável, alinhando-se aos desafios globais e oferecendo soluções locais eficazes.

Revisão da Literatura

A globalização e as inovações tecnológicas reconfiguraram o cenário empresarial de forma complexa, resultando numa interação intrincada entre o poder corporativo e as condições de trabalho. Conforme observado por Wind & Mahajan (1997), a inovação e o desenvolvimento de novos produtos são agora intimamente ligados à globalização. Este aspeto é particularmente relevante em localidades como Casal de Cambra, onde as pequenas e médias empresas (PMEs) se deparam com o desafio de manter a competitividade num mercado global dinâmico.

A crescente concentração de poder corporativo, destacada por Clapp (2021), modela os mercados e as tecnologias, influenciando a equidade e a sustentabilidade em diversos setores. Este fenómeno é ampliado pelas análises de Akcigit et al. (2021), que evidenciam como o aumento do poder de mercado pode reforçar a concentração de mercado, prejudicando a diversidade empresarial e a inovação. Neste contexto, Thomsen & Pedersen (2000) discutem o impacto da concentração de propriedade sobre o valor para os acionistas e a rentabilidade, com implicações diretas para a estrutura empresarial e as práticas de mercado, aspetos relevantes para comunidades como Casal de Cambra.

A globalização económica, sublinhada por Tampakoudis, Subeniotis, & Eleftheriadis (2012), exige que as empresas adotem novas filosofias de gestão e modifiquem métodos e processos para se adaptarem a um ambiente em constante mudança. Esta necessidade de adaptação e inovação é essencial para as empresas em Casal de Cambra, onde o alinhamento com os objetivos do ODS 8 pode ser decisivo para a sustentabilidade e competitividade.

Bhandarker (2014) aborda a evolução dos centros de negócios globais e Wong & Snell (2003) destacam as mudanças significativas na natureza do trabalho, refletindo a necessidade de adaptação e inovação face às tendências globais. Julien (1996) analisa as diversas reações das pequenas empresas à globalização, desde a resistência até adaptações significativas, um fator crítico para a qualidade e dignidade do trabalho em Casal de Cambra.

Mitchell & Erickson (2001) e Rees (1963) iluminam como o poder negocial corporativo pode influenciar as práticas salariais e as condições de trabalho, evidenciando a complexidade desta dinâmica em diferentes setores e contextos económicos. A falta de regulação para proteger os direitos dos trabalhadores, indicada por Hafiz (2020) e Plass (2016), contribui para a crescente desigualdade de riqueza e salários estagnados, agravada pela ausência de leis laborais robustas (Sukdeo, 2018; Iversen e Soskice, 2019).

Stiglitz, Genicot e Basu (2016) aprofundam a análise da deterioração das condições de trabalho, mostrando como leis de salário mínimo inadequadas podem diminuir o salário de mercado e aumentar o desemprego. Jost et al. (2001) e Rosenbloom & Sundstrom (2009) oferecem perspetivas sobre a influência dos arranjos institucionais e as justificações económicas na deterioração das condições de trabalho.

Metodologia

O presente estudo adotou uma abordagem metodológica mista, conjugando uma revisão sistemática da literatura com a recolha de dados primários. Focalizado em trabalhos académicos que abordam o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8 (ODS 8), a dinâmica do mercado de trabalho, e o desenvolvimento sustentável, o estudo dedicou especial atenção ao contexto de Casal de Cambra. A escassez de literatura específica sobre esta localização justificou a necessidade de uma análise prática e contextual.

Na realização da pesquisa bibliográfica, foram utilizadas palavras-chave como “ODS 8”, “Casal de Cambra”, “desenvolvimento sustentável”, “Trabalho Digno”, “Qualidade de Vida”, “Dignidade Humana”, “condições de trabalho” e “direitos dos trabalhadores”. Os critérios de seleção centraram-se na relevância para o tema, foco em práticas sustentáveis e as suas implicações específicas para Casal de Cambra.

A recolha de dados primários foi realizada através de um questionário distribuído aos residentes e trabalhadores de Casal de Cambra, abrangendo questões sobre a perceção da qualidade de vida, condições de trabalho e o impacto das políticas locais. Complementarmente, foram conduzidas duas entrevistas com o Presidente da Junta de Freguesia, uma presencial e outra por escrito, da última ainda se aguardam respostas, com o objetivo de obter perspetivas aprofundadas sobre iniciativas locais relacionadas ao ODS 8.

Os dados obtidos pelo questionário foram submetidos a uma análise estatística para a identificação de tendências e padrões. Paralelamente, as foram analisadas tematicamente, proporcionando informações qualitativas valiosas sobre as políticas e práticas locais relacionadas ao ODS 8.

O estudo enfrentou limitações, incluindo a escassez de literatura específica para Casal de Cambra e a amostra limitada do questionário e das entrevistas. A potencial influência do viés do investigador, particularmente na interpretação dos dados qualitativos, foi uma consideração relevante.

Todas as informações recolhidas foram tratadas com a máxima confidencialidade, garantindo a proteção da privacidade dos participantes, que foram informados sobre a finalidade e o uso dos dados no contexto da investigação.

O inquérito aplicado em Casal de Cambra foi desenhado para caracterizar a comunidade nas dimensões Social, Prosperidade, Ambiental e Parcerias, estando alinhado com os ODS. Adotou-se uma metodologia quantitativa, com perguntas estruturadas numa escala de Likert, garantindo a neutralidade das questões e a minimização do viés do investigador.

Os resultados obtidos até ao momento da redação deste artigo incluem respostas de 36 habitantes de Casal de Cambra, o que representa cerca de 0.30% da população total de aproximadamente 13.500 habitantes. A margem de erro calculada para estes resultados é de 15.31%.

Os resultados do cálculo do Alpha de Cronbach para cada dimensão do questionário foram:

  • Dimensão Social: Alpha de Cronbach = 0.905
  • Dimensão Económica: Alpha de Cronbach = 0.807
  • Dimensão Ambiental: Alpha de Cronbach = 0.817
  • Dimensão Prosperidade: Alpha de Cronbach = 0.915

Estes valores indicam uma alta consistência interna das perguntas em cada dimensão, sendo valores acima de 0,7 considerados aceitáveis, sugerindo correlação adequada para formar uma escala confiável.

A análise inicial dos dados demográficos dos participantes do inquérito em Casal de Cambra revelou informações pertinentes sobre a amostra. A faixa etária mais representada é a de 55-64 anos e 35-44 anos, com 13 respostas cada, seguindo-se a faixa etária de 45-54 anos com 9 respostas e a de 25-34 anos com 2 respostas. Quanto ao género, 28 participantes identificaram-se como feminino e 9 como masculino. Relativamente ao nível de escolaridade, a maior parte dos participantes possui ensino secundário, seguido por licenciatura, ensino básico, mestrado, doutoramento e ensino profissional.

A análise quantitativa e qualitativa dos dados ofereceu insights valiosos sobre a situação socioeconómica e as perceções dos residentes de Casal de Cambra em relação aos ODS. Estes resultados indicam a necessidade de focar no crescimento económico inclusivo e sustentável, na integração social, e na promoção de oportunidades de emprego digno, em alinhamento com os princípios do ODS 8. A investigação enfrentou desafios metodológicos, sugerindo-se para futuras pesquisas a adoção de métodos alternativos para lidar com dados incompletos e a expansão da amostra. Recomenda-se também a complementação da análise quantitativa com estudos qualitativos para uma compreensão mais abrangente das dinâmicas locais.

A pesquisa conclui que, apesar das limitações, os resultados do inquérito oferecem uma base sólida para ações que promovam o bem-estar social, a prosperidade, a sustentabilidade ambiental e parcerias eficazes em Casal de Cambra, alinhando-se aos princípios do ODS 8 e outros objetivos relevantes.

Casal de Cambra em 2008

No contexto do diagnóstico de Casal de Cambra em 2008, a pesquisa de Ana Isabel da Silva Almeida Santos, intitulada “CONSTRUÇÃO URBANA DE ORIGEM ILEGAL, CAPITAL SOCIAL E PERCEPÇÃO DE PROBLEMAS – O Caso de Casal de Cambra –” (Santos, 2008), apresenta uma análise abrangente das dinâmicas urbanas e sociais na área. Segue-se uma breve compilação das informações reunidas com base no estudo mencionado:

Em 2008, Casal de Cambra era uma Área Urbana de Génese Ilegal (AUGI) com 3107 habitações e uma população estimada em 9665 habitantes. Existia um equilíbrio de género (51% feminino, 49% masculino) e a média de idade é de 40 anos, indicando uma população relativamente jovem. A comunidade enfrentava desafios como insegurança, drogas, alcoolismo e prostituição, especialmente nas proximidades do bairro social. A maior parte da população possuía qualificações baixas, com predominância do 1º ciclo do Ensino Básico. Cerca de 45% eram na altura ativos profissionalmente, com uma alta representação de trabalhadores não qualificados. Existia uma notável heterogeneidade económica, com uma concentração maior nos escalões de rendimento mais baixos.

O estudo de Santos (2008) ressalta a importância das redes sociais e do capital social no desenvolvimento empresarial local. Contudo, detalhes específicos sobre o tecido empresarial não foram amplamente discutidos.

As AUGIs emergem de construções ilegais, acarretando complexidades legais e urbanísticas. As implicações sociais e urbanísticas são significativas, afetando a qualidade de vida e a estruturação da localidade. As condições de vida nas AUGIs eram desafiadoras, com muitos residentes a escolher estas áreas por motivos de acessibilidade financeira, apesar das construções e condições subótimas.

Deparou-se com um enorme desafio no que diz respeito a informação proveniente de fontes credíveis que permitam caracterizar Casal de Cambra. Conseguiu-se, no entanto, oferecer algumas luzes da situação da freguesia em 2008, com base no estudo mencionado. Destacando-se os desafios sociais, económicos e urbanísticos enfrentados pela comunidade, em linha com o estudo de Santos (2008).

Caracterização e Discussão de Casal de Cambra

A Dimensão Social em Casal de Cambra revela-se através de uma perceção de coesão comunitária e acessibilidade a serviços sociais. Com base no inquérito, a média das respostas sobre a coesão social foi de 3.81 numa escala de 1 a 5, indicando uma perceção positiva da integração comunitária. No entanto, a necessidade de melhoria em áreas como emprego para jovens é clara, sugerindo desafios no mercado de trabalho local.

A análise destaca a necessidade de fomentar oportunidades de emprego para os jovens e de garantir a inclusão de todos os segmentos da população. Ações direcionadas para melhorar a integração das comunidades imigrantes e o acesso a serviços para pessoas com deficiência também são cruciais para reforçar a coesão social.

A Dimensão Económica de Casal de Cambra reflete-se no nível de rendimento familiar e nas perceções sobre emprego e desenvolvimento económico. A maioria dos inquiridos tem rendimentos entre 1001 a 1500 euros, com uma representação significativa nas faixas mais altas e mais baixas, indicando uma diversidade económica.

Há uma necessidade de estimular o crescimento económico local, promovendo a diversificação do emprego e apoiando o comércio local. A melhoria dos transportes públicos e o incentivo à criação de novos negócios podem ser estratégias eficazes para impulsionar a economia local.

Em termos ambientais, Casal de Cambra apresenta uma consciência sobre sustentabilidade e gestão de recursos. As áreas verdes e a eficiência na gestão de resíduos foram avaliadas positivamente, mas há espaço para melhorias em iniciativas ambientais e no uso da água.

É vital investir em projetos que promovam práticas sustentáveis e educação ambiental. Iniciativas como a plantação de árvores e a limpeza de espaços públicos podem envolver a comunidade e contribuir para um ambiente mais saudável.

A Prosperidade em Casal de Cambra é evidenciada pela perceção positiva das parcerias locais. Os inquiridos reconhecem o impacto das colaborações entre a Junta de Freguesia e as empresas na melhoria da qualidade de vida.

Estimular parcerias intermunicipais e internacionais pode ser uma estratégia valiosa para trazer novas oportunidades e fortalecer a posição de Casal de Cambra na região e além. Estas parcerias podem abrir caminhos para novos projetos de desenvolvimento sustentável e crescimento económico.

Casal de Cambra apresenta um quadro diversificado em termos sociais, económicos, ambientais e de prosperidade. Enquanto existem pontos fortes como a coesão social e a consciência ambiental, desafios como a necessidade de melhores oportunidades de emprego para jovens e o desenvolvimento de parcerias estratégicas são evidentes. A implementação eficaz do ODS 8 e outros objetivos relevantes pode catalisar melhorias significativas nestas áreas, promovendo um desenvolvimento sustentável e inclusivo em Casal de Cambra.

Implementação do ODS 8 em Casal de Cambra

Esta secção do artigo aborda a implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8 (ODS 8) em Casal de Cambra, com um foco particular no fomento de um crescimento económico inclusivo e sustentável, assim como na promoção de emprego pleno e trabalho decente para todos. A relevância do ODS 8 no atual contexto global, especialmente em comunidades locais como Casal de Cambra, é discutida em profundidade, destacando-se a necessidade de estratégias que promovam práticas de negócios éticas e responsáveis.

A análise das necessidades de Casal de Cambra revela desafios específicos, incluindo a necessidade de criar mais oportunidades de emprego para jovens, diversificar a economia local e integrar práticas sustentáveis no desenvolvimento económico.

A falta de oportunidades de emprego para os jovens é um obstáculo significativo ao seu desenvolvimento e integração na economia local. A economia local necessita de diversificação para estimular o crescimento económico sustentável. É imperativo integrar práticas sustentáveis no desenvolvimento económico para proteger os recursos naturais e garantir o bem-estar da comunidade.

A criação de programas que ofereçam formação profissional e estágios em parceria com empresas locais, incentivos à criação de negócios por jovens, através de apoio financeiro e mentorias, políticas de fortalecimento do comércio local, incluindo subsídios e eventos de promoção e incentivos a projetos que integrem desenvolvimento económico com sustentabilidade, são algumas das estratégias propostas.

Parcerias com municípios vizinhos para desenvolvimento conjunto e a exploração de parcerias internacionais para troca de conhecimentos e atração de investimentos, requer uma abordagem colaborativa, envolvendo a Junta de Freguesia, empresas locais e instituições educacionais, com ênfase na transparência e comunicação eficaz. Também a monitorização do progresso através de indicadores específicos, com avaliações periódicas para ajustes e melhorias contínuas, revela-se essencial.

A implementação do ODS 8 em Casal de Cambra é uma oportunidade para transformar significativamente a qualidade de vida e a dignidade humana na localidade. Estratégias focadas em emprego jovem, desenvolvimento económico sustentável e parcerias estratégicas são cruciais. Uma abordagem integrada e participativa, com avaliação contínua, assegurará avanços sustentáveis e inclusivos alinhados com os princípios dos ODS.

Esta implementação em Casal de Cambra representa uma resposta estratégica e holística aos desafios de desigualdade económica e injustiça no trabalho. A literatura relevante, incluindo Bowen et al. (2017), Scherrer (2018) e Christ e Burritt (2019), fornece insights sobre a importância deste objetivo no contexto global e local. O ODS 8 promove não apenas o crescimento económico, mas também a sustentabilidade e a justiça social.

ODS 8 e Promoção de Práticas de Negócios Éticas e Responsáveis

A implementação do ODS 8 em Casal de Cambra abre caminho para práticas empresariais mais éticas e responsáveis. Schulte et al. (2022), Pinho (2020) e Scherrer (2018) destacam a importância de práticas empresariais que respeitem os direitos dos trabalhadores e promovam condições de trabalho seguras e saudáveis. Além disso, Christ e Burritt (2019) sublinham a necessidade de colaboração entre académicos e o setor empresarial para enfrentar desafios como a complexidade empresarial e a concentração de poder.

Benefícios do ODS 8 para Trabalhadores e Corporações

O ODS 8 beneficia tanto os trabalhadores quanto as corporações. Para os trabalhadores, resulta em melhorias nas condições de trabalho e na promoção da dignidade humana, conforme discutido por Schulte et al. (2022) e Collier (2020). Para as corporações, o ODS 8 oferece vantagens estratégicas, como melhoria da imagem e reputação da marca e aumento da lealdade e satisfação dos funcionários, conforme sugerido por Stombelli (2020) e Trinh, Van e Nguyen (2023).

A implementação do ODS 8 em Casal de Cambra é uma iniciativa vital para promover um desenvolvimento sustentável e inclusivo. Esta implementação não apenas beneficia a comunidade local, mas também se alinha com os princípios globais de desenvolvimento sustentável, criando um futuro mais justo e equitativo para todos. As estratégias propostas e a abordagem colaborativa e avaliativa garantirão que Casal de Cambra avance de forma sustentável e inclusiva, alinhada com os princípios dos ODS e promovendo um bem-estar abrangente para a comunidade.

Possível Impacto do ODS 8 em Casal de Cambra

A implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8 (ODS 8) em Casal de Cambra emerge como uma força transformadora, visando melhorar as condições de trabalho e impulsionar o desenvolvimento socioeconómico da região. Esta abordagem adaptada às necessidades locais tem o potencial de elevar a qualidade de vida e a dignidade humana dos trabalhadores, reforçando simultaneamente as práticas empresariais na comunidade.

Promoção de Ambientes de Trabalho Seguros

A segurança e a saúde ocupacional são aspetos cruciais do ODS 8. Iniciativas locais focadas na segurança no trabalho e na saúde ocupacional, complementadas por programas de formação e sensibilização, podem significativamente aprimorar as condições laborais em Casal de Cambra. Este enfoque é corroborado pelos estudos de Moen et al. (2019), que sublinham a importância de ambientes de trabalho seguros para o bem-estar dos trabalhadores.

Inclusão de Trabalhadores Não Padrão

Casal de Cambra pode também abordar a sustentabilidade social e proteger trabalhadores não padrão, como os envolvidos na economia GIG[1], através da expansão de medidas de proteção laboral. Conforme indicado por Loganathan (2021), políticas inclusivas que assegurem direitos e benefícios adequados para todos os tipos de trabalhadores são essenciais para um desenvolvimento sustentável e inclusivo.

Desenvolvimento Sustentável Económico

A sustentabilidade económica e ambiental é um pilar do ODS 8, destacando-se na promoção de energia sustentável e redução de emissões de carbono. Estes esforços não só contribuem para a preservação ambiental, mas também fomentam a criação de empregos em setores emergentes. Nathaniel e Adeleye (2021) enfatizam a importância deste equilíbrio para um desenvolvimento económico sustentável.

Estratégias Integradas para Implementação

Para uma efetiva implementação do ODS 8 em Casal de Cambra, são necessárias estratégias que combinem crescimento económico, integridade ambiental e equidade social. A colaboração entre diferentes setores e a participação de stakeholders locais na formulação e implementação de políticas são recomendadas por Hutton et al. (2018) como abordagens eficazes neste contexto.

Projetos de Economia Social e Solidária

Projetos de economia social e solidária, suportados por políticas públicas locais, podem ter um papel significativo na implementação do ODS 8. Estes projetos, como sugerido por Villalba-Eguiluz et al. (2020), promovem inclusão social e económica, fortalecendo as comunidades locais.

Abordagens Participativas e Sensíveis ao Contexto Local

A implementação do ODS 8 em Casal de Cambra requer abordagens participativas e adaptadas à realidade local. Klopp & Petretta (2017) defendem que a recolha e monitorização de dados devem ser contextualizados, tornando as políticas e iniciativas mais eficazes e relevantes.

A aplicação do ODS 8 em Casal de Cambra promete ser um catalisador para um desenvolvimento socioeconómico sustentável, através da promoção de práticas de trabalho justas e seguras e de uma economia mais inclusiva e responsável. Políticas públicas locais, projetos de economia social e solidária, e abordagens participativas podem fazer de Casal de Cambra um exemplo de como os princípios globais de desenvolvimento sustentável podem ser efetivamente aplicados no contexto local.

Conclusão

A implementação do ODS 8 em Casal de Cambra representa um marco significativo para a comunidade local, oferecendo um modelo para o desenvolvimento socioeconómico sustentável e inclusivo. Este estudo demonstrou que, apesar dos desafios impostos pela globalização e pela crescente concentração de poder corporativo, estratégias adaptadas ao contexto local podem efetivamente promover emprego digno e crescimento económico sustentável.

Em Casal de Cambra, a implementação do ODS 8 tem potencial para transformar não apenas a economia local, mas também a qualidade de vida e a dignidade humana dos seus habitantes. As estratégias propostas, que incluem iniciativas para emprego jovem, desenvolvimento económico sustentável e parcerias estratégicas, são passos cruciais em direção a uma comunidade mais coesa, resiliente e próspera.

Além disso, este estudo ressalta a importância da colaboração entre diferentes setores e a participação ativa dos stakeholders locais, que são fundamentais para a implementação e avaliação eficazes das estratégias. A abordagem a adotar em Casal de Cambra poderia servir de exemplo para outras comunidades que procuram alinhar-se aos princípios globais dos ODS, demonstrando que o desenvolvimento sustentável e inclusivo é viável e benéfico tanto a nível local como global.

Para futuras investigações, seria valioso explorar o impacto a longo prazo destas iniciativas em Casal de Cambra, bem como a possibilidade de replicar este modelo noutras comunidades com características semelhantes. O acompanhamento e a análise contínuos destas estratégias fornecerão insights mais profundos sobre como os ODS podem ser integrados de forma eficaz na gestão e no desenvolvimento de comunidades locais.

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  1. Economia GIG: Um mercado de trabalho caracterizado por empregos temporários, contratos de curto prazo ou trabalhos freelance, contrapondo-se a empregos permanentes a tempo inteiro. Este modelo é associado a uma maior flexibilidade para os trabalhadores, mas também a menos estabilidade no emprego e benefícios reduzidos (De Stefano, 2016; Friedman, 2014; Manyika et al., 2016).

Algumas Iluminuras do Livro de Horas de D. Manuel [c.1517]

Algumas Iluminuras do Livro de Horas do Augusto Senhor D. Manuel [c.1517], com os arredores do Portugal antigo, e outras questões.

Deambulações pelo Orientalismo e Discursos de Poder

(texto de Maria Raquel P. Roxo, escrito a 15 de Janeiro de 2024).

The Orient, thought of as the origin, dreamed of as the vertiginous point from which come nostalgic yearnings and promises of return, the Orient offered to the colonizing reason of the west, yet indefinitely inaccessible for it always remains the outer limit: Night of the beginning, in which the west takes form but in which it has inscribed a line of division, the Orient is for the west everything which the west is not, even though it must search there for its original truth.

(Michel Foucault)[1]

Não podem representar a si próprios; têm de ser representados.

(Karl Marx)[2]

Nota introdutória

Tendo como ponto de partida a obra “Orientalismo – O Oriente como invenção do Ocidente”, publicada em 1978, de Edward W. Said, pretende-se efetuar algumas reflexões, ou deambulações, de certa forma exploratórias, sobre este conceito cunhado pelo autor palestiniano. O Orientalismo, visto como um discurso hegemónico e integrado no nexus entre discurso e poder, convoca várias ideias e conceitos, com as quais se irá tentar estabelecer um diálogo.

Enraizado no eurocentrismo, ideologia que assenta no postulado da origem europeia da Modernidade, iremos percorrer alguns dos trilhos que se abrem a partir do Orientalismo. Serão ainda explorados vários conceitos, como as “Geografias Imaginativas”, a ideia de “Roubo da História” de Jack Goody, evidenciando a dificuldade em reconhecer a existência de outras “modernidades”, de outros saberes e inovações, que surgiram em várias geografias, conhecimentos de que a Europa se soube apropriar e ainda a noção de “Lugar de fala” de Gayatri C. Spivak. Finalmente, não poderia concluir sem deixar algumas notas de comentário sobre a pertinência do pensamento de Edward Said, particularmente nos dias de hoje, depois de 100 dias da terrível guerra na Faixa de Gaza.

Edward Wadie Said nasceu em Jerusalém, Palestina, em 1935. Com o estabelecimento do Estado de Israel parte, ainda em criança, para o Egipto e mais tarde para o Líbano. Ainda jovem, vai estudar para os EUA, onde termina, em Harvard, o doutoramento. Foi professor de Literatura Comparada, na Universidade de Columbia. Traduziu vários discursos de Yasser Arafat para a imprensa ocidental. Chegou a ser membro do Conselho Nacional Palestiniano, em 1977, entidade que abandonou mais tarde. Manifestou-se abertamente contra os Acordos de Oslo, em 1993. Edward Said foi um dos maiores intelectuais da segunda metade do século XX, e uma referência na causa da resistência política e cultural da Palestina. Professor, crítico literário, humanista e ativista, as suas obras “Orientalismo – O oriente como invenção do Ocidente” (1978) e “Cultura e Imperialismo” (1993) foram decisivas na origem de um novo campo de estudos, os estudos pós coloniais[3].

Said foi muito influenciado pela leitura do “Cadernos de Cárcere” de Antonio Gramsci, mas também por Giambattista Vico e Michel Foucault[4]. A sua autobiografia, Out of Place (1999), reflete a ambivalência na forma como se sentia a viver “fora do lugar”, ou melhor, entre lugares, entre a cultura ocidental e a oriental. António Manuel Hespanha relembra que “toda a sua vida é feita de identidades efémeras. Tem sempre a sensação de que está fora do lugar, fora de qualquer lugar. Mas isso, que poderia desorientar, do ponto de vista psicológico, muitas pessoas com uma força moral e intelectual que não era a dele, a ele deu-lhe força”.[5] Edward Said morreu em 2003, em Nova Iorque. Nos dias de hoje, o seu pensamento, o Orientalismo e a sua causa – a causa palestiniana – são, arriscaria a afirmar, mais pertinentes do que nunca.

Como opção metodológica, optou-se por não aprofundar muito a análise da obra Orientalismo, nem analisar os vários textos e discursos literários que o autor examinou, pois afigura-se, pessoalmente, mais enriquecedor e interessante cruzar as propostas teóricas de Said com outras noções e conceitos, integrados no quadro de uma reflexão no campo dos estudos pós- coloniais.

ORIENTALISMO

Le charmeur de serpents, Jean-Léon Gérôme, 1879.

O Oriente era quase uma invenção europeia.

(Said)

Edward Said atribuiu um papel fundamental ao impacto cultural que o imperialismo europeu teve e tem nos dias de hoje. Em “Orientalismo” Edward Said argumenta como o mundo ocidental foi criando uma ideia distorcida do Oriente[6], visto como o “Outro”, numa tentativa de diferenciação que servia os interesses do colonialismo e imperialismo europeus. Said analisa uma diversidade de textos – romances, literatura de viagens, poesia ou textos políticos – produzidos sobre o Oriente e demonstra como foi criada uma ideia exótica, despótica e inferior deste território e do seu povo.

3 Formas de conceber o Orientalismo:

Said apresenta-nos 3 formas de abordar, ou de observar o Orientalismo; ou seja este conceito pode integrar várias dimensões, todas elas interdependentes. Em primeiro lugar, a que talvez reúne maior consenso é a ideia generalizada de um “orientalismo académico”, ou seja, um conjunto de textos, de estudos, de investigações que se debruçam sobre o Oriente; depois, numa outra concepção, o “orientalismo como um estilo de pensamento baseado na existência de uma distinção ontológica e epistemológica, entre o “Oriente” e (na maioria dos casos), o “Ocidente””(a geografia imaginativa, conceito que explorarei mais à frente); e por último, o orientalismo entendido como um discurso de poder, que no fundo nasce do intercâmbio e da sobreposição entre o “orientalismo académico” e o imaginativo, principalmente a partir do século XVIII (Said, 1990: 14 e 15).

Assim, e dando maior evidência a esta última ideia, para Said, o orientalismo consiste em “uma instituição organizada para negociar o Oriente – negociar com ele fazendo declarações a seu respeito, autorizando sobre ele, descrevendo-o, colonizando –o, governando-o : em resumo, o orientalismo como um estilo ocidental para dominar, reestruturar e ter autoridade sobre o Oriente”(Said, 1990: 15). Assim, podemos designar que o orientalismo é um corpo teórico-prático, ou um sistema de conhecimento, mas também uma forma de poder europeu – atlântico sobre o Oriente, que se tornou uma instituição. O orientalismo depende de uma “superioridade posicional flexível, que põe o ocidental em toda uma série de relações possíveis com o Oriente, sem que ele perca jamais a vantagem relativa.” (Said,1990: 19).

Antes de se avançar convém explicar que a obra de Said foi sujeita a várias críticas e continua a ser atacada por várias frentes. Um dos seus maiores críticos, Bernard Lewis, chega mesmo a referir-se ao Orientalismo como uma tese falsa que roça o “absurdo”, colocando em causa o conhecimento de Said sobre os Estudos do Oriente. Aijaz Ahmad, questiona a consistência da tese de Said, que oscila entre um conjunto de representações e deturpações.

No entanto, Said utiliza o termo “discursivo” para se referir à construção por parte do Ocidente de representações, através de discurso – seja este literário, artístico ou de âmbito escolar- que não é neutro, nem objetivo, mas sempre orientado para controlar o Oriente, que é visto, pelo discurso dominante como uma entidade estática e homogénea (Elmenfi, 2023: 69).

O Orientalismo tem, no entanto, o mérito de se manter resiliente, ao longo das últimas décadas, talvez pelo facto de não se dirigir ao leitor através de uma posição teórica abstrata, mas através de uma “experiência oriental”(Gupta: 8-9). Ou como Elmenfi bem aponta, na esteira de Ashcroft e Ahluwalia, Said pretendia “inverter a direção do “olhar” do discurso, para o analisar do ponto de vista de um “Oriente”.”[7] (Elmenfi, 2023: 64). O que parece ser mais consensual entre os críticos de Said, é que este iniciou uma nova abordagem de análise das práticas discursivas, no nexus entre poder e conhecimento, mais especificamente, na ligação entre literatura e imperialismo (Frank, 2009: 73).

EUROCENTRISMO /MODERNIDADE

Antes de mais, uma primeira reflexão que me parece óbvia é a de que o Orientalismo surge ou nasce associado ao Eurocentrismo. E neste caso importa antes de mais refletir sobre o que é Eurocentrismo. Marta Araújo e Silvia Rodríguez Maeso sugerem 3 formas de análise distintas de encarar o eurocentrismo: em primeiro lugar, a “Europa como lugar”, ou seja, o eurocentrismo como consequência dos vários tipos de desenvolvimentos, que ocorreram a partir da Europa (económicos, culturais, sociais e políticos), e que tornaram este território o principal poder no sistema mundo, criando a ideia de que a Europa tem legitimidade para falar sobre outros povos e culturas não europeias (etnocentrismo europeu); a segunda forma encara o eurocentrismo como uma teoria sócio-política e económica, que se baseia na ideia da hegemonia, da excecionalidade e centralidade europeia, que no fundo nunca existiu, e que assenta ainda na perpetuação de mitos históricos, e de criação de conhecimento; e ainda uma terceira forma de análise, que vê a “Europa como discurso político e histórico”, que assenta na relação entre poder e criação de conhecimento (Araújo; Maeso, 2016: 35 e 36). Esmiuçando estas 3 formas de encarar o eurocentrismo, podemos dizer que este pode ser visto como uma consequência da Modernidade, uma teoria e um discurso de poder, que continua a tentar legitimar-se nos dias de hoje.

Apesar da óbvia articulação e sobreposição das 3 abordagens, as autoras sublinham a necessidade de distinguirmos a primeira abordagem das demais, pois devemos questionar a primeira forma de encarar o eurocentrismo, que pressupõe a existência de uma Modernidade Europeia, sem considerar a possibilidade de outras “modernidades”. Não nos podemos esquecer que a ideia da Grécia, na Antiguidade clássica, como berço da civilização europeia é uma construção ideológica, e que cria também fronteiras que separam europeus, de não europeus. Esta ideia de Modernidade não reflete os desenvolvimentos e a diversidade cultural de outras zonas do mundo, e também não questiona os pressupostos e conceções que a sustentam (Araújo; Maeso, 2016: 36).

Além disso, a noção de Modernidade Europeia não permite uma verdadeira reflexão, crítica, sobre os efeitos do colonialismo. Neste contexto e seguindo este raciocínio parece ser pertinente relembrar as argutas palavras de Homi K. Bhabha, para quem “a história dos sonhos antigos da modernidade pode ser encontrada na obliteração do momento colonial e pós-colonial. Ao resistir a estas tentativas de normalizar o demorado momento colonial, podemos oferecer à era pós-moderna uma genealogia que seja ao menos tão importante como a história aporética do Sublime ou o pesadelo da racionalidade de Auschwitz”.(Carlos, 1998: 13).

No ensaio Traveling Theory, publicado em 1982, Edward Said, introduz a metáfora da viagem para melhor demonstrar como as teorias viajam, no tempo e no espaço; e analisa ainda a forma como estas são transferidas, integradas num processo que está sempre dependente das condições da sua aceitação (produção, recepção, transmissão), mas também de resistências (Frank, 2009:61). Neste contexto, torna-se interessante observar, que de acordo com Michael C. Frank, os conceitos viajam melhor que as teorias[8], e que a obra – Orientalismo – continua a ser uma fonte de onde provêm vários “conceitos viajantes”, entre eles, o conceito de “geografia imaginativa”, que constitui uma viragem de foco, desde os anos 80, relativamente ao conceito foucaultiano de “discurso” (Frank, 2009: 63). Aliás, o próprio autor, Edward Said reconhece, no post- scriptum à edição de 1995, “que o Orientalismo, de forma quase borgiana, se transformou em vários livros diferentes” (Said, 2004: 392).

GEOGRAFIAS IMAGINATIVAS

Para que se possa vislumbrar, com maior nitidez, os contornos do Orientalismo, parece ser pertinente explorar o conceito de “Geografia Imaginativa”- cunhado por Said, e analisado em pormenor por Al – Mahfehdi, no artigo intitulado “Edwards Said´s “Imaginative Geography” and Geopolitical Mapping: Knowledge/Power Constellation and Landscaping Palestine”.

Como vimos nas páginas iniciais deste texto, o orientalismo pode ser visto, como “um estilo de pensamento baseado na existência de uma distinção ontológica e epistemológica, entre o Oriente e (na maioria dos casos), o Ocidente”, ou seja uma “Geografia imaginativa”, na forma como reduz os lugares, os territórios, as geografias a espaços de desigualdade e diferença, não considerando as ligações de parceria e o carácter híbrido destes lugares. Aliás, como Lucas P. Arruda faz notar, é necessário criar a ontologia do oriental, ou do asiático, neste caso, referindo-se ao caso indiano, para que se possa construir, em oposição ao outro, uma ontologia britânica (Arruda,2019:268); mas que se afigura possível ser aplicável a outros contextos e a outras geografias no âmbito colonial.

As “Geografias Imaginativas”, representam, assim, formas de pensar, de encarar, de apreender os territórios, os lugares, criando sempre espaços de divisão, fronteiras, entre a “Nossa Terra” e a “Terra dos Outros”, ou dos “Bárbaros”(Al- Mahfedi, 2011:3); ou usando a expressão de Boaventura de Sousa Santos, reforçando a “linha abissal”[9], que nos separa a Nós Europeus dos Outros, do Sul Global.

Al – Mahfedi faz também notar que as “Geografias Imaginativas” não resultam apenas de um pensamento cognitivo ou racional, direcionado a um determinado território, pois são moldadas por um conjunto de imagens, expectativas, fantasias, preconceitos e valores de comparação, ou uma certa “Poética do espaço”, usando o conceito de Bachelard (Al- Mahfedi, 2011:9). Além disso, podemos observar como esses valores de comparação são também valores simbólicos; no fundo, representam um capital simbólico[10] que é utilizado de forma hegemónica.

Além disso, as “Geografias Imaginativas” podem ser também performativas, como advoga Derek Gregory, em Imaginative Geographies (1995), no sentido em que podem ser construtoras das imagens pensadas ou imaginadas, promovendo a legitimação dos processos de desumanização do Outro, de violência contra o Outro e contra a Terra dos Outros.

Edward Said fala-nos também da existência de uma história imaginativa: “Porque não restam dúvidas de que a geografia e a história imaginativas ajudam a mente a intensificar o próprio sentido de si mesma mediante a dramatização da distância e da diferença entre o que está próximo dela e do que se encontra longe” (Said, 2021: 93).

Analisando as várias direções que as “Geografias Imaginativas” podem seguir, Al – Mahfedi recorre à figura da espiral e da sua dinâmica, para explicar estes processos e padrões de alteridade (Al- Mahfedi, 2011:5, 6). Esta figura geométrica – a espiral – auxilia-nos a entender como as “Geografias Imaginativas” podem, por um lado, seguir um sentido centrípeto, encerrando-se sobre si mesmas, num modelo perpetuador de alteridade, dando destaque à distância, às diferenças e às fronteiras, num processo que legitima a desumanização do “Outro”. Por outro lado, se considerarmos a possibilidade de um sentido inverso, centrífugo podemos imaginar novas geografias, mais humanas, numa direção que, de forma mais ampla, poderá dar lugar a novas formas de pensamento, de criação de conhecimento e de reconhecimento da necessidade de integrar outras abordagens, visões, valores e cosmovisões. Neste caso, e como Said pretendia, a visão, perspetiva, o olhar do lado “Oriental”.

É importante esclarecer que as “Geografias Imaginativas” não são algo irreal, inventado ou ilusório. São imaginativas no sentido em que são apreendidas, compreendidas, ou seja evidenciam a forma como um território é pensado e imaginado, através de imagens, valores e práticas discursivas. Said também nos dizia que o poder ou a força colonial não está apenas em “soldados e canhões”, mas também em “imagens e imaginários” (Grimberg, Dorfman, 2016:272). No entanto, não podemos deixar de assinalar, que apesar desta análise em torno das “Geografias Imaginativas”, o objetivo de E. Said era a construção de uma Geografia mais humana (Al-Mahfedi, 2011:13,14). E parece ser claro que estas só podem ser construídas, na desconstrução das geografias imaginativas de carácter centrípeto.

Tal como o Orientalismo, a noção de Geografia Imaginativa, diz muito mais da forma de pensar europeia, do que dos territórios ou geografias que pretende analisar, estudar ou intervir, ou seja “a forma como imaginamos um continente, um país, uma região ou uma rua influencia no modo como decidimos agir sobre esses espaços”(Grimberg, Dorfman, 2016: 272). Para Daniela Grimberg e Adriana Dorfman “entidades geográficas como Oriente e Ocidente (…) foram historicamente construídas como contrastantes e opostas, com o Ocidente apresentando –se como racional, histórico, moderno, democrático e masculino, e o Oriente aparecendo como irracional, eterno, atrasado, fundamentalista e feminino”(Grimberg & Dorfman, 2016: 272), ideia que nos parece próxima da ideia de “Choque de civilizações” proposta por Samuel P. Huntington[11], que defende que no período da Pós-Guerra Fria os principais motivos de conflito não seriam políticos, económicos ou ideológicos, mas eminentemente culturais.

No entanto, esta teoria defendida por Huntington é criticada por E. Said, num pequeno ensaio designado de “O Choque das Ignorâncias”[12], onde o palestiniano argumenta que esta ideia de choque de civilizações é uma “frase feita”, uma ideologia que olha para as civilizações e para as identidades como dimensões herméticas, e que não contempla que são realidades que foram permeáveis a trocas, partilhas e cruzamentos de saberes, ou nas palavras de Said “uma miríade de correntes e contra -correntes que animam a história humana” (Said, 2002: 28). Esta ideologia – choque de civilizações– serviu mais o propósito de reforçar a separação entre os povos, do que para fornecer uma construção crítica, que abrisse novos caminhos, e que considerasse as influências, intercâmbios e as aprendizagens dos saberes e dos conhecimentos de outras culturas.

Said menciona o rigor da obra do autor indiano K. M. Pannikar, Asia and the Western Dominance – A Survey of the Vasco da Gama Epoch on Asian History 1498 – 1945 (publicado 1953). Pannikar demonstra como a relação entre a Ásia e o Mundo Ocidental se tem caracterizado pela dominação, em diferentes graus de complexidade e relembra que “na Era da dominação política da Europa sobre a Ásia (de 1860 a 1948) foi geralmente esquecido por parte dos escritores europeus, que a Ásia não só levou de empréstimo, mas contribuiu em grande parte para o crescimento das civilizações ocidentais” (Panikkar, 1953: 461).

Vemos, assim, como o Ocidente, optou por esquecer, ou omitir os contributos provenientes da Ásia para construção do mundo Ocidental. O historiador britânico Hugh Trevor-Roper, chega mesmo a afirmar, em A Formação da Europa Cristão (1965), que nos últimos 500 anos, apenas a história europeia teria importância, desprezando o papel dos outros continentes na construção da história do Mundo (Barbosa, 2017:1). Neste contexto, em que a Europa se considera a legítima herdeira de todos os avanços e desenvolvimentos (que no fundo corresponde à premissa inicial do Eurocentrismo), parece ser pertinente convocar a obra “O Roubo da História”, de Jack Goody.

O ROUBO DA HISTÓRIA

Market in Gaza”, ca 1900, Johann Viktor Krämer

Jack Goody fala-nos das várias apropriações, por parte do Mundo Ocidental, de saberes, conhecimentos e valores existentes em outras geografias; e destaca o facto da Europa ter encoberto a História do Mundo, onde impõe uma perspetiva e uma periodização histórica ocidentais. Para além do “roubo” de algumas noções como o Tempo e o Espaço, e de invenções, como por exemplo a bússola, menciona também algumas instituições – as cidades e universidades – e de alguns valores que foram apropriados pela Europa, tais como o humanismo, o individualismo ou democracia, valores que tinham também paralelos no Oriente. E até as formas como nos habituamos a ver e a representar o mundo, através da cartografia, colocam sempre a Europa no Centro, mas nem sempre foi assim. A Europa impôs, para além do domínio político e económico, também o domínio de uma narrativa histórica[13].

No entanto, já antes de Goody, outros autores defendiam que o desenvolvimento ocidental e europeu, seria também uma consequência dos avanços, concretizações e inovações realizadas pelo Oriente, tal como advoga John M. Hobson, em The Eastern Origins of Western Civilisation (2004), ou ainda alguns anos antes, Andre Gunder Frank, numa visão, considerada por alguns, radical e asiocêntrica – em ReOrient: Global Economy in the Asian Age, publicada nos anos 90 – que advoga que até ao final do século XVII a Ásia estaria mais desenvolvida do que a Europa (Barbosa, 2017:1-2).

Neste contexto, Boaventura de Sousa Santos refere que “Na longa duração histórica a direção das relações entre ocidente o oriente é menos de sentido único do que de pêndulo: durante séculos dominou o oriente, desde há dois séculos domina o ocidente”; e ainda relembrando Hegel: “A história mundial viaja de oriente para ocidente; por isso a Europa é o fim absoluto da História, tal como a Ásia é o começo” (Santos, 2022: 31). Santos relembra ainda o contributo de 2 autores em particular – Edward Said e Jack Goody – no campo de uma necessária contestação a esta visão dominante da excecionalidade europeia: “Enquanto Edward Said faz uma análise culturalista, Goody centra-se nos processos produtivos e nas trocas comerciais”. Goody demonstra como a perspetiva hegeliana relativamente à história tem sido a dominante, e tenta combater a visão estereotipada que o Ocidente tem do Oriente, explorando e dando a conhecer os imensos contributos do Oriente para construção do Mundo e da História Mundial (Santos, 2022: 31).

Como exemplo desta obliteração dos contributos, que me parece ser interessante de aqui enunciar, é o relativo à Carta Universal dos Direitos Humanos. Balakrishnan Rajagopal denuncia que esta carta universal apresenta um “defeito de nascença”, pois surge como universal, mas sem qualquer pedido de contributo às geografias não ocidentais[14]. Além disso, a existência de um conjunto de valores europeus ou ocidentais associados aos direitos humanos, é um pressuposto que desconsidera a existência de valores idênticos noutras zonas do Mundo. Neste contexto, relembro o que Felwine Sarr advoga: a necessidade de África “reabilitar o seus valores de jom (dignidade), de viver em conjunto, de téraanga (hospitalidade), de kersa (pudor, escrúpulos), de ngor, (sentido de honra), exumando e revivificando o humanismo profundo das suas culturas” (Sarr, 2022: 145).

A Carta ou Declaração Universal dos Direitos Humanos foi criada, em 1948, como sendo “universal”, no entanto, não considerou a existência de valores das culturas não ocidentais, como os que acabei de referir. Muitas vezes estamos tão enraizados a determinadas convenções, que advêm de uma perspectiva eurocêntrica e ocidental que nem nos damos conta da amplitude de tais convenções, no nosso dia-a-dia.

CONHECIMENTO PURO / POLÍTICO

Said distingue conhecimento puro de conhecimento político. Esta distinção, ou melhor a argumentação de Said, de que não existe conhecimento puro, apolítico, pois todo o conhecimento está sujeito à questão das subjectividades e traços de formação da pessoa que cria ou constrói esse conhecimento (Said, 2004: 10), relembra os mitos da criação de conhecimento de que nos fala Grada Kilomba, no fresco ensaio “As memórias da plantação. Episódios de racismo no quotidiano”: o mito da objectividade, da universalidade e da neutralidade (Kilomba, 2019: 49-56), ou seja, os mitos criados pela epistemologia ocidental.

A forma de criação de conhecimento baseada na epistemologia cartesiana conduz-nos a uma teia muito intricada de dicotomias e de estruturações de ideias que nos tornam prisioneiros sempre das mesmas fronteiras à liberdade de pensamento: Corpo e Mente; Racional e Irracional; Homem e Natureza; Nós e os Outros; Civilizados e Bárbaros. Apesar de alguns avanços e recuos na forma como encaramos parte do mundo, que não é o nosso, continuamos a tropeçar nas dificuldades que temos em nos darmos conta que muito pouco ainda conhecemos sobre as outras culturas, outras formas de pensar e de criar conhecimento, em suma, outras cosmovisões e epistemologias.

HIBRIDISMO

Tanto para Said, como para outros teóricos dos estudos pós- coloniais, como Homi Bhabha, o conceito de hibridez (ou hibridismo) é fundamental como arma contra o colonialismo. Na sua origem, a palavra hybrida (em latim) foi usada para referir o que resulta do cruzamento entre animais (ou plantas) que têm naturezas diferentes. Tem vindo a ser usada para designar o que resulta da mistura de seres com naturezas diferentes, mestiçagem, produto do cruzamento de culturas, etc.

Said defende a utilização de um método de “vai e volta”, humanista, que designa de “leitura em contraponto”, evitando os essencialismos; ou seja, reconhecendo o carácter híbrido das histórias entrelaçadas e sobrepostas existentes no Mundo, de Norte a Sul e de Oeste a Leste.

“Abraçar um hibridismo, defender a coexistência, rejeitar totalizações e reducionismos, tudo isso faz parte da tentativa de Said de estabelecer um lugar crítico ao imperialismo cultural” (Caixeta, 2015: 71, 65).

De acordo com Pedro Andrade “As literacias híbridas constituem uma condição necessária para a desconstrução do discurso colonial e a posterior reconstrução das literacias e literaturas pós-coloniais”. No entanto, não podemos entender a literacia pós-colonial apenas como o acrescento de literacias provenientes de zonas não ocidentais às literacias ocidentais. “Em vez disso, as literacias híbridas, geralmente operam através de tipos complexos e múltiplos de competências e performances, ativados por agentes sócio-culturais identitariamente diferentes, envolvendo a leitura, a escrita não apenas no interior das suas próprias culturas, mas também e principalmente no seio de estruturas estrangeiras”. E “de facto, as literacias híbridas muitas vezes trabalham para desenvolver multivocalidades de alteridade” (Andrade, 2016: 525).

Podemos, nos dias de hoje, observar a existência de uma crescente interculturalidade, que é também visível em discursos científicos, historiográficos, sociológicos, políticos ou artísticos. Vivemos em sociedades cada vez mais híbridas e interculturais. Ter consciência da presença deste hibridismo ajuda-nos a questionar as formas dicotómicas de observar e compreender as culturas.

AUTORIDADE /ALTERIDADE/ SUBALTERNIDADE

Chegados a este ponto, importa compreender um pouco mais sobre a relação entre a autoridade, alteridade e subalternidade. Said aponta dois dispositivos metodológicos, no que diz respeito à criação de Autoridade: a localização estratégica (ou seja, a posição do autor e a sua subjetividade) e a formação estratégica, ou por outras palavras, a forma como os textos vão adquirindo densidade e se vão legitimando e ganhando destaque, assumindo poder na cultura em geral. A localização estratégica “inclui o tipo de voz narrativa que ele adopta, o tipo de estrutura que constrói, os tipos de imagens, temas, motivos que circulam no seu texto – tudo isso resumindo-se a modos deliberados de dirigir-se ao leitor, de dominar o Oriente e, finalmente, de representá-lo e de falar no seu lugar” (Said, 1990: 32).

Podemos aqui refletir sobre se a expressão “localização estratégica” de Said não será próxima da ideia de “lugar de fala”, ou de “poder tomar a palavra”, na expressão usada pela indiana Gayatri Chakravorty Spivak, uma das primeiras mulheres precursoras dos estudos pós coloniais. No seu ensaio “Pode a subalterna tomar a palavra?”, Spivak apresenta uma feroz crítica ao mundo ocidental, na medida em que problematiza sobre quem tem o poder, ou a autoridade de ter a palavra, quem pode falar em nome de quem, quem pode representar quem; ou seja, quem é o Sujeito, com poder de fala, e quem é o Objeto, de quem o sujeito fala.

O ensaio de Spivak é um trabalho particularmente interessante pela denúncia da colonização intelectual do mundo globalizado. Vemos como Spivak denuncia as questões de poder associadas ao Sujeito, através de uma análise crítica ao diálogo entre Michel Foucault e Gilles Deleuze, sobre “intelectuais e poder”, mas também integrando uma história, que pode parecer meramente ilustrativa, mas não é, história essa, que vai emergindo ao longo da obra, sobre o suicídio de uma jovem ativista, da classe média de Calcutá, em 1926, contra o poder colonial britânico. E Spivak explica-nos a sua escolha: “Escolhi este diálogo amigável entre dois filósofos da História, ativistas, porque ele desconstrói a oposição entre a produção teórica autorizada e a prática sem resguardos da conversação, permitindo vislumbrar os traços da ideologia” (Spivak, 2021: 20).

Michel Foucault é um dos intelectuais que melhor analisa as relações entre discurso e poder, mas, de acordo com Spivak, não reconhece os meandros e a complexidade da subalternidade. Ao assumir que os subalternizados não se conseguem representar a si próprios, o intelectual, ao tentar falar por eles, sobre eles, está a construir o seu objeto de conhecimento – o subalterno – e ao mesmo tempo, a reforçar a sua (do inteletual) Autoridade de Sujeito. Nas palavras de Spivak: “Os participantes nesta conversa põem em realce os contributos mais importantes da teoria pós-estruturalista francesa: (…) que os intelectuais têm de tentar descobrir e conhecer o discurso do outro da sociedade. Contudo, ambos ignoram, sistemática e surpreendentemente, a questão da ideologia e o seu próprio envolvimento na história intelectual e económica.” (Spivak, 2021: 20).

Em Spivak, a condição de subalterno(a) não é uma condição de classe, no sentido marxista do termo, mas uma condição relacional, que depende dos discursos de poder (Spivak, 2021:8); e destaca a complexidade e multiplicidade das identidades subalternas, rejeitando generalizações simplistas. Como bem sintetiza António Sousa Ribeiro, que prefacia a edição portuguesa, “construir a subalterna como objeto de conhecimento significa, deste ponto de vista, fazer parte das estruturas de poder que a silenciam.” (Spivak, 2021:11).

Lucas da Costa Maciel aprofunda ainda mais esta problemática: “O problema para Spivak estaria na forma em que a Europa se consolida como sujeito soberano da narrativa histórica, produzindo as colónias como outros. Mais do que uma crítica do imperialismo, uma narrativa histórica alternativa requereria, para a autora, um esquadrinhamento do itinerário da consolidação da Europa como o sujeito soberano da história. Neste sentido, seria necessário abandonar a premissa historiográfica, pretensamente universal, de que os arquivos seriam repositórios de factos. Para Spivak, os arquivos são repositórios de factos produzidos pela verdade colonial, isto é, traços de um modo de produção da realidade que se assenta na Europa como sujeito. Inexistiria, assim, um texto que pudesse responder sobre a alteridade que é representada pela violência epistémica do projeto imperialista.” (Maciel, 2021:7).

Notas Finais
A pertinência do Orientalismo nos dias de hoje

Anonymous Venetian orientalist painting: The Reception of the Ambassadors in Damascus, 1511, at the Louvre (Public domain)

Nesta reflexão final retorno à epígrafe de abertura do Orientalismo de Said, que é também uma das que abre este breve texto, a expressão de Karl Marx: “Não podem representar a si próprios; têm de ser representados”. No entanto, em vez de assumir a frase como uma afirmação peremptória, preferiria colocar um ponto de interrogação no final, da seguinte forma: “Não se podem representar a si mesmos?” Este tem sido sempre um dos grandes dilemas da História: quem é representado e por quem? Quem pode falar em nome de quem? Spivak problematiza a questão da representação e questiona a legitimidade do intelectual que se identifica com a causa do subalterno, ao falar em seu nome. No conforto do seu lugar, terá o intelectual legitimidade para falar pelo outro, pelo subalterno? O grande desafio é o de criar um novo posicionamento do intelectual, ou seja uma nova “localização estratégica”, usando a expressão de Said, que permita criar um espaço de fala para os subalternizados, de forma que eles possam também “tomar a palavra” e se representarem a partir dos seus próprios modelos sócio culturais e linguísticos.

Como Achille Mbembe[15] fez notar, Said inicia com a obra Orientalismo um novo campo de estudos, obra que “desconstrói a prosa colonial: isto é a configuração mental, as formas e representações simbólicas que sustentam o projeto imperial”. Além disso, Mbembe também denuncia que a colonização esteve sempre a dizer falsidades e mentiras a seu respeito, e a respeito dos outros, só assim se conseguiu manter em funcionamento (Mbembe, 2008: 2).

E de acordo com Eva Von Kemnitz, o Orientalismo “denuncia vivamente o subtil e persistente conceito eurocêntrico dirigido contra os povos árabes e muçulmanos e contra a sua cultura que, implicitamente, serviu de justificação para as ambições coloniais e imperialistas da Europa e dos Estados Unidos”.[16]

As últimas reflexões não poderiam deixar de ser sobre a mais importante, a mais “cara” “Geografia Imaginativa” para Edward Said: a Palestina. Todos sabemos como a destruição, a violência, a morte e a barbárie assumem nos últimos 3 meses um dos momentos mais extremos das últimas décadas, legitimados por um discurso performativo de “luta contra o terrorismo”. Na sequência do ataque do Hamas, no dia 7 de outubro de 2023, o regime israelita já matou mais de 24 mil palestinianos, entre eles, cerca de 10 mil crianças. O discurso das falsidades e mentiras a respeito do povo palestiniano prevalece. O Ministro da Defesa Israelita, Yoav Gallant pronunciou-se nos seguintes termos: “We are fighting human animals and we are acting accordingly[17] (Nós estamos a lutar contra animais humanos e agimos em conformidade), num tipo de narrativa que pretende legitimar a barbárie, como se os palestinianos fossem sub-humanos, e comunica a decisão de negar ao povo de Gaza o acesso a comida, a combustível e eletricidade, numa violência totalmente desproporcional ao ataque infligido pelo Hamas.

Em finais de dezembro de 2023, África do Sul submeteu no ICJ – Tribunal Internacional de Justiça- em Haia, um processo-crime de acusação de genocídio contra Israel, pelo brutal ataque militar na Faixa de Gaza. A acusação consolida-se ao abrigo da “Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio, adoptado pela Assembleia Geral da Nações Unidas a 9 de dezembro de 1948”[18]. Africa do Sul alega que Israel “tem cometido e está a cometer genocídio” contra os palestinianos na Faixa de Gaza. Esta acusação refere-se à conduta de Israel contra o povo palestiniano, num contexto histórico mais amplo, referindo-se a 75 anos de apartheid, 56 anos de ocupação bélica e 16 anos de bloqueio na Faixa de Gaza.[19] Dos vários países que apoiam esta acusação de genocídio, nenhum pertence ao Mundo Ocidental.[20]

A violência na Palestina tem uma longa história e parece ser evidente a terrível durabilidade e impacto do Orientalismo, nas instituições políticas, sociais, económicas e culturais nos dias de hoje. A “Geografia Imaginativa” da Palestina, posta em prática pelo regime bélico israelita é o culminar de um Orientalismo, na sua pior, mais acutilante e terrível versão, que extravasa a dimensão do pensamento, representação e discurso. Neste caso é a construção performativa de uma Geografia, na sua mais extrema forma, a criação de uma “Terra de Ninguém”, sem povo; uma geografia imaginativa que se vai encerrando cada vez mais no centro da espiral (usando a figura de Al – Mahfedi), negando a humanidade ao povo palestiniano, tornando-o animal, ou pior que animal, para o poder aniquilar. Já não se trata apenas do pensamento tornado discurso, entre “Nós” e os “Bárbaros”. É a construção de uma “Terra de Mortos”.

Por último, gostaria de lembrar as palavras de Edward Said, no prefácio que redigiu em 2003 (ano da sua morte) ao Orientalismo:

Todos os impérios sem exceção, afirmam no discurso oficial, que são muito diferentes dos outros, que as circunstâncias em que vivem são especiais, que têm a missão de esclarecer, civilizar, implantar a ordem e a democracia, e que apenas usam a força como último recurso. Mais triste, ainda, há invariavelmente um coro de intelectuais voluntários que fala paliativamente de impérios benignos e altruístas, como se não devêssemos confiar na evidência diante dos nossos próprios olhos que observam a destruição, a desolação e a morte impostas pela mais recente mission civilizatrice.

(Said, 2004: xvi)

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20 anos da Morte de Edward Said:

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South Africa’s genocide case against Israel is imperfect but persuasive. It may win | Kenneth Roth | The Guardian

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  1. Michel Foucault, citação traduzida para língua inglesa por Derek Gregory (1995). “Imaginative Geographies”. Progress in Human Geography 19.4. p. 457.

  2. Karl Marx, O dezoito de Brumário de Louis Bonaparte. Citação que consta nas páginas de abertura de Orientalismo, de E. Said, edição portuguesa de 2004. Na versão brasileira, editada em 1990, a nota de epígrafe surge de forma ligeiramente diferente: “Não podem representar a si mesmos, devem ser representados”

  3. Devem ser ainda destacadas as seguintes obras: The Question of Palestine (1979), Covering Islam: How the Media and the Experts Determine How We See the Rest of the World (1981), Blaming the Victims: Spurious Scholarship and the Palestinian Question (1988), e Peace and Its Discontents: Essays on Palestine in the Middle East Peace Process (1995). Para mais informações: https://www.mppm-palestina.org/content/nos-20-anos-da-morte-de-edward-said

  4. Gupta, p. 3 e 4.

  5. No colóquio “Vida, Pensamento e Obra de Edward Said”, realizado em 2009, pela Direcção Nacional do MPPM – Movimento pelos direitos do povo palestiniano e pela Paz no Médio Oriente, no anfiteatro do ISCTE-IUL, em Lisboa. Disponível em: https://www.mppm-palestina.org/content/edward-said-vida-pensamento-e-obra

  6. Oriente e Ocidente são expressões latinas (Oriens e Occidents) que designam, respetivamente, o Leste e o Oeste. No entanto, podem significar territórios distintos para pessoas diferentes, de acordo com o seu lugar em que se posicionam. (Gupta, 4)

  7. Tradução nossa.

  8. Por terem maior flexibilidade, no sentido em que um conceito pode ser isolado do seu campo teórico inicial e depois ser integrado num outro contexto teórico; ou seja, os conceitos são mais facilmente interdisciplinares, pois cada conceito pode ser utilizado para consolidar várias teorias (Frank, 2009: 62).

  9. “linha abissal” deriva do conceito de “pensamento abissal”, cunhado por Boaventura de Sousa Santos. Este pensamento associado à epistemologia cartesiana, enfatiza a existência de uma profunda, abissal, separação hierárquica, e excludente dos do lado de lá da linha abissal: O Sul Global. É ainda um pensamento que produz várias lacunas, omissões e fragmentos no processo de conhecimento. Para mais informações ver: Santos, B, S. (2007), “Para além do Pensamento Abissal: Das linhas globais a uma ecologia de saberes” In Novos Estudos –CEBRAP n. 79 Nov. São Paulo.

  10. usando a expressão de Pierre Bourdieu.

  11. Huntington, S.P (1999). O Choque de Civilizações e a mudança na ordem Mundial. Gradiva

  12. Publicado na Revista História, n.º 41, em janeiro de 2002 .

  13. Goody, J. (2008). O Roubo da História. Como os ocidentais se apropriaram das ideias e invenções do Oriente. Editora Contexto. São Paulo.

  14. Santos, B. S.; Martins, B. S (2019). O pluriverso dos direitos humanos: A diversidade das lutas pela igualdade, Centro de Estudos Sociais. Universidade de Coimbra. Edições 70. p. 18.

  15. Mbembe, A. (2008). Entrevista “What is postcolonial thinking?”. Esprit. Eurozine. (tradução nossa)

  16. Frase de Eva Von Kemnitz, no colóquio “Vida, Pensamento e Obra de Edward Said”, realizado em 2009, pela Direcção Nacional do MPPM – Movimento pelos direitos do povo palestiniano e pela Paz no Médio Oriente, no anfiteatro do ISCTE-IUL, em Lisboa.

  17. https://www.middleeasteye.net/news/israel-palestine-war-fighting-human-animals-defence-minister

  18. “In the present Convention, genocide means any of the following acts committed with intent to destroy, in whole or in part, a national, ethnical, racial or religious group, as such : (a) Killing members of the group; (b) Causing serious bodily or mental harm to members of the group; (c) Deliberately inflicting on the group conditions of life calculated to bring about its physical destruction in whole or in part; (d) Imposing measures intended to prevent births within the group; (e) Forcibly transferring children of the group to another group” https://treaties.un.org/doc/publication/unts/volume%2078/volume-78-i-1021-english.pdf

  19. https://www.theguardian.com/commentisfree/2024/jan/13/south-africa-israel-genocide-the-hague

  20. https://www.newarab.com/news/where-do-countries-stand-south-africas-genocide-case

Sugestões de Cinema: Plágio de Realizadoras e Filmes Europeus Históricos de 1950-1965

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Por sugestão da irrepreensível cinéfila Mafalda Simão Leal, destacamos, numa panorâmica geral, algumas mulheres no cinema eo seu papel neglicenciado em relação aos homens. Repare-se na técnica avançada de Yuliya Solntseva, cineasta soviética, em Повесть пламенных лет, Chronicle of Flaming Years, a primeira mulher a ganhar um prémio em Cannes, uma Soviética, em 1961. Filme de uma superioridade técnica abismal, é um drama de guerra. Há um documentário na Filmin sobre as mulheres negligenciadas no cinema. Pode descrever-se essa omissão das mulheres no cinema como vergonhosa e, mais grave, como realizadores homens que plagiaram sem dar crédito, como o Ingmar Bergman fez a Agnés Varda no filme Persona, em que posteriormente as cenas de perfil tornaram-se a imagem de marca dele, ou Akira Kurosawa fez à Russa do filme acima referido. Na imagem, dois exemplos: o arco-iris de cima é de um filma da Yuliya Solntseva,anterior ao filme debaixo do Akira “Dreams”, e a imagem de cima é do filme We Were Young da Binka Zhelyazkova, anterior à cena debaixo que é da infância de Ivan do Tarkovsky. Deixamos a recomendação da película em vários capítulos Women Make Film – As Mulheres Fazem Cinema, de Mark Cousins, presente em https://www.filmin.pt/serie/women-make-film-as-mulheres-fazem-cinema.

Em segundo lugar, abordamos, a propósito de filmes históricos da década de cinquenta e sessenta de Hollywood, a superioridade não só da realização mas também na habilidade técnica em geral e na verosimilhança histórica da parte do continente europeu, incluindo Rússia, em relação ao conteúdo mais mainstream e barato, em todos esses aspectos, do filme histórico norte-americano.

Um exemplo pristino é Guerra e Paz, película episodica de origem soviética, de Sergei Bondarchuk, filmada entre 1966–1967.

A superioridade da realização neste filme é bem evidente, assim como a exactidão histórica em pormenores como vestuário da época, muito diferente das liberdades industriais a que a indústria americana sujeitava recriações de períodos quer da antiguidade quer da modernidade. Apesar de lendários em direito próprio, películas como Cleópatra, Ben-Hur, Os Dez Mandamentos, Quo Vadis, podem ser descritas, de modo um pouco severo, como americanada artificial e mal amanhada. Além do vestuário, a maior parte dos cenários destas películas eram artificiais, captados em estúdio. A realização não era também necessariamente autoral, nem dotada de qualidade individual relevante, dominando o produtor e não o realizador, conforme os grandes produtos comerciais que se pretendia que fossem.

Outros exemplos de notáveis películas europeias neste género são Chronicle of Flaming Years (1961), Ivan’s Childhood (1962), The Leopard (1963), The Cranes Are Flying (1957), e até mesmo Macbeth, de Roman Polansky, ou Il Vangelo Secondo Matteo, de Pasolini. Deixamos aqui as sugestões, alguns excertos e uma breve galeria.

Autopsicografia – um mapa da atividade mental de Fernando Pessoa

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AUTOPSICOGRAFIA

poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

assim nas calhas de roda Gira,
a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

FERNANDO PESSOA

Publicado em novembro de 1932 na revista Presença, o poema surge no seu testemunho manuscrito, com a data de 1/4/1931 (Ferreira, 2018), pouco provável, mas que, curiosamente, coincide com o dia das mentiras. A fixação do texto publicado apresenta algumas diferenças face à anterior versão manuscrita, nomeadamente na primeira e na terceira estrofes.

O poema é composto por três quadras, com rima cruzada e versos em redondilha maior (sete sílabas métricas).

Começando pelo título, que interpretámos como um mapa mental da poética de Fernando Pessoa, a forma tripartida remete, numa das suas possíveis leituras, para o lado racional, tomada na aceção de atividade mental, mas também para o lado sensível (psico)1, da sua (auto) escrita poética (grafia). Na verdade, todo o poema vai refletir sobre a arte poética de Fernando Pessoa, e, em última instância, dos poetas em geral, quando desenvolve a ideia da racionalização das emoções e da transfiguração do real.

O poeta é um fingidor. O fingimento, em Fernando Pessoa, é uma forma de relação com a realidade, é uma forma de ver a realidade na poesia. O fingimento configura uma dramatização, a criação de uma persona do poeta, o fingidor.

Ora, a exploração deste fingimento parece dar igual primazia à linguagem como significante e como significado. Como diz Eduardo Lourenço, a sua poesia “vive, ao mesmo tempo, da agonia da imagem do Poeta como criador (…) e da [agonia] da Poesia como pura modulação do sentimento e da emoção espontâneos” (Lourenço, 1986:65).

Assim, à dor (real), a que deveras sente, motivação real e primeira que vai ser transfigurada no poema, acresce a dor (fingida), a racionalização da primeira, a “pura modelação” (Idem), que, por sua vez, irá desencadear o surgimento de uma terceira dor (sugerida pela leitura), fora do poema, em que a palavra é transformada em emoção pelo leitor e a que este acede de forma individual. Esta emoção a que o leitor adere só é possível pela existência prévia de uma outra dor (real), desta feita, a que faz parte da história de vida do leitor, que pode ser temporalmente próxima ou distante, mas essencial para uma identificação mental da emoção a que acede ao ler a dor fingida.

Há, portanto, na poesia de Pessoa, uma transferência do real através de um processo de racionalização em vários graus (real, fingimento, sugestão, real). O leitor, usando o mesmo significante, apropria-se não da dor real propriamente dita (do poeta), mas de uma sugestão desse real, acabando por inferir outra dor que, ao ser lida, é interpretada pelo leitor, recorrendo à memória. É nesta altura que, acreditamos, por empatia e associação, se dá uma transposição psicossomática. Desta forma, a dor lida passa a ser uma dor real (do leitor). Não se tratando de uma dor física, mas empática, pode, em caso excecionais de empatia, conduzir a uma manifestação somática, como seja através de manifestações de tristeza ou incómodo, no caso da dor, ou de alegria e satisfação, no caso de um sentimento positivo.

De facto, o leitor acede, depois do processo já descrito, a esses para-sentimentos, criando os dele, porque, desta vez, são todos seus, ainda que semelhantes aos que nortearam o processo de fingimento do poeta.

Este processo de transfiguração do real, de fingimento múltiplo, devia permitir ao poeta o autoconhecimento, o conhecimento da sua verdade. Na esteira de Lourenço, contudo, esse processo não torna o poeta mais ciente de si, porque a consciência dessa necessidade de fingimento impede o conhecimento da “Verdade – no plano das sensações, dos sentimentos, das emoções e das ideias”2 (idem). Daí o comboio de corda que tem por missão entreter a razão. É o coração, são as emoções que potenciam a racionalização. Sem a razão, e este processo de fingimento, seria impossível que o leitor, quem lê, conseguisse sentir.

Essa consciência de que se escreve para um leitor é determinante em todo o processo. A existência dessa alteridade é a potência para a racionalização do real. Ainda que a dor exista deveras, na arte poética só a existência de um leitor permite o processo de fingimento que leva, em última análise, à sugestão de uma dor que nem o leitor nem o poeta têm. Assim, a poesia não é um mero espaço confessional do eu, mas antes um processo de criação ou sugestão de emoções.

O mesmo propósito é descrito no poema Isto, onde o mesmo fingimento termina no célebre verso Sentir? Sinta quem lê. É curioso que este poema é publicado na Presença em 1933, como se de uma resposta se tratasse.

No que se refere, ainda, à questão da dor, não concordamos com as considerações apresentadas por Américo Lindeza Diogo e Rosa Sil Monteiro sobre a dor como uma “palavra tridimensional que remete para a etimologia, e funciona, à partida (e à chegada), como ‘click’ e macrotextualidade” (Ferreira, ibidem). Na verdade, a nosso ver, não está em causa a palavra dor per si, mas a designação de uma emoção. E, como emoção, poderia ter sido substituída pelo poeta por uma outra como tristeza, melancolia ou contentamento, por exemplo, sem que se perdesse o seu caráter axiomático.

Na última quadra, o eu, que até esse momento se tinha mostrado impassível e imune às emoções, parece desiludido e frustrado ao referir-se ao comboio de corda que gira para entreter a razão. Na verdade a utilização do verbo entreter, parece remeter para algo inconsequente, é como se tivesse consciência da sua incapacidade, de que também nos dá conta em Gato que brincas na rua, de retirar plenamente a ponte entre “as suas emoções e o verbo”, de que nos fala Eduardo Lourenço (Lourenço, 1986:65). Aqui, Pessoa intui uma outra realidade, a que ele chama de essa coisa é que é linda no poema Isto. Essa coisa é a arte. Essa coisa é o belo. É o exercício de ver o “caos sensível”, como diz José Gil, a que só os artistas podem aceder, e aí descobrir aquilo que se encontra entre o caos e a linguagem (Gil, 2020:15). É aqui que está a “Verdade”, de que fala Lourenço, e que está vedada aos “seres conscientes” (Lourenço, ibidem), pela impossibilidade de nos libertarmos do verbo. Pessoa ainda luta com a linguagem. O significante ainda depende de um significado para ser sugerido ao leitor e interpretado por este.

A geração da Presença, corporizada em José Régio, em que se valorizou a originalidade, a sinceridade e o “culto da personalidade” (Lourenço, 1958), patentes na “literatura viva”, aquela em que o “artista insuflou a sua própria vida”, como escreve Régio (Régio, 1927) viu-se a braços com um problema. Apesar de ter colocado Fernando Pessoa do lado dos autores da literatura viva, a verdade é que terá havido uma hesitação, pelo facto de Régio considerar a poesia de Pessoa como demasiado racional e pouco imbuída dessa “vida própria” do artista. Como diz Eduardo Lourenço, essa geração, ao fixar-se no problema da “sinceridade”, não percebeu que Pessoa trazia uma “poesia – outra”, inovadora, em que “sentimentos, emoções e emoção «comunicavam» quando o Poeta se sentia, não apenas um eu inspirado, mas um eu eleito” (Lourenço, 1985:65).

Ora, regressando um pouco mais à questão ao comboio de corda que gira a entreter a razão, Pessoa parece intuir que a sua poesia é um fragmento de uma realidade maior. Essa coisa, a que só os artistas acedem, em Pessoa resulta em poesia, em Bach transforma-se em música, em Paula Rego numa pintura. Definir a arte é falar de algo maior do que nós, maior do que os próprios artistas. Contudo, eles são os privilegiados que a ela acedem, que vislumbram a sua luz e se comprazem nela. Aos comuns mortais, apenas é permitido um pequeno vislumbre dessa luz através das obras dos artistas.

Tentando ir mais fundo na questão.

A ideia da concretização da criação artística, em geral, e a poesia, em particular, tem sido motivo de discussão ao longo da história. E os poetas não foram imunes a essa demanda para descobrir o que é a arte poética.

É o caso do poeta e critico inglês Samuel Taylor Coleridge (1777-1834). Figura do romantismo inglês, “a diversidade da escrita de Coleridge, que vai da poesia à ensaística, da crítica à marginália, rivaliza com a de Pessoa” (Castro, 2014:59). Coleridge parece ter uma obra extensa, onde figuram muitos fragmentos. Ainda assim, parece não escapar ao problema da revisão contínua da sua obra, o que também acontece com Pessoa, tendo deixado “versões diferentes dos seus poemas”, revisto trabalhos antigos e tendo composto versos adicionais para poemas já publicados. (ibidem). A esta questão voltaremos mais à frente.

Ora, um dos poemas de Coleridge, que mais terá fascinado Pessoa, leitor do poeta desde a adolescência, foi “Kubla Khan”. A este propósito, Mariana Grey de Castro descreve minuciosamente as incidências que rodearam o contacto de Pessoa com o poema e, em especial, com o seu Prefácio, pelo que não será pertinente regressar a esse assunto. Contudo, há dois ou três aspetos a que vale a pena aludir.

Assim, é importante referir o curioso episódio em que Coleridge, adormeceu a ler um livro sobre o imperador chinês do século XIII. Enquanto dormia, o poeta compôs, de forma espontânea, em sonhos e de uma assentada, um poema de entre duzentos a trezentos versos. Ao acordar, Coleridge começou a escrever apressadamente o poema como se lembrava.

Nesse momento, o poeta foi interrompido por uma pessoa anónima, alguém que vinha de Porlock em negócios. A interrupção durou mais de uma hora e, quando tentou regressar à escrita do poema, foi incapaz de continuar, por ter esquecido o resto da sua visão.

Apesar de não ter conseguido terminar o poema, “esse quase-poema” foi considerado por Pessoa como um “dos poemas mais extraordinários da literatura inglesa” (Pessoa, 1934:1). Ainda assim, a interrupção, de que resultou a não conclusão do poema de Coleridge, não deixou de merecer a atenção do poeta português. Na verdade, é ele que no-lo diz, no seu O homem de Porlock quando afirma que “não se sabe – não o disse Coleridge – quem foi aquele ‘Homem de Porlock’, que tantos, como eu, terão amaldiçoado” (ibidem).

É bem conhecido o episódio em que o próprio Pessoa tem a sua epifania. Aliás, a ideia da criação espontânea, de um folgo, de um sem número de poemas, mais precisamente “trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase” (Pessoa, 1935), pode ter surgido com Coleridge.

Muito se tem falado sobre a veracidade dos dois episódios. Ivo Castro aponta para várias ocorrências que remetem para “uma abundância de emendas” (cf. Castro, 1986 citado por Castro, 2014:63). A própria cronologia, tanto do Prefácio de Coleridge, como da carta de Pessoa, onde fala do dia triunfal, foram escritos com um desfasamento considerável face ao acontecimento propriamente dito. No caso do poeta inglês, passaram 19 anos; no caso de Pessoa, 20, a contar do dito dia.

Contudo, há, nestes dois episódios, alguns pormenores importantes que vale a pena discutir.

A primeira questão prende-se com a interrupção da composição espontânea, que é representada pela figura do homem de Porlock. Também Pessoa teve as suas interrupções, dado ter interrompido O Guardador de Rebanhos para passar a compor o Chuva Oblíqua, ambos atribuídos a entidades diferentes. Seguiu-se-lhe o aparecimento de Ricardo Reis, a que se seguiu Álvaro de Campos e a sua Ode Triunfal.

Ora, com Castro, concordamos que esta pessoa de Porlock é o “símbolo da frustração da inspiração e do génio visionários” (Castro, 2014:64). Esta figura representa uma parte da dinâmica da criação poética de Coleridge. Aliás, pegando na interpretação feita por Pessoa no seu O Homem de Porlock, este é caraterizado como o interruptor imprevisto, para continuar mais à frente que “tudo quanto verdadeiramente somos, sofre (…) a interrupção fatal daquele visitante que também somos, daquela pessoa externa que cada um de nós tem em si” (Pessoa, 1934).

A outra questão, que resulta destas experiências, é a de que tudo ocorreu no sonho, no caso de Coleridge, e numa espécie de êxtase, no caso do poeta português.

Começando pela primeira questão, é importante introduzir aqui a noção de belo e de como o artista, vamos cingir-nos, por questões práticas, ao poeta, acede ao belo.

Assim, numa definição Kantiana, “o belo é o que é representado sem conceitos como objeto de comprazimento universal” (Crítica da Faculdade do Juízo, 1790 I.6 citado por Ceia, 2009:3). Hegel vai mais longe e afirma que o belo é “em si mesmo infinito e livre” (cf. Ceia, ibidem).

Destas definições, o belo é uma realidade de impossível concetualização, mas de comprazimento universal, em si mesmo infinito e livre. “Hegel defende o belo artístico como o único com interesse estético”, sendo o belo artístico um produto do espírito (idem).

Assim, o poeta acede ao belo através da sua sensibilidade e inteligência. Pessoa fala de um “Outro Mundo de nós mesmos” (Pessoa, 1934). Contudo, acreditamos que esse aceder ao belo não ocorre dentro do poeta, mas fora, pela sua capacidade de intuir esse belo a partir da realidade comum, reagindo a estímulos exteriores. São os sentimentos provocados por estes estímulos que vão ser objeto de fingimento. Ao fim ao cabo, os estímulos estão disponíveis para todos, mas só os artistas acedem ao belo através deles. E isso pode acontecer em qualquer lugar e em qualquer altura. Só é preciso um gatilho que prenda a sensibilidade e a inteligência do poeta.

Porém, assim como este aceder ao belo não tem hora e lugar, ou exatamente por isso, também não é um acesso contínuo. Daí as interrupções. Na verdade, se o poeta tivesse um acesso contínuo ao belo, dificilmente conseguiria escrever um poema. A ligação ao belo implica um estado de separação da realidade para poder intuir a poesia. Por outro lado, são as interrupções que delimitam a totalidade do poema.

A este propósito, vale a pena recuperarmos a última frase de O Homem de Porlock:

E assim, do que poderia ter sido, fica só o que é; – do poema, ou dos opera omnia, só o principio e o fim de qualquer coisa perdida – disjecta membra que, como disse Carlyle, é o que fica de qualquer poeta, ou de qualquer homem.

A ideia de fragmentação presente neste excerto, um conceito aceite a partir do momento em que os fragmentos começaram a ganhar o seu espaço próprio, ainda que representem “nada menos do que o esboço de uma teoria do fragmento” (Pizarro, 2013:99-111 citado por Castro, 2014:66), nada mais é do um elemento que concorre para essa teoria.

Na verdade, a ideia de que a fragmentação é uma motivação artística revela-se, nesta altura, na própria noção de heteronímia, nas Mademoiselles de Picasso ou na própria obra de Pessoa. “É altamente provável que da mítica arca do poeta às caixa da Biblioteca Nacional se tenha perdido a ordem precária que aproximava fisicamente algumas folhas” (Pizarro, 2007:9). É Pizarro que nos alerta para a necessidade de não tentar desfragmentar esses fragmentos que compõem a obra do poeta. Na verdade, se tentarmos colar os pedaços da jarra que é a obra poética de Pessoa, corremos o risco de deturpar a própria essência da obra. Pessoa quis ser um conjunto de fragmentos. “Pessoa existe? Nos seus papéis, nos seus fragmentos” (Pizarro, ibidem).

Esta questão leva-nos a uma constatação. Se atendermos que o aceder ao belo não é uma ligação contínua, como podemos interpretar como fragmento o poema, mais ou menos elaborado, que daí resultou? Os fragmentos encerram em si mesmo a sua totalidade. Senão, vejamos.

Quando Pessoa se refere aos seus heterónimos, ele parece querer identificar-se como um deles. Aliás, o projeto da criação dos heterónimos é tão vincado que ele parece, a dado momento, dar-lhes primazia em relação a ele próprio.

Hoje já não tenho personalidade: quanto em mim haja de humano, eu o dividi entre os autores vários de cuja obra tenho sido o executor. Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha.

(Pessoa, 2012:142)

Mas porque será tão importante esta necessidade de fazer sobressair os heterónimos?

Tal necessidade prende-se, segundo nos parece, com um conceito que explora em Aspetos, que é o conceito de pessoas-livros. A ideia de que o corpus dos poemas dos seus heterónimos é mais do que um conjunto de fragmentos é o facto de que cada conjunto, englobado dentro da mesma pessoa-livro, representar uma totalidade, ainda que momentânea.

Cada personalidade dessas – reparai – é perfeitamente una consigo própria, e, onde há uma obra disposta cronologicamente, como em Caeiro e Álvaro de Campos, a evolução da pessoa moral e intelectual do autor é perfeitamente definida.

(Pessoa, 2012:217)

Na verdade, neste excerto, a ideia da disposição cronológica da obra remete para uma visão em que, sendo a obra uma totalidade, o acrescento de um poema novo é como se acrescentasse uma unidade de tempo – uma hora, um dia ou um ano – à vida do próprio heterónimo.

Segundo Richard Zenith, em 1920, ou eventualmente 1919, a ideia da heteronímia ainda não estaria perfeitamente cimentada em Pessoa. Contudo, o poeta “já tinha conceptualizado integralmente a ideia de pseudo-autores que eram mas não eram ele” (Zenith, 2022:687-688).

Outro exemplo de que Pessoa ansiava imiscuir-se entre os heterónimos era, por um lado, o facto de considerar que ele próprio é discípulo de Caeiro. Desta forma, o poeta do Guardador de Rebanhos seria o mestre de todos os outros e estaria num plano superior aos outros, ocupando Pessoa o mesmo lugar que os restantes heterónimos.

Por outro lado, o poeta assume em Erostratus/Heróstrato a vontade de ser um entre muitos:

Ninguém deveria deixar vinte livros diferentes, a menos que seja capaz de escrever como vinte homens diferentes. […] Se conseguir escrever como vinte homens diferentes, é vinte homens diferentes.

(Ibidem)

Ou seja, a ideia de fragmento, seja referindo-nos a um poema, seja à obra de um heterónimo, encerra em si mesma a ideia de totalidade.

Neste sentido, como podemos interpretar a aceção de Coleridge, e, depois, de Pessoa, de que da interrupção da pessoa de Porlock tinha dado origem a um fragmento?

Esta questão prende-se com a forma como o poeta acede ao belo. Aceder ao mundo onde reside o belo implica entrar num estado de pouca consciência. O poeta acede a esse mundo reagindo a estímulos. Isso pode acontecer em qualquer altura ou em qualquer lugar, desde que surja um gatilho que conduza a sensibilidade para aquele estado intermédio de consciência. O acesso não é contínuo. Daí as interrupções. Mas são elas que delimitam o poema.

Esta não previsibilidade implica que o poeta esteja sempre atento. Talvez, por esse motivo, não sejam de estranhar os cadernos de que se fazia acompanhar Pessoa. Também não será por acaso que, no espólio de Pessoa, se encontram diversos tipos de papéis, enfim, de suportes para os seus poemas. Ora, esta ligação com o belo também é conhecida por inspiração ou criatividade artística, que quase nunca se sabe de onde vem. “Cézanne falava no caos irisado que o pintor apanhava no ar, na palma da mão” (Gil, 2020:15).

Assim, não concordamos com a ideia de que as interrupções do homem de Porlock correspondam a uma expressão fragmentada da alma do poeta, como diz Castro. Na verdade, preferimos a conceção de Sousa Santos que inscreve a fragmentariedade e a interrupção poéticas numa longa tradição anglo-saxónica. E dá o exemplo de vários autores que “dramatizam frequentemente este gesto de interrupção nos seus poemas, ora de forma explícita, ora de forma implícita”, usando a interrupção como “uma muralha e um portal ao mesmo tempo” (Santos, 1983:17 citado por Castro, 2014:66-67).

Ora, a ideia de que o poeta não consegue exprimir a totalidade existe, sim, mas porque ele é incapaz de exprimir todo o belo. O belo é infinito, como já foi dito. E aqui está o busílis da questão. Pessoa sente que é limitado. Por esse motivo, o comboio de corda gira a entreter a razão. E esta é a palavra que marca a sua desilusão.

Voltando à questão da consciência, Eduardo Lourenço diz-nos que Autopsicografia é a constatação de que é “impossível (o) sonho de uma poesia sem fingimento” (Lourenço, 1986:65). Contudo, quando afirma que isto representa a impossibilidade do “contacto entre o homem e a sua verdade”, muito semelhante ao contacto que “une o animal à natureza” (idem), será que se referia ao instinto?, o foco parece estar ligeiramente deslocado do essencial. Na verdade, a possibilidade do homem contactar com a Verdade está vedada aos seres conscientes. Porém, num estado de semi- consciência, ou até de inconsciência, é possível.

A esse propósito, Fernando Pessoa mostra toda a sua frustração quando nos fala de A ceifiera.

Ela canta, pobre ceifeira,/Julgando-se feliz talvez. O sujeito poético dá-nos uma perspetiva de possível felicidade. A ceifeira está no seu afazer, não tem outro tipo de ambições, aquilo que conhece lhe basta. Por isso, canta.

Este sentimento de alegria, demonstrado pela ceifeira, provoca sentimentos contraditórios no eu lírico – ouvi-la alegra e entristece. E esse sentimento duplo advém, sobretudo, do que se passa alguns versos mais abaixo – Ah, canta, canta sem razão!/O que em mim sente está pensando -, e, é então, que ele formula um desejo – Derrama no meu coração/A tua incerta voz ondeando. Surge, então, novamente, o comboio de corda, onde nascem as emoções, os sentimentos, que, neste caso, tem dupla função: ao dizer que está pensando, remete-nos para a racionalização dos sentimentos, mas também para uma tomada de consciência, que ele preferiria não ter.

Acaba por confessar que A ciência/Pesa tanto e a vida é tão breve!. Pessoa reconhece que ser um ser consciente implica, como dizia Lourenço, o contacto com a verdade, que, afinal, é o reconhecimento da sua incapacidade. Só um estado de inconsciência, ainda que não total, pode conduzir à plenitude, à felicidade.

Vale a pena, ainda, debruçarmo-nos um pouco sobre algumas passagens do Livro Do Desassossego, onde o autor nos fala do sonho. Para o efeito, usarei a edição de 2021 de Jerónimo Pizarro.

Comecemos pelo fragmento 141, que diz o seguinte.

Tenho que escolher o que detesto – ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a acção, que a minha sensibilidade repugna: ou a acção, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.

(Pessoa, 2021:193)

No que resta do fragmento, o autor diz-nos que não escolhe nenhum, porque detesta ambos, mas que, quando tiver de sonhar ou agir, irá misturar as duas coisas.

Ora, o autor parece assumir uma dicotomia entre sonho e ação. O sonho, que não é do agrado da inteligência, onde a inteligência não tem valia, mas, talvez, a quem agrade mais à sua sensibilidade, e a ação, que preferiria a inteligência como companheira, mas tem, antes, a sensibilidade.

Assim, o estado de quase inconsciência aparece associado à sensibilidade. É a sensibilidade que permite descortinar dentro do espaço da não consciência plena. Aí, o poeta destrinça o poema. Mas é a inteligência que permite que o poema seja escrito.

É curioso que este trecho seja encabeçado por uma nota em português.

«(Prefácio?)». Esta é a nota deixada pelo editor. Pizarro aponta, como data possível para o fragmento, o ano de 1917. Será que Pessoa teria imaginado começar por aqui?

Passemos, agora, ao fragmento 169. O texto aparece com a data de 1929 e, segundo nota do editor, é encabeçado pelo texto “TRECHO | DO «LIVRO DO DESASSOSSEGO», COMPOSTO POR | BERNARDO SOARES, AJUDANTE DE GUARDA-LIVROS DA CIDADE DE LISBOA» (Pessoa, 2021:231).

O autor começa por falar-nos de uma deambulação pela baixa da cidade, numa era anterior, sentindo-se da mesma época que Cesário Verde. Depois de várias considerações, que o levam para o lado da Alfândega, a descrição centra-se nas sensações que lhe chegam.

Mas há mais alguma coisa … Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder alterar. Ah, quantas vezes meus próprios sonhos se me erguem em cousas, Não para me substituirem a realidade, mas para se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me surgirem de fora, como o electrico que dá a volta na curva extrema da rua, ou a voz do apregoador noturno, de não sei que cousa, que se destaca, toada arabe, como um repuxo subito, da monotonia do entardecer!

(idem, 231-232)

Neste último parágrafo do fragmento 169, que se passa ao entardecer, o autor pressente que algo está para além dele. O ambiente parece propício para um estado de semi-consciência. É, então, que ele tem a noção clara de que os sonhos lhe trazem coisas, que, não pretendendo substituir a realidade, tem relutância em aceitar, por existirem fora dele, como o elétrico ou a voz do apregoador.

A relação que Pessoa estabelece com o sonho no Livro Do Desassossego, primeiro através do heterónimo Vicente Guedes e, depois, do semi-heterónimo Bernardo Soares, é verdadeiramente estimulante. Ainda assim, como esse não é, por si só, o objeto deste ensaio, deter-nos-emos, apenas, num último fragmento, o 193.

Hoje, em meus devaneios sem proposito nem dignidade que constituem grande parte da substancia espiritual da minha vida, imaginei-me liberto para sempre da Rua dos Douradores, do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, dos empregados todos, do moço, do garoto e do gato. Senti em sonho a minha libertação, como se mares do Sul me houvessem offerecido ilhas maravilhosas por descobrir. Seria então o repouso, a arte conseguida, o cumprimento intellectual do meu ser.

(idem, 251)

Sem entrar em grandes interpretações, o sonho parece surgir como um lugar de libertação. O sonho proporcionava-lhe um lugar de repouso, a arte conseguida, o cumprimento intelectual do seu ser.

O sonho, ou um lugar de inconsciência, permitem-lhe vislumbrar o belo, a arte conseguida e a sua realização intelectual. A arte só é conseguida a partir da inconsciência. Só aí reside o belo infinito. É o lugar onde vão todos os artistas.

Em jeito de conclusão, o poema Autopsicografia surge como um mapa da atividade mental de Fernando Pessoa. O facto de ter sido publicado em 1932, revela um poema complexo, em que a arte poética apurada do autor transparece.

A começar, a ideia de que a poesia é fingimento. Este fingimento implica a existência de um leitor a quem se dirige o poema, aquele que e que sente.

Pessoa assume, contudo, uma frustração. O comboio de corda tem de entreter a razão. São as emoções que são a matéria que vai ser fingida no poema, que vai ser racionalizada, contudo, o poeta sente que não consegue atingir a plenitude. Há uma coisa por debaixo do terraço. E essa coisa é que é linda.

Aos poucos vai-se apercebendo que a consciência é impeditiva. Só não percebeu que o que está em causa é o belo, aquele mundo sensível, onde ele muitas vezes esteve, e que ele foi quase percepcionando quando se referiu ao sonho.

Coleridge tinha razão em sonhar. Dizem que o sonho comanda a vida. Será que é mais verdade do que imaginávamos?

Notas:

1 A parte racional permite ao poeta racionalizar os sentimentos, ou seja, permite-lhe o fingimento; o lado sensível permite-lhe a percepção do belo. Na racionalização utiliza a inteligência; na percepção a sensibilidade.

2 Na verdade, como veremos mais à frente, a consciência não se refere, apenas, à necessidade de fingimento. O estado de consciência, ou melhor, de não consciência, é determinante para aceder ao belo.

Referências bibliográficas

Livros

GIL, José (2020) O tempo indomado, Lisboa, Relógio D’Água.

PESSOA, Fernando (2021) O Livro Do Desassossego, edição de Jerónimo Pizarro, Lisboa, Tinta da China.

ZENITH, Richard (2022) Pessoa – Uma biografia, Lisboa, Quetzal. Revistas

CASTRO, Mariana Grey de (2014) “Pessoa, Coleridge, homens de Porlock e dias triunfais”. Revista Estranhar Pessoa, n.º 1, 58-70.

FERREIRA, Teresa Jorge (2018) “Autopsicografias”. Revista Estranhar Pessoa, nº 5, 78-93.

LOURENÇO, Eduardo (1986), “Fernando, rei da nossa Baviera”. Revista de estudos portugueses e africanos, n.º 8, 63-73.

(1958) “Presença ou a Contra-Revolução do Modernismo Português?”, (publicado no volume Tempo e Poesia)

PIZARRO, Jerónimo (2007) “Pessoa existe?”. Revista Veredas, n.º 8, 244-259. RÉGIO, José (1927) “Literatura Viva”. Revista Presença, n.º 1.

Webgrafia ttp://www.pessoadigital.pt/de/pub/Pessoa_Autopsicografia

(Os poemas Isto e A ceifeira também foram pesquisados em www.pessoadigital.pt)

https://revistas.iel.unicamp.br/index.php/epa/article/view/5611

http://www.pessoadigital.pt/pt/pub/Pessoa_O_homem_de_Porlock

https://static1.squarespace.com/static/51d2b64ae4b0a433e9c0c726/t/ 5450e38fe4b0830eb42d5a64/1414587279882/Pessoa%2C+Coleridge.pdf

https://www.casafernandopessoa.pt/pt/fernando-pessoa/textos/heteronimia BELO | cceia (unl.pt)

Chamada para Artigos

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A Revista Minerva Universitária é uma revista de âmbito académico dirigida ao público em geral e tem uma chamada para artigos, aberta permanentemente, sobre todos os temas universitários: Artes e Letras, Ciências, Engenharia, Direito, Arquitectura, Psicologia, Medicinas, Ciências Sociais, e tudo o resto. Escrevam-nos sobre temas das vossas áreas de estudo e investigação ou sobre os tópicos que preferirem. Aproveitem conteúdos desperdiçados — trabalhos para cadeiras e seminários, apontamentos, estudos parciais, trabalhos de campo, relatórios, registos de conversas e debates, etc. — e teremos todo o prazer de ajudar a convertê-los em formato legíveis pelo público em geral. Contactem-nos em geral@revistaminerva.ptrevistaminerva.pt.

Do Racismo Extremo dos “Antirracistas”

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Não dedicamos muitas publicações especializadas a politiquices comuns mas esta é excepção: eis um vídeo de propaganda, com fundos públicos, racista, divisivo, distante da realidade comum de pessoas de todas as raças, de incitamento ao ódio e desconfiança.

Preceitos de teoria “antirracista“, que mais não é do que um discurso extremista baseado em desigualdade cívica com intuito de sorver financiamento e beneficiar alguns “mercadores de escravos” modernos, são apresentados nesse vídeo como se fossem perfeitas banalidades: o “mérito” é uma fantasia; tocar no cabelo de alguém é “racista”; não é “normal” ser branco na europa; uma turbante ou quiçá uma burka não são “exóticos”. No meio do elenco de coisas inócuas descobre-se que tudo configura “discriminação“ e que, afinal, devemos “olhar a cores”.

Não está em causa a liberdade de entidades singulares ou colectivas divulgarem tais conteúdos, e talvez nem sequer esteja em causa a poderem aceder a certos fundos públicos para o fazerem. Mas é fundamental discutir a banalização do abjecto que estes conteúdos representam. A propaganda aqui exposta é de um evidente extremismo distante da realidade comum das pessoas normais que interagem pacificamente umas com as outras e não estão a “olhar a cores“ mais do que aquilo que é natural fazer-se. Isto é obra de extremistas que não vivem no mundo real: e tem ainda um aspecto particular que acresce ao nojo, que é o uso de crianças. Uma coisa, aliás já de si discutível, é meter crianças a fazerem campanhas anti tabagicas ou contra a sinistralidade rodoviária; agora isto? Algo que nem sequer se alicerça em enunciados consensuais, como “não trates mal o próximo só porque é de uma cor diferente“, mas que envolve exercícios completamente abstratos, ideológicos, advindos de quadros teóricos agressivos, divisíveis e totalitários, para passarem como banalidades auto-justificadas?

Rejeitamos em absoluto esta banalização do discurso extremista, da psicose do racismo, da dissolução de instâncias verdadeiras de discriminação naquele que é o comportamento humano natural em qualquer cultura, que é de encontrar diferenças e agir conforme isso de várias maneiras, de preferência maneiras que não ofendam nem o próprio nem o próximo, preceito alicerçado na “regra de ouro“ do “não faças aos outros…“ que serve de base à cultura ocidental e as democracias liberais que permitem tudo isto, os discursos acertados e os de ódio como o desse vídeo.

Pode ser feito o argumento de que os enunciados dispostos no vídeo não configuram racismo em sentido estrito, e que representam simplesmente um ponto de vista de intuito correcional nas relações entre raças que podem eventualmente envolver situações abusivas. Mesmo assim, a mensagem é transmitida de uma forma panfletária e moralizante, e até mesmo para crianças é tosco. O “wokismo”, é bom lembrar, é um assunto tão complexo — não necessariamente das maneiras que os advogados do mesmo entendem — e tão dúbio que o provável é que deva ser circunscrito ao universo dos adultos, e não transportado para as interacções entre crianças onde muitos dos preceitos que o suportam não estão presentes.

Apelamos também assim a que os interessados nos “extremismos” e nos “populismos” no discurso público, quer na coloquialidade quer na política, ou mesmo até na academia, tenham de modo coerente e honesto também interesse não apenas na ascensão das forças nacionalistas, isolacionistas, ou até mesmo etnocentralistas, que posicionamos, em geral, na extrema-direita do eixo político comum, mas também prestem atenção a discursos de ódio como este que, em certos aspectos, fazem os Black Panthers, movimento proto-militar de independência e emancipação dos negros nos EUA, parecerem uns moderados.

Escavando as origens de Ksar Sghir e a conquista portuguesa do Norte de África

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Texto de Cláudia Barros, Mestre em Arqueologia (Instituto de Ciências Sociais, U. Minho); NETCULT – Núcleo de Estudos Transculturais / CEHUM – Centro de Estudos Humanísticos (U. Minho) Resumo: Entre os séculos XV e XVI, os cristãos europeus arriscam-se na conquista de Marrocos. Os portugueses foram pioneiros na arte de navegar pelos mares, provando pela experiência que além-horizonte havia um Novo Mundo a ser descoberto. Em 1415 dá-se o arranque da narrativa portuguesa com a tomada de Ceuta, e a Coroa lusa estabelece-se em Marrocos até 1769[2]. Neste contexto, a conquista de Ksar Sghir (1458) será uma das peças chave para compreendermos os inícios da expansão portuguesa em África. Atualmente, as ruínas do sítio arqueológico de Ksar são testemunhas de um passado antigo, islâmico e português, que têm fornecido aos pesquisadores um amplo campo de estudo[1]. Palavras-chave: Expansão e Descobrimentos Portugueses, Toponímia, Arqueologia Moderna, Ksar Sghir/Alcácer Ceguer, Marrocos.

O Norte de Marrocos é uma autêntica pradaria recheada dos mais encantadores mistérios, os quais guardam memórias de uma época bem relembrada nos livros de historiadores coevos, mas também em parte esquecida e oculta dos olhares cansados daqueles que povoam as zonas mais recônditas e escondidas deste país tão rico e fascinante.

A sul do Estreito de Gibraltar, numa planície com três quilómetros de extensão na margem esquerda do Oued Laksar, encontra-se Ksar Sghir[3], em tempos um populoso centro de comércio. Do ponto de vista geo-histórico, faz parte do território de Anjera (El-Boudjay, 2012: 115), uma zona de relevos acentuados na direção leste e sul, na continuidade do maciço de Rife. A vila encontra-se cercada a oeste pelo Monte do Seinal (77m), a leste pelo Jbel Dehar Roummane (193m) e a sudeste pelo Jbel Ayad (Teixeira, et al., 2016).

Fazendo uso de um leque sortido de termos, os árabes apelidaram Ksar Sghir de várias formas: Qaçr El-Aouwuel, Qaçr Maçmouda, Qaçr El-Medjaz e Qaçr El-Djouaz. O nome de Qaçr El-Aouwel foi-lhe atribuído por El-Bekri. Já os portugueses optaram pela designação de Alcácer Ceguer (Barros, 2021: 67), aproveitando o nome islâmico, Ksar Sghir, aproximando-o da fonética e grafia lusas (Cruz, 2015).

Graças à sua localização, Alcácer tornou-se um importante posto de contrabando, acabando por se formar uma indústria que fornecia armas a toda a região do norte de Marrocos (Michaux-Bellaire & Péretié, 1911: 364).

Na Crónica do Conde D. Duarte de Meneses, Zurara refere-se às habitações locais como estruturas simples implantadas nas serranias, fazendo-o evocar as casas de entre Douro e Minho; à saborosa carne bovina; à abundância de leite e de manteiga, sendo raro e caro o azeite, chegado de longe; à relativa carência de peixe, essencialmente marítimo; à abundância e qualidade da fruta e ao uso e até abuso do vinho (2007: 5-6):

Toda esta gente pella mayor parte he pobre e de pouca cubertura assy pera de noite como pera de dya, sua abitaçõ he nas faldras daquellas serras do que aquella parte toda he acõpanhada, toda sua sperança acerca das riquezas poõe em criaçõ de gaados. (…) Suas casas som feitas ao modo que o som as dantre Doiro e Minho cubertas de colmo ou tabual, os bois e uacas som pequenos pero fortes e de muyto leite, todo gaado grosso e saboroso de comer, todo he gaado manso por que pella mayor parte dormẽnas casas antre a gente. Husã muyto em suas uyandas manteiga, por que aallẽde sua mais doçura carecẽdazeite o qual he antre / elles muyto caro por que o ham de longe. Ham // poucos pescados e estes sam do mar por que nos ryos há caasy nada. Auondã em fruitas e todas de grande sabor, todos pella mayor parte bebem vinho e destẽperadamente.

Atualmente as informações de que dispomos acerca de Ksar Sghir são muito vagas. Em 971, os Omíadas do Al-Andalus tentaram apropriar-se do sítio, após uma expedição ordenada pelo califa al-Hakam al-Moustansir (El-Boudjay, 2012: 115), sendo usado como ponto de partida pelo emir almorávida Youssef Ibn Tachfin, durante a sua segunda passagem para o Al-Andalus, em 481 da Hégira (El-Boudjay, 2012: 117).

Durante o reinado dos califas Abd al-Moumen e Yaakoub al-Mansour, Ksar Sghir tornou-se num grande estaleiro (El-Boudjay, 2012: 117) – onde foi construída a maioria dos navios que se dedicavam ao comércio no Estreito –, num um ponto de transbordo de provisões para o reino de Granada (Redman, 1986) e no porto mais utilizado para as expedições ao Al-Andalus (Michaux-Bellaire & Péretié, 1911: 353):

Yaqoub El-Mançour inicialmente construiu um pequeno castelo (…) Depois, aos poucos, e devido à frequência das expedições, El-Qçar expandiu-se: foram construídas casas e mesquitas, convertendo-se num importante centro industrial; ali se estabeleceram muitos artesãos, tecelões, carpinteiros, marceneiros, armeiros; as florestas da serra de Andjera forneciam a madeira necessária à construção dos navios e reinava no porto uma grande atividade industrial e comercial que fornecia equipamentos e mantimentos aos exércitos que atravessavam o estreito.

Com os almóadas assiste-se a um claro incremento deste papel, ocupando uma função fulcral nas ligações marítimas entre o Norte de África e a Península Ibérica (Teixeira, et al., 2019). A sua localização no Estreito, próximo das costas espanholas, oferecia aos navios um abrigo seguro na baía (Michaux-Bellaire & Péretié, 1911).

Nos séculos que se lhe seguem, Ksar mantém a função de porta de acesso (Moujoud, 2012). Temos registo de que dinastias como a Idríssida, a Almorávida e a Almóada usaram constantemente as enseadas de Ksar Sghir para chegarem à Península. Também os sultões merínidas, Yaakoub Ibn Abd al-Hak, Youssef Ibn Yaakoub e outros, seguem o mesmo caminho nas travessias para o Al-Andalus (El-Boudjay, 2012: 117).

A sua importância começa a diminuir à medida que os muçulmanos perdiam terras na Andaluzia. No final do século XIV, Ksar Sghir muda de destino, transformando-se num refúgio dos piratas da Barbária (Michaux-Bellaire & Péretié, 1911).

Alguns investigadores referem-se a Ksar como uma pequena vila sobreposta às ruínas de uma antiga fortaleza (Renou, 1846: 300). De acordo com Jean-Leon l’Africain (1982: 265), era um pequeno núcleo urbano portuário mandado construir por Mansour – rei e pontífice de Marraquexe. Servindo de porto e fortaleza, era um enclave comercial e de controlo da região, em que grande parte dos seus habitantes eram marinheiros, tecelões, comerciantes ricos e valentes combatentes.

Mesmo existindo pelo menos um estabelecimento do século XI na foz do rio, paira uma certa indefinição sobre a data de construção da cidade. Alguns investigadores colocam-na na época almóada – apesar dos raros argumentos textuais e arqueológicos explícitos; outros no período do domínio merínida do sultão Abu Yaqub, mas não citando fontes convincentes, segundo Cressier (2012). Os relatos medievais que referem Ksar Sghir são na sua maioria escassos e incompletos, sendo raro concordarem entre si (Moujoud, 2012: 38).

Não existe qualquer menção ao local nas fontes anteriores ao século X. O leque de topónimos que vieram a representá-lo estaria provavelmente vinculado a certos períodos históricos[4]. A sua primeira referência escrita data do século XI (Teixeira, et al., 2019). Ibn Abi Zar refere, no seu Qirtâs, que Abu Yaqub data a fundação da cidade do ano de 1287 (Cressier, 2012).

Em 1287, o sultão Youssef Ibn Abd al Hak empreende a construção de um recinto circular defendido por vinte e nove torres semicirculares e a instalação de três portas: Bab al Bahr, Bab Fès e Bab Sabta. A cidade islâmica está inscrita num recinto com cerca de 200 m de diâmetro, conferindo-lhe uma certa originalidade planimétrica e urbana, no qual se inscreviam uma mesquita, um hammam[5] e áreas residenciais (El-Boudjay, 2012: 117).

É no cenário do desastre de Tânger, das ponderadas decisões de tomada ou não de determinadas cidades marroquinas e das pretensões expansionistas de D. Afonso V – bastante vivas e com perspetivas de conquistas futuras – que surge Alcácer Ceguer na mira da conquista lusa.

As relações dos portugueses com Ksar Sghir dão-se ainda durante o período do controlo muçulmano, começando pouco depois da conquista de Ceuta (Redman & Boone, 1979). Em 1416, o adail de Ceuta é capturado, juntamente com cinco soldados, durante uma incursão contra os berberes de Andjera, sendo feito prisioneiro pelo alcaide de Alcácer. Por volta de 1426, cerca de quinze portugueses foram também lá tornados cativos (Mascarenhas, 1918: 123). As relações hostis continuarão até à data da conquista de Alcácer.

Depois de uma pausa nas conquistas marroquinas, em 1447 D. Afonso V assume o trono português, e, como os antecessores, estava ansioso pela glória militar (Cenival, 1934: 10), tornando-se a guerra no Magrebe novamente possível. Os seus feitos militares em Marrocos acabam por valer-lhe o cognome de O Africano, marcando uma nova orientação na política da expansão.

Influenciado pela nobreza – desejosa de conseguir novas doações de terras pela sua participação militar –, Afonso V privilegiou em muito a expansão, com o objetivo de conquistar cidades que ajudassem a diminuir o isolamento e as ameaças constantes que vinham assolando Ceuta (Proença, 2013).

A empresa oscilou entre Safim, que traria um proveito imediato; Tânger, que seria preferível a Alcácer, pois determinaria a rendição desta e asseguraria, em combinação com Ceuta, o domínio de uma área relativamente importante, e Alcácer Ceguer. Em 1445-1456 pensou-se, pois, na tomada de Safim[6], no entanto, após ponderada decisão, substituiu-se Safim por Alcácer Ceguer como alvo de conquista (Godinho, 2018).

Segundo Magalhães Godinho (2018: 204), Alcácer era economicamente atrativa para os portugueses enquanto centro de produção têxtil, ambicionando-se também o seu controlo por ser usada como ponto de partida para ataques muçulmanos à costa do Algarve. A sua proximidade com Ceuta tornava-a ainda mais útil para a descentralização das múltiplas atividades nesta praça, permitindo ainda o controlo das movimentações muçulmanas em direção à Península Ibérica e ao Mediterrâneo.

A escolha de Alcácer obedeceu, segundo Góis, à seguinte razão: era uma base de incomodativos ataques navais dos Mouros à costa algarvia. (…) Alcácer era um centro de indústria têxtil, em cujos produtos os portugueses estavam interessados. Por outro lado, Alcácer era a praça mais próxima de Ceuta e que melhor (com exceção de Tânger) podia aliviar a pressão que esta suportava. Além disso, Alcácer (como Tânger) constituía uma boa base para intercetar a navegação muçulmana do litoral marroquino atlântico para a Península Ibérica e para o Mediterrâneo.

Serenadas as lutas intestinas portuguesas, África recebe a atenção de D. Afonso V. A 29 de Maio de 1453, o sultão otomano Maomé II toma Constantinopla e põe fim ao Império Bizantino (Costa, 2018: 38). A tomada de Constantinopla, e os avanços que os turcos poderiam vir a fazer pela Europa, possivelmente terão levado o Papa Calisto III a pregar uma nova cruzada. Apesar de ser uma morte anunciada, o fim do território romano do Oriente causa uma grande comoção numa Cristandade agora mais exposta ao perigo turco (Costa, 2018: 39).

Afonso V manifesta imediatamente a sua adesão, comprometendo-se a servir durante um ano com doze mil homens (Macedo, 2004: 89). O monarca reúne uma armada que acaba, porém, por não partir, devido à falta de apoio dos restantes Reinos Cristãos, quase indiferentes ao projeto. Persistindo no desejo de colaborar com o Papado na luta contra os infiéis, o rei português decide atacar o Norte de África, preparando uma operação contra Tânger (Serrão, 1989), região impenetrável, que sempre fora um desafio para a entrada europeia. Contudo, a cruzada é adiada e Alcácer Ceguer surge como o objetivo da empresa.

O infortúnio vivido em Tânger ainda era recordado pelos portugueses (Fernandes, 2007), pelo que a pretensão de regressar à praça marroquina ainda permanecia viva. Convocado o conselho, começam os debates acerca do rumo a tomar. Após o voto contra do infante D. Henrique e de outros notáveis do Reino, chega-se à conclusão de que seria mais cauteloso tomar Alcácer, dado o facto de servir como bastião muçulmano nas operações levadas a cabo contra a Ceuta portuguesa.

Querendo vingar o desastre de seu pai e o cruel martírio de seu tio, Afonso V prepara então uma expedição rumo ao Norte de África (Castellanos, 1878). Em outubro de 1458, sai de Lagos um contingente militar de cerca de 25000 homens. O monarca empreende a sua primeira expedição guerreira a África (Proença, 2013), comandando uma armada expedicionária composta por 200 naus em direção a Ksar Sghir (Redman & Boone, 1979), com a ambição de a tomar para si.

A frota chega a Alcácer por volta de 21 de outubro, seguindo-se uma luta sangrenta (Lopes, 1939). A 23 de outubro Ksar Sghir é conquistada, o conde D. Duarte de Meneses[7] é nomeado seu capitão e instala-se uma guarnição na cidade. Os muçulmanos deixam Alcácer Ceguer com as suas mulheres, filhos e haveres; os cristãos fazem a sua entrada solene na vila (Costa, 2018). O cerco português é levantado e as forças lusas entram na cidade reclamando-a como a segunda conquista de sucesso da Coroa (Redman & Boone, 1979). Ksar abre então as portas ao exército português. O impacto da conquista portuguesa vem a ser imediatamente sentido através da consagração da mesquita islâmica em igreja (Correia, 2012: 100), na qual é celebrada uma missa de ação de graças pela vitória.

Como represália pela façanha portuguesa, Habdulach – rei de Fez – envia um avantajado exército para tomar novamente a cidade, originando um cerco que dura cerca de dois meses, e vem a ser levantado a 2 de janeiro de 1459 (l’Africain, 1982: 265), dada a falta de resultados a que assiste o monarca. Gomes Eanes de Zurara (2007: 52) refere-se a essa intenção do seguinte modo:

ElRey de Feez partyo pera Tãger donde mandou suas cartas de percibimẽto por toda sua terra auisando todos que uiessẽ percebidos de mãtijmẽtos por que entendya poer cerco aa uilla dAlcacer e nõ se partyr de sobre ella atee que a filhasse. E desy fez uĩjr seus almazeẽs e falou cõ seus marĩjs e alcaydes sobre a maneyra que auya de teer sobre aquelle cerco.

A conquista de Alcácer foi levada a cabo como estratégia geográfica e militar (Fernandes, 2007) bem delineada, com táticas definidas e programadas com tempo, de modo a não redundar em fracasso. Revelou-se assim um importante ensaio para impor o poder europeu sobre o resto do Mundo (Redman, 1986). Demonstrando quão débil se encontrava o império marroquino, dá um impulso à continuidade da expansão portuguesa por terras dos infiéis, desbravando caminho para novas conquistas.

A ocupação portuguesa que se lhe sucederá (1458-1550) consolida afincadamente os alicerces da Coroa lusa no Norte de África, que vem dar força a um continuado domínio de Ceuta. A suserania portuguesa é oficialmente reconhecida pelo sultão de Fez, Moulay Saïd em 1471.

Ksar Sghir detinha uma posição estratégica, sendo um dos pontos mais estreitos do Estreito de Gibraltar. Localizada a 19km de Tânger e 28 km de Ceuta (l’Africain, 1982: 265), encontrava-se a meio caminho entre ambas as cidades – caraterística que a tornara num enclave militar, capaz de manter segura a presença portuguesa na região, além de ser um local fundamental para preparar o terreno no controlo da região do Al-Gharb (Redman & Boone, 1979). Este pequeno porto, além de assegurar o domínio sobre Ceuta, facilitava em muito a ocupação de Tânger (Cenival, 1934), que cairá facilmente nas mãos dos portugueses após a conquista de Arzila em 1471, devido ao facto de se encontrar entre esta e Ksar.

Ksar Sghir é um dos principais locais da costa marroquina do Estreito de Gibraltar. Os textos e as escavações arqueológicas confirmam o seu potencial (Moujoud, 2012: 37), sobretudo a arqueologia, que em muito tem ajudado a esculpir as balizas cronológicas deste período, graças à abundância de artefactos. Mais do que um suplemento da História, as abordagens arqueológicas podem delinear certos padrões do comportamento passado melhor do que evidências textuais. Desta forma, correlacionando os episódios arqueológicos com os eventos históricos, é possível a formulação de cronologias absolutas para estudar os materiais (Redman, 1986: 4).

A cultura material do sítio concede aos arqueólogos informação detalhada sobre as atividades que tinham lugar em Ksar Sghir. Os objetos usados pelos habitantes fornecem um interessante vislumbre sobre o seu quotidiano, que em grande parte não surge nas fontes documentais. Tais artefactos fornecem uma ideia dos padrões estéticos da altura e da forma como estes evoluíram ao longo do tempo (Redman, 1986: 9). A presença de uma comunidade portuguesa nas praças magrebinas levou a que fossem transportados para lá objetos de uso e culto que só se fabricavam, originalmente, na Europa (Dias, 1998: 17).

Atribui-se aos séculos XII e XIV grande parte das estruturas arqueológicas militares e civis descobertas, e os mais antigos achados arqueológicos, de natureza numismática, apontam também para estas centúrias (Redman, 1986: 95, 129-130). De facto, o mobiliário descoberto em escavação é abundante e coerente, parecendo exclusivamente datado da era merínida e do longo período de ocupação portuguesa (Cressier, 2012: 67).

Sob o domínio português, Ksar Sghir teve uma ocupação de quase um século. A vila perdeu o seu papel industrial e comercial, atuando apenas como um reduto, quase alheio ao resto do país (Michaux-Bellaire & Péretié, 1911). A tomada da nova praça contribuiu em muito para a segurança militar da Península Ibérica e aliviou a pressão exercida pelos muçulmanos em Ceuta (Godinho, 2018). A população portuguesa atingiu então cerca de oitocentas pessoas (Dias, 1998), e durante os 92 anos de ocupação a cidade revelou ser mais do que um entreposto militar, crescendo em ruas pavimentadas, numerosas praças e edifícios domésticos, cívicos e religiosos (Redman & Boone, 1979).

Ksar é dos únicos locais de herança portuguesa com alguma duração que chegaram aos dias de hoje como autêntico campo arqueológico (Correia, 2012: 97) – o sonho de qualquer arqueólogo, graças ao seu nível de preservação e riqueza histórica (Redman, 1986). Resultando em dois, e em alguns casos quatro níveis de ocupação sobrepostos, todos construídos sobre níveis Islâmicos anteriores, nunca foi vítima da urbanização moderna, algo tão habitual em locais medievais (Redman & Boone, 1979), o que lhe conferiu um registo arqueológico muito bem preservado.

Alcácer ocupa um lugar notável na Arqueologia marroquina, graças ao seu riquíssimo substrato histórico. O valor inegável em património coloca-o entre os locais mais soberbos do ponto de vista científico e turístico da costa mediterrânica de Marrocos (El-Boudjay, 2012: 7). O local recorda importantes momentos da história do país, constituindo uma herança comum entre as duas margens do Mediterrâneo, região que durante um longo período de tempo se tornara numa zona de empréstimo e intercâmbio cultural e humano (Alaoui, 2012).

Ksar é um lugar básico para compreender as continuidades e ruturas que as comunidades islâmicas e cristãs dos finais da Idade Média enfrentaram. Sendo também um espaço particularmente interessante para o estudo dos contextos de povoamento, tem vindo a proporcionar elementos-chave relativos às estruturas domésticas dos séculos XV-XVI, graças à excelente preservação da estratigrafia e ao facto de a vila ter sido abandonada depois da partida dos portugueses (Teixeira, 2016). A essa paragem no tempo e suas vantagens científicas se referem André Teixeira e Jorge Correia (2017: 204):

Alcácer Ceguer constitui uma oportunidade privilegiada para o estudo do impacto da apropriação cristã sobre a matriz islâmica pré-existente, possibilitando também uma aproximação ao urbanismo e vivências de um burgo português dos séculos XV e XVI cristalizado no tempo.

Segundo Maria Leonor Garcia da Cruz (1997: 131), as dificuldades enfrentadas pelos portugueses no continente africano eram, contudo, notórias e o apoio do Reino não era o bastante para as enfrentar:

(…) os lugares portugueses em África dependentes cada vez mais de abastecimentos do exterior – devido a calamidades naturais, à guerra contínua e à ameaça xerifina –, ressentem-se necessariamente das dificuldades do Reino. O monarca luta com dificuldades financeiras para saldar dívidas respeitantes a pagamentos não efetuados nos lugares setentrionais, enquanto aumentam as despesas no aprovisionamento em trigo.

Em 1543, diante das impossibilidades financeiras, não podendo o erário régio sustentar todas as posições portuguesas em Marrocos, D. João III coloca uma vez mais em questão a continuidade do domínio nas zonas mais expostas às ameaças xerifinas (Cruz, 1997: 142).

Oito anos após o abandono de Safim e Azamor, chega a decisão final de evacuar Arzila e Alcácer Ceguer – um dos pontos mais frágeis da nossa rede defensiva (Dias, 1998: 54). Ksar sofre o destino de outros portos que se encontravam nas mãos dos portugueses: autênticas fortalezas ocupadas quase inteiramente por tropas, que além de custarem imensas vidas e sacrifícios, começam a ser abandonadas uma após a outra (Michaux-Bellaire & Péretié, 1911).

Tal como Arzila, também Ksar Sghir é abandonado, na segunda semana de Julho de 1550 (Rodrigues, 1998: 167-168), no quadro de redefinição da política marroquina portuguesa, durante o governo de D. João III.

O fim da presença militar portuguesa em Marrocos abriu uma nova época nas relações entre os dois países, que normalizaram os seus contatos diplomáticos, desenvolveram o comércio e protegeram a navegação (Farinha, 1999: 79).

Deixada no século XVI, a vila não volta a ser ocupada (Redman & Boone, 1979) e o local vai sendo vítima de repetidas fases de degradação, causadas tanto por fatores humanos como naturais (El-Boudjay, 2012), ficando em evidência grande parte do estrato urbanístico e arquitetónico.

As primeiras degradações violentas a que se assiste são as produzidas pelos portugueses em 1458 (El-Boudjay, 2012: 118), aquando da ocupação do local pautada pela transformação da mesquita em igreja cristã e do hammam numa prisão, bem como pela apropriação do restante tecido urbano.

Os portugueses conservaram a estrutura urbana já existente, procedendo apenas a mudanças nas funções de cada local ou a pequenas “atualizações” do espaço. No caso das habitações, manteve-se o nível de circulação e a sua divisão interna (Teixeira, et al., 2016). Com o passar do tempo, estas casas foram modificadas pelos novos proprietários e reconstruídas de acordo com os ideais de habitação lusa (Redman, 1986: 165). Gradualmente foram moldando a cidade, adaptando-a à sua cultura e estilo de vida.

As ruínas de Ksar fornecem-nos um vislumbre da forma como se assiste a uma série de modificações, que levam à total transformação da cidade islâmica numa cidade portuguesa e europeia (Redman, 1986: 165).

As tentativas de reocupação após a partida lusa resultaram efémeras (Correia, 2014). Tal facto permitiu a conservação do último estrato de ocupação até aos dias de hoje (Cruz, 2015), originando um pertinente exemplar que reforçou o estudo do impacto português sobre a comunidade muçulmana da altura (Correia, 2014).

Portugal e Marrocos têm uma história comum bastante consistente, apesar de a presença portuguesa nunca ter sido bem aceite no país, originando ao longo dos séculos constantes pelejas entre muçulmanos e cristãos. Tendo em conta o período de permanência dos portugueses no território de Marrocos (1415-1769), a sua herança mergulha num passado longínquo que poderíamos definir como “o passado do passado” (Carabelli, 2013: 87). Esta mescla de entidades portuguesas e magrebinas confere o ímpar contraste que torna Ksar Sghir tão atraente.

Enquanto espaço de fronteira entre dois mares e dois continentes (Teixeira, 2016), Ksar Sghir mantém a singularidade que o Norte de África lhe incutiu, permanecendo como um reduto da mescla islâmica e portuguesa até aos dias de hoje.

O desenvolvimento de missões e projetos internacionais tem dinamizado muito a arqueologia de Marrocos, e de uma forma bastante relevante (Muñoz, 2008: 164). O caso específico de Ksar ilustra o crescente interesse que se tem vindo a originar em torno do sítio arqueológico e do seu valor histórico-patrimonial (Barros, 2021: 66). Atualmente, os esforços para dotar o local de meios interpretativos para o usufruto público, assim como as campanhas arqueológicas e conservativas e os estudos académicos em curso (Cruz, 2015: 67), demonstram uma clara preocupação em preservar o passado e a determinação em enfrentar as dificuldades, atuais e vindouras.

As ruínas que ainda lá permanecem testemunham claramente a sua riqueza e diversidade de património. Testemunhas de um passado antigo, islâmico e português, são justapostas para fornecer aos pesquisadores um amplo campo de estudo (Moujoud, 2012: 37).

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  1. Artigo adaptado do capítulo 2.2.3. Alcácer Ceguer da dissertação de Mestrado, O Olhar de Gomes Eanes de Zurara sobre o Norte de Marrocos: estudo da paisagem de Alcácer Ceguer (Ksar Sghir), escritra e defendida pela autora em 2021.

  2. O ano de 1769 marca o momento em que o Marquês de Pombal ordena a total retirada e abandono de Mazagão, última praça portuguesa, que na altura se encontrava cercada pelas tropas do monarca marroquino, Sidi Muhammad ben ‘Abd Allâh.

  3. O termo árabe Qsar (‘castelo’) também figura na bibliografia na forma Ksar. Surgindo, por vezes, precedido pelas partículas Al- e El-. Apresenta um grande leque de variantes, como Qsar es-Seghir, Qsar Sghir, El-Qsar Seghir, Al-Qsar Seghir, El-Qasr Seghir, Al-Qasr Seghir, Ksar Sghir, Ksar Seghir, Ksar es-Seghir, etc.

  4. Marsa bab al-yemm, Marsa al-yemm, Bab al-Ksar, Madina al-yemm, El Ksar al-awwel, Kasr Masmouda, Kasr al-majaz, Kasr al-jawaz, Ksar Seghir (Moujoud, 2012: 47-48). Moujoud (2012: 48) indica que o local provavelmente mudou de topónimo, de acordo com o papel que lhe era atribuído nas diferentes dinastias, a instalação de certas tribos, a mudança da sua importância ou talvez a ligação com outras localidades.

  5. Termo árabe que significa ‘banhos públicos’.

  6. Safim encabeçava a mais rica zona cerealífera de Marrocos e servia também como principal escoadouro do ouro das caravanas do Sudão.

  7. Filho do conde D. Pedro de Meneses, primeiro governador de Ceuta.

Edição: Fevereiro 2024

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Em pleno: mulheres e tecnologia, activismo e crime, namorados, armas e democracia, sobredotados e transtorno, caricaturas, marinhagem e camionagem, Deleuze, guerra, castelos, Aljubarrota e muito mais. Na capa, Maria da Graça Carmona e Costa (1932-2024), recentemente desaparecida, patrona das artes, coleccionadora e galerista, criadora da Fundação Carmona e Costa.

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Primeira entrada de uma série de colaborações regulares de Pedro Brito, professor de educação visual e cartoonista espontâneo, com uma caricatura intitulada “Triangulação” e uma breve crónica associada.

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Nota editorial que tenta ensinar ao jornal Expresso como é que se faz uma reportagem sobre a recente exclusão de um jornalista de uma conferência privada, sem sensacionalismo e sem corporativismo.

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Sobre uma perspectiva pouco familiar para o europeu comum: o da arma de fogo como elemento que força uma igualdade no mundo dos confrontos físicos activos ou latentes.

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Um excurso sobre o conceito de obrigação financeira e toda essa constelação de significados, desde os primeiros títulos de dívida, anteriores ao dinheiro, até ao casamento e às práticas estéticas do sado-masoquismo.

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Quatro personagens unidas por um critério sem nexo aparente. Fica ao critério do leitor encontrar as associações que levaram ao seu encontro nesta publicação.

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Dupla Excepcionalidade (Sobredotação e Transtorno) — Revisão Bibliométrica

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Relembrando, pela 105ª vez, o famoso “paradoxo de Popper”, o paradoxo da tolerância, a propósito de vandalismo político.

Breve Nota sobre Assédio Moral e Sexual na Universidade

Sobre como são muito diferentes, sendo assédio moral muito frequente e assédio sexual muito raro.

Séries Visuais sobre Cinema:
Disturbed Young Girls, Female Revenge,
Disturbed Women, Bad Romance

Another set of entries by the keen eye of Mafalda Simão Leal consisting of visual frames from movies united by common themes, this time related to girls and women, disturbed and vengeful, and, in part II, disturbed older women and bad romances.

Boa Hora — No Pulso do Pontífice

Nuno Margalha traz- nos mais uma rubrica sobre relojoaria. Quando se é o Bispo de Roma, a “modéstia” pode ser subjectiva: mas Francisco I de facto usa um Casio MQ-24-7B2 e umSwatch Once Again.

Peace to Mutants #9 — Carm Mascarenhas, Betty Davis, Goblin

One more foray into the musically obscure, featuring a Goan songwriter, a funk goddess and the prog- rock soundtrack for Profondo Rosso.

O Assento das Ensinanças — Três Excertos sobre a Batalha de Aljubarrota

Primeira entrada de uma nova rubrica sobre história, medieval e não só, da autoria de João Manuel Almeida, esta versando sobre a batalha mais famosa da história de Portugal.

Do Restauro de uma Reputação

Três oldies do nosso arquivo: primeiro, António M. Pereira sobre as peripécias impostas a um comediante pela versão mais agressiva do movimento feminista MeToo.

Psicopolítica: Princípio, Método e Fim da Política

João Rochate da Palma sobre a crise hodierna dos sistemas, propondo uma psicopolítica que colmate as carências da investigação e do exercício político moderno.

Pedra de Toque

Por último, Cristina Costa sobre momentos de reconhecimento de carácter moral no filme Pretty Woman, de 1990, uma adaptação parcial de La Traviata e La Dame aux Camélias.

Possivelmente a página mais encorajadora da história da física.

E, por último, sugestões e homenagens:

A Perseguição no Cinema: da Comédia Muda a Bullitt (1968) e Apocalypto (2006)

Um breve panorama do uso tópico do tropo da perseguição no cinema, assim como de filmes que podem ser considerados inteiramente chase movies.

Duas séries de sugestões de cinema: uma, dedicada a filmes com o mar — ou águas — e marinheiros; outra, a filmes com camiões de transporte de longo curso, ou motoristas, como cenário ou como adereços. Ver todas aqui.

Fotografia de Maria da Graça Carmona e Costa (1932-2024), recentemente desaparecida: patrona das artes, coleccionadora e galerista, criadora da Fundação Carmona e Costa.

Créditos: Manuel Botelho, 2018.

Peace to Mutants #9 — Carm Mascarenhas, Betty Davis, Goblin

Carm Mascarenhas devoted his life to music. These words were once said by him: “Day by day I grew to love music more than anything else, and I found it to be my only source of joy and happiness,” which truly resonates in his music.

Born in the late 1940s in the Arossim in Goa, he grew up in Matharpacady where music became his true passion. Growing up in India in the late ’60s was not easy for an aspiring musician, and Carm lamented the lack of opportunities and encouragement, even though he still played western-inspired music with some of his friends, the closest to achieving success was from a solo career.

Before going on to become a solo artist, Carm and his friend formed a group called “The Easy Beats” that performed sunny pop songs. As a solo artist, he performed with a drummer accompanist which gave rise to his nickname “the lonesome viscount”, a rather mysterious and apt nickname once we listened to his first and only album, “Someday Soon”.

Carm passed away in 2003 in a drowning accident, but he is probably still making music in the high spheres.

E ainda:

Uncompromising and liberated funk vocalist and songwriter Betty Davis’s second album. An album way ahead of its time and filled with sexual empowerment, Betty Davis sings powerfully and has fun with it. Surrounded by talented musicians, all songs are excellent bangers, particularly “They say I’m different” and “He was a big freak”. Betty Davis holds power, passion and pride in her voice. It is a beatiful funk album that must be heard to be believed.

Wonderful and mysterious soundtrack for Dario Argento’s movie Profondo Rosso, a giallo psychological thriller. Originally recorded in 1975 through Cinevox Records, it was the band’s debut and features some of the more iconic and memorable compositions that fit the movie’s mood perfectly.

Goblin was formed in 1974 and has been crafting their own unique style. For this particular soundtrack, the band manages to mix progressive rock with some sophisticated jazz, classical and blues creating an unforgettable soundtrack.

Crítica: «Ato de Criação», Gilles Deleuze, 1987

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O texto «Ato de Criação» é a transcrição das palavras que Gilles Deleuze articulou na conferência que teve lugar no dia 17 de março de 1987 na Fundação Europeia de Imagem e Som.

As páginas que se seguem sistematizam uma reação ao texto duplo de Deleuze – este também existe numa gravação vídeo[1] – e identificando o principal conceito que emergiu desta leitura, o de corte, convocam Pasolini, Rivette e Herrigel para complementar a reflexão sobre o que pode ser afinal um ato de criação.

Se, como vimos, existem dois textos é necessário começar por identificar e caraterizar qual deles tomamos por objeto de análise: se o texto escrito – preto no branco -, olhado de cima para baixo, numa visão aérea capaz de cartografar os seus sentidos; se o múltiplo texto audiovisual -colorida gravação vídeo-, que olhamos frente a frente, e onde a performance de Deleuze vai, tal qual um palimpsesto, escrevendo outros textos sobre aquele que as palavras vão revelando. É do último que partimos, pois a voz aspirada, a agitação do corpo, a limpidez dos olhos, e em especial, as longas unhas franqueiam outras portas para a recensão ao pensamento/performance que fotograma a fotograma o diálogo som/imagem vai expressando.

A perceção audiovisual do texto de Deleuze é fragmentária e imprecisa e os seus sentidos resultam ao final, e somente aí, de uma recapitulação da ordenação dos planos visuais e sonoros que sucessivamente fomos justapondo uns a seguir aos outros. Tal como com numa timeline, à medida que o vídeo corre e escutamos o texto, vamos buscar ao Bin dos Brutos clips de imagens e de sons. Plano pormenor das rugas. A ponta solta do cabelo. Insert do borboto. Plano aproximado da cabeça calva. Plano pormenor da curva da orelha. Cortes, mudanças de plano, que sucessivamente experimentamos quer através do impercetível movimento dos globos oculares (corte direto), ou pelo físico piscar de olhos (fade-in a negro com fade out do negro). Trata-se de uma découpage mental que se num primeiro momento escolhe, corta, e justa posiciona as diferentes imagens e sons, logo num segundo, numa operação de rendering estabelece entre aquele material em bruto, escolhido, cortado e montado uma certa ilusão de unidade. Uma ordenação, uma montagem que será diferente consoante o espetador, pois cada um, de acordo com a sua história, tenderá a ser mais afetado por este ou por aquele elemento do texto audiovisual. A textura da voz, a cor dos punhos da camisa, ou a forma como o filósofo parece esforçar-se para ver para além dos óculos, afetam cada espetador de forma diferente, fazendo com que cada um, ao final, tenha feito a sua própria montagem do que viu. Sendo sobre esta, inevitavelmente diferente espetador, que cada um retira os sentidos para o que pôde ver.

Para mim, e pela condição de onicófago, foram as longas unhas que franquearam a porta para a exploração deste texto, numa sequência de sentido que pode ser expressa assim: cortar as unhas, cortar um plano de rodagem, um plano de montagem, estabelecer um fim.

É muito clara a semelhança visual entre uma cortadeira de película e um corta-unhas. E foi com base nesta parecença que imaginei que de algum modo seria possível estabelecer uma ligação entre a produção de cortadeiras de película para cinema e a produção daqueles objetos de higiene pessoal, esperando que desse belo e fortuito encontro entre um corta-unhas com uma coladeira pudessem surgir, nesta dissecação do texto de Deleuze, outros sentidos.

Foi então com surpresa que registei uma surpreendente ligação industrial, ao verificar que a marca de câmaras de Bell & Howell,[2] produz ou já produziu aquele par de singulares objetos.

De fato, apesar de hoje já não fabricar câmaras de filmar, a Bell & Howell foi responsável pela invenção e comercialização de muito material de cinema, com particular destaque para o formato popular de 8mm. Vendeu milhares dessas câmaras amadoras, e foi com uma delas, o modelo 414 PD Bell & Howell Zoomatic Director Series Camera, que no dia 22 de novembro de 1963, um vendedor de roupa subiu ao topo do edifício do seu escritório, situado frente a Dealey Plaza, e filmou 26 segundos de 8mm. O vendedor chamava-se Abraham Zapruder e tinha acabado de filmar o assassinato de Kennedy.

Será então partir deste singular filme de Zapruder, convocado por um singular método surrealista, que percorrendo o texto de Pasolini «Observações sobre o plano-sequência» refletimos sobre o conceito que está na base do design dos dois objetos descritos, trata-se, pois, do conceito de corte.

Nesse texto, Pasolini afirma que a realidade é um plano sequência infinito, e tal como o cinema, um presente continuo que a câmara pode, pela sua natureza, reproduzir sem fim; uma possibilidade que teria estado na base filme de Zapruder. Na visão do realizador italiano esta possibilidade não permite, porém, construir um sentido da realidade. Este só existirá quando se puder construir uma certa «coordenação de planos».

É assim que a construção de um sentido, a partir do plano subjetivo infinito que é realidade e que também é o cinema enquanto linguagem, exige a execução de duas operações. A primeira é ir a esse presente sem fim, à «linguagem não simbólica da ação», «ao tempo presente sem sentido» – que a câmara pela sua natureza filma – e identificar os «sintagmas vivos», significativos, colocando-os através da coordenação de planos, da uma montagem, numa relação expressiva.

Ora, esta operação essencial para Pasolini parece implicar no seu momento inicial a prática de uma escolha que se pode traduzir na definição de um in e de um out no plano subjetivo infinito. Será então desse corte, desta definição de um princípio e de um fim de que decorre a importante consequência da transformação de um presente sem sentido, num passado que se pode relacionar através da montagem com outros passados. «Somente os fatos acontecidos e acabados são coordenáveis entre si, porquanto adquirem um sentido», diz o realizador.

Também Deluze, no texto indutor destas reflexões, parece destacar a importância do corte quando afirma: «Se fabricarmos um bloco de movimento/duração, é possível que façamos cinema»; e, mais à frente, denotando o sentido construtivista da montagem diz: «O cinema conta histórias com blocos de movimento/duração». Mas se nesta segunda frase é o papel da montagem que parece estar em causa, já a primeira remete para a ideia de parte, de fragmento, convocadas pela palavra bloco. Um bloco é sempre uma parte, uma unidade onde, como nas paredes de tijolo, é possível ver os limites, os seus cortes.

Se Deleuze fala em blocos, Pasolini refere sintagmas, ambos parecem afirmar a mesma necessidade de um gesto de corte para a construção de um filme. Um gesto vertical que cai perpendicular sobre a horizontalidade que é o cinema, a realidade, a película, e as unhas.

A ser possível esta leitura, interessa agora perguntar: O que afinal traz o corte à matéria que o precede? Qual o poder do fim? e em última instância qual a sua necessidade.

É já no final do texto que Pasolini aproxima o trabalho que a montagem faz aos materiais do filme, com o corte final que a morte faz à vida. «A morte realiza uma montagem fulminante da nossa vida: ou seja, escolhe os seus momentos verdadeiramente significativos (…) Só graças à morte, a nossa vida nos serve para nos expressarmos». E é daqui que o realizador retira a necessidade da morte e dos cortes no plano subjetivo infinito: pois só ela, através deles transforma alquimicamente o presente continuo, num passado com significado.

Primeiro Deleuze, depois Pasolini parecem associar a possibilidade da criação, de um filme, por exemplo, à ideia de uma construção. De um gesto de trabalho. De uma transformação do real. Recordo neste passo o muito interessante texto «Terrain Vage». Aqui o autor parece desafiar a arquitetura – essa arte da construção – a acolher o nada fazer: «incapable of doing anything other than introducing violent transformations», para assim numa atitude de ecologia, pensar de forma não colonizadora as intervenções nos terrenos vagos das cidades. A intervenção é a não intervenção.

A este propósito e dentro do contexto do que pode ser afinal também um ato de criação, interessa convocar Rivette e Herrigel sobre o que afinal faz de um filme um filme, e de um arqueiro um arqueiro.

Para Rivette o que torna um filme possível é a relação entre «lei» e «segredo». Uma relação onde o segredo para se expressar deve estar conforme à lei. Neste sentido, segredo seria algo existencial e a lei da ordem do mais universal, sendo que é da riqueza e complexidade da relação entre estes dois pólos que se molda a «intensidade do filme». É então que Rivette afirma um terceiro elemento a que chama «perigo»: resultado da tensão entre lei e segredo. Perigo seriam todas as dificuldades, riscos, improbabilidades que não só os participantes no filme enfrentam, como as opções estéticas e morais que o filme assume. Diz Rivette: «É uma série de perigos sobrepostos, talvez não haja um grande filme sem o sentimento de que podia ter sido uma catástrofe, que o deveria ter sido, sem esta espécie de milagre que tudo salvou, de resto à força de trabalho, cálculo e obstinação». Perigo é, diz mais à frente: «o nome da relação entre a lei e o segredo». É para esclarecer esta ideia de milagre ­­­­-no sentido do que pode ser um ato de criação-, que convoco o texto de Herrigel onde ele relata o seu processo de aprendizagem na arte do tiro com arco.

Guiado por um mestre Zen que o submeteu ao rigoroso método de aprendizagem, foi submetido a uma metodologia científica construída peça a peça, cujos objetivos quantificáveis são um exímio domínio técnico do arco e da flecha e o desenvolvimento das capacidades físicas e mentais para executar a coreografia do disparo. Herrigel seguia minuciosamente as precisas prescrições para executar o tiro, porém falha continuamente o alvo da aprovação do seu mestre.

De fato a aprendizagem que o filósofo terá de fazer é a de que o método que o levou até ali deve tornar-se inútil em si mesmo. O objetivo metodológico de fazer um tiro tem de desaparecer. O fito é agora não disparar. O tiro certeiro não resulta do método, do esforço, do músculo. Herrigel tem de criar um «Terrain Vague» (Sola-Morales, 2009), um espaço de escuta, de penumbra de onde o tiro possa surgir. E este só será aprovado pelo enigmático mestre Zen quando e apesar do rigoroso modo de fazer, conseguir apanhar de surpresa o filósofo arqueiro. Quando a corda do arco, de repente, pelo milagre de Rivette, ela própria se soltar num espanto, num acesso a uma realidade misteriosa que está também por detrás do mistério que podemos observar quando presenciamos um plano subjetivo infinito, uma sequência de imagens em movimento, ou as unhas a crescer. E se tudo isto é afinal a manifestação de um milagre onde podemos colocar o nosso in e o nosso out?

O método funciona especialmente para o gesto de criação do cinema. Não se trata de criar imagens, mas de as acolher. Criar em cinema pode ser neste sentido pensado como modo de acolhimento, um ritual para a escuta do outro e do mundo. Um esforço para o acaso num belo e fortuito encontro. De certa forma estas ideias desafiam a ideia de criação como uma fabricação. Criar seria neste sentido mais uma questão de ver do que de construir. Mais plano sequência infinito do que plano subjetivo. Mais corpo sem órgãos que blocos de duração/movimento. Mais deixar crescer as unhas que as roer.

Bibliografia:

Herrigel, E. (1997). Zen e a Arte do Tiro com Arco. Assírio & Alvim. Lisboa.

Oliveira, L. M. (2008). Jacques Rivette O segredo por trás do segredo. Lisboa:

Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema.

Pasolini, P. P. (1982). Empirismo Herege. Assírio & Alvim. Lisboa.

Sola-Morales, I. (2009). Territorios. Gustavo Gilli. Barcelona.

  1. https://vimeo.com/398618968

  2. Alguns modelos de câmaras podem ser encontrados aqui: https://www.ebay.com/sch/i.html?_from=R40&_trksid=p2380057.m570.l1313&_nkw=Editoração+bell+and+Howell&_sacat=0

    Um modelo de cortadeira aqui: https://www.ebay.com/itm/175680810388?mkevt=1&mkcid=1&mkrid=711-53200-19255-0&campid=5338722076&customid=&toolid=10050&amdata=enc%3AAQAIAAAAkO%2FxeSGJcgOdg0B5MPSfyCEUPLI52Jmqyr3cj6XT5QEKTwAUXTzAPIhA8ybiIiLm1eesYK88XBX7Za1KhQ8DBfSt3qBjSBn3jP9b%2FK4SpIpftq%2B0LJIUTpGx1u48EZsF%2FgGlAGOW8kCo8lfhTeo%2BMTZRwTwri%2B0p36HUres3rDpAbuf155wNMKch%2FBaB0FvNtw%3D%3D

    E um aparador de unhas da mesma marca embora para animais de estimação:

    https://www.amazon.com/Bell-Howell-PAWPERFECT-Rotating-7000-14/dp/B07JMWNWB7

Três Excertos sobre a Batalha de Aljubarrota

Entramos a referir um dos feitos mais gloriosos, que enobreceram e ilustraram no mundo a Nação Portuguesa. Por morte dElRey D. Fernando de Portugal, entrou nas pertenções da sucessão deste Reino ElRey D. João I de Castela, pelo direito que ficava a sua mulher D. Beatriz, filha do dito Rei defunto. Por esta causa se fez aclamar Rei de Portugal na Cidade de Toledo, onde teve grandes presságios do muito que lhe havia de ser infausta aquela pertenção. Não negavam os Portugueses que haviam jurado a Rainha D. Beatriz, por herdeira e sucessora do Reino; mas era sem dúvida que fora feito este juramento em Cortes, debaixo de certas condições justas e necessárias ao bem-comum, as quais o mesmo Rei jurara, e agora rompia, sem atenção a outro algum respeito mais, que a tomar posse do Reino, fiado no seu poder. Seguiam a mesma voz muitos Portugueses, e muitos deles de primeira qualidade, ou, porque ali se lhe representava mais certa a Justiça, ou os seus interesses mais certos. O restante da Nação (em que entrava a maior parte dos Prelados, grande parte da Nobreza e geralmente o povo todo) não sofria, que ElRey de Castela os quisesse dominar à força de armas, executando (como fazia) horríveis crueldades; Estava por estas causas nomeado Defensor do Reino D. João, Mestre de Avis, Príncipe de Sangue Real, e havia rebatido por muitas vezes com estremado valor as invasões dos Castelhanos, e concorriam nele tantas razões (suposto o estado presente) para a sucessão do Reino, que este consagrado em Cortes, o aclamou Rei em Coimbra, reservando-se, porém, a última decisão de tão grande pleito para o duvidoso tranze de uma batalha. Abalou ele da Vila de Abrantes em demanda dos Castelhanos, que já andavam dentro em Portugal, e sucedeu que pondo-se a cavalo, se lhe quebrou o loro de um dos estribos, e vendo que os circunstantes davam sinais de tristeza, como tendo o sucesso por agouro, lhe disse com igual alegria e prontidão: ‘Calai-vos, que assim como me não aguardam os loros, também me não hão de aguardar os Castelhanos’. Chegou, enfim, este dia memorável e nele já sobre a tarde se avistaram os dois exércitos no campo de Aljubarrota, em uma dilatadíssima planície, sem as vantagens de sítios com que os escritores Castelhanos quiseram desculpar a sua infelicidade e escurecer a nossa glória. Constava o exército inimigo de oito mil cavalos e vinte e três mil Infantes. O nosso de mil e setecentos cavalos, e quatro mil e setecentos Infantes Acompanhava a ElRei de Castela a flor da Nobreza dos Reinos de Castela, Leão e Navarra, e muita da França, Gasconha e Bearne, e muita mais de Portugal, porque os principais senhores Portugueses, e de maior estado seguiam (como já dissemos) aquela facção. Da nossa parte eram poucos os Nobres, e os soldados [também como dissemos] também eram poucos, e sobre poucos, mal disciplinados. Mas tudo supria o valor incomparável do novo Rei Português e do seu braço direito, o grande Condestável Nuno Álvares Pereira. Ambos influiam tão valentes brios, tão generosos alentos no seu campo, que apesar de tanta desigualdade, já nele se esperava com impaciência o sinal de se atacar a batalha. Despregaram-se enfim as bandeiras, soaram temerosamente as trombetas e tambores, e começaram a pelejar as vanguardas dos dois exércitos, em……particular as alas, que estavam um pouco avançadas dos corpos principais. Governava Rui Mendes de Vasconcelos a direita; a esquerda Antão Vaz de Almada; naquela, se achava uma bizarra companhia de luzidos, e valorosos mancebos, a que eles mesmos deram o nome da Ala dos Namorados: ou porque o amor da Pátria os levou à Guerra, ou, porque nas proezas da guerra, esperavam assegurar os prémios do seu amor, por ser uso daquele bom tempo, precederem para o agrado na estimação das Damas Portuguesas, os que sobresaíam nas ações militares. Na ala esquerda iam os soldados estrangeiros que havia no exército, poucos, mas escolhidos; e com ele bom número de Portugueses, para que a emulação fosse incentivo de valor. Dispararam os Castelhanos uns certos tiros [começava então o invento fatal da artilharia] mas fazendo mais estrondo que dano, se engrossou o combate com todo o poder. Feriam-se ao princípio com setas e outras armas de arremesso, mas logo se travaram corpo a corpo com as lanças, e quebradas estas, com espadas e fachas. Em uns e outros eram grandes os estímulos da ira, os desejos de vingança. Os Castelhanos vencidos tantas vezes, pretendiam recobrar o crédito, e pagarem-se das afrontas, e perdas padecidas nas ocasiões precedentes. Os Portugueses tantas vezes invadidos, os queriam acabar por uma vez com os trabalhos da guerra, ou gozarem sem sobressalto os frutos da vitória: aqueles aspiravam a ser senhores; estes escolhiam antes perder a vida, que a liberdade. Com a obstinação dos afetos correspondia a fúria, e veemência dos golpes: o sangue corria em rios, a morte nadava em estragos, a terra parecia fundir-se, o Céu arruinar-se. Carregaram a este tempo os Castelhanos com impressão tão vigorosa, que puseram a nossa vanguarda em confusão. Parecia inclinar-se a vitória para aquela parte. Mas acudindo o nosso Rei e o valoroso Condestável com a reserva, revoltaram os Portugueses sobre. os inimigos com tão furioso ímpeto que, trocada a sorte e declarada a fortuna a nosso favor, foram os Castelhanos inteiramente desfeitos, e derrotados, e postos em precipitada fugida. ElRei de Castela, vendo no destroço dos seus o seu perigo, montou a cavalo e em poucas horas…..se pôs em Santarém, e não se dando ali por seguro, desceu pelo Rio em uma barca e foi refugiar-se na sua Armada, que estava sobre Lisboa, dando em todo o caminho impacientes demonstrações da dor que lhe atravessava o coração. Depois se consolava, dizendo que ‘não devia admirar-se de ser vencido e derrotado por tão poucos Portugueses; porque era impossível que forças algumas bastassem para alcançar vitória de um Pai com seis ou sete mil filhos a seu lado’. Foi grande da parte contrária o número de mortos na batalha e depois dela no alcance O Padre Mariana, que sempre escreveu diminuindo as nossas coisas, diz que passaram de dez mil. Neles entram em grande número os maiores Senhores de Castela, que não referimos por não sair da nossa brevidade, e se acharem nomeados em outras notícias. No Exército Português faltaram cento e cinquenta soldados [coisa prodigiosa], e entre eles Vasco Martins de Melo, que havia prometido antes da batalha pôr as mãos em ElRei de Castela, e não duvidando comprar pelo preço da vida o desempenho da palavra, o seguiu com tanta resolução, que junto dele foi conhecido e morto. Assinalaram-se em memoráveis proezas Rui Mendes de Vasconcelos e o seu esquadrão dos Namorados, verificando-se neles que o amor, ou acha, ou faz valorosos os corações  que domina. Antão Vasques da Cunha apresentou a ElRei o estandarte real de Castela.. O Arcebispo de Braga D. Lourenço, que pelo caráter e reputação da sua pessoa acreditava a Justiça das armas Portuguesas, a defendeu agora à espada com ações insígnes. O Grande Condestável, como raio da guerra, discorria a toda a parte e fazendo maior estrago onde achava maior resiliência, conseguiu neste dia imortal nome. ElRei obrando maravilhas, se coroou também de glória imortal, e fez, que agora, chorando, o confesassem Rei de Portugal aqueles mesmos que pouco antes, rindo, lhe chamavam Rei de Avis. Esta foi em summa, a celebradíssima batalha de Aljubarrota, assim chamada por suceder junto a uma povoação deste nome. Foi a maior que viu Hispânia entre Príncipe Cristãos, pelo pouco tempo que durou (não passou de meia hora o maior ardor do conflito), pela desigualdade do poder, pelo grande número de pessoas ilustres que nela morreram, pelos riquíssimos despojos que colheram os Portugueses, em que entrou a recamera dElRei de Castela, por serem os Generais do Exército vencedor dois mancebos de poucos anos (ElRei de vinte e seis, o Condestável de vinte e quatro) contra Capitães muito antigos e experimentados, e sobretudo porque esta batalha foi a última sentença no grande litígio de dois Reinos, que os Castelhanos intentavam dominar, e os Portugueses defender.

In A memorável Batalha de Aljubarrota, in ‘Monarquia Lusitana’, Tomo VIII (Parte I)

Um primeiro conjunto de aspectos que se encontra estabelecido com razoável segurança diz respeito aos objectivos estratégicos dos exércitos em causa e aos itinerários que estes seguiram até se encontrarem no campo de batalha de S. Jorge. Do ponto de vista castelhano, parece claro que D. Juan I abandonara o cerco de Lisboa, em Setembro de 1384, com o firme objetivo de voltar, para uma desforra cruel. Nos meses que se seguiram, o filho do bastardo trastâmara estou a melhor forma de invadir e conquistar Portugal, e – à boa maneira da época – acabou por engendrar um plano de ataque concêntrico ao reino vizinho. Assim, a partir de Abril de 1385, a frota castelhana cercou Lisboa por mar e preparou-se para abastecer as guarnições dos castelos da comarca da Estremadura que tinha voz por D. Beatriz; em Maio, um exército castelhano chefiado por João Rodrigues de Castanheda e composto por 300 ou 400 ‘lanças’ penetrou em Portugal pela Beira, numa incursão devastadora que só terminaria na veiga de Trancoso; pelo seu lado, em inícios de Junho, o próprio Juan I atacou o Alentejo, pondo cerco a Elvas. Face ao infeliz desfecho do segundo e terceiro daqueles movimentos, o monarca castelhano avançou para Ciudad Rodrigo, onde começou a reunir tropas e, na segunda semana de Julho de 1385, entrou em Portugal por Almeida, seguindo depois por Pinhel e Trancoso, onde infletiu a sua marcha, rumando a Celorico da Beira. Aqui redigiria, em 21 de Julho, o seu testamento e realizaria um alto mais demorado, para completar a reunião das tropas que mandara mobilizar. Feito isso, os castelhanos avançaram para Coimbra e Soure. Perante este panorama, o monarca português, que estivera atento à penetração de Juan I pela Comarca de Entre-Tejo-e-Guadiana, cruzou o Tejo e, em finais de Julho, instalou o seu quartel-general em Abrantes, uma posição excelente para poder agir rapidamente e em conformidade com a evolução da marcha da hoste rival. Neste momento, as intenções do exército invasor – com certeza acompanhado de perto por espias e enculcas portuguesas – deveriam afigurar-se já claras aos olhos de D. João I: os castelhanos marchavam em direcção a Lisboa, que tencionavam cercar por terra, efetuando assim um bloqueio total à capital do reino português; para o efeito, era natural que quisessem passar primeiro por Santarém, onde agrupariam as suas forças e de onde partiriam para a concretização do objetivo estratégico da invasão. Ora, D. João I sabia que só muito dificilmente Lisboa resistiria a um novo e prolongado cerco; e, perdida Lisboa, a causa do Mestre de Avis ficaria, ela própria, condenada. Por isso, os portugueses trataram de discutir, em Abrantes, a forma mais aconselhável de contrariar os propósitos castelhanos. Por razões que bem percebemos, hesitou-se muito, chegou-se a admitir um ataque de diversão na Andaluzia, centrado em Sevilha, mas – ao que parece por pressão de Nun’Álvares – acabou por se decidir interceptar a marcha do exército invasor e jogar o tudo por tudo numa batalha decisiva. Esta deveria travar-se num ponto ainda relativamente distante de Lisboa, mas com o inimigo já bem internado no reino, aproveitando assim os embaraços provocados pela sua vasta coluna e pela sua extensa linha de comunicações. Para esse efeito, a hoste portuguesa avançou de Abrantes para Tomar, procurando aproximar-se do adversário. Este, porém,  chegado a Soure, evitou a estrada que de Penela e Alvaiázere conduzia à vila do Nabão e optou por rumar por Vila Nova de Anços e Pombal até alcançar – talvez na noite de 12 de Agosto – Leiria. Claramente, Juan I evitava um confronto direto com os Portugueses e chegava-se mais a mais ao litoral, acautelando também, desta forma, a protecção do flanco direito da sua longa coluna de marcha. Em resposta, o exercício português avançou, também ele, para Ocidente, deixando Tomar e seguindo, primeiro, para Ourém e, depois, para Porto de Mós, onde deve ter assentado o respetivo arraial a 12 de Agosto. Dessa forma, neste dia os dois exércitos ficaram apenas separados por cerca de vinte quilómetros itinerários. O confronto parecia, pois, inevitável. Todavia, os castelhanos persistiram na sua intenção de alcançar Santarém sem ter de se expor a um combate decisivo; por isso, evitaram a estrada que, por Porto de Mós, ligava a Santarém, e optaram por rumar de Leiria para Alcobaça. Foi justamente neste troço do trajeto que, no dia 14 de Agosto, D. João I lhes saiu ao encontro, disposto a vencer ou a morrer. Nas suas linhas gerais, as características da posição ocupada pelo exército anglo-português logo pela manhã do dia 14, bem como os desenvolvimentos tácticos que ela provocou até os dois exércitos se encontrarem frente a frente, prontos para combater, encontram-se também estabelecidos com relativa segurança. Assim, a hoste de D. João I barrou o caminho ao adversário numa posição próxima da confluência do rio Lena com a ribeira da Calvaria, na encosta sobranceira ao local onde se viria mais tarde a construir o Mosteiro da Batalha. Esta posição, escolhida por Nun’Álvares e seus auxiliares (nomeadamente ingleses e gascões, alguns deles veteranos da Guerra dos Cem Anos), deve ter sido decidida pelo Condestável no dia anterior, durante uma missão de reconhecimento do terreno e do inimigo que conduziu Nun’Álvares pelos cabeços dos atuais lugares de Cela, Golfeiros, Casal Novo, Casal do Alto e Picoto. Era, na verdade, uma posição excelente, praticamente inexpugnável Situada no extremo norte do dorso de um planalto de poucos quilómetros, relativamente estreito e com orientação NE-SW, tinha todos os condimentos recomendados: era um ponto alto (ao qual apenas se acedia ultrapassando um declive com pouco menos de 10% de inclinação nos últimos 400m), estava bem defendido à frente e dos lados pelas linhas de água que confluíam para o rio Lena, e – ficando de rosto para Leiria – obrigava os adversários que daqui provinham a receber de frente o sol e (segundo hoje se estima) o vento e o pó! Como seria de esperar, a desvantagem não passou despercebida aos batedores do exército castelhano. Por isso, chegada à Jardoeira por volta do meio-dia, a testa da coluna invasora depressa se afastou da estrada romana em que marchava, optando por tornear a posição portuguesa pelo lado do mar, na direcção do Casal do Relvas e da Calvaria. Aqui, com a hoste portuguesa poucos quilómetros à sua mão esquerda, parou para reagrupar e reexaminar a situação. Nestas circunstâncias, os comandos portugueses terão admitido que o adversário – que se interpusera já entre Lisboa e eles – se furtava definitivamente ao combate, ou então que procurava um local mais favorável para desencadear o ataque; decidiram, em todo o caso, mudar de posição, deslocando-se cerca de 2km para sul e, naturalmente, invertendo a sua ordem de batalha para ficar de frente para o inimigo. (…)

 In “A Guerra em Portugal nos finais da Idade Média”, de João Gouveia Monteiro.

Penetraram o ânimo d’ElRey de Castela as razões briosas do Conde de Barcelos D. João Afonso [para armar guerra]; e movido da evidência, ou da eficácia, com que falou, resolveu aceitar a batalha que os Portugueses lhe ofereciam: para ella ordenaram seus Capitães o Exército na. forma seguinte: puseram na vanguarda mil e seiscentas lanças, e ahi o Condestável D. Pedro de Aragão, o Alferes-Mor Diogo Furtado de Mendonça com a Bandeira Real, D. Pedro Dias Prior da Ordem da Malta; D. João filho do Infante D. Telo, João Fernandes de Toar, Álvaro Gonçalves .de Sandoval, e outros fidalgos de conhecido valor; o Conde de Barcelos D. João Afonso de Meneses, Gonçalo Vasques de Azevedo, e seu filho Álvaro Gonçalves, Garcia Rodrigues Taborda, Vasco Pires de Camões, João Gonçalves Teixeira, e outros Portugueses dos seus parciais: na. .ala da mão direira setecentas lanças, e ahi D. Pedro Álvares Pereira Prior do Crato, na outra ala da mão esquerda outras tantas lanças, e ahi o Mestre da Ordem de Alcântara: na retaguarda três mil lanças, e ahi ElRey; e a esta proporção das lanças os besteiros, e peões; e. .todos a pé, porque os Portugueses também o estavam, e porque temeram que os botes de suas lanças lhes desordenassem a cavalaria: de fora deixaram dois mil ginetes montados para darem nas costas ao inimigo, e entrarem pela sua carruagem: a gente de serviço, os pagens, o roubo…..que traziam, puseram nas costas do Exército sem guarda, por verem que os Portugueses eram tão poucos, que não havia da sua parte quem os acometesse por aquela; e na frente da vanguarda puseram as dezesseis peças, ou bombardas com balas de pedra; cousa nova em toda a Hispânia ., mas despararam só uma vez ao que entendo ainda por pouco uso daquelle ministério: e nesta ordem clamando todos temerosamente: ‘Castilla, e Santiago’, moveram contra os Portugueses, sendo já sobre as três horas da tarde daquelle dia. Da outra parte, os seus adversários já. .estavam formados havia mais tempo; e pelo meio das suas fileiras o Arcebispo Primaz vestido de todas as armas com a sua Cruz Patriarcal diante, andava animando, e esforçando a todos; e que repetissem muitas vezes compungidos as palavras do sagrado mistério da Encarnação,. .’Et verbum caro factum est’; as quais não entendendo os soldados ordinários, perguntavam, ‘que dizia, ou queria dizer, ó Arcebispo’? Houve quem respondeu com desenfado militar: ‘Quer dizer. Muito caro feito é este’: e passando esta resposta ao comum, diziam animando-se uns. .aos outros; ‘verdade he, mas prazerá a Deus, que o torne hoje de bom mercado’. Também o Condestável D. Nuno Álvares Pereira, andava na sua vanguarda, e alas vendo, e notando se estavam os soldados naquela boa ordem, em que ele os pôs; e dizia para todos: que movessem o. .passo muito devagar, e ao ajuntar com os inimigos, estivessem quedos, e firmassem bem o pé, tendo as lanças direitas, e bem apertadas sobre os braços; louvava-os com semblante alegre, e os esforçava, que não temessem a multidão dos Castelhanos, nem os seus alaridos, porque. .tudo era hum pouco de vento, que dali a breve espaço havia de cessar; que pusessem em Deus a sua esperança, pois ali estavam a seu serviço, defendendo justa demanda pelo Reino, e pela Santa Igreja contra os cismáticos; que a purissima Rainha dos Anjos, cuja festa era naquele…..dia, seria sua advogada; e o glorioso Mártir S. Jorge seu Capitão; que aquele era o bom dia, que haviam desejado para ganharem muita honra; e que nele seus trabalhos haviam de ter fim por meio daquela vitória. ElRey do seu posto também fez a fala seguinte: Amigos, não. .embargando, que nossos inimigos vem contra nós em grande multidão, não temais o espanto que põem, como já vos disse; mas sede fortes, pois que ligeira cousa he ao Senhor Deus subjugar a muitos nas mãos de poucos; e pois eles vem a nós com grande soberba por nos destruir, e. .roubar, e tomar mulheres, e filhos, e quanto nos acharem; e nós por nossa defensa, e do Reino, e de nossa Madre a Santa Igreja pelejamos contra elles, vereis hoje como são vencidos: e porém, em nome de Deus, e da Virgem Maria, cujo dia he amanhã, sejamos todos fortes, e. .prestes para tomar deles vingança, &c.’ A este tempo já os Castelhanos clamando chegavam a tiro de lança, e diante os Portugueses, que tinham a voz de Castella, dos quais o Conde de Barcelos mandou ao Condestável D. Nuno em cerimónia de desafio, huma espada ricamente. .guarnecida, e o Condestável a elle em sinal de que aceitava huma facha de chumbo; e antes de outra cousa os Castelhanos deram fogo às suas bombardas, que despedindo as pedras, mataram dois Escudeiros Portugueses irmãos, e feriram de morte a hum Estrangeiro auxiliar, com. .tanto horror, e assombro dos Portugueses pela novidade, que por muy pouco os da frente não viraram as costas: percebeu o temor dos soldados outro Escudeiro; e desejando ter mão no alvoroço dos companheiros, bradou-lhes; que não temessem, nem tivessem por mau sinal aquele,. .que parecia desastre; mas antes se alegrassem muito, e entendessem por ali, que Deus lhes queria dar a vitória; por quanto havia menos de oito dias ele vira aqueles mesmos dois mortos, matarem a hum Clérigo estando revestido para dizer Missa; e quisera Deus purgar os seus……Fiéis daquelles sacrilégios, para que não tivessem parte na gloriosa vitória, que lhes queria dar: aonde vede quão frágil he o coração humano; porque bastou o acidente referido, por não ser esperado, a fazer desanimar a mayor parte de hum Exército; e no mesmo instante bastou .a restituí-los ao primeiro sossego a simples asseveração de hum homem só; senão quisermos dizer, que obrou Deus por ele. Finalmente chegou a desatar-se a furiosa tormenta; e debaixo do horrisono, e confuso vosear de ambos os campos, fizeram sinal de acometer as trombetas. .Castelhanas. Os Portugueses, esforçando-se quanto podiam, receberam a seus inimigos nas pontas de lanças, já desmontado, e diante da sua bandeira o invencível Condestável D. Nuno, e também desmontado, e posto na retaguarda o Arcebispo Primaz D. Lourenço com ElRey: Gonçalo. .Annes de Castelo de Vide em cumprimento do seu voto, adiantou-se das fileiras a ser o primeiro, que ferisse de lança; mas foy derrubado, e sendo socorrido, desempenhou bem o próprio valor; e parecendo aos Castelhanos, que atropelariam facilmente a vanguarda inimiga, por. .serem as fileiras Portuguesas singelas, e as deles dobradas, e reforçadas, acharam uma tal oposição, que por não poderem vencê-la foram parando uns atrás de outros, em modo, que da sua vanguarda, e alas se fez um corpo, mas tão grosso, e forte, que alfim romperam, e.. .penetraram dentro a pequena, e singela vanguarda dos Portugueses, e ficaram todos misturados, e tão juntos, que não poderam mais servir-se das lanças, pelo que deitando-as de si, vieram às fachas, e às espadas; e começaram a jogar golpes tão cruéis, como he lícito entender. .de duas Nações embravecidas as mais valentes de todo o Mundo; e como os Portugueses eram tão poucos, e mal armados, esteve pouco menos de perdida, e oprimida a sua vanguarda (…).

Autoria desconhecida (será emendado em breve).

Não há machado que corte a raiz ao desalento?

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Dizem que a realidade está fragmentada. Falam até de uma espécie de caos, provocado por ocultos engenheiros nas academias, nos tribunais e nos serviços públicos. O que sabemos, é que entre a sinistra entrincheirada e a destreza desmembrada, novos petizes emergem na nossa vida social e política. 

Novos petizes que prometem devoção e amor eterno aos seus líderes, são fiéis e dedicados, porém não suportam a traição, a frustração e a angústia, sempre que a sua relação dual é ameaçada. 

São garotos impulsivos, dotados de estranhos sentimentos ambivalentes. Por vezes, amam a liberdade e soltam as suas pulsões interiores, quase obscenas, num inebriante grito de glória patriótica. Outras vezes, reprimem os sentimentos mais lascivos e caem numa nostálgica santidade decrépita.

Vivem correlativamente, entre o desejo de trair o líder e encantar o manhoso, ou amar o chefe e decepar o subordinado.

Eles não fazem planos a longo prazo. Vivem o presente e querem soluções imediatas. Fomentam e alimentam teorias da conspiração, porque as fabulações e as fantasias são fontes de prazer libidinal, bem mais excitantes do que a realidade enfadonha.

Entre os gaiatos impulsivos e a triste realidade política e social, em que Portugal está mergulhado, eis que surgem os destros desmembrados para desanimar a nossa vida coletiva. Tentando a reconciliação com os mortos, prestam culto às memórias do passado. Fazem discursos acabrunhados e pouco convincentes. Não mobilizam afetos nem despertam pulsões. Estão conformados, inférteis e moribundos.

Surgem também os sinistros salvadores e obreiros das democracias, sua propriedade por direitos históricos adquiridos. Eternas promessas, eleições, conciliações, coligações frustradas, em movimento perpétuo, rumo à desgraça coletiva, que se auto regenera sempre que o abutre aparece para comer as vísceras.

Perante este malogrado cenário, será que estamos fatalmente condenados ao pesado, frio e dilacerante machado para cortar a raiz ao desalento?

Quanto custa ser relojoeiro?

Actualmente, o Instituto Português de Relojoaria destaca-se em território português como a única entidade que proporciona cursos de relojoaria dirigidos a adultos, sob a designação “Alfaiates do Tempo“. Por sua vez, a Casa Pia de Lisboa oferece a formação de Técnico/a de Relojoaria, contudo, esta destina-se exclusivamente àqueles que ainda não obtiveram a conclusão do 12º ano. Neste ensaio, permita-se descobrir quatro alternativas para iniciar a sua jornada formativa no mundo da relojoaria, seja em Portugal, na Suíça ou no Reino Unido.

Imagem construída com IA

Em terras lusitanas, a arte da relojoaria tem sido transmitida e cultivada há mais de um século e um quarto. Contudo, inúmeros artífices desta requintada profissão honram a tradição, tendo adquirido os seus saberes sob a tutela de mestres relojoeiros nas suas oficinas. Apresentamos, de seguida, quatro propostas para aqueles que almejam iniciar a sua jornada no universo da relojoaria, bem como uma seleção de prestigiadas escolas helvéticas dedicadas a esta arte.

IPR – Instituto Português de Relojoaria

Alfaiates do Tempo

O curso Alfaiates do Tempo, em Lisboa, tem uma duração de 12 meses, com sessões quinzenais teóricas e práticas. Os formadores principais são os Mestres Relojoeiros Américo Henriques (teórica) e Paulo Anastácio (prática).

Os alunos receberão um relógio de corda manual e uma mala de ferramentas profissionais no início e não é necessário ter experiência prévia para se inscrever.

O curso de relojoaria “Alfaiates do Tempo” engloba componentes práticos e teóricos. Na componente prática, os formandos são instruídos sobre ferramentas e segurança na oficina, tecnologia dos materiais, manufactura de ferramentas, bem como manutenção e reparação de uma vasta gama de relógios, desde os mecânicos de pêndulo até aos electrónicos analógicos. Teoricamente, o programa imerge na história da medição do tempo, análise funcional de relógios mecânicos e electrónicos, entre outros temas cruciais para um entendimento profundo da arte relojoeira.

O custo total do curso inclui uma inscrição única de 300€ e uma mensalidade de 250€ durante 12 meses.

No fim, receberão uma certificação pelo IPR – Instituto Português de Relojoaria e uma da DGERT que é a sigla da Direção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho. É um organismo público que, entre outras funções, certifica entidades formadoras, garantindo a qualidade da formação profissional no país.

O custo total do curso Alfaiates do Tempo é: 3300€

Mais info: Lisboa; Porto

Casa Pia de Lisboa

Técnico/a de Relojoaria

O Centro de Educação e Desenvolvimento Pina Manique, em Lisboa, oferece um Curso Profissional de Relojoaria com duração de 3 anos, destinado exclusivamente a jovens que tenham completado o 9.º ano, mas que não tenham terminado o 12º. O programa ensina os alunos a gerir o serviço de assistência técnica, a manter e a reparar uma ampla variedade de relógios mecânicos e eletrónicos, e prepara-os para trabalhar em empresas de assistência técnica, lojas de relógios e ourivesarias.

A Casa Pia de Lisboa tem uma longa tradição na formação de relojoeiros, com o seu curso reconhecido como o único do tipo na Península Ibérica. O curso é exigente, requerendo elevada concentração e motricidade fina, mas orgulha-se de uma empregabilidade de 100%.

Custo: sem custos

Mais info: Casa Pia

BHI – British Horological Institute (curso à distância)

Distance learning courses (dlc)

O ensino à distância em relojoaria, oferecido pelos cursos DLC, destina-se tanto a profissionais quanto a entusiastas. Estes cursos, que permitem aprender ao próprio ritmo, têm mais de meio século de existência e são regularmente atualizados.

O método de formação é totalmente à distância, fornecendo-se inicialmente manuais para estudo. Cada manual culmina num exercício prático, frequentemente associado à manufactura de ferramentas. Depois de concluídos, estes exercícios devem ser enviados para o BHI por correio e, depois de corrigidos, são reenviados ao formando.

Após a conclusão, os alunos têm a possibilidade de realizar exames para obtenção da acreditação profissional do BHI em relojoaria, ainda que esta etapa não seja compulsória. Existem dois DLC disponíveis: “Technician Grade” e “Combined Intermediate and Final Grade”, podendo optar-se pela especialização em relógios de pulso ou de parede. Cada formação inclui módulos independentes e exercícios práticos.

Para os que buscam um retorno mais detalhado, há a opção de solicitar feedback de tutores mediante um custo adicional. Ser membro é pré-requisito para a inscrição no DLC, proporcionando também acesso ao espaço de membros, ao “Horological Journal” mensal e a outras formações. O valor do curso varia conforme a sua tipologia e localização geográfica do aluno, e após a aquisição do DLC, não se efetuam reembolsos.

Nível Técnico sem / com tutor: 769€ / 1421€; Nível Intermédio e Final Combinados 523€.

Mais info: BHI

WOSTEP

O próximo programa Watchmaker do WOSTEP Neuchâtel, com início em agosto de 2025 e término em maio de 2027, é um programa intensivo a tempo inteiro com duração de 22 meses, totalizando 3 000 horas. Durante este período, os alunos irão acumular experiência prática, tendo inclusive a oportunidade de criar o seu próprio relógio escolar. Além da formação prática, os tópicos abordados incluem teoria da relojoaria, práticas de micromecânica e conhecimentos sobre cronógrafos e pequenas complicações. Os requisitos de candidatura incluem ter mais de 21 anos, experiência de trabalho prévia (não em relojoaria) e fluência em inglês.

Em termos de custos, a propina é de CHF 34 600, o que equivale a cerca de €36 330 ao considerar a taxa de conversão de 1CHF = 1.05€. Este valor inclui despesas administrativas, um conjunto completo de ferramentas e livros teóricos, entre outros recursos. Existem custos adicionais de 9 702 € como garantia financeira que será reembolsada mensalmente após deduzir o prémio do seguro de saúde suíço. O alojamento num apartamento partilhado para estudantes custará entre €14 437,50 a €17 902,50 pelos 22 meses, dependendo da categoria do quarto. A certificação WOSTEP, no final do curso, é reconhecida globalmente pela indústria relojoeira suíça.

Portanto o curso da Wostep com alojamento poderá ficar em 63 934€

Mais info: WOSTEP

Outras escolas na Suíça

A Guerra, o Meio-Ambiente e o Boicote como Protesto

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Os conflitos armados são responsáveis pela degradação da vida humana e ambiental. Motivados por decisões políticas, dirigem o percurso histórico em direcção a tragédias, com a morte de seres humanos e outros seres vivos, mudando, assim, a fauna e impactando o clima global. Bombardeamentos com força explosiva — incluindo alguns com munições ilegais como fósforo branco ou, em teoria, armamento nuclear — causam deslocações de pessoas, refugiados, poluição atmosférica e aquática, mortes e feridos.

O boicote é uma forma recorrente para qualquer cidadão se demonstrar opositor a estes conflitos. A não efetuação de certas compras, ou protesto contra as mesmas, são aqui alvos de breve análise através da teoria da escolha racional, o paradoxo da participação, e o dilema dos prisioneiros. É possível fazer uma calculação de custos-benefícios que predizem se as pessoas vão participar num boicote que, se, por um lado, se destina a exercer pressão de modo a travar um conflito armado, por outro pode ter consequências económicas e sociais negativas.

Um conflito armado caracteriza-se como uma luta armada entre países ou grupos, o que envolve tensões e choque de interesses, e que varia na sua duração, em quantos indivíduos são expostos neste conflito, a deslocação forçada de pessoas, o número de mortes entre civis e soldados, e as suas causas e consequências (Akresh, 2016). Durantes os conflitos, a tentativa de prejudicar o meio ambiente inimigo é, por vezes, um dos objetivos militares: foi usado como estratégia nos conflitos do Sudeste Asiático, como foi o caso da Guerra do Vietname, onde os Estados Unidos lançavam químicos agrestes em terras cultiváveis para obstruir a produção de alimento, destruindo quintas, florestas e depósitos de água.

Nos anos 80, profissionais de saúde encontraram preocupações com a ligação entre o uso de armas nucleares e o impacto ambiental. Desenvolvidas durante a Segunda Guerra Mundial, com o projeto Manhattan, estas armas foram exploradas na Guerra Fria, com o medo persistente de serem usadas, uma preocupação que permanece até aos dias de hoje. As experiências com a radioatividade, na evolução destes armamentos, resultam em condicionamentos nas vidas humanas, e outras vidas biológicas. Vemos, como exemplo, o caso de comunidades indígenas nos Estados Unidos da América, vítimas destas experiências.

Na década de noventa do século passado, a Guerra do Golfo e de Kosovo demonstraram uma colisão do uso de armas convencionais com a destruição do meio ambiente. Bombardeamentos aéreos produzem impacto significativo e directo na natureza, além daquele resultante da deslocação de refugiados. Em resultado de tantos conflitos, estima-se que, em todo o mundo, 70 a 100 milhões de minas terrestres continuam ativas, pondo em causa a vida de civis que praticam atividades como agricultura (Leaning, 2000).

Atualmente, a Human Rights Watch declarara que Israel lança fósforo branco em Gaza, que, além de impactar a saúde de milhões de pessoas, prejudica o meio ambiente através de fenómenos como a eutrofização, com depósitos de água a receberem uma enorme porção de nutrientes e minerais, o que aumenta excessivamente o desenvolvimento de algas e plantas aquáticas, tornando a água impotável. O fósforo é o principal causador da eutrofização, destruindo acesso a água limpa, sendo um dos principais poluentes ambientais (Babynin, Mindubaev, 2019). Fósforo branco contêm componentes que inflamam ao entrar em contacto com a atmosfera, causando combustão por 10 a 12 minutos. A mesma declaração, igualmente da Human Rights Watch, foi produzida em 2009, denunciando o devastador efeito de mortos e feridos no mesmo cenário (Blanford, Marquand, 2009). Outro caso da utilização deste método de armamento desenrola-se na guerra Ucrânia- Rússia, com a produção destes componentes a ser continuada, por estimação, pela Rússia, no futuro (A. Akosah, G. Mironova, K. Bedeeva, T. Minzanova, V. Babynin, Z. Mindubaev, 2021).

O boicote é uma forma de protesto que, segundo Friedman (1985), caracteriza-se pela tentativa de alcançar objetivos através da escolha individual ou coletiva em não efetuar certas compras, ou seja, um consumo consciente. Existem diversos exemplos ao longo da história, incluindo o boicote de produtos dinamarqueses por parte dos países islâmicos, após as caricaturas da autoria de Jyllands-Posten de Maomé, em 2005/2006, o boicote pela Turquia de produtos israelenses durante o conflito em Gaza, em 2014, e, mais recente ainda, os boicotes efetuados a marcas como McDonald´s e Starbucks pelo apoio realizado a Israel.

Recorrendo à psicologia e à sociologia para analisar esta temática, encontramos o paradoxo da participação, estipulando que atores racionais não participam em ação coletiva para alcançar objetivos comuns (que neste caso seria o cessar-fogo). Segundo Sen, Gürhan-Canli, and Morwitz (2001), os boicotes são apresentados como um dilema social, em que o consumidor escolhe entre os benefícios individuais e os coletivos. Tal como votar, boicotar aparenta ter poucos benefícios individuais; porém, as pessoas efectivamente votam e também boicotam. No modelo de cálculo custos-benefícios, observamos como, por exemplo, a visualização de um vídeo a mostrar as consequências ambientais de um bombardeamento auxilia a tomada de decisão. Ao se chegar à conclusão que determinada empresa ou marca exerce uma certa influência nestes acontecimentos, a perceção, que vai variar de aspetos psicológicos e sociais, do indivíduo perante estes factos, impele-o a tomar uma decisão activa. Assim, os indivíduos obtêm a motivação de parar com as ações dessa empresa, fazendo a diferença, sobretudo se acreditarem que tal boicote é propenso a produzir um bom resultado, existindo, igualmente, a sensação de bem-estar e de admiração externa, ou a autoculpabilização e censura externa em caso da não realização do boicote (Dovidio et al. 1991; Craig Smith, John, Gabrielle Klein, 2004).

Por sua vez, existem custos nesta calculação. Um custo seria o receio de causar sofrimento inadvertido e alheio com o boicote, como despedimentos. A pessoa a boicotar pode, igualmente, considerar a sua contribuição pequena para ser notada, ou porque consideram que as ações não são necessárias, tornando-se, assim, free-riders na acção, pois outras pessoas estão disponíveis para ajudar (Latane and Nida, 1981; Craig Smith, John, Gabrielle Klein, 2004).

Por outro lado, ao observarmos o dilema do prisioneiro, uma experiência da teoria de jogos para previsões sociais e psicológicas, percebemos que certas metas e condições podem auxiliar na cooperação, como o visionamento do futuro, a repetição e a imprevisibilidade (Taylor 1976; Palfrey and Rosenthal 1983; Axelrod 1984). No caso do boicote contra a guerra, as pessoas não conseguem tomar uma decisão se considerarem as suas ações sem poder, se colocarem a responsabilidade nos outros, ou se existir preocupação com as possíveis consequências, com o fator de observação alheia e contexto social auxiliar na produção desta decisão. Quando os custos de boicotar são altos, as pessoas são menos propensas a aceitar comportamento free-riding, sendo mais recetivos ao comportamento alheio. Quando a participação é alta, a motivação para o boicote é menor, e a ocorrência do free-riding aumenta.

Mas tudo indica que os boicotes podem produzir efeito, levando a uma negociação por parte da empresa, sobretudo por causa da falha na imagem corporativa. Mas nem todos os assuntos adquirem simpatia por parte do público (Akhigbe, M. Springer, Sergius Koku, 1997). Estudos recentes comprovam uma eficiência superior, por causa das redes sociais, como por exemplo, o Twitter, em que influenciam boicotes e os seus resultados (C. Makarem, Haeran Jae, 2015).

Em conclusão, o boicote é uma forma de participação cívica em que, apesar da teoria da escolha racional predizer que os benefícios são pequenos, as pessoas são ativas e seletivas com o consumo que realizam. Com a devastação do ambiente, mortes e refugiados, e com a sua gravação e projeção nos noticiários e media, algumas pessoas sentem a nível individual e a nível colectivo a necessidade de ajudar, produzindo um sentimento de bem-estar derivado dessa acção directa. De igual modo, as pessoas podem sentir a censura em não realizarem um boicote, observando o comportamento alheio, o que deriva de fatores sociais e psicológicos.

Free-riders, pessoas que até podem concordar com o propósito do boicote mas não vêem necessidade de participar dada a alta mobilização de outros, aproveitam-se de uma taxa de participação alta para não participarem e, assim, de certo modo sentirem-se parte do movimento sem tomarem qualquer acção. O boicote apresenta-se como um método eficaz por causa da perda de valor de imagem corporativa, apesar de nem todos os assuntos adquirem simpatia pelo público, e as redes sociais são um grande fator neste tipo de participação política.

Bibliografia:

Lawrence, M. J., Stemberger, H. L., Zolderdo, A. J., Struthers, D. P., & Cooke, S. J. (2015). The effects of modern war and military activities on biodiversity and the environment. Environmental Reviews, 23(4), 443-460.

Akresh, R. (2016). Climate change, conflict, and children. The future of children, 51-71.

Leaning, J. (2000). Environment and health: 5. Impact of war. CMAJ, 163(9), 1157-1161.

Marquand, R., & Blanford, N. (2009). Gaza: Israel under fire for alleged white phosphorus use. Christian Science Monitor, 14, 7-19.

Klein, J. G., Smith, N. C., & John, A. (2004). Why we boycott: Consumer motivations for boycott participation. Journal of Marketing, 68(3), 92-109.

Whiteley, P. F. (1995). Rational choice and political participation—Evaluating the debate. Political Research Quarterly, 48(1), 211-233.

Recomendações de São Valentim para o Dia dos Namorados

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Como todos os nossos leitores por esta altura já se aperceberam, não somos dados a assinalar efemérides nem propriamente, em regra, marcar aniversários, cívicos ou outros, seja do que for. No entanto, em relação ao Dia de São Valentim, ou seja, o Dia dos Namorados, de 2024, decidimos abrir uma excepção, exclusivamente em virtude de termos encontrado realmente algo interessante para dizer e mostrar (ou, pelo menos, algo não demasiado cliché). Podendo nós começar com a recomendação de leitura do delicioso poema alegórico de Geoffrey Chaucer, O Parlamento das Aves [Parlement of Foules], do final do século XIV, achamos que esta pequena mostra cultural ficaria logo demasiado sublime, por isso optámos, ao invés, por abrir recomendando um poema de W. H. Auden (1907-1973) – amigo e parceiro sexual intermitente do igualmente irreverente e interessante Christopher Isherwood, além de ex-aluno de J. R. R. Tolkien em Oxford nos anos 20 -, o perversamente delicioso e sublimemente pessimista (quanto ao amor) ‘As I Walked Out One Evening’, de 1937, em que, face aos êxtases contemplativos de um apaixonado e às suas apóstrofes à eternidade do amor que sente, sardonicamente lembra a inelutável finitude do amor terrestre em função da igualmente inexorável força do tempo, isto é, dos relógios. Podia perfeitamente tratar-se de uma paráfrase ateia da famosa frase bíblica atribuída ao sábio Rei Salomão: vanitas vanitatem, et omnia vanitas, ‘vaidade das vaidades, e tudo é vaidade’. Neste sentido, aliás, tem algo em comum com a mais famosa paráfrase do Salmo 136 constante da literatura portuguesa, a saber, a redondilha magistral ‘Sôbolos rios que vão’, de Luís de Camões. É excelente tanto pelo carácter deflacionário quanto à constância dos sentimentos humanos, de que realmente não devíamos precisar de ser relembrados, pelo controlo da rima, pelo carácter simultaneamente austero e sumamente expressivo da linguagem, pelo pícaro da situação e pela mordacidade levemente deprimida da ironia. Ora leiam, ou ouçam, recitado pelo próprio autor, cremos, numa fase já avançada da vida.

Não menos condizente, de alguma forma, com o espírito do poema de Auden, podíamos indicar, por exemplo, o filme Christopher and His Kind (2011), de Geoffrey Sax, baseado na autobiografia do mesmo nome do amigo de Oxford e amante de Auden, o escritor Christopher Isherwood, no qual relata, com doses idênticas de satisfação, tristeza, hedonismo, romantismo e nostalgia, as suas aventuras eróticas, artísticas, sociais e políticas na Berlim do final dos anos 20 e inícios dos anos 30, até à tomada do poder por Adolf Hitler durante o ano de 1932. No entanto, preferimos ‘citar’ um excerto do primeiro filme da trilogia de Richard Linklater, Before Sunrise (1995), em que, a certo ponto, o personagem interpretado por Ethan Hawke (nos tempos em que Hawke era um jovem ator absolutamente recomendável em termos artísticos), tendo precisamente a sua amada mais ou menos ‘nos braços’, cita um verso do poema acima recomendado, ‘the years shall run like rabbits’. A citação é interessante porque, naquele momento, o personagem se encontra numa situação idêntica à do amante anónimo do poema de Auden, tendo encontrado o presumível amor da sua vida no dia anterior, feito amor (duas vezes, viríamos a descobrir no segundo filme, literalmente nove anos depois) com a mesma (interpretada algo magistralmente por Julie Delpy), e estando indubitavelmente também ele convencido, para citar de novo o poema de Auden, de que ‘love has no ending’. Percebemos em 2004 que tanto o personagem de Auden como o de Linklater se vêem desenganados impiedosamente desta feliz superstição, de certo modo por obra do mesmo agente, o inexorável Tempo, isto é, pelos relógios falantes de poema de Auden. No entanto, e porque as alusões de Linklater a ‘As I Walked Out One Evening’ não acabam aqui, escolhemos como aperitivo visual precisamente as cenas finais do dito filme, em que é feita uma nova referência implícita a Auden (a qual, estamos certos, não fomos os primeiros a notar). A estrofe final do poema é:

It was late, late in the evening,
The lovers they were gone;
The clocks had ceased their chiming,
And the deep river ran on.

Que no filme a cena se passe de manhã bem cedo e não ao entardecer não tem de causar grande dificuldade ao reconhecimento da alusão: é, de qualquer modo, tarde para os amantes no dia da sua paixão, em virtude da escassez do Sr. Tempo. Como se vê nestas vinhetas do filme de Linklater, ‘os amantes partiram’, os relógios que tanto os apressaram e ameaçaram estão de novo calados porque vitoriosos, e os lugares por onde passaram os amantes ao longo da sua noite de romantismo onírico estão tal como estavam antes da sua passagem e, em virtude da mesma, sentem-se assinalavelmente mais vazios, ecoando uma certa morbidez de pensar que os sítios onde fomos mais felizes são sítios que, para muitas outras pessoas apenas representam o seu atalho através do parque, ou as traseiras de sua casa, ou outra qualquer coisa prosaica e que, tal como o rio de Heraclito, ou dito de outra forma, o rio do espaço no tempo, continuam lá, seguindo o curso temporal próprio da sua existência, independentemente do nosso desaparecimento e do das pessoas com quem lá fomos felizes. Por fim, a vista majestosa do Danúbio na cidade de Strauss apenas reitera visualmente isso mesmo, e o dictum heraclitiano que prenuncia que nunca mais poderão atravessar o mesmo rio, ou a mesma Viena, outra vez; o que, aliás, é tornado explícito no segundo filme pois, quando, finalmente se reencontram, é em Paris, e não na Viena assombrada pela noite de quase uma década antes, que tal reencontro se dá – ou seja, atravessando um outro rio. Ora espreitem e, se possível, vejam ou revejam o filme todo.

A próxima sugestão cultural de São Valentim que vos oferecemos é a muito mais optimista (ainda que também algo nostálgica, como quase tudo o que o autor compôs) peça lírica de Edvard Grieg, ‘Wedding Day at Troldhaugen’ (Livro VIII, Op. 65, nº 4), composta em 1896 e tendo como inspiração as reminiscências de Grieg e de sua mulher, Nina, sobre a celebração das bodas de prata de ambos em 1892, aqui tocada pelo extraordinário pianista russo Nikolai Lugansky, o qual um dos membros da nossa equipa teve o enorme prazer (algo delirante) de ouvir tocar no Palácio da Vila de Sintra em 2008, quando o dito anónimo era miúdo e Lugansky era consideravelmente mais jovem, ainda mais atraente de aparência e igualmente brilhante, tendo tocado, a par da sonata sombria de Janáček, uns Estudos de Execução Transcendental de Liszt como o nosso informador nos afiança nunca ter ouvido nem antes nem depois, incluindo a famosa ‘Campanella’, uma peça que requer tanto uma delicadeza extrema como um notável virtuosismo. A peça de Grieg ilustra bem, no fundo, um lado do amor completamente desconhecido do poema de Auden, mas que de alguma forma se reflete em Before Sunrise como um futuro (im)possível cujos seus personagens almejariam um dia poder contemplar retrospectivamente também – e que, com base nas evidências do terceiro (e pior) filme da série, não há grandes garantias de que lhes tenha sido concedido.

O poema a que o fantástico grupo coral inglês The King’s Singers dá voz no vídeo abaixo, ‘The Rose’, de Amanda McBroom, começa de uma forma algo previsível, com o topos das ‘definições do amor’, ou seja, ‘o que eles dizem que é o amor’, num tom algo reminiscente do sobejamente famoso soneto de Camões, ‘Amor é fogo que arde sem se ver’. Mas tal como no caso do soneto de Camões, aqui o clichê começa a dar lugar a uma meditação muito mais interessante à medida que o poema avança. As terceira e quarta estrofes são algo memoráveis, mas são as últimas duas que realmente atingem um equilíbrio de mestre entre a profundidade da emoção, a importância da ‘mensagem’ e o controle da linguagem que as exprime, realçado nesta interpretação pelo modo como é cantado pelos seis membros do grupo:

When the night has been too lonely
And the road has been too long
And you think that love is only
For the lucky and the strong

Just remember in the winter
Far beneath the bitter snows
Life’s the seed, that with the sun’s love
In the spring becomes the rose

No meio do Inverno geral que frequentemente o mundo é (ou que o fazemos ser), a ideia de que a semente da rosa do amor possa desabrochar, por efeito do ‘amor do sol’ uma vez derretidas as neves e chegada a Primavera, é uma mensagem sobejamente poderosa, quanto mais não seja porque nos relembra que o inverno que vivemos é uma estação da qual frequentemente somos nós mesmos o fenómeno meteorológico causador e, precisamente, em virtude disso nos convertemos na semente soterrada que aguarda a agência exterior do sol, figura do amante, que através do amor nos resgate de novo para o território silvestre da Primavera da vida. Uma ideia que tem tanto de humano como de metafísico, e sobretudo de religioso-teológico, como bem compreenderam os místicos e ascetas, nomeadamente no cristianismo, mas não só.

Finalmente, a canção ‘Dance Me To The End of Love’, do extraordinário Leonard Cohen, reitera o ponto fundamental de ‘The Rose’, mas concretizando-o e expandindo-o nos pedidos de um amante de que, no fundo, o ensinem a amar e a viver o amor, e cujo refrão se poderia parafrasear como ‘amemo-nos até a morte’, ou seja, que o professor, ou presumivelmente, no caso de Cohen, a professora, não abandone o aluno a meio do ‘ano letivo’ da vida, isto é, nas palavras de Cohen, ‘til I’m gathered safely in, noutras palavras, ‘até eu estar entregue [em casa]’. Isto é, no fundo, o que todo o aluno, como todo o amante, ou todo o filho(a), deseja e pede, aos professores, aos que o amam, ou a Deus, pois viver é ter de enfrentar ‘o pânico’, para citar de novo a canção, tarefa em que acompanhamento não deixa nunca de ser essencial. Qualquer filósofo platónico ou neo-platónico reconheceria aqui uma intuição fundamental, a saber, a de que o amor humano é, para cada alma, o fio de Ariadne que lhe permite encontrar o caminho de regresso a casa, seja esta a casa terrestre ou, mais ‘platonicamente’, a fons amoris, isto é, a Divindade da qual procedemos e à qual retornaremos. O que, bem vistas as coisas, é um pensamento, independentemente da verdade que possa exprimir, também inegavelmente sublime e encorajador quando perdidos na peregrinação da vida.

Dez Séculos de História: o Castelo de Noudar

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O castelo de Noudar parece vigiar o rio Ardila, que marca a fronteira no concelho de Barrancos, no Baixo Alentejo, confinando com Encinasola, em Espanha.

Classificado como monumento nacional desde 1910[1] é um exemplo da arquitetura militar de fronteira, com a particularidade de ao longo do tempo ter estado sucessivamente em ambos os lados.

Costuma ser associado a D. Diniz (1261-1325) pois foi neste reinado que terminou a construção do castelo, mas vários autores apontam que “a história do castelo de Noudar não tem início na época da reconquista, mas algum tempo antes, muito provavelmente nos séculos X ou XI, altura em que se terá edificado uma torre ou um pequeno castelo, que tinha como missão o controlo sobre a via que ligava a Beja”[2].

Situado estrategicamente numa elevação, com acesso a água[3], esta fortaleza cresceu num local sujeito a várias transformações ao longo da história, por onde passaram romanos, árabes e cristãos. Desconhece-se a origem do seu nome, sendo apontada uma origem árabe, de nadara, que significa avistar, ou nadare que significa olhar[4].

Enquadramento histórico

A Base de Dados de Património Islâmico em Portugal indica que entre os séculos X e XI existiria uma simples torre ou pequeno castelo: “Essa torre ou castelo, hoje desaparecido, situar-se-ia no espaço onde foi mais tarde erguida a alcáçova, já no reinado de D. Dinis. O único possível vestígio da ocupação islâmica hoje visível é o pano da muralha do lado Sul da alcáçova. Trata-se de uma construção em taipa, com cerca de 52 metros de extensão”[5].

A povoação de Noudar é conquistada aos mouros em 1167, por Gonçalo Mendes da Maia, quando foram ocupadas as localidades vizinhas de Serpa e Moura entre outras. “A ocupação islâmica de Noudar tem o seu termo nos séculos XII-XIII, restando vários testemunhos materiais desse período, em particular nas estruturas habitacionais o que indicia um abandono rápido, e precipitado pela acção militar, do povoado”[6].

Tendo ficado na posse de Castela, recebeu o primeiro foral em 1253, de Afonso X de Leão e Castela, o Sábio, que em 1283 doa Noudar a sua filha D. Beatriz, junto com Moura, Mourão e Serpa. Sendo D. Beatriz casada com D. Afonso III de Portugal, é assim que estas localidades passam a pertencer à coroa portuguesa[7].

Porém, os conflitos entre as coroas ibéricas iam ditar que Noudar voltasse à coroa de Castela até regressar à posse de Portugal, em 1295, quando foi assinada a paz entre Fernando IV de Castela e D. Dinis, recebendo foral deste último no mesmo ano[8].

Em 1307 a vila foi doada por D. Dinis à que é hoje a mais antiga das Ordens Portuguesas, a Ordem de Avis, que “ocupa um singular espaço na História de Portugal, por ter dado o nome à segunda Dinastia”[9].

A doação foi realizada com a condição dos cavaleiros da Ordem construírem uma cerca na vila e fortificarem o castelo, altura em que o “pano de muralha foi revestido de alvenaria de xisto. Esta fortificação defenderia um povoado com perto de dez quilómetros quadrados e uma alcaria que integrava um bosque, campos de cultivo extensivo e uma horta de cultivo intensivo”[10].

Contudo, na sequência das guerras de D. Afonso IV em 1339 o castelo regressa à posse de Castela. Em 1443 está de novo na posse de Portugal pois assim o indica uma carta do Regente D. Pedro, datada de 27 de janeiro de 1443 e que menciona terem sido dados “cinco mil reais a Álvaro Rodrigues, tesoureiro das obras de Noudar para obras delas”[11]. Em 1513 recebe novo foral, concedido por D. Manuel[12].

Ao longo dos séculos assiste-se a uma dinâmica de conflitos que colocou Noudar de um e outro lado da fronteira, até à assinatura do Tratado de Utreque, a 6 de fevereiro de 1715: “De parte a parte, Espanha e Portugal haviam cedido nas suas pretensões, de sorte que ambos alcançavam um ganho ilusório de causa, no mais controvertido tema das negociações. Rezava o art. V: «Especialmente se restituirão à Coroa de Portugal o castelo de Noudar com o seu distrito…»”[13]. Para além de Noudar, no mesmo tratado Portugal recuperava igualmente a importante colónia do Sacramento, no Brasil.

À época já a vizinha localidade de Barrancos tinha ganho preponderância e em 1774 “partilha com Noudar a sede de concelho, mas em 1836 o concelho de Noudar deixa de existir”[14].

O que resta do castelo ainda hoje pode ser visitado, entre a ribeira da Múrtega e o rio Ardila, na Herdade da Coitadinha, concelho de Barrancos e distrito de Beja.

Castelo de Noudar Foto de Fernando Peres Rodrigues | Olhares - Fotografia  Online

Fig. 1 – O castelo de Noudar na atualidade[15]

Noudar, refúgio de homiziados

A função militar deste espaço de fronteira visava proteger a fronteira, mas também contribuir para o estabelecimento populacional, garantindo uma função económica. “A tarefa de reconstrução do castelo, sendo avultada, seria menor se comparada com a outra tarefa imposta: o povoamento”[16]. Povoar era fundamental, pois de nada valia uma terra conquistada, mas vazia.

Pela distância dos centros populacionais, pelo território inóspito, pelas constantes mudanças territoriais, o local não era atrativo, razão pela qual D. Dinis com o objetivo de aumentar o povoamento da zona cria em 1308 o primeiro couto de homiziados do reino. Homiziados eram as pessoas que tinham cometido crimes, mas a quem era dada uma oportunidade, e aqui poderiam viver em segurança, cumprindo algumas regras, como ter que permanecer no local no mínimo cinco anos. Porém, “Estes coutos não eram locais de refúgio de criminosos, mas sim um modo de cumprimento da sentença judicial”[17]. As pessoas que eram enviadas para Noudar tinham cometido crimes diversos: Diogo Vasques, morador na cidade de Évora, foi degredado dois anos para Noudar porque deixou fugir um prisioneiro[18] e Gomes Eanes, por assassínio[19].

Para além da criação da zona de segurança, que se pretendia que atraísse gente, o rei:

“- Isentou os moradores da vila de serem penhorados ou constrangidos por dívidas, nas suas armas, cavalos e roupa de vestir;

– Concedeu mercê ao Mestre de Avis «(…) para ajuda do lavor de Noudar, das lutuosas que por 4 annos tem de receber dos vassalos que morrerem, e quitando-lhes as colheitas das Commendas da sua Ordem, ainda que naquelles 4 anos ahy vam»”[20].

A promoção do povoamento visava ajudar na construção militar, mas também aumentar a população residente: “As necessidades de garantir o povoamento serviam inicialmente uma função primeira que era de manter um efetivo capaz de defender a fronteira, mas tem uma segunda função, a produção de rendimentos. Uma e outra não estão desligadas: quanto maior a riqueza criada, maior capacidade de atração; quanto mais população mais capacidade de defesa do território e logo mais estabilidade. Quanto mais estabilidade mais condições para a produção de recursos”[21].

Assim, os moradores, fossem ou não homiziados, tiveram uma carta de privilégios onde estavam isentos de pagar sisa, portagens e outros impostos. Estes privilégios foram confirmados inúmeras vezes até ao século XVI, o que sugere que seria difícil atrair gente para o local.

Já desde o século XV, mas com maior incidência no século XVI abundam as demarcações de terras, o que confirma ser “este o período em que a componente económica, nomeadamente pecuária, do território suplanta a componente militar”[22], razão para o declínio de Noudar e o simultâneo fortalecimento da vizinha povoação de Barrancos.

Representações gráficas de Noudar

Muito do conhecimento que temos hoje sobre esta fortificação deve-se ao escudeiro de D. Manuel I, Duarte de Armas[23], que compilou informação no Livro das Fortalezas situadas no extremo de Portugal e Castela[24], e que para o efeito visitou os locais, tendo criado desenhos e plantas dos castelos visitados, de norte a sul de Portugal. Estas são as representações gráficas mais antigas que se conhecem do local.

A inclusão de Noudar neste livro prova que fazia parte de uma rede de fortificações de fronteira, numa altura, como já se assinalou, onde os conflitos fronteiriços eram permanentes. Noudar foi sempre “um lugar muito castigado em tempo de guerra”[25].

As imagens tornam-se ainda mais interessantes se forem acompanhadas da leitura do “Auto de posse do castelo de Noudar e inventário do que lá existia no século XVI”[26]. Este documento tem a data de 1516, ou seja, é contemporâneo do Livro das Fortalezas, datado de 1509-1510.

O Auto de Posse elenca muito discriminadamente o castelo, mencionando detalhes como “logo junto com a dita porta uma grade de pau com que se fecha a serventia da dita torre”[27]. Descreve armas e objetos variados, a maior parte partidos, quebrados ou velhos.

Curiosamente, este documento afirma que “Noudar é da Ordem de Cister”[28].

Já no século XVIII é o engenheiro militar Miguel Luís Jacob que faz uma planta da praça de Noudar, com um projeto de reforço das muralhas, que nunca chegará a ser realizado, o que indica que a fortaleza perdera importância estratégica: “Quando vieram as invasões francesas, já Portugal tinha abdicado do contributo de Noudar como vigilante da fronteira, uma vez que em 1805, o alvará que regulava as praças de fronteira extinguiu a praça de Noudar”[29].

Porém, a Biblioteca do Exército contém desenhos feitos ao longo dos séculos XVIII e XIX com outras representações gráficas, todas de origem militar, mostrando algum interesse neste local[30]. O facto de uma delas ter sido feita por Lourenço Homem da Cunha de Sá, “Capitão do Real Corpo de Engenheiros e lente substituto efetivo da Real Academia de Fortificação, Artilharia e Desenho”[31] e das outras serem da autoria de praticantes da Academia Militar, sugere que possam ser simples exercícios de desenho destinadas e essa disciplina. Mesmo que assim seja, trazem sempre mais informação.

Por ordem cronológica encontram-se as seguintes plantas:

  1. Em 1509-1510, planta de Duarte de Armas (figs. 2, 3 e 4)
  2. Em 1755, planta de Miguel Luís Jacob (fig. 5)
  3. Em 1758, planta realizada por João António Infante (fig. 6)
  4. Em 1758, planta realizada por João Antonio Infante, e pelos majores de engenharia H. S. Rosa Maciel e J. G. B. Rodrigues (fig. 7)
  5. Em 1795 a mencionada planta realizada por Lourenço Homem da Cunha de Sá (fig. 8)
  6. Em 1891, uma cópia da planta de João Antonio Infante, realizada pelo desenhador Álvaro Campos (fig. 9).

Fig.2 – Castelo de Noudar, Livro das Fortalezas de Duarte de Armas, f. 10v e 11

Fig. 3 – Castelo de Noudar, Livro das Fortalezas de Duarte de Armas, f. 11v e 12.

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Fig. 4 – Plantas dos castelos de Moura e Noudar, Livro das Fortalezas de Duarte de Armas, f 122

Fig. 5 – Planta da praça de Noudar, por Miguel Luíz Jacob, 1755[32]

http://arquivodigital.defesa.pt/Images/winlibimg.aspx?skey=&doc=286411&img=64627

Fig. 6 – Planta da praça de Nodar, de João Antonio Infante; H. S. Rosa Maciel e J. G. B. Rodrigues, 1758[33]

Fig. 7 – Planta da praça de Noudar, de João António Infante, 1758[34]

Fig. 8 – Planta da praça de Noudar, de Lourenço Homem de Cunha de Sá. 1795[35]

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Fig.9 – Planta da praça de Nodar de João Antonio Infante; cópia executada pelo desenhador Álvaro Campos, 1891[36]

A leitura cruzada dos documentos mencionados ainda ganha novo fôlego se for realizada durante ou após uma visita ao local, onde se pode ver o que resta do casario outrora habitado, como se pode observar na figura seguinte.

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Fig. 10 – Casas na envolvência do castelo de Noudar, na atualidade (fotografia do autor).

Apontamento final

O castelo de Noudar insere-se numa rede de fortificações que foram construídas, adaptadas e modificadas ao longo da fronteira com Espanha, desde a Reconquista.

No caso de Noudar aproveitaram-se as bases de uma estrutura de defesa muçulmana e desde o século XII foi melhorado e aumentado.

Uma das características da fronteira naquele local foi a sua mobilidade, levando o castelo a pertencer ora a Portugal ora a Espanha, na sequência de conflitos e posteriores assinaturas da paz.

A escolha do local para a criação do primeiro couto de homiziados em Portugal teve como objetivo aumentar o povoamento daquela zona de fronteira, que era de fácil conquista: “A razão para a construção de uma estrutura militar em Noudar não é certamente desligada da facilidade de entrada no território que aquele local apresenta. Esta localização colocaria também a vila no papel de local das entradas comerciais”[37].

Noudar desenvolveu-se como fortificação e como povoação, mas a sua posição geoestratégica começa a decair em favor da uma localidade vizinha: “Quando se exige ao território que cumpra a sua função militar, sobressai a vila de Noudar (…). Quando esta vertente é menos necessária e se impõe que o território cumpra a sua função de produtor de riqueza, é então Barrancos que assume protagonismo”[38].

A Herdade da Coitadinha, que significa Coutada Pequena, já fez parte da vila medieval de Noudar, e o que resta do castelo de Noudar é visitável e merecia uma maior divulgação, bem como acessos melhorados. No âmbito deste trabalho visitei Noudar propositadamente e concluo que os monumentos mais importantes são conhecidos da maioria das pessoas, mas manter a história viva é também visitar e conhecer os locais menos conhecidos que ajudaram a fazer a História como a conhecemos.

Fig. 11 – Vista obtida no castelo de Noudar, avistando-se o rio Ardila, fronteira com Espanha. (Fotografia do autor)

Bibliografia

Armas, Duarte de – Livro das fortalezas situadas no extremo de Portugal e Castela por Duarte de Armas, escudeiro da casa do rei d. Manuel I. Sl: s.n, [entre 1495 e 1521), disponível em https://digitarq.arquivos.pt/details?id=3909707

Azevedo, Pedro A. De – “Auto d’uma posse do Castelo de Noudar e Inventario do que la existia no sec. XVI”. O Archeólogo Portuguez, 1ª série, nº5, pp.146-151, disponível em http://www.patrimoniocultural.gov.pt/static/data/publicacoes/o_arqueologo_portugues/serie_1/volume_5/146_auto_castello.pdf

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Infante, João António; Campos, Álvaro – Planta da praça de Nodar/ riscado por um praticante do numero da Academia Militar da provincia do Alemtejo. [S.l.: s.n.], 1891. Disponível em http://id.bnportugal.gov.pt/bib/rnod/271204

Infante, João António; Maciel, H. S. Rosa; Rodrigues, J. G. B. – Planta da praça de Nodar/ riscada por um praticante do numero da Academia Militar da provincia do Alentejo. [S.l.: s.n.], [post 1758]. Disponível em http://id.bnportugal.gov.pt/bib/rnod/271203

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  1. Pelo Decreto de 16-06-1910, publicado no Diário do Governo n.º 136, de 23-06-1910.

  2. Rego, Miguel – “A ocupação islâmica de Noudar”. Arqueologia Medieval, nº8 (2003), pp.69-82, p.74, apud “Castelo de Noudar”, In Património Cultural.

  3. Para além do rio Ardila, ao lado do castelo passa a ribeira de Múrtega.

  4. Gabriel, António – Um olhar sobre o castelo de Noudar: do castelo medieval à ruína: proposta de valorização do lugar. Évora: Universidade de Évora, 2016. Dissertação de mestrado.

  5. “Castelo de Noudar”. In Base de Dados de Património Islâmico em Portugal. Lisboa: Universidade Lusófona, s.d.

  6. Idem.

  7. Gordalina, Rosário – Castelo de Noudar / Fortificação de Noudar. Lisboa: Sistema de Informação para o Património Arquitetónico, 2005, s/p.

  8. Mayorova, Marina Ivanovna – Casas de alcaidaria. Estruturas habitacionais nos castelos portugueses entre os finais da Idade Média e os princípios da Época Moderna. Coimbra: Faculdade de Letras, 2017. Dissertação de Mestrado, p. 120.

  9. Presidência da República Portuguesa – História da Ordem Militar de Avis. Lisboa: Presidência da República Portuguesa, s.d.

  10. “Castelo de Noudar”. In Base de Dados de Património Islâmico em Portugal. Lisboa: Universidade Lusófona, s.d.

  11. Monumenta Henricina: 1443-1445. Coimbra: Comissão das Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, 1967, v. VIII, p. 6. Por opção, e para facilidade de leitura, todas as transcrições são feitas para português corrente.

  12. Gordalina, Rosário – Castelo de Noudar / Fortificação de Noudar. Lisboa: Sistema de Informação para o Património Arquitetónico, 2005, s/p.

  13. Cortesão, Jaime – Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid. Rio de Janeiro: Instituto Rio Branco, 1950, Parte 1, vol 1, pp. 179-180.

  14. Parque de Natureza de Noudar – Castelo de Noudar. Barrancos: Parque de Natureza de Noudar, s.d.

  15. Rodrigues, Fernando Peres (fot.) “Castelo de Noudar”, In Olhares: fotografia online.

  16. Ramos, João Augusto Espadeiro – Fronteira e Relações de Poder. Noudar e Barrancos no Antigo Regime. Évora: Universidade de Évora, 2012, p. 17.

  17. Ventura, Margarida Garcez – “Os coutos de homiziados nas fronteiras com direito a asilo”. Revista da Faculdade de Letras: História, v. 15, n. 1 (1998), p. 602.

  18. Carta de perdão sobre justiça régia de D. Afonso V e concede carta de segurança a Diogo Vasques, morador na cidade de Évora, pela fuga de um preso, sendo degredado por dois anos para o couto de Noudar e inscrito no livro dos homiziados. ANTT, Chancelaria de D. Afonso V, l. 11, f. 89.

  19. Carta de privilégio de D. Afonso V a Gomes Eanes, acusado por João Afonso de Xira, vassalo régio, da morte do seu irmão, mudando-lhe o degredo de 4 anos no couto de Noudar para o couto de Arronches. ANTT, Chancelaria de D. Afonso V, lv. 5, f. 76.

  20. “Castelo de Noudar”. In Fortalezas.org.

  21. Ramos, João Augusto Espadeiro – Fronteira e Relações de Poder. Noudar e Barrancos no Antigo Regime. Évora: Universidade de Évora, 2012, p. 18.

  22. Idem, p. 19

  23. O nome do autor é apresentado como Duarte d’Armas e Duarte de Armas. Vamos seguir a forma do Arquivo Nacional Torre do Tombo onde foi consultado o livro, Duarte de Armas.

  24. Armas, Duarte de – Livro das Fortalezas situadas no extremo de Portugal e Castela. [Lisboa): s.n., 1509-1510.

  25. Gabriel, António – Um olhar sobre o castelo de Noudar: do castelo medieval à ruína: proposta de valorização do lugar. Évora: Universidade de Évora, 2016. Dissertação de mestrado, p. 8.

  26. Azevedo, Pedro A. De – “Auto d’uma posse do Castelo de Noudar e Inventario do que la existia no século XVI”. O Archeólogo Portuguez, 1ª série, nº5, p.146.

  27. Idem, p. 147.

  28. Idem, p. 151.

  29. Ramos, João Augusto Espadeiro – Fronteira e Relações de Poder. Noudar e Barrancos no Antigo Regime. Évora: Universidade de Évora, 2012, p. 90

  30. À exceção de Mourão, que tem igual número de plantas, as vizinhas praças fortificadas parecem ter tido menos interesse em matéria de desenho pois Moura regista um e Mértola três.

  31. “Lourenço Homem da Cunha de Sá”. In Dicionário Histórico de Portugal.

  32. Jacob, Miguel Luiz – Planta da praça de Noudar na vezita de 1755. – [S.l.: s.n.], 1755.

  33. Infante, João António; Maciel, H. S. Rosa; Rodrigues, J. G. B. – Planta da praça de Nodar/ riscada por um praticante do numero da Academia Militar da provincia do Alentejo. [S.l.: s.n.], [post 1758]

  34. Infante, João António – Planta da praça de Noudar/ riscada por hum praticante de numero da Academia Militar da província do Alentejo. [S.l.: s.n.], 1758.

  35. Sá, Lourenço Homem da Cunha de – Planta da praça de Noudar. [S.l.: s.n.], 1795

  36. Infante, João António; Campos, Álvaro – Planta da praça de Nodar/ riscado por um praticante do numero da Academia Militar da província do Alentejo. [S.l.: s.n.], 1891

  37. Ramos, João Augusto Espadeiro – Fronteira e Relações de Poder. Noudar e Barrancos no Antigo Regime. Évora: Universidade de Évora, 2012, p. 20

  38. Idem.

Séries Visuais sobre Cinema: Disturbed Women, Bad Romance

Fatal Attraction
Alex Forrest

Audition
Asami Yamazaki

Sunset Boulevard
Norma Desmond

Nola Carveth in The Brood

Nina
Black Swan

Sugestões de Cinema: Marinhagem e Camionagem

Destacamos, para começar, numa partilha de arte e de lazer, quatro filmes sobre marinhagem. Curiosamente, dois sobre marinhagem de rio e dois sobre marinhagem de mar.

Começamos com o absoluto clássico de Jean Vigo, L’Atalante, de 1934, com uma história de amor a bordo de uma barcaça de carga.

Continuamos com o muito mais recente Master and Commander, de Peter Weir, 2003, com Russel Crowe e Paul Bettany, passado durante as guerras napoleónicas, também em parte um chase movie que retrata de forma admirável a perseguição militar em alto mar e a vida nessas circunstâncias.

Depois, uma adaptação do mais significativo livro escrito sobre o mar seria também inevitável: optámos pela versão de Moby Dick de John Huston, de 1956, com Gregory Peck e também Orson Welles num papel secundário: descrever a busca obsecrada do capitão Ahab em torno de uma baleia é desnecessário pois toda a gente em geral conhece a história.

Por último, curiosamente também de Huston, The African Queen, de 1951, com Humphrey Bogard e Katherine Hepburn, também uma história de amor passada a bordo de uma barcaça de rio, na África durante a primeira grande guerra. Deixamos estas sugestões em que o calor da aventura marítima contrasta com a frieza e selvageria magistral do mar e das águas em geral.

Gostamos de agrupar unidades fílmicas sob muitos prismas diferentes — tema, objecto, género, cenário — e, hoje, também, escolhemos filmes unidos pelo acessório do camião e da cultura da camionagem. Muito incomum, segundo cremos, no cinema clássico — já existiam camiões ou, anteriormente, outros meios de transporte de bens em larga quantidade —, despontou em popularidade como cenário ou adereço a partir dos anos setenta. Porquê, não sabemos. Influências da crise do petróleo de então?

É importante notar, em primeiro lugar, que a disposição do homem e do seu veículo — como à semelhança de obras mais tardias dos anos oitenta, The Three Dukes e Knight Rider — são explicitamente versões do antigo western e da figura do homem e do seu corcel. São parte também do espírito americano não tanto de cavalaria tradicional, agregado a uma ordem, mas de independência social e económica.

Começamos assim com Smokey and the Bandit, de 1977, com Burt Reynolds e Jackie Gleason, retratando dois contrabandistas de cerveja, um ao volante de um camião e Reynolds ao volante de um lendário Pontiac Trans Am, em fuga do xerife, naturalmente interpretado por Gleason; nota-se neste filme o recurso entusiasmante a um adereço anteriormente indissociável do camionista, o do rádio CB, pequenos aparelhos a bordo do veículo que sintonizavam uma frequência específica à comunidade dos camionistas, e que, na película, ajudam os fugitivos. 

De seguida, temos High Ballin’, de 1978, com Peter Fonda, temos o deboche de confronto entre camiões e respectivos condutores: uma máfia de grupo rival persegue dois protagonistas, todos ao volante do respectivo veículo. O filme é canadiano, terra familiarizada com o transporte de longa distância e com as paisagens agrestes, e contém várias sequências de perseguição automóvel muito interessantes.

Continuamos com White Line Fever, de 1975, na sequência dessa tal série de filmes sobre camionagem que tiveram o seu auge nessa década. É mais uma história de um camionista, regressado do Vietnam, em confronto com as máfias e os sindicatos que dominam a área. Muitas perseguições e algumas questões políticas.

A seguir, Duel, de Steen Spielberg, 1971. Um thriller absolutamente genial em que um automobilista anónimo, por razões completamente desconhecidas, começa a ser perseguido por um camionista, cuja identidade não é relevada e que se mantém sempre fora da vista, e também cujo camião teve a atenção estética de ser particularmente monstruoso e ameaçador. É uma das grandes películas do Spielberg inicial.

Uma penúltima entrada não é propriamente um filme sobre camionagem, mas achamos importante convocar pelo seu carácter de certo modo irmanado de um certo espírito de independência e aventura relacionado com a actividade. Trata-se de Big Trouble in Little China, de 1987, realizado por John Carpenter — também um mestre da independência e da aventura. O seu protagonista é um camionista, interpretado por Kurt Russell, com todos os tiques de cowboy do tipo, que, ao mesmo tempo, é um cómico anti-herói, atrapalhando-se em todas as suas iniciativas no cenário com que se depara: um complot de raptos, resgates e magia sobrenatural oriental, em plena chinatown, numa cidade na América.

E, por último, talvez o melhor para o fim: o muito precursor e europeu Le Salaire de la peur, de Henri-Georges Clouzot, com Yves Montand, de 1953, retratando um grupo de quatro irmãos contratados para conduzirem dois camiões carregados de nitroglicerina, com o objectivo de extinguirem um grave incêndio num poço de petróleo. Argumento explosivo, portanto e, segundo dizem, irrepreensível realização. São as nossas sugestões!

No Pulso do Pontífice

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. Quando se é o Bispo de Roma, o monarca soberano de uma pequena nação e chefe de uma das mais antigas instituições religiosas do mundo, a “modéstia” pode ser um pouco subjectiva. Ao longo dos últimos 200 anos, foram produzidas mais de uma dúzia de peças únicas de relógios Patek Pilippe para vários papas diferentes. O Papa Francisco I, porém, está menos interessado na alta relojoaria. Foi frequentemente visto a usar um Casio MQ-24-7B2 tal como um Swatch Once Again.

Papa Francisco I com o seu Casio MQ-24-7B2
Papa Francisco I com o seu Casio MQ-24-7B2

A subjectividade da Modéstia nos relógios dos Papas

Relógio de bolso Patek Philippe decorado com as armas papais do Papa Pio IX.
Relógio de bolso Patek Philippe decorado com as armas papais do Papa Pio IX.

Ao contrário de Francisco I, os papas anteriores do século XX e do início do século XXI ostentaram frequentemente alguns dos melhores relógios disponíveis, muito fora da gama de preços do membro médio do seu rebanho.

O Papa Bento XVI, outrora considerado um ícone de estilo pela Gentlemen’s Quarterly, recebeu uma variedade de relógios de diplomatas estrangeiros enquanto pontífice. Ficou célebre o facto de ter usado um belo relógio na conferência de imprensa em que anunciou a sua demissão como Papa, um relógio da marca “Erhard Junghans” da sua Alemanha natal.

Papa Bento XVI a receber um Erhard Junghans
Papa Bento XVI a receber um Erhard Junghans de Volker Kauder, um político alemão

O modelo terá custado alguns milhares de dólares, embora ele não o tenha comprado para si próprio. Recebeu-o como presente de Volker Kauder, um político alemão.

O Papa São João Paulo II , antecessor de Bento XVI, assemelhava-se a Francisco I na sua estética humilde, preferindo vestes menos vistosas e acessórios episcopais mais simples.

Papa João Paulo II com um Rolex DateJust
Papa João Paulo II com um Rolex DateJust

No entanto, a excepção a esta modéstia era o seu DateJust, que foi um companheiro constante ao longo das suas décadas de papado.

Papa Francisco I: Casio MQ-24-7B2

O Casio MQ-24-7B2, é um relógio de quartzo com uma caixa de plástico preto e mostrador branco. O relógio ainda está a ser produzido e pode ser adquirido por cerca de 20 euros.

A Casio confirmou há alguns anos que nunca teve qualquer comunicação com o Vaticano. Isto significa que o relógio foi escolhido e comprado pelo próprio Papa Francisco, mesmo quando este tinha a opção de escolher um Piece Unique Patek Philippe.

Casio MQ-24-7B2
Casio MQ-24-7B2

Numa curta troca de e-mails, a Casio confirmou pela primeira vez a marca e o modelo do relógio.

“Parece que o Papa Francisco usa o Casio MQ-24”, disse um representante da Casio na sua primeira confirmação pública de que o pontífice está a usar um dos seus relógios. “O modelo faz parte da nossa gama de relógios básicos e é apreciado por muitas pessoas em todo o mundo.”

“Básico” é a palavra-chave

O MQ24 é um dos modelos mais económicos da Casio, com uma resistência mínima à água, sem janela de data e com um ponteiro dos segundos normal, que não varre. O seu mostrador não tem decoração, apresentando apenas três textos: o logótipo da Casio, uma etiqueta do seu movimento de quartzo (o mais barato disponível) e a sua certificação de resistência à água.

As horas do relógio estão escritas em algarismos árabes simples e fáceis de ler. Não possui marcas luminescentes para ver as horas no escuro e a sua bracelete é feita de uma simples resina preta.

É, segundo todos os relatos, o relógio mais básico que a Casio oferece. Custa cerca de 20 euros.

Papa Francisco I: Swatch Once Again

O SAWTCH mais valorizado de sempre…

Swatch Once Again do Papa Francisco
Swatch Once Again do Papa Francisco

Como qualquer bom coleccionador de relógios o Papa Francisco não resume a sua colecção a um Casio, tinha também um Swatch. Mas acabou por ir a leilão.

Não é todos os dias (ou nunca) que se vê o relógio pessoal do Papa a ser leiloado. De facto, pode dizer-se o mesmo de muitos dos relógios do Once Upon A Time Watch Project da Wright Auction para apoiar a The Brian LaViolette Scholarship Foundation. Também incluídos neste leilão de relógios de beneficência, que decorreu a 30 de Novembro de 2022, e onde estiveram relógios de figuras conhecidas como Randall Park, Kenny Rogers, o antigo treinador de basquetebol da Duke, Mike Krzyzewski, Condoleeza Rice e o ponta de lança dos Green Bay Packers, Mason Crosby; mas a estrela principal foi o Swatch pessoal do Papa Francisco.

The Brian LaViolette Scholarship Foundation

Brian LaViolette, o homónimo da instituição de caridade, era um jovem que cresceu em Green Bay, Wisconsin, e que começou a usar o seu primeiro relógio com apenas quatro anos de idade. Quando tinha 15 anos, já tinha uma coleção de sete relógios. Tragicamente, Brian morreu num acidente de natação em 1992. A sua família, liderada por Kim e Doug LaViolette, prometeu tirar o máximo partido de uma terrível tragédia, acabando por criar a Brian LaViolete Scholarship Foundation para atribuir bolsas de estudo universitárias a crianças de todo o mundo, do Wisconsin à África do Sul. Em 2022, a fundação atribuiu 55 bolsas de estudo; desde o seu início, já atribuiu um total de mais de 1 000 bolsas de estudo. Todas as receitas do The Watch Project apoiam os esforços da Scholarship Foundation.

Os leilões de relógios para fins caritativos não são novidade, mas este foi empolgante porque muitos dos seus donativos provieram de coleccionadores. É interessante ver os coleccionadores a juntarem-se para apoiar uma causa de caridade como esta.

“O que eles fizeram foi pegar numa circunstância trágica e torná-la numa coisa boa em honra da memória de Brian”, diz Wind. Vejamos o Swatch do Papa Francisco, juntamente com alguns dos outros relógios que foram leiloados para fins de caridade.

Um dos amigos de infância de Brian tornou-se padre e conseguiu ligar a Fundação LaViolette ao Papa Francisco, abordando a equipa do Papa com a ideia de doar um relógio para apoiar a organização. Demorou cerca de seis meses, mas o Papa Francisco acabou por concordar em doar o seu Swatch pessoal, que pode ser visto a usar numa série de fotografias desde que se tornou Papa em 2013.

carta de autenticidade assinada pelo Secretário Pessoal do Papa Francisco, P. Fabio Salerno, dirigida à família LaViolette e à fundação
Relógio Swatch Once Again e carta de autenticidade assinada pelo Secretário Pessoal do Papa Francisco, P. Fabio Salerno, dirigida à família LaViolette e à sua fundação

O Swatch vem acompanhado de uma carta de autenticidade assinada pelo Secretário Pessoal do Papa Francisco, P. Fabio Salerno, dirigida à família LaViolette e à fundação. O relógio em si é um Swatch simples e moderno, com um mostrador branco e uma caixa e bracelete em plástico preto. É o Swatch por excelência.

De 20€ a 51 000€

Papa Francisco I com o seu Swatch
Papa Francisco I com o seu Swatch Swatch Once Again

Todos já comprámos relógios mentalizando-nos de que se tratava de um bom investimento, de que iria acabar por valorizar. Isto pode mesmo ter acontecido com os recentes MoonSwatch. Pois bem, o Swatch do Papa Francisco bateu todos os recordes!!!

A 30 de novembro de 2022 foi leiloado o Swatch Once Again do Papa Francisco I. O relógio, com 34mm de diâmetro de caixa, mostrador branco e caixa de plástico atingiu a o valor recorde de cerca de 51 000€, a fundação The Brian LaViolette agradeceu.

De Bond a Bondage

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Hoje, abordar-se-ão brevemente, e até algo anarquicamente, aqui, alguns conceitos relacionados com a definição de obrigações financeiras — em inglês, bonds — e outros relacionados.

Bond significa, em inglês, essa tal obrigação, um pouco equivalente a um contrato, mas com promessa de entrega futura de bem acrescido — com mais valor. Etimologicamente, e na grande árvore das palavras relacionadas, encontramos a definição de um círculo que encopassa, junta, por obrigação, e prende: a banda, bond, bund, em alemão; o sâncristo बन्ध , bandh, nó, ligação forte. Uma coisa apertada, irmanada — também ligado o significado a brother, e a sua equivalência em germânico — e, por força, indissociável.

Mais à frente, no universo moderno, das mil e uma rápidas e digestíveis associações, temos o herói e anti-herói James Bond, assim como também o bondage, a prática psico-erótica de ser amarrado, estar preso, impossibilitado e limitado nos movimentos.

Na definição mais lata do bond, e numa reflexão mais panorâmica, temos o contraste entre os extremos da simples ligação, sem conotação vinculatória, e o abraço de urso do comprometimento absoluto, nexos lógicos envolvidos nesse círculo criado pelo acordo.

Na imagem acima, um dos contratos mais antigos de troca ou venda de propriedade: no caso, uma habitação e, como brinde, um escravo. Um documento que data dos sumérios, mais de dois mil anos antes de Cristo. Ao lado, aquele que parece ser o título de obrigação mais antigo conhecido, também de data semelhante, da babilónia.

É importante começar por notar, em aspectos que se relacionem com descrições económicas do mundo, que são primariamente as relações humanas que contêm a relação económica, e não o contrário. É de privilegiar, tanto nas descrições dessa ciência humana, a economia, como de outras, como os termos são e devem ser tipicamente usados na sua ambiguidade universalizante, onde é privilegiado o funcionamento analógico e não o modelo estrito de significante e significado. O bond é, primeiramente também, como tantos outras disposições morais, logocêntrico: é fundamental a ligação à palavra, ao voto (e como vemos em muita literatura sobre o assunto, dinheiro é palavra).

Uma breve incursão em Shakespeare é aqui bem-vinda, onde o tópico do dinheiro, da dívida e da relação humana — e frequentemente trágica — daí advinda é quase sempre, de modo ou outro, central, e com desculpas pelo meu desconhecimento das peças tornar a descrição pouco clara. Em Merchant of Venice, em primeiro lugar, a peça com mais referências ao termo, algumas anafóricas, confunde-se a ligação financeira com a ligação emocional da amizade. Em Comedy of Errors, bond e novo bond do casamento. A personagem Teseu em Midsummer Night’s Dream e Cordelia em King Lear mencionam também o termo enquanto voto e remetendo para a correspondente ligação emocional, cuja formalidade Lear rejeita (mas Cordelia também rejeita uma formalidade, a da retórica requerida por Lear). Em Timão de Atenas, o ócio é punido com a vida própria dos bonds contraídos, que dominam o protagonista, e aqui destaca-se a atribuição da qualidade da vida a instrumentos da finança, o que tem tudo a ver com idolatria, etc.

Na imagem acima, um título do séc. xvi, holandês, quase contemporâneo de Shakespeare, que ainda está a pagar juros. Não é certo, e aqui convém lembrar, que este seja a versão actual do título de obrigação, existindo provavelmente registos ou documentos adicionais que representam versões actuais do seu conteúdo, talvez até devidamente emendadas ao longo do tempo. Ou seja, bonds, obrigações, não são objectos físicos: são promessas, são texto e, por conseguinte, espécie de património imaterial feito de memória mas sustentado por indicadores físicos. Podem existir com pergaminho ou sem os mesmos. Podem existir sem contrato, como o exemplo que veremos um pouco a seguir.

É de notar que, tanto em Shakespeare como na arte performativa em geral, o uso das palavras em performance permite a sua digestão de modo mais emocional, facilitando assim essa leitura analógica do bond como personificado. Em Troilus e Cressida, e também em Macbeth, temos referências à ligação, o bond, entre o homem e o divino: no primeiro caso, o impossível acontece e o laço é quebrado; no segundo, há um desejo faustiano de libertação da providência. Ainda em Cymbeline, o bond é o frio da vida, e todos estes casos se referem ao ultimate bond, o do divino ao homem, ou do ser à vida. Em Macbeth, o bond da promessa, ao matar Macduff, e em Timão, o laço do casamento de um serviçal deriva do laço da amizade. A personagem Apemantus, filósofo cínico, em Timão, desconfia de qualquer laço. Brutus, em Júlio César, equivale a palavra ao laço, continuando o tema do voto, da promessa, através do logos. Finalmente, Coriolanus privilegia o laço familiar aos contratuais: esta tensão é encontrada em inúmeras peças, e mistura o natural com o artificial, o intencional com o providente, de modos inesperados e não sistematizáveis.

Já na contemporaneidade, em James Bond, o laço é também o do dever, de um dever particular à coroa e ao militarismo. Na descrição de Ian Fleming, o apelido é “brief, unromantic, Anglo-Saxon and yet very masculine name”. No entanto, apesar de, e principalmente por ser amarrada, é intensamente romântica. Curiosamente, na biografia ficcional de uma das encarnações da personagem, só uma vez Bond casou — para ter, minutos depois, tragicamente, a sua recém-mulher logo assassinada. Durou pouco a convivência do Bond-com-a-coroa, ou, noutra visão mais romântica e individualista, do Bond-em-si-mesmo, com o laço adicional. Talvez isso indique que não é possível acumular várias obrigações, entrando estas em conflito — e, de facto, obviamente o assassinato proveio de razões relacionadas com a sua actividade profissional. Mais à frente — muito à frente? — na prática do bondage, a objectivação do sujeito é causa de prazer: transformação do sujeito em objecto, experiência estética, através de um laço que é anti-natural, e por isso psicologicamente excitante. Tanto no contrato financeiro como no bondage, o mais precioso do ser destina-se à dádiva ou à troca, e a vida é posta nas mãos de outrem. O caso a seguir é exemplar desse tipo de disposição.

Chegamos assim ao contrato mais famoso e mais poderoso de todos os tempos e de todas as culturas, o casamento, mesmo sobrevivendo a algumas invenções modernas. É bom lembrar que, de todos os arranjos maritais concebidos ao longo do tempo, é difícil pormenorizar qual é o mais antigo: se o civil, o religioso, ou o estatal. Difere o primeiro do terceiro no facto de ser possível nalguns sistemas legais o reconhecimento de facto de um common law marriage, ou seja, o mero ajuntamento de pessoas, sem qualquer vínculo contratual que o ateste. Novamente, a obrigação, o bond, a promessa, é logocêntrica, pois depende de enunciados, mas não depende de suporte físico. Mesmo entre dívidas de bens ou dinheiro, entre pessoas, a palavra dada pode ser suficiente, a nível judicial, para atestar um bond.

Por último, a prática fetichista e extremista do bondage, em que já não é um fim exterior do bond que mobiliza a acção, mas o prazer retirado do próprio bond. Não é certo se em Shakespeare ou na finança antiga ou moderna podemos encontrar equivalências neste bondage pelo bond: o ideal supremo da estética kantiana, a arte, a finalidade sem fim. Ninguém se prende, aqui, com fim a um benefício ulterior, a um cálculo de subtracção presente que levará a adição futura; é um bond que contém um fim em si mesmo. Daqui, para diante, deixamos aos leitores a consideração sobre outros níveis desta fantástica construção da psique humana: aquela que envolve ficar preso a outra coisa por vontade própria, por mera obrigação moral, contratual, metafísica.

The Most Perfect Tragedy: Brief Discussion of Aristotle’s Preference for Oedipus Tyrannus

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In his Poetics, Aristotle’s theorization on poetry, which ends up being “above all a treatise on tragedy”, brings in different examples from the most varied sources, and, specifically, from the most varied tragedians, many even whose work is no longer extant, which are used as examples to support his theses. By the end, though he never explicitly says so, the reader knows perfectly well that Sophocles’ Oedipus Tyrannus is, for him, the most perfect tragedy, having seen its name repeatedly identified by Aristotle as possessing characteristics that should be looked for in a good tragedy – it is, by far, the title most often associated with praise. However, to say that said play is thought of by Aristotle as being the most perfect tragedy is, though true, a potentially misleading statement. “Most perfect” does not mean perfect and, to some extent, though Sophocle’s play does stand out from most tragedies, it would be as well to say Aristotle considered it “the least imperfect tragedy”. As Stephen Halliwell writes in the introduction to his translation of the Poetics, “(…) Aristotle’s goal can best be seen as the progressive demarcation of an area of possibilities which simultaneously codifies existing achievements of the tragedians, and legislates for the ideal scope of tragedy.”[1] But one might be compelled to ask why did the philosopher made literary critic pick this particular tragedy and not, for example, Agamemnon[2], or Antigone.

This essay aims at an analysis of the characteristics that make Sophocles’ Oedipus Tyrannus the most perfect tragedy for Aristotle. As such, the constant reference point is the text of the latter author’s Poetics, from which will stem the dialogue with Sophocles’ play. Aristotle’s view on tragedy has been often described as (almost) formalistic[3], and in fact he does give a lot of importance to form and genre[4] and most of the praise that Sophocles’ Oedipus Tyrannus earns from him has to do either with form or with the way in which the plot or action are built and disposed in order as to rend it cohesive. But could it really be that such features, which of course Aristotle admired, make it superior to other plays such as the ones mentioned above without any influence from the content of the tragedy? To try to answer such question, this essay will first examine the formal characteristics of Oedipus Tyrannus in comparison chiefly with Aeschylus’ Agamemnon, but also borrowing from other extant tragedies so as to try and establish what makes Sophocles’ play so strong for Aristotle and whether or not its formal aspects are enough to give it such an upper hand over other examples of canonical plays treating related themes and belonging to the same tradition. Then, the second part of the essay will try to show how the character of Oedipus, though Aristotle himself might not have been aware or willing to admit it, does overpower plot by its sheer intensity and does indeed make the formidable formal machine work so well.

As for the formal aspects and those elements that, for Aristotle, derive from it, this essay will focus chiefly on the relationship between plot and character, the issue of the chorus, and the particular question of reversal (peripeteia) and recognition (anagnorisis). Beginning with the first point, Aristotle says, in ch. VI[5], that plot is more important than character, to the point when he says (p.55): “(…) it is not in order to provide mimesis of character that the agents act; rather, their characters are included for the sake of their actions. Thus, the events and the plot are the goal of tragedy (…) without action there could be no tragedy but without character there could be (…)”. Leaving aside the many perplexities caused by the loose ends in the text, his statement is clear. At this point, it is interesting indeed to compare Sophocles’ play with Agamemnon as regards the way the characters, in particular the characters that give the name to both plays, behave themselves in each. In Oedipus Tyrannus, the main character is ever-present, expressing himself in act and speech, and in a way dominating the play from beginning to end that it is almost surprising how Aristotle did not accuse Sophocles of shaping the play too much around a character, instead of crafting a “mimesis of action” – for Oedipus certainly comes very close to defy the notion that a play should not revolve around a character (a point later to be discussed). Evidently, the character serves the action, so much so that one cannot imagine any other character in his place without a disruption of action and of meaning (not only of form). Iocaste, Creon, Tiresias also play important and very distinct roles, in particular Tiresias, yet none can compare in prominence to Oedipus and one could be tempted to say that Oedipus really tyrannizes the play. In Agamemnon, on the other hand, the title character is almost as ephemeral and weak in his grip of the spectator and of the action that one would feel tempted to say that, if we never had seen him, it wouldn’t have made much difference. Comparatively, Cassandra, Clytemnestra and the Chorus do enact really relevant characters (it is revealing that the Chorus actually seems to matter more than the “main” character). While they both are indeed servicing the progression of the action of their respective plays, how more different could these two characters be, as regards their presence on stage and as meaningful agents? It seems to be the difference between someone who thrusts himself foward into action and someone who just comes to suffer the actions of others.

Another formal aspect that is interesting to note is how the Chorus behaves in Oedipus. Like the Chorus of Agamemnon, they have their moments of indecision (e.g. vv. 863-910), of coming to inquire about something, but their function is more limited. They do contribute to the action, by answering Oedipus’ questions, as in vv. 276-279 or 690-696, by giving hits, for example when they insist with Iocaste to take Oedipus inside after his argument with Creon (vv. 678-679) or by recognising the Shepherd before the Messenger is addressed to again (v. 1117-1118), but they remain, above all, commentators of the action, in need of direct stimulation so as to “give their two cents” about what is going on on stage. The Chorus in Agamemnon is a much more active entity. They reflect autonomously about what is happening and what has gone before. Though, like other choruses, highly susceptible to suggestion, they respond to it more actively (of which is an example their frustrated dialogue with Cassandra, vv. 1069-1330). Also, the Chorus in Aeschylus’ play (and it is very interesting to notice that Aeschylus is referred to as being a heavily choral writer) engages in an attempt of – also frustrated – autonomous action, when they engage in a violent dialogue with Clytemnestra and pronounce her fit to be stoned to death, as they will pronounce against Aegisthus and indeed attempt to act. Such is something that the Chorus in Oedipus is far from doing. When Creon takes command, the Chorus keeps itself at bay, more in the style of theatre audience than really an part of the cast, and fails to come forward to ease Oedipus’ suffering or press Creon to be gentler. This is interesting because Aristotle himself considered that a chorus, being present, should take part in the action and not stand aside merely talking about the action. In the light of this, it would seem that Agamemnon here is more close to Aristotle’s standards than Sophocles’ play.

One thing that is central to Aristotle’s conception of what a good tragedy should be like is the relationship between peripeteia (reversal) and anagnorisis (recognition). Quoting from chapter 11 in Halliwell’s translation: “Reversal is a change in the opposite direction of events (…) and one in accord (…) with probability or necessity: as when in the Oedipus [Tyrannus] the person who comes to bring Oedipus happiness, and intends to rid him of his fear about his mother, effects the opposite by revealing Oedipus’ true identity. (…) Recognition, as the name indicated, is a change from ignorance to knowledge (…) involving matters which bear on prosperity or adversity. The finest recognition is that which occurs simultaneously with reversal, as with one in the Oedipus” (p.65) This would, indeed, seem very particular to Oedipus Tyrannus: when the messenger comes, not only his action has the opposite effect to that intended, as his action changes the whole picture of the lives of the characters (others’ along with Oedipus’s) and turns the whole sequence of events and their interpretation upside down, completely reshaping them. This happens simultaneously with Oedipus’ crossing from ignorance of his origins to the dramatic, tragic recognition brought by the acquired knowledge of them. In Agamemnon, this coincidental axis-like moment does not occur and reversal pre-dates recognition and begs the question of who recognises what, to which the sole possible answer is that the Chorus, not the main character in particular, understands, at last and too late, Cassandra’s seemingly obscure prophecies.

From this very brief analysis one can easily see, then, that though Oedipus Tyrannus presents us with the most well-crafted moment of joint reversal and recognition, it would seem to present as well several architectural deficiencies that do not accord with Aristotle’s layout of what a good tragedy should look like. It is pertinent now to ask whether the power of the structure in the play does not come from another, rather unexpected source, Oedipus’ character. In attempting to expose such influence of the character’s behaviour on the structure and overall effect of the play, one needs to consider several things: 1) what is (or where is) his hamartia; 2) the substance of the hybris that leads him into the trap of the tragic error and seals his fate. In fact, though this might seem obvious, it is rather tricky to demarcate his hamartia, partly because the most obvious unwitting error he committed, the killing of Laius, is not part of the play and one might be tempted to search for it in there. On the other hand, in the play he also does commit a mistake sprung of ignorance, which his own sentencing to exile (vv. 216-275), not knowing that it was on him that the sentence would fall. But is that really a mistake, considering his ethos?

That brings us to the second issue. What drives Oedipus to commit the tragic error of killing his father is, in itself, ignorance of the fact that he did not know his father, but it is also more than that. When told by the oracle that he would murder his father and marry his mother, Oedipus tried to prevent the prophecy from taking place by fleeing from those he thought were his parents. This implies another error, caused by hybris: it implies he thought he could escape the fulfilment of what the gods had destined for him, namely the Moirai, deities presiding over the fate of both men and gods alike, a more ancient power than the power of Zeus and a more disturbing one (in that sense, though they are never mentioned in the play, resembling the Erynies in their relation to Orestes in Aeschylus’ Oresteia). His story is one of perpetual offense against the Moirai, because not only does he think he can escape his fate as he goes on living as if he had, or at any rate was in the right path to do so, never realising that there is no escape and that, sooner or later, the curse would fall on him. However, to the eyes of the reader or spectator, this only makes him more admirable and gives him further depth as a character, for he is the one who passed from happiness to misfortune due to wanting to do the right thing – and that has a profound effect on how we perceive him. Also, there is another layer to his hybris: having become King of Thebes, he wants to be a sort of Pater Patriae (vv.58-77), and indeed feels and acts like that. He tries, and never wavers from that course, to be the perfect king, to relieve his land and his subjects of their suffering. Striving to be perfect, if we accept that is what he is doing all along the play, does constitute hybris in itself, as he is no god and to them alone perfection was consigned (though we may be sceptical of how far we can apply such concept to capricious deities such as the Greek gods) – this reading also makes Oedipus Tyrannus a work potentially embedded in the roots of a notion of religious piety, predating the Roman (and specially Virgilian) pietas. However, one might try to argue against this reading, saying that surely, when Oedipus has his argument with Tiresias and then Creon because he becomes suspicious that the latter conspired with the former to have him removed from the throne, he was not thinking as a sovereign that puts his subjects first and his interest second, thus rendering both Sophocles’ and Aristotle’s conception of kingship quite ambiguous. This argument seems relatively week, as it can be opposed by the notion that usurpers are inherently bad and that a good king knows it is his duty to prevent them from succeeding and thus to keep himself on his position. Dubious, distant, Machiavellian and anachronistic as that might seem, that point can be made.

Now, his conception of himself thus defined, it would seem that his sentencing himself unwittingly is not, in fact, an error, but rather the product of one (his having killed his father). He sentences a murderer to severe punishment when found and the upshot is that he does punish himself accordingly when he finds he is the murderer of Laius. The power of the joint reversal and recognition is massively increased by the fact that it amounts to the revelation that all that he was trying to accomplish, and all the height to what he was prepared to ascend as a just king and honourable man, were lying in already corrupt foundations without him knowing about it. When the illusion collapses, its collapse is a great as that illusion purported to be. The peripeteia and anagnorisis are followed, then, by the most moving catastrophe, as he inflicts on himself not only the punishment he had decreed to be that of the criminal that was polluting the land but more, by blinding himself at the dark irony of his previous state of ignorance that thought itself bright and was now exposed for what it was. It is through his character and because of his most admirable qualities that he falls to uttermost ruin. This, no doubt, would have exerted both fear and pity, and it is curious that a philosopher who aimed at so much would not have identified that line of thought in the play. One could almost say, risking intellectual impiety, that Aristotle probably was too much like Oedipus to see it.

Therefore, when we come to consider Oedipus Tyrannus, it is actually very much worth it to go back to Aristotle’s words on the fact that tragedy can exist without character but not without plot. One could answer him saying that, generally, that rule holds but that in the case of Oedipus Tyrannus, there would be no play if there was no Oedipus. So in a sense, ironically, one could actually say that the unity of the play is enhanced by the fact that it is wrought around a character so irresistibly attractive that it cannot escape his power over it.

Author’s Note: This essay was originally written in October 2015, as part of coursework for the Tragedy paper of the English Tripos that I took as part of my study exchange program at the University of Cambridge. It is republished here with only minimal revision. Needless to say, even though I may not really have changed my mind much as to the core intuition herein, it is a frankly pedestrian piece of writing and, after nearly 9 years, reading it again is somewhat of an embarrassment and I neither see myself in it nor does it accurately represent my intellectual abilities anymore. Still, I take this opportunity to thank Dr. Hero Chalmers, my supervisor at Fitzwilliam College for two of my three Cambridge terms, for how much she taught me and encouraged me at every step of my Cantabrigian reverie. I also thank all of my other teachers at Cambridge and all the friends I made there, especially those who share my thespian interests.

Bibliography

Aeschylus, Oresteia, transl. Hugh Lloyd-Jones, Duckworth, London, 1982

Halliwell, Stephen, ed. and transl. Aristotle Poetics, LCL 199, Harvard University Press, Cambridge MA and London, 1995

Hornblower, Simon, and Antony Spawforth, edd. The Oxford Classical Dictionary, 3rd edition, Oxford: Oxford University Press, 1996

Jones, Hugh Lloyd, ed. and transl. Sophocles I. Ajax, Electra, Oedipus Tyrannus, LCL 20, Harvard University Press, Cambridge MA and London, 1994

Rorty, Amélie Oksenberg, ed. Essays on Aristotle’s Poetics, Princeton University Press, Princeton, 1992

  1. Stephen Halliwell, “Introduction”, in Aristotle Poetics, LCL 199, Harvard University Press, Cambridge MA and London, p. 13
  2. Hugh Lloyd-Jones, in the introduction to Agamemnon in his translation to the Oresteia (Duckworth, London, 1979), begins by saying “The Agamemnon is perhaps the greatest of all Greek tragedies (…)” (i)
  3. Cf. Idem, Ibidem, p.10
  4. Cf Id., Ibid., pp. 8-9
  5. See pp. 46-55 in Halliwell’s edition and translation.

Mulheres na Tecnologia – Um Longo Caminho Para a Igualdade

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A inteligência artificial enquanto conceito surgiu nos anos 50, quando “o trabalho das mulheres não era trabalho” e “a inteligência das mulheres não era inteligência”. Como explicou Jill Lepore no livro If/Then: How the Simulmatics Corporation Invented the Future, a inteligência artificial foi criada à semelhança do homem, com letra minúscula, excluindo as mulheres, o que ainda hoje tem consequências.

Quando a entrevistei para o livro “50 Women in Technology”, Rumman Chowdhury explicou que as decisões tomadas há setenta anos têm um grande impacto ainda hoje. “Eu tento pôr isto em termos que as pessoas compreendem: e se te for negado um empréstimo porque és mulher? Tu podes não saber, mas é porque, historicamente, as mulheres não podiam contrair créditos, muito menos empréstimos. Os maridos ou pais tinham de assinar por elas. Por isso, os dados relacionados com as mulheres são muito tendenciosos. É ainda pior para as pessoas de cor,’ apontou esta pioneira no ramo da ética dos algoritmos e da IA responsável.

Apesar de o avanço dos tempos ter trazido uma alteração em termos do acesso que as mulheres têm à tecnologia e a oportunidades de trabalho no sector, as estatísticas demonstram que ainda são muitos os desafios. Um estudo publicado pela Fawcett Society, em outubro do ano passado, revela que um em cada cinco homens a trabalhar no sector da tecnologia acredita que as mulheres “têm naturalmente menos capacidade” para exercer funções naquela área e que 43% das mulheres a trabalhar no sector da tecnologia pensam em abandonar os seus cargos pelo menos uma vez por semana.

Foto: ORNL/Dpt. of Energy

Outras conclusões apontam que uma em três mulheres negras já estiveram numa situação em que os colegas assumiram que elas não tinham uma posição qualificada e que três em cada quatro já experienciaram racismo ou outro tipo de exclusão no trabalho. Esse é o caso de Clarice Phelps. Enquanto esteve na Marinha, ingressou no Programa Nuclear. Quando terminou os estudos, conseguiu emprego numa empresa de instrumentos científicos em Chicago e, posteriormente, foi trabalhar para o Laboratório Nacional Oak Ridge (onde foi feita a separação do Plutónio para o Projecto Manhattan durante a Segunda Guerra Mundial).

Apesar de o seu percurso parecer de sucesso, os desafios persistiam. “Sei que não fui a primeira mulher a trabalhar no edifício, nem sequer a primeira mulher negra, mas acho que fui a primeira que teve uma função ligada à ciência. Quando cheguei lá, muitos pensavam que era a nova empregada da limpeza,” explicou-me Clarice Phelps, quando conversámos. “Houve muitos mal-entendidos sobre por que estava lá quando cheguei ao laboratório. Perguntava-me porque é que as pessoas assumiam que não era parte da comunidade científica. Depois via que quando chegavam os estagiários de Verão ninguém lhes perguntava se eram empregados de limpeza. Era desencorajador quão óbvio era,” continuou a primeira mulher negra a contribuir para a descoberta de um novo elemento para a tabela periódica — o tennessine, elemento 117.

Também nessa ocasião, que devia ter sido um momento alto na sua carreira, Clarice Phelps se viu excluída. “Houve um almoço de celebração e a minha supervisora perguntou-me se eu ia e eu nem sabia que ia acontecer. À porta estava uma senhora a garantir que o nome de quem chegava estava na lista, eu disse-lhe o meu nome, e ela disse que não o tinha lá. Eventualmente deixaram-me entrar. (…) Enquanto andava à procura do meu lugar, não vi o meu nome em lado nenhum. Na sala também havia um ecrã com os nomes de toda a gente que contribuiu para o elemento 117 no ORNL e o meu nome também não estava lá”. Passados alguns anos, ao contar a situação, Clarice Phelps riu-se. Na altura, porém, ficou “muito zangada e algo embaraçada”.

Clarice Phelps está longe de ser caso único. As mesmas estatísticas da Fawcett Society mostram que 72% das mulheres com uma função no ramo da tecnologia experienciaram alguma forma de sexismo. Isto inclui receber menos que colegas no sexo masculino e ser alvo de comentários sexistas (20%), bem como verem as suas competências questionadas.

Desvalorização e preconceito

Lise Meitner

Ao pesquisar sobre este assunto para escrever o volume 50 Women in Technology, deparei-me com uma série de casos deste género, não apenas nas pioneiras de há cem anos cujo trabalho só foi conhecido muito mais tarde ou que, embora estivesse à vista de todos, nunca fosse devidamente reconhecido (como é o caso de Lise Meitner, nomeada para 49 Prémios Nobel, sem nunca ter recebido um).

Atualmente, vale a pena atentar em casos como o de Gretchen Andrew. Quando terminou a faculdade conseguiu o que só podia ser considerado o trabalho de sonho – uma posição na Google, em Sillicon Valley. Porém, não estava feliz e, por isso, demitiu-se. Desde então usa a tecnologia para criar arte e, aos 35 anos, é conhecida pelos seus projetos arrojados, usando inteligência artificial e muita criatividade. Mulher e jovem, quando foi entrevistada explicou o tipo de desafios que teve de enfrentar até ser levada a sério.

“Eu estava a tentar ser levada a sério e a perder nesse jogo porque havia demasiada desconexão entre o que as pessoas esperam de alguém com o meu aspeto e o poder técnico do trabalho que estava a produzir. O meu apelido é Andrew, por isso, muitas pessoas perguntavam-me quem era este ‘Andrew’ com quem eu colaborava e se era ele a fazer a parte tecnológica do meu trabalho”.

A lista de exemplos continua: Emily Holmes, professora de psicologia na Universidade de Uppsala na Suécia, neurocientista e psicóloga, falou da primeira conferência em que participou. “Na primeira conferência que alguma vez dei houve uma pessoa a perguntar-me de quem eu era namorada. Tive de dizer que não era namorada de ninguém, ia ser eu a fazer a apresentação”.

Erica Kang, fundadora e CEO da “KryptoSeoul”, atentou noutro desafio enfrentado pelas mulheres na tecnologia – o assédio. “Eu gosto de me aperaltar. Gosto de me vestir bem, mas quando o faço e vou a reuniões, as pessoas olham para mim como uma modelo com a qual podem brincar. Houve muito assédio sexual logo desde o início”, contou.

Katalin Karikó, que recebeu o Prémio Nobel da Medicina ou Fisiologia em 2023 pelos seus contributos para o desenvolvimento das vacinas contra a COVID-19 foi despedida da sua posição na Universidade da Pensilvânia por não conseguir financiamento para a sua investigação focada no RNA. Foi essa mesmo trabalho que serviu de base para o desenvolvimento das vacinas da Pfizer-BioNTech e da Moderna durante a pandemia.

Sheri Graner Ray

Outro ramo em que as mulheres continuam a ser uma minoria – tanto enquanto trabalhadoras como consumidoras do produto final – é a indústria dos videojogos. Sheri Graner Ray, designer de jogos e autora de um livro intitulado “Deisgn de Jogos Inclusivo – Expandindo o Mercado” falou da sua experiência enquanto única pessoa que fazia a pergunta “e se a pessoa a jogar for uma mulher?”.

“Naturalmente, eu perguntava ‘e se for uma rapariga a jogar?’. Eu pensava assim. ‘Porque é que não há uma personagem feminina que possa escolher?’. Primeiro, riram-se de mim. Depois, começaram a ficar irritados. Passado um tempo, começaram a ter reuniões de design e a não me dizer onde eram. Eu olhava à minha volta e perguntava onde estava toda a gente. Tinha de ir a diferentes salas de reuniões para ver onde estavam e depois diziam-me que se tinham esquecido de me avisar. Era porque eu ia às reuniões e perguntava ‘e se o jogador for do sexo feminino?’. Na altura (anos 80) era algo em que nem queriam pensar”, contou.

O futuro

Tendo entrevistado 27 mulheres que exercem funções em diversos ramos da tecnologia, uma tendência é evidente: embora a dificuldade de acesso a essas áreas já não seja o problema que era há cinquenta anos, a progressão na carreira ou a obtenção de investimento ainda é mais difícil para as mulheres do que para os homens. Perserverança, paciência e resiliência são as palavras de ordem mais repetidas por todas as pessoas com quem falei.

Estas dificuldades podem explicar em parte o que foi noticiado pelo jornal “The Guardian” há cerca de uma semana. Um estudo feito pela organização “Teach First”, no Reino Unido, aponta que 51% dos pais de uma classe mais baixa acredita que é pouco provável que os seus filhos sigam uma carreira na área da Ciência, Tecnologia, Engenharia ou Matemática (STEM). Questionados sobre as barreiras que os seus filhos enfrentam, os inquiridos apontam “falta de confiança, poucos modelos a seguir no ramo e um sentimento de que os seus filhos não veem o sector como sendo para alguém como eles”.

Dr. Anna Lukasson-Herzig, NYRIS, DUESSELDORF, Daniela Miska, Daniel

Anna Lukasson-Herzig, engenheira de processos de automação, que também entrevistei para o “50 Women in Technology”, falou sobre como a falta de confiança no caso das crianças do sexo feminino pode começar logo na infância. “É essencial acabar com os estereótipos que ainda existem na educação. Frequentemente diz-se às meninas que não podem ser bem-sucedidas na tecnologia ou matemática. A forma como a matemática é ensinada na escola tende a ser orientada para o sexo masculino, com professores predominantemente homens, o que inadvertidamente desencoraja as meninas. É crucial encorajar jovens mulheres a reconhecer que o problema não são as suas capacidades, antes a forma como estas disciplinas lhes são apresentadas. Isso tem de mudar. A tecnologia não é a barreira.”


Nota editorial: deixamos aqui a recomendação da obra mencionada no artgio e a propósito da qual o mesmo foi escrito, sendo-lhe inteiramente dedicado: 50 Women in Technology, Introduced by Georgina Ferry, Foreword by Bridget Greenwood, Interviews and Biographies by Inês Almeida, “a full-colour book celebrating female pioneers and trailblazers in STEM. It features 25 extraordinary women in history from Ada Lovelace to Emmanuelle Charpentier, as well as over 25 exclusive interviews with incredible women who are leading the way in the fast-paced world of technology today”, editado pela Aurora Metro, de Londres, em 2023. Disponível aqui.

São Estas Pessoas “Políticos”, “Activistas” Ou “Criminosos”?

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Trazemos hoje um tema por vezes levantado no discurso público e que envolve três pontos distintos. Comecemos por elencar as pessoas que queremos destacar para ilustrar a questão. 

Primeiro, Isabel do Carmo, hoje médica, talvez ainda activista política, pertencente no passado a uma organização anti-fascista, as Brigadas Revolucionárias, no tempo do antigo regime, e, já após a revolução, o Partido Revolucionário do Proletariado, ambas envolvidas em actividade de luta armada, assassinatos e terrorismo, presa e condenada em tribunal por cumplicidade em atentados à bomba. Segundo, Mário Machado, hoje advogado e activista político de direita nacionalista, talvez ainda neo-nazi, condenado no passado em tribunal por agressões e outro tipo de criminalidade armada. Terceiro, Otelo Saraiva de Carvalho, já desaparecido, militar português responsável pela organização operacional do golpe militar de 1974, mais tarde envolvido em actividades de luta armada, assassinatos e terrorismo através das Forças Populares 25 de Abril, e condenado em tribunal por participação nesses movimentos. Por último, Camilo Mortágua, hoje empresário reformado, ex-activista no tempo do anterior regime, tendo participado em vários actos de criminalidade de luta contra a ditadura do estado novo como sequestros e assaltos, sem mortandade envolvida.

Como nos devemos referir a estas pessoas quando as citamos em colóquio, quando as entrevistamos para um orgão de comunicação social, quando nos referimos a elas em conversa informal? Como “políticos” — que, de modo ou outro, acabaram formal ou informalmente por ser —, como “activistas”, categoria que nenhum deles negará e que está na base das actividades que levaram a condenações criminais — ou como “criminosos” — ou qualquer variante desse termo, como, por exemplo, “terroristas”, “assassinos”, “psicopatas”, “fanáticos”, “anti-democratas”, “totalitários”, etc.? Esta é a questão que queremos deixar. 

É bom lembrar que o sistema penal português é de tendência regenerativa, ou seja, não se baseia no princípio de uma pessoa ficar marcada para toda a vida por actos que cometeu, mas sim na possibilidade de re-integração na sociedade após cumprimento de pena. Isto aplica-se a qualquer pessoa da lista que elencámos, mesmo, em princípio e não em efeito, aqueles que não chegaram a julgamento. Ou seja, em princípio fará sentido que nos possamos referir a estas pessoas pelas descrições menos abonatórias caso o contexto assim o requeira: se o contexto for criminalidade política pós-revolucionária, actividade armada neo-nazi, terrorismo em democracia, ou sequestro e assalto em ditadura, as descrições de cada uma das pessoas poderão passar por esses termos. Caso contrário, não se vê como a legenda de “médica”, “advogado”, “militar” e “empresário” não sejam as mais adequadas à situação de citação generalista, dado que é comum referirmo-nos às pessoas pelas suas profissões ou actividades principais.

É bom lembrar também que, por exemplo, num exercício quase de redução ao absurdo, se poderia referir a Adolf Hitler como “pintor” — se algum interesse da história de arte houvesse na obra do dito sujeito — ou a Winston Churchill também como “pintor” ou “crítico de arte” ou “prémio Nobel da literatura”, ou ainda José Estaline como jogador de bilhar e jardineiro tardio. Nenhuma destas descrições corresponderia a uma falsidade, mas simplesmente a uma desadequação mais que provável conforme o contexto da apresentação. Não seria absolutamente impossível encontrar contextos em que elas fossem válidas, mas como é óbvio as descrições mais adequadas às figuras corresponderiam às funções políticas ou civis principais em que participaram.

Não parece assim que estes critérios envolvam nada de particularmente extraordinário nem complexo. Chamamos assim a atenção para todas as vozes polarizadas, sectárias e/ou partidárias, que entendem que alguma ou algumas ou todas destas pessoas devem ser categorizadas ou como os santos que nunca foram ou como os psicopatas que nunca ninguém em absoluto é, que tenham um pouco mais de juízo e cuidado e, principalmente, tenham em conta o modelo moral para que aponta não apenas o sistema penal português mas também a cultura em que vivemos, que não pressupõe a marca de letras escarlates insolúveis no cadastro e no carácter das pessoas para todo o sempre. E, por último, que as pessoas não são monólitos uniformes: são criaturas complexas, com aspectos de bondade e de maldade, de erros e acertos, e com uma capacidade para disposições que vão de acordo com o que pensamos e outras que não vão. Entendamo-las portanto assim, na devida complexidade, sem deixar de, quando necessário, “chamar os bois pelos nomes”.

Será o Problema Evidencial do Mal Inconsistente com a Existência De Deus?

A abundância de sofrimento no nosso mundo reforça a crença que Deus não existe, uma vez que esse Ser omnipotente, omnisciente e sumamente bom poderia impedir tais males. Este ensaio tem como objetivo examinar a premissa empírica do argumento evidencial do mal, “provavelmente, há instâncias de mal gratuito”, considerando que muito do sofrimento parece não servir qualquer propósito benéfico, sendo este mal não justificado. O que legitima a pergunta: Será o problema evidencial do mal inconsistente com a existência de Deus? Uma possível resposta é dada pelo teísmo cético, a suspensão do juízo sobre se há ou não males gratuitos, dado que, a partir do argumento evidencial não se pode concluir que, provavelmente, Deus não existe.

Palavras-chave: Deus, Problema do mal, Problema evidencial, Teísmo cético.

A filosofia da religião permite realizar um exame crítico sobre os argumentos a favor da existência de Deus, dos seus atributos, das condições de modalidade, ou de conceitos relevantes, como fé ou crença. O conceito de Deus sobre o qual se sustenta a indagação deste trabalho é a conceção teísta da civilização Ocidental. A origem das religiões abraâmicas – cristianismo, judaísmo e islamismo – fundamenta-se na ideia de um Deus criador, que assume entre outros atributos a omnipotência (que pode fazer tudo); a omnisciência (que sabe tudo); e que é sumamente bom (faz ações moralmente corretas). Nesta aceção Deus assume as características de eterno e de auto-existente, criador de todas as coisas, no entanto, distinto e independente do mundo.

A discussão sobre a existência de Deus tem persistido ao longo de vários séculos e subsiste na procura de uma justificação lógica com a consistência dos seus atributos. No caso do argumento de São Tomás de Aquino, a existência de Deus fundamentou-se na possibilidade absoluta do atributo da omnipotência de Deus — a capacidade de poder fazer tudo. Segue-se, então, que Deus pode fazer o bem, porque essa é a sua natureza, mas não pode fazer o mal, ou seja, Deus pode fazer tudo o que não envolva contradição. Como sustentou São Tomás de Aquino fazer o mal não está sob o domínio da omnipotência divina, uma vez que envolve contradição (Rowe, 2011).

Ora, isto não significa que o poder de Deus é limitado, até porque praticar o mal seria inconsistente com o atributo da perfeita bondade. O Deus sumamente bom tem absoluta bondade moral e revela uma perfeição moral que não Lhe permite fazer uma má ação, porque a sua perfeita bondade é essencial. Assim que ser moralmente perfeito, não significa que Deus não possa fazer o mal, mas sim que escolhe fazer o bem. Como justificou São Tomás de Aquino, Deus pode fazer tudo o que é uma possibilidade absoluta e que não seja inconsistente com os seus atributos (Rowe, 2011).

A evidência do mal que ocorre no mundo parece, no entanto, constituir uma forte razão contra a existência de Deus, uma vez que a persistência do mal parece inconsistente com o amor de Deus pelos homens (Rowe, 2011). Os teístas justificam muitas vezes que o mal resulta do livre-arbítrio dos homens, quando este decorre da ação humana, ou quando o mal é causado por fenómenos naturais, invocam um bem maior. Assim que o mal neste debate assume duas conceções de mal: mal moral que é causado por ações ou omissões dos indivíduos (guerras, assassinatos, roubos, violações e outros); e o mal natural, que não tem origem na ação humana (terramotos, furacões e alguns tipos de doença, como o cancro) que parecem gerar um sofrimento moralmente injustificado (Faria, 2020).

O problema do mal apresenta várias possibilidades de resposta, como o “problema lógico ou incompatibilista” do mal (Faria, 2020:1), que examina possíveis contradições entre Deus e o mal, justificando que a existência do mal no nosso mundo é “logicamente inconsistente com a existência de Deus” (Rowe, 2011: 116). Outra possível resposta é o problema evidencial do mal, perspetiva que defende, que apesar da abundância do mal, talvez não seja inconsistente com a existência de Deus, e é sobre este problema que incide este ensaio.

De facto, a ideia mundana de Deus não coloca a possibilidade que o mal existente no mundo seja produzido por Deus, dado que a sua essência é a bondade. Porém, perante um mundo catastrófico, parece legítimo questionar se Deus existe e é sumamente bom, porque não impede que o mal aconteça — ou que aconteçam coisas más às pessoas, como é o caso do sofrimento atroz — uma vez que Deus escolhe a atualização correta. Importa, assim, indagar se o argumento evidencial do mal demonstra a inconsistência com a existência de Deus.

Neste trabalho, primeiro, expõe-se o problema do mal; segundo, o argumento evidencial do mal com enfoque na premissa empírica “provavelmente, há instâncias de mal gratuito”; terceiro, apresenta-se a objeção do teísmo cético, sobre a impossibilidade de os seres humanos poderem formular juízos sobre o mal gratuito, devido às suas limitações cognitivas.

O Problema do Mal

Da perspetiva secular não é difícil encontrar explicação para o mal que existe no mundo, uma vez que este não foi concebido para o nosso benefício. Dado que “Os raios causam incêndios, as forças geológicas causam terramotos, os micróbios causam doenças” poderiam explicar uma parte do sofrimento no mundo e a restante como resultado da “depravação humana” (Rachels, 2010: 54).

O sofrimento a que se assiste no mundo é um exemplo explícito do mal. No entanto, a literatura refere que existe uma distinção entre o sofrimento justificado e não justificado. Um mal não justificado é aquele que não leva a um bem maior, nem impede um sofrimento pior, não tendo qualquer propósito benéfico é um mal gratuito. Como refere Faria (2020: 12) “um mal gratuito é um estado de coisas que não é logicamente necessário para alcançar um bem maior ou para impedir um mal igual ou pior.”. No entanto, o mal pode ser justificado, uma vez que é aquele sofrimento que pode conduzir a um bem superior “um bem que não poderíamos obter sem suportar o sofrimento em causa” (Rowe, 2011: 123). Ou seja, a ocorrência de alguns males parecem logicamente necessários, considerando que possibilitam a obtenção de bens que superam tais males.

Uma justificação do mal sustenta-se na ideia de que a dor é necessária, como parte do sistema de alerta do organismo, que nos permite sobreviver, a utilidade biológica da dor (Draper, 1989). Concretamente, referimo-nos à dor física uma vez que nos avisa dos perigos — se colocamos a mão num forno extremamente quente, a dor que sentimos impede de nos queimarmos com mais gravidade. São diversos os exemplos em que sentir dor, evita piores consequências. O mesmo acontece em relação ao medo, que nos leva a proteger de situações perigosas que poderiam colocar a nossa vida em risco. Inclusive, este sistema de proteção é vincadamente biológico entre os animais não humanos. Assim sendo, poderia afirmar-se que “Deus deu-nos a capacidade de sentir dor e medo para o nosso próprio bem” (Rachels, 2010: 58).

No entanto, o sistema de dor parece não ser tão perfeito, por exemplo, uma intoxicação por monóxido de carbono pode levar à morte e não provoca dor. Da mesma forma, existem dores que podem ser muito intensas e prolongadas, como as provocadas por um cancro — alertam que algo está errado com o organismo — mas que não resultam em qualquer benefício. Inclusive, a dor por vezes pode ser tão intensa que debilita o indivíduo, impedindo-o de se proteger. Por exemplo, o caso de um montanhista solitário que fraturou uma perna em plena floresta e pode morrer, considerando a impossibilidade de conseguir alcançar um hospital. Os casos mencionados não justificam a hipótese que Deus criou a dor ou o medo para proteção do indivíduo (Rachels, 2010).

Também, existem as emoções dolorosas, que não envolvem dor no sentido literal, mas que provocam sofrimento nos humanos, como sentimentos de perda, fracasso ou frustração. Igualmente, verificam-se estados psicológicos que não acarretam sofrimento, mas que são indesejáveis e maus, como o ódio e a inveja. A estes tipos de males Swinburne (1977) definiu-os como o mal físico, mal psicológico e estados maus, conjunto que denominou de males passivos. E o quarto tipo de mal seriam as ações más, como mentir ou quebrar promessas, que justificou na defesa do livre-arbítrio do homem: dado que Deus criou o homem livre, conferiu-lhe poder para escolher e exercer o curso da ação, como tal, o homem tem a liberdade de praticar más ações (Plantinga, 1965).

Mas até a questão do livre-arbítrio de uma perspetiva empírica é difícil de entender, recorde-se o “Efeito de Lúcifer” de Philip Zimbardo, em que o indivíduo se adapta às circunstâncias sociais, mesmo que não tenhamos evidência se o mal é um fenómeno inato ou construído socialmente. O facto, é que o experimento da Prisão de Stanford revelou que pessoas normais se tornaram sádicas e agressivas para com os seus pares. O mesmo resultado que Milgram verificou na sua experiência, mais de 65% dos participantes revelaram rasgos de sadismo ao momento de castigar.

Mas a justificação de que o mal é necessário, para que seja possível apreciar um bem maior parece lógica, considerando que não poderia haver uma conceção de bem, na ausência do conhecimento do mal, ou seja, não existiria possibilidade de comparação. Desde a perspetiva psicológica se não existisse sofrimento, como referiu Santo Agostinho, o indivíduo não daria valor ao bem, dando como garantidas as coisas boas. Como poderíamos desfrutar da saúde, se não existisse doença? Esta ideia parece justificar algum do mal que existe no mundo, como aquele que provocam algumas doenças para as quais não existe tratamento, mas não todo o sofrimento (Rachels, 2010).

O mal existente no mundo, por vezes, é justificado como um castigo à imoralidade, segundo a doutrina do pecado original. No entanto, esta ideia faria sentido se existisse uma correlação evidente de que o carácter moral determinaria uma boa vida. Dado que, o mal seria um castigo pelo pecado, os pecadores estariam sujeitos aos piores sofrimentos. Contudo, do ponto de vista mundano verifica-se que muitos inocentes estão sujeitos a sofrimentos atrozes, não sendo possível de justificar um bem maior (Rachels, 2010).

Deste modo, parece existir um problema de compatibilidade em justificar a existência de Deus e a diversidade e abundância do mal no nosso mundo. Esta tensão verifica-se entre a ideia, que o mundo foi criado por um ser perfeitamente bom, omnipotente e omnisciente, o Deus Teísta; e a existência do mal no mundo. Até porque é suposto que um ser sumamente bom não desejaria que acontecessem coisas más, além disso, um ser omnipotente deveria ser capaz de impedir este tipo de ações.

O Problema evidencial do mal

A difícil conciliação entre a existência de Deus e a constatação do mal no mundo — como atrocidades horrendas que provocam um sofrimento impossível de justificar e que, aparentemente, não cumprem qualquer finalidade boa — levou os defensores da perspetiva do problema evidencial do mal a formular o seguinte argumento: provavelmente, há instâncias de mal gratuito (1); mas, se o Deus teísta existe, então não há instâncias de mal gratuito (2); logo, provavelmente, o Deus teísta não existe (3) (Faria, 2020: 13).

Esta postura procura explicar através de exemplos de sofrimento intenso injustificados, ou seja, de mal gratuito, que não servem qualquer propósito benéfico, que Deus não existe. Para objetivar esta ideia, Rowe (2011) utilizou o exemplo de um corço, que é atingido por um raio agonizando durante 5 dias até morrer. O facto de não ser possível atribuir ao corço tal sofrimento devido ao mau uso do livre arbítrio, levanta a questão: por que permite Deus que aconteça um mal gratuito quando pode impedi-lo? Isto é, teologicamente, se Deus existisse não permitiria qualquer mal gratuito, que se poderia explicar devido aos seus atributos.

Uma vez que o Deus teísta é omnisciente, sabe que o raio ao atingir o corço o deixaria a agonizar, que desse sofrimento não se segue qualquer bem superior, nem se pode vislumbrar que Deus ao impedir tamanha crueldade permitisse um mal igual ou pior. Da mesma forma, que sendo Deus omnipotente tem poder para eliminar ou prevenir que tais males aconteçam e, sendo sumamente bom, não deseja o mal, menos o sofrimento sem sentido do corço. Logo, parece que temos boas razões para aceitar a provável inexistência de Deus.

Mas segundo o argumento evidencial do mal, da premissa empírica parece que podemos asseverar que, provavelmente, há instâncias de mal gratuito (1). Afirma-se parece porque de uma perspetiva epistémica do senso comum acreditamos que as coisas são como as percecionamos ou como as experimentamos[1], no caso do sofrimento do corço, não temos razões para duvidar que é um mal gratuito. A injustificação de tal sofrimento, um mal sem sentido, para o qual não se compreende uma razão pela qual Deus, a existir, deva permitir tais males, leva-nos a inferir que provavelmente existem males gratuitos (Faria, 2020).

Também, parece ser fácil de aceitar a premissa teológica do argumento evidencial, se o Deus teísta existe, então não há instâncias de mal gratuito (2) ou seja, a existir um Deus devido aos seus atributos omnipotente, omnisciente e sumamente bom, não permitiria que tais males acontecessem, dado que Ele poderia fazer algo melhor — o bem — e porque sendo um ser amoroso com a sua criação não se poderia justificar um sofrimento intenso (Jordan, 2017). Como tal, parece plausível aceitar que frente à evidência do mal gratuito no mundo é provável que Deus não exista (3).

Assim o problema evidencial do mal salienta, ainda que o sofrimento intenso pudesse conduzir a algum bem superior, que não fosse possível de alcançar sem suportar esse mal, ou seja, um mal justificado, continuaria a ser um mal.

O Teísmo cético com resposta ao Problema evidencial do mal

Uma possível objeção ao argumento evidencial é apresentada pela posição do teísmo cético, que defende a existência de certas afirmações como falsas ou que não se podem demonstrar como verdadeiras. O facto é que desconhecemos a inexistência de um bem maior que justifique o sofrimento, no caso do corço, pelo que se assume que o sofrimento deste não tem sentido, como tal é um mal gratuito. Parece que não conseguimos conceber ou imaginar um bem que pudesse superar esse sofrimento, nem pensar que Deus pudesse produzir esse bem — um bem igual ou superior — sem permitir o sofrimento imenso do corço (Rowe, 2011).

Da perspetiva do teísmo cético a mente humana não consegue justificar os eventos de um mal gratuito, porque não tem o conhecimento suficiente — não sabemos o que Deus sabe. Ora, “se Deus existe e se soubéssemos o que ele sabe, então talvez soubéssemos que Deus não chegou sequer a ter escolha” (Rowe, 2011: 125). Isto porque, Deus saberia que se impedisse o sofrimento do corço, ou algum sofrimento, poderia ter permitido um mal semelhante (ou pior), ou poderia ter perdido algum bem importante. Como resultado, um outro cenário possível poderia ser pior que o sofrimento intenso do corço.

Parece que existe um propósito que justifica que haverá algum bem superior que será obtido somente se Deus permitir o sofrimento em questão ou algum sofrimento comparável; ou que há algum mal comparável ao sofrimento em questão que seria realizado se Deus impedisse o sofrimento. Isto é, que a permissão para tal sofrimento é o único modo que Deus tem para poder obter o bem (Wykstra, 1984).

No entanto, a nossa posição epistémica ou incapacidade cognitiva para identificar as razões totais de Deus (Faria, 2020: 24) impedem-nos de aceder a uma conceção de bem, tal como Deus a concebe. Assim sendo, a mente humana nunca poderá imaginar o bem, tal como é conhecido por Deus — um ser sumamente bom — uma conceção que está além da nossa compreensão. Da mesma forma, que não temos a capacidade de avaliar, razoavelmente, que Deus podia ter impedido o sofrimento do corço sem perder um bem superior ou sem ter permitido um mal igual ou pior.

A impossibilidade de conhecer os bens, tal como Deus os conhece, impede-nos de justificar a morte do corço como um mal gratuito, uma vez que desconhecemos que bem superior poderia advir do curso dessa ação. Consequentemente, se Deus é sumamente bom seria plausível aceitar que Ele só permitiria o sofrimento imenso do corço se fosse possível alcançar um bem superior, uma vez que Deus pode fazer tudo o que não envolve contradição, como referia São Tomás de Aquino.

O teísmo cético parece dar uma resposta razoável ao problema evidencial do mal, uma vez que não podemos afirmar que Deus não existe, pelo simples facto de não se conseguir imaginar o bem que poderia ter decorrido desse evento. Logo, parece que a dificuldade de conjugar a evidência do mal do mundo, com a existência de Deus, não deveria eliminar a crença em um ser superior (Wykstra, 1984). Assim a premissa empírica, que provavelmente, há instâncias de mal gratuito (1) “permanece indemonstrável” (Rowe, 2011: 125).

Considerações finais

O problema evidencial do mal expõem que a diversidade e abundância do mal no nosso mundo reforça a crença que Deus não existe — basta olhar para as atuais guerras. Contundo, o teísmo cético apresenta uma possível resposta, de que talvez não seja logicamente inconsistente a existência do mal e de Deus, uma vez que nossa posição epistémica ou incapacidade cognitiva para identificar as razões totais de Deus, impende-nos de discernir bens maiores ou males piores. Esta postura assenta na possibilidade de Deus poder ter uma razão para permitir o mal, ainda que nós não tenhamos capacidade para compreender as Suas razões. Neste caso, o mal e o sofrimento no mundo parecem inescrutáveis para os humanos.

Assim, as avaliações sobre o sofrimento do corço e outros males implicam a suspensão do nosso juízo sobre a existência, ou não, de males gratuitos, pelo que, a premissa empírica do problema do mal evidencial permanece indemonstrável. Óbvio, que para isso temos de reconhecer que a inexistência de um bem, não significa a permissão de Deus para qualquer tipo de sofrimento, seja do corço ou de um ser humano, isto é, de um mal gratuito. Como muitos dos argumentos filosóficos, também a resposta do teísmo cético ao problema evidencial do mal não está isenta de objeções.

Referências Bibliográficas

Draper, P. (1989). Pain and Pleasure: An Evidential Problem for Theists. Noûs, 23, 3. p. 331-350. Doi: 10.2307/2215486.

Faria, D. (2020). O Problema do mal. Compêndio em Linha de Problemas de Filosofia Analítica. ISBN: 978-989-8553-22-5.

Jordan, J. (2017). The “Loving Parent” analogy. International Journal for Philosophy of Religion, 82 (1), 15–28. Doi: 10.1007/s11153-017-9623-4.

Plantinga, A. (1965). The Free Will Defence. In Max Black (ed.), Pilosophy in America, (p. 204-220). Ithaca: Cornell University Press.

Rachels, J. (2010). Problemas da Filosofia (2ªed.). Trad. Pedro Galvão. Gradiva Publicações. ISBN: 978-989-616-317-4

Rowe, W. (2011). Introdução à Filosofia da Religião. Lisboa: Editora Verbo. ISBN: 978-9722230223.

Swinburne, R. (1977). The Problem of Evil. In S.C.Brown (ed.) Reason and Religion. Ithaca: Cornel University Press.

Wykstra, S.J. (1984). The humean obstacle to evidential arguments from suffering: on avoiding the evils of “appearance”. International Journal of philosophy of Religion, 16, p. 73-93. Kluwer Academic Publishers.

  1. Segundo Faria (2020) ideia defendida pela teoria do conservadorismo fenoménico (p.21).

O “Paradoxo da Tolerância”: Sobre Vandalismo Político e Expressões Admissíveis Em Democracia

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Relembrando, pela 105ª vez, o famoso “paradoxo de Popper”, o paradoxo da tolerância, a propósito de vandalismo político.

Existe um consenso tácito, em Portugal, desde o fim do PREC, de respeitar as regras do jogo democrático e não vandalizar propaganda política afixada em público. Esse consenso pode ser quebrado com acções como a de ontem, em que o cartaz de um partido político de extrema-direita (categoria posicional, relacional, e não substancial) foi incendiado, na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, e, uma vez aberta essa caixa, nada impede apoiantes dessa ou doutras forças políticas visadas vandalizarem cartazes do extremo contrário.

O argumento levantado a favor da legitimação deste tipo de violência geralmente é o relacionado com o dito paradoxo, ou seja, “não tolerar os intolerantes”. Algum pensamento burguês acompanha esta máxima falaciosa, mas importa pensar além. Querem viver num regime em que certas expressões políticas são proibidas? Meras expressões sem antecedência de violência: ao contrário da versão bastarda do “paradoxo de Popper” que circula nas redes, o referido filósofo nunca advogou censura de discurso ou de expressão por si só, de qualquer espécie.

Convém saber se queremos um regime sério — aqui e nas democracias liberais parlamentares representativas do ocidente em geral e não só — feito de critérios objectivos do que é permitido e proibido. Afinal o que significa “incitamento” a ódio e violência: é dizer que não gostamos de x tipo de pessoa (como fazem alguns contra ricos, senhorios, políticos etc.)? É dizer que somos contra ou queremos determinado tipo de repressão contra as mesmas (como alguns pretendem em relação a “piropos”, “ofensas”, ou até mesmo “ideias”); ou antes devemos reservar a categoria de “incentivo” para coisas que real e EXPLICITAMENTE o sejam?

É uma questão que fica para os burgueses donos do regime actual, fechados no seu conforto ideológico, sem desafios, sem mundo, sem contrariedade com que tenham de conviver. É nesse ordenamento social que querem viver, tal como no antigo regime existia quem achasse que era melhor não dar voz aos comunistas porque eles eram muito perigosos (e de facto eram). É isso que querem? Querem uma democracia liberal, uma sociedade aberta, ou querem regras à la carte, dominadas pelos fantasma colectivos do tempo? Fica a pergunta. Uma boa semana para todos!

Dupla Excepcionalidade (Sobredotação e Transtorno) — Revisão Bibliométrica

O objeto desta pesquisa refere-se a conhecer e compreender o que temos de literatura, o que ela nos apresenta sobre a concepção de Dupla Excepcionalidade (DE). Pressupõe-se encontrar o que os pesquisadores têm investido em investigar, no campo das produções científicas acerca da DE. Delimita-se a pesquisa a duas bases de dados de grande importância para o cenário nacional e internacional. A natureza deste estudo delineou-se mediante os limites e possibilidades da investigação, com uma abordagem metodológica qualitativa pautada na revisão sistemática de literatura. Com este trabalho, foi utilizado como método de pesquisa da literatura a busca sistemática, em duas base de dados on-line, Web of Science (WOS) e Scopus, seguida de uma análise bibliométrica dos resultados. Os dados bibliométricos dos 309 documentos do Scopus e 124 trabalhos da plataforma WOS foram analisados pelo software Bibliometrix. Como resultados, dentre outros, foi possível identificar os conceitos que mais se assemelham no que tange a DE.Os estudos iniciais datam de 1975. Percebemos a crescente cronológica de publicação , que países mais produzem pesquisas na área e que relações,quanto ao impacto de citações, são estabelecidas entre essas publicações. Desta forma, acreditamos ter atingido o objetivo de investigação proposto com esta pesquisa. PALAVRAS -CHAVES: dupla excepcionalidade – altas habilidades – superdotação –deficiência – bibliometria.

INTRODUÇÃO

O presente artigo nasce a partir da atuação do pesquisador como professor assessor de Altas Habilidades/ Superdotação – AH/SD, na Escola de Educação Básica Simão José Hess, localizada no centro de Florianópolis, no estado de Santa Catarina, no Brasil. Durante os atendimentos com os estudantes já incluído no Atendimento Educacional Altas Habilidades/Superdotação ( AEE – AH/SD), do Polo da citada escola, nos deparamos com estudantes que outrora havia sido “incluído” no atendimento para estudantes com AH/SD, e inicia processo investigativo para diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista ( TEA). Daí, decorre um emaranhado de perguntas, tais como: Como ele pode ser atendido como superdotado? Ele nem lê! Ele tem interesse em dinossauro, é hiperfoco! Todavia, este estudante tem um repertório avançado para sua idade quando o assunto é aves, fauna e flora. Ainda que haja expressivo interesse por dinossauro, desenha bem e contextualiza as situações apresentadas.

Com base no que temos apresentado, decorre que os sujeitos que possam apresentar comportamentos de pessoa com AH/SD em uma área ou mais de conhecimento, mas que também apresentam TEA, ou outra deficiência, têm tido os seus potenciais invisibilizados. Tais ocorrências carecem de urgente investigação, no sentido de conhecer e compreender o que a literatura nos apresenta sobre a concepção de Dupla Excepcionalidade (DE). Para Nakano e Alves (2021), a DE se marca pela presença de dois diagnósticos distintos: um, de habilidade acima da média, o outro, associada a prejuízos significativos em outras áreas.

A investigação justifica-se pela escassez de material que norteiam o fazer profissional de professores das classes regulares de ensino, gestores e profissionais envolvidos no processo de busca ativa, e identificação aos estudantes com indicadores de AH/SD. Sobretudo, para que não ocorram processos de exclusão de estudantes com deficiência ou TEA, Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH, mas que, por excelência, possam apresentar expressivo conhecimento sobre uma determinada área ou mais do conhecimento. Desta forma, acredita-se que possamos apresentar um panorama geral da literatura sobre o tema, além de contribuir para o declínio de práticas de raiz capacitista com o potencial de castrar os potenciais humanos em razão da sua condição de ser e sentir o mundo .

Muito além, são os mitos que corroboram para não identificação dos sujeitos com AH/SD; no caso da dupla excepcionalidade, acresce que estes são interseccionados, pois eleva cada vez mais o nível de exigência para lhe conferir a superdotação. Por exemplo, o sujeito com dificuldade de compreender cálculo ou situações abstratas tampouco vai ser indicado acima da média; o estudante dislexico dificilmente tirará nota máxima na produção textual, mas com excelência pode ter alta performance em outras áreas que não acadêmicas, menos valorizadas pelo meio científico.

Considerando as justificativas que têm sido apresentadas neste texto, o objetivo deste trabalho é conhecer e compreender o que a literatura nos apresenta sobre a concepção de DE.

A Dupla Excepcionalidade em Santa Catarina

No estado de Santa Catarina, em 2021, foram lançadas as Diretrizes do Atendimento Educacional Especializado (AEE) que, “desde a publicação da Política de Educação Especial de Santa Catarina, em 2006, aguardava orientações específicas para atuação nas diferentes áreas de atendimento” (SANTA CATARINA, 2021, p.6). Cumpre destacar que o estado catarinense já possuía uma política estadual de educação especial antes mesmo da política nacional. (SANTA CATARINA, 2006; 2021)

Com a chegada das diretrizes, o atendimento especializado das escolas catarinenses passaram a operacionalizar conforme suas diretrizes próprias, mas considerando outros documentos nacionais como Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996), a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008) e demais documentos, como decretos estaduais e federais.

Conforme disposto no documento, o objetivo das diretrizes foi:

Apresentar a professores e a gestores as diretrizes para o AEE ofertado a estudantes com deficiências, Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), matriculados na rede regular de ensino de Santa Catarina”.(SANTA CATARINA, 2021, p.11)

O documento apresentado não faz nenhuma menção ao conceito de dupla condição ou dupla excepcionalidade: ele lista TEA e TDAH como deficiências, e AH/SD como operacionalização individualizada.

No mesmo ano, conscientes da necessidade de orientar os profissionais e consequentemente da existência de estudantes com dupla condição, a Fundação Catarinense de Educação Especial ( FCEE), encaminhou aos polos AEE um documento orientador para o atendimento no AEE AH/SD para estudantes com dupla excepcionalidades. No qual ratificou o conceito de AH/SD e posterior de dupla condição. Vejamos a seguir:

A dupla excepcionalidade se marca pela presença de dois diagnósticos distintos, de habilidade acima da média associada a prejuízos importantes em outra área. (Nakano e Alves, 2021). Podemos destacar a dupla excepcionalidade como sendo caracterizada quando um indivíduo apresenta “alta performance, talento, habilidade ou potencial, ocorrendo em conjunto com uma desordem” destas podem ser comportamental e/ou de aprendizagem como por exemplo: Altas Habilidades e Transtorno do Espectro Autista; Altas Habilidades e Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade; Altas Habilidades e Transtorno Específicos da Aprendizagem – TA; Altas Habilidades e Deficiência Intelectual. (SANTA CATARINA.2021,sn)

Adiante acrescentou-se que o fenômeno “vem crescendo em estudos e pesquisas científicas em todo o mundo, e na FCEE a demanda desses estudantes para avaliação tem aumentado significativamente”(SANTA CATARINA, 2021,p.sn) Tal documento objetivava orientar aos pólos quanto à inclusão desses estudantes.

Nas orientações dois pontos importantes merecem atenção.Observamos:

  • Conforme estabelecido na Resolução nº 100/2016, se o estudante receber parecer favorável para Segundo Professor, significa que o mesmo apresenta comprometimento significativo nas interações sociais e na funcionalidade acadêmica e que suas demandas ainda não foram sanadas, precisando de apoio. Dessa forma o estudante contemplado com o Serviço Especializado do Segundo Professor de Turma não poderá ser incluído no AEE AH/SD por descaracterizar o processo de suplementação, que é necessária aos estudantes com estes indicativos, uma vez que o Estado assumiu os estudantes com indicadores relativos à Capacidade Intelectual e à Aptidão Acadêmica;
  • Estudantes com indicadores de AH/SD e diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista; Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade; Transtorno Específicos da Aprendizagem e Deficiência Intelectual poderão ser encaminhados para o AEE AH/SD. Porém, caso o estudante já esteja matriculado no AEE Misto, o professor precisa elaborar um relatório no qual conste: habilidades, comportamentos, qual seu grau de envolvimento e comprometimento com a aprendizagem e com a realização das tarefas e atividades da sua área de interesse. Imprescindível pontuar também se já alcançaram os objetivos estabelecidos em relação às suas demandas primárias mais importantes (relacionadas à Deficiência ou Transtorno). E ainda, descrever quais são as habilidades apresentadas acima da média, superior aos seus pares, relacionadas à criatividade e comprometimento com a tarefa. Com estas informações registradas, organizar a documentação correspondente e encaminhar para a inclusão no AEE AH/SD; (SANTA CATARINA,2022,p.sn)

Percebe-se a negativa de direito: para o estado catarinense, o sujeito é AH/SD ou TEA ou TDAH “deficiente”, e logo o atendimento só pode ser suplementar ou complementar. E a dupla condição, como fica? Estará o estado em contradição?

No ano de 2022 nova orientação foi encaminhada aos pólos com a seguinte redação:

No que se refere ao Atendimento Educacional Especializado (AEE AH/SD), o estudante que apresentar algum indicativo de Altas Habilidades/Superdotação e diagnóstico de TDAH ou de TEA (Nível 1) deve ser encaminhado ao AEE Misto/TEA. Para qualificar o trabalho de suplementação na área em que o estudante apresenta destaque, a professora do AEE Misto/TEA receberá orientações da assessora do polo de Atendimento Educacional Especializado de Altas Habilidades/Superdotação (AEE AH/SD), e […]. (SANTA CATARINA, 2022, p.2)

Pode-se entender que dupla condição, de modo geral, restringe-se ao TEA do nível 1, e as deficiências? A surdez, os cegos? Será que Louis Braille não poderia ter sido identificado com AH/SD?

Por fim, o documento aponta as seguintes encaminhamentos:

1. A professora do AEE Misto/TEA deverá realizar parecer pedagógico descritivo acerca dos comportamentos de criatividade, comprometimento com a tarefa e quais as habilidades acima da média estão presentes quando este estudante é comparado aos seus pares da mesma idade e nível escolar. Ressaltamos que este estudante deve apresentar habilidade significativamente superior, em uma ou mais áreas do conhecimento.

2. Este parecer deve ser entregue à gestão escolar que encaminhará para a Coordenadoria Regional de Educação – CRE, junto a um ofício solicitando estudo de caso com a equipe das AH/SD (polo de AEE AH/SD da região, NAAHS, CRE e Secretaria do Estado da Educação).

3. A CRE deverá encaminhar via Sistema de Gestão de Processos Eletrônicos- SGPe para FCEE/NAAHS:

● Ofício solicitando o estudo de caso referente ao estudante com indicadores de AH/SD e outro transtorno associado;

● Ofício da escola solicitando estudo de caso com a equipe das AH/SD;

● Parecer pedagógico descritivo da professora do AEE Misto/TEA.

4. Será marcado e comunicado pela equipe do NAAHS o dia e a hora para o estudo de caso relacionado ao estudante com indicadores de AH/SD e outro transtorno associado.

5. Após estudo de caso, a assessora do polo de AEE AH/SD da região dará as devidas orientações à professora do AEE Misto/TEA quanto ao trabalho no fenômeno das AH/SD, ao processo de avaliação dos indicadores de AH/SD e na suplementação/enriquecimento na(s) área(s) específica(s) que o estudante mais se destaca.

6. O estudante deve ser atendido prioritariamente de forma individual, conforme adequação e disponibilidade do polo de AEE Misto/TEA, a fim de atender às características inerentes ao diagnóstico juntamente com a suplementação/enriquecimento.

7. O estudante deve ser informado no SISGESC como público da Educação Especial, TEA ou TDAH e Altas Habilidades/Superdotação.

Neste contexto, somente serão encaminhados ao polo de AEE AH/SD, os estudantes que não apresentarem diagnóstico de transtorno ou deficiência associada. (SANTA CATARINA, 2022. p.01)

Percebem-se avanços entre os documentos emitidos em 2021 e 2022. Mesmo assim, nota-se um modelo de superdotação centrado na “normalidade” em contrapartida, já que o diagnóstico do transtorno ou deficiência rotulam e insistem em castrar seus potenciais, ou seja, é normal demais para ser deficiente, ou é deficiente demais para ser normal.

Com base nas Diretrizes para o Atendimento Educacional Especializado (AEE) na Rede Regular de Ensino de Santa Catarina (2021), o NAAH/S do estado (NAAH/S-SC) constitui parte dos serviços prestados pela FCEE. As ações deste Núcleo são fundamentadas nos princípios filosóficos que embasam a educação inclusiva e têm como objetivos definir e coordenar a política de atendimento aos estudantes com indicadores de AH ou SD no estado de Santa Catarina.

Além de identificar, avaliar e atender estudantes com indicadores de AH ou SD, cabe ao NAAH/S-SC ministrar cursos, palestras, seminários e encontros sobre o tema AH ou SD. Desde 2014, em parceria com a Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina (SED/SC), vem implantando salas de AEE para estudantes com altas habilidades ou superdotação (AEE-AH/SD) em diversos municípios do estado, descentralizando o serviço e alcançando, dessa forma, maior número de estudantes devidamente identificados e atendidos.

O AEE-AH ou SD é um serviço educacional para estudantes com indicadores de AH/SD. Portanto, o NAAH/S-SC é responsável por acompanhar a demanda desse público nas unidades escolares das diversas regiões do estado; atender estudantes com AH/SD com indicadores relativos à capacidade intelectual e à aptidão acadêmica; encaminhar e acompanhar estudantes com indicadores nas áreas de liderança, artes e psicomotricidade para atendimentos em serviços/projetos na escola e/ou comunidade, de acordo com suas habilidades (SANTA CATARINA, 2021).

Esse serviço pode ter estrutura de polo ou de sala de atendimento. Compreende-se o polo de AEE-AH/SD o serviço que conta com estes dois profissionais: professor e professor assessor; e sala de AEE-AH ou SD quando somente o professor atua. O professor assessor presta orientações aos professores das salas de AEE-AH ou SD. Realiza a avaliação inicial e a articulação dos encaminhamentos necessários para a suplementação das necessidades educacionais dos estudantes e atua de forma itinerante, fazendo identificação de estudantes em escolas da rede adjacentes ao polo. O professor é o profissional que atua no atendimento aos estudantes na sala de AEE-AH ou SD.

Em suas publicações, a FCEE aborda a concepção de superdotação dos três anéis (RENZULLI, 2018, p. 26) que “tenta mostrar as principais dimensões do potencial humano para a produtividade criativa”. O nome é originado a partir da estrutura conceitual da teoria — três conjuntos de traços que interagem, como apresentado na Figura 1:

Figura 1 – Modelo de superdotação dos três anéis.

Fonte: Santa Catarina (2011, p. 11)

Em síntese, a concepção de superdotação dos três anéis é baseada na justaposição e interação dos três conjuntos de traços que originam as condições que favorecem o surgimento dos comportamentos superdotados. Além disso, a superdotação não é um construto estanque e, portanto, compreende comportamentos dinâmicos que podem se apresentar de vários tipos e graus, desenvolvidos por certas pessoas em certos momentos e sob certas circunstâncias (RENZULLI, 2018).

Para atingir nosso objetivo,à pergunta norteadora do estudo, a saber: Qual o estado da arte sobre dupla exepcionalidade? Neste trabalho, foi utilizado como método de pesquisa da literatura a busca sistemática, em duas base de dados on-line, Web of Science (WOS) e Scopus, seguida de uma análise bibliométrica dos resultados.

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Como método de pesquisa da literatura utilizou-se da busca sistemática, em uma base de dados on-line, seguida de uma análise bibliométrica dos resultados. A bibliometria é uma metodologia proveniente das ciências da informação que se utiliza de métodos matemáticos e estatísticos, para mapear os documentos a partir de registros bibliográficos armazenados em bases de dados (DE BEM MACHADO; SOUSA;DANDOLIN, 2022). A bibliometria permite apurações relevantes como: número de produção por região; temporalidade das publicações; organização das pesquisas por área do conhecimento; contagem de literatura relacionada à citação do estudo; identificação do fator de impacto de uma publicação científica entre outros que contribuem para a sistematização do resultado da pesquisa e a minimização da ocorrência de vieses ao se analisar um determinado tema. Para a análise bibliométrica o estudo foi organizado em três etapas distintas: planejamento, coleta e resultado. Estas etapas aconteceram de modo convergente para responder à pergunta norteadora do estudo, a saber: Qual o estado da arte sobre dupla exepcionalidade?

O planejamento iniciou-se e finalizou no mês de setembro de 2023, quando a pesquisa foi realizada. Nesta fase, definiu-se alguns critérios como a limitação da busca em base eletrônica de dados, que nos caso dessa pesquisa foi a Web of Science (WOS) e Scopus. O termo de busca escolhido foi “Twice exceptional“.

Para o tratamento e a análise dos dados, utilizou-se o software Bibliometrix, pois por meio do pacote R Bibliometrix, chamado de Biblioshiny, que possui o conjunto de técnicas mais extenso e adequado dentre as ferramentas pesquisadas para análise bibliométrica (MORAL-MUÑOZ, et al., 2020).

Análise Bibliométrica das Publicações Selecionadas.

Os dados bibliométricos dos 309 documentos do Scopus e 124 trabalhos da plataforma WOS foram analisados pelo software Bibliometrix, resultaram no resumo apresentado no quadro 2.

Quadro 2 – Resumo das informações encontradas nas bases de dados

PRINCIPAIS INFORMAÇÕES SOBRE OS DADOSScopusWoS
Período de tempo1975:20231996:2023
Fontes (jornais, livros, etc.)13568
Documentos309124
Palavras-chave do autor612357
Autores525279

Fonte: Autor (2023).

Inicou-se a análise referenciando a taxa de crescimento global do número de publicações científicas, onde constatou-se que teve um aumento de 50% no número de publicações no ano de 2022. A Figura 2 indica o crescente interesse no tema,conforme número de publicações nas bases Scopus e Web of Science.

Figura 2 – Distribuição da publicação ao longo dos anos – Scopus e Web of Science

Fonte: Autor (2023).

Outra análise realizada foi a identificação dos vinte autores mais relevantes, na temática desta pesquisa nas bases Scopus e WOS, que são explicitados na figura 3 e figura 4, respectivamente.

Figura 3 – Autores mais relevantes Scopus

Fonte: Autor (2023).

Figura 4 – Autores mais relevantes Web Of Science.

Fonte: Autor (2023).

Constatou-se que na base de dados scopus o autor referência é Megan Foley Nicpon com 20 citações na área e na Web of Science (WoS) o autor referência é Susan G. Assouline com sete citações na área.

O país que tem mais produção científica na temática, de DE foi os USA com 195 trabalhos na Scopus e na base de dados WOS com 40 publicações na área, conforme Figura 5 e 6, respectivamente.

Figura 5 – Frequência de Publicação por país na base Scopus

Fonte: Autor (2023).

Figura 6 – Frequência de Publicação por país na base WoS.

Fonte: Autor (2023).

A Figura 7 e Figura 8 apresentam a intensidade de publicação por país e a relação estabelecida entre eles, por meio de citações entre trabalhos publicados nas bases de dados Scopus e Web of Science, respectivamente.

Figura 7 – Publicação por país e a relação estabelecida entre eles Scopus

Fonte: Autor (2023).

Figure 8 – Publicação por país e a relação estabelecida entre eles Web of Science

Fonte: Autor (2023).

Constatou-se que a intensidade de publicação está localizada nos continentes da: África, América, Antártica, Ásia, Europa e Oceania que se fazem presentes na relação estabelecida entre eles, por meio de citações entre trabalhos publicados na base de dados.

A partir da análise bibliométrica, com base no grupo de trabalho recuperado nas duas bases de dados, tem-se 612 palavras-chave indicadas pelos autores da base de dados Scopus e 357 da WoS. Ganharam destaque nas duas bases de dados o termo dupla expecionalidade, sendo que na Scopus aparece com 134 ocorrências e na WOS aparece com 42 ocorrências, conforme Figura 9.

Figura 9 – Nuvem de tags Scopus e WOS

Fonte: Autor (2023).

Já os dez documentos mais citados globalmente na base de dados Scopus e Web Of Science estão listados na quadro 2.

Quadro 2: Documentos mais citados nas bases Scopus e Web of Science.

AnoAutoresArtigoNúmero de citações ScopusNúmero de citações WOS
12010NICPON MF et al.Empirical Investigation of Twice-Exceptionality: Where Have We Been and Where Are We Going?168109
22014Reis, S.M et. alAn operational definition of twice-exceptional learners: Implications and applications12166
32010Assouline, S.G Et alCognitive and psychosocial characteristics of gifted students with written language disability9761
42013Foley-Nicpon, M. et. alTwice-Exceptional Learners: Who Needs to Know What?8346
52014Susan M. Baum et al.Through a Different Lens: Reflecting on a Strengths-Based, Talent-Focused Approach for Twice-Exceptional Learners6927
62013Fugate, C.MThrough a Different Lens: Reflecting on a Strengths-Based, Talent-Focused Approach for Twice-Exceptional Learners Memory in Gifted Students With and Without Characteristics of Attention Deficit Hyperactive Disorder: Lifting the Mask6641
72012Susan G. Assouline et al.Predicting the academic achievement of gifted students with autism spectrum disorder6456
82009Assouline, S.G Et alProfoundly gifted girls and autism spectrum disorder: A psychometric case study comparison6345
92011SUSAN G. ASSOULINETwice-Exceptionality: Implications for School Psychologists in the Post-IDEA 2004 Era610
102013Neumeister, K. SThe Influence of Primary Caregivers in Fostering Success in Twice-Exceptional Children490
112013Willard-Holt, C. et alTwice-Exceptional Learners’ Perspectives on Effective Learning Strategies033
122015Rubenstein, LD et. Al.Lived Experiences of Parents of Gifted Students With Autism Spectrum Disorder: The Struggle to Find Appropriate Educational Experiences028

Fonte: Autor (2023).

Dos 12 artigos que compuseram o corpus de análise, 11 identificaram-se como respossta ao tema de dessa pesquisa; “Qual o estado da arte sobre dupla exepcionalidade? que serão discutidos e respondido a seguir.

Estado da arte sobre dupla exepcionalidade.

Conforme a leitura e analise dos artigos selecionados, explicita-se a seguir o conceito de dupla exepcionalidade. Segundo Nicpon MF et al. (2010), dupla exepcionalidade refere-se aos alunos que demonstrem elevada capacidade de desempenho em áreas como capacidade intelectual, criativa, artística ou de liderança, ou em áreas acadêmicas específicas, e que necessitem de serviços ou atividades que normalmente não são fornecidos pela escola para desenvolver plenamente essas capacidades e são intitulados como superdotados e tem deficiência em uma das três áreas específica, a seguir: a) dificuldades específicas de aprendizagem (DTE), (b) transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e (c) transtorno do espectro do autismo (TEA). Já para Reis, S.M et. al (2014) Dupla expecionalidade defini-se como alunos identificados como superdotados e também diagnosticados com uma ou mais categorias de educação especial definidas pela Lei de Educação de Indivíduos com Deficiência (IDEA), com exceção daqueles alunos com deficiências cognitivas.

Para Assouline, S.G Et al (2010), dupla exepcionalidade são estudantes que possuem superdotação e que apresentam dificuldades de aprendizagem. E para Foley-Nicpon, M. et. al (2013) dupla excepcionalidade é quando um aluno superdotado tem uma dessas dessas quatro deficiências: transtornos do espectro do autismo (TEA); dificuldades específicas de aprendizagem (DEL); transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e distúrbios emocionais (DE).

Susan M. Baum et al. (2014), os alunos com dupla exepcionalidade possuem dons e deficiências simultaneamente, as duas excepcionalidades são muitas vezes abordadas separadamente em ambientes educacionais , com pouca consideração pela influência que uma excepcionalidade pode ter sobre a outra.

Susan G. Assouline et al. (2011, 2012) e Assouline, S.G Et al (2009) explicitam que os estudantes dupla exepcionalidade são os superdotados com transtorno do espectro do autismo (TEA). Neumeister, K. S (2013), dupla excepcionalidade são alunos superdotados com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno do espectro do autismo (TEA) e dificuldades específicas de aprendizagem. Os alunos sobredotados com qualquer uma destas três excepcionalidades correm o risco de não atingirem o seu potencial como resultado de fatores externos e internos. Externamente, a ausência de um mandato federal para identificação e serviços para estudantes sobredotados resulta numa falta geral de identificação e escassez de programação em muitos estados, mesmo para os estudantes sobredotados sem deficiências. Situação esta vivida pelo Estado brasileiro,não há uma legislação que apresente clareza de como deve ocorrer a suplementação escolar ou complementação no AEE para os estudantes brasileiros que possuem tem DE.

Willard-Holt, C. et al (2013),explicita que os alunos duas vezes excepcionais são incluídos na categoria de “deficiências múltiplas”. O Special Education Companion (Ministério da Educação de Ontário, 2001) mencionou alunos superdotados com dificuldades de aprendizagem e comportamentais, mas considerou as excepcionalidades isoladamente umas das outras. Rubenstein, LD et. Al. (2015) dupla exepcionalidade são estudantes alunos superdotados com TEA apresentam ambas as características associadas à superdotação e ao TEA.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo principal deste artigo foi conhecer e compreender o que temos de literatura e o que ela nos apresenta sobre a concepção de DE, através da revisão sistemática em duas bases de dados Scopus e Web of Science. O total de artigos identificados e aderentes ao foco deste artigo foram 11. Para alcançar esse objetivo foi traçado uma análise bibliométrica e uma análise temática dos artigos.

Constatou-se que o interesse de pesquisadores acerca da DE ainda é tímida, mas crescente. O autor referência na web of Science (WoS) é Megan Foley Nicpon com 20 citações na área, e na Scopus é Susan G. Assouline com sete citações na área.

Com relação aos “países” que tem mais produção científica na temática DE foi a USA com 195 trabalhos na Scopus e na base de dados WOS com 40 publicações. No entanto, a intensidade de publicação está localizada nos continentes da: África, América, Antártica, Ásia, Europa e Oceania que se fazem presentes na relação estabelecida entre eles, por meio de citações entre trabalhos publicados nas duas bases de dados.

Em conclusão, para responder à questão de pesquisa: Qual o estado da arte sobre dupla exepcionalidade? uma análise temática dos artigos identificou que a DE é quando o estudante é superdotado e tem algum tipo de deficiência ou dificuldade de aprendizagem. Observa-se que existe uma discrepância na concepção, e que essas variações estão ligadas ao tipo de público destinado às políticas de educação especial e da legislação específica de cada País.

Desta forma, compreende-se que a concepção de DE pode variar conforme ao público considerado eletivo para educação especial em diferentes países. É importante notar que a condição de superdotação é comum em todas as pesquisas, o que realmente sofre alteração é a segunda condição, a depender, da deficiência ou dificuldades de aprendizagem e outras. A situação percebida, é refletida também na definição do público da educação especial pela política nacional, que notadamente temos alteração na política estadual de Santa Catarina, ao contemplar o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade como eletivo ao atendimento educaçao especializado..

Para futuras pesquisas, pretende-se mapear quais as prática educacionais podem ser adotadas para estudantes com dupla excepcionalidade.

REFERENCIAS

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Maquiavel, Don Rickles, Adolfo Hitler, Drácula

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Destacamos hoje, numa partilha domingueira, quatro personagens unidas por um critério maioritariamente abstracto e sem nexo aparente. Fica ao gosto do leitor encontrar as semelhanças, as diferenças, ou simplesmente as associações livres que levaram ao seu encontro nesta publicação.

Começamos com o magnífico autor e pensador italiano Niccolò Machiavelli, cuja singularidade levou também a linguagem comum a adoptar o seu apelido como adjectivo, aplicado por vezes bem, outras vezes mal. Ao contrário do que é costume pensar, Maquiavel não é um implacável cínico, mas sim um distinto consequencialista e/ou pragmático, sendo toda a sua obra, em particular o lendário volume O Príncipe, dedicada não ao poder pelo poder mas, em última análise, ao bem comum. Maquiavel transpõe a moral clássica dos romanos para a contemporaneidade, passando por cima da cristandade do efeito imediato e das considerações absolutas e presentistas.

Don Rickles, por seu lado, comediante muito pouco conhecido em Portugal, especializou-se durante as décadas de sessenta e setenta do passado século num estilo singular de “comédia de insulto”, categoria que o mesmo em parte rejeitava mas que melhor descreve, em termos simples, o seu número mais típico. Dono de uma capacidade improvisacional notável, Rickles era capaz de fazer jocosa e simpática troça de todos os espectadores de um seu espectáculo, inventando associações, argumentos, observações bizarras, sequências de ideias mirabolantes e variações de registo extraordinárias e surreais. Tornou-se também famoso pela sua associação ao lendário grupo do entretenimento designado por rat pack e constituído por Frank Sinatra, Dean Martin, entre outros. Este seu estilo permitia-lhe ser o rei dos roasts televisivos, eventos em que uma série de notáveis do entretenimento se dedicavam a troçar publicamente uns dos outros, e cujo modelo foi recentemente revisitado em eventos semelhantes.

Depois, temos o nosso querido amigo de todos nós, o doutor Adolfo Hitler, que vive, quer queiramos quer não, nos nossos pesadelos, implícitos ou explícitos. Na actualidade, curiosamente, ainda mais do que nos anos e décadas que se sucederam à segunda grande guerra, a imagem do senhor Hitler é imediatamente invocada sempre que surge um político, uma ideologia, um grupo de cidadãos afectos a algum campo de ideias que tenha sido encarnado pelo mesmo — por exemplo, o nacionalismo, o autoritarismo, o belicismo, militarismo, ou mesmo a mera glorificação da força policial civil, entre muitos outros campos — o que torna o debate de ideias em termos racionais sobre estes tópicos um pouco difícil, e também nos prende a uma visão da história que, ao invés de ter começado há cinco mil anos, desde que temos registos, começa em 1927 ou aproximadamente — o que, como é obvio, nos transmite uma visão de excepcional incompletude.

Por último, convocamos ainda a famosíssima figura do Conde Drácula, maioritariamente ficcional mas em parte inspirada num determinado senhor da guerra das terras da Roménia, lá por volta de 1500. Sendo o representante mais notável da raça dos vampiros, o conde mistura vários tropos, todos eles muito interessantes ao nível do seu significado psíquico: o vampirismo enquanto variante do canibalismo, a fronteira entre a pessoa viva e a pessoa sem vida, e vários aspectos do sobrenatural, além de uma série de fetichizações do mórbido, do romance gótico e da aristocracia. Este é o grande patriarca da grande família dos vampiros ficcionais, hoje alargada até ao vasto universo do romance adolescente, em que a postura trágica do amor que envolve estas criaturas sugadoras de sangue é perfeitamente adequada ao dramatismo típico dos recém-púberes.

Deixamos assim aqui estas quatro simpáticas figuras que, à excepção de Rickles, cujo desaparecimento recente ainda não permitiu a canonização do reino dos mitos — embora já tenha surgido como personagem num receente filme de Martin Scorsese, The Irishman — têm toda elas em comum, de facto, uma certa prevalência do lado mitológico sobre o lado biográfico: até mesmo o doutor Hitler é, hoje, mais um boneco de pesadelos do que propriamente o político desastroso que, biograficamente, foi; Maquiavel, igualmente, reside na imaginação do público como equivalente a um certo cinismo implacável que não corresponde exactamente ao pensamento do Maquiavel histórico; e o simpático conde vampiresco já nasceu ficção e mito, mesmo que alicerçado numa figura histórica, figura essa cuja popularização, também mitificada, evoluiu num sentido completamente diferente do vampiro. Bom domingo a todos!

A Perseguição no Cinema: da Comédia Muda a Bullitt (1968) e Apocalypto (2006)

Poucas vezes concebido no imaginário popular como um tropo importante e recorrente, e muito menos como um género com mérito próprio, singularmente constituído, a verdade é que o dispositivo ficcional da perseguição tem força e relevância o suficiente não só como artifício em cenas acessórias e em cenas-chave de uma narrativa, como também para alicerçar todo o conteúdo central de uma película de cinema — e, possivelmente, de outras formas de arte, como a do romance. É este recurso que hoje destacamos, tanto na sua vertente segmental — falando um pouco de como as cenas de perseguição têm sido utilizadas ao longo da história do cinema — como na sua vertente de género cinematográfico pleno — destacando e homenageando o chase movie, filmes que são inteiramente ou quase inteiramente constituídos por uma perseguição.

Seguramente, noutros meios narrativos, versões deste dispositivo podem ser encontradas: no romance, está claro; no bailado, porventura; na composição musical programática e/ou progressista, eventualmente. No caso cinematográfico, a agilidade dos recursos do meio — os movimentos de câmara, a montagem, a excitação dos stuns e dos efeitos especiais — permitem uma particular adequação da forma à excitação primordial da perseguição — excitação essa que tem seguramente raízes em impulsos ferais presentes em todos nós.

O tropo tem uma história que curiosamente começa na comédia, no potencial humorístico e infantilmente excitante da corrida em busca de algo ou em fuga de algo — lembremos que a apanhada é dos mais famosos e universais jogos de crianças — e que mais tarde se adequa à forma diferente de várias espécies de perseguições de natureza psicológica, constituindo aquilo a que se veio a designar genericamente como thriller, definição muito ampla — versões em que Hitchcock ou alguns outros mestres da espionagem se especializaram particularmente — finalmente culminando no uso explícito do tropo nas perseguições automóveis e de outro tipos, como em Bullit; em narrativas cujo nexo principal da trama é uma perseguição longa, como na original série televisiva O Fugitivo, e, finalmente, na obra-prima Apocalypto, que elegemos aqui como exemplo máximo do chase movie.

Comecemos pela comédia muda, que é onde podemos encontrar os primeiros exemplos de perseguições em cinema. Quer seja entre polícias e ladrões, entre amantes e sedutores — situações aliás semelhantes a mais do que um nível — ou até mesmo envolvendo animais e humanos, maioritariamente em desenhos animados, estas perseguições em geral não retratam situações de vida ou morte. São dispositivos usados metódica e regradamente para constituição de um momento agitado da narrativa, muitas vezes coincidindo com o seu clímax. Os casos notáveis de Buster Keaton em Cops (1922) e em Seven Chances (1927) são de assinalar, envolvendo o ridículo do protagonista perseguido por autênticas multidões de dezenas ou centenas de figurantes — no primeiro caso, polícias; no segundo, por noivas. Nenhuma destas películas constitui um chase movie por si só, já que o dispositivo é usado somente num trecho. Essa é uma categoria que só surgirá mais tarde. Alguns outros exemplos importantes da perseguição na comédia musão abordados no seguinte artigo.

No reino dos westerns, mais tarde, podemos encontrar uma infinidade de exemplos de perseguições pontuais, maioritariamente a cavalo. Mas é em algumas obras-primas, nomeadamente The Searchers (1957), de John Ford, que temos a representação plena do chase movie, e talvez algumas das suas primeiras instâncias. Não é possível datar ao certo quando a primeira película cuja estrutura resida inteiramente nesse tropo aparece, mas The Searchers é seguramente uma das mais marcantes da história do cinema. Talvez um sucedâneo muito mais tardio seja Master and Commander: The Far Side of the World (2003), por exemplo, ou The Revenant (2015), embora este último seja um filme sobre sobrevivência aos elementos naturais e não tanto sobre objectos ou sujeitos perseguindo outros. Finding Nemo (2003) merece referência no mesmo estilo, embora de formas muito diferentes.

É certo que o significado do tropo pode ser alargado até à ideia de qualquer pessoa ou coisa fugindo ou perseguindo qualquer outra. Isto implicaria a inclusão de Butch Cassidy and the Sundance Kid(1969) ou de Bonnie and Clyde (1967), sobre foragidos à justiça. Mas o ponto de vista do foragido é aí mais interior, mais introspectivo ou alheio à perseguição, sendo esta apenas um acessório ou um tropo secundário para as questões que realmente movtivam os enredos — no caso,a amizade ou o amor.

Até ao advento do autêntico filme de perseguição, ou sequer da primeira autêntica sequência de perseguição automóvel com valor autónomo dentro da película, temos uma série de entradas que figuram o género de forma muito aproximada. North by Northwest (1967), um dos muitos thrillers de espionagem do magno realizador Alfted Hitchcock, é um exemplo prístino do filme de perseguição, já não invencionam mas plenamente desenvolvido.

A entrada mais citada quando o assunto dos chase movies ou das sequências de perseguição específicas é convocado é indubitavelmente, de forma merecida ou não, o filme Bullitt, de 1968, que contém a primeira encarnação plena da moderna perseguição automóvel, em todo o seu esplendor e orgulho. Uma cena longa, demorada e consciente da sua importância, retrata um Pontiac Firebird conduzido pelo lendário Steve Mcqueen, nas ruas de São Francisco — aliás notáveis ao longo da história do tropo pela sua predisposição para aventuras e tropelias com o automóvel e a alta velocidade, dadas as características íngremes de muitas das suas ruas, além da possibilidade de se cruzarem com um tradicional eléctrico, também típico da cidade.

Na contemporaneidade, Run Lola Run merece também menção, tal como Duel, de Steven Spielberg, os lendários Terminator e Terminator 2: Judgment Day, de James Cameron, e o mais colorido Catch Me If You Can, também de Spielberg, não esquecendo a lendária série televisiva O Fugitivo, adaptada também para filme em 1993. São entradas relevantes nesta lista, não propriamente de importância central mas

Mas queremos destacar, por fim, a obra-prima que é Apocalypto. Mel Gibson, no seguimento de um muito marcante filme sobre a crucificação de Jesus Cristo, vira-se para as Américas pré-colombianas e a ética tribal absolutamente bárbara que lá vigorava. Um nativo, capturado pelas autoridades religiosas, consegue escapar de um sacrifício humano quase certo, e ilude os seus perseguidores, numa extenuante corrida pela selva, durante todo o filme. Trata-se de uma perseguição praticamente sem intervalos, ou seja, uma perseguição constante: o filme consegue a proeza de aguentar, durante 2/3 da sua duração, ou quase na totalidade, esse registo, e conseguiu-o com a repreensão técnica e qualidade de realização de que Gibson é dono.

Toda esta lista foi dominada por critérios objectivos mas também amplamente por memórias subjectivas. Muitos filmes terão ficado esquecidos, e isso não tem problema. Nomeadamente, filmes pertencentes a sub-culturas desconhecidas do grande público — como o cinema asiático em geral, o cinema sul-americano, quiçá até de outras partes. É curioso: várias culturas, pontualmente, são retratadas neste género, mas a maior parte dos filmes provêm da grande indústria americana. Teremos de nos contentar com essa.

A Arma de Fogo como Democratizadora das Relações Conflituosas entre Civis

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God created men, but Samuel Colt made them equal.

Ditado popular norte-americano

Esta é uma perspetiva um pouco difícil de abordar em Portugal, e, provavelmente, na maior parte da Europa, ao contrário dos Estados Unidos, pois somos, em geral, muito púdicos com o tópico. Diz respeito ao mundo dos confrontos físicos, confrontos esses que não têm que ser de facto activos mas podem também estar apenas latentes, já que a maior parte das situações de antagonismo desse tipo não chega a vias de facto, ficando-se apenas pela medição de força. Neste mundo dos confrontos, a diferença de força entre os seus participantes, no caso da ausência de armas de fogo (e também, verdade seja dita, na ausência de armas brancas ou de outro tipo), é uma diferença inteiramente dominada pela capacidade física de cada um dos intervenientes. A medida dessa capacidade física é, em grande parte, fruto de disposições genéticas inatas e também, mais secundariamente, do trabalho físico que uma pessoa possa realizar sobre o seu próprio corpo e a respectiva aptidão para o combate daí desenvolvida. Todas estas disposições mudam com o acesso democrático às armas de fogo.

Em termos sucintos, um matulão tem sempre uma vantagem significativa sobre um pequenote. A arma de fogo igualiza o lugar de partida onde cada um se situa, nivela as pré-condições para a iminência do conflito e democratiza, de forma muito radical, tudo o que envolva essa possibilidade. Nesses cenários, qualquer gigante tem exactamente as mesmas condições de força superior de qualquer anão, e é curioso pensar como uma pessoa tremendamente apta para a peleja física, ou mesmo até de forma sádica ou psicótica aficionado da mesma, está, perante a condição de ambos se encontrarem armados, na mesma posição do homem comum, o homem não propriamente trabalhado a nível de complexão física, de aptidão para o combate, ou sequer dotado de inclinação pessoal para esse tipo de disposição.

Nesse cenário do confronto, em potência ou em actividade, em que a arma de fogo está presente, as únicas diferenças relevantes entre o valor dos adversários são da ordem da qualidade da arma e da destreza da pontaria. Por essa mesma razão, os filmes de cowboys — romantizados, em grande parte, pois, historicamente, nunca existiram propriamente grandes “duelos“ no velho oeste americano, nem esse quotidiano era caracterizado por um recurso generalizado da pistola e dos tiros — retratavam o pistoleiro que sacava a arma mais depressa e mais habilmente como o vencedor do duelo. Mas esta diferença de habilidade é uma diferença muito subtil, assim de como a da qualidade da arma — sendo que a diferença entre força física, armas brancas e armas de fogo são muito mais significativas do que aquelas entre duas pessoas que estejam munidas de armas de fogo e situadas assim no mesmo patamar. Pode dizer-se que o primeiro caso, o da diferença entre força física muscular, o uso de armas brancas, ou o uso de armas de fogo, constitui uma diferença de espécie, e que o segundo caso, o da qualidade da arma e a destreza do seu manejamento, representa antes uma diferença de grau. Os adversários encontram-se aí mais ou menos equilibrados.

O provérbio que serviu de mote a este texto é de origem incerta, mas popular no contexto norte-americano; entendido como uma variante do “credo do ferreiro”, the blacksmith’s prayer, que estipula como ‘God made some men big and some men small, but man made steel and steel made them equal’, é um postulado que faz parte de uma sociedade em que o direito constitucional ao porte de arma está garantido. É um preceito fundacional, e para a maior parte dos europeus as razões para isso ser assim são obscuras, esquisitas e até contrárias ao senso comum. A história das razões para a promulgação dessa famosa segunda emenda da constituição americana não é consensual, mas uma corrente forte e muito representativa alega que o direito à posse e ao porte de arma torna o cidadão comum igualizado perante o poder repressor mais significativo e, também, pela sua própria natureza e necessidade munido naturalmente de armas de fogo: o poder do governo central. Essa explicação colhe verosimilhança quando se percebe que a constituição americana é precisamente um documento de equilíbrio de pesos e contra-pesos nas relações entre os poderes estatais — o legislativo, o executivo e o jurídico — e a população, ou, melhor, o indivíduo, o cidadão na sua singularidade. Nesse contexto, o direito ao porte e à posse de arma de fogo faz todo o sentido. Tais princípios, como todos sabemos, não estão tão fortemente consagrados na génese das constituições europeias, nem nas filosofias políticas, nem nas vontades populares que lhes deram ou não origem e, por isso, a ideia causa em nós enorme estranheza.

As razões para a ligação da cultura norte-americana às armas estendem-se também às ideias de auto-subsistência, de vida rural e de independência das populações locais na provisão de segurança para as suas comunidades. James Madison, um dos pais fundadores da república, explicava um pouco destas raízes e destas razões no jornal The Federalist, de 1788:

Those who are best acquainted with the last successful resistance of this country against the British arms, will be most inclined to deny the possibility of it. Besides the advantage of being armed, which the Americans possess over the people of almost every other nation, the existence of subordinate governments, to which the people are attached, and by which the militia officers are appointed, forms a barrier against the enterprises of ambition, more insurmountable than any which a simple government of any form can admit of. Notwithstanding the military establishments in the several kingdoms of Europe, which are carried as far as the public resources will bear, the governments are afraid to trust the people with arms. And it is not certain, that with this aid alone they would not be able to shake off their yokes. But were the people to possess the additional advantages of local governments chosen by themselves, who could collect the national will and direct the national force, and of officers appointed out of the militia, by these governments, and attached both to them and to the militia, it may be affirmed with the greatest assurance, that the throne of every tyranny in Europe would be speedily overturned in spite of the legions which surround it.

Madison estabelece também o contraste deste espírito e princípios sociais e constitucionais com as outras nações do mundo, particularmente as europeias. Por isso, não parece existir reconciliação possível entre o ponto de vista europeu — particularmente quando surgem nas notícias episódios trágicos de eventos com armas de fogo que envolvem mortes em larga escala — e o ponto de vista americano, mas é importante destacar que se trata de facto de uma disposição fundacional, e que não só não se antevê que a segunda emenda da constituição possa ser revista em breve, como também é provável que essa não seja indissociável dos outros princípios que regem a altamente liberal lei fundamental dos Estados Unidos.

Para conclusão destes breves apontamentos sobre o objecto da arma de fogo, e pretendendo, em parte, fomentar a familiaridade do leitor com o mesmo, destacamos um outro aspecto: a beleza estética dos revólveres e das pistolas, pequenos dispositivos de fabrico industrial que podem ser livremente apreciados enquanto construções engenhosas, sem qualificações morais, sociais ou funcionais de maior. Para esse efeito deixamos aqui uma simpática galeria de algumas das armas de fogo mais bonitas ou mais historicamente significativas.

Edição: Janeiro 2024

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A Passarola: Ficção e Realidade

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Peace to Mutants #8 — Sandy Hurvitz, Lightning Bolt, Rockwell

Another foray into the alternative musical obscure, featuring a flower power vocalist, noise rock and classic soul.

Séries Visuais sobre Cinema

Primeira entrada de uma nova rubrica mensal dedicada a séries visuais temáticas com frames de cinema, da autora de Mafalda Simão Leal, sobre Espelhos, Bloody Nose, Actors and their Portraits, e a segunda, sobre Veneza, Cigarros e Guerra.

Relógios de Xadrez

Aqui para nós, não se joga xadrez sem relógio, e já que usamos um relógio de xadrez, que seja, ao menos, um Heuer Chess Master. Fique a conhecer melhor este desporto, a evolução dos seus child vocalist, noise rock and Motown soul, relógios e até algumas sugestões de filmes.

Coisas com graça: Macacos, Bananas, Gays e Escatologia

Por último, a partir de uma questão clássica da comédia, e também seinfeldiana, sobre se o humor é socialmente determinado ou se existem coisas que têm graça por si só, a partir de quatro exemplos.

Os Filmes Mais Longos

Sugestões de cinema: alguns dos filmes mais longos de sempre, quer de formato narrativo, quer de formato experimental, mas sempre fora dos limites.

Palavras Mal Usadas #3— “Gaslighting”, “Mansplaining” e afins

E ainda, um novo capítulo da rubrica que por vezes evocamos como lembrete de correcção geral em relação a alguns vocábulos de uso comum equivocado.

Sempre em aberto está o convite para submeterem propostas e artigos — ensaios, crónicas e críticas — numa fase já concluída ou enquanto versões incompletas, esboços ou ideias, sobre temas das vossas áreas de estudo e investigação ou sobre o que preferirem. Aproveitem conteúdos desperdiçados — trabalhos para cadeiras e seminários, apontamentos, estudos parciais, trabalhos de campo, relatórios, registos de conversas e debates, etc. — para os dar a conhecer ao mundo. Ajudamos a convertê-los em formato legíveis pelo público em geral. Contactem-nos em geral@revistaminerva.pt.

Revista Minerva Universitária

Imagem: Judy Garland, actriz de Hollywood cuja vida, repleta de casamentos, divórcios, vícios e dívidas, não a permitiu ser patrona das artes em grande escala, excepto no auxílio, companheirismo e exposição que ajudou a dar a uma muito específica “forma de arte”: a homossexualidade.

A Passarola de Bartolomeu Gusmão: Ficção e Realidade 

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Apesar do domínio do ar e o uso do espaço aéreo ser uma realidade relativamente recente, o sonho e a ambição de voar certamente não o são. Notamos desde a Pré-História uma universalidade do fascínio pelo ar e a ambição de teimosamente negar a banalidade de deslocações apenas com os pés assentes na terra. É uma ambição antiga, que se alarga a todas as culturas humanas, em todos os espaços e tempos. Este fascínio manifestou-se nos inúmeros mitos e lendas que descrevem humanos voadores e seres extraordinários com a capacidade de voar, tais como o mito de Ícarus, o do imperador Shun, o primeiro paraquedista, e o do lendário guerreiro voador Kibaga (1). Para além destes mitos, a ambição de voar manifestou-se igualmente nas tentativas práticas de a realizar, tendo vários indivíduos e instituições levado a cabo investigação e experimentação neste sentido.

Também nós, portugueses, humanos ambiciosos e sonhadores como o resto do mundo, partilhámos este antigo sonho de realizar o que a anatomia proíbe. Assim, na senda de tornar o voo humano uma realidade, identificamos, se bem que poucos, pelo menos importantes contributos portugueses: a viagem transatlântica de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, o primeiro uso de navegação astronómica no contexto da aviação (2) e as experiências aerostáticas do padre Bartolomeu de Gusmão. Neste breve texto, debruço-me sobre este último. 

Muitos conhecem a Passarola do padre Gusmão por intermédio da obra de José Saramago, Memorial do Convento, atualmente leitura obrigatória no 12º ano de escolaridade. Uma das narrativas desta obra foca-se, precisamente, na figura de Bartolomeu de Gusmão e na construção da sua máquina voadora, a Passarola. A obra de Saramago ajudou, sem dúvida, a difundir a ideia da Passarola, solidificando-a no imaginário cultural português. Contudo, e não obstante a qualidade nobel da narrativa, o facto desta ser a única exposição que muitas pessoas acabam por ter a este tema, faz com que a verdadeira Passarola fique ofuscada pela mistura de facto e ficção, que logicamente caracteriza a obra em questão. Outra razão disto é que o foco principal da comunidade académica está na análise literária e simbólica da Passarola na obra de Saramago, sendo pouca atenção dada à realidade histórica em que Saramago se baseou para a realização da sua obra, resultando assim a proliferação de certos mitos, imprecisões e anacronismos relativos ao aeróstato português. 

Assim, gostaria de dar a conhecer melhor o contexto histórico da Passarola, a figura que a conceptualizou, as experiências realizadas para a sua concretização e os impactos que este processo teve.    

A atividade do jesuíta Bartolomeu de Gusmão, que decorre nas duas primeiras décadas do século XVIII, faz parte de uma fase interessante da história da ciência. Estamos a poucas décadas do começo da Revolução Industrial, o método científico ainda não se fez conhecer por esse nome, mas várias das suas práticas já se encontram em vigor e pouco a pouco, o domínio das ciências alastra-se cada vez mais para além do clero. É, pois, um período de transição em várias dimensões, não somente tecnológica e epistemológica, mas também política e socioeconómica. Neste século XVIII, o progresso da conquista do ar encontra-se, igualmente, num momento de transição de um paradigma para outro. 

O fabrico e uso de objetos aerodinâmicos de pequena dimensão era já uma proeza alcançada: projéteis, papagaios de papel e foguetes rudimentares são prova disso. Faltava, somente, pôr o ser humano a voar, feito este que há milénios se mantinha elusivo. Contavam-se, até ao século XVIII, dois meios sucessos, os voos de Abbas ibn Firnas, inventor andaluz do século IX, e de Frei Eilmer, monge inglês do século XI, ambos envolvendo asas artificiais e alturas mortais. Tendo melhor sorte que outros entusiastas do tema, tanto os seus contemporâneos como antecessores e sucessores, estes dois homens conseguiram planar o suficiente para sobreviver à queda, mas não escaparam a ferimentos graves. Não foi esta a sorte do primeiro português voador, um certo João de Almeida Torto, viseense de muitos ofícios e talentos, que em julho de 1540 tentou planar da torre da Sé de Viseu até ao campo de S. Mateus, com consequências mortais (3). O grande obstáculo tecnológico era a insuficiência da força biomuscular para gerar elevação, algo que levará o matemático Giovanni Aphonso Borelli a concluir, nos finais do século XVII, ser impossível o voo humano, já que o peso inato de um indivíduo não permitia gerar força suficiente para se conseguir a ascensão no ar. Esta revelação resultou na bifurcação do desenvolvimento dos transportes aéreos nos modelos aerodinâmico (o avião) e aerostático (o balão), sendo este último o modelo dominante após a publicação dos estudos deste matemático italiano (4). 

O desenvolvimento das ideias aerostáticas deveu-se muito à sua relativa simplicidade e às inovações a que assistimos na Época Moderna na área da química. O próprio Leonardo da Vinci, apesar de não ter imaginado o balão, estudou as propriedades ascendentes do ar aquecido (5). Foi, no entanto, o jesuíta Francesco Lana de Terzi, professor de matemática da Universidade de Ferrara, o primeiro europeu a teorizar e a visualizar o balão, no ano de 1670. Mais precisamente, a sua ideia consistia num navio que levitava por meio de esferas ocas de cobre, que presumidamente ficariam suspensas graças à Lei de Arquimedes (Impulsão) (6), algo a que ele chamou nave volante. É a este o estado de arte que Bartolomeu Lourenço de Gusmão pretende contribuir, ambicionando pôr em prática o conceito de uma nave voadora. 

Mas, ao contrário dos seus antecessores, contemporâneos e mesmo sucessores, o padre secular Bartolomeu de Gusmão teve a vantagem de poder beneficiar do apoio de um monarca europeu. Bartolomeu Lourenço de Gusmão era natural do Brasil e o quarto filho de uma família de 12 irmãos. Nestas circunstâncias poucos haviam que chegassem à corte portuguesa, no entanto Gusmão conseguiu-o. Para além de sorte óbvia, o seu talento técnico e científico atraiu atenções, entre as quais a de D. Rodrigues Anes de Sá Almeida e Menezes, 3º Marquês de Fontes, e importante membro da corte régia. A partir destes elos clientelistas, aspecto normativo da estrutura sociopolítica do século XVIII, o padre Bartolomeu viu-se, em 1708, como capelão do rei D. João V, o Magnânimo. 

Contudo, esta mesma ligação à corte régia trouxe-lhe certas atenções, expectativas e responsabilidades. Tais ligações fizeram com que a proposta de construção de uma máquina voadora, feita a D. João V pelo padre inventor, se noticie nas cortes de toda a Europa, impulsionando Bartolomeu de Gusmão a ídolo internacional e sendo apelidado de “Voador” (7). Recordemos que decorriam os inícios do século XVIII, o auge do absolutismo régio e em plena Guerra de Sucessão Espanhola. Existiam, por isso, tensões militares e diplomáticas palpáveis, onde os monarcas tudo faziam para criar e manter a sua imagem e uma reputação de soberano sábio e poderoso. Como consequência, ao associar-se à corte, o fracasso ou sucesso da invenção de Bartolomeu de Gusmão teria resultados negativos ou positivos na reputação e imagem de D. João V.  A drawing of a bird with a bird and a person standing on it

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Esta ilustração, usada amiúde nos jornais que falavam do invento, é na verdade uma obra genial de ludíbrio e propaganda, já que a Passarola nunca existiu de facto. De acordo com Rodrigo Moura Visoni, um estudioso na matéria, a imagem seria de autoria de D. Joaquim Francisco de Sá Almeida e Meneses, filho do 3º Marquês de Fontes e aluno particular do padre Bartolomeu, o qual tinha acesso à oficina onde as experiências do seu mestre eram realizadas. Por esse motivo, e passo a citar, “o rapaz (…) assediado por curiosos, que constantemente lhe faziam indagações acerca da invenção, resolveu ele, para parar de ser importunado, elaborar o exótico desenho da Passarola, em que tudo era propositadamente falseado”(8). O desenho era inspirado nas ideias de Francesco Lana de Terzi, daí a existência das duas esferas de cobre. No entanto, estas não levitariam devido à Lei de Arquimedes mas sim ao magnetismo, fenómeno pouco conhecido na época e por isso mesmo com a particularidade de tudo explicar. O plano, que foi bem sucedido, consistiu em divulgar esta ilustração disfarçada de fuga de informação, fazendo-a passar como protótipo verossímil, de modo a ludibriar possíveis imitadores. 

Também, numa época e espaço de constante competitividade entre potências como era a Europa do séc. XVIII, a procura de vantagens entre as diversas potências era uma constante. Vemos bem esta atitude, por exemplo, no modo como o jornal londrino Daily Universal Register (que mais tarde passaria a chamar-se The Times), divulgou a Passarola, especulando sobre os seus usos: “carry Orders to Generals in remote Countries, as also Letters, Recruits, Provisions, Ammunitions and Money; supply besieg’d Places with all Necessities, and transport Merchandise through the Air.” (9). Vemos bem o ênfase nas aplicações militares, uma das preocupações primárias das elites da época. O projeto em si não era de natureza militar, mas o seu potencial bélico não podia ser ignorado. Vista neste contexto, a fuga de informação foi, efetivamente, uma ação de propaganda, provavelmente não intencional, que teve o efeito de projetar uma imagem de Portugal no limiar de um grande avanço tecnológico e do poder que assim viria a adquirir. Esta interpretação surge-nos nos aspectos mais óbvios, como na bandeira bem visível ou na forma da máquina inspirada na fauna ornitológica brasileira, alusão à extensão do Império Português. Vemo-la também nas esferas de cobre, em forma de esferas armilares, que fazem ascender a máquina graças à misteriosa força do magnetismo. O simbolismo é evidente: a utilização do magnetismo para fazer voar a Passarola pressupõe o seu conhecimento profundo por parte dos portugueses, que o aplicam sem hesitações. As esferas armilares mostram bem como todos os caminhos do mundo eram “nossos”, bem portugueses e controlados pelo saber português.  

Como era então a verdadeira Passarola? Na realidade, não era de todo uma Passarola, ou seja, um veículo voador. Eram, sim, balões de ar quente de pequenas dimensões, novidades genuínas para a Europa do século XVIII. Realizaram-se ao todo seis experiências ao longo da segunda metade do ano de 1709, todas na presença de D. João V, da sua corte, e de vários diplomatas, alguns deles que viajaram expressamente para assistir a estes eventos. As primeiras três tentativas fracassaram, já que o papel de que eram constituídos os balões pegou fogo das três vezes, se bem que em alturas diferentes da experiência: na primeira, logo de início antes de descolar; na segunda, durante o voo e ao dirigir-se para os cortinados, o balão foi derrubado por dois servos com paus; e na terceira, ao pousar. Na quarta experiência, realizada provavelmente no Terreiro do Paço, o balão funcionou perfeitamente, não se tendo queimado durante todo o processo de descolagem, voo e aterragem. O voo seguinte foi realizado no interior, mais precisamente na Sala das Audiências do Palácio de Belém, sem o receio de pegar fogo às cortinas, como se temia nas primeiras tentativas. Passados alguns meses, fez-se uma nova experiência, desta vez com um modelo maior, que também foi um sucesso. Esta foi a última experiência que temos a certeza de ter acontecido. Desconhecemos as dimensões exatas, mas podemos afirmar com toda a certeza que o aeróstato não suportaria o peso de uma pessoa. 

A diferença exacerbada entre as expetativas e a realidade garantiram que não se desenvolvesse muito interesse para lá da excitação inicial, por parte quer das elites portuguesas quer das elites estrangeiras. As experiências de Bartolomeu de Gusmão provaram que o aeróstato, mesmo se fosse construído com dimensões adequadas para o transporte de pessoas e mercadorias, seria um veículo potencialmente perigoso e difícil de controlar. Também o facto de ter fracassado três vezes seguidas em frente da corte e de vários diplomatas, fez com que o projeto fosse abandonado, deixando de ter patrocínio régio. Por outras palavras, podemos dizer que foi uma “moda” de curta duração, um pouco como acontece hoje em dia. O padre foi acusado de ser um aldrabão e de tirar proveito da generosidade e da hospitalidade do rei. Bartolomeu acabou por deixar a corte, conseguindo, no entanto, manter elos importantes com diversos membros desta. Na década de 1710 viajou pela Europa e dedicou-se a diversos outros projetos e inventos. Ideias não lhe faltavam: carvão artificial, bombas para retirar água de navios em risco de naufragar, lentes refratoras para cozinhar… O aeróstato ocupou-lhe apenas um ano da sua vida e era uma ideia de entre as muitas a que se dedicou. Em 1720, é chamado de novo à corte portuguesa por D. João V para servir como criptógrafo, cargo de grande importância e confiança, o que mostra bem que, apesar do episódio do aeróstato, o padre Gusmão continuava a gozar de boa reputação junto da corte e do monarca. 

Embora o projeto do padre brasileiro tenha ficado muito aquém do esperado, tanto os balões como a ideia da Passarola foram um sucesso a longo prazo. Mesmo com os seus fracassos, o padre Bartolomeu estava correto em apostar no princípio do balão de ar quente. 74 anos mais tarde, os irmãos franceses Joseph e Jacques Montgolfier completaram a experiência do aeróstato de Bartolomeu de Gusmão, tornando-se os primeiros homens a realmente ascender do solo. Se os Montgolfier foram os cultivadores da arte da Aerostação, Bartolomeu de Gusmão foi quem descobriu e plantou as sementes. A Passarola como ideia acabou por ter mais sucesso do que as próprias experiências com os balões, já que permaneceu na memória cultural e coletiva do mundo português, aí se mantendo até aos nossos dias, como testemunha bem, por exemplo, a obra literária de Saramago.

  1. Richard Hallion, Taking Flight : Inventing the Aerial Age from Antiquity through the First World War (New York : Oxford University Press, 2003), 5, http://archive.org/details/takingflightinve0000hall

  2. Luís M. Alves de Fraga. Súmula Histórica das Aviações Militares e da Força Aérea de Portugal. 17-18. 
  3. José Duarte André. Precursores da Aviação em Portugal – Parte I
  4. Richard Hallion, Taking Flight : Inventing the Aerial Age from Antiquity through the First World War (New York : Oxford University Press, 2003), 34, http://archive.org/details/takingflightinve0000hall 
  5. Rodrigo Moura Visoni, João Batista Garcia. Bartolomeu Lourenço de Gusmão: o primeiro cientista brasileiro. Revista Brasileira de Ensino de Física, vol 31. 2009.
  6. Rodrigo Moura Visoni, João Batista Garcia. Bartolomeu Lourenço de Gusmão: o primeiro cientista brasileiro. 2009.
  7. Rodrigo Moura Visoni, João Batista Garcia. 2009.
  8. Rodrigo Moura Visoni, João Batista Garcia. 2009.
  9. Richard Hallion, Taking Flight : Inventing the Aerial Age from Antiquity through the First World War (New York : Oxford University Press, 2003), 33, http://archive.org/details/takingflightinve0000hall 

Sugestões de Leitura: Novidades na Filosofia, Janeiro 2024

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Como fazemos todos os meses, trazemos mais novidades da filosofia no mundo editorial, sempre com a ajuda da Notre Dame Philosophical Reviews. Primeiro, de Justin D’Arms and Daniel Jacobson, Rational Sentimentalism, um volume que que explora categorias filosóficas esdrúxulas como as do nojo, do engraçado e do aterrorizador, colocando-as a par da categoria da moral. Depois, de Markus Gabriel, Moral Progress in Dark Times: Universal Values for the Twenty-First Century, um argumento renovado a favor de valores morais objectivos. Ainda, Anne Phillips, Unconditional Equals, um outro argumento renovado a favor da igualdade cívica universal. Por último, Fabrizio Cariani, The Modal Future: A Theory of Future-Directed Thought and Talk, que propõe como as formas verbais que apontam o futuro podem ser melhor entendas como auxiliares modais condicionais. 

Partilhas domingueiras incluem também estas novidades editoriais da filosofia, embora talvez para ler em ocasiões menos relaxadas. Continuamos com um volume de Owen Griffiths and A.C. Paseau, One True Logic: A Monist Manifesto, um modelo monista que propõe a fusão de todos os vários tipos de lógica num único. Depois, de Michael E. Bratman, Shared and Institutional Agency–Toward a Planning Theory of Human Practical Organization, uma teoria filosófica da acção colectiva. Ainda, Michael Bergmann, Radical Skepticism and Epistemic Intuition, sobre como argumentos filosóficos podem ser usados para provar como verdade coisas que intuitivamente sabemos que não o são, e como isso é ridículo. Por fim, Onora O’Neill, A Philosopher Looks at Digital Communication, uma abordagem à comunicação digital e como ela envolve aspectos específicos distintos de outras comunicações. Bom domingo a todos!

Séries Visuais sobre Cinema: Veneza, Cigarros e Guerra

Venice’s Dark Side

Great filmmakers smoking a cigarette

Films passed in war times directed by women filmmakers

Part 2: The Ascent (1977) Larisa Shepitko Chronicle of Flaming Years ( 1961) Yuliya Solntseva- won the award for Best Director at the 1961 Cannes Film Festival. First Comes Courage (1943) Dorothy Arzner Europa Europa (1990) Agnieszka Holland Germany, Pale Mother (1980) Helma Sanders-Brahms The Hurt Locker (2009)Kathryn Bigelow Lore (2012) Cate Shortland The Zookeeper’s Wife (2017) Niki Caro; Part 3: agnèsvarda#chantalakerman#mayaderen#linawertmüller#luchinovisconti#jimjarmusch#tarantino#davidlynch#kryzstofkieslowski

Peace to Mutants #8 — Sandy Hurvitz, Lightning Bolt, Rockwell

Sandy Hurvitz was born in 1948 in Philadelphia (USA) and to define her musical career as prolific is an understatement. Self-described as a “flower child”, Sandy Hurvitz changed her name to Essra Mohawk during the 70’s. Her first work was released in 1964 under the name Jamie Carter, the song was called “The Boy with the Way” which showcases Essra’s vocal range and unique style. Essra also wrote songs that were recorded by The Shangri-Las and Vanilla Fudge. Essra grew up listening to a vast array of musicians and bands like Nina Simone, The Coasters, Little Anthony & The Imperials, which inspired her eclectic and charismatic music.

Essra was also the first female member of The Mothers of Invention and was best known by the “Uncle Meat” moniker. She was only 19. In 1969, she recorded her first solo album, “Sandy’s Album Is Here at Last!” through Zappa’s Bizarre record label. The album was unproduced but is filled with 70’s psychedelic charm since it was released during the apotheosis of the psychedelic era.

A year later, her second album “Primordial Lovers” was released by Reprise Records, her unusual vocal style is at its prime and the album was later (in 1977) considered by Rolling Stone as one of the “Top 25 albums of all time”. The record is quite charming and captivating. Essra continued making music and writing songs, some of which were recorded by artists such as Cindy Lauper and Tina Turner.

Esrra passed away last year, December 11 2023 but her music and talent shall remain.

 Magical and electrifying release by the duo Lightning Bolt. Originally a trio in the 90’s, Lightning Bolt became a duo made up of Brian Chippendale on drums and vocals and Brian Gibson on bass. They have been throughout the years, an institution of noise rock fused with some elements of free jazz, punk, speed metal and who the hell knows what more that creates an authentic and unique kind of sound. Fantasy Empire slashes through all the way with simmering and frantic energy that is both enchanting as it is relentless. Sublime savage drumming meshed with vocal loops and manic riffing make up for the epic songs that lay within the 2xLP. Incredible. 

Rockwell is the alias of Kennedy William Gordy the son of Motown records founder Berry Gordy. The artist changed his name and signed on to Motown records without his father’s knowledge, all of it to avoid claims of nepotism. Even though, his persistence, his two studio albums, “Captured” (1985) and “Genie” (1986) were not hits and slipped under the radar. This single contains the most approximate thing to a hit single that Rockwell had, called “He’s a cobra”. Side A features the song “He’s a cobra” with some harmonizations and melodies reminiscient of Michael Jackson who actually collaborated in Rockwell’s first single “Somebody’s watching me”. “He’s a cobra” has the typical 80’s electronic funk vibe to it and Rockwell’s vocals are harmonious enough. Side B features an instrumental version of the same song and “Change your ways” a more mellow kind of tune. All in all a pleasant single from an artist who disappeared into obscurity. 

As desvantagens de Estar na Moda ser Homossexual

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Entre “marginais” e “animais de estimação”, queremos hoje desempoeiradamente escrever sobre as desvantagens que pode representar o estatuto presente de estar na moda ser-se homossexual ou qualquer outra identidade ou prática sexual minoritária, alternativa, não conforme a maioria demográfica ou os ditames da cultura dominante.

Por oposição às vantagens, muitas vezes mais evidentes, começamos por elencar uma das principais desvantagens, da qual possivelmente muitas existem de forma paralela ou derivada: estar na moda implica maior conformidade a um estereótipo de comportamento, social, político, ideológico, filosófico, etc. — ser-se homossexual de certa maneira mas não de outra — e assim resultando em existir menos liberdade e fluidez de forma concreta do ser, inviabilizando em particular as formas de expressões que o vulgo entenda como paradoxais — ser homossexual mas não gostar de homossexuais, ser homossexual mas também conservador, nacionalista e/ou católico. A ortodoxia e a identidade monolítica não corresponde à verdade das disposições individuais, pois as pessoas gays são tão diferentes entre si como qualquer outro grupo social, étnico, religioso etc. Existem pessoas de olhos azuis de todos os tipos, tal como existem pessoas gays de todos os tipos. Como Tolstoi bem apontou, não existe “a opinião católica”, “a opinião conservadora”, “a opinião comunista”, anarquista, libertária, o que for: existe uma miríade de opiniões católicas, comunistas, conservadoras, e também gays. É muito duvidoso que a existência de várias pessoas com um atributo em comum, o da atracção sexual, constitua uma unidade cultural sólida ou sequer uma comunidade coesa.

Esta padronização é intensificada com a atenção especial que “estar na moda“ convoca, ao contrário da desatenção e desinteresse que o estatuto de marginal exótico e desconhecido proporciona.De certo modo, estar na moda tolhe de certo modo a liberdade e a originalidade do ser-se marginal: estar na moda fixa a ortodoxia, e a clandestinidade pode ser mais libertadora: a sociedade não fazia regras tão tácitas e explícitas sobre o que um homossexual tem de ser ou pensar — as pessoas que não nos querem ver nem pintados dão-nos mais liberdade do que as pessoas que nos adoptam como se fossemos animaizinhos de estimação. Uma prisão pode ser maior que a outra e vice-versa, conquanto interfiram na liberdade do indivíduo, sendo que no primeiro caso poderia envolver o perigo da subtracção total da mesma e no segundo formas mais complexas de modelação dessas expressões conforme a norma socialmente admissível. Não deixa de ser verdade que uma sociedade em que a homossexualidade esteja até mesmo legislativamente interdita é uma sociedade completamente desvantajosa; mas, na contemporaneidade, a fixação com “identidades”, aliás já sujeitas a protecções até mesmo constitucionais, pode ser uma forma muito retorcida de forçar padrões.

Em conclusão, nem todos os gays são iguais, não existem opiniões políticas, hábitos culturais, crenças religiosas ou filosóficas comuns a todas as pessoas homossexuais.  Por último, deixamos aqui a recomendação de uma obra bibliográfica de fotografia, Loving: A Photographic History of Men in Love, 1850s-1950s, de… capa dura!, um extraordinário volume de pessoas comuns do sexo masculino com representação apaixonada, e o documentário, em tudo muito semelhante, 100 Years of Men in Love: The Accidental Collection, disponível na Amazon e noutras plataformas, com o material de dois coleccionadores exactamente sobre o mesmo tópico. Saudações a todos e bom resto de semana!

Contra o Expresso

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Um evento recente na Universidade Católica, ocorrido a 17 de Janeiro deste ano de 2024, organizado pela Associação Académica do Núcleo de Estudos Políticos, um colóquio exclusivo para estudantes e que requeria inscrição prévia, iniciou-se com a muito noticiada expulsão de um jornalista do Expresso, cujas descrições na comunicação social foram extraordinariamente sensacionalistas, e, mais gravemente, desmentidas pela totalidade dos presentes — vamos repetir, pela totalidade, porque não há uma única pessoa das duzentas presentes no auditório que tenha corroborado aquele relato veiculado pelo jornalista e afiançado pelo jornal. Podem verificar no seguinte link uma série de testemunhos presenciais, na qual não se encontra uma única voz que desminta a unanimidade entre os estudantes sobre o sucedido.

A reacção inicial do orgão de comunicação, assim como um comunicado posterior, contém várias falsidades. Vamos então tentar aqui ensinar ao jornal Expresso como é que se faz uma reportagem sobre o referido evento a partir de todos os dados disponíveis. Ora aqui vai:

Existe um ciclo de encontros com líderes partidários organizado pela Associação Académica do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. Todos os eventos são interditos aos mídia, para que os convidados e os estudantes se sintam mais à vontade uns com os outros, e tal é atestado não só pela divulgação nas convocatórias, como também pelo facto de o direito de admissão ao evento ser limitado a pré-inscrições. A associação de estudantes não noticia os eventos directamente para as redações mas apenas entre os alunos. O partido do convidado em questão enviou, esse sim, um comunicado para a imprensa indicando que seriam prestadas declarações à entrada apenas, e que, lá dentro, “não seria permitido câmaras“. A comunicação é assim imperfeita, dado que não refere que a presença de jornalistas é totalmente interdita, o que era o caso. De seguida, o repórter desse orgão de comunicação — com toda a probabilidade, Tiago Soares, que elaborou uma posterior reportagem sobre o público do evento — um de vários jornalistas que se encontravam à entrada, chegou à entrada do auditório e, para se introduzir lá dentro, terá dito que “tinha sido convidado“, interpretando erradamente o comunicado dessa forma, iludindo as estudantes que controlavam a admissão. Introduz-se assim ilicitamente na reunião, dado que a mesma requeria inscrição prévia, e uma vez lá começa a fazer o seu trabalho de reportagem; tendo sido isso notado pelos presentes, nomeadamente organizadores e assessores, é chamado à atenção e convidado a sair, por cinco vezes, ao que consecutivamente se recusa, sem qualquer direito de o fazer. Segundo testemunhos, levantou a voz, armou escândalo, fez cenas, e acabou por ser escoltado para fora do auditório aos gritos, tendo o seu material ficado lá dentro aguardando resolução. Não se percebe se existiu de facto alguma “agressão “, se essa mesmo se resume a ter sido forçado a sair, e a alguns empurrões aliás de parte a parte, e se, a existir ofensa física real, porque é que as autoridades policiais não foram imediatamente chamadas pelo ofendido.

É bom começarmos por dizer também que não existe direito à “liberdade de imprensa” aplicável a eventos fechados com lotação limitada e controlada, pois isso interferiria, como é óbvio, com os direitos das outras pessoas a não serem incomodadas pela imprensa dentro de espaços privados. O profissional do Expresso foi aparentemente o único que não terá percebido a interdição, pois ao que tudo indica mais nenhum jornalista estava presente no evento que, como já referimos, requeria inscrição prévia e era limitado aos estudantes. Na peça inicial quer retrata o relato do jornalista e a reacção do jornal, existe uma menção quase inócua à intervenção do segurança e assessor do partido, que se terá dirigido no final ao jornalista, depois da cena de histeria, e perguntado se precisava de mais alguma coisa. Esta é, ao que tudo indica, uma menção completamente escusada e irrelevante, pois é uma reação muito tépida perante a aparente trapalhada que será passado, a ser verdade esta descrição. Por fim, todas as partes envolvidas reagiram, em comunicados, conforme o seu papel: a universidade, a associação e o partido lamentam o ocorrido, mas ninguém afirma que a pessoa foi retirada ilegitimamente; e o Expresso faz o sensacionalismo e a defesa corporativa que se lhe espera.

Num ramo profissional sério, com profissionais e directores sérios, o editor dessa publicação, a ser verdade a descrição, aplicaria uma descasca ao referido jornalista pelo seu comportamento ridículo, por armar cenas sem qualquer direito, e por ter interpretado mal um comunicado. Uma história que se resume a ter sido recebida uma convocatória imperfeita para gravação de declarações à entrada, a um jornalista que entrou no evento alegando que tinha sido convidado, sem estar inscrito e, após ter sido chamado a atenção, e encontrando-se num espaço privado, ao invés de acatar a ordem de saída resolve armar um escândalo apeixeirado, é uma história de mal entendidos que não mereceria o sensacionalismo ridículo com que a destacaram. No presente estado de decaimento do jornalismo, reconhecido pela maior parte das pessoas transversalmente a todas as áreas políticas, temos a reacção que tivemos: uma defesa corporativa, sensacionalista e imune à crítica, sem o mínimo de trabalho, de lógica, de seriedade. Em resumo: tudo isto parece ser uma história de crianças, de birras, de mal-entendidos, de sensacionalismo, de “síndrome de transtorno de extrema-direita”, de algumas mentiras e de defesa corporativa acéfala própria da profissão. Foi noticiada, sumariamente, como uma grave ingerência no direito à liberdade de informação, debatida pelo comentariado tudologista nacional, e, claro está, desde logo esquecida dois dias depois, pois a substância da matéria não tinha qualquer credibilidade.

De resto, esclarecendo também algumas dúvidas ignorantes do público mais politizado e mais polarizado, sempre de dentes afiados contra “fascistas”, “neo-liberais”, “comunistas”, “alta finança judaica”, “bilderberg” ou “gambozinos”, adiantamos também os seguintes pontos.

Primeiro, as universidades não são a rua. São de acesso livre ao público em geral porque assim o entendem, mas nada impede, pelo que sabemos, que qualquer universidade coloque trancas na porta e reserve o direito de admissão aos seus próprios estudantes e funcionários. Segundo, a sala em questão onde se passaram os eventos não é “o espaço universitário“ em sentido lato: é uma sala cujo usufruto estava alocado a alunos, mesmo que essa transmissão seja feita de forma informal pela direcção da mesma: e os direitos e deveres da propriedade são transmitidos como a quem seja cedido um espaço para conferências, festas ou encontro, incluindo, como é óbvio, o direito de admissão, mas excluindo, como é típico do regime formal ou informal de usufruto, o direito de alienação e o de destruição.

Terceiro, efetivamente, quando, por vezes, existem altercações com empurrões e coisas do tipo, é preciso ter muito cuidado com o abuso do conceito de “agressão“. Mas não é necessário cartão profissional de segurança para remover pessoas de um espaço de usufruto privado: se alguém entrar em casa de alguém ilegitimamente, ninguém tem que esperar pela polícia para a remover, embora tal seja aconselhável para que a altercação não desenvolva para outros terrenos mais perigosos. Algumas pistas aqui. Aplica-se, no caso de invasão de espaço privado, o mesmo princípio que rege o direito à legítima defesa de quaquer agressão a um direito: o uso da força proporcional para garantir essa mesma defesa. Tal como alguém pode empurrar alguém que esteja invadir o seu espaço pessoal em termos de proximidade, ou agredir equitativamente alguém que o tenha agredido com o intuito de repeltir essa mesma agressão, pode expulsar alguém que esteja indevidamente na sua propriedade. Não poderá fazer mais do que o estritamente necessário para a protecção do direito sendo, no caso, admissível pegar em alguém e arrastá-lo até ao exterior, sem o macular para além disso. Volte-se no entanto a sublinhar que a chamada das autoridades seria o mais aconselhável.

Em quarto lugar, uma parte significativa desse tal público particularmente politizado e polarizado suporia que os participantes nessa conferência seriam todos apoiantes do convidado do partido em questão. Não há nada a fazer com pessoas que pensam que num evento de um núcleo de estudos políticos de uma universidade, com um líder partidário, participam apenas apoiantes desse partido. Isto é tribalismo puro. Aliás, a referência à militância ou simpatia política ou partidária dos estudantes que retiraram a pessoa ilícita, como feito num outro item noticioso de outro jornal, é absolutamente escusada e lembra tempos salazaristas. Qual a crença religiosa, a origem regional e a filiação clubística das pessoas que expulsaram, já agora, legitimamente, o jornalista em questão, de um evento privado? De que modo é isso relevante? Existe um complot entre esquerdas, direitas ou centros políticos ou, antes, as regras da cidadania aplicam-se de igual modo a todos — e, tal como uma pessoa de esquerda repeleria uma agressão injustificada a uma de direita, aqui, neste caso, simpatizantes da Iniciativa Liberal removeram uma pessoa intrudozida ilicitamente num evento privado.

Em quinto lugar, a ideia de que os políticos não podem participar em eventos privados sem que tal evento seja imediatamente caracterizado como possuindo um “interesse público” e, logo, de algum modo, através de lei geral ou dos códigos relacionados com a liberdade de imprensa e informação, não ser possível impedir a presença de jornalistas, é uma ideia parva, alucinada e distópica: implicaria que qualquer político não pudesse ter jantar privados com militantes, não poder andar na rua sem gente atrás, não poder ter uma conversa privada, etc. Em suma, significaria que não seria possível qualquer tipo de privacidade na vida política dessa pessoa e, quiçá, com um alargar dos critérios bem exagerado, nem sequer vida privada de qualquer tipo.

Em sexto lugar, e chegados aqui às conclusões, ao todo, o caso não é grave: é um caso de invasão de propriedade privada e de recusa a sair de um espaço a partir do momento em que se é reiteradamente avisado, como o que acontece com alguns bêbados em bares. Mas o que é grave é a maneira completamente enviesada, corporativa, amadora, sensacionalista, com que foi noticiado, em completa contradição com todos os testemunhos das pessoas que estiveram presentes, sendo que entre elas não se encontra um único que corrobora a versão atabalhoada e esquisita do relato do jornalista, que aliás parece que foi o único dos colegas não perceber que o evento estava vedado, pois mais nenhum lá se encontrava.

Por último, e escusado será dizer, esta não é uma defesa de ninguém. É um ataque ao Expresso e à tendência acéfala, imune às críticas, e corporativa, de defesa da classe, que pauta o jornalismo actualmente. O jornal acreditou, de forma incompetente, tribalista e acrítica, no relato que o jornalista fez da situação; aceitou-o e regeu a sua posição posterior, aliás provavelmente tomada de modo impulsivo, por esse relato, que contém inegáveis falsidades e que provém, no fundamental, de um mal-entendido que ninguém teve a civilidade de resolver a tempo. Ameaçou vagamente queixa judicial quando sabe perfeitamente que a mesma não irá ocorrer, ou, se ocorrer, não terá qualquer fundamento. Com toda a probabilidade, não emendará a posição, pois isso seria dar “parte fraca” numa guerra imaginária contra a restrição da liberdade de informação, que não se aplica a espaços privados. E esta é a posição de uma indústria fraca, de uma indústria em decadência, que recorre, cada vez mais, a truques manhosos de vendedor de feira para vender o seu peixe.

Por fim, ainda, alguém há de explicar como é que dois badamecos, durante 15 minutos, nessa tarde, numa publicação universitária amadora, conseguiram fazer um resumo da situação que nenhum dos órgãos de comunicação social foi capaz de fazer.

Os Filmes Mais Longos

Trazemos hoje sugestões de cinema, mas diurnas, e o dia é uma espécie de condição necessária para o seu visionamento, pois as mesmas versam sobre películas de duração muitíssimo longa. Aliás, trazemos aqui alguns dos filmes mais longos de sempre, quer de formato narrativo, quer de formato experimental, mas sempre fora dos limites.

Começamos com a extraordinária película The Clock, the Christian Marclay: um filme-colagem, com a duração de vinte e quatro horas, inteiramente constituído por excertos de outros filmes com cenas que envolvem relógios, sendo que a extraordinária, muito barroca e elaborada particularidade da obra é que as horas nos mostradores das cenas citadas correspondem sempre ao tempo desde que o filme teve início: ou seja, são 24 horas exactamente acompanhadas por relógios no passo certo.

Depois, temos o famoso filme minimalista de Andy Warhol, Sleep, de 1964, puro cinéma verité, com a duração de cinco horas, que mostra simplesmente o plano fixo de um homem a dormir. Warhol realizou mais tarde outra película ainda mais longa com um plano fixo do Empire State Bulding em Nova Iorque, com a duração de oito horas.

Em 2012, uma produção sueca trouxe-nos Logistics, uma película experimental que totaliza uns impressionantes 857 minutos de duração — cerca de 35 dias — e que documenta todo o processo de produção de um dispositivo electrónico, um comum pedómetro, desde a origem de todas as suas peças até à montagem do produto final.

Algumas menções honrosas vão para Shoah, de Claude Lanzmann, com nove horas de duração, sobre o holocausto judaico; La Flor, do argentino Mariano Llinás, um filme de ficção com vários argumentos episódios, alguns de sobrenatural e fantástico, que culminam num encontro metaficcional entre actores e realizadores; La Roue, de Abel Gance, 1923, um romance de formação sobre uma órfã e a sua entrada no mundo adulto, com várias inovações de mudança de cena e iluminação — Napoleon, do mesmo autor, com cinco horas de duração, também merece destaque, uma biografia do imperador francês; e Out 1: Noli Me Tangere, de Jacques Rivette, baseado em Honoré de Balzac em La Comédie humaine, com 13 horas de duração e um elenco cheio de estrelas. Espreitem mais aqui e boa semana a todos! https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_longest_films 

O Paradigma da Domesticidade Feminina

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A proeminência da mulher trabalhadora no século XIX adveio não do aumento do trabalho feminino, mas da sua visibilidade, decorrente da industrialização. A preocupação com a divisão sexual do trabalho, ao enfatizar as diferenças biológicas que tornariam as mulheres menos produtivas, logo merecedoras de menor salário, concorreu para a segregação sexual do trabalho. O discurso dominante, assente no suposto determinismo biológico que vinculava as mulheres à maternidade e à domesticidade, remetendo-as para os papéis de esposa, dona de casa e mãe educadora, ancorado aos fundamentos da economia política da época, criado e replicado nos discursos de patrões, economistas e políticos, materializou-se numa acentuada divisão sexual do trabalho, segregação laboral e assimetria salarial.

Desde as sociedades primitivas que as mulheres trabalham para suprir as necessidades do quotidiano (Dieh e Senna 2016). Segundo Joan Scott (1994), antes do início da industrialização, as mulheres trabalhavam com regularidade fora de casa, conciliando trabalho, maternidade, cuidados familiares e tarefas domésticas, recorrendo a amas e cuidadoras se necessário, ao invés de desistirem do trabalho remunerado, sendo que a compatibilização entre trabalho produtivo e doméstico não era contestada.

A industrialização concorreu para a visibilidade e problematização da mulher trabalhadora, em torno dos binómios casa/fábrica, maternidade/salário e domesticidade/produtividade, sem que, todavia, originasse um aumento do trabalho feminino, já que as mulheres se encontravam em maior número nas áreas tradicionais do que na indústria.

Numa manifesta continuidade com o período pré-industrial, predominou o trabalho no domicílio, ainda que a ênfase dos historiadores contemporâneos no operariado fabril feminino encubra esta realidade, que os dados estatísticos disponíveis comprovam (Scott 1994, p. 450). A evidência de que era maioritariamente não regulamentado e mal pago, com tempos de trabalho prolongados e intensos que deixavam pouca disponibilidade para o trabalho doméstico (idem, p. 451), leva a concluir que os propagandeados benefícios do trabalho feminino a partir do lar constituem um paralogismo.

O discurso dominante, assente no pensamento de Rousseau e no iluminismo, defendia a “natural” sujeição ao masculino e a exclusão das mulheres do exercício da cidadania (Cobo, 1995). Se até então o discurso reinante era o da inferioridade feminina, herdeiro (não só, mas também) da tradição religiosa judaico-cristã, doravante seria cumulativo com o da domesticidade. Invocavam-se, a propósito do trabalho fora do lar, perigos para a moralidade, assexualidade e infertilidade das mulheres e emasculação dos respetivos maridos (Scott, 1994, p. 468), de entre um leque de argumentos misóginos, assente no suposto determinismo biológico que vinculava as mulheres à maternidade e à domesticidade, remetendo-as para os papéis de esposa, dona de casa e mãe educadora (Pinto, 2008).

Fotograma da comédia musical In the Good Old Summertime (Robert Z. Leonard, Buster Keaton, 1949), em que se pode acompanhar a história de uma mulher que trabalha numa loja de música na época de fin de siècle americano.

Os princípios da economia política oitocentista criaram, nutriram e disseminaram a ideia de que as mulheres, em virtude do determinismo biológico, eram menos produtivas, portanto merecedoras de menor salário, conforme frisa Scott (1994). Fixado como um suplemento aos ganhos globais da família, útil ao patronato, assegurava a dependência económica e reforçava a pertinência do salário familiar. Concomitantemente, o sistema sindical, profundamente patriarcal, advogava igualdade para todos os trabalhadores, mas proteção da vida familiar e doméstica. Considere-se ainda que a regulamentação laboral sexualmente específica empurrou as trabalhadoras para setores menos desenvolvidos, que praticavam salários mais baixos, aprofundando e exagerando a divisão sexual do trabalho.

Na leitura de Scott (1994) a proeminência da mulher trabalhadora no século XIX não advém do aumento do trabalho ou da mudança de local, mas da preocupação com a divisão sexual do trabalho, ajudando a moldar a atividade industrial, mais do que sendo dela subsidiária. O enfatizar das diferenças biológicas e funcionais conceptualizou o género como uma divisão sexual do trabalho «natural», que na realidade deveria ser conceptualizado na retórica capitalista.

Talqualmente, a expansão dos setores comerciais e de serviços, no final de oitocentos, socialmente aceites como adequados às mulheres, contribuiu para a feminização dos mesmos e para a implementação de estratégias laborais como a proibição do casamento e imposição de limite de idade. Terá sido esta minoria de mulheres assalariadas da classe média que fundamentaram a preocupação social de que o trabalho inviabilizasse o casamento e a constituição de família, e não a massa de mulheres pobres que trabalhavam para subsistir (Scott, 1994, p. 453).

As modalidades de trabalho em regime parcial, sob o manto ardiloso da compatibilização profissional e familiar, coadjuvaram no impedimento de construção de carreiras, ascensão na hierarquia laboral e acesso a cargos de direção, ainda que sujeitas aos mesmos deveres e funções dos congéneres masculinos (Scott, 1994, p. 464). Os setores do comércio e serviços replicavam desta forma a mesma divisão e desigualdade do setor fabril.

Estas construções discursivas, ancoradas nos fundamentos da economia política da época, criadas e replicadas nos discursos de patrões, economistas e políticos (idem, p. 456), materializaram-se numa acentuada divisão sexual do trabalho, segregação laboral e assimetria salarial.

Em finais do século XIX, o trabalho doméstico, ao ser entendido como destituído de valor mercantil, deixou de ser considerado “verdadeiro trabalho”. Destaque-se, todavia, a amplitude do trabalho feminino (Scott, 1994, p. 448) e a inserção massiva em variados setores da economia informal, que representavam percentagem considerável dos recursos financeiros familiares (Pinto, 2008, p. 157).

Os censos, ao classificarem estas trabalhadoras como “desocupadas”, levaram a que a taxa de atividade feminina caísse para metade (Scott, 1994, p. 476; Pinto, 2015, p. 229). As fontes oficiais, as estatísticas e as medidas regulamentadoras do trabalho feminino nas indústrias, implementadas no final do século XIX, consubstanciaram mecanismos eficazes na ocultação do trabalho mercantilizado (Pinto, 2015, p. 228).

As mulheres sempre trabalharam, pois “só as pessoas ricas podiam permitir-se não fazer trabalhar a mulher” (Hall 1990, p. 62, apud Pinto, 2015, p. 228). Nos meios operários e pequenos burgueses “a mulher que não concorria para o orçamento familiar era malvista, preferindo-se a mulher ativa à mulher preguiçosa” (Sohn, 1996, apud Pinto, 2008, p. 159), o que não impediu que o ideal familiar da burguesia vitoriana – um pai provedor, uma esposa não-trabalhadora e filhas que contribuíssem monetariamente para o lar até ao casamento (Scott, 1994, p. 479) – perpassasse as sociedades industriais. Postulava-se assim um quadro onde feminilidade e domesticidade andavam a par, e no qual a família, lugar de socialização por excelência, se constituiu como garante da estabilidade e pedra basilar da sociedade (Pinto, 2008, p. 156).

A centralidade do paradigma da domesticidade feminina oitocentista colaborou para projetar uma errónea ideologia da domesticidade sobre as sociedades pré-industriais atribuindo-lhe um cariz intemporal e uma abrangência global (Pinto, 2008, p. 161), que expõe o olhar eurocêntrico, patriarcal e colonialista sobre uma realidade que é plural, constituída na imbricação de vários fatores, escamoteando a existência de sociedades com diferentes contextos sociais, religiosos, económicos e culturais (Silva, 1999; Zamparoni, 1999).

Atente-se que às mulheres que desempenham funções assalariadas exige-se que continuem a cuidar do âmbito privado, criando uma dupla jornada de trabalho (Dieh e Senna, 2016, p. 36). Como eximiamente conclui Rose-Marie Lagrave, “as diferenças sexuais, cristalizadas nas estruturas e incorporadas nas mentalidades, aparecem tanto mais naturais quanto não deixam perceber a incessante construção social de onde procedem” (Lagrave, 1995, p. 527).

Conforme revelam Annie Rouquier e Chantal Février (2000), Tereza Beleza (2002) ou os trabalhos coordenados por Anália Torres (Torres et al., 2018), não obstante os níveis elevados de escolarização e de inserção das mulheres no mercado do trabalho, bem como de avanços judiciários e legislativos relevantes, o paradigma da domesticidade persiste até à atualidade. Continua patente nos valores de trabalho precário e parcial, discriminação persistente nas contratações e carreiras, disparidade no tempo dedicado ao trabalho doméstico, assimetrias nas remunerações independentemente das categorias profissionais, forte feminização do trabalho não pago e desigual representação na vida política.


Uma típica dona de casa sul-europeia.

Referências bibliográficas

Beleza, Teresa. 2002. “Antígona no reino de Creonte – O impacto dos estudos feministas no direito”. Revista ex aequo n.º 6: 77-89.

Cobo, Rosa. 1995. “La democracia moderna y la exclusión de las mujeres”. Mientras tanto (62): 107-119. http://www.jstor.org/stable/27820222

Diehl, Bianca., Senna, Tassiara. 2016. “A construção da identidade da mulher no espaço público: um processo relacionado ao poder”. Revista Humanidades, v. 31, n.º 1, jan-jun: 23‑41.

Lagrave, Rose-Marie. 1995. “Uma emancipação sob tutela. Educação e trabalho das mulheres no século XX”. In Duby, Georges, Perrot, Michelle. (Dir.). História das Mulheres no Ocidente, vol. 5. Edições Afrontamento: 501-539.

Pinto, Teresa. 2008. “Industrialização e domesticidade no século XIX. A edificação de um novo modelo social de género”. In Henriques, Fernanda (Coord.), Género, Diversidade e Cidadania. Edições Colibri: 155-168.

Pinto, Teresa. 2015. “A construção da invisibilidade das mulheres trabalhadoras. Uma perspetiva histórica”. In Percursos Feministas: desafiar os tempos, organizado por Ferreira, Eduarda. et al. UMAR: 225-240. https://repositorioaberto.uab.pt/handle/10400.2/6944

Rouquier, Annie; Février, Chantal. 2000. Brève Históire des femmnes. Femmes sans qualités ou héroines. https://www.pedagogie.ac-aix-marseille.fr/upload/docs/application/pdf/2011-08/aro006_breve.pdf

Scott, Joan. 1994. “A mulher trabalhadora”. In Duby, G., Perrot, M. (dir.), História das Mulheres no Ocidente, vol. 4, Fraisse, Geneviève; Perrot, Michelle. (Dir.), O Século XIX. Edições Afrontamento: 443-475.

Silva, Maria. 1999. Um Islão Prático. O Quotidiano Feminino em Meio Popular Muçulmano. Celta Editora

Torres, Anália et al. 2018. Igualdade de Género ao Longo da Vida – Portugal no contexto Europeu. Fundação Francisco Manuel dos Santos

Zamparoni, Valdemir. 1999. “Gênero e trabalho doméstico numa sociedade colonial: Lourenço Marques, Moçambique, c. 1900-1940. Afro-Ásia, (23): 145-172.

Hollywood em Linha: A Herança do Cinema Clássico e o Limiar do Milénio em You’ve Got Mail, de Nora Ephron

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RESUMO: O presente texto procura reconhecer a postura pró-progresso tecnológico que a comédia romântica You’ve Got Mail (1998), da realizadora e argumentista norte-americana Nora Ephron assume. Sustentado por análise fílmica e contribuições bibliográficas dos estudos artísticos, culturais, filosofia e economia, este estudo tentará compreender o legado do cinema clássico nas formas do filme – uma adaptação de uma peça de teatro da década de 1930, por duas vezes levada ao cinema pela mão de Ernst Lubitsch e Robert Z. Leonard, na era clássica de Hollywood – como via para a construção de um discurso otimista que olha para o novo milénio como um lugar de prosperidade económica e de reabilitação das relações humanas pelos meios digitais.

INTRODUÇÃO

Numa cena do primeiro ato de You’ve Got Mail – longa-metragem de 1998 assinada por Nora Ephron – a protagonista Kathleen Kelly (Meg Ryan) contesta a compra feita por Frank (Greg Kinnear), o seu companheiro: uma terceira máquina de escrever. A discussão é breve e cómica, e funciona sobretudo como via de apresentação da personagem de Kinnear, um colunista autocentrado, e namorado unidimensional que, para o propósito máximo da narrativa, é, enfim, descartável. No subtexto do filme paira a ideia de um progresso tecnológico positivo, necessário e inevitável.

Este estudo preocupar-se-á com o texto que o filme da diretora estadunidense difunde, herdeiro de três produções distintas, duas das quais provindas da gesta (quase centenária) de Hollywood.

Como objeto que pertence à paisagem cultural (indiscutivelmente pop, para uma audiência maciça e plural) dos Estados Unidos no final do século XX, You’ve Got Mail espelha também a consciência dessa posição, no uso que faz de referências literárias, fílmicas e, sobretudo, por ter como base uma peça de teatro húngara do início do século, por duas vezes transferida para o cinema paradigmático de Hollywood, no seu período clássico. Ao reinterpretar uma popular comédia de equívocos e identidades desencontradas – seguindo uma tendência revivalista do cinema dos anos 1990 (Stringer, 2003) – usufrui de uma confortável familiaridade sobre a qual constrói um novo olhar, comprometido com as transformações tecnológicas que marcaram a chegada do novo milénio. Por introduzir a comunicação virtual como dispositivo de avanço da história – no lugar da correspondência por carta, presente grosso modo nos enredos de filmes antecessores, uma evolução coerente com os tempos – o filme parece distanciar-se significativamente das intenções do texto dramático original, preservado nas duas adaptações da década de 1940. You’ve Got Mail partilha o esqueleto de base das outras produções, mas desvia-se ideologicamente delas. Veremos como.

A análise fílmica é o princípio metodológico que dominará a discussão que pretendemos aqui cultivar – a que se acrescenta também a bibliografia de apoio, centrada na compreensão das alterações provocadas pelas tecnologia digitais, e em fundamentos transversais dos estudos culturais. Para darmos azo à descoberta do (sub)texto inerente ao filme em apreço, será essencial perceber as particularidades dramáticas e de forma da comédia romântica de Nora Ephron, e localizá-la no ecossistema da produção cinematográfica da viragem do milénio. Também, como forma de dar sentido ao presente dramático, os temas, as especificidades da mise-en-scène – reforce-se, o filme é um exemplo notável do típico medium subjugado ao domínio da narrativa e responde a todos os requisitos do cinema dito comercial, destinado a um público vasto – e o diálogo que é estabelecido com outros objetos culturais serão os eixos de orientação de um discurso que ultrapassa o filme e olha para um período de marcadas transições, pautado pelo savoir faire do tradicional cinema norte-americano, votado às massas, que ainda hoje domina os cinemas. Os anos que separam a produção de You’ve Got Mail deste estudo criam um espaço de reflexão que permite isolar práticas específicas e olhar com distanciamento para a atualidade que o filme sugere (recortada e extremamente parcial), que, de um ponto de vista vantajoso, pode ajudar a definir pontes com acontecimentos posteriores, a partir de uma lógica de progresso matricial.

O argumento de You’ve Got Mail possui algumas semelhanças, mas também diferenças, com a peça Parfumerie de Miklós László, posta em cena pela primeira vez na cidade de Budapeste em 1937. A história passa-se naquela metrópole e centra-se em torno de duas personagens que se antagonizam mutuamente e que trabalham na mesma loja, alheias ao facto de que trocam correspondências amorosas entre si. A base para a obra de 1998 é esta. Ela revela também notórias afinidades com outras duas produções, duas adaptações cinematográficas da época de ouro do cinema americano: The Shop Around the Corner (1940), de Ernst Lubitsch (com quem Nora Ephron partilha uma clara afinidade estilística) e In the Good Old Summertime (1949), de Robert Z. Leonard. Estas produções serão provavelmente devedoras do texto de base do poeta húngaro. Assim se pode dizer que o texto de László parece ter sido recuperado em dois períodos historicamente distintos: numa década onde a guerra (re)definiu contextos sociais e culturais e, meio século depois, num período de crescente globalização e progressivo crescimento económico. Apesar da distância temporal que separa estas produções, na base da reconstituição da obra do poeta húngaro poderá estar a mesma vontade (ainda que inconsciente) desta: de processar realidades, contrariando ou exacerbando estados de espírito coletivos através do cinema popular. Este cinema poderá ser capaz de construir o pensamento e a memória coletiva e de orientá-los a outros rumos.

No filme, podemos identificar um programa ideológico conivente com a ideia de um pró-progresso tecnológico, para cuja correcta averiguação são essenciais alguns elementos inerentes à composição cinematográfica, como a estrutura e a temporalidade, assim como a composição de planos, cenas e sequências em conformidade com as normas de coesão espacial, clareza narrativa e ponto de vista ideal que define o cinema de Hollywood.

Há autores contemporâneos (imiscuídos nos estudos culturais e fílmicos) cuja produção é fundamental para pensar o impacte político e social do avanço da tecnologia na vida diária. Num texto sobre a introdução da televisão no espaço doméstico, nos Estados Unidos na década de 1950, Lynn Spigel encontra difundido um sentimento de colectiva apreensão quanto às transformações sociais decorrentes dos avanços tecnológicos tidos como necessários na época do pós-guerra (2001/1992, p. 55). A premissa de Spigel poder-se-á ver reflectida no presente, como de seguida veremos. O que é mais, no mapeamento de uma imagem situacional, de uma conjuntura muito particular filtrada pelo aparelho cinematográfico, podem criar-se condições para a emergência de discursos que representam um contraponto à assimilação passiva das ideias do filme em apreço, como as obras de Naomi Klein ou, mais recentemente, de Shoshanna Zuboff.

Haverá também espaço para que Jane Austen, Martin Heidegger, Michel Foucault ou Francis Ford Coppola possam habitar o universo multifacetado de You’ve Got Mail, através de referências diretas em trechos do diálogo, em simples citações, etc. — talvez pensadas para irem ao encontro de um público mais intelectualizado.

CORRESPONDÊNCIA VIRTUAL

Obedecendo à linearidade que a narrativa de You’ve Got Mail preza – herança de um cinema apegado à inteligibilidade, contra a desagregação anárquica do ciberespaço – veja-se o segmento que antecede a primeira cena do filme. Os nomes que integram o genérico inicial surgem sobre uma Nova Iorque digital, fabricada por um qualquer software informático, por onde a câmara virtual deambula em movimentos precisos [Figs. 1 e 2]. Esta liberdade de movimentos de um tipo de câmara que facilmente se associa à dos jogos de vídeo, independente de gruas ou helicópteros, inaugura um plano de novas oportunidades cinematográficas. Neste excerto de cinema digital, para além de uma canção de 1969 na voz de Harry Nilsson, e dos créditos na tela, a palavra tem um peso diminuído. O texto que vai ganhando forma é exclusivamente visual e está fixado na possibilidade de acesso a um espaço totalizado (característica de uma nova visualidade, de estratégias de controlo e vigilância) e na harmonia entre um lugar físico (da carnalidade, da imagem fotográfica, das relações iconográficas e indiciais entre o que é representado e o que existe) e uma virtualidade que define o presente do filme e que põe em causa os limites do real.

Do ambiente cibernético, o filme transita para uma rua no Upper West Side de Manhattan, agora capturada pela câmara, em película de 35mm. O movimento de grua dá continuidade a uma câmara flexível que, num plano-sequência, entra pelo apartamento de Kathleen Kelly – indiciando já um subtexto a respeito da intromissão e quebra de barreiras de privacidade que a Internet comporta – e pousa no seu rosto adormecido. Kelly aguarda a saída do namorado e, como primeira atividade do dia, inicia sessão numa sala virtual da AOL[1] com o pseudónimo Shopgirl.

Do outro lado da linha, num apartamento igualmente ostentoso, está Joe Fox (Tom Hanks), que executa uma rotina semelhante: espera que Patricia (Parker Posey), a hiperativa companheira, saia de casa para cumprir as obrigações de mulher bem-sucedida na metrópole, e entra em linha com o nome fictício NY152. Hanks e Ryan dialogam mediados pelo ecrã dos computadores portáteis, alheios às respetivas identidades e com prazer evidente quanto à expectativa de resposta. Com estas duas cenas introdutórias, concretizadas num ritmo pujante, Ephron materializa os ensinamentos do cinema de Hollywood e da escrita de argumento fundada na clareza de exposição. Aqui, o vocabulário de base aristotélica predomina, tal como explicado nas lições axiomáticas de Robert Mckee (1997), quanto à primazia da narrativa no cinema. You’ve Got Mail passa com distinção nesta empresa, cumprindo todos os requisitos de um argumento estruturado em três atos narrativos, com eventos causadores de mudança que impulsionam a história, figuras arquetipais, arcos de desenvolvimento das personagens detalhadamente definidos e linearidade cronológica, concatenando-se com o progresso tecnológico e económico, onde não há oportunidade de estagnação ou retrocesso.

Os percursos da heroína e do herói do filme são feitos numa agradável manhã nova-iorquina, num filme que redireciona o protagonismo para a figura feminina, ao contrário da peça de László e das obras de Lubitsch e Leonard, e que atualiza o guião antigo para um horizonte cultural que abraça o gesto feminista, mesmo que problemático e mercantilizado. Ao som da banda irlandesa The Cranberries, a Nova Iorque que o filme reproduz é um lugar atrativo, dos comerciantes e dos executivos, do movimento permanente. Kathleen e Joe frequentam, desencontrados, o mesmo Starbucks (não há pudores quanto à exposição de franchises), símbolo do estilo de vida consumista, sem a mínima noção de que ambos percorrem os mesmos espaços à mesma hora, e seguem, cada qual, para os locais de trabalho: uma pequena livraria (Shop Around the Corner, como referência ao filme de Ernst Lubitsch) especializada em literatura infantil – pitoresca, caseira, “autêntica” e familiar [Fig. 3] – gerida pela personagem de Ryan, e um edifício, defronte daquela, em obras, em preparação para uma das livrarias da franquia Fox Books – impessoal, megalómana, superficial, dessensibilizada [Fig. 4] – no caso de Joe Fox.

Aqui, é conveniente interromper o fluxo narrativo para invocar tanto algum pensamento sobre definições de cultura e possíveis ramificações, como os objetos artísticos que antecederam o filme de 1998. A rivalidade Kelly/Fox ecoa o que autores como Hannah Arendt e Dwight Macdonald entenderam como a divisão entre a cultura erudita (high culture) e uma cultura de massas (mass culture), de produção industrial e consumo imediato, análoga a pastilhas elásticas (Macdonald, 1957, p. 59) ou apenas utilizada como entretenimento capaz de preencher tempos mortos (Arendt, 1961, p. 205). Kathleen Kelly e o seu modesto negócio representam a preservação da herança cultural e o atendimento personalizado com base no conhecimento acumulado em anos de experiência. Kelly cita Orgulho e Preconceito e deixa que as palavras de Jane Austen guiem as suas opiniões e comportamentos e, tal como a sua Shop Around the Corner, incorpora o lado feminino, conotado com sensibilidade, autenticidade e respeito pelo próximo, uma das fações em conflito na visão de Ephron (e de László, de Lubitsch e de Leonard). Joe Fox e a empresa imperialista da qual é herdeiro personificam a massificação e mercantilização de tudo. Para os Fox, os livros são uma mercadoria como outra qualquer, cujo único propósito é maximizar os lucros e permitir a expansão de bens. O filme faz um claro juízo moral ao ethos desta família desagregada, onde os divórcios e relacionamentos com mulheres mais novas são uma constante. A Fox Books apela a um consumo ininterrupto e é um agente da homogeneização que Macdonald sinaliza, própria da quebra de barreiras sociais que a cultura de massas promove (Macdonald, 1957, p. 62). Joe Fox faz referências a Coppola e ao universo de Star Wars, corporizando o lado masculino da equação, aparentemente frio e, ao contrário da protagonista, exibe comportamentos dissonantes quanto à sua presença virtual.

Argumentista experiente, é curioso e possivelmente expectável que Nora Ephron tenha optado por colocar livros onde a peça de teatro tinha perfumes, a comédia de Lubitsch carteiras e outros produtos de couro, e o musical de Robert Z. Leonard instrumentos musicais. O comércio é um dos eixos centrais e transversais a todos os textos, porém as especificidades de cada adaptação são sintomáticas da conjuntura em que se encontram. O livro, associado tanto à erudição como ao vazio intelectual, não tem tanto valor quanto objeto físico quanto conteúdo, sendo o dispositivo ideal para as negociações culturais que o filme espelha. Em nenhuma das obras anteriores há esta divisão, sendo que em todos, os protagonistas rivais trabalham no mesmo espaço, sob a orientação de um patrão. Por outro lado, Kelly e Fox são personagens emancipadas, patrões de si mesmos, em consonância com o modo de vida expectável de Nova Iorque, centro financeiro do “Ocidente” no fim do século.

A ubiquidade da televisão e a hegemonia consolidada de Hollywood podem justificar parcialmente as posições de Arendt e Macdonald, atendendo à data em que publicaram duras críticas às alterações de hábitos e ambientes culturais no seio da sociedade americana. Contudo, no mesmo período, Raymond Williams, num quadro teórico marcadamente marxista, contesta a atitude elitista que desacredita o acesso democrático à educação e aos meios de produção como gerador de uma cultura massificada e, portanto, desvirtuada (Williams, 1989/1958). Paradoxalmente, a ideia de uma cultura dessacralizada está próxima daquilo que o filme (que é uma manifestação de entretenimento de massas, na terminologia de Arendt) defende, pela banalização do livro e da escrita. As personagens de Greg Kinnear e Parker Posey, que não existem nos filmes anteriores, são ambas ligados ao meio literário nova-iorquino, ele como colunista de um jornal que conhece a filosofia de Foucault, ela como editora literária de sucesso. Num plano dos diálogos, em You’ve Got Mail, Heidegger convive com o Starbucks, a cultura é banal, define personalidades e modelos de negócio, está em todo o lado e é acessível por todos. E a crer que a intelectualidade de Frank se torna num elemento risível, isto tanto mais se reforça pela constante constatação de que ao longo do filme parece pairar uma certa simplificação ou generalização do conhecimento, e que a heterogeneidade de referências é apenas instrumental.

Fig. 5 | You’ve Got Mail (1998), de Nora Ephron. 00:53:06

Após a introdução do casal principal e dos seus objetivos na linha da história, os acontecimentos fluem como que automatizados, no óbvio encadeamento que as primeiras sequências determinam. O ponto de viragem que preconiza a transição do primeiro para o segundo ato ocorre precisamente aquando da inauguração da loja de Fox, no mesmo quarteirão que a Shop Around the Corner. A animosidade gerada (núcleo de Parfumerie e das adaptações clássicas) entre as personagens principais torna-se um fator decisivo para a resolução do filme e é, ao mesmo tempo, o principal motivo cómico. A partir daí, Kathleen reivindica a importância dos pequenos negócios familiares na paisagem económica e urbana, organiza ações de intervenção nas ruas de Manhattan, aparece em reportagens televisivas [Fig. 5][2] e pede conselhos ao seu correspondente virtual (sem saber que se trata do causador das suas inquietudes), movida não tanto pela questão de subsistência financeira, como pela preservação da memória da mãe, fundadora da livraria. Joe acaba por descobrir a identidade de Kathleen e aproveita-se dessa informação sem a revelar. Apesar de todos os esforços, a Fox Books erradica o negócio familiar de Kelly. Na senda da dissolução destas estruturas de base, os respectivos companheiros (Patricia e Frank) dos nossos protagonistas saem de cena, sem grandes aparatos ou revelações; de contrário seriam obstáculos à concretização do amor entre as personagens principais. Hollywood produz, assim, o desfecho necessário, previsível e obrigatório do final feliz. Depois de várias peripécias, Kathleen combina um encontro com o amigo virtual e recebe com alegria a confirmação da sua identidade como Joe Fox. Indiferente aos antagonismos que se haviam levantado entre ambos, decorrentes da competição gerada ao nível dos negócios, o filme desemboca num plot twist que denuncia a mentalidade do projeto capitalista, favorecendo quem tem poder financeiro, sem grande resistência (Merkle & Richardson, 2003, p. 108) da parte de Kathleen. Desta forma se deixa bem marcada a posição do filme (da realizadora ou da Warner Bros.) quanto à inevitabilidade da supremacia do sistema capitalista, num cenário cultural que é aparentemente plural.

Ora, é adequado assinalar outros pontos de encontro com os guiões que antecederam You’ve Got Mail, pautar os desvios, e circunscrevê-los a conceitos vitais como realidade e virtualidade. Ao concluir o seu estudo sobre a nostalgia, no contexto da transição de um milénio para o outro, Svetlana Boym relembra que “[a]s descobertas da Internet pediram emprestadas metáforas-chave aos discursos filosófico e literário – realidade virtual vem da teoria da consciência de Bergson.”[3] (2001, p. 348). Desta forma, as novas formas de pensamento acerca dos modelos virtuais e das novas tecnologias de informação e comunicação têm um referente (ou vários) que as precede. Ao assimilar a teoria de Henri Bergson, Gilles Deleuze formula o conceito de imagem-tempo, através do visionamento do cinema do pós-guerra e das suas formas e estratégias temporais. No pensamento destes dois filósofos franceses importa a ideia de circuitos que são estabelecidos a partir da dicotomia atual/virtual, que diz respeito a processos mentais e de visualidade óptica, sendo estas expressões hoje, para citar Boym, de uso quotidiano para discernir entre a presença e identidade no ciberespaço[4] e no mundo não mediado pela Internet. Em obras de Godard, Mankiewicz ou Orson Wells, Deleuze identifica planos temporais cuja organização e apresentação em linha cronológica (dos filmes) (2016/1985, pp. 110–113) revela constantes atualizações de imagens virtuais, recorrendo-se ao flashback, por exemplo. Na teoria sobre uma temporalidade própria do cinema, autores como Matilda Mroz (2012) propõem uma articulação do tempo fílmico (duração exata, expressa em minutos e segundos, que o filme tem) e do tempo diegético (dos acontecimentos narrativos) para a emergência de uma terceira camada, abstrata e sensorial, ligada a uma experiência individual e a uma dimensão ontológica do cinema.

Quanto ao filme em apreço, a oposição ou confluência entre atual e virtual (que, de certa forma engloba um movimento em direção ao presente, a que a memória coletiva não é alheia) são materializadas principalmente pela duplicidade na relação de Kathleen e Joe Fox, amigável no plano virtual, inóspita no confronto terreno. Tal dualidade não é própria dos meios tecnológicos. Porém, em ambos os filmes da década de quarenta do século passado e na peça de 1937, Parefumerie, o texto de base, utiliza-se o dispositivo da carta, que trabalha de forma semelhante para todos os casos uma dimensão de virtualidade. É justo pensar-se na correspondência digital como substituto lógico para a correspondência por carta, sem prejuízo para o significado que se tem atribuído às cartas ao longo da história. A tecnologia digital está, no filme, em consonância com o ar dos tempos; é reveladora da passividade com que a transformação tecnológica e sua subsequente assimilação na sociedade é feita, como se imiscui nos espaços domésticos, nas relações humanas, na reestruturação da definição da identidade dos cidadãos e das cidades.

Ainda, quanto às operações temporais, esta comédia romântica revela algumas posturas conservadoras. O tempo diegético percorre as estações do ano, do outono à primavera (o Natal é um ponto intermédio de relevância, até para as adaptações precedentes da história, aliás, uma vez que as lojas comerciais são espaços privilegiados) e, como anteriormente, a linearidade é uma regra, com uma única exceção. Um raro momento de retrospetiva mostra Kathleen, com a loja já despida de qualquer livro ou cliente, relembrando o passado com a mãe – a livraria é uma continuidade da mãe, um resto da sua existência –, a dançar ao som de violinos extradiegéticos, vindos diretamente do cinema clássico [Fig.6]. É um flashback, na medida em que é atualizada uma imagem que antecede o presente da narrativa, mas é também a transposição do pensamento da personagem, dentro da diegese atual, já que Kathleen vê uma memória passar diante de si. A câmara de Ephron oferece o contracampo [Fig. 7] e o aparelho narrativo nunca chega realmente a visitar o passado, que é apenas reverberado pela visualização de uma imagem mental da protagonista. Em You’ve Got Mail o passado é uma entidade abstrata (associada à mãe e à infância) que justifica a atitude persistente de Kathleen Kelly ao longo do filme.

Apesar de herdeira da história do cinema, a história em apreço pode ser considerada como mero recurso para uma intenção maior. O passado narrativo é brevemente referido e chega a ser visualizado e romantizado, mas o filme está ancorado no presente e projeta o seu olhar para um futuro que está muito próximo: o século XXI. Interpretações académicas de You’ve Got Mail distinguem uma atitude nostálgica quanto à recordação de um tempo de otimismo, gravado nos textos clássicos (Morrison, 2010, p. 54), que convive com uma visão utópica de um futuro digital. Esta leitura é válida, mas há outras visões igualmente relevantes, como a da reciclagem de um argumento que veicula eficazmente uma sensação de conforto, em sustentação de uma outra ideia menos profunda: Ephron reconhece o património que carrega, homenageia até o virtuosismo formal do texto, mas não tem necessariamente uma postura nostálgica, na medida em que não ativa uma reflexão sobre essa herança, para além do esqueleto narrativo.

Nos filmes de Lubitsch e Leonard, não há certamente um interesse marcado pela duração bergsoniana, sendo ambos também reféns de ritmos que advêm da découpage clássica, da decomposição do espaço em escalas de planos apropriados que geram um equilíbrio estilístico, durante a década de 1930 (Thompson & Bordwell, 1997, p. 62), e outras estratégias de atenção que resultam numa compressão ou distensão do tempo e proeminência da elipse.[5] Deve-se fazer notar, apesar de tudo, que a consciência de um futuro em “potência” (convivente com um projeto tecnológico de teor capitalista) é exclusivo do filme de 1998.

Considerando o sentido sintomático que qualquer objeto do cinema pode difundir, a respeito de fatores políticos e sociais que lhe são externos, (Bordwell & Thompson, 1993, p. 495), cada uma das versões cinematográficas de Parfumerie desvela (mesmo que involuntariamente) traços do ambiente do qual fazem parte. Em The Shop Around the Corner, as dificuldades económicas e urgência da empregabilidade definem as motivações das personagens, numa tentativa de aproximação ao naturalismo ou mesmo ao realismo social (McCormick, 2020, pp. 258–260), (Doherty, 2021, p. 62), por força de uma década de recessão económica e instabilidade dos anos que conduziram à segunda guerra. A versão musical da história de 1949, de Robert Z. Leonard, intitulada In the Good Old Summertime, exemplifica perfeitamente esta ligação entre a obra e o contexto social que a circunscreve; nela se pretende encobrir a realidade económica desfavorável, apesar de se conservar o valor do trabalho como necessidade incontornável do cidadão comum. Com as canções interpretadas por Judy Garland, uma das maiores celebridades dos estúdios da MGM, e a vivacidade do technicolor, o filme contorna os desígnios menos agradáveis do panorama social, entregando o tom e o foco ao humor e às situações inusitadas. Na versão de Ephron, as dificuldades económicas são praticamente excluídas do discurso. Todas as personagens têm facilidade em movimentar-se pela cidade e a batalha pela sobrevivência da livraria infantil tem como principal motor a memória da infância da protagonista, a preservação da identidade da mãe, e não um intuito capitalista. Como reflexo dos tempos, o filme é um sintoma do otimismo económico de uma parte da população do ocidente na viragem do século, crente no projeto capitalista aliado ao progresso tecnológico como capazes de manter ou fortalecer a prosperidade vivida no momento.

You’ve Got Mail articula de forma eficaz o legado do cinema do século XX – as convenções de género, o ritmo que define as políticas de atenção e visualidade, normas de iluminação e enquadramento que garantem o ponto de vista ideal para qualquer espectador, progressão temporal; a entrega do diálogo e as sequências palavrosas que corroboram os processos de avanço narrativo, a utilização de música extradiegética como forma de condução do estado de espírito e imposição de uma leitura condicionada, ou a distribuição escrupulosa da intervenção das (unidimensionais) personagens secundárias, cada uma com uma função narrativa estipulada – para, apropriando uma cómica e familiar história ficcional, discorrer sobre o estado das coisas no limiar do milénio, assumindo uma posição.

HOLLYWOOD EM LINHA COM O FUTURO

A chegada do novo milénio e a concomitante latência das tecnologias de informação e comunicação digitais geraram uma atmosfera fértil para a propagação de um estado geral de expectativa quanto ao futuro, e mesmo para a previsão de cenários catastrofistas, na passagem para o terceiro milénio. Sucintamente, ao nível das estruturas sociais, culturais e de pensamento, o ano 2000 (Y2K) surgiu acompanhado de preocupações afetivas – que mobilizaram políticas governamentais e empresariais, a níveis internacionais – fundadas na hipótese de os sistemas informáticos não conseguirem interpretar a abreviatura 00 como sequência lógica de 99 e assim poderem causar um colapso brutal ao nível das redes e de outras estruturas dependentes da informatização; assim se gerou paulatinamente a ideia fantasma de um cenário de Apocalipse pós-moderno. Jeremy Anderson, psiquiatra e membro do Conselho Editorial do British Medical Journal em 1999, sintetiza a reação social geral identificada na época, colhida a poucos meses da data :

A ambiguidade do fenómeno do ano 2000 torna-o o maior de qualquer teste de antevisão. A resposta dos indivíduos ao milénio reflete os seus medos inconscientes. A Internet providencia a gestalt. O modo como a nossa sociedade lidará com os próximos seis meses confere uma janela para a alma do século XXI.[6] (1999, p. 465)

É exatamente neste enquadramento que You’ve Got Mail aparece, como produto da sua era, mas também como agente na construção de uma ideia coletiva dos tempos. Como resposta à ansiedade do milénio, o filme mantém o otimismo e abraça a transformação como causa inexorável do ar dos tempos. O influente (e presciente) texto de Richard Barbrook e Andy Cameron, acerca do surgimento de uma “ideologia californiana”, com génese em Silicon Valley, explica o percurso feito desde os anos 1960 – detalhando o pensamento hippie caracterizado pelo liberalismo social, a favor de um sistema democrático e tolerante (Barbook & Cameron, 1995, p. 2) oposto às políticas de Ronald Reagan, e influenciado pela teoria de Marshall McLuhan – até ao crepúsculo do século XX, onde o espírito de resistência dera lugar à “híbrida ortodoxia da era da informação”[7] (p. 2). Segundo os autores, a década de 1990 carrega as ambiguidades do universo digital quanto às propostas de democracia e liberdade e aos impactes no mundo laboral, como um campo vantajoso para o capitalismo tardio.

Como anteriormente foi visto, em You’ve Got Mail os meios eletrónicos assumem um declarado desvio dos dispositivos mais tradicionais (como a carta) e estão circunscritos à comunicação interpessoal; são, no fundo, um complemento aos objetivos amorosos das personagens. No filme, a Internet é necessária, positiva ou, em último caso, inócua. Estes processos de exclusão – que negligenciam, por exemplo, questões de privacidade e segurança, ou o desequilíbrio de género que é evidentemente transferido para a virtualidade digital (Allen, 2000) – fazem parte da estratégia que, de acordo com a “ideologia californiana” que vimos atrás, confia na naturalidade de um futuro híbrido, propício à expansão das áreas de controlo económico. Estes gestos operam também na esfera da globalização e da diversidade demográfica. Quanto à primeira, é oportuno trazermos à colação a sistematização feita por Robert Holton, à época, quanto aos diferentes modelos de receção do impacte dos processos de globalização na identidade cultural (dos objetos, das cidades, das nações) em atenção à chegada do novo milénio. São colocadas três hipóteses: a homogeneização, segmento amplamente considerado que identifica a convergência de práticas e características, e resulta em fenómenos como a hegemonia cultural americana (a americanização, ou McDonaldização), (Holton, 2000, p. 142); a polarização, antítese da postura anterior, que assume as dificuldades para uma verdadeira globalização da cultura e assinala polos de resistência a relações de poder e opressão (pp. 145–147), com prevalência na produção literária, jornalística e artística no pós-11 de setembro; e a hibridez ou sincretismo, que o autor defende como modelo próximo da realidade de certos fenómenos como o jazz, a arte contemporânea e a vida espiritual (p. 149), apesar de notar que uma metodologia que acesse a escala e efetividade desta visão seja pouco exequível.

O cinema, como veículo de expressão artística e instituição cultural de grande amplitude, tem a capacidade de enunciar ou absorver estas três formulações, consoante a visão das estruturas criativas ou de produção. No filme de Ephron – que, como já menionámos, faz um duplo movimento nos contornos da diegese, como objeto cultural que pertence ao ecossistema da produção cinematográfica de Hollywood, o que, consequentemente, contribui para a disseminação de valores, experiências e marcas comerciais dos Estados Unidos da América – a globalização é uma entidade em potência, nas margens das peripécias do guião, que se manifesta silenciosamente, principalmente na vertente de homogeneização: o café Starbucks, o website AOL, a conquista das grandes empresas sobre o comércio tradicional. O extenso livro de protesto No Logo (2000), da escritora canadiana Naomi Klein – que referencia diretamente You’ve Got Mail quanto à representação dos fenómenos das super-livrarias (p. 119) e da cadeia Starbucks (p. 176), apresenta também uma crítica à imposição feroz de instrumentos de marketing em todas as vias de comunicação disponíveis – vê no cinema de Hollywood, dada a capacidade de projeção mundial, um palco para a difusão de identidades das marcas e crescimento dos seus impérios comerciais, pela subliminar intrusão destes elementos no consciente coletivo. Para Klein, os grandes conglomerados, que, no novo milénio, vieram definir a paisagem do entretenimento, são indiscutivelmente poderosos a nível mundial uma vez que integram estrategicamente os meios de comunicação analógicos e digitais directamente nos seus produtos (Schatz, 2009, p. 21); e, ao englobarem os estúdios de produção cinematográfica, transformam as produções cinematográficas em vias para a autopromoção, como se de objetos de troca se tratassem, em comunhão com as sinergias contratuais. A relação AOL/Warner Bros coloca o filme de Ephron no epicentro desta metodologia, própria de uma pretensão homogeneizante da globalização pós-moderna.

A respeito da pluralidade demográfica, numa cidade colossal descrita de forma coloquial como um melting pot (um “caldeirão” de encontros culturais que aponta para um movimento de homogeneização), é notória a ausência de personagens não caucasianas de modo geral em todo o filme e mesmo ao nível do diálogo. A excepção é, porém, Kevin (Dave Chapelle), um amigo de Joe Fox sem traços de personalidade discerníveis, que poderá ser uma tentativa (insuficiente) de representação dessa diversidade. Ainda, a classe social das figuras escolhidas para figurarem no plano é uniforme, mantendo uma certa continuidade com as versões clássicas de que o filme em apreço é herdeiro, não existindo dificuldades económicas assinaláveis para nenhuma das personagens.

Na década em estudo, a transição digital no cinema foi também um assunto premente e refletido nas práticas artísticas de cineastas ao longo de todo o espetro cinematográfico, principalmente no campo do documentário e em intervenções experimentais. Na diegese de You’ve Got Mail o cinema não atravessa um período de mudança. Kathleen e Frank vão a uma sala de cinema tradicional, um hábito cultural inscrito na rotina de qualquer cidadão urbano, também porque o filme, como produto a ser consumido em massa, depende da conservação das práticas de contacto com o cinema, em parte ameaçada com as possibilidades da pirataria digital. Teóricos dos meios de comunicação como Lev Manovich, procuraram entender as mudanças em curso na alvorada do milénio. A rutura com a linearidade imposta pelo movimento da película, que a digitalização permite, reorganiza a relação das obras com o tempo, podendo disto decorrer um certo dinamismo que torna o medium num produto maleável[8] (Manovich, 2001, p. 52) – também as práticas do cinema incorporaram os padrões organizacionais do digital, como por exemplo a perda de um referente na fabricação, através da montagem, de um espaço ou de um tempo contíguos e coerentes, aquilo que Steven Shaviro nomeou “pós-continuidade” (2016), que descura os princípios de coesão.

Excetuando o genérico de abertura, que espelha a revolução digital, o filme é um objeto de cinema tradicional, filmado em película de 35mm e distribuído e exibido pelas vias ainda predominantes em 1998. Visto tratar-se de uma indústria que lida com grandes orçamentos, sujeita a riscos financeiros, os estúdios de Hollywood exigem que as receitas de bilheteira – e a venda de outros produtos transversais aos meios de disseminação de conteúdos, apostados na criação de universos que transcendem os limites dos filmes como peças isoladas – ultrapassem o investimento feito, pelo que qualquer risco tende a ser muito bem ponderado. Desta forma, a digitalização do cinema é outro elemento omitido do mundo de You’ve Got Mail, por não ser relevante quanto à narrativa, nem interessar à gestão dos estúdios. Ainda assim, a aceitação acrítica da transição digital, pelo menos no campo das comunicações entre cidadãos, é o subtexto com o qual o filme está comprometido. Os anos seguintes obrigaram a indústria à adaptação digital, com a crescente difusão dos aparelhos tecnológicos e de outras formas de acesso a conteúdo (imaterial) nas casas:

[T]elevisões, cassetes de vídeo e discos digitais, leitores de vídeo e DVD, jogos eletrónicos, computadores pessoais com acesso à Internet, e dispositivos eletrónicos de bolso de toda a espécie formam um sistema abrangente de perceção e representação cujas várias formas “interagem” para constituir um mundo alternativo e absolutamente eletrónico de experiência imaterializada – mesmo que materialmente consequente.[9] (Sobchack, 2016, p. 19)

O estado da arte que Vivian Sobchack descreve na segunda década do novo milénio configura o estado de alta modernidade que o filme prenuncia. A portabilidade de alguns destes meios de difusão visual é precisamente reflectida na obra de Ephron de fora para dentro, a partir de uma sociedade hiper tecnocrata, pelo que tanto a realizadora quanto o estúdio (Warner Bros.) que acolheu a filmagem se podem isentar de responsabilidades associadas a uma eventual necessidade de denunciar as consequências materiais da utilização e dependência destes novos meios tecnológicos. Em última análise, You’ve Got Mail é também uma comédia romântica, um produto de entretenimento que junta duas das maiores celebridades norte-americanas da época inscritas num registo amoroso de boa disposição e conforto — depois do bem-sucedido Sleepless in Seattle (1993), esta é a segunda aparição da dupla Hanks e Ryan como casal sob a direção de Nora Ephron; pode-se supor que a opção de repetir atores que granjearam enorme sucesso num primeiro filme vem a propósito de uma estratégia de minimização de riscos financeiros para a máquina de produção.

Na verdade, o subtexto, um elemento periférico da metanarrativa, ou da metatextualização, inerente às produções cinematográficas, pode ser entendido como desprendido do controle das rígidas formas do cinema de Hollywood, devido à cumplicidade travada entre o progresso tecnológico e o próprio filme, sintoma daquele. A actualização de Parfumerie para o contexto de 1998 resulta num indiscutível sinal dos tempos, levada a cabo por estratégias de exclusão a partir do texto original ou exatamente pela escolha deliberada daquilo que é colocado de fora dos limites do enquadramento.

O real que se entrosa na artificialidade diegética – própria de qualquer cinematografia, já que todo o cinema pressupõe uma negociação do que é deixado de fora e o que se torna visível ou tácito – encontra vias para a sua auto-imposição.

A cena que dá passagem para o terceiro ato, em que Joe Fox é posto à prova, segundo as etapas de base mitológica de escrita de argumento (se se considerar que há um protagonismo partilhado, e dois percursos do herói), tem como espaço cénico o elevador do luxuoso prédio onde o protagonista mora ainda com Patricia. Já com a Shop Around the Corner fechada, por força do êxito da Fox Books, o casal dialoga à entrada do edifício. Ao ver que o elevador vai partir, e porque o tempo de espera é um tempo de improdutividade, Patricia corre e leva Joe consigo, pedindo às portas para que não se fechem. Enclausurados no minúsculo espaço, na companhia do concierge (Michael Badalucco) e de uma pomposa vizinha (Deborah Rush) que segura um pequeno cão, falam sobre a situação de Kathleen. Inesperadamente, o elevador pára, cenário de terror para as vidas dependentes da velocidade, do progresso; se este pára, assimila-se-lhe a estagnação dos fluxos do capital, esvaziada das possibilidade de contemplação e introspeção. Patricia exige irracionalmente aos serviços de emergência uma resposta imediata. O talento de Ephron, atenta às lições do cinema clássico, faz deste microcosmos um laboratório para o estudo da condição humana no centro do privilégio económico, e um dispositivo narrativo essencial para a saída de cena de Patricia. Na conceção teórica de uma “modernidade líquida” que Zygmunt Bauman aponta como consequência dos avanços do final do século, onde permanentes metamorfoses impedem a consolidação de formas e instituições, o autor afirma que a velocidade obstrui o pensamento, e que a pausa e o descanso são requisitos para pensar (2000, p. 209). O tempo passado dentro do elevador é um necessário tempo de pausa e reflexão, onde cada personagem chega a uma conclusão quanto às suas escolhas. Joe apercebe-se de que a relação com a personagem de Parker Posey não tem futuro; esta reflexão leva a uma tomada de decisão que possibilita, finalmente, a junção amorosa à sua correspondente virtual sem quaisquer impedimentos morais,.

Os gestos de retrospetiva abundam no fim de um século que Alain Badiou apelidou de século amaldiçoado (2007, p. 2), pelos horrores incompreensíveis das guerras, como se os produtores (artistas, escritores, filósofos, jornalistas, criadores de qualquer natureza) precisassem de olhar para trás e fazer um balanço antes de poderem transpor a fronteira do milénio. You’ve Got Mail, com tudo o que elide e tudo o que fabrica, partilha desse conjunto de reflexões que demonstram uma profunda consciência do passado e uma ideia concreta do caminho a seguir no futuro.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Aqui se impõe um balanço geral sobre as ideias principais. Pretendemos que a análise ao filme que aqui trouxemos possa contribuir para eventuais reflexões não só à década que viu nascer a obra de Ephron, mas também aos tempos posteriores que a receberam, inclusive aquele em que nos inscrevemos, duas décadas após a primeira exibição.

Devemos ter em conta que o cenário de Nova Iorque em que o filme foi rodado foi radicalmente desfigurado três anos depois, com a destruição de duas estruturas representativas da supremacia financeira da cidade americana. Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 designaram um ponto de ruptura quanto à postura adoptada pelo país em atenção às políticas internacionais e às questões culturais e de visualidade. Marita Sturkern e Lisa Cartwright, entre muitos outros, descrevem a sociedade americana como inseparável da memória dos ataques que, através da difusão televisiva global (2018, pp. 247–250), tendo acesso ininterrupto às imagens, pôde acompanhar um evento catastrófico convertido em sensação visual.

Num exercício especulativo, se, vinte e cinco anos passados, uma ou um cineasta com a mestria e conhecimentos de Nora Ephron tivesse intenção de refazer o texto de László, que preceitos serviriam de bússola nessa empreitada? Problemas quanto à representatividade e diversidade demográfica, como reflexo mais fidedigno de uma sociedade heterogénea, seriam certamente resolvidos. A correspondência quotidiana por e-mail ou em salas virtuais está obviamente em desuso, tal como as cartas em papel estariam em 1998 para travar uma ligação amorosa, hoje devido aos smartphones e mais concretamente às aplicações de encontros. As mensagens são enviadas por automatismo, quase. Assim como na transição para o terceiro milénio, também agora se vive um clima de iminentes transformações e de uma certa ansiedade pelo futuro próximo. O desenvolvimento exponencial da inteligência artificial em praticamente todos os domínios do conhecimento é hoje um tópico que merece ser debatido, contestado e processado (Metz, 2023).

Shoshanna Zuboff apresenta uma visão bem fundamentada das consequências das ações no ciberespaço contemporâneo (2019), o outro lado da inocência de You’ve Got Mail. A académica norte-americana traça este percurso desde o surgimento da Google até ao presente, onde a pegada digital – os dados de navegação, subprodutos da presença no espaço virtual – é acumulada em quantidades colossais e utilizada como mercadoria valiosa, através da qual se configura um sistema de capitalismo de vigilância que condiciona escolhas e, assim, o futuro dos indivíduos. Como poderá então o cinema comercial, de alcance mundial, movimentar-se neste panorama de imprevisibilidade quanto ao impacte da inteligência artificial nos próximos anos? E que dizer da transferência de poder das instituições tradicionais para as grandes empresas que operam no digital? Sem Meg Ryan nem Tom Hanks nos papéis principais e, hoje, não havendo possibilidade de trazer Nora Ephron para trás da câmara, o cinema popular poderia apoiar-se, com bastante probabilidade, na estética computadorizada dos filmes de super-heróis — como parece ser a tendência dos últimos anos. Talvez não seja descabido dizermos que Hollywood esteja hoje como ontem em acordo pleno com as novidades tecnológicas, tendo em vista um otimismo que é, à falta de vocabulário apropriado, unheimlich.

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  1. America Online. Não é irrelevante que, dois anos após a estreia de You’ve Got Mail, tenha havido uma fusão entre esta empresa de comunicações e a Time Warner, detentora dos estúdios da Warner Bros., que produziu o filme. Segundo Jerome Christensen, o sucesso do filme teve peso nesta aliança e Nora Ephron, citada pelo autor, não estaria de acordo com a presença do logótipo da AOL em vários planos, nem a par das negociações (2003, p. 215).

  2. O fotograma escolhido reconhece e antecipa a proliferação de ecrãs como norma da contemporaneidade. A televisão é ainda um dispositivo que predomina no final dos anos 1990 e tem importância narrativa, como principal ferramenta que Kathleen usa para ajudar a sua causa. Num revelador texto de 2001, Seth F. Kreimer constata a crescente influência da Inernet enquanto forma de protesto social democrática e economicamente acessível (pp. 121–125). Ephron remete o ativismo para os meios de comunicação tradicionais, não explorando de facto as possibilidades evidentes do ciberespaço, para além de impulsionador do romance de Tom Hanks e Meg Ryan.

  3. “The discoverers of the Internet borrowed key metaphors of philosophical and literary discourse—virtual reality comes from Bergson’s theory of consciousness.” Traduções do inglês feitas por mim.

  4. Sublinhe-se que o ciberespaço do estudo de Boym e de You’ve Got Mail tem características diferentes daquele que hoje predomina, de acessibilidade imediata dada a proliferação de ecrãs e dispositivos, quase como uma extensão do corpo humano.

  5. Uma análise aprofundada, tanto de The Shop Around the Corner como de In the Good Old Summertime, revelaria possivelmente gestos de subversão à homogeneização aparente do cinema clássico, fosse pela temporalidade ou pelos apontamentos de mise-en-scène. Contudo, avança-se aqui que, o que You’ve Got Mail absorve destes antecessores é o esqueleto formal e as ferramentas cinemáticas.

  6. “The ambiguity of the year 2000 phenomenon makes it the largest projective test of all. Individuals’ responses to the millennium reflect their unconscious fears. The internet provides the gestalt The way our society deals with the next six months will provide a window into the soul of the 21st century.”

  7. “[T]he hybrid orthodoxy of the information age”.

  8. Com um peso significativo não apenas nos modelos de visionamento como na própria análise fílmica e trabalhos de investigação da natureza deste.

  9. “[T]elevision, videocassettes and digital discs, VCR and DVD recorder/players, electronic games, personal computers with Internet access, and pocket electronics of all kinds form an encompassing perceptual and representational system whose various forms “interface” to constitute an alternative and absolute electronic world of immaterialized – if materially consequential – experience.”

Sugestões: Bizarros Romances e Contos de Ficção Científica

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Sugerimos aqui algumas obras literárias de ficção científica, não necessariamente muito conhecidas, mas sempre notáveis, e tão bizarras quanto possível, principalmente pela premissa da sua história mas também pela precocidade da sua publicação em alguns casos.

Uma das coisas mais curiosas deste género de ficção, independentemente do autor, da qualidade da prosa, da estrutura do enredo e da sua adequação aos parâmetros de uma história bem contada, é que, por vezes, basta o mero enunciado da premissa para colher o fascínio do leitor. A ficção científica, sub-género do grande universo tradicionalmente designado como literatura de fantasia, alicerça-se no mundo presente mas, colhendo inspiração nos desenvolvimentos tecnológicos, cogita sobre versões extremas desses mesmos e equaciona consequências em geral radicais e/ou dramáticas para a vida corrente, que podem vir num futuro próximo imediato ou milhões de anos no futuro. Isto permite imaginar a vida tanto como regendo-se, fundamentalmente, pelos mesmos padrões humanos actuais como, em alternativa, por modificações extremas, e frequentemente aterrorizantes, das condições materiais que os permitem.

Temos assim, primeiramente, um dos romances preferidos do crítico Harold Bloom, A Voyage to Arcturus, de 1920, uma espécie de romance de estrada em que o protagonista viaja por várias paisagens extraterrestres que representam cada uma diferentes estados de espírito ou filosofias de pensamento; depois, de Isaac Asimov, Foundation, de 1951, um épico político sobre um futuro em que a descoberta da psicohistória, uma ciência que permite prever, através de cálculos complexos, a ascensão e queda de povos e civilizações; ainda, surpreendentemente escrito em 1666, por Margaret Cavendish, The Blazing World, uma ficção também utópica sobre a viagem de uma jovem mulher a um mundo fantástico regido por criaturas estranhas e tecnologia avançada, sendo posteriormente coroada sua imperatriz e empreendendo uma campanha militar poderosa.

Depois, NightFall, de 1941, também de Asimov, descrevendo um mundo que vivia sob luz solar permanente e as transformações sociais que ocorrem quando passa a viver sob escuridão perpétua; de William Gibson, uma entrada mais conhecida mas imprescindível na génese do policial cyberpunk, Neuromancer, de 1984, com um mundo em que as interfaces informáticas e as neurológicas se confundem; depois, de Arhur C Clarke, The Nine Billion Names of God, publicado em 1954, sobre uma profecia de que a pronúncia dos nove mil milhões de nomes da divindade máxima trará o apocalipse.

Mais um conto de Isaac Asimov, Evidence, cujos direitos cinematográficos foram adquiridos em dado ponto pelo prolífico Orson Welles, sem que no entanto daí tivesse resultando nenhuma produção em específico, e que aborda um protagonista que, após um acidente, é recontruído ciberneticamente, mas alguns alegam que já não se trata da pessoa original, sendo este um tropo comum na ficção científica. Ainda, The Memory Police, um conto do japonês Yōko Ogawa recentemente adquirido para uma produção cinematográfica cujo argumento será escrito pelo famoso Charlie Kaufmann, uma história kafkiana sobre uma sociedade em que a memória de objectos comuns está a desaparecer e, com eles, logo a seguir os objectos são retirados por uma polícia da memória — outro tropo não incomum. De Brian Stevenson, The Warren, um romance sobre o último sobrevivente humano de um apocalipse que começa a desconfiar se ele próprio é mesmo uma pessoa.

Por fim, de Olaf Stapledon, Star Maker, de 1937, sobre um ser incorpóreo que acompanha toda a história da humanidade e se prepara para o encontro com o criador universal. Gun, with Occasional Music, de Jonathan Lethem, um romance surreal sobre um detective num mundo futurista com animais falantes, armas com bandas sonoras, e bebés mais inteligentes que adultos. E finalmente, Flatland – a Romance of Many Dimensions, de 1884 (!), uma paródia da sociedade vitoriana, em que uma realidade imaginária constituída apenas por figuras bidimensionais encontra-se subitamente perante o conceito de tridimensionalidade.

O Mundo Perdido da Indústria Pornográfica Clássica

Para o fim-de-semana, leituras leves, para serem tidas em público ou em privado. Abordamos hoje a indústria de publicação pornográfica clássica, da idade de ouro, dos meados do século XX até aos dias de hoje, onde persiste já decaída mas sem o charme da decadência, assim como um pouco do ramo audiovisual da mesma, nos seus suportes tradicionais, antes do advento do digital.

São cinco as principais publicações que queremos destacar, uma delas portuguesa, mas vamos também dar atenção a algumas outras menos conhecidas mas não necessariamente menos importantes, além de outras mais especializadas ou merecedoras de atenção por diferentes razões, terminando por fim com alguns apontamentos relacionados com a indústria da pornografia durante o século XX em geral.

A primeira que abordamos, a imortal revista Playboy, não é necessariamente a primeira das publicações pornográficas modernas, mas é sem dúvida aquela que revolucionou o género e o trouxe ao grande público, sendo criada num ambiente cultural coincidente com as famosas revoluções de libertação sexual. Foi no contexto do liberalismo das sociedades ocidentais, bem-sucedido, bem instalado entre classes médias sólidas e baby boomers com boas condições de prosperidade, tempo livre e desenvolvimento da personalidade — após duas guerras mundiais que devastaram a Europa e delibitaram a América —  em que Hugh Hefner, visionário recentemente desaparecido, espreitou a oportunidade de elevar o olho artístico da fotografia tendencialmente vulgar apresentada em publicações do tipo, anteriores à Playboy, que abordaremos daqui a pouco, introduzindo também nos seus conteúdos ensaio e crónicas de qualidade e de seriedade respeitável, além das mais tardias e fundamentais entrevistas, que abordámos noutra peça. O império Playboy fundamentou-se na imagem, no estilo de vida e nos interesses variados, cosmopolitas e renascentistas — no sentido pluri-disciplinar e multi-temático — do seu fundador, sendo a mansão onde estabeleceu residência centro de grande parte das actividades da revista e lendário santuário de encontro de artistas, gente abastada e intelectuais em geral, além de centro de libertinagem sexual em si mesmo.

Depois da fundação da mítica Playboy, em 1953, que, como já vimos, era uma revista de erotismo explícito mas especificamente dedicada aos cavalheiros de classe média e à classe social dos intelectuais urbanos, o mercado demorou a reagir e só em 1973 foi fundada a famosa Hustler, do lendário Larry Flynt, a Playboy dos porcalhões, muitíssimo mais explícita, vulgar e anti-intelectual, apresentando mulheres sem qualquer pretensão artística e puramente na vertente de talho.

Outras publicações menos conhecidas ou muito conhecidas durante apenas algum período, algumas especializadas em segmentos específicos da população — como a revista Players, menos conhecida, dedicada ao mundo afro-americano — ou especializadas em partes do corpo/disposições/filosofias específicas, são também aqui destacadas: a Penthouse, talvez a segunda ou terceira publicação deste género mais famosa; a Juggs, dedicada ao peito feminino; e a Leg Show, às pernas. Muitas outras regionais, pelo mundo fora, também surgiram, embora não necessariamente com modelos desse país, como o caso da portuguesa Gina, de que falaremos a seguir.

Muito mais tardiamente em Portugal, em relação ao mercado no resto do mundo livre, tivemos a hoje mítica revista Gina, fundada também em 1974, uma produção nacional mais modesta, recatada, bela e do lar, com meios menos poderosos mas dedicada ao público nacional, apesar de contar apenas com modelos estrangeiros. Diz-se que, apesar de a maior parte do seu público leitor serem homens, como é natural, era procurada também por mulheres, provavelmente aproveitando a lufada de ar fresco de liberdade e de libertinagem proporcionada pela revolução política que foi acompanhada também por uma revolução de costumes e de ideias, ultrapassada que estava a censura. Foi também nesta época que filmes como O Último Tango em Paris, cinema erótico de Bernardo Bertolluci com Marlon Brando e Maria Schneider, fizeram enorme êxito mais pela novidade da exposição sexual do que propriamente pelo interesse do grande público em cinema de autor.

Além disso, assinalamos também a golden age of porn no audiovisual e o seu espreitar para o mainstream trazido pelo advento do cinema em grande escala e pelo VHS mais tarde. Sub-cultura em geral desinteressante do ponto de vista artístico mas que encontrou alguns casamentos com a cultura libertária/psicadélica/subterrânea urbana dos pós anos sessenta. Nunca produziu grandes peças: produziu somente uma espécie de cinema verité muito cru mesmo, ao nível quase do documental mas na variedade fingido (mockumentary), semelhante talvez apenas a variantes da arte minimalista, do documentário, ou, na versão para o grande público, a filmes de terror.

Um último apontamento sobre esta subcultura: a musica que compõe as bandas sonoras dessa idade de ouro, de 1970 a 1980 e poucos, constituídas por instrumentais do funk norte-americano, é extraordinária. Existem aliás várias álbuns originais, de colectânea ou de tributo, que o atestam. Recomendamos a colecção pornosonic, um projecto contemporâneo de Don Argott que recria o estilo musical dessas películas, e também bandas sonoras originais disponíveis em formato analógico ou nas plataformas digitais.

A Poesia Bucólica 

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Apesar de ter escolhido este tema antes de terem começado os acontecimentos a que o nosso mundo assiste hoje, acho que se tornou mais apropriado e importante, pois tal como o público de Teócrito e de Vergílio, na antiguidade, também nós na contemporaneidade temos o direito de nos afogar na leveza e beleza da poesia bucólica, temática que se torna assim o refúgio de que tanto necessitamos. Deste modo considero que escrever sobre este tema durante estes tempos sombrios tem sido a luz que o meu cérebro necessita. Mas porquê este tema? A poesia bucólica é um género de grande interesse pessoal, e por vezes chego à conclusão de que muitas pessoas acabam por colocá-lo de parte optando por obras de cariz mais mundano, épico ou até mesmo mais comercial. A poesia bucólica, não só clássica mas também contemporânea, possui uma enorme riqueza que por vezes acaba por ser esquecida.  

Arcadia: a Pastoral Landscape, de FRANCKEN, Frans II, 1626-32

O tema do bucólico — palavra que advém do grego βουκολῐκός, de βουκόλος, que significa guardador de gado — foi na Antiguidade muito apreciado pelos escritores como Teócrito e Vergílio. Contudo, conseguimos encontrar esse tom pastoril noutros escritores fora da antiguidade clássica. O gosto por este género foi algo que se foi cultivando desde a antiguidade até aos nossos dias, sendo importante relacionar todas estas obras e estes autores, comprovando assim o legado e a influência que vem desde a antiguidade.  

O termo βουκολῐκός só apareceu uma vez antes de Teócrito, como menciona Kathryn Gutzwiller, e isto prova que apesar de Teócrito não ser o inventor deste género ele é, sem dúvida, quem o trabalhou mais, tendo depois passado o testemunho a Vergílio, autor que elevou a prática a outro patamar. O desenvolvimento tem muito a ver com o ambiente em que se vivia na época helenística, quando os primeiros filólogos e poetas da biblioteca de Alexandria tinham como principal objectivo das suas carreiras produzir algo que nunca tivesse sido criado.: desenvolver novos géneros, criar poemas mais curtos face aos grandes poemas épicos e didáticos, entre outros. Este sentimento leva a que Teócrito desenvolva em específico este género bucólico, mas que não o burile, criando assim uma poesia culta, porém bastante leve. Teócrito é um de facto um poeta doctus, ou seja, um poeta erudito, como afirma J. Vara.

Landscape with Argus Guarding Io, Claude Lorrain, ca. 1644/45. Holkham Hall Photo: Harry Cory Right/By permission of the Earl of Leicester and the Trustees of the Holkham Estate.

Contudo, é duvidoso que Teócrito seja de facto o único inventor do género bucólico, pois assim estamos a colocar de parte todos os excertos com essas características que encontramos noutras obras da antiguidade. Grandes obras como a Ilíada, a Odisseia de Homero, as Argonáuticas de Apolónio, ou até mesmo poemas da lírica arcaica contém passagens que podemos considerar bucólicas, como menciona Maria Helena De Teves Costa Urena Prieto. É curioso também que em Hesíodo conseguimos encontrar um primeiro ensaio do que viria a ser este pastor-cantor.

De acordo com os estudiosos, em ambas as situações a poesia bucólica veio colmatar o excesso de um ambiente fortemente citadino. Existia uma sensação de que a natureza seria o lugar ideal para onde se poderia escapar, como Márcio Ribeiro menciona. Apesar de Teócrito também viver num ambiente semelhante ao de Vergílio, existe a hipótese de que o escritor nunca tenha estado em profundo ou prolongado contacto com as pastagens ou até mesmo com pastores, ao contrário do primeiro. 

Ao falar sobre a problemática acerca de quem fora o criador do género, não é possível colocar de parte a problemática sobre a origem deste género poético. É importante salientar que é de opinião geral que existe uma “relação muito íntima entre as origens do bucolismo e as festas das colheitas e das vindimas, bem como as tumultuosas festas dionisíacas e fálicas, festejos estes que se realizavam nos campos”, na citação de Márcio Ribeiro. Mas quais são as características deste género? E como é que o distinguimos dos outros géneros literários?

É fundamental explicar primeiro quais os significados etimológicos das palavras associadas a este género e a formas poéticas típicas do mesmo. Ribeiro, e outros, dizem que o idílio, εἰδύλλιον, é uma “composição poética breve, poesia curta”. Os leitores e estudiosos modernos associam esta palavra ao tópico da poesia bucólica; no entanto no seu significado mais primitivo nada tem a ver com o tema pastoral. A écloga, ἐκλογή, significa etimologicamente “escolha”, “extrato”, ou, num sentido mais amplo, “poesia ou trecho seleto”, mas novamente só num ambiente moderno é que este termo está associado à poesia bucólica. E por fim a bucólica, βουκολικόν, e é dele que advém o nome deste género literário, a poesia βουκολῐκᾰ́.

Alguns estudiosos consideram a poesia bucólica como um género híbrido, pois dentro destes poemas são evidentes as influências e os empréstimos que os escritores foram retirar a outros, como a poesia lírica, a épica e o drama.

Claude Lorrain Chamagne 1600 – 1682 Rome
Landscape with Argus Guarding Io
oil on copper

Nos poemas de temática bucólica conseguimos identificar assim bastantes tópicos típicos do género, τόποι, os quais são comuns a Teócrito e Vergílio. Entre estes τόποι encontramos, num lugar central, um ambiente campestre, que tem como protagonista o pastor, nomeadamente o boieiro. É curioso ser este o mais mencionado, pois na época clássica animais o boi era o mais valioso; parece que existe uma hierarquia dentro do próprio mundo dos pastores. Depois, entre outros τόποι, enonctramos o sentimento da natureza, a música, o canto, as sombras — que, no ambiente bucólico, são símbolo de paz e de sossego ao invés de ter uma conotação funesta associada com o mundo inferior —, a figura omnipresente do amor (heterossexual ou homossexual), a interação com os animais, o amor não correspondido, o lugar paradisíaco, o otium — tempo livre, tempo de lazer — que está presente, o canto de himeneu, o ᾰ̓γών — reunião — entre os pastores. Também é de salientar, numa série de sub-tópicos menos relevantes ou já enumerados de outras maneiras, mas também ilustrativos e típicos do género, o aparecimento da floresta mista, com várias espécies de árvores; as écfrases  — são uma das características mais importantes pois contribuem para o enriquecimento do texto — o artificialismo — encontramos personagens mundanas ou cenas pastorais descritas num vocabulário épico  — e o locus amoenus, a paisagem serena.

Relevante é também a parte métrica, sendo típico deste género o verso hexâmetrodactílico, assim como a parte musical destes poemas de curta extensão. O facto de os pastores serem cantores e tocadores que, durante os seus momentos de ócio, descansam e produzem estes cantos, contribui para a grandiosidade do tema. Infelizmente, um leitor moderno não tem a mesma sensibilidade que um leitor, ou ouvinte, grego ou romano teria para reconhecer a musicalidade dos versos de Teócrito ou de Vergílio, nem a língua original é acessível hoje, tal como menciona João Baptista Toledo Prado. No que toca à métrica é importante salientar que este poetas escolheram a mesma da épica e da poesia didática. Sendo esses poemas de grande extensão, que contêm neles não só uma enorme tradição literária como prestígio, os poetas helenísticos e, depois os seus sucessores, usaram para esta formas mais curtas da poesia bucólica o mesmo metro, retratando temas mais leves e de temáticas consideradas na antiguidade como inferiores.

Asher Brown Durand
Pastoral Landscape, 1861

Por último, falemos um pouco de dois poetas centrais neste género. Apesar de os poetas intitulados bucólicos seguirem os mesmos τόποι e apresentarem as mesmas características estilísticas e métricas, conseguimos encontrar diferenças entre eles. Isto é evidente nos casos de Teócrito e Vergílio, especialmente no que toca à caracterização das personagens e ao papel que entregam a cada elemento na sua obra. Por exemplo, Vergílio analisa a psicologia da paixão em profundidade, como menciona Ribeiro, e também dá mais enfase ao aspecto dramático e musical, coisa que não acontece em Teócrito. A interpretação do local mítico da Arcádia é vista de forma diferente pelos dois autores, o que serve também como outro exemplo dos focos que cada poeta demonstra.

Quando pensamos neste tipo de poesia o primeiro autor que temos em mente é Teócrito e, de facto, apesar de toda a problemática em torno da origem deste género, este autor continua a ser um dos mais importantes e germinais dentro do mesmo. Teócrito foi um poeta Siracusano, que escreveu maioritariamente em dialecto dórico, tal como o fazia o poeta Álcman, e em hexâmetros dactílicos. Teócrito não se foca apenas num estilo, e, como tal, em três dos seus idílios é possível verificar uma influência do género literário mimos, forma popular em que a história era representada com recurso a grande gestualidade e expressividade, tal como menciona Ribeiro. É um poeta que descreve com vivacidade as passagens mais dramáticas, o que acaba por ajudar à visualização do que está a acontecer dentro do poema. Dentro das características já mencionadas, a poesia de Teócrito abrange todas, distinguindo-se assim das outras obras clássicas e dos outros géneros, fazendo do género bucólico algo único, mesmo sendo este considerado um género de teor híbrido. A poesia que Teócrito desenvolveu fez com que o seu legado fosse transmitido durante séculos. 

Tal como já foi mencionado as obras de Teócrito tiveram também uma enorme influência no autor que abordaremos a seguir. Vergílio foi um poeta romano que escreveu, não só, mas também, sobre temáticas bucólicas, para um público constituído por um povo cansado das disputas civis e da vida citadina, um público que necessitava de uma forma de alcançar a paz interior e de encontrar um local de conforto cultural e referencial. Vergílio também segue os vários τόποι deste género literáriotendo algumas diferenças em relação a Teócrito, como já fora mencionado, e dessa forma acabou por consolidar uma tradição que vamos encontrar noutros autores. Estes dois autores mesmo com as suas diferenças foram moldando as bases para a tradição e para a transmissão do género bucólico. 

Earth or The Earthly Paradise  1621
by Jan Brueghel the Elder

Por fim, concluímos dizendo e estabelecendo que a poesia bucólica é mais do que uma herança, é mais do que um género literário e conseguimos observá-lo quando nos debruçamos sobre a época em que Teócrito e Vergílio escreveram. Ela tem um papel fundamental nas culturas e serve de inspiração para muitos outros géneros literários que agora se influenciam neste, ao contrário do que acontecera no início, e continua a desempenhar um papel importante na nossa cultura. Como mencionei no início, em tempos de guerra e de conflitos, como estes a que assistimos hoje, a literatura é uma das nossas melhores aliadas.

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A Falácia de “O Lado Errado da História“

Viceja no discurso público actual uma expressão extraordinariamente sectária quer a nível coloquial quer a nível filosófico: o “lado certo” e o “lado errado” da história. A primeira vez que alguns de nós se recordam de a ouvir com clareza e despudor atirada por um líder político contra os seus adversários foi pela boca de Barack Obama, algures durante os seus mandatos como presidente dos Estados Unidos, entre 2008 e 2016. Não é o único a proferi-la, sendo a expressão popular a partir de certos períodos do século XX, e estando em uso crescente desde então. É mais prefrerida entre políticos progressistas do que entre nacionalistas e conservadores, embora também se encontrem casos do seu uso nestes — talvez por mimese dos primeiros. E pode parecer, à primeira vista, para a pessoa comum, simultaneamente um adágio que tem o seu sentido, dado a facilidade em reconhecer a existência universal de conceitos como o bem e o mal, mas,por outro lado, um enunciado algo abusivo quanto à aplicação dessas mesmas categorias à história e aos seus actores de forma sistemática. Vejamos como.

Em primeiro lugar, várias condições são imprescindíveis para achar que tal expressão possa ter o mínimo de relevância e credibilidade: primeiro, é preciso crer em tal coisa como “a história” não só como um conceito minimamente correspondente a algo de concreto, mas também como um processo; depois, é preciso crer que esse processo não é apenas arbitrário ou aleatório mas representa um devir que em si mesmo é “progressivo”; e depois é preciso crer em tais coisas como o “bem”  e o “mal”, o “certo” e o “errado”, aplicadas a esse mesmo processo ou ao sentido que o interlocutor está a dar ao mesmo.

Em segundo, ao contrário do que se possa pensar, nem sempre, nem em todas as culturas, se achou que o tempo tem um “progresso”, ou sequer que tem um princípio e um fim — na cosmogonia aristotélica isso não existe — e, portanto, que exista tal coisa como uma “história” enquanto processo de auto-melhoramento constante. A origem moderna da ideia de um “progresso” na história pode ser atribuída ao filósofo Hegel e à sua fórmula dialéctica de tese-antítese-síntese, como um processo transversal a toda a vida que nos proporciona um melhoramento e uma evolução das coisas humanas. Também a Comte, ligeiramente mais tardio, se pode atribuir a popularização entre os eruditos de uma certa noção de história como rpocesso de melhoramento da acção e do intelecto humano. Todos estes conceitos são filhos do iluminismo, e todo aquele que os invoca está a falar na mesma tradição. Por último, Karl Marx dá a essa noção um sentido absolutamente materialista e económico, que não é necessariamente aquele que domina a maior parte dos actores que hoje invocam o conceito. Não deixa de ser certo que onde encontremos um progressista, um descendente do iluminismo, ou um marxista em específico, encontaremos muito provavelmente alguém familiarizado e enamorado do conceito dos “lados certos” e dos “lados errados” da história.

No entanto, o uso concreto do termo é crescente somente a partir da segunda metade do século vinte, com poucas ocorrências antes. Supõe-se que possa ser encontrado de forma críptica noutros enunciados, ou associado a contextos completamente diferentes. Certo é que a sua popularização em grande escala parece recente.

Autores modernos, tanto conservadores como progressistas, deixam-se capturar por esta fé de modos diferentes, como podemos observar nos casos de Obama, um natural produto do modo de pensar progressita, mas também de Ben Shapiro, conservador contemporâneo, que não tem pejo em convocá-lo para o título de um dos seus livros. Se para o conservador a ideia de um progresso advém provavelmente de uma teleologia de inspiração divina, para o progressista o processo faz parte das leis naturais. As duas coisas misturam-se e, neste início de novo milénio, voltam a encontrar-se, depois da separação artificial operada no advento do iluminismo, com a ideia de que existia uma teleologia metafísica, supersticiosa, infundada, não empírica, derivada do divino enqunato mitologia, e outra teleologia secular, empírica, científica, sistematizável e redutível a unidades mínimas. Hoje, são duas saloiadas quase idênticas.

Em conclusão, nada há de por si só errado em apontar um lado certo e um lado errado da história, mas convém não fingir ou não assumir ou não presumir que se trata de um conceito universal, objectivo e inquestionável, e que não tem uma origem cultural — e histórica — precisa. Não existe, por si só, nenhum “lado errado” nem “lado certo” da história, nem existe por si só um “progresso” na história, nem existe, por si só, uma “história” nesse sentido. O que existe, de forma mais ou menos universal mas não necessariamente objectiva, são os conceitos do bem e do mal, transversais a todas as culturas. Nalgumas, o que se entende objectivamente por tal coisa pode ser exactamente o oposto do que se entende noutras. E a aplicação desse binómio do bem e do mal ao vago, hipotético e completamente determinado conceito de “história” é tudo menos objectiva. A conversa do “lado certo” e do “lado errado” da história resume-se, assim, a uma mera retórica populista e demagoga que só não é reconhecida como tal porque já nos habituámos à mesma.

Ortega e o Perspetivismo

“El hombre está condenado a ser novelista” (Uma travessia por Ideas y Creencias). Texto de António Rafael Rodrigues.

“A fé é o instinto da ação”

Bernardo Soares

INTRODUÇÃO

Na sua obra “Ideas y Creencias”, José Ortega y Gasset proporciona uma reflexão fundamentada na oposição dos dois termos apresentados no título. É através do estabelecimento de distinções entre esses dois conceitos que Ortega mergulha mais profundamente nas camadas da realidade e na forma como esta é percecionada, legando-nos uma tese passível de ser designada como perspetivismo, ainda que esse termo não seja utilizado neste texto. Nesta obra deparamo-nos com interrogações sobre as atividades humanas (ciência, arte, etc.) bem como estas podem ser inseridas na nossa compreensão da estrutura da realidade, sendo que nos iremos perguntar constantemente sobre em que medida o Homem consegue agarrar o “em si mesmo”. Não sendo exatamente o caso, não consigo deixar de encarar a história de Tântalo como adequada para o que nos acontece na vida deste ponto de vista, ou para me aproximar das imagens do próprio autor, a ideia de que o Homem é um náufrago a morrer de sede rodeado por um imenso mar. O Homem está também ele inundado de realidade por todos os lados, mas a medida em que é ou não capaz de a ingerir é muito problemática. O título escolhido, que é uma citação do próprio texto de Ortega, é, desde já uma pista para a interessante proposta do autor. Procurarei com o auxílio de Ortega mostrar como todos nós somos irmãos da personagem de Daniel Defoe e estamos perdidos numa ilha de enigma e em como a vida humana é um jogo de sobrevivência no interior desse enigma.

OS NÁUFRAGOS SOMOS NÓS

Ortega começa o seu escrito por nos apresentar uma tese que temos possivelmente facilidade em aceitar: Para compreender quer um homem, quer a sua vida, devemos procurar averiguar quais são as suas ideias.

Podemos desde já extrair daqui alguns pontos problemáticos e inquietantes, por exemplo a pergunta sobre o facto de poder ser eu capaz ou não de fazer uma arqueologia das minhas próprias ideias, isto é, reconstituir os passos que levaram uma ideia até mim e saber qual a sua origem primária. Mais, se a resposta for não, o que me parece bastante plausível, se não serei eu inconscientemente um país colonizado de algo ou alguém que eu desconheço.

Ortega verificou justamente isto mesmo, que os inquéritos às ideias de um Homem e de uma época são insuficientemente claros e é para nós muito difícil saber se lidamos com ideias originais ou insufladas por terceiros. Este ponto não se restringe quanto a mim a um problema de eficácia do inquérito, mas toca uma questão mais funda que procura saber se é efetivamente possível um pensamento autêntico e exclusivo, ou se em última instância o pensamento tem um caráter anónimo (e sem donos) e público (qualquer mente tem hipoteticamente a possibilidade de alcançar esta ou aquela ideia). Trata- se de um problema difícil, no entanto não me privo de apresentar um exemplo bastante conhecido no meio filosófico que poderá deixar alguns esclarecimentos: Quer Isaac Newton, quer Leibniz, desenvolveram o cálculo diferencial e integral de forma independente. Existem também histórias conhecidas de como certas ideias surgiram de forma inusitada, como aconteceu no banho de Arquimedes, o que demonstra uma faceta imprevisível no processo humano de “ter ideias”.

A ideia “surge” ao indivíduo vivo, sendo que para este a vida pré-existia a ela. No entanto Ortega constata que para a vida ser viável esta tem que se constituir e montar já sobre certas crenças básicas, uma espécie de inventário de leis não escritas do código legal da travessia de viver. A vida humana carece de um fundamento do mesmo modo que a planta carece de um solo que a sustenha.

Ortega, como se sabe, não fica por este âmbito, o único requisito primordial do viver não é o de frutificar no seio de um fundamento. Um outro fator crucial pode ser encontrado nas ferozes palavras de Bernardo Soares: “A (minha) vida é como se me batessem com ela.” Ou seja, viver é ter que se ver com o mundo e consigo mesmo. A vida é uma constante tentativa de resistir ao embater das vagas que nos ameaçam de forma contínua com o seu poder, poder esse que surge de forma camaleónica, com diferentes graus de força, subtileza e formas de aparição.

A ideia central aqui será a de que a vida tende, pelo menos do nosso ponto de vista, para o caos, e ao caos chegará se nada fizermos para lhe resistir, os objetos têm uma propensão natural para a desordem se não existir uma força que a contrarie, existe uma espécie de entropia existencial, a casa abandonada que tende a tornar-se inabitável, o mendigo que não se alimenta e que começa a perder as forças e a tomar uma configuração esquelética ( a vitalidade começa progressivamente a despedir-se dele), em suma, a vida coloca a obrigação de uma manutenção e reação às suas agressões sob pena de se tornar inviável com o passar do tempo. Uma pintura que creio ilustrar perfeitamente, isto é, A Vida e a Morte (1916) de Gustav Klimt. Nela encontramos uma montanha humana de figuras entrelaçadas, poderiam ser descritas como a Família Humana, que resiste e se ampara na medida do possível frente à violência e manifestação da outra figura que aparece ao seu lado, a exímia jogadora de xadrez do filme de Bergman, o entrópico chicotear desagregador, a Morte.

Mas Ortega dá em seguida um passo que vai além destes dois pontos cruciais na arte de viver. Este Mundo e este “Si Mesmo” com o qual temos que lidar são já eles próprios uma interpretação, são na realidade ideias sobre o Mundo e sobre o “Si Mesmo”.

Torna-se indispensável apresentar o conceito orteguiano de crença:

“Estas «ideias» básicas que llamo «creeencias» — ya se verá por qué — no surgen en tal día y hora dentro de nuestra vida, no arribamos a ellas por un acto particular de pensar, no son, en suma, pensamientos que tenemos, no son ocurrencias ni siquiera de aquella especie más elevada por su perfección lógica y que denominamos razonamientos. Todo lo contrario: esas ideas que son, de verdade «creeencias» constituyen el continente de nuestra vida y, por ello, no tienen el carácter de contenidos particulares dentro de esta.” (Pág.16)

Ou seja, e para usar um termo caro à filosofia de Ortega, uma crença consiste numa ideia radical, ao ponto de ser confundida pelo sujeito com a própria realidade. Importa notar que o termo radical usado aqui está muito mais próximo do seu significado original do que a forma como o mesmo é entendido hoje, algo que não é difícil de entender à luz do que já vimos. A crença é radical na medida em que ela é uma raiz da existência do sujeito, podemos, portanto, dizer que existe um tipo de ideias mais superficiais e outras mais fundas e estruturais, que são as crenças, utilizando a metáfora da árvore que aqui se parece impor, ideias-folha e ideias-raiz. Assim como acontece com as partes que compõem a árvore, estas ideias assumem no Homem além de posições diferentes, papéis igualmente diferentes.

Ortega apresenta-nos então neste momento uma terminologia renovada:

  1. As ideias-ocorrência, que incluem a ciência, que são produzidas, discutidas, propagadas, sublinhando até que podemos morrer por elas. O que não podemos é viver delas, são obra nossa, supõem já a nossa vida.
  2. As crenças. Não as fazemos, nem fazemos propriamente com elas nada, estamos nelas, vivemos delas, algo que não acontece em 1.

Em suma, estamos na crença, já a ideia-ocorrência é algo que se pode ter ou suster, mas não algo que nos tem ou sustém. Neste ponto Ortega estranha que se tenha dado o mesmo nome a duas coisas tão distintas, o que é sintomático de um olhar confuso para dois problemas de natureza interligada, mas diferente.

As ideias são nesta nova perspetiva tudo o que aparece na nossa vida em resultado a nossa ocupação intelectual, como por exemplo as que a ciência

produz para explicar um conjunto de fenómenos, ou as ideias a que um crítico literário recorre para tentar traduzir aquilo que leu numa determinada obra. As crenças por outro lado são como que os motores silenciosos do viver que operam no fundo de nós e nos permitem seguir adiante, ratos de porão que se escondem e movem no barco de nós sem que nos demos conta disso.

Mantemos uma relação primordial com as crenças e secundária com as ideias, que se pode compreender analisando a própria estrutura da vida humana, o Homem pensa em determinadas coisas e conta com determinadas coisas, e embora possamos traçar algumas ligações, “pensar em x” e “contar com x” não são posturas existenciais equivalentes. Ortega vai mais longe nesse aspeto e acusa o passado da Filosofia ter sido responsável em muitos momentos por estabelecer confusão entre estes termos, e ter invertido o valor respetivo dos mesmos. Não pensamos propriamente que haja rua quando saímos de casa, contamos com isso, de modo que se a rua deixasse de existir seria inimaginável o nosso espanto.

“Analice el lector cualquier comportamiento suyo, aun el más sencillo en aparencia. El lector está en su casa y, por unos u otros motivos, resuelve salir a la calle. ¿Qué es en todo este su comportamiento lo que propiamente tiene el carácter de pensado, aun entendiendo esta palabra en su más amplio sentido, es decir, como conciencia clara y actual de algo? El lector se ha dado cuenta de sus motivos, de la resolución adoptada, de la ejecución de los movimientos con que ha caminado, abierto la puerta, bajado la escalera. Todo esto en el caso más favorable. Pues bien, aun en este caso y por mucho que busque em su conciencia no encontrará en ella ningún pensamiento en que se haga constar que hay calle.” (pág.20)

Ortega avança que o psicólogo irá reduzir este problema a uma questão de hábito, na sua compreensão mais pobre, aventando eventualmente com a tese do subconsciente, perdendo de vista segundo este autor o nervo do problema, a confusão e inversão da ordem dos termos a que fiz já alusão.

Temos então nesta obra presente uma crítica ao que o pensador espanhol caracteriza como intelectualismo, que segundo este tende a considerar o mais eficiente na nossa vida como o mais consciente. Sendo importante vincar que Ortega olha para o problema sempre deste prisma ao longo do seu texto, numa

clara atenção ao viver, à inseparável união entre o saber humano e a sua travessia vital, mostrando, como lhe é aliás amplamente reconhecido, uma atenção que coloca o fator vida no topo das prioridades. É neste ponto decisivo que Ortega vê os intelectualistas falharem redondamente, o que é mais decisivo nas nossas vidas é antes pelo contrário aquilo que está latente, aquilo com o qual não pensamos, mas com o qual contamos.

Isso leva-o a fazer uma provocação pertinente, perguntando se não será já claro que é um enorme erro querer compreender um Homem ou uma época à luz das suas ideias, em vez de prestar atenção sobretudo às suas crenças. Voltamos aqui à primeira formulação que apresentei, agora vista com a bipartição do conceito de ideia que Ortega traça. A verdadeira e correta análise possível realiza-se somente mediante uma sondagem ao subsolo da crença.

Podemos chegados aqui avançar mais um passo, retirando uma conclusão de índole ainda mais radical: Os nossos pensamentos não têm valor de realidade em sentido próprio. E é defendendo esta ideia que chegamos ao Ortega mais polémico e telúrico.

Ficamos assim com a pergunta sobre o que significará concretamente então a veracidade ou falsidade de uma ideia ou teoria, sendo que sabemos desde já que uma teoria por mais verídica que seja só existe enquanto é pensada, daí necessitar de formulação.

“Una idea es verdadera cuando corresponde a la idea que tenemos de la realidad. Pero nuestra idea de la realidad no es nuestra realidad. Esta consiste en todo aquello con que de hecho contamos al vivir.” (pág.23)

Não temos muitas vezes ideia das coisas com que estamos a contar, mas essa é que é efetivamente a realidade. Tomo agora a liberdade de recorrer a exemplos clássicos para ilustrar este ponto. Qualquer um de nós contará, pelo menos eu presumo, com a presença constante dos elementos tempo e espaço. Não obstante, quando nos perguntam em que consiste esse tempo e espaço, a resposta será habitualmente embaraçosa e o tempo que levará a ser formulada será muito provavelmente também ele embaraçoso em comparação com a aparente familiaridade que temos com os termos tratados. Poderíamos dar respostas altamente vagas e comprometedoras como por exemplo, que o

tempo é aquilo que se mede com relógios, e o espaço aquilo que se mede com réguas. Poderíamos dar respostas mais sofisticadas e poéticas, mas que ainda assim não conseguem abarcar satisfatoriamente as realidades tão simultaneamente próxima e misteriosa que estamos a tratar. Um poeta diria que o Tempo é o Devorador de Pessoas, Animais, Montanhas e Impérios, ou que o Espaço é o Anfitrião Invisível de todas as coisas.

A intuição poética permite-nos obter algumas respostas com algum valor, mas ainda assim imprecisas e incapazes de esgotar por si só toda a totalidade do que está a ser descrito. No entanto, Ortega não deixa de lhes conferir importância. Notemos atentamente uma outra dimensão deste âmbito, a científica, que é contraintuitiva e não corresponde à nossa íntima e silenciosa crença do que é o tempo e o espaço. Por exemplo de acordo com a Teoria da Relatividade o Tempo não é absoluto, sendo relativo à velocidade e à gravidade, além disso um objeto massivo como uma estrela é capaz de criar uma curvatura no Espaço-Tempo (estas duas dimensões são relativas uma à outra para a Ciência Contemporânea). Ou uma ideia que me parece ainda mais bizarra, ainda que aceite por quase toda a comunidade científica, a de que o espaço não é estático, mas que se encontra em expansão, para onde se poderá expandir o espaço se esse lugar onde ela passa a estar não for já ele também espaço é pergunta para a qual não encontro resposta. Embora Ortega não recorra a estes casos concretos tomei essa liberdade uma vez que me parece ser útil para compreender o que veremos adiante.

O pensador espanhol coloca em cima da mesa o problema que se impõe segundo ele na sua época: O Homem começou a não saber o que fazer com as suas ideias. Uma preocupação que conheço de forma mais ou menos explícita, e com as suas peculiaridades, em outros autores, nomeadamente em Hannah Arendt que como podemos evocar, lança o provocativo aviso de que caminhamos para um estado em que não saberemos do que estamos a falar, neste mundo que Ortega descreveria como o das nossas ideias.

Algumas dúvidas começam a ciciar de forma premente: Que relação mútua será possível entre estas ideias e crenças? De onde vêm estas últimas e como se formam?

Um ponto que é importante não esquecer desde já é que se trata de um equívoco comprometedor chamar crença à adesão que se suscita na nossa mente sob a forma de combinação intelectual. O pensamento, científico, ídolo sagrado dos nossos tempos, não tem este estatuto primordial.

“Lo evidente, por muy evidente que sea, no nos es realidad, no creemos en ello. Nuestra mente no puede evitar reconocerlo como verdad; su adhesión, ese reconocimiento de la verdad no significa sino esto: que, puestos a pensar en el tema, no admitiremos en nosotros un pensamiento distinto ni opuesto a ese que nos parece evidente. Pero… ahí está: la adhesión mental tiene como condición que nos pongamos a pensar en el asunto, que queramos pensar.” (pág.24)

Este ponto é crucial, está nas nossas mãos pensar nisso ou não, depende de uma intervenção da nossa vontade, e, nesse sentido, não é algo sério. A Realidade é para Ortega oposto, isto é, aquilo com que contamos quer queiramos quer não, é aquilo que nos é imposto, a tal vida que é a nos baterem com ela.

Além deste aspeto, o próprio homem em alguns casos reconhece ele mesmo que o seu intelecto se exercita apenas em matérias questionáveis. A verdade das ideias alimenta-se para Ortega, por mais paradoxal que pareça, da sua questionabilidade e por isso diz que a ideia precisa da crítica como o pulmão precisa de oxigénio.

O Homem é um fabricante de ideias, que desejavelmente se apoiam umas nas outras, sendo que a solidez de uma ideia se mede em boa parte pelo valor da relação que esta mantém com as demais que a rodeiam.

Entre nós e as nossas ideias há uma fronteira intransponível que vai do real ao imaginário. Das ideias podemos demarcar-nos, das crenças não. Com as ideias mantemos uma relação de convivência habitualmente descomprometida, embora já tenha citado casos em que efetivamente existem pessoas que escolham morrer pelas suas ideias, casos esses, sublinharia, raros, mas no caso das crenças a relação é claramente de dependência, precisamos delas para a travessia da nossa vida como o nosso corpo precisa de água e pão.

Deixemos estas reflexões um pouco em descanso agora e foquemo-nos num outro alvo muito interessante, que não deixa de estar relacionado com isto e no qual Ortega faz mira e dispara com acerto: O facto de o Homem ter habitualmente uma dificuldade, só superada eventualmente por intervenção do esforço, para conciliar o seu pensamento com o seu comportamento. Será desnecessário dizer como esta consideração é altamente realista, poderíamos observar por exemplo num rosto conhecido da Filosofia Política esse fenómeno, Marx, que terá defendido a abolição das heranças no seu pensamento filosófico oficial sendo que ele próprio aceitou uma herança substancial na sua vida prática, será ainda assim injusto particularizar este caso, serve apenas para ilustrar como o Homem está naturalmente disposto para a hipocrisia e precisa de um rigor e esforço substanciais para corrigir essa disposição. Não é por acaso que, ainda na Política, os regimes, em particular os mais autoritários, tenham tido ao longo da História noção que não é no mero convencimento no âmbito das ideias da população que se produz comportamentos em conformidade com as conclusões e ideias subscritas, como tal nunca existiu um regime político que não tivesse outros recursos, como o Direito ou a Violência (que está sempre em equação mesmo que em último recurso).

Ortega sente necessidade de vincar que não se pode negar, não obstante tudo o que foi dito, que usualmente nos regemos hoje segundo prescrições científicas. O motivo para isso é uma crença na razão e na inteligência, uma fé hoje sobretudo dedicada à Nossa Senhora Ciência. O Homem acredita na eficiência do intelecto, pelo menos em algum grau, aliás não me parece plausível que se desse tamanho empreendimento sem que existisse a crença na possibilidade de em última instância se desfazer o nó da realidade.

Estará Ortega a correr o risco de se estar a contradizer? Não me parece que seja o caso. Para entender como não há aqui contradição temos que distinguir “fé na inteligência” e crença no que essa inteligência produz. Um olhar grosseiro e impaciente para este texto não possibilitaria perceber a diferença do que está a ser aqui dito. É preciso deixar claro que o Homem é hipócrita no sentido estrutural e convive bem com essa hipocrisia cognitiva e existencial, isto é, com ideias que desmentem a sua existência prática. Parece-

me oportuno citar Montaigne, mais concretamente, Da Inconstância das nossas acções:

“Alguma razão parece haver no julgar um homem pelas mais comuns acções da sua vida, mas, atendendo à natural instabilidade dos nossos costumes e opiniões, amiúde se me tem afigurado que mesmo os bons autores erram ao obstinarem-se a conceberem-nos como um todo coerente e constante (…)”. (pág.140)

Aqui Ortega é altamente socrático, a nossa crença refere-se à coisa que entendemos por inteligência, sendo que com um pequeno interrogatório da mosca irritante chegaríamos à conclusão de que não conhecemos minimamente o cavalo em que estamos a apostar o nosso ouro conceptual. Isso é fácil de entender se atendermos ao seguinte: Se a nossa fé na inteligência estivesse diretamente ligada a uma fé nas ideias dela decorrentes, não ocorreria o peculiar fenómeno desta sobreviver a terramotos e revoluções teóricas, as tais mudanças de paradigma na linguagem de Kuhn, como efetivamente ocorre. Se existisse uma correspondência direta entre a nossa fé na inteligência e uma crença em tudo o que a “nossa” inteligência produz, ambas as crenças já teriam caído em forma de castelo de cartas.

O Homem, por muito evoluído e crítico que se queira julgar quando se vê ao espelho, é no fim das contas sempre um crente, as suas raízes existenciais alimentam-se de crenças, a crença é o húmus da existência humana, quer o sujeito queira, quer não (a crença é por este motivo parte do que entendemos por Realidade, é algo inevitável e independente da vontade individual). Não obstante tudo isto, creio importante realçar que Ortega faz questão de deixar em aberto a possibilidade da existência de um fundo metafísico que nem as raízes das crenças consigam penetrar, mas por razões aqui tornadas óbvias é difícil dizer muito sobre tal hipotética e possível camada que não nos é diretamente acessível.

O leitor certamente poderá estar a estranhar uma falta de foco sobre a questão da dúvida. Ortega y Gasset defende que as nossas crenças se abrem por vezes à dúvida (quando essa dúvida não é meramente metódica e intelectual ganha uma dimensão séria), a dúvida é uma figura da crença, apresenta-se no mesmo estrato que esta na arquitetura da vida.

Também se está na dúvida, só que esse estar é assustador, a dúvida é um monstro para a vida, trata-se do abismo, da queda, da instabilidade. Este é um dos pontos mais interessantes deixado pelo autor: A dúvida não seria verdadeira se não acreditássemos nela, duvidar de uma dúvida faria com que ela perde-se o seu efeito, o que explica o que já foi dito, que a crença e a dúvida partilham o mesmo território.

É comum não entendermos a dúvida porque nos esquecemos deste aspeto, isto é, em que medida esta nos põe diante de uma realidade e tem muito de crença. A dúvida põe-nos frente a uma realidade ambígua, bicéfala, instável. Duvidar é por isso habitar o terramoto. Colocam-se em esferas opostas o mar de dúvidas e a terra firme da crença. Sendo que o Homem que duvida é um Náufrago.

Importa deixar claro que o Império da Crença não está de todo beliscado, quem duvida está entre crenças antagónicas, sem saber onde se agarrar, mas aquilo que lhe permitiria a salvação seria sempre a crença. O Homem que reage e tenta sair da dúvida vê-se no problema de não saber o que fazer, o seu salva-vidas, o seu recurso de emergência é esse estranho fazer humano chamado pensar.

Aqui entramos num ponto decisivo, percebemos que nos buracos das nossas crenças habitam as ideias. As ideias são, portanto, uma espécie de segunda instância a que o lesado da vida recorre quando a crença lhe serve de defesa insuficiente. Como se faz isso? Fantasiando, criando mundos, ideia é imaginação. O verdadeiro, inclusivamente o cientificamente verdadeiro não é senão um caso particular do fantástico. A matemática brota da mesma raiz que a poesia. Deste modo, e com base em tudo o que temos visto, consigo concluir que é bastante plausível defender que a ciência não consegue ter de forma plenamente eficaz o sujeito como seu objeto de estudo.

Não conseguimos viver sem pensar que uma instância última pende sobre nós. Nos últimos séculos essa instância era a razão, as ideias. Mas Ortega aponta que essa ideia tem começado a vacilar afetando a estrutura da vida. Contudo, nesta fase em que faz sobretudo um diagnóstico sobre o seu tempo, Ortega deixa um sinal de esperança, se assim o quisermos entender, não será

possível que uma crença morra sem que uma outra nasça no seu lugar. Há, portanto, que fazer um diagnóstico do que se passa.

Voltemos um pouco atrás para recapitular: Quando caminhamos não tentamos passar através dos edifícios. Não temos que pensar se os muros são ou não impenetráveis. A nossa vida está montada sobre um amplo repertório de crenças, que nos poderia levar a um interminável e inesgotável inquérito sobre as mesmas. Quais são? Quantas são? Não fazemos ideia!

Somos além de tudo isto, obrigados a ter ideias sobre as coisas quando não existe uma crença a sustentá-las. Sobre esse estatuto de ideia, habitam toda uma fauna de diferentes espécies de ideias: Comuns, científicas, religiosas, políticas, estéticas, etc. Estas ideias atuam como remendos das nossas crenças, que correspondem para nós à realidade.

Ortega diagnostica, como aliás encontramos em outras obras suas, a ingratidão como o pior defeito humano. O ingrato esquece que a maior parte do que tem não é obra sua, é fruto do esforço de outrem. Ora o Homem, para piorar a situação, é tendencialmente ingrato, o que o impede de perceber a sua verdadeira condição. A ingratidão traduz-se em cegueira filosófica.

Para ilustrar este legado Ortega recorre ao exemplo da Terra, que pode ser aplicado a todas as outras ideias humanas, colocando em oposição duas conceções existentes da mesma, a Terra-Astro e a Terra-Deusa (neste caso Deméter), se quisermos, uma conceção de índole mais científica, outra religiosa, o que importa aqui é que não nos vemos obrigados a perguntar o que é a Terra, e o motivo disso é que recebemos respostas prontas a vestir.

Chegamos neste momento a uma conclusão importante, a realidade em que acreditamos viver é essencialmente obra de outros homens e não a autêntica e primária realidade. Não somos feridos desse modo pela vida com um disparo à queima-roupa.

A própria ideia da Terra como uma coisa, excluindo as especificidades das duas conceções apresentadas, é uma interpretação herdada, uma coisa é desde já algo distinto de um fantasma, corresponde, portanto, a um modo de ser e de comportamento.

Ortega conclui que devemos estar gratos aos nossos antepassados por não vivermos em terror permanente. O Homem produziu um arsenal de crenças que lhe permite viver sem estar em permanente pânico, muito mais decisivo que a domesticação do cavalo ou do cão está a domesticação da própria realidade, que no caso do Terra e restantes coisas não tem figura nem modo de ser, é puro enigma, embora estejamos vacinados de a ver assim.

A Terra não é em si nada de estável, quanto muito, podemos dizer que temos uma biblioteca de ideias sobre ela, bem como um repertório de facilidades e de dificuldades que esta nos impõe. Mas a realidade autêntica é puro enigma, véu (esta poderia a nossa crença aterradora, perigosa, autêntica).

Face ao enigma pré-intelectual, o Homem imagina mundos com o seu aparato intelectual (nasce o mundo físico, matemático, religioso, moral, político, poético, etc.) dotados de uma ordem que não é encontrada no choque cruel com a realidade. É neste momento que aproveito mais uma vez a figura do náufrago e proponho uma outra para este processo que Ortega descreve, o Homem torna-se cartógrafo, procura na medida do possível traduzir e mapear um mundo que lhe aparece selvagem e desconhecido.

Estes (gosto de lhes chamar) mapas são mundos interiores, nossos. São na medida do possível, familiares, no sentido em que neles encontramos harmonia, ordem, e segurança, por mais insondável que seja o relevo que eles descrevem. Os problemas do intelecto nunca são terríveis, ao contrário do que acontece com a realidade constituída como enigma.

O Homem refugia-se da Esfinge abrigando-se dentro de si, ao contrário do animal que está sempre fora de si. O que separa o Homem do animal é que o primeiro tem interioridade e se esconde na mesma. Estamos em condições de identificar agora a vida humana como uma vida-dupla (uma valsa dançada entre a Esfinge e o Homem Fabricante de Ideias).

O que me parece mais curioso é, notemos, que estas realidades imaginárias existam, isto é, também são parte da realidade total e enigmática, e não custa lembrar que nós também. O Enigma é de tal modo tirânico que inclui no interior de si as suas tentativas de solução.

Chegamos neste ponto a uma oportunidade de resposta sobre qual é a função das ideias na vida humana. Sendo que uma crença é uma ideia que deixa de ser tomada como tal e passa a ser incorporada na vida (uma carapaça existencial), é bom lembrar que em dado momento foi a ideia de alguém (a força intelectual não pode ser subestimada).

Ortega faz também no seu texto uma reflexão sobre como se relacionam os diversos mundos interiores, afirmando que o triângulo e Hamlet têm o mesmo pedigree, isto é, são fantasmas. Tornar as ideias como algo mais que fantasias seria confundir o mundo exterior com o interior. A arte não é neste sentido e, como foi muitas vezes entendida, uma imitação, sendo antes um novo mundo produzido pela imaginação (obviamente que não totalmente separado do Enigma). Estamos agora finalmente em condições de entender o título deste trabalho, o Homem está efetivamente condenado a ser um novelista.

Esta conceção da realidade como Enigma poderia inspirar o levantamento da bandeira branca relativamente à esperança de voos mais altos. Ortega, contudo, não chega ao ponto de dizer que nada de real se aprende durante uma vida humana. Não, os nossos erros, os projetos falhados, esses temos como possibilidades riscadas daquilo que será o Enigma, o nosso salão de conquistas evoca gloriosamente todos os nossos erros passados.

O filósofo de Madrid termina mostrando como embora hoje consideremos hoje o mundo da ciência mais sério do que o religioso ou o poético, tal não se verificou sempre assim, a hierarquia dos mundos foi variável ao longo da História Humana, sendo que a formação destes Mundos são sempre um resultado de uma queda, de momentos de dúvida, e como tal a predominância de um ou de outro num dado momento traduz os problemas que gritam com maior premência nessa altura. Ortega não apresenta, pelo menos neste texto e na sequência desta qualquer ideia de Progresso no sentido em que muitos autores o entendem, propondo por exemplo uma sequência de estágios históricos de aperfeiçoamento e desmerecimento dos anteriores (por exemplo Teológico, Metafísico, Científico) essa postura chamou a minha atenção e teve direito ao meu interesse. Por fim Ortega deixa a curiosa nota de que os intelectuais julgam ter descrito essa pluralidade de direções, bem como a escolha das mesmas, de forma eficaz, sendo que não o fizeram de facto e esse trabalho continua incompleto e carece de revisão.

CONCLUSÃO

Chegados ao fim desta travessia que nos conta a história dos nossos naufrágios e da nossa tendência natural para a cartografia podemos compreender melhor a citação de Bernardo Soares com que comecei, “A fé é o instinto da ação”. Com o auxílio deste texto e de Ortega é possível retirar uma porção maior da realidade que estas palavras mágicas pretendem proferir e esconder no seu grau extremo de concisão. Sem a crença o existir é inviável e como tal o agir. Foi possível igualmente delinear fronteiras, num exercício de acuidade, entre coisas às quais damos o nome de ideias e que são claramente distintas. Essencial também foi reter a existência como uma tarefa de resistência que o Homem foi legando ao Homem face à ferocidade do Enigma.

BIBLIOGRAFIA

GASSET, José Ortega y. Ideas y Creencias. Madrid: Ediciones de la Revista de Occidente, 1970

SOARES, Bernardo. Livro do Desassossego. Lisboa: Planeta DeAgostini, 2006 MONTAIGNE, Michel de. Ensaios Antologia. Lisboa: Relógio D´Água, 2016

Palavras Mal Usadas #3 — “Gaslighting”, “Mansplaining” e afins

Destacamos hoje novamente um capítulo da rubrica que por vezes evocamos como lembrete de correcção geral em relação a alguns vocábulos de uso comum equivocado. Conhecidas como “chavões”, “buzzwords” ou até mesmo “conversation stoppers”, estas palavras ou lexemas conhecem, nos tempos actuais, usos abusivos desligados dos seus significados originais ou até mesmo total ausência de honestidade dos mesmos.

Começamos com a palavra “gaslight”, hoje frequentemente usada para indicar quando alguém desvaloriza e/ou modifica os argumentos de outro, sugerindo ou indicando frontalmente que a lucidez do mesmo está em causa. Comumente este processo é dirigido da parte de um homem a uma mulher; a palavra tem origem no filme de 1948 intitulado precisamente Gaslight, em que um marido convence a mulher de que ela está louca. O problema é que — muito à imagem da palavra “mansplaining”, a segunda desta nossa lista — o conceito está a sofrer severos abusos no sentido de ser convocado simplesmente quando alguém não gosta de ver os seus argumentos desmontados.

Um político australiano explica a uma colega de comité a desadequação do uso de “mansplaining”.

A terceira é “micro agressões“, conceito que se popularizou com as gerações “millennials” e “Z”, e que aparentemente implica o uso de pequenas palavras ou expressões que fazem alguém sentir-se não exactamente nem necessariamente “ofendido” mas sim desconfortável, entre situações que podem ir desde atribuição acidental de género errado, uso de palavras de conotação sexual ou racial, ou simplesmente levantamento de tópicos para discussão com os quais a pessoa não se sente confortável. Ora em relação a isto é importante lembrar dois pontos: primeiro, é possível que grande parte da sensibilidade levantada em ocasiões que se enquadram neste tipo pode advir de severas deficiências no entendimento de como a linguagem, nomeadamente a metáfora, funciona; e, em segundo lugar, alguém que leve a sério o poder “agressivo“ de coisas insubstanciais como as palavras provavelmente nunca terá levado um soco na cara.

Um divertido excerto da série de comédia Seinfeld, ilustrando uma série de mal-entendidos relacionados com linguagem “micro-agressiva” em relação a ameríndios norte-americanos.

Em quarto lugar, novamente um conceito que temos abordado sobejamente neste e noutros espaços e cujo abuso hoje está provavelmente num dos seus pontos mais altos de sempre; algumas das misturadas conceptuais que se têm levantado em relação a este tema envolvem a ideia, completamente racista aliás, de que não existe “racismo reverso“ e que a raça branca não pode, em teoria, sofrer do mesmo. Ora isso é completamente absurdo e qualquer pessoa versada em antropologia, por exemplo, além de qualquer pessoa com o mínimo de experiência de vida e honestidade, sabe que o racismo é um fenómeno universal, milenar e que é uma versão específica da aversão ao estranho que a espécie humana, assim como qualquer animal, possui como atavismo de defesa.

Uma divertida brincadeira de algumas crianças africanas com um forasteiro asiático, que facilmente pode ser interpretada como um acto de racismo.

O quinto caso é o do abuso da palavra “transfobia”, que mais uma vez parte dos mesmos capítulos invocados por pessoas com debilidades intelectuais e de carácter que usam e abusam covardemente de palavras acabadas em “-fobia” ou “-ista” enquanto “conversation stoppers” de características de superioridade moral. Ora importa notar duas coisas: primeiro, não é por alguém, caso fosse efectivamente o caso, ter realmente “fobia“ de alguma coisa ou ser “-ista” (racista, machista, “especista”, etc.) que tem imediatamente o seu estatuto de interlocutor invalidado, nem é por isso que deixa de poder eventualmente ter razão: é possível a um transfóbico, a um machista ou a um racista dizer coisas acertadas, envolvam ou não essas disposições mentais e morais. Logo parece óbvio que a classificação pejorativa é convocada por mera razão de covardia intelectual. Segundo, na verdade em 90% dos casos em que estas palavras, nomeadamente “transfobia”, são utilizadas, não colhem razão nenhuma: discutir se não é possível mudar de sexo, se o estado não deve validar isso, e se ninguém é obrigado a tratar outra pessoa por nome ou título nenhum que ela entenda que merece, se trata, por si só, de “fobia” de coisa alguma, mas sim de posições perfeitamente permitidas numa democracia liberal que não interferem com a liberdade de ninguém e que contêm, aliás, matéria crítica para importantes discussões.

A sexta questão está relacionada com a palavra e com o conceito de “patriarcado“: pensa-se frequentemente que a evocação do mesmo tem valor por si só e é auto-explicativa, mas isso está longe de ser verdade. Por exemplo, de modo objectivo podemos dizer que em muitas sociedades muçulmanas, ou até em micro comunidades de etnia cigana, existe um patriarcado no sentido de ser um homem o proprietário, o líder, o braço público e político, da família, e todos esses papéis estarem parcial ou totalmente interditos à mulher. No entanto, descrever as sociedades ocidentais na actualidade, em que não existe qualquer diferença a nível de legislação quanto ao estatuto da mulher, e que, meramente por existirem mais homens em certas posições de poder — não todas — do que mulheres, como um sistema de “patriarcado”, parece revelar um notório abuso. É importante que cada pessoa que convoca este conceito saiba explicar exactamente do que é que está a falar.

Em sétimo e último lugar, a palavra “efeminado“, que trazemos aqui também a par da complementar “másculo”, não exactamente como palavra mal usada mas sim como palavra e conceito mal interpretados, parte de uma tendência pós moderna de relativismo tosco que parece pretender negar que existem características de forma inerente tendencialmente femininas e tendencialmente masculinas na espécie humana; é perfeitamente possível um homem ser efeminado tal como é possível uma mulher ser masculina, e estas aplicações de algum alcance metafórico destes conceitos não são, primeiro, pejorativas por si só, embora possam ser em muitos casos, e, segundo, não encerram necessariamente nenhuma conclusão moral. É com estas palavras então que vos deixamos, para reflectir, e aceitando sempre sugestões de mais vocábulos que estejam a ser sujeitos a abuso coloquial.

Fotografia do bailarino Rudolf Nureyev, um artista que agrega poderosas qualidades de força masculina e de graça feminina.

Os Impactos da IA e da Automatização na Gestão de Recursos Humanos

Quatro alunos da Escola Superior de Atividades Imobiliárias escrevem-nos sobre as novas perspectivas e possibilidades que a introdução da inteligência artificial pode trazer à área dos recursos humanos da gestão de empresas. Texto de Alexandre Sanches – https://orcid.org/0009-0008-3676-2724, Aida Pereira – https://orcid.org/0009-0001-7801-2568, Diogo Crespo – https://orcid.org/0009-0001-9105-3444 e Alexandre Leitão – https://orcid.org/0009-0008-5325-7631, Escola Superior de Atividades Imobiliárias, Portugal. Orientação: Professora Doutora Fernanda Santos Mendes – https://orcid.org/0000-0003-2128-9918

RESUMO

Este estudo incide sobre o impacto crescente da Inteligência Artificial (IA) e da automação nos processos de Gestão de Recursos Humanos (GRH) das organizações. Analisa-se como estas tecnologias emergentes estão a redefinir as práticas da GRH, com particular enfoque no recrutamento, formação e gestão do capital humano.

Foi empregue uma metodologia que integra uma análise quantitativa, derivada de dados recolhidos através de um inquérito estruturado em escala Likert, e uma revisão sistemática da literatura. Esta abordagem dupla permitiu avaliar perceções sobre a implementação da IA em GRH e identificar tendências e padrões emergentes nos estudos recentes.

Os resultados evidenciam que a IA e a automação contribuem para uma maior eficiência nos processos de recrutamento e seleção, promovendo uma maior igualdade na identificação e progressão de talentos. Registou-se também um impacto positivo no desenvolvimento de competências e na formação profissional, sublinhando a importância de estratégias adaptativas para o desenvolvimento contínuo dos colaboradores.

Confrontamo-nos com desafios éticos e de privacidade relativos ao uso da IA nos RH. Salienta-se a necessidade de práticas robustas para a proteção dos dados dos funcionários e a prevenção de vieses e discriminação em algoritmos. A importância da intervenção humana nas decisões automatizadas é realçada, assegurando a manutenção de justiça e ética, bem como a necessidade de requalificação profissional face às alterações tecnológicas.

O estudo conclui que, apesar dos desafios, a IA e a automação oferecem oportunidades sem precedentes para a inovação na GRH. As organizações que integram estas tecnologias com os elementos humanos do trabalho estão mais bem preparadas para um futuro dinâmico e avançado tecnologicamente.

Palavras-chave: Inteligência Artificial; Automação; Gestão de Recursos Humanos; Recrutamento e Seleção; Formação Profissional; Desafios Éticos; Proteção de Dados; Viés em Algoritmos; Intervenção Humana; Requalificação Profissional.

INTRODUÇÃO

Num mundo onde a transformação digital tem vindo a acelerar, as organizações estão a recorrer cada vez mais à Inteligência Artificial (IA) e à automação para otimizar os seus processos e aumentar a eficiência operacional. No âmbito dos Recursos Humanos (RH), esta evolução é particularmente impactante nos processos de recrutamento e seleção, onde a promessa de um processo mais ágil, justo e livre de preconceitos se concretiza através do uso destas tecnologias. Este artigo explora as várias facetas desta transformação, desde a melhoria dos métodos de contratação até à previsão e ao desenvolvimento de carreiras, destacando tanto os avanços possibilitados pela IA e automação como os desafios éticos e morais inerentes à sua adoção.

À medida que a Quarta Revolução Industrial avança, deparamo-nos com uma nova era organizacional, onde a IA e a automação estão a transformar radicalmente os processos de RH. Estas tecnologias emergentes oferecem oportunidades sem precedentes para remodelar as práticas tradicionais de recrutamento e seleção, formação e desenvolvimento de colaboradores, e até mesmo redefinir as profissões dentro do âmbito de RH.

Este artigo abordará o potencial transformador da IA na gestão de talentos e experiência dos colaboradores, enquanto considera os desafios éticos e de privacidade surgidos com a tecnologia. Investigaremos a interseção entre humanos e máquinas, explorando como a requalificação profissional pode acompanhar as mudanças no mercado de trabalho e permitir uma coexistência harmoniosa entre trabalhadores e automação. A pesquisa objetiva fornecer insights para uma adaptação estratégica na era digital, destacando que a IA pode ter um impacto tão significativo no futuro quanto a eletrificação no passado.

METODOLOGIA

O objetivo desta pesquisa foi explorar profundamente o impacto da IA e automação nos processos da GRH dentro de organizações. Para alcançar este objetivo, adotou-se uma metodologia mista que englobou tanto a recolha de dados quantitativos por meio de um inquérito direcionado quanto uma análise qualitativa através de uma revisão sistemática da literatura relevante.

Inquérito Quantitativo

Desenvolveu-se um inquérito estruturado com uma série de afirmações centradas na IA e automação em GRH. Solicitou-se aos participantes que avaliassem cada afirmação usando uma escala Likert de cinco pontos, formulada especificamente para manter a neutralidade das afirmações, de forma a reduzir possíveis vieses. A análise das respostas envolveu o cálculo de médias, desvios padrão e quartis para cada item, proporcionando uma visão quantitativa detalhada sobre o impacto percebido da IA e automação em GRH.

Revisão Sistemática da Literatura

Paralelamente ao inquérito, conduziu-se uma revisão sistemática de literatura, focando em estudos publicados nos últimos dez anos. O objetivo foi a contextualização da implementação da IA e automação nos GRH, identificando padrões emergentes e tendências relevantes. A revisão obedeceu a critérios rigorosos de inclusão e exclusão, com uma ênfase particular em estudos que intersectam especificamente a IA e a GRH. A seleção inicial foi baseada na análise de títulos e resumos, seguida de uma avaliação mais detalhada dos artigos completos.

Utilizou-se um conjunto de termos-chave como “Inteligência Artificial”, “Automação”, “Gestão de Recursos Humanos”, “Digitalização em RH”, “Futuro dos RH” , “Impactos da Automação” e “Eficiência nos RH” combinados de forma estratégica para capturar um amplo espectro de publicações relevantes.

Limitações do Estudo

Reconhecem-se algumas limitações ao estudo, incluindo o potencial viés de seleção na amostra do inquérito e a restrição temporal dos estudos incluídos na revisão sistemática. Além disso, os resultados são condicionados pelas limitações inerentes aos métodos de recolha e análise de dados utilizados.

A combinação de dados quantitativos e qualitativos proporcionou uma base sólida para uma análise compreensiva do impacto da IA e automação nos GRH. Esta abordagem integrada permitiu não apenas entender as tendências atuais, mas também capturar as perceções e experiências dos colaboradores num campo que está em constante transformação e evolução.

REVISÃO DE LITERATURA

Impacto da IA e da Automação nos Processos de Recrutamento e Seleção

A introdução da Inteligência Artificial (IA) e da automação tem representado uma mudança substancial nos processos de recrutamento e seleção, afetando significativamente a eficiência e a justiça nestas áreas. Hemalatha, Kumari, Nawaz & Gajenderan (2021) destacam a evolução dos processos de recrutamento com a IA, notando que tecnologias como Processamento de Linguagem Natural[1], Visão por Computador[2], Automação e Augmentação[3] têm um impacto positivo significativo. Este impacto se reflete na economia de tempo e custos, aumento da precisão, eliminação de viés e melhoria na eficiência dos processos de recrutamento e seleção.

Além disso, Kshetri (2021) aponta que a implementação da IA na gestão de recursos humanos (HRM) melhora a eficiência dos processos de recrutamento e seleção. Esta melhoria não se limita apenas à eficiência operacional, mas também inclui a redução de vieses, que tem um efeito positivo no desenvolvimento e na retenção de funcionários. Isso sugere que a IA não apenas otimiza processos, mas também contribui para práticas de recrutamento mais justas e equitativas.

Por fim, Goncalves, Anastasiadou & Santos (2022) observam que algoritmos como K-means[4], clustering hierárquico[5], redes neurais artificiais[6] e redes neurais convolucionais[7] são atualmente utilizados para apoiar o processo de recrutamento. Estes algoritmos ajudam a reduzir a carga de trabalho e a manter padrões de responsabilidade elevados, indicando uma abordagem mais eficiente e precisa na seleção de candidatos.

AI na Formação e Desenvolvimento dos Empregados

A Inteligência Artificial (IA) está a desempenhar um papel fundamental na transformação dos programas de formação e desenvolvimento de carreiras, personalizando a aprendizagem e auxiliando na identificação de lacunas de competências e projeções de trajetórias de carreira. Esta mudança é evidenciada por várias pesquisas no campo dos recursos humanos (RH).

Zel & Kongar (2020) destacam que a IA, incluindo chatbots[8] e assistentes virtuais, pode melhorar significativamente a experiência digital dos funcionários em várias etapas, desde o recrutamento até o desenvolvimento da carreira e o envolvimento dos funcionários. Além disso, Maity (2019) observa que a IA está a liderar os processos de formação e desenvolvimento nas organizações, com um foco particular na aprendizagem personalizada e no alto envolvimento dos funcionários. Esta abordagem personalizada é crucial para atender às necessidades individuais dos funcionários e para o alinhamento com os objetivos da organização.

Por outro lado, Arora, Prakash, Mittal & Singh (2021) enfatizam que a IA tem um papel importante nas funções de RH, especialmente em termos de formação e desenvolvimento, melhorando a proficiência e a produtividade dos funcionários. (Boudi, Wakrime, Toub, & Haloua, 2022). mencionam que a IA é capaz de prever etapas relevantes da carreira dos funcionários com base nos seus perfis e trajetórias dentro da empresa, utilizando frameworks como Multi State-Actor[9] e Aprendizagem por Reforço Profunda[10]. Este aspeto da previsão da carreira é especialmente valioso na personalização da trajetória de desenvolvimento profissional.

Além disso, Jaiswal, Arun & Varma (2021) apontam que a adoção da IA exige que os funcionários desenvolvam as suas competências em áreas como análise de dados, capacidades digitais, cognição complexa, tomada de decisão e aprendizagem contínua. Isto indica que a IA não só oferece suporte à formação e desenvolvimento, mas também impulsiona a necessidade de desenvolvimento contínuo das competências dos funcionários para acompanhar as mudanças tecnológicas.

Substituição do Trabalhador Humano por IA, Automação e Robôs

A substituição do trabalho humano por IA, automação e robôs representa uma mudança significativa no mercado de trabalho e em diferentes setores, trazendo implicações profundas tanto para a força de trabalho quanto para as estruturas organizacionais.

Pandit & Naseem (2022) apontam que os avanços em IA, aprendizagem de máquina e robótica podem levar a um desemprego em massa, sendo que certos postos de trabalho estão mais propensos à eliminação. Os impactos financeiros desta automação variam entre os setores, com quase 50% das ocupações a enfrentar alto risco de automação na próxima década, segundo Xu, Yang, Rizoiu & Xu (2022). Isto implica que a automação, embora traga eficiências, também apresenta desafios em termos de segurança no emprego e potencial deslocamento de trabalhadores.

Vermeulen, Kesselhut, Pyka & Saviotti (2018) observam que, apesar do potencial de perda de empregos devido à automação em alguns setores, a criação de empregos em setores de manufatura e áreas complementares pode compensar esse impacto. Isto sugere que a transição para um ambiente de trabalho mais automatizado não necessariamente resulta numa perda líquida de empregos, mas sim numa mudança nas competências exigidas e nos tipos de empregos disponíveis.

Freeman & Furman (2018) destacam a importância de políticas focadas em tornar a tecnologia amplamente inclusiva para aumentar a produtividade. A IA e a robótica, ao melhorar a eficiência e a produtividade, beneficiam bilhões de pessoas, mas requerem políticas que garantam uma distribuição equitativa desses benefícios. Este ponto ressalta a necessidade de considerar a relação homem-máquina no ambiente de trabalho e garantir que a tecnologia seja utilizada de maneira que beneficie a sociedade como um todo.

Furman & Seamans (2018) acrescentam que a IA e a robótica têm o potencial de aumentar o crescimento da produtividade, mas os efeitos no trabalho podem ser mistos, com algumas ocupações e indústrias a saírem beneficiadas enquanto outras enfrentam disrupções no mercado de trabalho. Isto implica que a adoção de tecnologias avançadas não é um fenómeno homogéneo, mas sim, um que varia significativamente entre diferentes campos e setores.

Os decisores políticos devem pensar em formas de aumentar a taxa de inovação e adoção da IA, bem como maneiras de facilitar a transição para os trabalhadores que são prejudicados pelos ajustes na economia” (Furman & Seamans, 2019, p. 15)

Desafios Éticos e de Privacidade no Uso da IA em RH

O uso da IA nos RH introduz desafios éticos e preocupações com a privacidade que são essenciais para a gestão responsável de dados dos funcionários. Estas preocupações manifestam-se principalmente na recolha, uso e gestão de dados, bem como no equilíbrio entre a privacidade dos empregados e a conformidade legal.

Saari & Scherbaum (2020) identificam que a aplicação da IA nos RH traz consigo desafios éticos e de privacidade, especialmente no que diz respeito à recolha de dados e ao consentimento dos funcionários. Apontam para o panorama legal em constante mudança e os riscos associados a falhas de sistema e à adequada proteção da privacidade dos dados. Banja (2020) complementa esta visão, destacando os riscos inerentes à utilização e reutilização de dados no contexto dos RH.

Al Shazly, Ferraro & Bennet (2020) discutem os desafios éticos relacionados à recolha de dados, à extração de informações e ao tratamento dos dados como uma commodity. Indicam que sistemas baseados em algoritmos podem levar a um desequilíbrio, priorizando a conformidade (compliance) em detrimento da integridade pessoal dos funcionários. Esta preocupação é ecoada por Leicht-Deobald et al. (2019), que enfatizam o risco de que o foco na conformidade legal possa superar as considerações sobre a privacidade individual dos empregados.

No que diz respeito à legislação, Milossi, Alexandropoulou-Egyptiadou & Psannis (2021) destacam que os Regulamentos Gerais de Proteção de Dados Europeus (GDPR) tratam diretamente dos desafios éticos na IA. O GDPR enfatiza o consentimento do titular dos dados, os princípios de proteção de dados e os direitos do titular dos dados, promovendo uma arquitetura de ‘privacidade por design’. Esta legislação é um passo crucial para garantir que o uso da IA nos RH seja conduzido de maneira ética e responsável.

Riscos de Viés e Discriminação em Algoritmos

Os algoritmos, especialmente na aprendizagem de máquina e IA, apresentam riscos de perpetuação de vieses e discriminação, o que levanta sérias preocupações éticas e operacionais. As organizações enfrentam o desafio de mitigar estes riscos para promover a equidade nas suas aplicações de IA.

Fazelpour & Danks (2021) destacam que algoritmos podem introduzir vieses em domínios sensíveis como saúde, serviços sociais, educação, contratação e justiça criminal. Salientam a necessidade de uma abordagem filosófica e consideração de várias fontes de viés para abordar de forma eficaz estas questões. Este enfoque sugere que a mitigação de viés em algoritmos requer não apenas ações técnicas, mas também uma compreensão profunda das implicações sociais e éticas dos vieses.

Roselli, Matthews & Talagala (2019) apontam que as empresas podem atenuar e gerir os vieses nos algoritmos de IA por meio de três classes gerais: mapeamento da intenção comercial, gestão da distribuição das amostras de treino dos data-sets[11] e análise das amostras de inputs individuais. Isto implica que uma abordagem sistemática e abrangente é necessária para identificar e corrigir vieses em diferentes estágios do desenvolvimento de algoritmos.

Doneda & Almeida (2016) discutem a importância da governança algorítmica para abordar riscos como manipulação algorítmica, viés, censura, discriminação social e violações de privacidade. Enfatizam que a garantia da integridade de algoritmos complexos é crucial para prevenir vieses indesejados. Além disso, Lai, Oliveira, Hou, Yanushkevich & Shmerko (2020) propõem uma nova técnica de raciocínio probabilístico para avaliar o risco de vieses em Sistemas de Suporte à Decisão Cognitiva, destacando o uso de biometria facial em postos de controlo de segurança como um exemplo prático.

Transformação dos Papéis nos RH e a Requalificação Profissional

A automação e a IA estão a induzir uma transformação significativa nos papéis dos departamentos de RH, impulsionando a necessidade de requalificação profissional para se adaptarem às novas exigências e competências requeridas por estas tecnologias.

Bussler & Davis (2002) ressaltam que a automação nas funções dos RH, como gestão de folhas de salários, avaliações de desempenho, formação e pesquisas salariais, está a promover inovações e a melhorar a eficiência operacional. Esta evolução, contudo, requer uma requalificação dos profissionais para atender às novas exigências impostas por estas mudanças tecnológicas. A capacidade de adaptação a novos sistemas e processos é, portanto, essencial para os profissionais dos RH.

Pulyaeva, Kharitonova, Kharitonova & Shchepinin (2019) observam que a automação nos RH facilita a recolha, armazenamento e o processamento dos dados pessoais, bem como a realização de estimativas de negócios e o acesso a recursos de formação contínua. Embora isto possa resultar em reduções de custos, também implica novas necessidades de requalificação profissional. Magoro & Phahlane (2019) adicionam que a automação nos processos dos RH pode levar a desafios, como a desarticulação da equipa e resistências à adoção de novas formas de trabalho automatizadas, enfatizando a importância da gestão de mudanças.

Oswal, Ateeq & Mathew (2021) destacam que a IA no recrutamento melhorou a precisão, a produtividade e as experiências personalizadas para candidatos e funcionários, transformando o papel dos profissionais dos RH. Sublinham que as empresas que conseguem combinar competências humanas, como empatia e resiliência às mudanças, com o uso prudente da automação e requalificação, estarão mais bem posicionadas para liderar a força de trabalho do futuro. Card & Nelson (2019) reforçam esta visão, sugerindo que a integração de competências humanas e tecnológicas é fundamental para uma gestão eficaz dos RH na era da automação.

Decisões “Cegas” da IA e Limitações em Questões Humanas

A Inteligência Artificial (IA) apresenta limitações significativas na compreensão de contextos e nuances humanas, o que gera preocupações sobre viés, discriminação e responsabilidade em decisões automatizadas. A intervenção humana surge como um componente crucial para melhorar a tomada de decisão da IA, equilibrando as suas capacidades com a compreensão humana.

Kanuck (2019) salienta que os algoritmos de aprendizagem de máquina carecem da habilidade de compreender contextos ou nuances humanas, o que torna a intervenção humana necessária em processos de decisão críticos, como jurisprudência e sistemas de votação. Porayska-Pomsta & Rajendran (2019) adicionam que a IA na tomada de decisão carece de flexibilidade individual, julgamentos relevantes contextualizados, empatia e julgamentos morais complexos, que são fundamentais para promover inclusão, diversidade e equidade.

Jarrahi (2018) destaca que, embora a IA possa estender a cognição humana ao lidar com complexidades, os seres humanos oferecem uma abordagem mais holística e intuitiva, especialmente ao lidar com incertezas e ambiguidades na tomada de decisões organizacionais. Esta perspetiva sugere que a combinação da IA com a intervenção humana pode oferecer uma abordagem mais equilibrada para a tomada de decisões.

Tabrez e Hayes (2019) observam que os sistemas de suporte à decisão baseados em IA são limitados na explicação da lógica subjacente às suas decisões, o que pode limitar a confiança e compreensão humana em cenários colaborativos. Esta limitação sublinha a importância da transparência e da capacidade de explicação nas aplicações de IA.

Çelikok, Oliehoek & Kaski (2022) discutem a capacidade da IA em melhorar o processo de tomada de decisão ao inferir objetivos e restrições humanas, utilizando modelos Bayesianos[12] e Processos de Decisão Markovianos Parcialmente Observáveis (POMDPs[13]) adaptativos. No entanto, para que as ações da IA sejam aceitáveis para os seres humanos, é necessário um alinhamento de crenças, o que pode ser um processo complexo e dispendioso.

Moralidade e Ética da IA

A moralidade e a ética na IA são aspetos cruciais que abrangem desde a programação de parâmetros éticos em algoritmos, até à compreensão e limitações da empatia artificial, além dos desafios no desenvolvimento de uma IA ética.

Dyakov (2019) enfatiza que os algoritmos de IA deverão atender a certos critérios éticos para serem implementados e usados de maneira moralmente responsável. A integração de valores morais, sociais e legais no design da IA e nos algoritmos de deliberação é essencial para garantir um comportamento ético e fortalecer a compreensão e confiança em sistemas autónomos. Dignum (2017) reforça esta perspetiva, destacando a importância de incorporar valores éticos no desenvolvimento da IA para assegurar que as decisões tomadas por sistemas autónomos sejam moralmente responsáveis e socialmente aceitáveis.

Siau & Wang (2020) abordam a ética da IA com foco no desenvolvimento de princípios éticos, diretrizes e regulamentações para enfrentar desafios éticos e morais em tecnologias baseadas em IA. Esta abordagem visa criar sistemas de IA que sejam éticos e que respeitem normas morais e sociais. No entanto, Jobin, Ienca & Vayena (2019) apontam que existem desafios relacionados às diferentes interpretações e implementações destes princípios éticos globais, o que poderá levar a discrepâncias na aplicação da ética na IA.

Impacto da IA na Experiência do Empregado e na Cultura Organizacional

A introdução da IA nas organizações tem um impacto significativo e multifacetado na experiência dos empregados e na cultura organizacional. Este impacto estende-se ao envolvimento, bem-estar e satisfação dos funcionários, reformulando a maneira de como estes interagem com os processos de trabalho e percecionam o seu ambiente de trabalho.

Malik, Budhwar, Patel & Srikanth (2020) observam que as aplicações de IA em RH, como bots[14] e assistentes virtuais, não apenas melhoram a eficiência e o custo-eficácia dos RH, mas também enriquecem a experiência dos funcionários. Isto leva a um aumento no comprometimento e satisfação dos funcionários, além de contribuir para a redução de comportamentos de rotatividade. Nguyen & Malik (2021) acrescentam que a qualidade do serviço providenciado pela IA eleva a satisfação do funcionário, influenciando positivamente a sua satisfação geral no trabalho.

Dutta & Mishra (2021) destacam que os assistentes virtuais baseados em IA podem criar um clima de confiança e justiça no local de trabalho, resultando em resultados positivos para os funcionários, como um maior envolvimento e satisfação. Além disso, Saxena & Mishra (2023) afirmam que a capacidade de previsão da IA pode aumentar a satisfação no trabalho dos funcionários, tornando os processos de RH mais produtivos e aumentando o envolvimento dos funcionários.

Wijayati et al. (2022) apontam que a IA afeta positivamente o desempenho e o envolvimento dos funcionários no trabalho. Enfatizam que a liderança de mudança desempenha um papel crucial na obtenção de sucesso em organizações que passam por mudanças rápidas, sugerindo a importância de uma gestão efetiva durante a implementação da IA.

Análise, Predição e Tomada de Decisão Baseada em Dados nos RH

A IA tem desempenhado um papel significativo na tomada de decisões no âmbito dos RH, fornecendo análises e previsões avançadas. No entanto, a implementação da IA nos RH não está isenta de limitações e desafios.

Mujtaba e Mahapatra (2019) destacam que, embora a IA possa tornar as tarefas dos RH mais eficientes e aparentemente menos tendenciosas, ainda existe o risco de carregar vieses humanos. Para combater isso, é crucial definir o que constitui justiça e desenvolver métodos e ferramentas apropriadas para promover algoritmos justos. Também Cappelli e Yakubovich (2019) apontam para desafios adicionais na gestão de RH com IA, como a complexidade, a limitação de conjuntos de dados (data-sets) e questões de responsabilidade. Sugerem que o aperfeiçoamento pode vir através do raciocínio causal, amostragem aleatória e a incorporação de contribuições dos funcionários.

Sharm (2021) fornece exemplos de como a IA revolucionou práticas de gestão de RH, incluindo recrutamento, envolvimento dos funcionários, compensação, benefícios e folhas de pagamentos, melhorando significativamente a tomada de decisão. No entanto, Malik, Tripathi, Kar e Gupta (2021) indicam que a adoção da IA pode oferecer tanto experiências positivas quanto negativas para os funcionários, levantando preocupações como a segurança da informação e os desafios das transformações digitais.

Rana (2018) aborda os limites da previsibilidade e precisão da IA nos RH. Enquanto a IA melhora os processos de tomada de decisão e desempenha um papel complementar, ela não substitui os profissionais de RH. A precisão e a previsibilidade da IA podem ser desafiadoras, exigindo cuidado na sua implementação.

Futuro da IA e Automação nos RH

O futuro da IA e da automação nos RH apresenta um panorama de transformações significativas, com projeções e tendências que indicam mudanças profundas na gestão dos recursos humanos nas organizações.

Barboza (2019) destaca que a IA tem o potencial de revolucionar os RH, aumentando a produtividade e eficiência. No entanto, esta evolução também traz preocupações, especialmente em relação à possível redução das taxas de emprego devida à automação. Esta dualidade sugere que, embora a IA ofereça benefícios significativos, é crucial considerar e abordar os possíveis impactos negativos no mercado de trabalho.

Tewari e Pant (2020) reforçam que a IA está a transformar a gestão dos RH, agilizando processos, aumentando a produtividade, a eficiência e com reduções de custos. Esta transformação implica que as organizações precisarão de adaptar as suas práticas de RH para aproveitar ao máximo as vantagens oferecidas pela IA.

Khatri (2020) observa que as organizações precisam de se adaptar a novos conjuntos de competências para se ajustarem aos futuros processos de emprego trazidos pela IA. Isto enfatiza a necessidade de preparação e de desenvolvimento contínuos para que os profissionais dos RH possam gerir efetivamente a transição para ambientes de trabalho mais automatizados. Gikopoulos (2019) adiciona que, embora a integração da IA e da automação nos RH possa aumentar a eficiência e diminuir o viés, manter o “toque” humano continua a ser crucial para o sucesso, ressaltando a importância de equilibrar a tecnologia e a “humanidade”.

Bansal, Agarwal, Bansal e Narayanan (2022) discutem a preparação para as tendências emergentes, apontando que a integração da IA em sistemas de RH poderá beneficiar todas as funções, preparando as organizações para a Indústria 4.0 e 5.0. Esta perspetiva sugere que as organizações deverão estar atentas às inovações tecnológicas e adaptar as suas estratégias para se manterem competitivas.

Alguns empregos serão perdidos, outros serão criados e quase todos irão mudar” (Furman & Seamans, 2019, p. 4)

A IA provavelmente será tão fundamental para o futuro da economia como a eletrificação foi há um século” (Furman & Seamans, 2019, p. 17)

DISCUSSÃO

A análise dos dados do inquérito revela uma tendência crescente de integração da IA e da automação na GRH, refletida na média de 3.66 para o desenvolvimento e atualização contínua de conhecimentos relacionados à IA. Este dado é corroborado pela literatura, que considera a IA não apenas como uma ferramenta operacional, mas também como um catalisador para a personalização da aprendizagem e o desenvolvimento de carreiras. Isto implica uma necessidade urgente de estratégias adaptativas e contínuas para o desenvolvimento profissional dos colaboradores, alinhadas com as inovações tecnológicas.

A preparação moderada das organizações para os desafios da era digital, com média de 3.46, sugere uma lacuna entre as oportunidades apresentadas pela automação e a prontidão das organizações para as adotar plenamente. Este aspeto ressalta a importância de abordar as questões de segurança no emprego e requalificação profissional, considerando as transformações no mercado de trabalho impulsionadas pela automação.

Em relação aos desafios éticos e de privacidade, a média de 3.07 para a avaliação do impacto da IA em RH indica uma consciência crescente, mas ainda incipiente, das complexidades éticas e de privacidade associadas ao uso de dados dos empregados. Esta observação está em linha com a literatura, que enfatiza a necessidade de práticas éticas robustas, além de uma governança de dados sólida e transparente.

A discussão sobre o impacto da IA na eficiência da GRH, com média de 3.58, abre espaço para um diálogo crítico sobre o equilíbrio entre eficiência operacional e considerações humanas. A IA, enquanto agente potencializador de eficiência, também traz consigo riscos de viés e discriminação, um ponto crucial destacado na literatura e que requer atenção constante.

A proatividade observada na liderança e nos colaboradores, com média de 3.70, na promoção da digitalização e automatização reflete uma mudança cultural positiva nas organizações. No entanto, a média de 3.38 sobre a clareza da visão futura da IA aponta para a necessidade de uma compreensão mais aprofundada das capacidades e limitações da IA em questões humanas, enfatizando a importância da intervenção humana criteriosa nas decisões automatizadas.

A ênfase contínua na ética da IA, evidenciada pela média de 3.58 sobre o conhecimento aprofundado da IA, alinha-se com a literatura que defende a integração de valores morais e éticos no desenvolvimento da IA. Isto é fundamental para garantir que os avanços tecnológicos estejam alinhados com os valores e necessidades humanos.

A transformação digital, identificada como uma componente fundamental do futuro da GRH com uma média de 3.97, sugere que a IA está a remodelar significativamente a experiência dos empregados e a cultura organizacional. Este fator destaca a necessidade de uma abordagem que equilibre a eficiência operacional com o bem-estar dos colaboradores.

A análise e previsão baseadas em dados, prioridade estratégica com média de 3.55, estão se a tornar indispensáveis para decisões informadas nos RH. A média de 4.06, que aponta para o papel central da IA e da automatização no futuro da GRH, indica uma transformação contínua na gestão dos RH, exigindo uma adaptação estratégica contínua por parte das organizações.

Estes resultados, em conjunto com a literatura, enfatizam a crescente importância e complexidade da integração da IA na GRH, destacando a necessidade de uma abordagem equilibrada e ética que considere benefícios, desafios de privacidade, viés e requalificação profissional.

CONCLUSÃO

Conclui-se que a implementação da IA e da automação está a impulsionar uma transformação significativa nos processos de recrutamento e seleção nos RH, oferecendo benefícios que transcendem a eficiência operacional. Observa-se uma tendência para uma maior equidade na identificação e progressão de talentos, ultrapassando as barreiras convencionais no domínio dos RH.

O uso refletido da IA está a induzir alterações fundamentais na gestão de recursos humanos. Estas alterações não se restringem ao aperfeiçoamento de competências e formação profissional, mas contemplam igualmente uma atenção rigorosa aos aspetos éticos e às preocupações com a privacidade. Este equilíbrio entre inovação tecnológica e integridade ética é crucial para uma implementação responsável da IA.

A presente análise reflete a necessidade emergente dos profissionais dos RH em se adaptarem e recalibrarem as suas competências face às tecnologias emergentes. Ao explorar a interação entre humanos e máquinas no local de trabalho, reconhecem-se desafios significativos, tais como o desemprego tecnológico e a importância vital da intervenção humana em decisões automatizadas para assegurar justiça e ética.

A investigação sugere a necessidade de uma abordagem colaborativa e interdisciplinar no desenvolvimento de uma IA ética, assegurando que os avanços técnicos estejam alinhados com os valores e necessidades humanas.

Por fim, o artigo enfatiza que as organizações devem adotar estratégias que integrem de forma eficaz a tecnologia com os elementos humanos do trabalho. À medida que nos preparamos para um futuro com a IA, uma adaptação proactiva e estratégica é imprescindível. Tal adaptação deve beneficiar tanto as entidades empresariais quanto os seus colaboradores, garantindo uma transição suave para uma nova era de digitalização no ambiente de trabalho.

Nota de Agradecimento:

Gostaríamos de expressar a nossa gratidão à Professora Doutora Fernanda Santos pela sua orientação valiosa e apoio contínuo ao longo deste estudo.

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  1. Processamento de Linguagem Natural (PLN) é um campo da Inteligência Artificial que se foca na interação entre computadores e linguagem humana.

  2. Visão por Computador é uma disciplina da Inteligência Artificial e Ciência da Computação que permite aos computadores interpretar e processar imagens e vídeos de maneira semelhante à visão humana.

  3. Augmentação, o processo de ampliação ou melhoramento de algo mediante a adição de componentes, recursos ou elementos.

  4. K-means é um algoritmo de clusterização utilizado em análise de dados. Este método agrupa um conjunto de observações em ‘k’ grupos, baseando-se nas características dos dados.

  5. Clustering hierárquico é um método de análise de dados que visa agrupar elementos semelhantes em clusters.

  6. Modelos computacionais inspirados no funcionamento do cérebro humano, utilizados em aprendizagem de máquina e inteligência artificial.

  7. Redes Neurais Convolucionais (CNNs) são um tipo especializado de redes neurais artificiais, projetadas para processar dados que têm uma estrutura em grade, como imagens.

  8. Programas de computador desenvolvidos para simular conversação com utilizadores humanos, empregando texto ou voz.

  9. Multi State-Actor (MuStAc), modelo utilizado na criação de políticas de agentes em inteligência artificial, empregando uma abordagem de treino descentralizada para se adaptar a diversos estados ou cenários.

  10. Técnica avançada de aprendizagem de máquina que combina aprendizagem por reforço com redes neurais profundas. Esta abordagem permite que sistemas computacionais aprendam a tomar decisões otimizadas através de experiências, maximizando uma noção de recompensa cumulativa ao longo do tempo.

  11. Coleções de dados organizados, geralmente estruturados em forma de tabelas, que são utilizados para análise, treino de modelos de aprendizagem de máquina e pesquisa em diversas áreas. Estes conjuntos podem incluir uma ampla gama de informações, desde dados numéricos a textos, imagens e muito mais.

  12. Métodos estatísticos que utilizam o Teorema de Bayes para atualizar a probabilidade de uma hipótese à medida que mais informações são disponibilizadas. Estes modelos são amplamente usados em inferência estatística para estimar parâmetros e fazer previsões, incorporando tanto conhecimento prévio quanto dados observados.

  13. Frameworks utilizados para modelar situações de tomada de decisão sob incerteza, onde o agente não tem acesso completo à informação sobre o estado atual do sistema. Estes modelos são adaptativos, ajustando-se continuamente com base nas novas informações obtidas, facilitando a tomada de decisões otimizadas mesmo em contextos de informação limitada ou ambígua.

  14. Programas informáticos projetados para automatizar tarefas na internet, interagindo com websites e serviços online.

Sugestões: Romances de Escândalo dos séc. XVIII e XIX, Dinheiro e Dívida

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Destacamos hoje seis romances dos séculos XVIII e XIX que envolveram algum tipo de escândalo, de atentado ao pudor, ou até queixas judiciais. Começamos com Candide, de Voltaire, de 1759, como prefigurador de um certo tipo de polémica não necessariamente de natureza sexual de que, infelizmente, quase todos os elementos desta lista se valem, dado que se trata de uma dimensão inerentemente polémica: Candide, por seu lado, trata-se de uma sátira ao iluminismo cuja leitura muito recomendamos, e cujos elementos blasfemos levaram à suspensão da sua publicação. Depois, The Awakening, de Kate Chopin, de 1899, uma precursora da segunda vaga do feminismo, com uma história de uma mulher sexualmente autónoma. Ainda, The Picture of Dorian Gray, de Oscar Wilde, com elementos de homoerotismo típicos do dandy inglês, também sujeita a censura inicial por parte do editor e a subsequente grave polémica e acusação judicial contra Wilde. Também Fanny Hill, o nome popularmente conhecido do original Memoirs of a Woman of Pleasure, de John Cleland, 1748, um dos livros mais perseguidos e banidos da história, relata, como o título indica, a vida e as aventuras de uma libertina, tendo a particularidade de ser muito inventivo no uso de vocábulos alternativos para as partes privadas. O famosíssimo Madame Bovary, de Flaubert, de 1857, merece também referência; tendo sido também sujeito a queixa judicial, a história de uma burguesa adúltera que inspirou dezenas de adaptações e versões, como, por exemplo, Vale Abraão, de Agustina Bessa-Luís. Por último, o curioso Ten Days in a Mad-House, de Nellie Bly, de 1887, baseado numa série de reportagens sob disfarce que a jornalista Bly fez enquanto paciente num asilo para loucos, posteriormente denunciando os graves abusos O romance teve inclsive uma boa adaptação cinematográfica recente, dirigida por Timothy Hines, em 2015. Ficam aqui as sugestões e a promessa de voltaremos ao mundo do romance dos séculos XVIII e XIX, que são incepcionais de muito do que hoje consumimos em forma de filmes e séries de televisão de grande produção. 

Apresentámos também sugestões literárias para o fim-de-semana sobre um tema importante, interessante, pertinente e em certa parte contra-intuitivo: o dinheiro e a dívida, mas do ponto de vista da filosofia, da antropologia e das humanidades. Na primeira obra, de Marc Shell, Money, Language, and Thought: Literary and Philosophic Economies from the Medieval to the Modern Era, analisa-se como as relações entre sistemas monetários e o uso da linguagem denunciam uma evolução moderna da moeda como crescentemente abstracta e virtual. Na segunda, de David Graeber, Debt: The First 5,000 Years, interessantemente estipula-se e fundamenta-se como a existência de instituições de dívida é anterior à existência da moeda cunhada e até mesmo da concepção do dinheiro, o que pode parecer contra-intuitivo mas é natural dado que as relações sociais implicam tipos de contrapartida que se podem considerar dívidas que não precisam de sistemas monetários para funcionar. Depois, de Jonathan Parry e Maurice Bloch, Money and the Morality of Exchange, uma panorâmica sobre a relação entre sistemas morais e sistemas económicos, um trabalho antropológico focado nas culturas do sul da Ásia, África e Américas. Por último, de Niall Ferguson, The Ascent of Money: A Financial History of the World, uma história dos instrumentos financeiros e do dinheiro em geral na modernidade e suas diferenças face a períodos anteriores. 

Relógios de Xadrez

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. Como é que um simples jogo pode mover tantas paixões? Em 1971, quando o americano Bobby Fischer derrotou o russo Boris Spassky, grande parte do mundo parou para assistir à partida. Actualmente existem clubes, federações, e campeonatos mundiais de xadrez. Aqui para nós, não se joga xadrez sem relógio, e já que usamos um relógio de xadrez, que seja, ao menos, um Heuer Chess Master! Fique a conhecer melhor este desporto, a evolução dos seus relógios e até algumas sugestões de filmes.

HEUER Chess Master
Heuer Chess Master

A BREVE HISTÓRIA DA ORIGEM DO XADREZ

A história do xadrez tem uma origem controversa: contudo, é possível afirmar que o jogo foi inventado na Ásia. Actualmente, a versão amplamente difundida é a de que teria surgido na Índia com o nome de Chaturanga e dali se difundiu para a China, Rússia, Pérsia e Europa, onde se estabeleceram as regras atuais. Pesquisas recentes indicam também uma possível origem na China do século III a.C., na região entre o Uzbequistão e a Pérsia antiga (atual Irão).

Albert Frans Lieven de Vriendt 1843-1900 , «A sua jogada»
Albert Frans Lieven de Vriendt 1843-1900 , «A sua jogada»

O quadro do pintor belga Albert Frans, do Séc. XIX, mostra um casal a jogar xadrez com um ar entediado. Por esta altura ainda não existam relógios de xadrez e as partidas eram muito longas

A ORIGEM DOS RELÓGIOS DE XADREZ

Durante muitos anos não foram utilizados relógios de xadrez. Em torneios oficiais, alguns jogadores chegavam a demorar 1h para fazer uma jogada apenas, e os jogos decorriam durante 8h a 9h, existindo até registo de jogos com 14:30h de duração. Uma alternativa encontrada em 1860, em Londres, foi a ampulheta, um instrumento bastante prático para esta função. Sempre que se iniciava uma jogada, um jogador deitava a sua ampulheta e o outro erguia-a. Porém as condições de humidade afectavam bastante o desempenho das ampulhetas, e por essa razão passaram a usar-se relógios mecânicos de xadrez, mais fiáveis e precisos.

Em 1883, Thomas Bright Wilson e Joseph Henry Blackburne inventaram o relógio de xadrez mecânico, que foi usado pela primeira vez num torneio em Londres. Foi um grande passo na direção certa para manter com precisão a duração do jogo sob um limite de tempo; no entanto, ainda havia desvantagens, incluindo a dificuldade de combinar os dois relógios com precisão e o facto de que o tempo adicional não poderia ser facilmente adicionado para um controlo mais complexo.

Relógio de xadrez de oscilante
Foto de by Fred Wilson de 1893 com Harry Pillsbury  e o seu oponente
Foto de Fred Wilson de 1893 com Harry Pillsbury e o seu oponente, com um relógio de xadrez oscilante

Em 1973, foi inventado primeiro relógio de xadrez digital, por Bruce Cheney, um estudante da Universidade de Cornell. O relógio digital permitia um controlo de tempo mais sofisticado do que o relógio analógico, mas, como qualquer protótipo, tinha alguns problemas. Em 1975, Joseph Mashi e Jeffrey Ponsor criaram o primeiro relógio digital disponível comercialmente, chamado Micromate-80. Três anos depois, em 1978, foi produzido um relógio melhorado, o Micromate-180.

O relógio digital era mais preciso do que os analógicos, e também poderia ser programado, adicionando criatividade à forma como os jogos poderiam ser cronometrados. Enquanto as ampulhetas reduziram os tempos para algumas horas, os relógios digitais significavam que os jogadores agora podiam jogar um jogo em alguns minutos – necessário para as rápidas do xadrez.

Em 1988, o campeão mundial de xadrez Bobby Fischer patenteou uma adição ao relógio de xadrez digital. Segundo a sua ideia, cada jogador passou a ter um período de tempo fixo no início do jogo e, uma pequena quantidade de tempo após cada movimento, tudo para que os jogadores não ficassem com pouco tempo se precisassem mais tarde. Este método de tempo é frequentemente referido como “incremento”. Simplificando, incremento significa que quando chega a vez de um jogador mover uma peça, o atraso (ou incremento) é adicionado ao tempo restante desse jogador. Se o atraso for de cinco segundos, e o jogador tiver dez minutos restantes, quando o seu relógio for activado, terá apenas dez minutos e cinco segundos restantes. A adaptação de Fischer ao relógio significava que um jogador poderia jogar finais com mais tempo para pensar.

Relógio de xadrez de Bobby Ficher de 1988
Relógio de xadrez de Bobby Ficher de 1988

FUNCIONAMENTO DOS RELÓGIOS DE XADREZ

Os relógios de xadrez funcionam com o princípio das ampulhetas. Os mecânicos, como os de quartzo, têm na mesma caixa dois relógios, um para cada jogador. Para jogar com um relógio de xadrez mecânico deve seguir-se o seguinte procedimento:

  1. no início da partida acertam-se ambos os relógios;
  2. colocam-se os ponteiros dos minutos em igual posição, por exemplo ambos ao minuto 55;
  3. entre os 55 e os 60 minutos o ponteiro dos minutos empurra a bandeira* para cima, cada vez mais, até a deixar cair;
  4. perde o jogador que sofra xeque-mate ou que veja a sua bandeira cair;
  5. para parar o relógio, basta colocar os dois botões à mesma altura.

* A bandeira é um ponteiro de plástico, normalmente vermelho, que está simplesmente encaixado num pequeno veio, sem ligação ao mecanismo.

Pormenor de uma bandeira de um relógio de Xadrez
Pormenor de uma bandeira de um relógio de Xadrez

O NOSSO PREFERIDO – HEUER CHESS MASTER

Apesar dos relógios de xadrez oscilantes nos parecerem muito interessantes, rendemo-nos ao Heuer Chess Master.

Lançado pela primeira vez nas décadas de 1960 e 70, a Heuer lançou o seu próprio relógio de xadrez, o Chess Master. Este relógio com design muito marcado pela época foi apresentado em duas versões, uma com caixa de alumínio escuro e outra com caixa de madeira lindamente trabalhada. Actualmente é um dos relógios de xadrez vintage mais colecionáveis. O lindíssimo Chess Master apresenta um movimento analógico de alta qualidade que, com boa manutenção, após 50 anos, ainda pode ser bastante fiável.

A frase que se impõe é: «Nem todos os relógios de xadrez analógicos são bonitos, mas todos os belos relógios de xadrez são analógicos».

O atual renascimento do jogo entre os mais jovens e o impacto da recente série de TV, «O gambito da dama», na qual o Chess Master da Heuer é protagonista, trouxeram um certo glamour de volta ao mundo do xadrez. De acordo com o New York Times, após o lançamento desta série, as vendas de relógios de xadrez aumentaram repentinamente.

XADREZ NO CINEMA

Existem imensos filmes e séries de televisão sobre xadrez: deixamos aqui algumas recomendações:

1 – Searching for Bobby Fischer – filme

2 – Magnus – documentário

3 – Brooklyn Castle – documentário – filme

4 – Queen of Katwe – filme

https://youtube.com/watch?v=z4l3-_yub5A

5 – Bobby Fischer Against the World – filme

6 – The Luzhin Defense – filme

7 – Pawn Sacrifice – film

COMO COMEÇAR A JOGAR XADREZ?

Gostava de aprender xadrez ou mesmo de jogar numa equipa? Comece por encontrar o seu relógio de xadrez favorito e, de seguida, entre em contacto com a Federação Portuguesa de Xadrez, para mais informações sobre mestres e equipas disponíveis.

Coisas com graça: Macacos, Bananas, Gays e Escatologia

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Numa entrevista ao jornal New York Times, em 2011, Jerry Seinfeld aceitou o convite para explicar ao detalhe o processo de escrita de um número de comédia em específico; no caso, uma piada sobre pop-tarts, um produto pouco conhecido em Portugal, uma espécie de torrada pronta-a-comer com recheio de doce de frutas. Nessa interessante conversa, num dado momento Seinfeld explica a inclusão de chimpanzés no texto do número pelo simples facto de que chimpanzés têm graça (chimps are funny). Ao mesmo tempo, descreve uma série de outras palavras que inclui, como dirt, sticks, playing, e até o próprio nome do produto, pop-tart, como palavras que têm graça por si só, ou que representam coisas que têm graça por si só.

Tal conceito é estranho e pode impressionar pela desadequação ao modo de pensar contemporâneo, dominado pelo paradigma do relativismo no que diz respeito às reacções sociais a convenções culturais, dentro das quais inserimos consciente ou inconscientemente o capítulo do humor. Afinal, depende o humor de uma justa medida de provocação conceptual e do uso do tempo — é sabido que o segredo da comédia, muitos o dizem, é o timing, e pouco mais — adequado a cada cultura, ou existem coisas inerentemente engraçadas?

O exemplo do macaco é um bom exemplo. Aliás, na literatura sobre comédia parece ser frequente a referência a este animal: Lorne Michaels, produtor do lendário programa de comédia americano Saturday Night Live, descreveu num serão de homenagem ao comediante Steve Martin como, quando as pessoas vão ao jardim zoológico, começam por ver os leões, depois talvez os ursos — os animais magnânimos e fisicamente imponentes — mas, logo a seguir, dirigem-se aos macacos — “porque os macacos têm graça e ocasionalmente masturbam-se. (…) O leão lembra-nos de quem nós gostaríamos de ser, e os macacos lembra-nos quem nós realmente somos.”

De facto, talvez o facto de estas espécies serem póximas de nós na escala da evolução permita que reconheçamos nelas traços caricaturados de nós próprios — e sendo assim, são inerentemente engraçadas para qualquer pessoa porque são sempre caricaturas de pessoas. E se é o macaco a peça mais citada neste panteão de coisas com graça inata, e se é essa a razão, talvez isso indique que o humor acabe sempre por ser auto-referencial, e toda a graça que coisas, pessoas ou conceitos possuam acabe por se revelar uma representação caricaturada de nós mesmos ou de uma parte de nós.

Outras coisas, porém, encontram nesta teoria mais difícil encaixe. Por exemplo, as bananas, abordadas num artigo da louvável revista do museu Smithsonian como uma instituição do humor. Mas tentemos perceber melhor, racionalmente, a particularidade deste fruto e a sua ligação a esse campo. Para começar, é semelhante às partes privadas masculinas, de maneiras aliás mais ilustrativas do que outros vegetais: a pele é descascável facilmente, como a pele do prepúcio, e sendo um fruto minimamente sólido e muito portátil aquando ainda possui a casca, é também facilmente comestível e mole quando já não a tem, revelando assim uma potencialidade para analogias muito forte. Além do mais, é bom não esquecer o acessório de comédia lendário que é a sua casca e a capacidade que tem de fazer pessoas tropeçarem e caírem — e, digamo-lo também, independentemente das consequências danosas que possam existir, pessoas a cair é algo também tradicionalmente com graça.

Quanto a homossexuais, o cognome pelo qual são frequentemente conhecidos — os gays — denuncia logo como a identidade, além das eventuais práticas por detrás — como se pode ver, o potencial cómico completa-se sozinho —, contém algo de inerentemente engraçado. É sabido que uma certa ideia do típico homossexual corresponde a alguém alegre, que gosta de rir e de brincar, que possui um misto de excitação juvenil e de sensibilidade efeminada que fomenta o bom humor, a boa disposição e a hipérbole das maneiras. Aliás, é importante lembrar que, em contraste com a negrura e tacanhez das associações e dos políticos que os representam ou dizem representar, o homossexual frequentemente é uma criatura com enorme capacidade de se rir de si próprio. Permitam-me, aliás, aparte a generalização abusiva, sublinhar que alguém que leva no cu não se pode necessariamente levar muito a sério. E é, no fundo — muito no fundo —, esse o ponto: o homossexual tem a liberdade do carácter inconvencional das suas práticas — há quem diga contra-natura, mas o termo é abusivo, embora a prática da contra-natura possa levar obviamente a contraturas — que a pessoa comum não tem, estando no caso desta o amor e a cópula ligados a assuntos mais sérios, digamos assim — nomeadamente, a criação da vida. Essa liberdade solta as amarras para que o mesmo se veja como uma caricatura e para estar completamente à vontade nessa pele. É uma identidade que tem essa sorte, além dos inúmeros azares que caracterizam e sempre caracterizaram aquela que é, nas palavras de Proust, a raça maldita.

Por último, a escatologia, abordada até academicamente como tópico de moderno interesse, mas de referências clássicas, no artigo corajosamente entitulado “Why Flatulence is Funny”. O termo não está aqui invocado no sentido teológico de literatura das últimas coisas, ou melhor, talvez, mas sim no sentido de coisas relacionadas com fezes e sub-produtos obscenos e baixos da vida humana. Incluem-se aqui funções fisiológicas simples como traques, arrotos, alguns espirros, até mesmo o vómito. Também inversões ou lados negativos da circulação do mundo pelo corpo humano, em que, até, comer de boca aberta, falar de boca cheia, conter o riso, conter espirros, conter dejectos, ir a correr à casa de banho — Bocage famosamente notou que para um homem era mais irresistível defecar do que ter relações sexuais, pois se se encontrasse no leito com uma dama e subitamente a vontade apertasse, logo dali sairia para ir ao bacio —, ficar subitamente encharcado, de cabelos em pé, meter a “pata na poça”, pisar fezes de cão, escorregar e cair ao chão, são coisas que podem ser incluídas no grupo, se não das funções e dos acidentes fisiológicos do próprio, de fenómenos similares, análogos ou anexos. Tudo o que envolva o corpo e as suas desventuras, desde que não de consequência muito danosa, recupera essa dimensão basilar da existência humana, cheia de ironia e de alegoria, que é a seguinte: podemos achar-nos muita coisa, mas temos um corpo, e quando o mesmo inesperadamente se acusa, ou o mundo o faz acusar-se através de algum acidente, a dimensão satírica do equívoco logo advém. Afinal de contas, “quem tem cu tem medo”.

“Cometem em tais decisões milhentos erros”: Política, Guerra e Erro em Maquiavel

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«Se nas outras coisas se cometem alguns erros, nas coisas da guerra cometem-se todos». Assim afirma Fabrizio Colonna, no VI Livro da Arte da Guerra de Maquiavel[1]. Ainda mais maquiaveliana, Hannah Arendt acrescenta, no seu ensaio Sobre a violência: «em nenhum outro lugar a Fortuna, a boa ou má sorte, representa um papel mais fatídico nos negócios humanos do que no campo de batalha». Fortuna e virtù, noutras palavras: as duas coordenadas do pensamento político maquiaveliano. E continua: «esta intrusão do totalmente inesperado não desaparece quando as pessoas o chamam de um “evento casual” e tomam-no por cientificamente suspeito; e o totalmente inesperado não pode ser eliminado por simulações, roteiros, teorias dos jogos». E se é verdade que, a partir da Segunda Guerra Mundial, toda a guerra é guerra nuclear – porque os conflitos não nucleares que foram combatidos até hoje são sempre definidos, na sua extensão e nos seus objetivos, pelo horizonte da guerra nuclear –, então, conclui significativamente Arendt, «não é segredo para ninguém que o famoso evento casual venha a aparecer provavelmente naquelas partes do mundo em que o velho adágio “não há alternativa à vitória” guarda um alto grau de plausibilidade»[2].

Retomemos o início. Fabrizio Colonna, condottiero e porta-voz de Maquiavel na Arte da Guerra, afirma sem meios termos que na guerra “cometem-se todos os erros”. Surge então a pergunta: para que serve a Arte da Guerra? Por que razão se escreve um diálogo que, supostamente, deveria ensinar a não fazer erros, e ao mesmo tempo coloca-se na boca do seu protagonista aquelas palavras? Creio que compreender a fundo esta frase, talvez descontextualizando-a um pouco, nos permitiria ver dois aspetos cruciais da obra de Maquiavel.

O primeiro, e algo que quem estuda Maquiavel não se cansa de repetir, é que a sua grandeza, aquilo que o distingue de outros escritores políticos seus contemporâneos, é que os seus livros não devem ser lidos, de modo nenhum, como meros repertórios de máximas: como livros de receitas para os bastidores da política. O eficaz aforismo do escritor italiano Vitaliano Brancati sobre o Príncipe como livre de chevet de todos os falidos é, ao mesmo tempo, verdadeiro e falso. Diz Brancati: «Na cabeceira de todos os vencidos foi encontrado o Príncipe: César Bórgia, Guilherme II, Mussolini, Hitler tinham aprendido de cor aquelas regrads»[3]. Ora, além do anacronismo (de qualquer modo irrelevante) de César Bórgia que, quando Maquiavel escreveu aquelas regras, já tinha falecido há 5 anos, o que é preciso fazer é entendermo-nos quanto ao significado daquele vencido.

Comecemos, justamente, por César Bórgia, para o qual é preciso inverter a ordem do aforismo de Brancati (não é o Príncipe o livro de referência do duque, mas é o duque um dos exemplos de referência do Príncipe). César Bórgia é citado, no Príncipe, como modelo enquanto vence, mas quando, por uma conjunção maligna de má sorte (a doença) e credulidade (confiar na palavra do cardeal Giuliano della Rovere), cai em erro e é vencido, então, e só então, desaparece do horizonte de Maquiavel e é liquidado com poucas palavras. Deixa, justamente, de ser um modelo. Ora bem, para sermos honestos, poder-se-ia dizer a mesma coisa dos outros vencidos citados por Brancati. Vale, aqui, a aparentemente óbvia, mas certamente eficaz objeção que Trasímaco faz a Sócrates no Livro I da República de Platão. Quando Trasímaco reconduz a justiça à conveniência do mais forte, ou seja, de quem detém o poder, e Sócrates lhe faz notar que mesmo quem detém o poder se engana quanto à avaliação daquilo que lhe convém, é fácil, para Trasímaco, retorquir que isto é verdade mas que, quando se engana, esse indivíduo deixa de ser o mais forte e sai, portanto, do horizonte de qualquer discurso sobre o poder. O aforismo de Brancati, em suma, poderia ser invertido novamente: enquanto Mussolini ou Hitler venceram, seguiram aquelas regras que tinham aprendido de cor, quando deixaram de as seguir, foram vencidos. Porém, esta conclusão é ingénua e superficial. Há um sentido na base do qual o aforismo de Brancati é particularmente eficaz. E é, justamente, a ideia frequentemente propagandeada por editores à procura de compradores, de que o Príncipe ou a Arte da Guerra não são outra coisa senão uns repertórios de regras que devem ser aprendidas de cor para vencer. Esta ideia, creio eu, realmente é a receita segura para a derrota.

Voltemos então, novamente, à frase de Fabrizio Colonna. A perspetiva muda quando lermos Maquiavel não procurando nele um repertório de máximas, mas sim o oposto: um repertório de erros[4]. Se considerarmos o Príncipe e os Discursos – as duas obras políticas maiores do secretário florentino – poucos são os exemplos de homens políticos aos quais não atribua, a um certo ponto, um erro, inclusive a muitos exemplos virtuosos. Do rei de França, Luís XII, enumera seis erros no capítulo III do Príncipe[5]. Já falamos de César Bórgia, ao qual dedica o capítulo VII: caso exemplar de príncipe novo que ascendeu ao império por fortuna e armas alheias, comete o erro fatal de favorecer a eleição do cardeal Giuliano della Rovere a Papa (Júlio II) e é descartado com uma frase que soa como um epitáfio: «errou, pois, o duque, nesta escolha, e foi o motivo da sua ruína definitiva»[6]. Até quando fala do tirano Ápio Cláudio, detém-se sobre os «muitos erros» feitos «em desfavor daquela tirania que ele tinha proposto estabelecer em Roma»[7].

Há, nesta centralidade atribuída ao erro, uma justificação de ordem metodológica e outra de ordem, poder-se-ia dizer usando a palavra no seu significado mais amplo, filosófica. A primeira é que Maquiavel evidentemente julga ser mais eficaz ensinar por meio do erro. Se em todas as coisas «se cometem alguns erros», e nas coisas da guerra «cometem-se todos», então a própria história é um repertório de erros que têm de ser analisados para estabelecer a sua origem e natureza, para compreender se podem ou não ser evitados, se a causa da ruína recai naquela «metade das nossas ações» nas quais é árbitra a fortuna, ou na outra «metade, ou quase» que ela nos deixa governar[8]. A segunda justificação, que vou adiantar, mas à qual queria voltar no fim, é que a centralidade do erro decorre da premissa do pessimismo antropológico maquiaveliano. O erro é a consequência inevitável da força propulsiva que as paixões representam para a ação humana, perante a qual a razão desempenha uma função auxiliar, cujo resultado imediato não é frear, mas sim exponenciar a potência dos humores, dos apetites. Se até Temístocles, «homem excelentíssimo», caiu em erro vítima das falsas esperanças que animam os “banidos” – os foragidos, os exilados –, imaginemos quanto possam errar «aqueles que, por menor virtude, se deixarão arrastar pela sua vontade e pela sua paixão»[9].

Noutro sentido, a afirmação de Fabrizio Colonna deve ser considerada como uma demonstração ulterior da centralidade do tema da guerra e, consequentemente, das milícias em Maquiavel. Também neste caso, poder-se-ia muito bem deslocar o foco da perspetiva e considerar a Arte da Guerra, os escritos ditos menores sobre as milícias florentinas, o segundo livro dos Discursos ou os capítulos sobre as armas do Príncipe (do 12 ao 14) como mais do que páginas marginais do Maquiavel político. Estas são páginas que se costumam ler rapidamente e que parecem, aliás, mal envelhecidas, não só porque a guerra de hoje não é a do século XVI, mas também porque as próprias ideias de Maquiavel eram antiquadas, mesmo em relação aos seus tempos (a célebre subestimação do papel das artilharias). Sem exagerar no lugar-comum da atualidade de Maquiavel, parece-me que este juízo deve ser reconsiderado. Nestas como noutras páginas sobressai a inspiração tucidideana de Maquiavel, pois realmente, para ele, a guerra é um “mestre violento”: um βίαιος διδάσκαλος[10]. Não apenas porque, como afirma Tucídides, adapta as tendências da maior parte das pessoas às circunstâncias dos tempos de guerra, mas porque, em razão das condições extremas e das consequências sempre dramáticas de cada decisão, evidencia a dimensão trágica da política. E nada a evidencia mais do que, justamente, o erro.

Para Maquiavel, o erro é de tal maneira conatural à urgência da ação (política e militar), que no capítulo 31 do livro I dos Discursos ele louva os romanos porque não puniam «extraordinariamente» os seus capitães «por um erro cometido». Aliás, não os puniam de todo, caso o erro fosse «por ignorância», castigando-os, mas mesmo assim «humanamente», apenas se fosse «por malícia». O texto maquiaveliano reenvia aqui ao último capítulo do livro II dos Discursos, o 33, onde ele louva os romanos por darem aos seus capitães «mandato livre», isto é, ampla margem de manobra e discricionariedade de ação, opondo-os ao péssimo hábito das autoridades políticas venezianas e florentinas suas contemporâneas, que interferiam continuamente no governo das campanhas militares. Mas reenvia, também, a um dos mais típicos leitmotiv maquiavelianos, que se encontra em toda a obra do secretário florentino. Isto é, a convicção de que «é melhor fazer e arrepender-se, do que não fazer e arrepender-se», o que indica que – mesmo admitindo a lei geral que é sempre preciso conformar as nossas ações às circunstâncias, ao contingente – é melhor tomar uma decisão do que temporizar, agir do que protelar, resolver-se e não aguardar até os problemas se resolverem por si sós, pelo «benefício do tempo». Mas se, por um lado, é melhor agir e, por outro, o peso da fortuna e a insuficiência da razão humana (por muito que seja virtuoso, um capitão nunca poderá considerar todas as variáveis) tornam o erro inevitável, então é preciso conceder margem de manobra. Finalmente, nem todos os erros são iguais. Antes de tudo, como vimos, há erros de malícia e erros de ignorância, e os dois tipos não se encontram no mesmo plano, sendo que os primeiros são menos escusáveis do que os segundos. Mas também a propósito da ignorância, é preciso ver melhor. Príncipes, capitães e povos erram por incapacidade de compreender as intenções dos outros (pelo que um capitão pode errar na maneira mais trágica, pensando estar a vencer quando está a perder, ou vice-versa: assim é em Discursos, III, 18), por «falsa imagem de bem», ou por ficarem cegados pelas “opiniões” (assim erra o povo, em Discursos I, 53); erra-se por falta de “experiência das coisas” (Discursos, II, 22) ou por «opinião falaz» e «juízo falso» (Histórias Florentinas, III, 5).

Voltemos, então, ao pessimismo antropológico como axioma maquiaveliano. Há, portanto, também um limite estrutural na capacidade de ler a realidade até ao fim. O problema não é, apenas, o domínio das paixões, mas são também os nossos inevitáveis limites cognitivos. Até podemos considerar como metafórica aquela «noite» referida no capítulo 18 do Livro III dos Discursos, na qual quem venceu acredita ter perdido e quem perdeu acredita ter vencido, isto é, como uma metáfora daquele erro de juízo que faz com que se tomem decisões contrárias à «salvação» de quem as tomou. Se tentássemos passar do diagnóstico para a terapia, deveríamos concluir, seguindo a letra do capítulo 9 do Livro III, que «convém ir variando com os tempos, se sempre se quiser ter boa fortuna», e que é justamente em razão da «diversidade dos cidadãos» que o governo dos muitos tem mais possibilidade de ter “boa fortuna” do que o dos poucos ou de um só. De facto, quando «um homem que esteja habituado a proceder de certo modo» e «jamais muda», encontra tempos conformes aos seus hábitos, então pode prosperar, como no caso de Júlio II ou de Quinto Fábio Máximo. Mas basta que aconteça algo que requer uma reação «em desconformidade» com o «seu modo», então, «ele arruína-se», como ocorreu ao próprio César Bórgia ou a Pier Soderini, o irresoluto gonfaloneiro da República Florentina. E com ele, facilmente, arruína-se todo o estado. O forte argumento a favor da superioridade das repúblicas baseia-se, em suma, numa premissa substancialmente pessimista sobre as capacidades dos seres humanos de se governarem e de governarem, e é articulado, não por acaso, num capítulo dedicado à fortuna. Facto, este último, que me parece depor a favor de uma interpretação segundo a qual esta superioridade, mais do que da prudência de quem governa, depende do acaso, sendo verdadeiro que também as repúblicas não se podem emancipar do arbítrio da fortuna.

Chegado ao último ponto, gostaria de voltar, pela última vez, às duas citações que abriram este texto, uma de Maquiavel e outra de Arendt. e que reenviam para a inevitabilidade do erro e para o domínio da fortuna nos conflitos. Há outro tipo de erro, nesta circunstância, que interessa a Maquiavel em particular. É o erro causado pela esperança. Nos Discursos, encontra-se uma referência, em particular no capítulo sobre os foragidos (os “banidos” dos quais falei anteriormente), e no capítulo 27 do II Livro: «Aos príncipes e às repúblicas prudentes deve bastar vencer; porque na maioria das vezes, quando não basta, perdem-se». É neste último que Maquiavel faz referência à «insolência» que dá «ou a vitória ou a falsa esperança da vitória», que faz errar os homens «não apenas no dizer, mas também no fazer». Fá-los «ultrapassar o limite e, o mais das vezes, fá-los perder aquela ocasião de ter um bem certo, esperando ter um melhor incerto». Daí segue que «não podem […] os príncipes que são atacados cometer um erro maior, quando o ataque é movido por homens de longe mais poderosos do que eles, do que recusar um acordo, sobretudo quando lhes é oferecido; porque jamais será oferecido em condições tão desfavoráveis que não haja, nele, algo benéfico para quem o aceita, que terá nele uma parte da sua vitória».

Concluindo, se a história – e com ela a guerra e a política – é um repertório de erros e se os erros nascem dos preconceitos ou da dificuldade de prever aqueles “eventos casuais” de que fala Arendt, então se há uma receita geral para o homem político que podemos encontrar em Maquiavel não é só a de aprender pelos erros, mas também a de aprender o que fazer dos erros. Como governar incluindo o erro no horizonte das variáveis, não como um acontecimento secundário ou como um desafortunado acidente, mas como um elemento central. Aprender a pensar, diria Arendt, que alertava como nessas circunstâncias poucas coisas parecem mais assustadoras do que a difusão de uma mentalidade pseudocientífica. Os portadores desta mentalidade, continuava Arendt, não pensam, porque confundem o cálculo das variáveis com a ilusão de um controlo total sobre a realidade que não têm nem podem ter. A tudo isto tem de se acrescentar, como se disse anteriormente, que a guerra do século XXI não é, como é óbvio, a guerra do século XVI. Significativamente, na primeira versão do seu ensaio Sobre a violência (o artigo intitulado Consideration on Violence), Arendt, introduzindo o conceito de “evento casual” (random event), acrescentava: «this intrusion of the “Random Event” can be eliminated by no game theories but only by the certainty of mutual destruction»[11].

  1. N. Machiavelli, L’Arte della Guerra, em Id., Tutte le Opere (ed. M. Martelli), p. 1090 (trad. minha)

  2. H. Arendt, Sobre a violência (trad. A. Duarte), Relume-Dumará, Rio de Janeiro, 2001, pp. 14-15. No original: «Fortuna, good or ill luck»; a palavra latina reenvia claramente ao texto maquiaveliano.

  3. V. Brancati, Racconti, teatro, scritti giornalistici, (org. M. Dondero), Mondadori, Milano, 2003, p. 1273

  4. Sobre este tema, limitadamente aos Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, ver M.C. Figorilli, “I

    Discorsi di Machiavelli e l’‘errore’”, em R. Ruggiero (org.), Lessico ed etica nella tradizione italiana del primo Cinquecento, Pensa Multimedia, Lecce, 2016, pp. 97-122.

  5. «Aniquilou os menos potentes; aumentou em Itália a potência de um potente; meteu lá um forasteiro; não veio para aqui habitar; não meteu aqui colónias. [Tirou] o estado aos venezianos» (N. Maquiavel, O Príncipe [trad. D. Pires Aurélio], Bertrand, Lisboa, 2021, p. 22)

  6. Ibid., p. 43.

  7. N. Maquiavel, Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, L. I, cap. 40 (trad. A. Santos Campos e G. Damele, Edições 70, Lisboa, no prelo). Todas as citações seguintes referem-se a desta tradução.

  8. N. Maquiavel, Príncipe, cit., p. 122.

  9. N. Maquiavel, Discursos, cit., L. II, cap. 31.

  10. Um «mestre severo» na tradução de R.M. Rosado Fernandes e M.G.P. Granwehr (Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2013, p. 317. Hobbes, na sua versão da História de Tucídides, optava pela tradução, ainda mais eficaz, «a must violent master», sendo que o adjetivo βίαιος reenvia ao substantivo βία: “força, violência”.

  11. H. Arendt, Reflections on Violence, “Journal of International Affairs”, 1969, Vol. 23, No. 1, p. 2.

Simone Weil e a Personalidade Humana

No final deste ano de 2023, e já pensar numa entrada no próximo de modo bem informado, com os pés assentes na terra, com as faculdades críticas em alerta, recordamos hoje quatro pontos interessantes, desafiantes e polémicos do pensamento da intelectual Simone Weil, que acompanharam toda a história do seu pensamento mas que se substanciam muito fortemente num ensaio tardio da sua produção, “La Personne et le Sacré”, conhecido em inglês como “Human Personality”, escrito em 1943.

O primeiro, um argumento contra os partidos políticos e a favor da democracia sem os mesmos, alicerçado na ideia, desconfiada tanto dos totalitarismos do século XX como da ética e mundivisão liberal, de que não existe liberdade enquanto concepção colectiva.

Em segundo lugar, a ideia de que o homem moderno é dominado por uma ética do culto da pessoa e da personalidade, e que não só as ideologias políticas especificamente são reflexo disso, como também as ideologias de raiz empírica, p.ex. aquilo a que hoje chamamos “a ciência“: para Weil, um cientista não é um homem comprometido em busca da verdade, mas sim, tal como o político ou o homem religioso, em busca da sua verdade.

Terceiro, a concepção mental do homem moderno baseada em alicerçar a sua existência e a sua definição na personalidade envolve vários riscos; nomeadamente, através da forma imperfeita que no caso nos levaria a supor que o todo não é exatamente idêntica à soma das partes, Weil lembra como uma identidade humana que é composta pela montagem de vários elementos — aspecto da personalidade, aspetos físicos, biografia, até mesmo direitos cívicos etc — também está sujeita a ser desmontada exatamente pela mesma ordem.

Por último, a visão religiosa e mística da autora leva-nos ao último ponto, que reforça como não são os direitos cívicos como construção colectiva e colectivista que são garantes credíveis da pessoa, mas sim a piedade e a caridade que existem na concepção do outro, ultrapassando o problema do cepticismo quanto às outras mentees ou outras pessoas e que, em última análise, é uma medida de fé. 

É com estes pontos que vos deixamos. São pontos contra-totalitários, cépticos, plurais, diversos, na boa tradição da filosofia de tradição universal — e universalista — de uma costela ligeiramente misticista das tradições respectivas do ocidente — afinal, o mesmo não é somente “anailtico” — e que desejamos que estejam, estes ou outros da mesma categoria, no pensamento de todos na entrada no novo ano e ao longo do mesmo. Felizes festas, boas entradas e felicidades para todos.

Séries Visuais sobre Cinema: Espelhos, Bloody Nose, Actors and their Portraits

Espelhos

Bloody Nose

Actors and Their Portraits

Espelhos: Sophia Loren/Romy Schneider/Monica Vitti/Marcello Mastroianni/Elizabeth Taylor/Alain Delon/Anita Ekberg/Natalie Wood/Virna Lisis/Ewa Aulin

Actors and their Portraits: Natalie Wood/Kim Novak/Giovanna Ralli/Jean Pierre Léaud/Elizabeth Taylor/BB/Anouk Aimée/sophia Loren/CC.

Bloody Nose : The Ring/Leon, The Professional/Pulp Fiction/Persona/Raw/The Suicide Squad/ Brad Pitt/Emma/ Sweet Home

Quatro Mitos Sobre a Expansão Ultramarina Ocidental

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Em vésperas de mais um ano novo, nesta segunda década do novo milénio, verificamos, com bastante pena, que alguns “mitos urbanos” a propósito dos processos de expansão cultural e militar que sempre dominaram todas os povos e civilizações, sem nenhuma excepção, continuam a perdurar, nomeadamente no que diz respeito à manifestação dos mesmos na idade conhecida como das “descobertas” ou dos “descobrimentos”, período compreendido entre 1400 e 1600 AD, em que potências europeias — maioritariamente Espanha e Portugal, mas também Holanda, Inglaterra e França — empreenderam, por razões económicas, militares e religiosas, por esta ordem, diversas campanhas de exploração marítima que permitiram tanto a descoberta de novas e mais eficientes rotas de transporte como também a descoberta de territórios até então desconhecidos. Esta foi uma empresa de extraordinário engenho e sucesso, semelhante e da mesma ordem de muitas outras empreendidas por potências políticas como a China, o Japão ou a Índia, em determinados períodos da sua história. 

Fenómenos complexos que dizem respeito a associações mentais interpretáveis, sob uma lente freudiana, como masoquistas, levam a que actualmente tais sucessos — integrados, como já dissemos, em quadros universais da acção humana — sejam vistos como orgias de negatividade, de crueldade, de pecado original e de sadismos em que populações foram dizimadas, culturas quase extintas ou destruídas, pela mera e vã glória de mandar, e em que a aventura colonial do ocidente nas Américas, na África e na Ásia tenha sido uma nódoa, e, em particular, uma nódoa excepcional, na história universal. 

Ora nada disto é verdade e é precisamente o conhecimento dessa mesma história universal que nos permite dizer que a expansão ultramarina nesse período em nada é diferente em espécie dos fenómenos de ocupação e absorção cultural e militar que pautam toda a acção da espécie humana de qualquer cultura em qualquer parte do mundo. E que, aliás, qualquer visão que pretenda sustentar que o empreendimento expansionista europeu nessa época tinha uma diferença de espécie provavelmente alicerça-se, por vias misteriosas e travessas, numa forma particular de expecionalismo — e , quiçá, supremacia — ocidental, que nenhum patamar sério do estudo universitário pode acompanhar acriticamente.

Assim, resta-nos aqui elencar quatro mitos urbanos na actualidade com frequência veiculados no trato coloquial, na imprensa, na política, e por conseguinte dissipar todos os argumentos que falaciosamente prestem alicerçar a sua persistência.

Primeiro, a ideia que as potências ocidentais dizimaram quase inteiramente, por sua própria iniciativa — seja por motivos de sadismo, de conquista, de escravidão, de peleia militar, o que for — populações locais, e foram em larga parte responsáveis pelo seu declínio populacional. Isto é falso. Primeiro, tal obviamente não sucedeu nem nas colónias asiáticas nem nas africanas: sucedeu nas ameríndias. Conforme o consenso entre historiadores desde já há largas décadas, foi a falta de imunidade sanitária que causou o declínio dessas mesmas populações, ao passo que o mesmo não ocorreu com as africanas e com as asiáticas, devido ao isolamento primeiramente geográfico e posteriormente demográfico a que essas comunidades ficaram sujeitas, pela lotaria da deriva continental das placas tectónicas, em relação à totalidade do resto do mundo, o que não se passava nem com África nem com Ásia. Em Born to Die — Disease and New World Conquest, 1492–1650, David Cook sumariza o trabalho da historiografia actual sobre o assunto e aponta como, por larga margem, as doenças comuns trazidas pelos ocidentais, para as quais as populações ameríndias, largamente isoladas durante grande parte da história, não tinham imunidade, foram a principal causa do declínio populacional.

Segundo, que a escravatura foi não só praticamente inventada pelos ocidentais mas também imposta em particular aos negros “pela cor da pele” especificamente, por motivos ideológicos de superioridade racial. Isso é falso. Corresponde, aliás, a uma ideia muito mais moderna do que medieval de “raça”, pois, para o homem pouco viajado, que era a situação de todos os povos e todas as pessoas durante grande parte da história, qualquer criatura lhe outras paragens representava um mistério, tão semelhante quão diferente, e a cor da pele era apenas mais um dos elementos que constituíam essa distância. O negro não foi escravizado “por ser negro”: foi escravizado porque as populações sub-saarianas eram extraordinariamente pouco desenvolvidas e pois as instituições da escravatura de membros de tribos rivais e o comércio dos mesmos estavam amplamente instaladas no cenário africano, ao contrário do asiático, e sendo que não tinha nexo económico nos índios da América do Sul. Talvez a ligação tão forte, na psique ocidental, do negro ao escravo, represente, afinal, uma sugestão que pode ser de racismo recalcado. O magnífico volume, aliás, quatro volumes, da Cambridge World History of Slavery, descreve todas estas dinâmicas.

Terceiro, a ideia de que existiam importantes civilizações, no que diz respeito à história universal, no continente americano, na época da chegada dos europeus, e que a magnificência cultural dessas teria sido aniquilada pelo impulso sanguinário da conquista. Isto é falso, dado que a civilização Maia, por exemplo, estava extinta desde o século IX, e a civilização Inca ocupava apenas uma parte reduzida do continente americano, junto à costa oeste. O resto da situação antropológica e demográfica do continente resumia-se a uma existência tribal, de permanente clima de guerra e conflito, sem qualquer unidade cultural de relevo, além daquelas meras unidades culturais de vida primitiva que animaram a história universal da espécie humana desde o seu advento. Mas mesmo que tivessem existido civilizações de relevo, como existiram, por exemplo, no território que hoje conhecemos como o Egipto, ou em muitas outras localizações mediterrâneas, não quer isso dizer que o seu declínio não tivesse sido acelerado por processos da sua própria lavra — afinal, ninguém hoje, no Egipto, culpa a ascensão da Roma Antiga pelo seu declínio, sendo que, curiosamente, já o próprio Egipto estava em declínio, tanto como a civilização Inca aquando da chegada dos ocidentais. Em suma, a ideia de que o declínio irreversível destas culturas é responsabilidade da expansão ultramarina espanhola e portuguesa é uma perfeita falácia. O trabalho de David Webster elenca perfeitamente as razões subjacentes à queda da civilização Maia, que pode ser extrapolada para quase todos os outros casos.

Quarto, que a população do continente americano, supostamente extinta por acção dos europeus, era numerosa e de forte densidade populacional comparável à Europa; é falso, pois a totalidade do continente americano abergava apenas cerca de 60 milhões de pessoas, o mesmo número que o então território europeu, muito mais reduzido. Isto quer dizer que não existiam condições de prosperidade cultural e material para a expansão desses povos, muito por força da falta de regime legal que assegurasse a paz entre os mesmos e progressiva constituição de inovações tecnológicas com vista à estabilidade demográfica. Eram sociedades primitivas, tribais, dominadas pelos impulsos básicos do belicismo e da lei da natureza, ao contrário daquelas que encontrávamos, durante o mesmo período, na Europa e na Ásia, sociedades essas que, apesar de pontuais declínios na sua existência, estavam num estado de desenvolvimento muito superior. O mesmo se passava, aliás, com a Austrália, onde não se reconhecem sequer nenhumas sociedades que se assemelhassem a uma civilização de permanencia e de importância revlaante, e cujo queixume em relação à extinção das sociedades indígenas — em grande medida, como é obvio, também causada pela falta de imunidade sanitária — é muito mais diminuto, precisamente pela falta de solo fértil onde esta narrativa pudesse pegar. Australian aboriginal anthropology: Modern studies in the social anthropology of the Australian aborigines, organizado por Ronald M. Berndt em 1970 a partir de uma série de conferências, dá-nos um pouco esse panorama de uma série de sociedades dispersas, sub-desenvolvidas e sem qualquer unidade cultural relevante que as constituísse como potência civilizacional.

Em conclusão, talvez o último mito seja a ideia de que as expansões culturais e militares são feitas primeiramente por impulsos primários de “poder” e “domínio”, ao invés de fenómenos económicos, culturais e religiosos, universais na história da espécie humana. Não é que esses impulsos não tenham o seu lugar: mas, frequentemente, descrever processos complexos de forma série somente sob essa lente reduz o entendimento a uma dimensão de contos de fadas, histórias para crianças, que não é de todo adequada a um estudo académico sério sobre as matérias.

Canais de Navegação — os Impactes de um Mar Globalizado

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A interdependência entre países, por meio de trocas comerciais, é uma grande impulsionadora do fator globalização. E, para tal, os navios e o mar representam a combinação perfeita para o transporte de mercadorias, cuja acessibilidade é proporcionada pela existência de canais de navegação. O Canal de Suez é a prova de que é possível reduzir a distância existente entre a Ásia e a Europa. Mas nem tudo é simples, na medida em que alguns eventos conseguem deitar tudo a perder. Um encalhe de um navio pode mudar completamente a sua capacidade de impulsionamento económico, originando um prejuízo global de longa recuperação. Visto isto, há que ter em consideração que os tempos mudam, os mercados crescem e os navios aumentam. As perspetivas das trocas comerciais se virem a intensificar, ao longo dos tempos, estimulam os operadores marítimos a procurarem forma de aumentar a sua capacidade de transporte. E os canais de navegação, albergando um vasto número diário de navios, devem ter em conta que é preciso acompanhar este crescimento: o Canal de Suez tem-no feito: o acidente do ‘Ever Given’ ensinou-o essa lição. O desenvolvimento do projeto do Novo Canal de Suez, contanto com a sua extensão, vem demonstrar a vontade do Egito em aumentar a eficiência do seu canal e, assim, manter a sua competitividade. PALAVRAS-CHAVE: Canal de Navegação; Globalização; Transporte Marítimo; Economia; Canal de Suez

Autoridade egípcia espera remover em breve navio encalhado no Canal de Suez; veja imagens de satélite detalhadas
Figura 1 – Navio encalhado no Canal de Suez. Fonte: Canal Rural, 2021
  1. INTRODUÇÃO E METODOLOGIA

A importância do transporte marítimo para o comércio global é imensa. Segundo a ‘International Maritime Organization’ (IMO), este é responsável por mais de 90% das trocas comerciais no planeta (Sinay, 2022). Anualmente, um número superior a 50.000 navios navega pelo globo (Sinay, 2022), sendo este o modo mais rentável, economicamente falando, para o transporte de bens a longas distâncias (Euroatla, s.d.). A sua passagem pode ser feita por variados locais: por largos oceanos e mares; por estreitos; ou por canais de navegação, sejam eles naturais ou artificiais. A escolha da rota, incluindo o local de passagem do navio, possui uma grande influência na economia – quer da empresa operadora, quer do globo.

Um canal de navegação é mais do que um rasgo numa paisagem. Parece um simples atalho, mas o seu peso económico é mais do que uma via utilizada para encurtar um caminho. Este vem permitir conexões entre nações, nomeadamente nações à partida distantes entre si, através das trocas comerciais realizadas entre elas – situação esta muito contribuidora para a globalização. Segundo Liao Liqiang, diretor no Ministério de Relações Internacionais da China, “Os canais de navegação mudaram processos de produção, agricultura, sistemas industriais, elevaram os níveis da navegação mundial e promovem o desenvolvimento económico e social ao longo do tempo e em diferentes nações.” (Jornal do Comércio, 2018).

Também os próprios canais têm sofrido mudanças ao longo dos tempos. O canal do Panamá representa um exemplo de mudança, tendo sido alvo de um projeto de expansão com início em 2007, derivado do aumento da dimensão dos navios (Gonçalves, 2015). O canal de Suez constitui outro exemplo, encontrando-se em processo de expansão, devido a um navio ter encalhado e o ter bloqueado durante dias (CNN Brasil, 2022). Se, por algum motivo, os navios fossem impedidos de se deslocar através dos canais existentes, verificar-se-iam situações de escassez de energia e de mantimentos durante dias ou até semanas (Olanrewaju, 2006).

Apesar das suas vantagens, designadamente económicas, existem adversidades que, por vezes, as acompanham. E é sobre este ponto que o presente texto se debruça: a sua importância, mas, também, os impactes negativos que estes podem gerar na economia, usando o Canal de Suez como referência. Para tal, inicialmente, é exposto o conceito de ‘canal de navegação’, assim como a caracterização do Canal de Suez. Posteriormente, é analisada a sua importância económica: não apenas para o país detentor, mas para operadores de transporte marítimo que o utilizam e para o Mundo como um todo. E, por fim, são mencionados os principais impactes inerentes e soluções adotadas.

  1. CONCEITO DE ‘CANAL DE NAVEGAÇÃO’

Pode-se olhar para um canal de navegação como uma espécie de estrada, mas, em vez de uma infraestrutura rodoviária em alcatrão, este consiste numa estrutura presente no mar. A sua função é facilitar o acesso do transporte marítimo entre dois pontos, de forma a evitar que este tenha de percorrer longas distâncias (Logística Descomplicada, 2011). Este pode ser totalmente natural, criado por meio de um rio deslocado ou ser totalmente artificial (Logística Descomplicada, 2011).

Por vezes, um canal pode ser confundido com um estreito, mas existem fortes diferenças que separam estes dois conceitos. Um estreito é definido como uma faixa de água que une diferentes corpos de água, como mares e oceanos, e é sempre formado naturalmente (Cursoh, 2019) – um claro exemplo é o Estreito de Gibraltar (Figura 2), que liga o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo. Já um canal consiste numa faixa que divide duas áreas terrestres, que pode efetuar ligações num mesmo corpo de água e que pode ser quer natural, quer artificial (Cursoh, 2019) – um exemplo é o famoso Canal do Panamá (Figura 3), que permite conectar o Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico.

  1. CARACTERIZAÇÃO DO CANAL DE SUEZ

O Canal de Suez conta com uma extensão superior a 100 milhas e precisou de 10 anos para ser concluído, tendo a sua inauguração lugar no ano de 1869 (Özkanlisoy & Akkartal, 2022). Embora localizado no Egito, a sua construção partiu da decisão de França que ambicionava a abertura a novas rotas, através da conexão do Mar Vermelho ao Mar Mediterrâneo (Wondrium Daily, 2020). Até 1956, o canal ficou sob a gestão francesa e britânica tendo sido, a partir desse ano, nacionalizado pelo Egito (History, 2009). Esta nacionalização incitou ataques internacionais ao canal – por parte de Israel, França e Reino Unido, que pretendiam o seu controlo –, o que provocou o seu encerramento por alguns anos, tendo a sua reabertura tido lugar em 1975 (History, 2009). A criação deste canal constituiu numa importante revolução industrial no ramo marítimo, na medida em que afetou todas as atividades ligadas ao mar (Özkanlisoy & Akkartal, 2022).

Canal de Suez
Figura 4 – Canal de Suez. Fonte: Conhecimento Científico, 2021

O Canal de Suez consiste no canal mais longo, ao nível global, sem comportas (SCA, 2022), é artificial e conecta o Mar Vermelho ao Mar Mediterrâneo, ligando, mais concretamente, as cidades de Suez e de Port Said (Figura 4). A sua largura na área navegável fica compreendida entre os 200 e os 210 metros e a sua profundidade é de 24 metros (SCA, 2022). Ao longo dos anos, este foi sofrendo desenvolvimentos que aumentaram quer a sua área, quer a sua profundidade, de forma a conseguir acompanhar o aumento da dimensão de que os navios foram sendo alvo: no início da abertura do canal, este só conseguir albergar navios até 5.000 toneladas; já em 2010, este era capaz de permitir a passagem de navios com 210.000 toneladas (SCA, 2022).

Este aumento de capacidade do canal levou a que, ao longo dos anos, fosse possível o seu acesso por um maior número de embarcações – ultrapassando as 18.000, no ano de 2019 –, verificando-se, assim, um aumento da sua capacidade de carga – exibindo, no ano de 2019, um valor superior a 1.200 milhões de toneladas – (Figura 5). O aumento da carga transportada, ao longo dos anos, é também visível através da análise da figura seguinte – tendo exibido um valor superior a 1.000 milhões de toneladas, no ano de 2019.

Figura 5 – Evolução do tráfego marítimo no Canal de Suez. Fonte: SCA, 2022
  1. A SUA IMPORTÂNCIA ECONÓMICA
    1. PARA O PAÍS DETENTOR DO CANAL

O benefício económico para os países que detêm os canais de navegação é inegável, uma vez que os operadores pagam uma taxa pela passagem dos seus navios. E o Canal de Suez representa um muito bom exemplo, dado que as taxas pagas pelos operadores consistem numa fonte de receita de peso para o governo do Egito, sendo este o detentor da totalidade do canal (SCA, 2022).

Figura 6 – Valores das taxas de passagem pelo Canal de Suez. Fonte: Naggar Shipping, s.d.

É possível verificar, através da leitura da Figura 6, o valor das taxas requeridas pela Autoridade do Canal de Suez aos operadores de transportes marítimos que o atravessam – neste caso, no sentido sul do canal (Naggar Shipping, s.d.). É observável que, quanto maior é o peso da embarcação, mais elevada é a taxa correspondente: situando-se esta entre os 47,50 dólares – valor associado para embarcações com um peso inferior a 1.000 toneladas – e perto dos 400 dólares – valor associado a embarcações com um peso de, pelo menos, 60.000 toneladas.

Antes da situação pandémica de Covid-19, o contributo do Canal de Suez para o Produto Interno Bruto do Egito, era de cerca de 2% (BBC, 2021). O mês de janeiro de 2022, comparativamente ao mês de janeiro de 2019 (anteriormente à situação pandémica), contou com um aumento do tráfego no canal em cerca de 68% (Transportes & Negócios, 2022).

Em março de 2022, a Autoridade do canal decidiu aumentar as taxas cobradas aos operadores: destinando-se a praticamente todo o tipo de navio e que naveguem em ambos os sentidos do canal, com uma variação de subida situada entre os 5 e os 10% – situação diferenciada para os navios porta-contentores, com um aumento previsto até 47% e aplicado apenas aos que viajam pelo sentido norte (Transportes & Negócio, 2022). Já no mês de fevereiro, do mesmo ano, as taxas tinham sofrido um aumento de 6% – excluindo os navios de cruzeiro e de transporte de Gás Natural Liquefeito –, que, conforme estimativas, adicionariam cerca de 400 milhões de dólares anuais às receitas no canal (Transportes & Negócio, 2022). Este aumento das taxas deve-se ao facto de estar prevista uma ampliação do canal, motivada pelo encalhe de um navio (Transportes & Negócio, 2022) – situação que será explicada mais à frente.

Encontram-se empregados, na Autoridade do Canal de Suez, cerca de 14.000 pessoas e todas elas de nacionalidade egípcia (SCA, 2022), o que se pode considerar um ponto muito positivo para a sua sociedade e, também, para a sua economia, fruto dos descontos salariais que revertem a favor do Estado.

  1. PARA OS OPERADORES E PARA O MUNDO COMO UM TODO

Existem vários canais de navegação no Mundo; no entanto, nem todos eles possuem o mesmo grau de relevância. Alguns possuem uma elevada densidade ao nível do tráfego marítimo e com uma forte contribuição para o comércio global, enquanto outros nem tanto (Sinay, 2022).

Figura 7 – Tráfego no Canal de Suez Fonte: Vessel Finder, 2022

Os requisitos referentes às trocas comerciais têm um forte peso na intensidade de tráfego em alguns dos canais: o Canal de Suez constitui um exemplo por ligar os continentes asiático e europeu (Sinay, 2022), mais precisamente por integrar uma das principais rotas marítimas mundiais (Gonçalves, 2015). Este permite uma navegação diurna e noturna (SCA, 2022). É possível verificar, na Figura 7, a elevada afluência de navios que se preparam para entrar e que saem do canal. O registo foi efetuado no dia 15 de outubro de 2022 às 00h05 (hora nas cidades de Suez e Port Said) e, para este, apenas foram selecionados os navios comerciais de carga e de transporte de combustível (Vessel Finder, 2022).

Trata-se de um canal que proporciona uma rota mais curta para aqueles que pretendem aceder a Europa através dos Oceano Índico e Oceano Pacífico, ou vice-versa, tendo a sua travessia uma duração compreendida entre as 12 e as 16 horas (SCA, 2022). A inexistência deste canal obrigaria os navios a contornar o continente africano – o que adicionaria, pelo menos, 20 dias à sua viagem (Marpro, 2022) –, significando um maior despendimento de tempo e maiores gastos económicos quer com o combustível, quer com a operação dos navios (SCA, 2022).

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Figura 8 – Redução de distâncias proporcionada pelo Canal de Suez. Fonte: SCA, 2022

A Figura 8 permite ter uma noção da diminuição das distâncias que o Canal de Suez (designado por ‘SC’) proporciona entre cidades por ele conectadas, comparativamente à utilização do Cabo da Boa Esperança (designado por ‘Cape’) – alternativa ao Canal do Suez, caso os operadores tivessem de contornar o continente africano (SCA, 2022). No grupo das cidades destacadas é visível que a distância poupada entre elas é de, pelo menos, 23%.

O Canal de Suez alberga cerca de 12% do comércio mundial, sendo o petróleo o tipo de produto que representa a esmagadora maioria dos bens transportados através dele – perto de 2 milhões de barris diários, representando cerca de 238.600.000 toneladas por ano – (BBC, 2021).

A generalidade dos navios de carga a aceder ao Canal de Suez provêm de vários países. Ao nível de toneladas de carga transportada a aceder ao norte do canal – ou seja, através da cidade de Port Said –, à exceção do Egito (através de cidades mediterrâneas), os Países Baixos e os Estados Unidos da América representam a maior fatia, com 11.6 e 8.3%, respetivamente, no ano de 2019 (SCA, 2019). Já relativamente ao acesso ao sul do canal – ou seja, através da cidade de Suez – a Arábia Saudita, Singapura e China representam a maior parcela, com um peso compreendido entre os 11 e os 20.5%, no ano de 2019 (SCA, 2019).

  1. OS SEUS PRINCIPAIS IMPACTES E SOLUÇÕES

Quem diria que um encalhe de alguns dias conseguiria “virar o Mundo do avesso”? O dia 23 de março de 2021 refletiu bem o enorme valor do Canal de Suez quer para os operadores utilizadores, quer para o Mundo. O maior navio de carga a nível mundial – designado por ‘Ever Given’ –, com partida da Malásia e com destino aos Países Baixos (Lee & Wong, 2021), sofreu um encalhe de 6 dias durante a sua navegação pelo canal (BBC, 2021), comprometendo não só o tráfego marítimo, mas também o comércio mundial – as mais de 300 embarcações retidas no canal, enquanto esperavam pelo fim do bloqueio, estimularam uma perda económica estimada em cerca de 400 milhões de dólares por cada hora passada (Lee & Wong, 2021). Por dia, a perda económica equivaleu a mais de 9 mil milhões de dólares e, no fim dos 6 dias, a mesma foi de cerca de 54 mil milhões (Lee & Wong, 2021).

A ocorrência de acidentes no canal de Suez não é algo incomum: só entre os anos 2010 e 2019, ocorreram 75 acidentes, estando os navios porta-contentores relacionados com mais de um terço dos mesmos (Özkanlisoy & Akkartal, 2022). Os encalhes apresentam um peso considerável, tendo estes representado, na última década, um terço dos acidentes aí sucedidos (Özkanlisoy & Akkartal, 2022). A dimensão dos navios tem motivado alguns dos acidentes ocorridos, ao longo dos anos: apesar de estabelecidas restrições quanto à largura e profundidade das embarcações que o atravessam, o seu comprimento não apresenta limitações (Lee & Wong, 2021). E, embora a largura do canal seja aparentemente suficiente para a passagem de dois navios, o encalhe de um deles, que resulte no seu atravessamento, é capaz de obstruir a via na sua totalidade. Os 400 metros de comprimento do ‘Ever Given’ (Lee & Wong, 2021) excedem a largura da via do canal (Figura 9) e, por isso, foram suficientes para impossibilitar a passagem a outros navios, levando ao seu consequente congestionamento (Figura 10).

Parte dos navios acabaram por navegar pelo continente africano, adotando o Cabo da Boa Esperança como rota alternativa – tratando-se de um percurso mais longo e demorado, o que resultou no aumento de combustível despendido pelos navios e, consequentemente, nas despesas para os mesmos – expressando estas um aumento situado entre os 4 e 5% (Lee & Wong, 2021). Os navios que optaram por permanecer no canal, ao estimularem o seu congestionamento, levaram a atrasos que, mesmo com o fim do bloqueio, acabaram por contribuir para as perturbações no funcionamento do tráfego — resultando em problemas relativos à disponibilidade de navios e, consequentemente, de contentores (Lee & Wong, 2021).

Conforme defende Brian Alster, diretor na ‘Dun & Bradstreet[1]’, “The disaster of the moment becomes a global phenomenon because it is yet another reminder of the interconnectedness that comes with globalization and our reliance of each other as contributors to the global supply chain.” (Forbes, 2021). O mesmo acrescenta, ainda, que “Companies have developed a higher level of dependency on suppliers and third parties from other countries, and that dependency is highlighted when a link in the supply chain is impacted.” (Forbes, 2021).

Tratando-se de uma via marítima de elevada importância para as cadeias de abastecimento a nível global, o encalhe no Canal de Suez conseguiu disparar o preço do petróleo (BBC, 2021) em mais de 3% – aumento este associado ao receio da redução da sua oferta provocada pelos atrasos gerados pelo bloqueio do canal (Canal Rural, 2021). Muitas empresas também saíram lesadas deste acidente (BBC, 2021), servindo, como exemplo, o funcionamento de muitas das indústrias que dependem do recebimento de componentes provenientes de outros países para o fabrico dos seus produtos (Lee & Wong, 2021). Segundo a avaliação de especialistas, a Europa apresenta-se como o continente economicamente mais afetado por este acidente, apesar das empresas situadas na Ásia também possuírem lesões provocadas não só pelo atraso dos bens enviados da Europa, mas pela escassez de contentores já vazios que são enviados de volta – situação esta que, consequentemente, impacta o posterior envio internacional de mercadorias (Forbes, 2021).

Este acidente, que resultou em grandes prejuízos a nível global, levou a Autoridade do Canal de Suez a desenvolver um projeto para ampliar algumas das partes do canal, com previsão de conclusão em meados de 2023 (CNN Brasil, 2022). Mais especificamente, o projeto consiste em estender um segundo novo canal e alargar aquele onde o ‘Ever Given’ ficou bloqueado, prevendo melhorar a sua navegação em cerca de 28% (CNN Brasil, 2022) – os detalhes do projeto podem ser analisados através da leitura da Figura 11.

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Figura 11 – Projeto do Novo Canal do Suez. Fonte: SCA, 2022

Esta extensão tem em vista facilitar a fluência do tráfego em ambas as direções, reduzindo tempo de espera das embarcações, e aumentar a capacidade do canal em cerca de 48 navios diários, estando em sintonia com o previsto crescimento do comércio global (SCA, 2022). Apesar do investimento de cerca de 191 milhões de dólares (Reuters, 2022), estima-se que as receitas provenientes desta obra aumentem em cerca de 259% (SCA, 2022).

Fonte: SCA, 2022

Tal como defende o Oficial da Marinha Mercante Fernando Gonçalves no seu livro ‘O Mercado do Transporte Marítimo de Carga Contentorizada’, “Não existem, tecnicamente, limites ao aumento da dimensão dos navios.” (Gonçalves, 2015, p. 179). E, ao longo dos anos, a construção de novas embarcações tem procurado a sua ampliação, como já foi anteriormente mencionado. Desta forma, cabe aos canais de navegação, incluindo o Canal de Suez, acompanhá-los por meio do alargamento das suas vias marítimas – o que certamente acarretará investimentos, mas, em contrapartida, trará futuros ganhos económicos.

Os desafios inerentes aos canais de navegação não se cingem apenas às suas infraestruturas, mas também a fatores externos que os afetam de alguma maneira. A pirataria consiste numa realidade difícil de ultrapassar e o Canal de Suez apresenta-se vulnerável a este tipo de situação: só no Golfo de Aden e perto da Somália, o número de ataques piratas, reportados entre 2006 e 2008, foi à volta de uma centena (Notteboom & Rodrigue, 2011). Esta ameaça estimulou a que muitos operadores investissem em seguros, em tripulação e agentes de segurança para os seus navios, provocando um acréscimo nas suas despesas em milhares de dólares por navegação (Notteboom & Rodrigue, 2011). Por se localizar numa área suscetível – tendo sido alvo de ataques terroristas, no âmbito de guerras passadas –, o Canal de Suez apresenta, atualmente, uma segurança reforçada, possuindo incorporadas várias unidades militares e sistemas de vigilância, ao longo do seu canal (Lee & Wong, 2021).

A manutenção da competitividade do Canal de Suez é importante para manter a lealdade dos seus utilizadores e, ao mesmo tempo, atrair novos operadores. Caso contrário, a rota do Cabo da Boa Esperança e a rota do Mar do Norte poderão vir a constar nas novas escolhas para os percursos entre o este asiático e o norte da Europa (Notteboom & Rodrigue, 2011). Embora o Canal do Panamá sirva de passagem para a maioria das trocas comerciais efetuadas entre o continente asiático e a Costa Leste da América do Norte, o Canal de Suez também possui a sua participação nesta conexão (Notteboom & Rodrigue, 2011). Caso o Canal do Panamá continue a trabalhar na sua competitividade, este poderá tornar-se um concorrente à altura.

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

É incrível a elevada importância que o mar representa na economia mundial. Canais de navegação não são apenas “estradas” marítimas, mas sim uma “porta” de passagem para a globalização e prosperidade. No entanto, estes apresentam-se, de certa forma, ilusórios no seu poder: da mesma forma que contribuem para o sucesso económico de vários países, também podem promover o “caos” mundial. Esta situação foi bem ilustrada pelo acidente no Canal do Suez, em que uma obstrução de 6 dias proporcionou déficits árduos e demorados de ultrapassar, criando um cenário de “bola de neve”.

Apesar disso, este evento levou a compreender o quão importante é trabalhar na competitividade, de forma a acompanhar as mudanças e inovações sucedidas ao longo dos tempos. O projeto do alargamento do Canal de Suez, com previsão de conclusão em 2023, expressa bem uma preocupação com que acidentes, como o do ‘Ever Given’, voltem a suceder. Mas, ao mesmo tempo, expressa uma capacidade de antecipação motivada pela consciência de que o crescimento das trocas comerciais, agregado a um aumento da dimensão dos navios, tomará lugar no futuro. Agregando, ainda, o facto de que novos percursos poderão vir a conquistar as escolhas de muitos operadores: designadamente a rota do Mar do Norte, mas também o Cabo da Boa Esperança que, tal como foi analisado no presente texto, serviu de alternativa para muitos navios que ficaram afetados pela paralisação do canal no âmbito do acidente do ‘Ever Given’.

  1. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS

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Sinay. (2022). What are the Major Shipping Routes? Consultado a 13 out. 2022. Disponível em: https://sinay.ai/en/what-are-the-major-shipping-routes/

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Vessel Finder. (2022). Consultado a 14 out. 2022. Disponível em: https://www.vesselfinder.com/

Wondrium Daily. (2020). The Making of the Suez Canal: How the Impossible Dream Became a Reality. Consultado a 30 nov. 2022. Disponível em: https://www.wondriumdaily.com/the-making-of-the-suez-canal-how-the-impossible-dream-became-a-reality/

  1. A ‘Dun & Bradstreet’ consiste numa empresa americana que fornece dados e análise empresariais.

Edição: Dezembro 2023

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Boas Festas! A maior e melhor edição deste ano, com Tibério Graco, Rei Édipo, Edward Said, Bárbara Virgínia, o Jogo do Pau, Recursos Infinitos, Eugénio e Cesário, Playboy, Filosofia do Corpo, Heliogabalo, e muito mais.

Edward Said: Democracia e Humanismo em Estado de Crítica Permanente

Começamos com um ensaio de Francisco Chagas de Oliveira com um breve panorama das formas de acepção do conceito de humanismo na obra de Edward Said, que se esforça em investigar o conceito de “leitura em contraponto”, instrumento analítico proposto no interior de sua obra.

Bárbara Virgínia: a Primeira Realizadora de uma Longa Metragem Sonora em Portugal

Madalena e Rafael Romão Mira trazem-nos uma encantadora biografia de uma cineasta portuguesa, focada no seu percurso nos anos quarenta do passado século e na realização da longa- metragem Três Dias sem Deus, de 1945.

Rei Édipo: do Texto Clássico ao Questionamento Pós- Moderno

Ricardo Boléo presenteia-nos com um bom ensaio: uma leitura não necessariamente freudiana da peça de Sófocles, atendendo à transformação da psique do herói de ontem na mente de hoje.

O Jogo do Pau: uma Arte Marcial Renascida

Marco Serote Roos apresenta-nos uma fantástica excursão sobre as expressões e história desta pouco conhecida e pouco divulgada arte marcial autenticamente portuguesa, de raízes europeias e mediterrâneas.

Tibério Semprónio Graco e o seu impacto na queda da República Romana

Daniel Cardoso Almeida traz-nos uma análise do mandato do romano Tibério Graco como tribuno da plebe e a sua legislação, e de que formas isto teve impacto na República; das relações sociais entre os seus apoiantes e oponentes, particularmente Marco Otávio; e uma análise geral sobre o impacto que teve na queda da República.

O Cinema Inicial como Substituto das Artes Figurativas Tradicionais

Será que o advento do cinema implica uma rotura com tipos de representação mais familiares (i.e. as artes figurativas ditas tradicionais, como a pintura e a escultura) que existiam antes? Antes pelo contrário. Sílvia Diogo explica como.

Sobre Satchmo: um outro nome para “alegria”

Sofia Alexandra Carvalho brinda-nos com um simpático texto, de Nova Orleães para o mundo, que recorda o “embaixador da alegria”, um pioneiro cujo nome é sinónimo da palavra jazz, Louis Armstrong (1901 – 1971).

Ricardo Fortunato traz-nos uma tese contra-intuitiva na crónica Os “Recursos” do “Planeta” São “Infinitos”, conforme a concepção de um ecossistema dinâmico do planeta que tem em conta (1) a complexidade dos elementos e das relações que o constituem e (2) o registo da história da humanidade que conhecemos.

Marcas Portuguesas de Relógios… e de Automóveis

Portugal teve várias marcas no universo automóvel e relojoeiro. No mundo dos carros, uma marca destaca- se por ter criado o seu próprio motor. Na relojoaria, outra por criar os seus mecanismos internos. Nuno Lopes Margalha explora nomes que tiveram impacto nestes sectores, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria.

Peace to mutants #7 — Cranford Nix, The Futures, Lena d’Água

Cláudia Zafre again travels into the dark and light of obscure musical entries, this time featuring a punk and folk short-lived musician, a sould band from sixties Philadelphia and a portuguese dreamy female singer.

Conversas de Ana Vieira Vicente: Educação, Ser e o Futuro com Rui Caria

Conversa de Ana Vieira Vicente com Rui Caria, docente da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, sobre o modelo universitário vigente, a educação vocacional e a educação crítica, e o futuro da profissão. Clique no vídeo ou veja aqui.

Sobre Retórica e Dialéctica na Contemporaneidade

Sobre como duas artes fundamentais na antiguidade para a robustez do pensamento e do discurso são hoje encaradas com desconfiança como meros artifícios de forma e não como substancialmente importantes, numa crónica de João N.S. Almeida.

As Inovadoras Entrevistas da Revista Playboy

Pouco conhecida em Portugal sob esta vertente, a revolução cultural da revista Playboy não passou só pelo erotismo mas também pelo espírito libertário de expressão e pensamento que orientou a sua linha editorial, tanto nos conteúdos apresentados como nas entrevistas que realizava. Luther King, Malcom X, Hoffa, Fidel Castro, Nabokov, Genet, Dali, os Beatles, foram alguns dos retratados. Todos os links aqui.

A Narrativa do Silêncio e a Procura da “Palavra Exata” em Eugénio de Andrade: Leitura Crítica de Ostinato Rigore

Dois ensaios sobre literatura portuguesa, o primeiro de Alexandra Cleanu, num debruçar atento sobre alguns poemas que compõem Ostinato Rigore (1991), de Eugénio de Andrade, descobre-se a maneira como a “palavra plena”, enquanto ideal de espelho e de imagem da transparência do homem ao homem, é uma exploração constante da perfeição última do silêncio poético.

O Cesário de Philèas Lebesgue: Swinburnesco e Adorador do Realismo

Ana Mendes da Silva traz-nos, por seu lado, algumas observações sobre um cronista e crítico oitocentista pouco conhecido, Philèas Lebesgue, que fez algumas leituras mais ou menos inéditas sobre aspectos na poesia de Cesário Verde.

A Estranha Alegria de Alguns Sectores Políticos Aquando da Morte dos seus Inimigos

Um lembrete editorial premente: sobre o como e o porquê de certos sectores políticos comemorarem com barbarismo, calculismo e imberbidade a morte dos seus inimigos, e outros não.

Criacionismo, Exegese e Criacionismo Antropológico

Mais um lembrete editorial sobre duas falácias conceptuais: a ideia de que o criacionismo religioso é, ou alguma vez foi, uma doutrina importante e dominante, e a ideia de que o criacionismo antropológico — pensar que há “povos” que são “originais” de determinados sítios — tem o mínimo de substância.

Sugestões: História de Arte, Economia, Filosofia, Evangelhos Apócrifos e Heliogabalo

Quatro excelentes obras de história de arte, em grande formato, retratando com grande qualidade de impressão muitas das obras abordadas. São elas A New History of Italian Renaissance Art, com argumentos históricos sólidos sobre o papel da iniciativa privada e da competição entre estados na proficuidade da produção artística no período; 19th-Century Art, de Rosenblum e Janson, abordando toda a vitalidade produtiva dos períodos pós- revolucionários na américa e na europa; Nineteenth Century Art: A Critical History, da Thames and Hudson, focando-se em dinâmicas de raça, género, classe social e coisas que tais, sobre o mesmo período; e Art Since 1900, de Foster e Krauss, entre outros, com cuidadosa classificação da miríade de escolas artísticas do século XX.

Recomendámos várias obras documentais, de audiovisual, sobre filosofias económicas. É difícil navegar a oferta dentro desse mundo, pois abundam entradas do género alarmista, programático, catastrofista: análises histéricas às “crises do capitalismo”, abordagens beatas e moralistas ao pecado da dívida, teorias da conspiração sobre bancos mundiais e controle da população, etc. Tentámos manter os pés na terra e sugerir algumas obras lúcidas, acessíveis ao público em geral e até optimistas. São seguramente escolhas acima da média: se verificarem listas de documentários contemporâneos sobre o tema, contemplarão exactamente o tom sensacionalista, alarmista, descontrolado e sem juízo crítico e histórico sério que infelizmente domina o panorama do género. Lista completa aqui.

Novidades editoriais da filosofia. De Robert M. Sapolsky, Determined: A Science of Life Without Free Will, uma revisão do estado-da-arte da causalidade nos processos mentais, a sua relação com o mundo e o determinismo, pegando em muitos exemplos da ciência moderna. De Artūrs Logins, Normative reasons: between reasoning and explanation, com uma teoria sobre o estabelecimento de factos morais e a sua interacção com as faculdades da razão. Numa área semelhante, Juan Comesaña, Being Rational and Being Right, sobre como a assunção de factos falsos modifica a forma lógica do raciocínio. E de Robert W. Batterman, A Middle Way: A Non-Fundamental Approach to Many-Body Physics, sobre a aplicação ao estudo filosófico de alguns métodos conceptuais mais raros usados nalguns ramos da física como a climatologia, e que não se baseiam na reconstrução e no reducionismo às partículas mínimas.

Ainda, de Zach Weber, Paradoxes and Inconsistent Mathematics, um volume sobre paradoxos matemáticos e a sua conjugação com escolas filosóficas baseadas em proposições de valor exclusivamente verdadeiro ou falso. Depois, de Igor Douven, The Art of Abduction, sobre o modo silogístico- lógico da abdução, que, ao contrário da dedução, se baseia não em provas absolutamente verificáveis mas somente prováveis, actuando, de certo modo, através do coerentismo. Ainda, de J. Adam Carter, Autonomous knowledge: radical enhancement, autonomy, and the future of knowing, um curioso volume sobre o papel da característica da autonomia na constituição do conhecimento, referindo-se à singularidade do indivíduo que empreende o conhecimento. Por último, de Jay L. Garfield, Losing Ourselves: Learning to Live Without a Self, que propõe um modelo conceptual em que o eu é substuído pela pessoa, uma abordagem não inédita e baseada em parte na filosofia oriental.

Sobre filosofia do corpo e do desporto. Um tomo magnífico, o The Oxford Companion to the Body, que agrega tópicos variadíssimos sobre o corpo, desde vampiros, gravidez, acne, violência, a laringe e a faringe e os estudos de Da Vinci, até ao racismo e à santidade; o Routledge Handbook of Body Studies, que agrega ensaios, desde a questão inicial do que constitui um corpo, até às ligações do mesmo com a religião, com a medicina e com a tecnologia; o trabalho germinal de Paul Weiss, Sport: A Philosophical Inquiry, com uma perspectiva filosófica de raiz platónica; e o Routledge Handbook of the Philosophy of Sport, agregando as principais categorias e temáticas dessa área, em ensaios sobre tecnologia, a competição, a ética e a estética, as regras e as leis, a justiça.

Quatro edições portuguesas de alguns documentos da literatura cristã excluídos do cânone bíblico mas parte de tradições alternativas da exegese. Produzidos entre o primeiro e o terceiro séculos desta era, foram remetidos para o esquecimento e para a proibição após o primeiro conselho de Niceia, em 325 AD. Excluída da ortodoxia centralizadora e uniformizadora ficava assim a tradição gnóstica, que enfatizava a revelação pessoal não intermediada pela autoridade religiosa, e na qual todos estes documentos, assim como os canonizados nos textos sagrados, circulavam livremente, durante os três primeiros séculos da construção e estruturação do culto cristão. Eis as edições da Ésquilo com tradução de Luís Filipe Sarmento, em três volumes, e a mais recente de Frederico Lourenço, na Quetzal.

E duas obras fantásticas sobre o imperador romano Heliogabalo, que reinou entre os seus 14 e 18 anos, em 218 AD, hoje referido na comunicação social de forma absurdamente anacrónica e inexacta como “trans“. Era, na verdade, louco, anarquista e pontualmente travesti: acabou por tomar um “supressor hormonal” muito eficaz que consistia em ser-se assassinado, algo muito comum à época. Consultem as suas biografias. Deixamos duas sugestões: as compsições de John Zorn, de 2007, e a monografia de Antonin Artaud, de 1934. Escutem as primeiras aqui e leiam as segundas ali.

Boas Festas

e Mil Agradecimentos a Autores e Leitores!

Chegamos ao fim do ano de 2023 e início de 2024, data que marca também o segundo aniversário desta publicação. Orgulhamo-nos de sermos um espaço que funciona como, em primeiro lugar, um fórum livre de apresentação e debate de ideias, um repositório de textos — ensaios, críticas e crónicas de âmbito académico dirigidos ao público em geral — e uma voz forte e interventiva naquela que é hoje uma parte incontornável do discurso público, as redes sociais.

Depois de quase trezentos ensaios publicados, quinhentas partilhas diárias de conteúdo, e muita conversa, debates, discussões e ideias, queremos agradecer em particular a algumas pessoas que connosco têm colaborado muito proximamente, como Tomás Vicente Ferreira, Silva Diogo, Ana Vieira Vicente, Sofia Alexandra Carvalho, Mafalda Simão Leal, Nuno Lopes Margalha, Cláudia Zafre, entre outras.

Agradecemos e enviamos um abraço de simpatia e gratidão também àquelas que nos têm honrado com colaborações e contribuições mais pontuais mas numerosas e/ou importantes, como Lauro Reis, Alexandra Cleanu, Gonçalo Fernandes, Vítor Rua, Antonio Marques Pereira, Cristina Costa, Rui Caria, Itélio Muchisse, Luís Coelho, Victor Vicente, António M. Feijó, Mariana Franco da Silva, Charles da Silva Rodrigues, Guilherme Berjano Valente, Miguel Silva Graça, Jéssica Pinto, e os nossos queridos consultores Diogo Ribeiro Santos, Jorge Buescu, Pedro Galvão, Hélio Alves e Luís Pereira Coutinho. Muito estimamos todas estas participações, com as quais esperamos continuar a contar, estando sempre abertos a mais propostas de colaboração, submissão de textos, e lançamento e debate de ideias, advindos quer do mundo académico quer da sociedade civil em geral.

Desejamos assim umas boas festas e um grande e muito bom ano novo para todos! E mil obrigados.

Em nome da direcção e de todos,
João N.S. Almeida, Ricardo Fortunato e Ana de Oliveira Sérgio

Os Três Artigos Mais Lidos do Ano

Como já é habitual, no final de cada ano fazemos as contas e premiamos com gratidão, amizade e um vale da Wook para cada um dos autores, os três artigos mais lidos do ano. Aqui estão eles:

E se os Centros Comerciais não Imitassem a Cidade, mas a Construíssem?

De Miguel Silva Graça, sobre o futuro do consumo, do comércio a retalho e dos centros comerciais nas cidades em Portugal e na Europa.

A Poética do Sublime em Kant no Cinema de Andrei Tarkovsky

De Marta Silva de Almeida, pensando acerca da dicotomia entre belo e sublime em Kant, propõe-se observar o cinema de Andrei Tarkovsky através de uma visão do conceito de sublime.

Sobre realismo e antirrealismo científico: o argumento do milagre

De Carla Feliciano, uma breve revisão acerca de um dos argumentos mais influentes em favor do realismo científico, e também sobre três ataques ou desafios que lhe foram dirigidos.

Deixamos também aqui cinco menções honrosas de artigos que se aproximaram desse pódio. São eles Como É, Como Ter e Como Tratar de um Cavalo, de Ana Vieira Vicente; Acerca da Histeria Bovina nas Redes Sociais quanto a Afirmações Comuns, de Ricardo Fortunato; Lux em Lisboa: Entre o Brilho Superficial e a Relevância Cultural, de Vítor Rua; Direitos de Seres Sencientes a Partir do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, de Miguel Furtado; e Somos Inteligentes o Bastante para Saber quão Ignorante é a Nossa Crítica Musical em Portugal?, também de Vítor Rua. Um grande obrigado a todos!

E Mais Boas Festas:

“The Other 100 Greatest Movie Insults of All Time”!

Porque o modo discursivo de desejar boas festas e felicidades a todos é parecido com o do piropo ou o do insulto, aqui deixamos, à semelhança do ano passado, mais um excelente vídeo de Harry Hanrahan: The Other 100 Greatest Movie Insults of All Time”!

Novamente, o convite para submeterem propostas e artigos — ensaios, crónicas e críticas — numa fase já concluída ou enquanto versões incompletas, esboços ou ideias, sobre temas das vossas áreas de estudo e investigação ou sobre o que preferirem. Aproveitem conteúdos desperdiçados — trabalhos para cadeiras e seminários, apontamentos, estudos parciais, trabalhos de campo, relatórios, registos de conversas e debates, etc. — para os dar a conhecer ao mundo. Ajudamos a convertê-los em formato legíveis pelo público em geral. Contactem-nos em geral@revistaminerva.pt.

Imagem: retrato da imperatriz chinesa Dowager Cixi (1835–1908), da autoria de Hubert Voos, de 1905, ávida coleccionadora de arte e um dos primeiros governantes modernos a entender o poder da imagem na propaganda política e na diplomacia

Sobre Satchmo: um outro nome para “alegria”

De Nova Orleães para o mundo: recordamos o “embaixador da alegria”, um pioneiro cujo nome é sinónimo da palavra jazz, Louis Armstrong (1901 – 1971).

Aquele que se compreende a si mesmo
e às suas afecções
clara e distintamente alegra-se […]
 

Espinosa

O embaixador da alegria (cf. Havers, 2013: 38[1]), também cunhado por “Pops”, “Satchmo”, “Dippermouth” ou “Satchelmouth”, o mesmo é dizer Louis Armstrong, oferece um lastro de alegria musical, que se pode encontrar nos álbuns maiores deste artista, tais como “Satchmo At Symphony Hall” (1954), “Ella and Louis” (1956), “Ella and Louis Again” (1957), “Porgy & Bess” (1959) e “Satchmo: Ambassador of Jazz” (2011). No entanto, é pelo modo singular da sua expressão artística, quer seja através do instrumento vocal (o seu Scat singing é lendário) quer pelo uso virtuoso dos instrumentos de sopro, uma espécie de prolongamento de si mesmo, que o músico se destaca e ilumina a máxima de Espinosa. 

O dealbar do século XX não poderia ter irrompido com melhor promessa: nascido a 4 de Agosto de 1901, em New Orleans (Havers, 2013: 38), ainda que em entrevista no Dick Cavett Show, datada de 29 de julho de 1970, tenha afirmado ter nascido em 1900, à meia-noite, o músico abandona, anos depois, o seu berço natal, o mesmo do jazz, e junta-se à King Oliver’s Band em Chicago. No entanto, em 1924, passa a pertencer à Fletcher Henderson’s Orchestra, em New York. Acompanha Henderson durante um ano, deixando memoráveis gravações (cf. “Shanghai Shuffle”).

Em 1925, regressa a Chicago para liderar a sua banda, que inclui os seguintes músicos: a pianista e compositora Lillian Hardin Armstrong (1898-1971), a sua segunda mulher, Kid Ory (1886-1973), no trombone, Johnny Dodds (1892-1940), no clarinete, e Johnny St. Cyr (1890-1966) no banjo. A banda começa a gravar em Novembro de 1925, em Chicago e, com a chancela de OKeh Records, saem a lume “Well I’m In The Barrel” e “Gut Bucket Blues”, dando início à era diamantina da história do jazz, com Louis Armstrong e os seus Hot Fives and Sevens.

Em março de 1929, Armstrong grava “Knockin’ A Jug”, a sua primeira sessão de gravação com músicos brancos e afro-americanos: Jack Teagarden (1905-1964), no trombone, Happy Caldwell (1903-1978), no saxofone tenor, Joe Sullivan, no piano, Kaiser Marshall (1902-1942), na bateria, e Eddie Lang (1902-1933), na guitarra. Esta edição marca o fim dos Hot Fives and Sevens. 

Em 1932, o músico inicia uma tour pela Europa e pela Grã-Bretanha. Porém, em 1939, os poucos sucessos do músico cingiam-se a remakes de clássicos, como “West End Blues”, “Savoy Blues” e “When The Saints Go Marching In”. Aliás, durante os anos da Guerra, as vendas de Louis Armstrong eram escassas e, não sem o empenho do produtor George Avakian (1919-2017), apenas as reedições dos Hot Fives and Sevens pareciam satisfazer o público jazzístico.

Será, pois, com 45 anos que o salto artístico deste entertainer performer nato, como lembra o seu cúmplice amigo e fotógrafo Jack Bradley, acontece: em maio de 1947, oferece um concerto tremendo no Town Hall, em New York, e, em novembro de 1947, toca com os seus “All Stars” (Jack Teagarden, Barney Bigard, Dick Cary, Arvell Shaw, Big Sid Catlett e Velma Middleton) no Carnegie Hall. Repete o preceito estelar, duas semanas depois, na Boston’s Symphony Hall. Dois concertos que ficaram gravados para a posteridade. 

Nos anos 50, mantendo a regularidade dos concertos de “All Stars”, ainda que as presenças fossem gravitando, Satchmo grava com Ella Fitzgerald, sob a égide da Verve. Após as sessões de gravação com Fitzgerald, cuja logística apresentava grandes obstáculos, dado o frenesim itinerante de Armstrong, como fixado por Norman Granz (Havers, 2013: 41), o músico participa de uma sessão de gravação olímpica de um dia com uma orquestra dirigida por Russell Garcia, que se pode ouvir em dois álbuns, editados em 1957: “I’ve Got the World On A String” e “Louis Under The Stars”. Apenas com quatro dias de intervalo, e já contando com cinquenta e seis anos, Pops grava um novo álbum com Fitzgerald, intitulado “Porgy & Bess” (1959), e antes de 1957 terminar, grava ainda com Oscar Peterson (1957). 

Vítima de um ataque cardíaco, em 1959, Satchmo decide abrandar o ritmo jazzístico, mas ainda assim os anos sessenta trazem o conteúdo mais aclamado do seu espólio: “What a Wonderful World”, “Hello Dolly” e “We Have All The Time In The World”. 

A 6 de julho de 1971, Lucille Buchanan Wilson Armstrong (1914-1983), a quarta esposa do músico, encontra Pops no leito do seu lar, em Corona, já sem vida. O brilho desta estrela, no entanto, perpetuar-se-á. Mais de trinta mil pessoas acompanharam o seu cortejo fúnebre, com a voz de Peggy Lee a entoar “The Lords Prayer”.

Mas a existência incandescente deste artista, sendo o primeiro a chegar ao local dos concertos, não abdicara nem do fruto das paixões, tendo casado quatro vezes, nem do uso recreativo da marijuana. É, aliás, o seu amigo fotógrafo, Jack Bradley, cujo espólio se encontra em Louis Armstrong House Museum[2], quem descreve, em “Louis Armstrong Through the Lens of Jack Bradley”, a parafernália de loções e cremes que o músico transportava consigo para todos os concertos, a par da sua máquina de escrever e do seu Reel-to-Reel Tape Recorder.

Com efeito, além do legado musical e artístico, Satchmo deixa um espólio privado fecundíssimo, que inclui perto de setecentas gravações áudio (algumas dessas gravações privadas revelam a consciência crítica do músico, sempre com um sentido de humor apurado, face às situações de segregação racial, vide “Louis Armstrong special on 60 minutes”), bem como colagens da sua lavra, à boa prática surrealista, dezenas de manuscritos autobiográficos e perto de oitenta álbuns de recortes. 

The Real Ambassador”, apesar da sua aparição em inúmeras capas de revistas (cf. Life Magazine, Time Magazine, Variety) e da atribuição de honras e prémios (Down Beat Jazz Hall of Fame, Rock and Roll Hall of Fame e ASCAP Jazz Hall of Fame e o Grammy Lifetime Achievement Award), não deixou de ser fiel à sua estrela, com a simplicidade de quem, conhecendo a privação e a escassez, se alegra com meia dúzia de ovos no frigorífico, sempre que lhe apetecesse saciar a fome, como lembra Bradley no documentário supramencionado.

As suas aparições, bem como o seu legado musical, transportam uma invariável distintiva: a alegria. Melhor, um acréscimo de ser, como lembra Espinosa, que abarca não apenas o sorriso que desenha por inteiro o seu rosto (um sorriso benevolente e contagiante, que não nasce dos lábios, mas de uma interioridade cheia: não fora os lábios a filtrar a alegria, não aguentaríamos a sua intensidade), mas sobretudo uma compreensão de si mesmo, que encontro disseminada no grau máximo de entrega e expertise.

Satchmo é um outro nome para a alegria traduzida em génio musical.  


[1] Cf. Havers, Richard (2013). Verve: The Sound of America. Thames & Hudson.

[2] Em 2005, a Louis Armstrong Educational Foundation cedeu uma quantia avolumada ($480,000) para a aquisição da coleção de Jack Bradley, que se tornou parte integrante de Louis Armstrong Archives. A extensa e riquíssima documentação foi catalogada e digitalizada, graças à Fund II Foundation, em 2016.

Retórica e Dialéctica: a Má Reputação

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Presentemente, duas artes do discurso absolutamente fulcrais para a vida cívica e intelectualmente superior nas sociedades clássicas de outrora, como a da Grécia, a de Roma antiga ou até mesmo na China imperial — seguramente sob outros termos — são hoje sujeitas a uma reputação plena de conotações negativas e, lamentavelmente, de raiz mal-informada.

Parte da má reputação dessas duas artes já tinha origem na antiguidade. Na contemporaneidade, porém, o seu papel original absolutamente fulcral tanto na forma como no conteúdo do pensamento e do discurso foi em absoluto secundarizado e quase esquecido em prol de uma ética moderna que concebe a linguagem como literal. Por retórica entende-se commumente nos dias de hoje figuras de estilo de uso excessivo, soterrando um eventual conteúdo literal do discurso com floreados com vista à distração do interlocutor; e por dialéctica entende-se o desfoque do argumento principal em prol de argumentos e contra-argumentos em redor do mesmo, com vista a um carrossel niilista que também teria por fim distrair o interlocutor da substância discutida. Ora nada disto é necessariamente assim e procede principalmente de maleitas e mal-entendidos contemporâneos quanto à natureza da linguagem, da realidade e dos seres humanos.

Apesar da teoria de correspondência aristotélica — a ideia de que a linguagem, e, em última instância, a percepção e sua interpretação, corresponde, mais ou menos bem, aproximadamente, às coisas tal como elas são — ser um princípio razoavelmente admissível tanto na antiguidade como na modernidade, embora seguramente também discutível, não parece certo que seja encarado hoje de modo igual a ontem devido a diferenças fundamentais de como a linguagem e a realidade são concebidas. Apesar de tudo, não existe, na antiguidade ocidental, subjectivismo: crê-se na realidade objectiva das coisas independentemente da sua mediação, e a partir daí também não se possui nenhuma vergonha quanto ao carácter volátil, maleável, poético da mesma. Na modernidade, confunde-se esse mesmo carácter transitório com a própria natureza da realidade, habituado que foi o homem moderno a reduzir a fé na mesma a uma série de provas empíricas sujeitas ao calibre do método, e todas elas saindo falhadas.

Perante tais confusões, que aliás acabam por negar completamente qualquer via de substanciação das coisas através da filosofia, já que a maldição do meio e da subjectividade do mesmo acaba por contaminar qualquer ensaio de certezas, é natural que as duas artes do discurso se tenham aputalhado, digamos assim: a retórica como floreado, lipstick on a pig, e a dialéctica como círculo vicioso niilista.

É preciso sublinhar que o significado original destas duas artes não representa nada disto: a retórica é derivada dos instrumentos precisamente materiais e substanciais que o discurso nos proporciona para fazermos argumentos, e não inviabiliza a lógica nem lhe dá um disfarce, mas antes é através dela que a lógica encontra expressões. É evidente que o grande mal-entendido por detrás disto é a ideia de que existe uma linguagem literal que nos diz exactamente como as coisas são, ou seja, um totalitarismo de uma tendência histórica muito redutora pertencente a homens efeminados do Iluminismo. A dialéctica, por seu lado, permite, através dos argumentos e contra-argumentos, o mercado livre das ideias, ver o que sobra no final, ver o que mais fortemente se aguenta. Ambas as práticas são processos, e é através desses processos que o esclarecimento surge. Rejeitá-los e crer, de forma ateia e devota, numa linguagem literal incorrompida por essas perversões, é de uma inocência falida.

Deixamos aqui o lembrete para o reequacionar destes termos e a sua recuperação para o âmbito das práticas nobres e necessárias à vida intelectual e à vida meramente coloquial do dia-a-dia. São práticas que estão muito mais perto de nós do que parece, e mesmo o homem mais obsessivamente próximo da ideia da correspondência aristotélica, da linguagem representando as coisas tal como elas são, sem intermediação, não será completamente alheio a qualquer uma destas indispensáveis artes.

Tibério Semprónio Graco e o seu impacto na queda da República Romana

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Texto de Daniel Filipe Cardoso Almeida. Resumo: No Séc. II a.C., após as Guerras Púnicas, a República Romana tinha-se tornado numa potência hegemónica no Mediterrâneo, com isto trouxe um aumento exponencial de território e de riqueza, esta situação levou ao desenvolvimento de problemas, nomeadamente problemas de natureza económica e social. Com efeito, muito dessa riqueza era monopolizada pelas grandes famílias da nobilitas romana, houve assim um aumento da desigualdade no acesso à riqueza em Roma, traduzindo-se num aumento da pobreza do povo romano. Outros dos problemas criados com a expansão romana foi a compra das pequenas propriedades agrícolas, por parte das famílias nobres romanas, e transformando estas pequenas propriedades agrícolas em grandes latifúndios, geridos por escravos, cujo objetivo era o lucro, fazendo com esta população que possuía as pequenas propriedades agrárias tornassem ainda mais empobrecida e dirigissem a Roma. Nesta conjuntura socioeconómica, surge uma fação política da nobilitas, os populares. Esta nova fação política argumentava que o povo romano deveria ter uma maior intervenção sobres as decisões do governo da República Romana, através do aumento de poderes dos comícios. Dentro desta fação política encontramos um indivíduo Tibério Semprónio Graco, o mesmo foi eleito tribuno da plebe, e procedeu a uma série de reformas, com o objetivo de resolver alguns dos problemas sociais e económicos que a República Romana atravessava de forma ajudar o povo romano, no entanto, o seu subsequente assassinato foi o primeiro acontecimento de violência política sem precedentes na História da República Romana. O seu assassinato deu legitimidade aos políticos populistas e demagogos. O Senado, em vez de resolver os problemas adiava os mesmos, isto iria trazer consequências graves para o futuro da República Romana.

Este ensaio tem como objetivo avaliar o impacto que Tibério Semprónio Graco teve na queda República Romana. Nesse sentido, irei analisar o seu mandato como tribuno da plebe e a sua legislação, e de que formas isto teve impacto na República. Em primeiro lugar na introdução, irei abordar os antecedentes históricos e os problemas que Roma enfrentava. Em segundo lugar, no desenvolvimento analisarei as relações sociais entre os seus apoiantes e oponentes, particularmente Marco Otávio; em seguida irei relatar os acontecimentos de 133 e 132 a.C., incluindo a reforma proposta por Tibério Graco; em seguida vou analisar a comissão proposta por Tibério Graco, nomeadamente as suas funções e poderes; e por fim a relação entre a morte de Tibério Graco e a expedição à Enna, na Sicília. E por fim uma análise geral sobre o impacto que Tibério Graco teve na queda da República. Na conclusão, vou assinalar as diversas implicações que as reformas de Graco tiveram na República Romana, nomeadamente na política e sociedade. Esta análise irá basear-se em bibliografia geral especializada sobre o assunto e artigos científicos, e em fontes maioritariamente literárias. Palavras-chaves: Républica Romana / Roma / Ager Publicus / Tibério Graco

Antecedentes históricos

Os problemas decorrentes da expansão romana

Depois da vitória de Roma sobre Cartago e a sua subsequente conquista, a República Romana torna-se na potência hegemónica do Mediterrâneo. Com a expansão romana a República Romana teve um aumento exponencial de território e riqueza, sendo esta vindo principalmente do Oriente, nomeadamente da Grécia que foi conquistada e transformada em províncias no mesmo ano da conquista de Cartago. A expansão romana trouxe grandes benefícios para República Romana, contudo deu origem a vários problemas de caráter económico e social em Roma.

Durante a história da República Romana, a agricultura fora sempre a base económica da cidade. Durante séculos, os camponeses que trabalhavam as suas propriedades de tamanho modesto no interior da Itália foram o sustento principal da produção agrícola romana.[1] Concomitante, o ager publicus, as terras públicas do povo romano estiveram disponíveis para pessoas privadas, fossem cidadãos romanos ou mesmo aliados, por um imposto pagável ao Estado, estes pequenos proprietários camponeses dependiam desta para sobreviver.[2]

No entanto, com as conquistas romanas este sistema económico irá sofrer alterações irreversíveis, conforme irei abordar agora.

Assim sendo, neste período da história romana[3] apenas os homens que possuíam propriedade poderiam integrar o exército romano, logo todos os pequenos proprietários agrícolas foram mobilizados para guerra, isto afetou as produções agrícolas, sobretudo após as Guerras Púnicas. Ora, antes das guerras Púnicas, as campanhas militares romanas eram de curta duração de modo a não interferir nas necessidades flutuantes de mão-de-obra da agricultura. Isto permitiu que os homens permanecessem em casa durante as épocas do ano em que necessitavam de semear e colher as suas colheitas e supervisionar o acasalamento e o abate dos seus rebanhos de animais. Este modelo de campanhas militares de curta duração, em beneficio para os camponeses foi rompido com as longas campanhas militares das Guerras Púnicas, que se prolongavam ano após ano, mantendo assim os pequenos agricultores longe das suas propriedades, o que causou graves problemas económicos para os pequenos agricultores e as suas famílias, e para a própria Républica.[4] Com efeito, devido as longas campanhas por parte das Guerras Púnicas as famílias dos pequenos proprietários rurais não tinham condições para manterem as suas pequenas propriedades por uma multitude de razões, nomeadamente a falta de conhecimentos sobre agricultura, logo os grandes proprietários rurais aproveitaram a ruína ou desinteresse e afastamento dos pequenos agricultores e da abundância de mão de obra imigrante e servil, a qual oferecia vantagens em termos de preço, organização e supervisão, inclusive por estar dispensada do serviço militar. As más condições oferecidas aos escravos que trabalhavam nos campos vieram a originar revoltas ou formas passivas de resistência.[5] Foi sobretudo durante a II Guerra Púnica que foi mais prejudicial para os pequenos proprietários.

Durante a II Guerra Púnica, as devastações provocadas pela invasão de Aníbal com as suas deambulações por território itálico provocaram enormes perdas de camponeses em combate e em razias, desabituação do cultivo dos campos por ausência prolongada em campanhas, conforme havia afirmado, incluindo as posteriores à vitória sobre Cartago, e falta de dinheiro para novas culturas que exigiam investimento de capital vultuoso e sem retorno rápido, levando assim ao desaparecimento da pequena propriedade. Ora, capital era o que não faltava à elite romana devido às conquistas. E “uma vez que a classe superior romana retirava a maior parte do seu rendimento normal de terras, um aumento geral da sua riqueza era necessariamente acompanhado pela formação de grandes propriedades”, até porque a lei Cláudia de 218 a.C. limitava os senadores à riqueza fundiária e vedava‑lhes o grande comércio marítimo, o que não significava que o comércio lhes não interessasse. Para agravar mais esta situação, a cultura do trigo, mais barato quando importado especialmente da Sicília e da Hispânia, ou se limita ao autoconsumo ou é abandonada, mostrando‑se a Itália incapaz de alimentar a população cada vez maior de Roma, que aumentava tanto mais quanto “a subsistência era barata e o divertimento não custava nada”. Por mais tentativas de restrição, como nas leis Liciniae Sextiae de 367, provavelmente renovadas posteriormente, tentassem limitar a extensão de terra apropriada em domínios públicos (ager publicus), surgem latifúndios baseados em novas culturas do azeite e do vinho e na pecuária em larga escala e com transumância entre propriedades. Muitos desses grandes domínios, particularmente na Itália central e do sul (na Gália Cisalpina houvera distribuição de terras por pequenos agricultores), pertenciam a proprietários absentistas que, até por terem várias propriedades em regiões diferentes, deixavam a sua gestão nas mãos de um intendente escravo (vilicus). Foi para eles que Catão o Censor propôs uma nova teoria económica, baseada numa agricultura racional e científica de autossuficiência e lucro [6]

Com efeito, isto provocou uma onda de imigração para a cidade de Roma. As diversas famílias foram obrigadas a vender as suas propriedades, com isto os homens foram procurar trabalho como trabalhadores braçais e as mulheres procuravam trabalho como tecelãs, de modo a fazer roupa. Quaisquer que sejam as razões, a estabilidade tradicional da vida rural foi terrivelmente rompida. A imigração de pessoas desesperadas para Roma aumentou o nível de pessoas com pobreza extrema na capital. A dificuldade contínua que estes pobres urbanos sem propriedade (capite censi) experimentaram para se sustentarem durante todos os dias numa cidade assoberbada os tornou um elemento potencialmente explosivo na política romana. Este grupo da população estava disposta a apoiar com seus votos qualquer político que prometesse aceder às suas necessidades. Tinham que ser alimentados de alguma forma, de forma a evitar distúrbios alimentares na cidade. Dessa forma Roma durante a República tardia necessitava de importar cereais para alimentar a sua população urbana. O Senado supervisionava o mercado de cereais para evitar a especulação no fornecimento de alimentos básicos de Roma e para garantir uma ampla distribuição em tempos de escassez.[7]

Numa perspetiva diferente, sobre os problemas políticos e sociais de Roma Antiga, o autor deste artigo Mitchell admite que durante a expansão romana ocorreu uma divisão dentro da população romana, com os membros da nobilitas no topo da sociedade romana, uma espécie de classe média consistindo em camponeses com pequena propriedade, e finalmente fundo da sociedade romana, os pobres sem terra ou proletarii, que não podiam servir nas guerras. Conforme, havia dito anteriormente, se um homem sobrevivesse a uma campanha militar, este regressava a sua quinta, com ervas daninhas, as suas ferramentas enferrujadas e ele era obrigado a pedir dinheiro emprestado para começar de novo. Portanto, quando este foi para o exército novamente ou perdeu tudo sob a cruel lei da dívida. O pequeno comerciante e o artesão enfrentaram a mesma situação. A principal ideia é que vários tipos de indivíduos, aqueles mencionados, mudavam-se para Roma, com o objetivo de uma vida melhor, no entanto esta percentagem da população sofreu uma enorme pauperização e tiveram uma vida precária, isto fez com que as massas populares vendessem o seu voto e recebendo saques de demagogos. De acordo com este autor, os demagogos, como por exemplo os irmãos Graco, compraram os votos dessa multidão prometendo-lhes trigo dos armazéns pela metade do preço. Estavam prontos para seguir um homem que oferecesse o mais alto e mostrassem devoção e apego a um homem e não a um princípio.[8]

A situação política em Roma na fase final da República – Optimates e Populares

Nesta conjuntura socioeconómica, na política romana constituem-se fações políticas com diferentes ideias políticas quanto ao papel do Senado e do povo romano na política romana, os Optimates e os Populares. Os políticos romanos que pertenciam a fação Optimate acreditavam que a melhor forma de governo para preservar a liberdade dos cidadãos era uma constituição mista e equilibrada, principalmente por duas razões. Em primeiro lugar, alegavam que essa forma de governo, baseada no critério da justiça distributiva, permitia que os diversos interesses sociais fossem valorizados na sua diferença e mantidos em estado de equilíbrio. Em segundo lugar, sustentavam que, ao permitir a participação na politica romana de todos os grupos políticos e sociais de forma compatível com o seu estatuto económico, e ao reconhecer o papel da soberania popular ao confiar a administração do poder à elite senatorial, a constituição mista e equilibrada neutralizava as tensões entre as massas de cidadãos e a elite sociopolítica.[9] A outra fação politica os populares, era a segunda grande vertente do pensamento republicano. O termo populares designa uma tradição intelectual que, apesar de ser atestada apenas de forma fragmentária, apresenta uma significativa homogeneidade em questões relativas a termos avaliativos fundamentais como liberdade, justiça e soberania. Os políticos romanos que apoiavam esta tradição intelectual não justificam a descrição de políticos totalmente dedicados a promover a causa do povo e os seus interesses por meio da assembleia popular.[10] O que unia os populares era, simplesmente, a sua declarada hostilidade ao senado e àqueles que observavam a sua orientação política e os seus valores, naturalmente assentes no mos maiorum, caminho obrigatório do conservadorismo.[11]

Contudo, as fações Optimates e populares antes de mais refletem, duas formas diferentes da política, não tanto como partidos com ideologias perfeitamente demarcadas, mas pelas posições assumidas a favor ou contra as reivindicações expressas por aqueles que se afastaram, fundamentalmente por razões relacionadas com o acesso as terras publicas, da política imobilista do senado. Nesse sentido, não é de estranhar o papel desempenhado nestes acontecimentos pelos tribunos da plebe, por exemplo o caso dos Gracos que analisaremos mais adiante, pertencentes como tantos outros a nobilitas, mas sensibilizados pelas dificuldades que uma parte importante do corpo de cidadãos romanos sofria, sem fim a vista e, pior, a margem da boa ordenação política da Res publica, perdida a capacidade de adaptação de que o senado dera provas anteriormente. Desta forma, há uma corrente de opinião popular, que se vai radicalizando ao longo do seculo II a.C., acabando por ser assumida como causa, de forma populista, por figuras reformadoras ou revolucionarias, quase sempre votadas a um fim violento, mas cuja ação transformou irreversivelmente a República.[12]

Durante o final da República, a violência política havia-se tornado comum. E de facto, “falar de política romana no final da República sem tocar na violência dificilmente seria possível”. A escalada de violência política havia tornou-se comum porque a política se tornou mais importante em termos de recompensas potenciais do que nos anos anteriores desde a resolução do Conflito das Ordens. A expansão do estado romano para grande parte do mundo mediterrânico foi um fator porque agora os cargos oficiais do estado agora proporcionavam maiores oportunidades para ganhar riqueza, envolverem-se em importantes projetos estrangeiros ou aumentar o prestígio e o estatuto individual.[13] Segundo a autora Mary Bird, ao olharem para este período, os historiadores lamentaram a gradual destruição das políticas da paz. A violência cada vez mais considerada uma normal ferramenta política. As restrições e convenções tradicionais foram eliminadas, uma a uma, até as espadas, as mocas e os motins terem, em grande medida, substituído as urnas. Ao mesmo tempo, segundo Salústio, uns poucos indivíduos de poder, riqueza, e apoio militar passaram a dominar o estado. Quando a história é despida até dos seus fundamentos mais nus e brutais, constata-se que consiste num movimento e conflitos chave que conduziram à dissolução do estado livre, uma sequência de pontos de viragem que marcaram as fases da degeneração progressiva do processo político, e uma sucessão de atrocidades que permaneceram na imaginação dos romanos durante vários séculos.[14]

Conforme o que já foi exposto, discuti questões importantes, nomeadamente os problemas económicos que se originaram em Roma, sobretudo após a conquista de Cartago e a situação política, com a formação de diferentes fações políticas que possuíam diferentes ideias e formas de liderar a República, mas que no geral a diferença entre as fações era quanto ao papel do Senado e da Constituição Romana. Com efeito, agora vou fazer uma breve narração dos eventos históricos até a eleição de Tibério Graco.

Antecedentes históricos antes da eleição de Tibério Graco

Nos inícios do Século II a.C., dentro da Nobilitas senatorial as principais famílias lutavam para obter um domínio dentro do Senado eram os Cipiões e os Cláudios. A principal diferença observável entre estas fações estava na graça e na cultura dos Cipiões, que abraçaram avidamente as oportunidades oferecidas pelos novos interesses orientais de Roma, e o estreito nacionalismo e tradicionalismo de muitos dos seguidores dos Cláudios. Tais interesses eram, no entanto, subordinados à necessidade de fazer jus à tradição ancestral (mos maiorum) na aquisição e manutenção do poder. Estes primeiros anos desse século, viram o domínio dos Cipiões, estimulados pelo triunfo de Cipião, o Africano sobre Aníbal em 202 a.C. Gradualmente, no entanto, esse domínio foi erodido e, em meados da década de 180 a.C., a fação dos Cipiões cedeu lugar de destaque a uma liderada por Gaio Cláudio Pulcro, cujos principais apoiantes contavam com o conservador Marco Pórcio Catão (o Censor) e Tibério Semprónio Graco, o pai dos irmãos Graco. Em meados do século, os papeis inverteram-se, e a figura dominante na política de fações era Cipião Emiliano, neto adotivo do conquistador de Aníbal; o seu principal rival era o filho de Gaio Cláudio, Ápio Cláudio Pulcro, que se tornou o estadista mais velho do Senado (princeps senatus) em 136 a.C.

Em meados do século, muitos dos problemas descritos anteriormente haviam se desenvolvido a ponto de exigir uma reforma imediata. O mais urgente, no entanto, foi aquele em que a posse da terra e o serviço militar estavam ligados. O problema do recrutamento militar era particularmente agudo. Tentativas de reforma foram feitas para melhorar o problema, reduzindo o nível de qualificação da propriedade e diminuindo o número de homens em uma legião. Contudo, os camponeses resistiram ao recrutamento, e legiões estavam sendo enviadas para o campo de batalha com falta de homens e com treinamento inadequado. O problema agrário foi exacerbado pelo grande número de mortes como resultado da guerra e pela queda da taxa de natalidade. O tempo, portanto, claramente havia chegado para uma solução mais radical a ser implementada e, em meados do Século, um grupo de senadores em conjunto com Cipião Emiliano propôs um programa para realojar os cidadãos sem-terra. A proposta não foi aprovada e descartada. Mas o fraco desempenho de Roma na década de 130 a.C. na Guerra Numantina na Hispânia demonstrou que havia uma necessidade urgente de reforma. O homem cujo nome está inextricavelmente ligado à próxima tentativa de reforma foi Tibério Semprónio Graco, tribuno da plebe em 133 a.C., e filho do Graco que no início do século foi um aliado próximo de Gaio Cláudio.[15]

A ascensão e queda de Tibério Graco

A figura de Tibério Graco e as suas motivações para a sua reforma agrária

Em 137, Tibério Graco viajava para norte, a partir de Roma, com a intenção de se juntar às legiões da Hispânia. Enquanto cavalgava através da Etrúria, ficou chocado com o estado das zonas rurais, pois a terra estava a ser lavrada e os rebanhos cuidados por escravos estrangeiros em propriedades de escala industrial (latifundia); os pequenos agricultores camponeses, conforme já havia dito anteriormente eram a tradicional espinha dorsal da agricultura italiana, haviam desparecido. Segundo um panfleto escrito pelo seu irmão mais novo Gaio Graco, citado numa biografia de Plutarco, foi nesse momento que Tibério se comprometeu com a reforma. Como diria mais tarde ao povo romano, muitos dos homens que tinham travado as guerras de Roma “são chamados senhores do mundo, mas não tem um quinhão de terra que possam chamar seu”. Para ele, isso não era justo.[16]

Quem é Tibério Semprónio Graco? Um defensor do povo romano? Ou simplesmente um político populista que usou o pretexto de reforma para alimentar as suas ambições pessoais? As respostas a estas perguntas não são claras, contudo nesta exposição tentarei explicar brevemente as motivações deste individuo, tendo por base uma breve biografia desta figura.

Tibério Semprónio Graco nasceu em 163 ou 162, sendo que “ainda não tinha trinta anos” na altura da sua morte.[17] Ele era, desde o nascimento, um membro da nobilitas, ou seja, da ordem aristocrática mais prestigiada da República Romana.[18] O Seu pai homónimo fazia parte de uma das principais famílias de Roma. Ele serviu nos consulados em 177 e 163 e foi eleito censor em 169.[19] Ele também celebrou dois triunfos durante a década de 170, um destes pelo estabelecimento vitorioso de uma paz de vinte anos na Hispânia.[20] A sua mãe, Cornélia, era filha do célebre general Cipião Africano, herói da Segunda Guerra Púnica. Sua irmã Semprónia era a esposa de Cipião Emiliano, outro importante general e político. Tibério foi criado por sua mãe, com sua irmã e seu irmão Gaio Graco.[21]

Tibério Graco teve uma enorme influência grega na sua educação pois este foi treinado em retórica por Diófanes, exilado de Mitilene, e em filosofia por Blóssio de Cumas, um estoico, da escola de Antípatro de Tarso. É possível que Tibério tenha sido estimulado na sua empresa, como diz Plutarco, pela exortação direta desses professores, mas mesmo que a fonte de Plutarco fosse exagerada, há pouca dúvida de que o ensino dos dois gregos exerceu alguma influência sobre Tibério. Diz-se que Diófanes e Blóssio ainda eram seus professores quando Tibério assumiu o seu mandato como tribuno e lançou suas reformas. É possível, como sugere Cícero, que as reformas dos reis espartanos, Ágis e Cleómenes, tenham se sugerido ao jovem estadista romano como padrões a serem seguidos.[22]

Será possível que esta influência helénica tenha motivado Tibério Graco as suas intenções de ajudar a plebe romana? Não sabemos, não há fontes suficientes para uma afirmação em concreto, o que podemos dizer com clareza é que esta influência grega na sua educação, pode ter sido um dos fatores que motivou Tibério Graco a tornar-se tribuno da plebe e ter motivado a prosseguir com as sua intenções de reforma.

Outra perspetiva sobre Tibério Graco é que realmente, o próprio tinha ambições pessoais e usou o povo romano, como forma de atingir as suas aspirações. Pois, durante o início da carreira política de Tibério Graco, ocorreu um incidente que iria afetar a sua carreira política permanentemente, o chamado caso de Numantina. Resumidamente, em 137 Tibério Graco serviu como questor do cônsul Gaio Hostílio Mancino na Guerra da Numância. Numa batalha, os numantinos conseguiram prender o exército romano, e um tratado teve que ser concluído para salvar os homens. O próprio Tibério foi o grande responsável pelas negociações, graças à boa vontade que o seu pai havia construído entre as tribos espanholas cerca de quarenta anos antes. Quando o tratado foi encaminhado a Roma para ratificação, no entanto, o Senado o rejeitou em favor da continuação da guerra. O próprio Mancino foi entregue aos numantinos, e falava-se em entregar os seus oficiais subalternos também, Tibério entre eles. No caso, os numantinos se recusaram a aceitar Mancino, enquanto a oratória de P. Cipião Emiliano desempenhou algum papel em salvar Tibério e os outros oficiais.

De acordo com esta perspetiva, os diversos investigadores reconheceram que esse episódio de alguma forma motivou Tibério a se candidatar ao tribunato de 133 e formular a Lex Sempronia Agraria. Contudo, talvez porque Apiano dê pouca importância a este episódio, houve uma tendência geral de subestimá-lo. Se não for declarado ou implícito que Tibério foi uma vítima insuspeita de seus inimigos em Roma, parece certamente acreditar que ele tinha poucas razões para esperar o alvoroço que o seu tratado realmente criou lá. Sua fides sofreu muito com o repúdio do tratado, pouco ou nada é dito sobre as dificuldades que ele deve ter enfrentado em suas tentativas de se recuperar dessa humilhação. Raramente se observa que o seu envolvimento no caso de Numantina quase arruinou a sua carreira; ou que um nobre que tivesse chegado tão perto do desastre seria especialmente relutante em enfrentar a perspetiva de fracasso uma segunda vez e, portanto, provavelmente não pararia por nada para conseguir o que queria; ou que os pares de Tibério, bem ciente de sua situação, seria mais do que o habitual suspeito de seus motivos e ações nos anos que se seguiram.[23]

Outros motivos mais práticos sobre a decisão de Tibério Graco empreender o caminho da reforma são, de acordo com um artigo, este já citado previamente, o autor Solomon Katz refere que quando Tibério se tornou tribuno, estava a ocorrer no mesmo ano uma revolta de escravos na Sicília, e que esta seria uma prova convincente dos perigos de uma agricultura cultivada por escravos. Talvez até setenta mil escravos pegaram em armas e, o que era mais alarmante, receberam ajuda dos pequenos agricultores livres. As tropas romanas enviadas para esmagar os rebeldes, sofreram um desastre, e não foi até 133-132, quando se deu a queda da Numância que provavelmente libertou tropas adicionais para o esmagar a rebelião na Sicília, que a ordem foi restaurada. A revolta coincidiu, além disso, com a revolta dos servos de Pérgamo sob Aristonico e com algumas revoltas menores na Ática, Delos, sul da Itália e em outros lugares. O autor citado argumenta que Apiano sugere que foi com o objetivo de combater os perigos que o sistema de trabalho escravo parecia estar levantando contra a segurança de Roma que Tibério propôs a sua lex agraria. Continua afirmando que muitos historiadores modernos aceitam as declarações de Plutarco e Apiano que uma das principais preocupações de Graco era repovoar a Itália com um número considerável de camponeses livres, a fim de aumentar o número de pequenos proprietários elegíveis para o serviço militar. no fortalecimento do poder militar da Itália. O autor faz várias referências a outros autores citados no seu, por exemplo Schwartz, no entanto, argumentou que era improvável que Tibério, a quem ele considerava um revolucionário social, estivesse interessado em fortalecer o poder militar da Itália. Stem respondeu eficazmente às objeções de Schwartz, insistindo que é bastante anti-histórico atribuir simpatias antimilitaristas e revolucionárias modernas a Tibério, que era, afinal, um filho de sua idade, ou seja, era um jovem. A tese de Schwartz foi revivida de forma modificada por Kontchalovsky, que nega que Tibério estivesse preocupado com o desenvolvimento do poder militar do Estado. O objetivo de Tibério era antes preservar e reforçar os proprietários rurais. O principal argumento de Kontchalovsky é que Cipião Emiliano, o principal individuo dos interesses militares romanos, se opunha a Tibério. Mas a oposição de Cipião era, afinal, não tanto aos objetos quanto aos métodos da legislação de Tibério. Pohlmann acredita que, como reformador social, Tibério não estava interessado na criação de um exército como um fim em si mesmo, mas sim na melhoria da condição do povo romano. A criação de um numeroso campesinato livre e autossuficiente poderia, então, fortalecer Roma e o seu exército. para um uso financeiramente mais lucrativo do que o atual. Ele escolheu uma lei agrária meramente como meio para um fim. O fim, segundo Last, era a redução do proletariado indigente nas cidades.[24]

Reiterando e concluindo esta discussão, a educação helénica, obtida a partir de filósofos gregos pode ter sido o que motivou a candidatura de Tibério Graco ao tribunato da plebe, tendo por isso boas intenções face ao povo romano. Contudo, o estudo do caso de Numantina, em que Tibério Graco foi completamente humilhado e arriscando a sua carreira política, neste sentido é possível que para recuperar a sua humilhação tenha usado método mais demagogos, ou seja, candidatando-se para tribuno da plebe e usado o povo romano para as suas ambições pessoais, é difícil obter consenso nesta matéria, seja como for a reforma proposta por Tibério Semprónio Graco, terá repercussões pela República Romana, no futuro próximo.

As relações entre Tibério Graco e os seus apoiantes

Antes de relatar a reação da introdução da lei agrária proposta por Tibério Graco, convém discutir primeiro os principais apoiantes e oponentes de Tibério Graco, De acordo com o artigo escrito pelo autor John Briscoe, Tibério Graco, encontrou os seus mais notáveis apoiantes nobres entre aqueles que eram adversários políticos de Emiliano. No contexto da política romana como os aristocratas romanos atuavam na era antes dos Gracos, essa é uma situação muito notável e que merece uma investigação mais aprofundada. Pois se é verdade que Tibério Graco rompeu com as suas ligações herdadas para se juntar aos adversários políticos dessas mesmas ligações, cabe perguntar quais consequências e repercussões essa ação teve. Poderíamos esperar encontrar indivíduos que pudessem ser colocadas nas seguintes categorias: (a) outros ex-apoiantes de Emiliano, que se juntaram a Graco em sua separação, (b) amigos de Emiliano que permaneceram leais a este, (c) oponentes de Emiliano que não aceitariam o programa de Tibério Graco, e (d) oponentes de Emiliano que apoiaram Graco.

Dois estudos mais recentes que tratam da prosopografia do período, é claro, têm dado conta do problema. O autor Earl observou o ponto de viragem no ressentimento de Tibério Graco pela participação de Cipião na negação do tratado feito com os numantinos por G. Hostílio Mancino em 137, um tratado na elaboração do qual o próprio Graco desempenhou um papel considerável, como já referi. No entanto, a indicação mais clara da corte de ligações com Emiliano é o casamento de Graco com a filha de Ápio Cláudio Pulcro, o rival mais proeminente de Emiliano, censor em 136 e princeps senatus desde a época de sua censura. A hostilidade de Cláudio a Emiliano se estende claramente por todo o período, desde a destruição de Cartago até ao tribunato de Graco.[25] Abandonar as ligações herdadas com um homem da estatura política de Emiliano e casar-se com a filha de um de seus principais oponentes era uma decisão muito séria. Graco tinha menos de 20 anos, e é difícil ver que motivo ele poderia ter tido para uma decisão tão drástica naquele momento. Para o autor Astin, citado no artigo, a deserção de Graco é simplesmente um sintoma da falta de habilidade de Cipião na gestão política. Mas isso não explica por que um jovem de 19 anos deu um passo tão extremo.

O autor deste artigo pretende agora considerar os partidários de Graco e, como o indica, tentar distinguir: (i) aqueles que tinham ligações anteriores com Cipião e se juntaram a Graco em sua rutura, (ii) aqueles que haviam sido anteriormente adversários de Emiliano. O ponto de partida deve ser a afirmação de Cícero na sua obra De Re Publica i, 3: “mors Tiberii Gracchi et iam ante tota illius ratio tribuinatus divisit populum unum in duas partes; obtrectatores autem et invidi Scipionis, initiis factis a P. Crasso et Appio

Claudio, tenent nihilo minus illis mortuis senatus alteram partem, dissidentem a vobis

auctore Metello et P. Mucio.” O autor afirma que para Cícero, esta é uma declaração extraordinariamente explícita e detalhada das divisões políticas relacionadas a um período anterior à sua própria vida e experiência. Certamente é verdade que algumas das descrições de Cícero de indivíduos como amigos de Cipião devem ser desconfiadas, mas essa afirmação é manifestamente de uma ordem diferente e o autor acredita que deve ser levada muito a sério. Ele lista quatro líderes da oposição a Cipião Emiliano: P. Licínio Crasso Muciano, cônsul em 131, Ápio Claúdio Pulcro, esta já referido anteriormente – esses dois já estão mortos antes da data dramática do diálogo, pouco antes da morte de Cipião em I29 – Q. Cecílio Metelo Macedónico, cônsul em 143, e P. Múcio Cévola, cônsul em 133. Agora Cícero deixa bem claro que a divisão no senado não era simplesmente uma questão de oposição a Emiliano. Estava intimamente ligado aos acontecimentos de 133. O responsável pela divisão foi “a morte de Tibério Graco e já antes disso toda a política de seu mandato como tribuno”.

Agora, no caso dos dois oponentes de Cipião mencionados por Cícero que ainda estão vivos na época da dramática data do diálogo mencionado, Q. Cecílio Metelo Macedónico e P. Múcio Cévola, há evidências que sugerem que, embora eles podem ter apoiado Graco inicialmente, estes não o apoiaram até ao fim.. Metelo havia, ao que parece, sido amigo de Cipião, mas posteriormente se afastou deste, A declaração de Cícero na obra De Re Publica implica claramente que a inimicitia entre os dois homens continuou tanto em 133 até a morte de Cipião em 129. Após a morte de Cipião, Metelo declarou o acontecimento uma grande perda para o Estado e ordenou aos seus filhos que carregassem o carro fúnebre do falecido. Isso mostra a magnanimitas de Metelo, mas não contradiz a evidência de hostilidade política enquanto Cipião ainda estava vivo. Infelizmente, sabemos também que Metelo, pelo menos em um ponto, se opôs a Tibério Graco. Cícero nos fala de um discurso que fez contra Graco, que G. Fânio incluiu nos seus anais. O assunto em disputa é relatado por Plutarco. Metelo se opôs ao plano de Graco de usar o tesouro real de Átalo III de Pérgamo para fornecer doações de capital para aqueles que receberam terras pelos comissários agrários. A linguagem de Cícero no De Re Publica, no entanto, nos proíbe de supor que esse episódio marcou uma rutura completa entre Metelo e Graco. Como o autor nota, a política e a morte de Graco continuaram a ser um ponto de discórdia entre Cipião e os seus oponentes políticos. Para este autor, a melhor suposição é que Metelo discordou de Graco nesta questão em particular. Isso não significa que o mesmo abandonou o apoio geral à sua política, nem que ainda não o estivesse a apoiar no momento de sua morte. P. Múcio Cévola é um indivíduo mais complicado de estudar. Em 141 este se opôs a Hostílio Túbulo, quase certamente um oponente de Cipião, em 136 o mesmo rejeitou as reivindicações de Hostílio Mancino, cuja pessoa havia sido devolvida pelos numantinos, para a restauração de sua cidadania, conforme o caso da Numância que já discuti. Com efeito, este apoiou Graco, e contudo apoiou Nasica após o seu assassinato para defender o segundo. As suas aparentes mudanças de lealdade levaram Gruen, um autor citado neste artigo, a vê-lo (assim como Earl tinha visto o Tibério Semprónio Graco, o mais velho) como um homem que mudava de um lado para o outro, ou seja, como um mero oportunista. Outros autores interpretaram os factos de forma mais suavizada. Por exemplo, Wiseman, outro autor citado, argumentou que, sendo um jurisconsulto, Cévola reagiu a cada evento como advogado e não podia estar vinculado a nenhuma fação política. Recentemente Bernstein afirmou que Cévola era independente de todas as fações políticas, não tanto como advogado, mas como um homem que se decidia sobre as questões de forma independente, e não de acordo com lealdades faccionais. E no entanto, o autor do artigo em questão afirma que, é difícil ver como um individuo que atuou como um dos principais apoiantes da legislação de Graco e ajudou a preparar as suas medidas, pode ser considerado politicamente independente. De facto, é perfeitamente razoável ver Cévola, como Graco, como um homem que rompeu com os vínculos originais com Cipião. No caso de Cévola, no entanto, a rutura não terá ocorrido tão cedo quanto 137, já que em 136 ele rejeitou a reivindicação de Mancino para a restauração de sua cidadania. Não há nada de estranho nisso. Como vimos, as questões levantadas pela crise que foi gerada por Graco eram complexas e poderiam ter levado algum tempo para Cévola determinar a sua própria atitude. O outro problema é mais complexo. Como já foi referido, Cícero afirma duas vezes que, após o assassinato de Graco, Cévola defendeu a ação de Nasica. Astin, autor já citado, argumentou que essas declarações deveriam ser rejeitadas, com base (i) que a recusa de Nasica em aceitar Cévola como um iudex em um caso relacionado com o assassinato indica uma hostilidade contínua entre os dois homens sobre o assunto e (ii) que isso entra em conflito com a declaração de Cícero na obra De Re Publica. O segundo ponto, é claro, é, sem mais argumentos, por meio de uma petitio principii. O autor admite que devemos, antes, pesar contra a evidência das declarações do De Re Publica feitas em discursos retóricos, onde convinha ao propósito de Cícero apontar para a defesa do assassinato de Graco. O autor ressalta que Cícero não precisou fazer a afirmação no De Re Publica. É conhecido dos autores que Cícero pode exagerar em seus discursos. Contudo, o autor aponta que é improvável que as declarações de Cícero sejam inteiramente falsas. Em vez disso, Cévola, vendo que a maioria do Senado estava atrás de Nasica, pode muito bem ter feito algumas observações ambivalentes que Cícero escolheu interpretar como indicando a aprovação do assassinato. Foi só posteriormente, que talvez, após o período de terror em 132 contra os partidários de Graco, que os oponentes de Cipião se reagruparam e reafirmaram a sua oposição ao assassinato de Graco enquanto Cipião o defendia. Tanto Cévola quanto Metelo tinham reservas, talvez sérias reservas, sobre os métodos de Graco, mas com Graco morto eles estavam dispostos e capazes de expressar seu apoio aos objetivos originais de Graco. O quarto membro do grupo de obtrectatoreset invidi Scipionis, P. Licínio Crasso Dives Muciano, cônsul em 131. Este individuo é, naturalmente, o irmão natural de P. Múcio Cévola, adotado na família dos Licinii Crassi. O autor não afirma com clareza se a esposa de Muciano, Claúdia pode ter sido irmã de Ápio Claúdio Pulcro. No entanto afirma com toda a certeza que o outro Licínio Crasso conhecido neste período é o tribuno de 145, G. Licínio Crasso, cuja proposta de mudar o método de escolha dos novos membros dos colégios sacerdotais para um método de eleição direta – em vez de cooptação – foi resistida com sucesso por Lélio. As evidências que o autor apresenta apontam para Crasso Muciano como um oponente consistente de Cipião. A sua filha casou-se com o filho de Ser. Sulpício Galba, cônsul em 144 e amargo oponente de Cipião. Galba ajudou Crasso em sua campanha para o cargo de edil. A outra filha de Crasso casou-se com Gaio Graco. O seu apoio a Tibério Graco durante o seu tribunato foi aberto e após o assassinato de Tibério ele foi membro da comissão agrária.[26]

O relacionamento de Tibério Graco e Marco Otávio

Uma das personagens fundamentais destes acontecimentos é Marco Otávio, tribuno da plebe e colega de Tibério Graco, convém analisar o relacionamento deste com Tibério Graco, antes mesmo de relatar os acontecimentos de 133, que acabaram por levar a uma crise constitucional e a própria morte de Tibério Graco.

Segundo o artigo científico do autor David F. Epstein, no relato de Plutarco, os dois homens foram amigos íntimos, mas outras fontes sugerem exatamente o contrário. Os investigadores que lidaram com o problema geralmente apontaram a contradição nas fontes, às vezes ofereceram as suas próprias especulações e depois passaram para outras questões. Esses comentários parecem ter negligenciado uma valiosa evidência que torna a reconstrução da relação entre Graco e Otávio um pouco menos especulativa. Os relatos antigos desta relação são facilmente resumidos. Plutarco descreve que Otávio mantinha relações amigáveis ​​com Ti. Graco quando os dois homens se tornaram tribunos em 134 (Ti. Gracch. 10.1). E por essa razão, afirma Plutarco, Otávio só se opôs relutantemente ao projeto de lei de agrário que Graco elaborou, sob imensa pressão da coligação contra Graco (Ti. Gracch. 10.2). Embora ambos os tribunos tenham defendido posições opostas, Plutarco afirma que ambos tinham grande respeito mútuo: nenhum deles permitiu que palavras raivosas se infiltrassem em seus debates quase diários (Ti. Gracch. 10.5). Plutarco explora plenamente as oportunidades dramáticas proporcionadas pela tragédia de uma amizade pessoal calorosa dilacerada pela controvérsia política. Graco é retratado apertando as mãos de Otávio e implorando publicamente a ele que retire o seu veto ao projeto de lei agrária para que o povo possa desfrutar de seus direitos (Ti. Gracch. 11.5.). Plutarco, relata que Graco renovou as suas importunações no dia em que apresentou a fatídica legislação que levou à deposição de Otávio, mas reteve o seu apelo mais fervoroso até que dezassete das trinta e cinco tribos votaram pela deposição. Ele então ostensivamente interrompeu a votação e, abraçando fisicamente o seu rival, implorou-lhe que não persistisse num caminho que provavelmente podia ter consequências desagradáveis ​​para ambos (Ti. Gracch. 12.1 – 2). Quando a votação terminou, Graco supostamente traiu a sua afeição novamente ao protestar contra a multidão enfurecida que cegou um dos servos de Otávio e ao tentar reprimir um motim que se estava a formar (Ti. Gracch. 12.6).[27] O debate entre os dois homens sobre a legislação agrária, como Plutarco a descreve, é em vários aspetos inconsistente com uma amizade calorosa. Um autor citado no artigo Badian sugeriu que os boni[28] podem ter encontrado dificuldades para recrutar um tribuno para vetar legislação contrária aos seus interesses. É extremamente improvável que eles tivessem escolhido pressionar um amigo íntimo de Graco para vetar o projeto de lei agrário. Além disso, a própria evidência de Plutarco contradiz a sua afirmação de que os dois tribunos conduziram um debate cavalheiresco. A oferta de Graco para compensar Otávio ​​por quaisquer perdas financeiras que ele possa sofrer como resultado da lei agrária (Ti. Gracch. 10.7) lança uma imagem negativa sobre os motivos de Otávio ​​em se opor à lei, um golpe baixo inconsistente com um debate elevado. Plutarco também relata que os boni conspiraram para assassinar Graco depois que seu iustitium paralisou o estado. Todos sabiam que o tribuno respondeu usando uma arma escondida (Ti. Gracch. 10.9). Mesmo que Otávio não estivesse diretamente envolvido na conspiração, parece inconcebível que ele tivesse continuado a sua oposição a Graco diante de tais táticas dos homens que o apoiavam se ele tivesse algum sentimento amigável por seu oponente. A ideia de assassinato político foi bastante chocante para a mentalidade romana do século II a.C.. As outras fontes também parecem contradizer a afirmação de Plutarco de que Otávio e Graco tinham sido amigos íntimos antes dos eventos de 133. O relato de Apiano sugere que o debate sobre a lei agrária foi exatamente o oposto de amigável: depois que Otávio registou o seu veto, Graco insinuou que ele estava preparado para usar a força, e ordenou ao funcionário que lesse a lei para a assembleia. Quando Otávio não foi intimidado por essas ameaças, Apiano afirma que os tribunos trocaram insultos até serem persuadidos a submeter a sua disputa ao Senado (BC 1.12). A versão de Díon Cássio do conflito entre Graco e Otávio também contradiz o parlamentarismo digno retratado por Plutarco. Em seu relato, os dois homens passam à violência física, em que cada um esperava destruir o outro, nenhum dos dois pensando nos interesses do Estado (frag. 83.4-6 a.C.). Portanto, as implicações do relato de Plutarco, e o impulso dos relatos de Apiano e Díon Cássio, apontam para um pano de fundo hostil, e não amigável, para os debates sobre a lei agrária.[29]

O mandato de Tibério Semprónio Graco: as suas reformas e assassinato

Relatemos agora a narrativa dos acontecimentos de 133 e 132, incluindo a reforma da lex agraria, segundo diversas fontes.

Em 10 de dezembro de 134, Tibério Graco, com apenas 30 anos, tomou posse como tribuno da plebe. Nos primeiros dias de 133, ele apresentou uma lex agraria restabelecendo um limite anterior, há muito ignorado, de 500 iugera (cerca de 310 acres ou 125 hectares) de ager publicus que poderia ser ocupado e cultivado por qualquer pessoa. Até esses limites, a lei concede posse permanente (embora não propriedade), sem arrendamento, aos atuais detentores de ager publicus. O estado romano reivindicaria todas as terras públicas além do limite legal, para distribuí-las em lotes familiares entre os pobres sem terra. Esses lotes, no entanto, permaneceram como terras públicas; os seus detentores foram impedidos de vendê-los, tornando-se assim inquilinos permanentes do estado, seguros de serem comprados ou deslocados (App. B Civ. 9-11). Nada na lei afetava a propriedade privada. Os beneficiários imediatos seriam a população rural (plebs rustica), bem como alguma da população urbana (plebs urbana) – aqueles dispostos a dedicar-se à agricultura. Mas, por sua vez, a res publica se beneficiaria. A única defesa realista contra a miséria era a posse segura de terra suficiente para a agricultura de subsistência. O crescimento desenfreado de um proletariado sem terra, tanto no campo quanto na cidade, estava destinado a criar inquietação e insatisfação com a ordem social estabelecida. Os nobres mal podiam pagar isso. Nessa perspetiva não havia proposta revolucionária: ao aumentar o número de pequenos agricultores (um lote conservador em praticamente qualquer sociedade), a lei impediria a instabilidade social e, portanto, eventualmente, a instabilidade política. Com esta proposta de lei, a elite dominante seria a vencedora, neste caso seriam os nobres – como um grupo. No entanto, individualmente, os nobres perderiam com esta lei; pois a lei exigia sacrifício deles. A maioria dos senadores, qualquer que fosse o tamanho de suas terras de propriedade privada, mantinha o ager publicus além do limite estabelecido na proposta de lei de Tibério, e a maior parte do que deveria ser redistribuído teria que vir destes. [30]

Com efeito, com a partida de Cipião Emiliano para Hispânia, com o objetivo de esmagar a Numância, Tibério aproveitou a oportunidade. Ele tinha apoio substancial no Senado: o seu sogro, Ápio Claúdio Pulcro, cônsul em 143 e princeps senatus – um rival de Cipião Emiliano; também P. Múcio Cévola, o cônsul desse ano, e o irmão deste, Públio Licínio Crasso Dives Muciano, os principais juristas de seu tempo, conforme já referi anteriormente: ambos estiveram envolvidos na elaboração da legislação. No entanto, Tibério não podia contar com a maioria, e uma rejeição total no Senado condenaria a sua proposta. Por isso, o mesmo apresentou a sua proposta diretamente diante da assembleia da plebe (Plut. Ti. Gracch. 9-20; Ap. B Civ. 9-17). Contornar o Senado não era ilegal nem, para um tribuno, contra o costume (mos); mas acarretava o risco de alienar senadores que, de outra forma, poderiam mostrar apoio. Um colega tribuno, Marco Otávio, da qual já discutiu muito no ensaio até ao momento, agora bloqueou duas vezes o projeto de lei, por veto, de ser votado na assembleia, isto levou a que Tibério tivesse de apresentá-lo diante do Senado. No Senado, a proposta de lei acabou por ser rejeitada, mas parece que nenhuma recomendação formal foi emitida sobre qual tribuno deveria ceder. Tibério apresentou o projeto de lei novamente; e Marco Octávio ​​vetou-o novamente.[31]

O costume do passado não sancionou o uso repetido do veto para acabar de imediato o projeto de lei de um tribuno: poderia convencê-lo a retirar a medida, visto que faltava consenso; mas, na falta disso, não havia precedente para impedir o voto do povo indefinidamente. Otávio estava se afastando do mos e, ao fazê-lo, elevou uma disputa política ao nível de uma crise constitucional: pois tanto ele quanto Tibério haviam chegado a um ponto em que nenhum dos dois poderia desistir sem prejudicar a sua dignitas. Tibério quebrou o impasse com um projeto de lei que destituiu Otávio de seu cargo, por ter abusado de seu poder de veto, e o povo votou para removê-lo; nenhum outro tribuno veio em seu auxílio. Argumentar que o depoimento de Otávio foi “ilegal” ou “inconstitucional” é não entender o problema. Nenhuma lei foi violada. O movimento de Tibério foi sem precedentes – em resposta ao uso sem precedentes do veto por Otávio.”. A inovação fazia parte da vida romana tanto quanto o apego ao mos maiorum, que não podia dar orientação em situações não experimentadas antes. O perigo estava em outro lugar. Ao criar o precedente de que um colega não cooperativo poderia ser destituído do cargo, Tibério derrubou um dos princípios não escritos do governo republicano, como os nobres o entendiam – a limitação do poder oficial inerente à presença de colegas com poder exatamente igual.[32]

Ora, a lei agrária fora aprovada. Para sua implementação, autorizou uma comissão de “triúnviros para adjudicar e ceder terras”; o Povo elegeu o próprio Tibério, seu sogro, Ap. Cláudio e seu irmão mais novo Gaio. No entanto, ao tornar a reforma agrária um projeto da família Graco e monopolizar toda a boa vontade de seus beneficiários, Tibério intensificou, desnecessariamente, a sua rivalidade com seus colegas nobres. A reação deles veio com efeito devastador. A comissão exigia fundos substanciais: inspecionar a Itália para determinar a extensão exata do ager publicus e fornecer dinheiro e equipamentos iniciais para os novos colonos (Ap. B Civ. 18). A apropriação era prerrogativa do Senado, que destinava aos triúnviros seis sestércios por dia. Sem financiamento, a reforma de Tibério foi paralisada antes mesmo de começar. O improvável, agora sobreveio. O rei Átalo III de Pérgamo faleceu e por testamento legou todo o seu reino ao Povo Romano. Tibério imediatamente, por plebiscito, apreendeu o tesouro real de Pérgamo para financiar a reforma agrária, e impediu o Senado de libertar as cidades da nova província (”Ásia”) de acordo com a vontade régia: ele recomendaria melhores arranjos ao Povo.[33] Foi uma lição impressionante sobre o que um só homem poderia fazer com o apoio popular. Também derrubou um segundo pilar da constituição republicana, o princípio de decidir a política externa e fiscal no Senado, coletivamente e por consenso.

A res publica dos nobres dependia da contenção, mútua e autoimposta, por parte daqueles que a administravam: Tibério não estava mais sujeito a nenhuma delas. Ele praticamente se tornou o governo de Roma. Só agora os senadores o atacaram publicamente, com acusações de comportamento despótico, de recrutar um guarda-costas, de pretender ser o único governante. Alguns anunciaram que o processariam assim que ele se tornasse cidadão privado novamente Tibério compreendeu. O assunto havia ido muito além de sua reforma agrária (pela qual ele não precisava temer; ninguém ameaçou revogá-la): o seu futuro no estado estava agora em jogo. Ele decidiu concorrer à reeleição. Nenhuma lei proibia este de se recandidatar; mas isso já não ocorria há 200 anos. Combinado com todos os seus outros atos, confirmou o pior dos medos: ele pretendia escapar da responsabilidade e tornar permanente o seu governo de um homem só – o suficiente para causar noites sem dormir à maioria dos nobres enquanto contemplavam o espectro, subindo do túmulo, de Tarquínio, o soberbo.

Tendo procurado, e fracassado, manipular a seu favor a escolha do tribuno para presidir as eleições, Tibério fez com que os seus partidários ocupassem o Capitólio durante a noite; quando a assembleia se reuniu na manhã seguinte, eles tentaram impedir a entrada de eleitores da oposição. Seguiu-se um motim sangrento: Tibério já não gozava de apoio popular esmagador. Em uma reunião do Senado no templo próximo da Fides, o cônsul P. Cévola recusou-se a intervier, pelas razões que já havia mencionado anteriormente: Tibério não havia – ainda – infringido nenhuma lei. Diante disso, Públio Cipião Nasica (cônsul 138), pontífice máximo e primo de Tibério, e já fora mencionado neste ensaio, conclamou a todos a tomar em suas próprias mãos a segurança da res publica; armando-se com escombros à mão, ele e outros senadores correram e espancaram Tibério até a morte, junto com dezenas de seguidores. Um elemento ainda mais fundamental de autocontrole – o acordo tácito de não levar as disputas políticas ao ponto de violência letal – foi assim eliminado. Nasica poderia acreditar que ele havia salvo a res publica, mas naquele exato momento Tibério já estava reduzido a medidas desesperadas em sua tentativa de reeleição: se as cabeças mais frias tivessem prevalecido naquele dia, ele poderia ter fracassado. Pior ainda, em 132 o Senado resolveu prender e julgar aqueles que “conspiraram” com Ti. Graco: muitos foram mortos (Cic. Amic. 37; Val. Max. 4.7.1; Plut. Ti. Gracch. 20.3-7). Os assassinatos dividiram mais profundamente a classe dominante do que qualquer coisa na memória.[34]

Noutra perspetiva sobre os acontecimentos de 133, o autor David Shotter faz diversas perguntas sobre o facto de Tibério Graco contornar o Senado e dirigir-se a assembleia plebeia, de forma a apresentar a sua proposta de reforma. O autor defende que que os grandes proprietários de terras não eram grandes detentores de ager publicus ilícitas. Em todo o caso, aqueles que eram plebeus poderiam igualmente opor-se ao projeto de lei na assembleia plebeia. O autor nota que é importante que Tibério Graco não era uma voz única; tinha uma fação de apoiantes. Fação esta que já mencionamos anteriormente, que entre outras coisas poderiam ter posto o tribuno em ordem na prática constitucional. De facto, a composição da fação sugere fortemente que a não consulta do senado não foi um “erro acidental” mas sim uma característica principal do processo. Uma evitação deliberada e calculada da consulta senatorial começa a colocar todo o projeto sob uma luz um pouco mais sinistra. Contornar o senado enfatizava uma ligação constitucional entre os tribunais e a assembleia plebeia, que na prática tinha sido aliviada pela prática quase inevitável dos tribunais em procurar uma consulta senatorial da mesma forma que os magistrados regulares. Provavelmente não é exagero dizer que a soberania da assembleia plebeia não teria surgido se se tivesse pensado que havia um perigo real de os tribunais a utilizarem para se estabelecerem como legisladores independentes. Por outras palavras, há razões para acreditar que um dos principais objetivos desta fação imponente era dominar Roma através da relação entre o tribunal e a assembleia plebeia. Outros fatores apontam numa direção semelhante. Primeiro, a comissão de terras, que devia ser criada para administrar o programa de reinstalação proposto, devia ser composta por três membros da fação, os quais já discutimos. Mais uma vez, devemos notar que no final do ano Tibério Graco usurpou outro direito senatorial tradicional quando solicitou a autorização da assembleia plebeia para usar a fortuna do rei falecido de Pérgamo Átalo III, legado por testamento à República Romana para financiar o seu projeto legislativo; Graco justificou aparentemente a sua ação com base no facto de o seu pai ter sido um patrono do rei de Pérgamo. A forma como Graco encarou com a oposição também aponta para uma perseguição implacável do domínio: o seu colega, Marco Otávio, cuja família era apoiante de longa data dos Cipiões, tentou escrutinar a legislação de Graco com o seu veto, mas foi fisicamente retirado da assembleia em violação da sua condição de sacrossanto legal. É finalmente evidente que Graco tentou recandidatar-se para a reeleição para o tribunato em 132. Isto, para muitos, equivalia a dominatio, uma fação estava a tentar manobrar para uma posição em que, “roubando” a clientela dos seus opositores e controlando um braço do governo, podia controlar Roma de uma forma quase igualitária. Segundo argumentação do autor, a república tinha sido estabelecida com objetivo de acabar com domínio real para sempre. Portanto, assim as ações de Graco e dos seus associados equivaliam a uma conspiração, sendo assim mais sinistro o facto de. E conclui finalmente que a violência em que o mandato de Graco terminou não é, portanto, surpreendente; a violência constitucional da fação de Graco foi respondida pela violência ostensiva dos seus opositores. Tibério Graco foi assassinado pelo pontifex maximus, Cipião Násica, um primo de Emiliano. O autor destaca que, é-nos dito que, quando Násica deixou o senado para realizar o ato que o próprio puxou a sua toga sobre a sua cabeça, como fizeram os detentores do seu cargo ao realizar o sacrifício. Um assassinato político foi assim justificado como sendo um sacrifício nos interessasses da Républica, um ponto realçado mais tarde pelo próprio Emiliano; quando perguntado se o assassinato de Graco era justificado, Emiliano respondeu que se o tribuno estava a tentar estabelecer-se como rei (rex), então ele foi justamente assassinado.[35]

A comissão agrária: funções, poderes e impacto

De forma a entender a comissão formada para implementar a lei agrária, temos que analisar a função deste tipo de comissões. Segundo, um artigo científico cujo autor é Christopher J. Dart, este explica que era uma prática romana tradicional que uma comissão especial fosse estabelecida quando se determinasse que novas colónias deveriam ser formadas e conduzidas. Essas comissões geralmente consistiam em três homens e são tipicamente descritas por Lívio como possuindo o poder deducendis. Theodor Mommsen, um autor citado no artigo, investigou que estas comissões estavam intimamente ligadas às comissões tipicamente descritas como agris dandis adsignandis. Para Strasburger, no mesmo artigo citado, (baseando-se fortemente em Mommsen) na sua obra Pauly Realencyclopadie os poderes de datio e adsignatio eram partes integrantes da potestas deductionis. Essas conclusões baseiam-se na suposição de que as descrições de Lívio das comissões agrárias, antes da comissão organizada por Graco, indicam que o poder datio havia sido possuído por comissões especiais mesmo já em períodos recuados da História de Roma, desde o século V a.C. Investigadores subsequentes parecem ter aceitado as conclusões de Mommsen. Em trabalhos subsequentes do século XX sobre os Gracos, por investigadores comos os de Plinio Fraccaro, Giuseppe Cardinali; Donald Earl, Ernst Badian e David Stockton, já mencionados neste ensaio exceto o último e os dois primeiros, evitaram analisar a exata definição e extensão desses poderes.[36]

Com efeito, conforme o autor do artigo há boas razões para duvidar das afirmações de Mommsen e, em vez disso, ver a comissão agrária de Graco iniciada em 133 como a primeira a combinar datio e adssignatio como poderes de uma comissão especial não colonial. Certamente, a necessidade de uma combinação distinta de poderes parece consistente com a natureza diferente da comissão agrária de Graco em comparação com as anteriores comissões agrárias e coloniais. Os três principais poderes sob investigação neste artigo, iudicatio, adsignatio (ou assignatio) e datio, foram posteriormente possuídos por comissões agrárias formadas por Saturnino em 100 e Lívio Druso em 91.[37].

Dois leges em 133 estabeleceram a comissão agrária de Graco. A primeira reafirmou, com pequenas alterações, a Lex Licinia Sextia que regulamentava a quantidade de ager publicus que qualquer indivíduo podia possuir e previa a eleição de um triunvirato. Tibério, o seu irmão Gaio e Ap. Claúdio Pulcro foram eleitos como comissários após a aprovação bem sucedida da primeira lei em 133, conforme já havia mencionado. Segundo o relato de Lívio, o Senado ficou enfurecido com o desrespeito de Tibério pelo seu prestígio, compreensível dado que se tratava de uma comissão de terras levada diretamente ao povo sem aprovação senatorial. No entanto, é evidente que uma minoria de senadores influentes apoiou a política. Havia dois precedentes claros para o projeto de lei de Tibério. Primeiro, a política de limitar o possessio de ager publicus tinha um precedente na lex Licinia Sextia. Segundo, o autor argumenta que o grande desvio das leis agrárias anteriores foi a criação de uma comissão que era responsável tanto pela aplicação do princípio da posse limitada de ager publicus, como pela supervisão do processo de redistribuição. Uma lei posterior deu à comissão o poder de julgar reclamações conflituosas de posse e/ou propriedade. Ambas as leis foram apresentadas à assembleia da plebe por Tibério Graco, na qualidade de tribuno da plebe e atraíram um apoio generalizado do povo rural. As inscrições mostram os comissários em 133 definidos como triumviri agris iudicandis adsignandis. A primeira lei tinha presumivelmente estabelecido a comissão como triumviri agris adsignandis e depois a segunda lei acrescentou o poder de iudicatio. As comissões de 201 e 173 forneceram precedentes para que as comissões agrárias fossem descritas nos termos originais. Como tal, não havia nada de controverso ou inovador sobre os poderes da comissão de terras de Tibério em sua forma original. Mas a segunda lei era muito mais revolucionária e foi nesse ponto que Tibério criou uma nova forma de comissão agrária.[38]

Não parece ter havido qualquer precedente para que uma comissão agrária possuísse um poder judicial. Além disso, que tal poder deveria ter jurisdição não só dentro do ager publicus romano e do potencial ager privatus, mas também dentro de terras que se afirmava serem propriedade privada ou posse legítima de aliados, alargou efetivamente a comissão a toda a Itália e correu o risco de minar os acordos com aliados na península. Este acrescento deste poder foi duplamente revolucionário porque, o poder iudicatio deve ter dado aos comissários jurisdição exclusiva para julgar reivindicações de propriedade conflituosas. Após o assassinato de Tibério em 133, P. Licínio Crasso Dives Muciano foi eleito para preencher o lugar vago na comissão. Uma inscrição contemporânea afirma C. S[e]mpronius Ti.f. Grac.,1 Ap. Claudius C.f. Pole., I P. Licinius P.f Cras.lIIIvir. a. i.a. Isto indica que os comissários continuaram a possuir os poderes de iudicatio e adsignatio. Uma inscrição restaurada por M. Terêncio Varrão Lúculo cerca de 75/4 dá aos triúnviros como P. Licinius I Ap. Claudius IC. Graccus Illvir. la.d.a. i’. Esta segunda inscrição não deve ser interpretada como estabelecendo que um poder adicional, o de datio, também tinha sido acrescentado à comissão em 132. Com base num vago relato de Apiano, Jerome Carcopino e subsequentemente o autor Stockton, autores citados, argumentaram que a presidência da comissão era anualmente rotativa entre os membros. Embora a inscrição restaurada possa indicar rotação anual do cargo, os objetivos de tal rotação são pura especulação. Deve também ser observado que os nomes são resumidos na inscrição restaurada, que os poderes não são dados na mesma ordem que outras inscrições, e que enquanto os nomes de Ap. Claúdio Pulcro e P. Licínio Crasso são dados com o seu nomen, o nome de G. Semprónio Graco é dado com o seu cognomen. Em 130 tanto Claúdio como Crasso morreram e foram substituídos na comissão por M. Fúlvio Flaco e C. Papírio Carbo através da inscrição ele confirma que a comissão ainda tinha a designação de triumviri agris iudicandis adsignandis. Parece mais plausível que o marcador restaurado tenha reproduzido um conjunto posterior de poderes para a comissão de terras com o conjunto errado de nomes e que a inclusão de dandis deva, portanto, ser rejeitada como um erro. Alguns investigadores modernos argumentaram que os comissários eram eleitos anualmente pelas tribos. Há boas razões para rejeitar este ponto de vista. O apoio de Ugo Coli, um autor mencionado, a este argumento é curioso à luz do seu próprio trabalho, que dá muito mais peso à opinião de que a comissão de Graco não tinha uma anuidade de mandato, mas sim um termo definido pelo ponto em que a sua tarefa tinha sido concluída. O impressionante trabalho de o autor Cou sobre as limitações e duração dos magistrados romanos demonstra claramente que, ao contrário das magistraturas anuais como o cônsul e o pretor, que eram ad tempus certum, as comissões especiais podiam ou ter um prazo máximo definido para a conclusão da sua tarefa ou ter um termo definido como qualquer ponto em que tivessem cumprido as suas funções específicas. Como Coli demonstrou corretamente, todas as magistraturas romanas tinham ou um prazo fixo (ad tempus cerium) ou um prazo definido pela conclusão da sua tarefa (ad tempus incertum). Os magistrados anuais, por exemplo, tinham um mandato fixo de um ano após o qual o seu mandato cessou ipso iure. No segundo caso, o mandato relacionado com as tarefas poderia ser reforçado pela definição de um período máximo de tempo para o desempenho das suas funções específicas. O ditador rei gerendae causa, por exemplo, teve de se demitir imediatamente após a conclusão da sua comissão, com a tradicional salvaguarda adicional de um prazo de seis meses. Isto também é claramente demonstrado pelos censores, que, embora eleitos aproximadamente de cinco em cinco anos, tinham um prazo legalmente definido de dezoito meses para concluírem as suas funções atribuídas. Esta categoria de magistrados não anuais, contudo, não caducou automaticamente, uma vez que se esperava que o titular abdicasse da sua tarefa após a conclusão da mesma, independentemente da existência de um prazo tradicional ou legalmente estipulado. Não há indicação nas fontes de um mandato fixo para os membros da comissão de Graco triumviri agris iudicandis adsignandis e tal limitação teria sido, na perspetiva do autor deste artigo, uma inclusão tola por parte de Tibério e dos seus financiadores. Teria convidado os opositores conservadores a concorrer às eleições e, assim, convidaria à possibilidade de a comissão ser controlada por esses mesmos políticos, referidos anteriormente. Além disso, teria tornado impossível que os comissários ocupassem outros cargos que pudessem exigir a sua deslocação ao estrangeiro. Tibério não conseguiu ser reeleito em 133 como tribuno de 132. Se os comissários precisassem ser reeleitos para o triunvirato, parece improvável que eles tivessem sucesso.[39]

A expedição de Enna e a morte de Tibério Graco

Após os acontecimentos de 133, o Senado enviou uma delegação de sacerdotes ao templo de Ceres em Eenna, na Sicília. Cícero fornece o relato mais completo (Verr. 2.4.108):

Itaque apud patres nostros atroci ac difficili rei publicae tempore, cum Tiberio Graccho occiso magnorum periculorum metus ex ostentis portenderetur, P. Mucio L. Calpurnio consulibus, aditum est ad libros Sibyllinos ; ex quibus inventum est Cererem antiquissimam placari oportere. Tum ex amplissimo collegio decemvirali priests populi Romani, cum esset in urbe nostra Cereris pulcherrimum et magnificissimum templum, tamen usque Hennam profecti sunt. Tanta erat enim auctoritas et vetustas illius religionis ut, cum illuirent, non ad aedem Cereris sed ad ipsam Cererem proficisci viderentur.

“E assim entre os nossos pais naquele momento terrível e difícil para a República, quando, com Tibério Graco morto, o medo de grandes perigos foi indicado por prodígios, no consulado de Públio Múcio e Lúcio Calpúrnio, houve uma consulta aos Livros Sibilinos; a partir do qual se descobriu que era necessário aplacar o mais antiga Ceres. Então sacerdotes do povo romano do mais distinto colégio decenviral, embora houvesse em nossa cidade um templo de Ceres muito bonito e magnífico, no entanto, (esses sacerdotes) partiram para Enna. Pois tão grande era a autoridade e a antiguidade desse culto, que quando eles foram para lá eles pareciam não ir para o templo de Ceres, mas para a própria Ceres”.

A missão a Enna também é mencionada brevemente por Valério Máximo (1.1.1): Cuius cum in urbe pulcherrimum templum haberent, Gracchano tumultu moniti Sibyllinis libris ut vetustissimam Cererem placarent, Hennam, quoni-am sacra eius inde orta credebantur, XVviros ad eam propitiandam miserunt.

“Embora tivessem um templo muito bonito dela (ou seja, de Ceres) na cidade, quando foram avisados ​​nas perturbações de Graco pelos livros sibilinos que deveriam aplacar a Ceres mais antiga, eles enviaram o quindecimviri para propiciá-la em Enna, uma vez que se acredita que seus ritos tenham se originado lá.”

A autora deste artigo Barbette Stanley Spaeth nota que este incidente não chamou muita atenção nas investigações recentes sobre os Graco, nem foi adequadamente explicado por aqueles que estudam a deusa Ceres. E a autora explica que propondo uma interpretação que a delegação a Ceres em Enna possa ser derivada da ligação desta deusa com duas antigas leis romanas: uma sobre a violação da sacrosanctitas tribunícia e a outra sobre a tentativa de derrubar a República e estabelecer uma tirania. A autora argumenta que a delegação a Ceres serviu para validar a visão de que Tibério Graco havia violado essas leis, principalmente a da tentativa de tirania, e, portanto, estava sujeito à punição que prescreveram, consagração de seus bens e pessoa. Quando os prodígios foram relatados no motim que se seguiu à morte de Tibério, o Senado ordenou a consulta dos Livros Sibilinos e manipulou as instruções que foram encontradas nos livros para produzir o resultado desejado. O controle senatorial sobre essa forma de adivinhação foi bem estabelecido. Portanto, não é de surpreender que essas instruções pudessem ser manipuladas para atender a propósitos políticos. Nesse caso, a decisão do Senado foi que a Ceres de Enna deveria ser apaziguada. Ao enviar a delegação a Ceres, o Senado sinalizou que ela havia sido ofendida pelas ações de Tibério e teve que ser aplacada pela sua violação das leis que estavam sob a sua responsabilidade. O culto da deusa em Enna foi escolhido pela sua grande antiguidade e autoridade que incorporavam um peso simbólico a esta ação, e porque esse culto não tinha as associações políticas potencialmente inflamatórias do culto de Ceres em Roma. A missão a Ceres em Enna representa, portanto, parte de uma agenda dos adversários senatoriais de Tibério para desacreditá-lo e justificar o seu assassinato como forma legal de execução.[40]

Os investigadores que estudaram a missão de Enna geralmente a interpretam como um gesto conciliatório feito pelo Senado à plebe pelo assassinato de seu campeão Tibério. Ceres, como deusa padroeira dos plebeus, era uma escolha apropriada para este gesto simbólico, e culto antigo e respeitado para dar credibilidade à teoria sugere que, sob o pretexto de conciliar de Tibério, o Senado estava realmente tentando transformar o antigo culto plebeu de Ceres com suas perigosas associações políticas para um novo culto da deusa, descomprometida com tais ligações. Em ambos os casos, de acordo com essa teoria, o culto da deusa em Enna foi escolhido por duas razões possíveis. Em primeiro lugar, esse culto foi suficientemente afastado de Roma para evitar que os rituais ali realizados inflamassem ainda mais a opinião pública sobre o assassinato. Em segundo lugar, uma rebelião de escravos estava a acontecer na Sicília nessa época, e os rituais realizados em um local de culto na ilha serviriam para desviar a atenção do público da situação política volátil de Roma para a luta com os escravos rebeldes. A principal objeção à proposta de que a missão a Enna foi um ato conciliatório do Senado é que essa teoria é inconsistente com as evidências para o período imediatamente após a morte de Tibério. Em vez de tentar conciliar a plebe mostrando remorso pela morte de Tibério, o Senado insistiu que ele havia sido morto com justiça. Vários decretos foram aprovados não apenas tolerando o ato, mas até mesmo honrando-lho. Além disso, os cônsules do ano seguinte, Públio Popílio Lenas e Públio Rupílio, conduziram uma inquisição formal aos partidários de Tibério e mandaram exilar ou executar muitos destes. Nesse contexto, a missão do Senado em Enna dificilmente poderia ter a intenção de purificar o assassinato de Tibério. Em vez disso, deve estar ligado com as tentativas de justificar esse assassinato.

A autora então conclui baseado nas sua argumentação que a missão a Enna fazia parte da estratégia dos adversários senatoriais de Tibério para classificá-lo como um criminoso e, portanto, justificar seu assassinato como uma execução legal. De acordo com esses oponentes, Tibério violou a lei sobre a sacrosanctitas tribunícia ao remover à força o seu colega tribuno Otávio ​​do cargo e a lei sobre a tirania ao tentar se estabelecer como rei. Pelas disposições dessas leis, Tibério estava sujeito à consecratio bonorum e à consecratio capitis, a consagração de seus bens e de sua pessoa. As evidências para essas leis indica que a deusa Ceres foi o destinatário adequado de tal consagração. Ao enviar a missão a Ceres, o Senado validou a opinião de que Tibério havia violado essas leis e, portanto, estava devidamente sujeito à punição por elas prescrita.[41]

Tibério Graco e o fracasso da República Romana

Recentemente, a culpa pelo fracasso da República Romana foi atribuída aos Graco. Em uma obra estimulante, o autor R. E. Smith sustenta que “os Graco, pelos meios que adotaram na busca de seus objetivos, precipitaram uma crise espiritual em Roma, que foi a primeira causa de tudo o que se seguiu”. Segundo o autor citado, quanto a Salústio, a destruição de Cartago, a remoção do metus hostilis, foi o ponto de viragem. Roma se viu com um governo cujas mentes estavam “temporariamente desprovidas de política” de 146 a 133. Os políticos não ficariam, Smith afirma, sem um ratio imperii por muito tempo, mas nesse vácuo ideológico governamental veio Tibério Graco a oferecer uma solução para os problemas sociais e económicos de Roma, uma solução digna de “um filósofo e não um estadista”. Os objetivos de Tibério Graco não eram originais; a tragédia estava no fato de que os seus métodos não eram. Até 133 o estado fora caracterizado pela harmonia. Até aquele ponto da sua história, pode ter havido ocasionalmente um conflito de interesses entre os vários grupos políticos e classes sociais, mas os homens então estavam conscientes de sua lealdade ao Estado. Em um conflito entre as suas próprias ambições e os interesses do Estado, o Estado sempre ganhava. Essa harmonia no Estado foi quebrada pelos Graco. Reformadores, estes avançaram com reformas contra a vontade da maioria do Senado, e o resultado foi que Roma foi dividida depois pela luta partidária de populares contra optimates. Os problemas que pressionavam o Estado, a adaptação da máquina do governo ao novo papel de Roma como potência mundial, foram completamente negligenciados até a morte da República, precisamente porque os Gracos haviam forçado o Senado a ficar na defensiva. Os próximos cem anos foram gastos tentando resolver “aquela questão irrelevante” colocada pelos Gracos, a saber, quem governaria Roma” – o Senado ou o Povo? Os Graco, vangloriando-se do seu individualismo, revoltaram-se contra a sua sociedade e provocaram a sua destruição. Não assim teria agido Cipião Emiliano. Ele sabia que a tarefa do indivíduo era fortalecer a sociedade. Este contraste entre Cipião e Tibério é salientado pelo o autor citado. Cipião, nos dizem, mostrou claramente que Tibério Graco havia feito uma “coisa muito mais terrível do que muitos historiadores supõem” quando, ao saber em Numância sobre a morte de Tibério, ele o amaldiçoou, citando Homero: “Assim pereçam todos os outros que faça o mesmo.” Há muita coisa na obra de Smith, autor citado, com a qual seria imprudente discordar. No entanto o autor deste artigo científico afirma que a tese principal do anteriormente citado, de que os Graco precipitaram uma crise, para o autor parece insustentável.[42]

O autor M. M. Henderson não pretende discutir ambos os Gracos, pois há diferenças substanciais entre ambos, que se confundiriam se fossem tratados em conjunto. Neste artigo, o autor pretende demonstrar que Tibério Graco não tinha intenções revolucionárias. Tibério, longe de ser um filósofo tentando impingir ideias estranhas a Roma, era um político muito prático do seu tempo. Os seus métodos (pace Smith) já haviam sido testados anteriormente. Nestes, ele foi regular. No fim, ele não era. Smith baseia grande parte de sua confiança de que o Senado (se os Gracos não tivessem interferido) teria recuperado o seu poder depois de 133, na suposição de que, em geral, tudo estava bem com Roma até a destruição de Cartago, e que antes a 133 havia harmonia no Estado. Mas se a crise política for muito mais antiga do que 146; se, de facto, o mal-estar político de que Roma sofria era evidente muito antes, então será evidente que o mandato de Tibério Graco marca não o início do fracasso da República, mas apenas o fim do início. Cipião Emiliano, com quem Tibério Graco foi contrastado, não é a antítese de tudo o que Tibério Graco representava, como Smith sustenta, mas em muitos aspetos o seu precursor. A questão “quem governaria Roma” estava longe de ser irrelevante. Se o governo é constituído de tal forma que não está claramente cumprindo os seus deveres, então o caos é quase certo que resultará. O que é verdade é que o mandato de Tibério Graco, em muitos aspetos acidentalmente, trouxe à luz a gravidade das deficiências da estrutura política de Roma.

O autor coloca em questão quais as evidências existem para a opinião de que a destruição de Cartago foi o ponto de viragem. Pois, segundo este artigo em questão, o autor cita que Salústio (por volta do final do século I a.C.) procurando os primeiros sinais do declínio que era evidente no seu próprio tempo, fixado em 146 a.C. Nas obras Conspiração de Catilina e na Guerra Jugurtina, ele sustenta que o que destruiu Roma foi um declínio na virtus provocado pelo otium quando uma luxúria de imperium e riquezas surgiu; até que a destruição da moral romana em Cartago foi controlada pelo medo do inimigo (metus hostilis), e houve concordia (harmonia) entre o Senado e o povo. Mas depois da destruição de Cartago, cresceu o desejo de, primeiro, dinheiro e depois o imperium; os nobres entregaram-se à ambitio, avaritia e luxuria; e o Estado foi dilacerado por fações opostas. A nobreza oprimia impiedosamente a plebe e esmagava os Gracos que tentavam afirmar a libertas da plebe. Os próprios Gracos não eram inocentes (et sane Gracchis cupidine victoriae haud satis moderatus animus fuit) mas os nobres eram mais censuráveis. Agora, a visão de Salústio deste período é obviamente tendenciosa, pois interpreta a política do Séc. II a.C. como se fosse do Séc. I a.C., em termos de um conflito entre optimates e populares. Não há evidências de que o Senado no final do Séc. II fosse tão decadente quanto Catão descreve o do Séc. I. E Salústio também é culpado de idealizar a primeira metade do Séc. II. Evidências, baseadas principalmente em Lívio, mostram um declínio constante na moral e, mais importante, crescentes conflitos políticos e problemas com o exército ao longo do século. O próprio Lívio coloca o ponto de viragem em 187 quando um exército a voltar da Ásia infetou Roma com hábitos luxuosos, hábitos luxuosos que foram as sementes da corrupção que se seguiu. Políbio, autor de meados do Séc. II e, portanto, testemunha contemporânea desses eventos, pensava que “essa atual tendência à extravagância se declarava antes de tudo porque eles (os romanos) pensavam que agora, após a queda do reino macedónio, sua universalidade o domínio era indiscutível e, em seguida, porque depois que as riquezas da Macedónia foram transportadas para Roma, houve uma grande demonstração de riqueza tanto em público quanto em privado”. Políbio coloca assim a crise em 168. Salústio rejeita a ideia de que a crise tenha ocorrido antes de 146 porque este está salientando a concordia. O importante para este é o início do conflito entre o Senado e o Povo. Isso se torna mais evidente depois de 146, então, na perspetiva de Salústio, o declínio começa nesse momento. No entanto, ao procurar as forças disruptivas na Roma do Séc. II, Salústio, obcecado pelos conflitos políticos do Século I (que eram de optimates contra populares), perde o fator disruptivo mais importante. Ele opta por ignorar que, no Séc. II, a política romana era caracterizada por uma disputa pelo poder entre certas fações dos nobres. Ele pode reconhecer que os Gracos eram ex nobilitate – membros da nobreza; mas ele não vê que esse é o fato crucial. O declínio da moralidade no qual os historiadores antigos se concentraram disfarça algo muito mais sério. Os romanos tendiam a ver uma crise política em termos morais. Se o Estado passa por uma crise política, então o declínio da moral deve ser a causa final. Contudo, o fator que mais ajuda a explicar a crise de 133 não é um declínio da moral, mas o aumento, ao longo do século II, de lutas entre certos grupos rivais dentro do Senado e de um crescente desrespeito à lei e aos mores maiorum políticos. Os políticos tentavam superar os obstáculos legais colocados em seu caminho e, às vezes, conseguiam. Alguns foram motivados em suas ações por motivos básicos, como ambição arrogante, outros talvez agissem na crença de que, se as dificuldades constitucionais pudessem ser deixadas de lado em benefício dos indivíduos, haveria um argumento muito mais forte para que esses obstáculos fossem desconsiderados, se os bem comum tão exigido. A esta última categoria pertence Tibério Graco, segundo o autor deste artigo. Que seu tribunato terminou em derramamento de sangue não foi devido aos seus métodos ou objetivos. A suposta deterioração da ordem senatorial também não é a causa. O que o causou foi o sistema de clientela, os medos ciumentos de grupos políticos rivais e um motim acidental. O próprio Graco não era, de forma alguma, inocente de culpa; mas ele não foi responsável por tudo o que se seguiu; e ele tinha bons precedentes para a maioria das táticas políticas que empregou – as mesmas táticas que, até recentemente, foram amplamente condenadas como revolucionárias.[43]

Qualquer avaliação imparcial do tribunato de Graco – se isso for possível – deve ser baseada em uma comparação das táticas de Tibério com as de seus contemporâneos, e não na propaganda depois dos acontecimentos de seus partidários ou oponentes. O autor coloca uma pergunta: “Dado que ele mostrou uma tendência alarmante para empurrar o seu projeto contra todos os obstáculos constitucionais, o que seus oponentes teriam feito em uma situação semelhante?” O autor defende que há pouca dúvida de que eles teriam agido como ele. Alguns de seus principais contemporâneos foram culpados de muitos dos crimes pelos quais ele é acusado, e entre os culpados está Cipião Emiliano.

Uma das acusações mais sérias contra Tibério Graco é que ele estava conduzindo Roma na direção da oclocracia, colocando decisões sobre assuntos de importância nacional nas mãos de uma reunião casual da plebe romana. Graco levou o seu projeto de lei agrária diretamente à assembleia sem ter aprovação prévia do Senado. Isso não era ilegal; não pretendia ser uma ofensa ao Senado; e teve um precedente recente e distinto. Para a Lex Cassia de 137 foi (provavelmente) uma instância; isso também foi aprovado contra a vontade da maioria do Senado; e o autor do projeto não era outro senão Cipião Emiliano. De facto, entre as tendências políticas do séc. II, além de uma tendência crescente de afastar os obstáculos legais onde quer que se pudesse obter vantagem, havia uma tendência de usar o apoio popular na política, e também de libertar os votos dos clientes do controlo dos seus patronos. Já vimos Graco angariando apoio popular antes da reunião eleitoral fatal. Exatamente a mesma técnica foi usada por Sérvio Sulpício Galba em 149 para evitar processos. “Ele quase colocou nos ombros o seu pupilo Quinto, filho de seu parente G. Sulpício Galo, para levar o povo às lágrimas pela memória viva de seu ilustre pai; ele entregou seus próprios dois filhos pequenos à guarda do povo e, como um soldado fazendo seu testamento na véspera da batalha, disse que nomeou o povo romano para ser seu guardião em sua situação sem pai.” Mas acima de todos os outros grupos, do séc. II, os Cornelii Scipiones caracterizavam-se pela sua confiança no apoio popular, a começar por Africano; e isso é particularmente verdadeiro para Cipião Emiliano. Em todos os momentos de sua carreira, Cipião Emiliano contou com o povo para o avanço político, mesmo ao ponto de desrespeitar a constituição. Em 148 Cipião foi candidato para o cargo de edil para o qual estava qualificado, mas foi eleito para o consulado para o qual não era qualificado. Isto (conforme, Apiano) era ilegal e quando os cônsules mostraram ao povo a lei eles persistiram, e tornaram-se veementes e levantaram um clamor… No final, um dos tribunos disse que privaria os cônsules do direito de conduzir as eleições, a menos que atendessem aos desejos do povo. Assim, o obstáculo legal foi removido por um ano por instruções do Senado. Astin, já mencionado, destaca que tal resultado seria impossível se a votação tivesse sido realizada de forma ordenada. Cipião deve ter alcançado essa dramática ascensão ao poder usando uma massa de brutamontes para incitar um motim em seu próprio favor. A passagem em Apiano (acabada de citar) junto com a obra Life of Aemilius Paullus 38.4 de Plutarco revela a estratégia de Cipião. Aqui é relatada uma anedota sobre a candidatura de Emiliano para o cargo de censor nas eleições de 142, Cipião é retratado como “irrompendo no fórum acompanhado por homens de baixa origem e ex-escravos… que frequentaram o fórum e conseguiram reunir uma multidão e forçar todas as questões gritando e incitando paixões.” Os perigos inerentes a tal prática são óbvios. Mais uma vez, quando se tratava da atribuição de províncias para os cônsules de 147, não eram sorteados, como era costume; a província da África foi atribuída a Cipião pelo Povo – um prenúncio de uma interferência semelhante do povo em favor de Mário durante a Guerra Jugurtina. Táticas semelhantes também conquistaram o cargo de censor à Cipião. Quando Cipião, no final de 135 foi eleito para um segundo consulado (apesar do facto de que na época a eleição para um segundo mandato consular, antes de fazer dez anos, era proibida por lei) não precisamos nos perguntar como ele alcançou o seu sucesso. [44]

Não só o Povo estava sendo agitado, mas também adquirindo mais poder. O poder político da nobreza romana dependia em grande parte de sua capacidade de dirigir os grandes blocos de votos dos seus clientes. A introdução do voto secreto atingiria, portanto, o cerne do seu poder. Ainda em 139 encontramos Aulo Gabínio carregando com sucesso uma lei que tornava secreto o voto na eleição de magistrados. Em 137 a Lex Cassia estendeu o voto secreto a todos os julgamentos perante o Povo, exceto em casos de perduellio. E, como vimos, esse projeto foi fortemente apoiado por Cipião Emiliano. Cipião, podemos ter certeza, que o próprio Cipião não se estava a prejudicar. Ele dependia, ao contrário da maioria dos nobres, menos de clientes e muito mais de o favor popular. Ele deve, no entanto, estar muito confiante de que poderia continuar a ganhar o apoio do povo. E esta pode ser uma das razões pelas quais a oposição à lex agraria veio tão fortemente do círculo dos Cipiões. Pois a proposta de Tibério Graco retirava o apoio popular à Cipião. O tribunato de Tibério Graco não era incomum na sua dependência do apoio popular. No entanto, há uma característica importante da sua legislação que é diferente. Ao elaborar o seu projeto de lei, Graco oferecia terras aos sem-terra (capite censi); empregos remunerados aos desempregados. Ele não estava, como Cipião, meramente promovendo os seus próprios interesses.

A atitude de Tibério Graco em relação ao veto tribunício, não é assim tão incomum. É certo que ninguém anteriormente foi tão longe a ponto de depor um tribuno enquanto estava no cargo, mas outros políticos conseguiram o mesmo efeito por outros meios. Em 151, quando certos tribunos vetaram o levantamento de tropas, os cônsules tiveram de ser encarcerados; isso deve significar, como Astin aponta, que os cônsules realmente continuaram em desrespeito ao veto. E novamente quando o M. Antio Briso vetou o projeto apresentado por Cássio Longino, Cipião Emiliano induziu Antio a retirar seu veto. De modo que, como pano de fundo dos acontecimentos de 133, devemos lembrar que no passado foram encontrados meios para contornar um veto tribunício.[45]

O impacto de Tibério Graco na República Romana

Uns dos principais efeitos da tentativa de introduzir estas reformas na República Romana, por parte de Tibério Graco foi a divisão da classe política, os políticos que apoiavam o Senado Romano como garante da ordem social e política da República Romana (os Optimates) e os políticos que defendiam uma maior soberania popular para o povo romano (os Populares). Portanto, a nobilitas divide-se em fações, em relação à pergunta: Quem deve governar a República Romana? O Senado ou o Povo romano? Esta pergunta ditará muitos dos eventos posteriores a estes acontecimentos, mas foi sob Tibério Graco que realmente foi colocada esta questão, pois muitos dos seus métodos foram ortodoxos mas tal como demonstrei não foram feitos de forma sem precedentes nomeadamente o apoio popular que Tibério adquirira, nomeadamente a remoção de seu colega tribuno da plebe Marco Otávio, por vetar repetidamente o seu projeto de lei, que através de um plebiscito invocando a obstrução da soberania popular do povo como motivo para remover o seu colega.

Outro impacto deste individuo na República, quando este foi assassinado por seus adversários políticos foi legitimar os políticos populistas e demagogos, sendo que este indivíduo foi tornado num mártir pela sua causa, algo que ocorrera sem precedentes na República Romana, esta tática usar a violência, com objetivos políticos será uma caraterística dos eventos subsequentes, nomeadamente com indivíduos como Sula, Clódio e os membros do Segundo Triunvirato[46].

Outro ponto que destacaria sobre este individuo, na minha interpretação dos factos sobre esta figura, as intenções de Tibério Semprónio Graco parecem genuínas, de facto este pretendia ajudar o povo romano com a introdução da lex agraria repondo o limite de ager publicus, que as Leges Liciniae Sextiae pretendiam, fazendo que a desigualdade social na sociedade romana diminuísse e oferecendo oportunidades às pessoas sem terra, uma forma de sair da pobreza através da obtenção de uma propriedade agrícola, como forma de gerar riqueza. Concluindo esta análise, os oponentes de Tibério Semprónio Graco pensaram que haviam salvo a res publica ao realizaram este assassinato, no entanto, os problemas que afetavam a República mantiveram-se e além do mais agravaram. Nesse sentido, o Senado Romano em vez de resolver os problemas que a República possuía, este adiava as reformas necessárias que com objetivo de resolver os diversos problemas de Roma, mantendo assim uma mentalidade conservadora que acabará por levar à queda da República, sendo que a crise de 133, foi um sintoma deste problema, que já decorria há muito tempo.

Bibliografia:

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  1. Cf. Thomas R. Martin, Ancient Rome: from Romulus to Justinian, New Haven & London Yale University Press, 2012, p. 83.

  2. Cf. C. F. Konrad, “From the Gracchi to the First Civil War (133–70)” in Nathan Rosenstein, Robert Morstein-Marx (ed.), A companion to the Roman Republic, Malden, Blackwell Publishing, Blackwell Companions to the Ancient World, 2006, p. 167.

  3. Refiro-me ao período da história romana antes das Guerras Púnicas e as reformas de Gaio Mário.

  4. Cf. Thomas R. Martin, Op. Cit., p. 83.

  5. Cf. “As consequências da expansão romana”, Francisco de Oliveira in José Luís Brandão, Francisco de Oliveira (Coord.), História de Roma Antiga: das origens à morte de César, Vol. I, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2015, p. 250.

  6. Cf. Idem, ibidem, pp. 253-254.

  7. Cf. Thomas R. Martin, […], p. 85.

  8. Cf. L. B Mitchell, “Background of the Roman Revolution.” The Classical Journal, vol. 17, no. 6, The Classical Association of the Middle West and South, 1922, pp. 316–23, http://www.jstor.org/stable/3288890, accesso a 12 de fevereiro.

  9. Cf. Valentina Arena, Libertas and the practice of politics in the late Roman Republic, Cambridge, Cambridge University Press, 2012, p. 81.

  10. Cf. Idem, ibidem, pp. 116-117.

  11. Cf. Vasco Gil Mantas, “Conflitos civis em Roma: dos Gracos à Sula”, in José Luís Brandão, Francisco de Oliveira (Coord.), História de Roma Antiga: das origens à morte de César, Vol. I, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2015, p. 322.

  12. Cf. Idem, ibidem, p. 322.

  13. Cf. Brenda J Lutz, James M. Lutz. “Political Violence in the Republic of Rome: Nothing New under the Sun.” Government and Opposition, vol. 41, no. 4, Cambridge University Press, 2006, pp. 491–511, http://www.jstor.org/stable/44483167, accesso 12 de abril de 2022

  14. Cf. Mary Bird, SPQR – Uma História da Roma Antiga, Lisboa, Bertrand Editora, 2016 [Edição original: SPQR – A History of Ancient Rome, 2015], pp. 235-237.

  15. Cf. David Shotter, The Fall of the Roman Republic, New York, Routledge, Lancaster pamphlets, 2005, pp. 17-18.

  16. Cf. Mary Bird, Op. Cit., pp. 242-243.

  17. Cf. A. E Astin, “The Lex Annalis before Sulla.” Latomus, vol. 17, no. 1, 1958, p. 53, http://www.jstor.org/stable/41518780, acesso em 12 abril de 2022.

  18. Cf. P. A. Brunt, “Nobilitas and Novitas.” The Journal of Roman Studies, vol. 72, 1982, pp. 1–17, https://doi.org/10.2307/299112 acesso em 12 Abril de 2022.

  19. Cf. Thomas Robert Shannon Broughton, The magistrates of the Roman republic, Vol. 1, New York, American Philological Association, 1951, pp. 397-423.

  20. Cf. Adrian Goldsworthy, In the name of Rome: the men who won the Roman Empire, New Haven, Yale University Press, 2016, [Edição original: 2003], p. 122.

  21. Cf. Vasco Gil Mantas, Op. Cit., pp. 324-325.

  22. Cf. Solomon Katz, “The Gracchi: An Essay in Interpretation.” The Classical Journal, vol. 38, no. 2, 1942, pp. 65–82, http://www.jstor.org/stable/329162, acesso em 12 abril de 2022.

  23. M. Gwyn Morgan, John A. Walsh. “Ti. Gracchus (TR. PL. 133 B.C.), The Numantine Affair, and the Deposition of M. Octavius.” Classical Philology, vol. 73, no. 3, 1978, pp. 200–10, http://www.jstor.org/stable/268331, acesso em 12 abril de 2022.

  24. Cf. Solomon Katz, Op. Cit., pp. 65–82, http://www.jstor.org/stable/3291626 acesso em 16 abril de 2022

  25. Cf. John Briscoe, “Supporters and Opponents of Tiberius Gracchus.” The Journal of Roman Studies, vol. 64, 1974, pp. 125–35, https://doi.org/10.2307/299264, acesso a 3 de maio em 2022.

  26. Cf. Idem, ibidem, pp. 125–35, https://doi.org/10.2307/299264, acesso a 3 de maio de 2022.

  27. Cf. David F. Epstein, “Inimicitia between M. Octavius and Ti. Gracchus, Tribuni Plebis, 133 B.C.” Hermes, vol. 111, no. 3, 1983, pp. 296–300, http://www.jstor.org/stable/4476322, acesso a 3 de maio de 2022.

  28. Outra forma de se referir aos Optimates, traduzindo-se como “os bons”, ou seja, os melhores homens da aristocracia romana.

  29. Cf. David F. Epstein, Op. Cit., pp. 296–300, http://www.jstor.org/stable/4476322, acesso a 3 de maio de 2022.

  30. Cf. C. F. Konrad, Op. Cit., pp. 167-168.

  31. Cf. C. F. Konrad, […], p. 168.

  32. Cf. C. F. Konrad, […], p. 168-169.

  33. Cf. C. F. Konrad, […], p. 169.

  34. Cf. C. F. Konrad, […], pp. 169-170.

  35. Cf. David Shotter, Op. Cit., pp. 20-22.

  36. Cf. Christopher J Dart, “THE IMPACT OF THE GRACCHAN LAND COMMISSION AND THE DANDIS POWER OF THE TRIUMVIRS.” Hermes, vol. 139, no. 3, 2011, pp. 337–57, http://www.jstor.org/stable/23067319, acesso a 4 de maio de 2022.

  37. Cf. Idem, ibidem, pp. 337-57, http://www.jstor.org/stable/23067319, acesso a 4 de maio de 2022.

  38. Cf. Idem, ibidem, pp. 337-57, http://www.jstor.org/stable/23067319, acesso a 4 de maio de 2022.

  39. Cf. Idem, ibidem, pp. 337-57, http://www.jstor.org/stable/23067319, acesso a 4 de maio de 2022.

  40. Barbette Stanley Spaeth, “The Goddess Ceres and the Death of Tiberius Gracchus.” Historia: Zeitschrift Für Alte Geschichte, vol. 39, no. 2, 1990, pp. 182–95, http://www.jstor.org/stable/4436146, acesso 6 de maio de 2022.

  41. Idem, ibidem, pp. 182–95, http://www.jstor.org/stable/4436146, acesso 6 de maio de 2022.

  42. M. M. HENDERSON, “TIBERIUS GRACCHUS AND THE FAILURE OF THE ROMAN REPUBLIC.” Theoria: A Journal of Social and Political Theory, no. 31, 1968, pp. 51–64, http://www.jstor.org/stable/41801828, acesso à 8 de maio de 2022.

  43. Cf. Idem, ibidem, pp. 51–64, http://www.jstor.org/stable/41801828, acesso à 8 de maio de 2022

  44. Cf. Idem, ibidem, http://www.jstor.org/stable/41801828, acesso à 8 de maio de 2022.

  45. Idem, ibidem, http://www.jstor.org/stable/41801828, acesso à 8 de maio de 2022.

  46. Refiro-me às proscrições de Sula e do Segundo Triunvirato e aos conflitos de Clódio nas ruas de Roma com um outro colega tribuno da plebe.

Marcas Portuguesas de Relógios… e de Automóveis

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. Até hoje, Portugal teve várias marcas no universo automóvel e relojoeiro. No mundo dos carros, uma marca destaca-se por ter criado o seu próprio motor. Na relojoaria, outra destacou-se por criar os seus mecanismos internos. A história de ambas seria digna de um filme. Vamos explorar estes e outros nomes que tiveram impacto no setor automobilístico e relojoeiro português. Na imagem, três ícones automobilísticos de Portugal: Olda posiciona-se à esquerda, DM surge ao fundo e Alba destaca-se à direita. Este trio teve uma rivalidade intensa nos primeiros anos da década de 50.

O ALBA

Alba de 1952
©Pedro Cruz – Alba de 1952

O Alba é o único carro, até à data, com motor made in Portugal, uma criação de António Augusto Martins Pereira, herdeiro da metalúrgica Alba de Albergaria-a-Velha. Entre 1952 e 1954, este carro de design italiano foi produzido na referida fábrica. Apenas três exemplares foram feitos, sendo que o original está no Museu do Caramulo.

Motor de um Alba de fabrico portuês
©Pedro Cruz – Motor de um Alba de fabrico portuês

Usava partes de um Fiat 1100, incluindo uma carroçaria totalmente em alumínio. Sofreu diversas modificações e, em 1953, um novo Alba nasceu com componentes nacionais. A necessidade de motores mais robustos levou à criação de um motor exclusivamente português, um marco na engenharia nacional.

A Boa Reguladora

Oficina da Boa Reguladora
©Autor desconhecido – Oficina da Boa Reguladora

Fundada em 1893 no Porto, por João S. Paulo e José Carvalho, mais tarde mudou-se para Famalicão. Tornou-se referência na produção de relógios de parede e mesa, competindo com marcas estrangeiras. Apesar das adversidades, prosperou e marcou presença no Brasil. Nos anos 30 e 40, inovou nos seus modelos e, mesmo durante a Segunda Guerra, continuou a produção, com os relógios dessa época sendo valorizados pela sua qualidade. Houve outras marcas relojoeiras como A Boa Construtora, Cardina e Jerónimo, e a Boa Reguladora teve diretores influentes como Walter Sutter e Jaime Ribeiro.

Marcas Lusitanas com Origens Estrangeiras

Várias marcas portuguesas focaram-se na importação de motores e movimentos de relógio de origem estrangeira.

  • Otar (Fernando Rato),
  • Said (Dias & Moura),
  • Sacul (Lucas),
  • Amer (Rema),
  • Imor (Indústria Moçambicana de Ourivesaria e Relojoaria)
  • Jocar (José Maria Gomes Carvalhinho)
  • Josil (José Henriques da Silva)
  • Joteixe (Irmãos Teixeira)
  • Marsol (Mário dos Santos Oliveira)

No setor automobilístico, tivemos marcas como:

  • Edfor (Eduardo Ferreirinha ),
  • Marlei (rio Moreira Leite),
  • Portaro (Portugal + Aro),
  • DM (Dionísio Mateus),
  • Prozé
  • Sado
  • UMM (União Metalo-Mecânica)

Hoje e Amanhã

No momento, não temos produção de carros com marcas portuguesas, mas várias marcas de relógios continuam activas. Entre elas, Borealis, Contar, Exímio, Meia Lua, Isotope e Escudo, sendo esta última de inspiração estética lusa. Aqui ficam vários exemplos destas marcas, que podem adquirir na Loja dos Relógios Portugueses do Instituto Português de Relojoaria.

As Entrevistas da Revista Playboy

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“We enjoy mixing up cocktails and an hors d’oeuvre or two, putting a little mood music on the phonograph and inviting in a female acquaintance for a quiet discussion on Picasso, Nietzsche, jazz, sex.”

Hugh Hefner, numa descrição editorial da publicação Playboy, aquando da sua inauguração, em 1953.

Pouco conhecida em Portugal sob esta vertente, a revista Playboy — parte da tradição de “revistas para adultos” em que, parcialmente, também temos a honra e o gosto de pensar que nos integramos — representou uma revolução cultural não só pela exposição do erotismo mas pelo espírito libertário e progressista de expressão e de pensamento que orientou a sua linha editorial, tanto nos conteúdos e tópicos apresentados como, em particular, nas entrevistas que realizava, para a época bastante inovadoras em termos de tópicos e de estilo.

Muitos orgãos de comunicação (como, por exemplo, a mais tardia Rolling Stone), igualmente inclinados para o vanguardismo social e para gerações mais culturalmente progressistas que as anteriores, confessaram a sua inspiração na revolução de conteúdos e de tom operada pelo registo das entrevistas da famosa publicação do coelhinho. É a esse tom desempoeirado, intelectualmente ousado e curioso, rejeitando tabus vigentes mas mantendo elegância e densidade intelectual, que queremos deixar hoje aqui homenagem, através de um pouco de história e de exemplos anedóticos.

Hugh Hefner, o fundador da famosa revista, projectou, no início dos anos sessenta, uma pequena secção de entrevistas, de uma modernidade inédita para a época, inspirando-se inicialmente na conversa entre um jornalista freelance, Alex Haley, e o lendário músico de jazz Miles Davis. Notando que a entrevista não versava só, de modo ortodoxo, sobre a profissão e a actividade do músico, mas também sobre temas da sociedade e as mudanças culturais em curso nessa década agitada, Hefner apoderou-se dessa área de negócio inexplorada, inaugurando um novo estilo de entrevista aberta, sem previsão de tópicos, grandemente variada no rumo da conversa, em total contraste com a tradição do jornalismo na altura. O que poderia ser visto pela ética conservadora da profissão como infringindo as normas e os cânones acabou, porém, por se revelar um enorme serviço ao jornalismo em si, que Hefner respeitava, e que ajudou a transformar toda a indústria. Apesar do rumo livre e aberto das conversas, estas eram precedidas por volumosa e imprescindível pesquisa sobre os entrevistados. Não era nenhuma brincadeira.

Líderes civis como Martin Luther King, Malcom X e Jimmy Hoffa, assim como titãs políticos como Fidel Castro e Jimmy Carter acederem a ser entrevistados, assim como desportistas prolixos como Muhammad Ali — naturalmente — John Lennon e Yoko Ono, o romancista Vladimir Nabokov, o pioneiro dos psicadelicos Timothy Leary, a princesa Grace Kelly, o escritor Jean Genet, os cineastas Ingmar Bergman e Stanley Kubrick, o artista Salvador Dali, os Beatles, a cantora Dolly Parton e o radical político Saul Alinsky.

Podemos encontrar também, nesse ambiente de candura e frontalidade, igualmente expressões de progressismo como de conservadorismo extremo, como em Sean Connery, afirmando candidamente que era justo ocasionalmente bater numa mulher quando isso se justificasse, e John Wayne explicando sem rodeios que o direito ao voto da raça negra era algo muito questionável, pelo menos até os mesmos serem devidamente civilizados, e Marlon Brando explicando que as coisas que mais achava repugnantes no mundo seriam “o interrior da boca de um camelo” e “uma mulher a comer lulas”. Curiosamente estas declarações pertencem a um tempo prévio à “cultura do cancelamento”, pois tais profissionais continuaram a trabalhar livremente, sem escândalo de maior. Mais tardiamente, o cantor John Mayer descreveu o seu orgão sexual como “supremacista branco” e Gary Oldman partiu a loiça toda na denúncia da cultura do politicamente correcto. Outros exemplos podem ser encontrados aqui.

Em baixo, como prometido, algumas das páginas originais dessas entrevistas.

A Narrativa do Silêncio e a Procura da “Palavra Exata” em Eugénio de Andrade: Leitura Crítica de Ostinato Rigore (1964)

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A razão pela qual hoje destacamos Ostinato Rigore, no meio de tantos outros trabalhos de Eugénio de Andrade, reside no facto de os poemas que integram o livro romperem com a “poética mediterrânica” que consagrou este autor contemporâneo, e que se traduz numa obsessão literária por elementos como o sol, a terra, a areia e o mar. De modo completamente contrário, no livro que estamos prestes a explorar, as temáticas reinantes são a preocupação com o efémero, a invocação do silêncio, a inevitabilidade da morte e a aceitação da materialidade dos objetos que circundam o sujeito poético. De um estoicismo nunca antes verificado na literatura de Eugénio, nestes poemas encontramos semelhanças com as Odes de Ricardo Reis.

Como o título do presente estudo indica, o nosso objetivo será investigar até que ponto e de que maneira a temática do silêncio pode, ou não, ser conciliada com a criação da própria palavra poética.

A procura da “palavra exata”

Ao falarmos neste conceito, somos obrigados a recuar até ao modernismo norte-americano, e lembrar que a procura da “palavra exata” era um dos lemas mais proclamados na poética imagista, estética encabeçada pelo vanguardista Ezra Pound. No prefácio de Rosto Precário, Joana Matos Frias verifica algumas semelhanças entre essa poética norte-americana e a de Eugénio de Andrade, nomeadamente no que respeita o “helenismo apolíneo na ordem, na clareza, na claridade, na plasticidade dos versos e no pictoralismo das imagens solares; no orientalismo assente nos valores essenciais da brevidade minimalista e do silêncio”[1]. Por outras palavras, os imagistas defendiam a procura incessante do melhor termo para a descrição da imagem artística que se pretendia transmitir, repudiando, assim, o excesso descritivo da poesia vitoriana. De modo parecido, e com o propósito de “tornar o visível mais visível”, “o poeta mais íntimo do Sol” parte para a construção de uma poesia clara, pura e elemental.

A procura da “palavra plena” remete-nos, certamente, para a procura do absoluto, presente na filosofia de Hegel. Importante será mencionar que, segundo o filósofo alemão, o caminho percorrido, o movimento em busca do tal absoluto é tanto ou mais importante que a própria coisa que se quer alcançar. O desejo hegeliano de plenitude, de unidade, do transcendente traduz-se na procura da própria Beleza, sendo nesse sentido que a arte surge como solução suprema. Tanto em Hegel como em Eugénio de Andrade, o papel do artista reside em “agarrar a essência da vida”, contestando o princípio de identidade, que impede o ser humano de encontrar o seu “outro”. Efetivamente, um dos conceitos hegelianos mais essenciais consiste na importância da contradição enquanto impulso de todo o movimento para o encontro da totalidade. Através da reconciliação dos contrários, o poeta procura o seu rosto, “feito de mil rostos”, ou, nas palavras de Ricardo Reis, “Para ser grande, sê inteiro”.

Numa primeira leitura dos poemas de Ostinato Rigore, verificamos uma nostalgia de unidade assente na própria estação temporal que estes ilustram, nomeadamente, o verão, cujos dias são mais plenos. Da mesma maneira que se quer captar a “palavra exata”, o escritor deseja congelar o momento presente, tornando-o num instante eterno. Os poemas são, assim, prova de um presente sem futuro, de um momento pleno. Para percebermos melhor o conceito de “palavra plena”, olhemos para o poema “Escrita da terra”:

1.

Sê tu a palavra,

branca rosa brava.

2.

Só o desejo é matinal.

3.

Poupar o coração

é permitir à morte

coroar-se de alegria.

4.

Morre

de ter ousado

na água amar o fogo.

(…)

6.

Da chama à espada,

o caminho é solitário.

7.

Que me quereis,

se não de mais

o que é tão meu?[2]

Efetivamente, no primeiro dístico, o sujeito poético invoca uma assimilação entre o mundo e a escrita, onda a rosa se quer palavra, e vice-versa. Repare-se que a colocação do artigo definido “a” indica a procura de uma única palavra, um termo particular. Em segundo lugar, a adjetivação do nome “rosa” também não nos parece inocente. Para além da ressonância obtida através da aliteração em “r”, ser “branca” é sinónimo de pureza, mas também de uma origem indefinida, que o “eu” ainda não conseguiu detetar. De igual modo, ser “brava” isola-a para o grupo das plantas selvagens, que crescem de maneira silvestre, sem que o ser humano intervenha no seu cultivo. Se pensarmos nela enquanto “palavra exata”, a rosa assume-se brava, porque tem a ousadia de ser mais do que se pode ser; cresce sem ser plantada e não é cultivada, porque o indivíduo não lhe conseguiu alcançar a perfeição ou a origem misteriosa. O sujeito poético parece celebrar a intrepidez desta palavra/rosa em atingir o absoluto, de transcender os limites impostos, na medida em que ousou “na água amar o fogo”. A mensagem que ecoa através do poema é o apelo à procura da unidade primordial. Impedir que a morte se coroe de alegria é agitar o espírito, sendo esse o único fulgor que dá sentido à existência. Apesar do incentivo, o poema acaba num tom desolador: “Que me quereis,/ se me não dais/ o que é tão meu?” . O “eu” lírico parece exigir uma resposta que lhe é inalcançável, a chave do paraíso que lhe é vedado. Será, então, que a escrita não lhe providencia a totalidade desejada?

Se a “palavra plena” nos é apresentada como sinónimo de perfeição, uma vez encontrada, o que falta? O que desanima o sujeito poético? E como devemos entender a obsessão pela “Palavra”, ao mesmo tempo que se glorifica o orientalismo assente no silêncio? Como perceber a afirmação proferida por Eugénio de Andrade numa das suas entrevistas: “A música que me sai dos dedos ama o silêncio, e a suprema ambição do poeta é integrá-lo no seu canto”?[3]

A palavra como intérmina exploração do silêncio

O poeta, como qualquer artista, nada mais faz do que filtrar o seu universo circunscrito, produzindo uma imagem da realidade que se quer comunicar. Desse modo, a palavra poética assume-se como o “impronunciável que paradoxalmente se pronuncia, deixando intacta a essencialidade impronunciável”[4], garantindo, assim, o perpétuo nascimento do poeta.

Na verdade, o artista falha em atingir a plenitude, porque constantemente se esquece que ele também é parte integrante da Natureza que tanto deseja transcender. Em História da Sexualidade, Foucault lembra que o ser humano não preexiste à linguagem. O Homem não é causa do discurso, mas efeito dele. Ora, a poesia de Eugénio é moderna, precisamente porque rompe com a tradição representante, em que os versos nos remetiam para a representação de uma realidade anterior ao próprio poema. Como Eduardo Prado Coelho afirmou a dada altura sobre a poesia de Eugénio: “Ele não permite que se veja através dele, porque continuamente nos reafirma que tudo está nele”. O mundo significante é a palavra e a palavra significante- o mundo.

Na poesia de Eugénio de Andrade, a assimilação entre o mundo e a escrita chega a ser bastante explícita. Vimos há pouco como a “branca rosa brava” se queria “palavra”, mas há uma abundância de outros exemplos: “eis como o verão/entra no poema[5]; “Com palavras amo[6]; “as palavras doem[7]; “Assim eu queria o poema:/ fremente de luz, áspero da terra,/ rumoroso de águas e de vento[8]; “Ergue-se aérea pedra a pedra/ a casa que só tenho no poema[9], ou ainda “De palavra em palavra/a noite sobe”[10].

Condicionado pela sua própria Natureza, o poeta não consegue descrever perfeitamente “a” essência que o transcende, limitando-se a produzir um sem-número de imagens/reflexos do seu mundo. Assim que uma imagem é produzida e verificada nela a não-essência, o escritor parte à procura de uma melhor. O processo é sucessivo e é o que garante a proliferação de nomes e, com isso, de poemas. Assim, a poesia é como um palimpsesto, que continuamente se reescreve, à procura de uma essência que foi, é e será sempre fugitiva.

Doloroso ao ponto de se tornar físico ou milagrosamente instantâneo, o poema é descrito como uma necessidade que “procura tomar expressão”. Mais do que alcançar a “palavra exata”, procura-se a essência, esse silêncio enigmático que transcende a própria poética. Não o conseguindo desvendar, o poeta resuma-se a obter breves imagens, fulgurações desse mistério, que serão comunicadas aos outros. Nesse sentido, podemos falar num silêncio expresso e numa narrativa do mesmo.

Mas se já estabelecemos que o absoluto é- e será inatingível, qual o sentido de o procurar obsessivamente? Será justificada a teimosia do artista em tentar descrever algo que não pode ser descrito? Em gritar o que só pode ser ouvido no íntimo silêncio das coisas?

O silêncio como interrupção de discurso

Por “silêncio” entendemos a ausência total ou relativa de sons audíveis ou uma ausência de comunicação. Relembremos também o “voto de silêncio”, cultivado pela Igreja cristã e praticado nos mosteiros, onde as conversas consideradas inúteis eram estritamente proibidas. Em alguns dicionários, “silêncio” é também definido como “omissão de uma explicação”. Explicámos como a palavra poética se mostra incapaz de abarcar a totalidade desejada. Por ser transcendental, ela não poderá ser alcançada pela linguagem, e muito menos pelo Homem.

Em 1978, numa entrevista concedida pelo poeta ao jornal Expresso, Helena Vaz da Silva dirige-se a Eugénio, com as seguintes palavras: “Você ama de uma maneira clara seres sombrios. E a sua luta é por trazer à luz a claridade, sabendo que eles são sombra”. A observação parece-nos, além de sensata, bastante poética! Eugénio é visto pela jornalista como alguém que luta contra o impossível, que faz todos os esforços para tornar “luz” aquilo que é destinado a ser “sombra”, para decifrar o enigma que não pode ser decifrado. O poeta responde:

Se fosse pintor, diria que passei a trabalhar com menos cores, e as poucas com que trabalho são cada vez mais surdas. Mas isso é natural, chama-se crescimento[11].

Identificamos aqui uma anomalia semântica. Seria expectável dizer que as cores são cegas ou, se falasse de si próprio como músico, afirmar que as notas são surdas. Naturalmente, a metáfora não é inocente. A ideia implícita parece ser a do artista que está deslocado do seu ofício, ou cujo trabalho final já não se lhe relaciona. Enquanto poeta, “trabalhar com menos cores” poderá significar trabalhar com menos palavras. Mas como entender a sua surdez? Estará ela relacionada com esse deslocamento de ofício, com crias que já não ouvem o seu criador e que lhe escaparam do controlo? Quando Eugénio menciona “crescimento”, poderemos entrever uma resignação relativamente à poesia, uma consciencialização e consequente aceitação do caráter oculto da própria palavra poética, contra a qual o indivíduo nada pode fazer?

No início do ensaio, mencionámos a influência, na poesia de Eugénio de Andrade, do orientalismo assente na brevidade minimalista e no silêncio. Vale a pena trazer para o estudo uma referência a uma das obras mais prestigiadas da literatura chinesa, Tao Te Ching, comumente traduzido como O Livro do Caminho e da Virtude. Escrito por Lao Zi, um dos maiores filósofos da Antiga China, a obra é considerada a base fundadora do taoismo filosófico. A leitura deste texto implica um único, mas grande desafio: que o leitor se “esvazie” de toda a rede de pensamentos e que a sua mente seja límpida, como a água que flui no vale. Por outras palavras, o livro faz um apelo à necessidade do “retorno à origem”, à “essência”. Longe de se reduzir às ideias citadas, percebemos que um dos ensinamentos de Lao Zi reside na procura do Caminho através da sua não-procura. “O Caminho” de Tao Te Ching é aquilo que Eduardo Lourenço descrevia como sendo o “invisível, inaudível, inomeável, inexprimível…”. O Caminho é, então, o Vazio. Ele preexiste a toda a existência e a única maneira de o alcançar é através do simples ato de contemplação. Assim, quanto mais o Homem acreditar na capacidade de transcender os limites impostos pela Natureza, maior será a sua ilusão. Quanto mais este tentar a sua dominação sobre o mundo, mais rapidamente se aproximará do destino de Ícaro. Segundo o pensador chinês, apenas quem compreender e aceitar isso no âmago do seu ser terá encontrado o verdadeiro Caminho.

Abandonando um pouco as deambulações teóricas que temos estado a fazer, regressemos a Eugénio de Andrade e aos poemas de Ostinato Rigore. Famosíssima ficou a afirmação do poeta: “Vou morrer a querer que um poema meu contenha a luz do mundo”[12].

Terá conseguido o escritor cumprir esse desejo?

No livro de poemas sob análise, encontramos, ainda que de forma esporádica, alusões a um possível “silenciamento” do poeta. Vejamos, a título de exemplo, os primeiros veros de “As nascentes da ternura”:

1.

No espaço de um relâmpago

os olhos refletem os navios.

2.

O silêncio brilha acariciado.

3.

O silêncio é de todos os rumores

o mais próximo da nascente.

4.

Só água era, e sem memória[13].

Ora, considerando a brevidade de um relâmpago e o caráter ilusório da reflexão, observamos que os limites da linguagem são refletidos (ironicamente) na própria Natureza. Se nos restantes poemas verificamos uma constante glorificação do universo, a certeza da sua matéria, a partir deste poema, a aparência dos objetos adquire um poder enganador. O poeta substitui a visão pela reflexão; o momento pleno pelo instante fugaz, demonstrando, assim, a impossibilidade de a palavra poética abranger o absoluto. Em sintonia com os ensinamentos de Tao Te Ching, a terceira estrofe marca a passagem de uma poética da palavra para uma poética do silêncio, posicionando-se esta última mais perto da “origem”. Finalmente, o último verso aqui citado indica uma valorização do presente sem passado, em detrimento de tudo o que não possa ser diretamente contemplado através dos sentidos.

Uma insinuação da ideia de silêncio “mortal” é também feita através do poema “Eros Thanatos”, onde o “eu” lírico remata: “Seria a morte esta carícia/ onde o desejo era só brisa?”[14]. Em “Cristalizações”, por exemplo, o silêncio é visto como o “leito” para onde todas as águas vão desabar: “Ama/ como o rio sobe os últimos degraus/ ao encontro do seu leito”[15]. Ainda neste poema, é-nos comunicada a insuficiência da palavra poética, através da metáfora da rosa (que no seu inclinar contra o vento é, e deixa de ser); e da pergunta retórica “Como podemos florir,/ ao peso de tanta luz”- nele podemos ler também “Como pode o ser humano sair vitorioso ao peso de tamanho Mistério?” e, ainda, a invocação à própria morte do sujeito, que implica necessariamente a morte poética: “Onde espero morrer/ será manhã ainda?”[16] .

Tal como o título do livro sugere, os poemas procuram o máximo rigor, que Eugénio conclui ser o máximo silêncio. Ora, máximo silêncio exige a ausência desses mesmos poemas, sendo por isso que o poeta solicita a sua morte. Após uma primeira leitura na íntegra de Ostinato Rigore, observamos que os versos adquirem uma carga cada vez mais melancólica, fazendo triunfar palavras como “memória”, “dor”, “silêncio” e “morte”. O caráter desolador revela-se, ainda, na redução progressiva dos versos à medida que avançamos para o fim do livro, bem como na escolha dramática dos títulos dos próprios poemas finais: “Escuto o silêncio”, “Eros Thanatos”, “Epitáfio”, “Antes da neve”, “Melancolia de um fim de setembro”, “Sete espadas para uma melancolia, “Despedida”, “Exílio” e “Exorcismo”.

Ora, muitos foram os artistas que procuraram atingir a plenitude, iniciando um caminho que os levaria à loucura e/ou ao suicídio. Exemplo disso são as biografias de Oscar Wilde, Rilke ou Tsvetaeva. Muitos outros que conseguiram sobreviver, abdicaram da vida literária, refugiando-se no silêncio absoluto: lembremos o caso de Byron, de Musset ou até a carta fictícia de Lord Chandos a Francis Bacon, escrita por Hofmannsthal, no século XX, na qual o sujeito protesta “Quem é o homem para fazer projetos!”. Na obra do escritor austríaco, a linguagem é descrita como um abismo:

(…) porque a língua na qual eu seria capaz não só de escrever mas também de pensar não é a língua latina, nem a inglesa, nem a italiana, nem a espanhola, mas uma língua da qual não conheço palavra alguma, uma língua na qual me falam as coisas mudas e na qual quiçá algum dia, na tumba, prestarei contas diante de um juiz desconhecido[17].

No caso de Eugénio de Andrade, existem testemunhos de um silenciamento poético, curiosamente, logo após a publicação de Ostinato Rigore, em 1964, e que durou pouco mais de sete anos. Apesar disso, o poeta continuou a publicar livros em vida, pelo que não o conseguimos colocar ao lado dos poetas acima mencionados. Todavia, estamos certos da sua alusão, ainda que em matéria ficcional, à inutilidade da linguagem e à necessidade do regresso às origens, aos sentidos. Na verdade, os críticos são de opinião que, a partir de Ostinato Rigore, há uma nova perspetiva de Eugénio sobre o silêncio…a musicalidade que ele produz.

Do silêncio à música

Chegámos ao objetivo proposto no início da nossa investigação, nomeadamente a relevância da reconciliação dos contrários na poética de Eugénio de Andrade. Mais do que apenas reconciliações temáticas, sugiro aqui a possibilidade de haver, na sua poesia, uma reconciliação entre a palavra o silêncio.

Creio não trazer nenhuma novidade ao afirmar que a finalidade da arte reside em produzir uma emoção estética, e que toda a obrigação do Artista consiste em fixar uma imagem e comunicá-la aos outros. Trata-se, aqui, da significação do silêncio, que nasce nas margens do dito ou do escrito, através da sugestão que ele comunica, da aura de sentido que produz. Mais do que a musicalidade inerente à escrita, pelo ritmo das sílabas e pelo encadeamento das palavras, trago a hipótese de uma musicalidade metafórica, uma música criada pelo próprio leitor. Imaginemos uma partitura musical. Por mais prodigiosa e excelente no rigor o seu verdadeiro valor será revelado somente ao ser tocada pelo músico, na comunicação da sua mensagem auditiva aos outros.

Na obra Os Afluentes do Silêncio, o próprio Eugénio de Andrade menciona:

Só quando as palavras brilham têm esta limpidez, e brilham assim, como um corpo nu, a música pode ser invocada, pois toda a tensão provém de um ritmo que ali tem o seu nascimento primeiro e se prolonga, em sucessivos ecos de si próprio, até atingir a perfeição última do silêncio[18].

Efetivamente, “ecos de si próprios” podem ser os inúmeros significados e sentidos que cada leitor atribui à criação artística, mas também a maneira como a acolhe no interior do seu ser e que pode, por isso, não ser expressa. A palavra é lançada pelo escritor, estende-se em sucessivos ecos, e encontra, como última morada, o silêncio.

No seguimento da contemplação de um quadro de Resende, Eugénio escreve: “Uma impensada felicidade…Será de luz, fresca, molhada, saída há instantes da água? Do silêncio que se tornou visível e se pode tocar com os dedos? Ou é em mim que tal amanhecer se não extingue, e ilumina tudo onde piso os olhos?”[19] . Ora, se a luz e a música que o artista procura está em quem lê/contempla a sua obra, é necessário que o artista se “apague”, para que o poema “seja”. O próprio o diz em Rosto Precário: “Porque a palavra poética visa a subversão- se assim não fora, que sentido teria esta música onde o homem morre sílaba a sílaba para que outro homem nasça?”[20].

Em Ostinato Rigore, encontramos várias passagens onde o refúgio do poeta é mencionado, como em “Metamorfoses da casa”: “Ah, um dia a casa será bosque,/ à sua sombra encontrarei a fonte/ onde um rumor de água é só silêncio”, ou ainda em “Epitáfio”: “Voa coração,/ Ou então arde”. Para tornar o visível mais visível, o poeta consome-se em combustão com a sua obra, e é o seu silêncio que provoca rumor no leitor. Como Melville diria, “Agora que sou imperador da minha alma, o meu primeiro ato é abdicar”.

Ao contrário do que se poderia prever, a problemática enunciada no início do ensaio não encontrou uma palavra final. Ainda assim, demonstrámos que o silêncio e a palavra podem, sob determinados pontos de vista, ser conciliados. Se quisermos falar em termos hegelianos, a procura do absoluto estrutura-se, numa primeira fase, na tese (no nosso caso, “a palavra-exata”); em segundo lugar, na negação (o silêncio); e, finalmente, na negação da negação, isto é, na síntese (a reconciliação entre a palavra e silêncio).

Não nos esqueçamos também do significado da expressão que intitula o livro de poemas em análise. “Ostinato” designa, com efeito, um motivo ou uma frase musical que é persistentemente repetida numa mesma altura. Terá Eugénio insistido numa mesma ideia ao longo da obra? Ele bem o diz numa das suas entrevistas: “Não sei se não andei sempre a dizer a mesma coisa…”. Mas que ideia será essa? Coincidirá ela com as nossas conclusões?

Bibliografia

ANDRADE, Eugénio de. Os Afluentes do Silêncio. Porto: Limiar, 1979. Impresso.

ANDRADE, Eugénio de. Poesia e prosa (1940-1979). Lisboa: Imp. Nac.-Casa da Moeda, 1980. Impresso.

ANDRADE, Eugénio de. Rosto Precário. Porto: Assírio & Alvim, 2015. Impresso.

OLIVEIRA, António. Metáforas obsessivas em Eugénio de Andrade. Leça da Palmeira: Letras e coisas – Livros , Arte e Design, Soc. Unipessoal, Lda, 2008. Impresso.

QUEIRÓS, Luís Miguel, pref.; SANTOS, José da Cruz. Ensaios sobre Eugénio de Andrade. Porto: Asa, 2005. Impresso.

Webgrafia

HOFMANNSTHAL, Hugo von. «Uma Carta». A Carta de Lord Chandos. Traduzido por Zebba Dal Farra. S.d. 5 de Junho 2019.

https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/234389/mod_resource/content/1/uma_carta%20%281%29.pdf

TSE, Lao. Tao Te Ching – O Livro do Caminho e da Virtude. Traduzido por Wu Jyn Cherng. S.d. 5 de Junho 2019.

http://livros01.livrosgratis.com.br/le000004.pdf

  1. ANDRADE, Eugénio de. Rosto Precário (2015). Pp. 17.

  2. ANDRADE, Eugénio de. Ostinato Rigore (1980). Pp. 188.

  3. ANDRADE, Eugénio de. Rosto Precário (2015). Pp. 55.

  4. LOURENÇO, Eduardo. Paraíso sem mediação (2007). Pp. 14.

  5. ANDRADE, Eugénio de. Ostinato Rigore (1980). Pp. 185.

  6. Ibidem. Pp. 186.

  7. Ibidem. Pp. 193.

  8. Ibidem. Pp. 196.

  9. Ibidem. Pp. 199.

  10. Ibidem. Pp. 200.

  11. ANDRADE, Eugénio de. Rosto Precário (2015). Pp. 115.

  12. Ibidem: 191.

  13. ANDRADE, Eugénio de. Ostinato Rigore (1980). Pp. 202.

  14. Ibidem: 205.

  15. Ibidem: 186.

  16. Ibidem: 186.

  17. HOFMANNSTHAL, Trad. FARRA, Zebba Dal, s.d.: 2.

  18. ANDRADE, Eugénio de. Os Afluentes do Silêncio (1979). Pp. 42.

  19. Ibidem: 97-98.

  20. ANDRADE, Eugénio de. Rosto Precário (2015). Pp. 120-121.

O Cinema Inicial como Substituto das Artes Figurativas Tradicionais

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Será que o advento do cinema implica uma rotura com tipos de representação mais familiares (i.e. as artes figurativas ditas tradicionais, como a pintura e a escultura) que existiam antes? Antes pelo contrário. Na época, ao mesmo tempo que as artes canónicas estavam a passar por um momento de rebelião, tal como podemos observar no Impressionismo de Manet, rompendo com a linearidade e o naturalismo, era o cinema que sobressaía, encarregando-se de preencher o vácuo daí emergente, através da consolidação das engenhosas produções de George Méliès e dos filmes mudos da produtora Pathé, entre outros pioneiros, nos horizontes do final do século XIX. Este novo meio visual era assim um substituto das antigas formas de representação de linearidade narrativa e figuratividade visual de que no fin de siècle os movimentos de vanguarda pretenderam emancipar-se — como, por exemplo, na pintura de Manet ou na ficção mais tardia de Joyce — estabelecendo-se assim no cinema um novo porto seguro para a manutenção da narrativa tradicional e da linearidade diagética. 

Há dois teóricos sobretudo que se destacam pelo modo como abordam estas questões ao nível da Teoria da Arte; Michael Fried, que a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa já teve a honra de receber em conferência, e um outro Clement Greenberg. O primeiro sublinhou várias vezes a destruição da linearidade operada, por exemplo, por Manet, em que, apesar de a pintura reter aparente figuratividade, o desenho das linhas apontava novas possibilidades plásticas e anti-narrativas antes não existentes; o segundo destaca como, no processo modernista que decorreu desde o final do século XIX e durante o século XX, as artes tradicionais passaram a não conseguir ser definidas ortodoxamente e puseram em causa tudo da sua prática, inclusive o próprio meio. Tornaram-se espaços meta-artísticos, de certo modo. O cinema não: acabado de nascer, possuía a força de uma arte que conseguia impressionar com muito pouco, com pura figuratividade e narrativa mimética e ficcional — veja-se os primeiros filmes dos irmãos Lumiére, estritamente documentais — e também a liberdade do experimentalismo, sendo capaz de, com artifícios muito simples — inclusive a génese dos “efeitos especiais” em Meliés, derivada, de entre muitas coisas, dos números de circo — impressionar vivamente o espectador.

Há que notar, adicionalmente, como o cinema primitivo fez isto particularmente com os artifícios da analogia relacionada com a passagem da imobilidade para o movimento, tudo dentro do universo figurativo e linear, dado que ainda não entrava nos domínios da arte abstracta nem da meta-arte que veio a dominar mais tarde as correntes vanguardistas no século XX em relação às práticas tradicionais. Estes aspectos podem ser vistos em alguns exemplos de produções do período mencionado: Métamorphoses d’un Magicien (1897), da Pathé, Le Magicien (1898) e Le Diable Géant (1902) de Meliés e The Haunted Curiosity Shop (1901), de Robert W. Paul.

Os dois primeiros abordam o tópico do mágico, o ilusionista que faz aparecer e desaparecer, à imagem da luz do cinema, e que entronca noutras figuras de circo e vaudeville populares entre o público da época, trazendo à tela uma familiaridade facilmente identificável. A narrativa era muito básica e pretendia explorar as possibilidades do novo meio visual, fazendo aparecer e desaparecer objectos e pessoas, polvilhando a tela de truques de corte e inserção visual. A câmara não se movia, os planos eram fixos e davam ao espectador a impressão de estar diante de um palco teatral, sendo esse um dos apanágios dessa tradição: era o espectador que seleccionava, com os olhos, aquilo que queria ver, destacando partes específicas do plano, coisa que hoje não acontece nas produções cinematográficas, em que nos deixamos levar pelos planos e pelo corte rápido que por nós selecciona o que há a destacar da cena.

No terceiro, Meliés brinca com mobilidade e imobilidade das figuras no plano, apresentando uma espécie de Mefisto surgindo do nada e uma estátua que adquire movimento, ambos à imagem da magia cinematográfica das imagens cinéticas que emergem da tela bruta; simultaneamente bíblico e de herança teatral clássica, muito arreigado a essa postura, de recorte fantástico e rocambolesco, encarna um perfeito entretenimento para as massas da altura. O último exemplo tem como protagonista um antiquário, misto de cientista e de mágico, que encontra na sua loja várias figuras inanimadas que se tornam animadas, mais uma vez mimetizando o processo cinematográfico; pode-se de resto dizer que as figuras de conotação arqueológica que ali vão surgindo, assim como a mise en scène, parecem advir da idade de ouro dessa prática, ocorrida precisamente no final do anterior século. 

Uma última nota deve impor-se para apreço: não deixa de ser curioso que estas produções primitivas apresentem durações tão curtas, tão digeríveis e tão rápidas como uma “película” de tiktok na contemporaneidade.

Peace to mutants #7 — Cranford Nix, The Futures, Lena d’Água

Cranford Nix was like a shooting star burning brightly in the dark skies of the musical kingdom. Born on January 17, 1969 in Michigan (USA), Nix was the vocalist and guitarist of the punk band The Malakas and led a prolific and unique solo career, yet not achieving mainstream success.

His vibrant spirit and musical talent led him to doing solo gigs and recording by himself a lot of wonderful songs. It is pure and honest songwriting; the lyrics are filled with his dilemmas and troubles while battling mental health issues and drug addiction. It is sincere and heartbreaking but at the same time infused with a very particular kind of rebellious sense of humour. Cranford’s voice is filled with anguish, defiance and a bittersweet quality that echoes all through his songs. There is sweetness and an angst that is impossible to shake while listening to Cranford’s songs and we welcome it entirely because we sense and deeply feel there is truth and sincerity in his lyrics, in his voice, and ultimately in all his songs.

Unfortunately, Cranford passed away on 12th March 2002. He was only 33 years old. His musical legacy is a treasure and is being shared and spread by his surviving family and friends through an official website which is an archive of all of Cranford’s recordings and a true memorial to his life and work. Currently there are no CDs available for purchase, however there is an LP compilation released by Rocking Bones and aptly called “Drinkin’ with some angels”. I hope you will appreciate Cranford’s music as I do, and I choose to show you the song “Mexico” because it was the first that I listened to a couple years ago when I got acquainted with Cranford’s music. Bliss.

Website: http://www.cranfordnix.com/

 The Futures – Castles in the sky

Groovy and danceable album from The Futures, a band from Philadelphia formed around 1968 that incorporated the lush and unique philly soul sound. Their career was ponctuated by some bad luck and flops and this album had virtually no promotion which is an enigma since it’s packed with several bangers like “Super Love”, “Castles” among others. An interesting and iconic album if one wants to dive deeper in the philly sound. 

Lena d’Água – Lusitânia

Lena d’Água é uma das artistas que consegue transpor através da sua música o cerne agridoce da vida. Lusitânia é um álbum encantador que reflecte o universo musical de Lena D’água de forma ingénua e deliciosa, com arranjos magistrais, complexos e leves ao mesmo tempo, as canções deste álbum mexem, agitam e revolucionam o dia em que o escolhemos ouvir.

Lusitânia principia com o divertido e badalado tema, Ajinomoto com letra e composição de Luís Pedro Fonseca, e onde a versatilidade e imaginação vocal de Lena d’Água encontra um veículo perfeito para nos fazer vibrar. Apesar de começar numa nota optimista, o álbum encerra com o brilhante, melancólico e épico tema Lusitânia, onde as notas vocais e o som da voz de Lena d’Água ecoa como um espírito benigno na floresta de sons orquestrais.

Não há uma única faixa que seja considerado “filler” e de realçar a qualidade lírica com pregões e mantras que dão que pensar, tais como nos versos:

“Novo por não ser velho
Fresco por não ter calor
Quem liga muito ao espelho
Julga que se vê melhor

Para provar o sabor do perigo
Faço o que é proibido
Para quebrar um tabu antigo
Faço o que é proibido”

É um disco que me deixa muito feliz por fazer parte da minha vida e que continua a exercer um fascínio irresistível, por mostrar que a vida não pode permanecer sem melancolia, mas também se torna insuportável sem alegria. Faz-se então uma mistura, vamos fazendo, vamos andando o melhor que sabemos e por bem. Mágico. 

O Jogo do Pau: uma Arte Marcial Renascida

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Sobre esta pouco conhecida e pouco divulgada arte marcial, autenticamente portuguesa mas de raízes europeias e mediterrâneas, as suas expressões e história. Texto de Marco Serote Roos. Fotografias de http://www.jogodopau.com.pt.

Penso que é inegável, para quem vive no contexto português, que existe um certo sentido de Portugal ser inadequado. Inadequado para a Europa, inadequado economicamente, politica e, também, culturalmente. Este facto manifesta-se, entre muitas formas, na impressão de que a arte portuguesa é, de certo modo, secundária à estrangeira. Este problema não é de todo recente. Desde, pelo menos, o século XIX, se não mais, que a elite portuguesa, nomeadamente a metropolitana, demonstra um quase total desinteresse pelo interior do país, preferindo olhar para o resto da Europa. Tal atitude pessimista tem, hoje em dia, um impacto deveras triste no estado da nossa arte e cultura. Não é propriamente a carência de uma ou outra, mas sim a visibilidade e interesse, especialmente entre as gerações mais jovens que, pelo seu interesse enorme na internet, consomem cultura predominantemente anglo-saxónica e nipónica. Quer por falta de contacto cultural, quer pelo chauvinismo metropolitano, existe um setor relativamente considerável da população que desconhece e não interage com certas expressões da cultura portuguesa. Uma destas expressões é o Jogo do Pau, arte marcial do Portugal interior. Relembraremos, então, esta nossa arte marcial, as suas origens, a sua história, o seu estado presente e as suas especificidades.

Tal como noutros países europeus, em Portugal a arte marcial está associada, por um lado, às tradições orientais (karaté, taekwondo, kung fu, judo), e por outro, às artes marciais contemporâneas, isto é, a esgrima moderna, o boxe e as suas variantes. São estas as artes que predominam no imaginário português. Mas tal como no resto da Europa, existe toda uma tradição de artes marciais, herança da nossa história belicista, que abrange o combate ofensivo e defensivo, desarmado e armado, usando uma miscelânea de armas. Uma destas vertentes marciais é o uso do pau de madeira, cujas metodologias traduzem-se facilmente para as armas de haste, isto é, uma haste de madeira com uma lâmina na ponta (machados, lanças, alabardas, martelos, foices, etc…). Assim, temos, um pouco por todo o lado, da Eurásia à África e nas Américas, tradições de combate com paus de madeiras: a Canne de combat francesa, a Gatka dos siques da Índia, o Bojutsu japonês, o Bataireacht irlandês e o Jogo do Pau português, entre outras. Contrariamente às tradições de combate do leste asiático, o Jogo do Pau é uma prática do mundo rural e popular. Os praticantes e mestres da arte não são monges ou sábios budistas, são camponeses, pastores, viajantes, gente do povo. Assim, o Jogo do Pau é um jogo prático, ausente de esoterismos e espiritualismos, com o foco virado para a autodefesa contra um ou vários oponentes. De fácil aprendizagem mas de difícil mestria, o Jogo do Pau distingue-se dos seus equivalentes euroasiáticos por se focar na maximização da força de impacto e pelo combate simultâneo contra vários oponentes [1].

Contudo, este mesmo caráter rural implica igualmente que a transmissão e ensino da arte fosse principalmente oral, sendo por isso disputada a sua génese cultural devido à falta de fontes escritas anteriores ao século XIX. Algumas teorias são generalistas, apontando para o já referido aspecto belicista da Idade Média como principal motivador para o desenvolvimento de metodologias de autodefesa. Outra teoria propõe que o Jogo do Pau seja de origem celta, o que explicaria a sua prevalência no norte do país, local onde esta expressão cultural é mais visível, estando assim inserido no repertório cultural celta juntamente com os pauliteiros de Miranda e os caretos de Podence. Seja como for, sabemos que o Jogo do Pau era definitivamente praticado desde, pelo menos, o século XIV, um pouco por todo o reino, existindo com maior predominância no Alto Minho e Trás-os-Montes [2], onde perdura até aos dias de hoje com maior persistência.

Observamos que ao longo da história o varapau foi, sem dúvida alguma, uma ferramenta de autodeterminação do povo lusitano, tendo o seu uso sido recordado diversas vezes ao longo do século XIX. Fosse durante as invasões francesas em defesa da nação, na revolta Maria da Fonte pela tradição (de 1846), ou mesmo no movimento Justiça da Noite da Ilha Terceira, o varapau destacou-se como a arma da população rural e o instrumento da justiça popular. Era nestas vertentes que o Jogo do Pau se integrava no quotidiano dos povoados praticantes. Sendo simultaneamente um desporto bélico e um símbolo de independência masculina, o Jogo do Pau manifestava-se de diversos modos: como rito de passagem para a idade adulta, como fonte de entretenimento nas feiras e festas, e como último e derradeiro limite dos dramas interpessoais, conflitos de interesse, vinganças, rivalidades e ajustes de contas. Era por meio desta violência ritualizada que as populações dispensavam a sua própria justiça, muitas vezes até como resposta ao seu desagrado pelas decisões do poder oficial ou quando este era considerado insuficiente. Era neste pilar que o movimento Justiça da Noite se alicerçava; caso injustiças escapassem ao escrutínio dos tribunais, era “(…) pela calada da noite que homens mascarados e armados de varapau faziam a sua justiça” [3]. Em Portugal continental, esta iustitia populi fez-se sentir com maior intensidade no norte do país. Podemos destacar, em particular, o município de Fafe, distrito de Braga, cujo uso da racha de lodo como instrumento de justiça constituía uma parte importante da identidade e memória cultural da terra. Contam as lendas e a história oral que em Fafe a justiça se fazia principalmente a partir de combates com vara, tanto entre homens como entre mulheres, tanto por humildes camponeses como por nobres hegemónicos [4]. Como é referido numa entrevista de 1960, na freguesia de Bucos, Braga, “em Fafe (…) realmente, era o pau que mandava” [5]. A Justiça de Fafe, como ficou assim conhecida, e outros movimentos de justiça popular estagnaram e desapareceram lentamente ao longo do século XX, traçando-se este declínio à maior proliferação e uso de armas de fogo, inclusivamente pelas forças policiais que conquistam assim o monopólio da força e garantem a legitimidade dos tribunais face a outras alternativas fora do poder estatal.

Apesar deste revés, o Jogo do Pau prevaleceu nas andanças do tempo como desporto marcial, sustentado, por um lado, pela vontade de preservação da tradição, e por outro, pelo interesse que atrai. É ainda no século XIX que o Jogo do Pau se começa a desenvolver como desporto, através da criação de associações e clubes dedicados, assim como pela transcrição das regras e práticas deste jogo. Uma destas associações mais antigas é o polivalente Ginásio Clube Português, em Lisboa, fundado em 1875, tendo o Jogo do Pau sido uma das primeiras modalidades ali praticadas. Esta instituição sobrevive até hoje. São também inúmeras as associações municipais focadas no Jogo, que procuram simultaneamente desenvolver a prática desportiva mas também, e essencialmente, preservar este rico património cultural.

Mesmo com esta modernização, o Jogo do Pau continua a ser, em muitos aspectos, uma arte informal, de transmissão oral, na qual a figura do mestre tem uma importância considerável na transmissão do conhecimento. Com o declínio do uso efetivo desta arte, e consequentemente, do seu conhecimento prático, o Jogo do Pau prevalece pela passagem da aprendizagem de mestre para aprendiz(es). Assim, as associações e clubes de Jogo do Pau que têm vindo a ser criadas desde o século XIX, baseiam os seus ensinamentos e legitimidade nesta linhagem epistemológica, tendo muitas sido fundadas por mestres ou seus alunos. Como exemplo, temos o extinto Grupo de Jogo do Pau de Silvares, fundado por António “de Covas”, antigo aluno do Mestre Serafim Ribeiro da Mota, muito considerado na região de Fafe desde os anos 20 do século XX até à sua morte nos anos 80 do mesmo século.

O Jogo do Pau continua a ser uma arte descentralizada por natureza, apresentando divergências regionais e até mesmo individuais, em matéria de metodologia, terminologia e expressão. Mesmo com iniciativas que tentaram aglomerar e fazer do Jogo do Pau um desporto mais uniforme, como foi o caso do trabalho levado a cabo pelo Mestre Nuno Russo, com o seu sistema da Escola de Esgrima Lusitana do Santo Condestável, em Lisboa, a arte deste jogo permanece bastante dividida. Hoje em dia, são reconhecidas nove escolas, ou seja, práticas, todas com a sua própria história, mestres e tradições distintas: Norte; Fafe; Guarda; Cabeceiras de Basto; Ribatejo; Lisboa e Margem Sul; Salto; Algarve; Açores [6]. No entanto, e independentemente da escola, a base do Jogo do Pau permanece inalterada. O combate contra vários oponentes continua a ser um aspeto crucial desta modalidade, algo relativamente raro noutras artes marciais deste tipo. O Jogo do Pau atual visa, simultaneamente, ensinar este desporto e manter a sua memória cultural violenta. Como exemplo, vejamos a vertente Roda do Meio, onde um batedor tem de escapar de uma roda de picadores que o cercam. Ou mesmo o chamado Jogo de Quelhas, onde um oponente luta contra vários numa esquina, ou num espaço estreito, para simular as lutas reais que ocorriam em ruas e vielas. O treino e a prática são uma encenação deste passado, funcionando para manter viva a memória coletiva.

Notas

[1] https://www.youtube.com/watch?v=Cv3ROAi7TFk&ab_channel=FandabiDozi (10:24 – 11:16)

[2] https://jogodopau.wiki/index.php?title=Origem_do_Jogo_do_Pau

[3] https://jogodopau.wiki/index.php?title=Justi%C3%A7a_da_Noite

[4] https://jogodopau.wiki/index.php?title=Lenda_da_Justi%C3%A7a_de_Fafe

[5](https://www.youtube.com/watch?v=WGBm2aJyd3A&t=282s&ab_channel=Hist%C3%B3riadoJogodoPau-History 21:47 – 21:58

[6] https://jogodopau.wiki/index.php?title=Mestres

Os “Recursos” do “Planeta” São “Infinitos”

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Novo artigo de Ricardo Fortunato: uma tese contra-intuitiva mas factual conforme um ecossistema dinâmico que tem em conta (1) a complexidade dos elementos e das relações que o constituem e (2) o registo da história universal do homem. O argumento consiste em estabelecer que a procura de recursos varia conforme o tempo, que a quantidade absoluta dos mesmos nunca ou quase nunca é absolutamente determinável, que não só as inovações tecnológicas permitem que os rácios de aproveitamento dos mesmo sejam cada vez melhores, mas também que sejam substituídos por outros; e, por último, que são poucos ou nenhuns os recursos naturais que até hoje tenham sido extintos.

A proposta deste breve argumento parece seguramente contra-intuitiva, mas é factual. Factual não conforme um quadro tão abstracto quão estático do “planeta” como um sistema fechado de recursos materiais, naturalmente limitado pelas leis da física do espaço e do tempo, e pelas leis da lógica que indicariam que o consumo dos mesmos, de quantidade material-espacial limitada, ao longo do tempo, encontrariam, naturalmente, um fim, mas factual conforme um quadro dinâmico que tem em conta (1) a complexidade dos elementos e das relações que o constituem e (2) o registo da história que conhecemos. Vejamos como.

O quadro que propomos não é um que projecte cartesianamente as dimensões da escala e da complexidade de um micro-sistema num macro-sistema como o do planeta, mas antes um que se baseia tanto na a história real, não imaginada, não moralizada e abstratizante, da humanidade, das culturas e das civilizações — inclusive da fase globalizada pós-capitalista — como também num modelo dinâmico das práticas humanas de exploração dos recursos terrestres — um modelo que tem em conta mudanças materiais e culturais que ocorrem de forma espontânea e natural, ou, que, pelo menos até agora, têm assim ocorrido.

Um terrário, plantado por David Latimer em 1960, um sistema biológico selado e auto-suficiente.

Efectivamente, se nos regermos por uma ideia de sistema biológico fechado, de ecossistema, em que determinados seres vivos consomem recursos do meio-ambiente, produzindo resíduos absorvidos por esse mesmo meio-ambiente e consumidos e transformados por outros seres vivos a ele pertencentes, ou através de processos físico-químicos não relacionados com a vida, estamos a falar de um sistema cíclico de recursos finitos sujeitos continuamente a processos de transformação que mantém os seus participantes biológicos numa relação de interdependência e, em última análise, vivos e reproduzindo-se. Isto é fácil de conceber em pequena escala, seja a nível de um pequeno charco, de um lago, ou de uma floresta, embora esta concepção seja sempre até certo ponto inteiramente abstracta, já que não é possível obter medidas concretas de todas as interacções que estão a ter lugar (como se conseguiriam num meio muito mais pequeno e controlado, numa placa de Petri, por exemplo): a nossa concepção do sistema e do seu funcionamento, no entanto, é credível, e pode admitir-se que baterá certo com a realidade.

Pode dizer-se, de certo modo, que esta dificuldade de escala e de mesura se torna ainda mais díficil quando nos referimos à totalidade do planeta. Apesar de o conceito de ecossistema ser minimamente credível — embora não em absoluto — quando aplicado a unidades mais ou menos redutíveis a termos simples, quando transportado para a totalidade e esmagadora quantidade das interacções físicas, químicas e biológicas à escala de todo o planeta, estamos no terreno do incomensurável. Daqui emergem muitas dificuldades para, por exemplo, a climatologia, cujas leituras popularizadas por serem politicamente alarmistas se baseiam em modelos consecutivamente falíveis, muito distantes de ecossistemas locais ou placas de Petri.

Com efeito, apesar de ser inegável que o planeta — ao contrário, possivelmente, do universo — é um espaço finito, limitado em termos de matéria e objectos, e não ser concebível nem comprovável para qualquer pessoa lúcida outra visão sobre o assunto, é de notar que tanto as questões da medida como as de escala têm aqui importância que desvirtua significativamente uma leitura linear e reducionista do assunto. No caso da medida, admitamos, à partida, que não é possível obter medida exacta de recurso natural praticamente nenhum à face da terra, e ainda mais no caso de recursos naturais que se localizam precisamente abaixo da terra. São anedóticas as sucessivas referências aos picos de extracção de matéria petrolífera desde meados dos anos setenta, estimando-se que as mesmas estariam numa curva descendente em termos de reservas. Na verdade, nada disso se passou, e novas fontes da matéria têm sido sucessivamente descobertas. O facto de não se conseguir obter uma medida não tem corolário lógico em as matérias serem infinitas, naturalmente, nem se supor que o seu consumo e aproveitamente não se regem pelas regras da lógica. No caso da escala, tanto o nível de quantidade dos elementos como de complexidade das suas relações — inclusive aquelas que desconhecemos, pois o estado-da-arte da ciência em dado momento, ao contrário do que frequentemente se presume, não é nem nunca é o estado último do conhecimento das coisas — encontramos uma diferneça substancial entre a placa de Petri e a dimensão de um planeta. É este o estado em que nos encontramos quando falamos de um ecossistema de tal dimensão: impossibilidade de mesura e complexidade ininteligível das interacções entre os seus elementos.

O que sucede, assim, aos recursos naturais, é que estão integrados num sistema de consumo muito mais complexo do que aquele que se baseie somente na linearidade da sua quantidade física. Dois factores transformam essa linearidade numa equação de dinamismo mais complexo e mais imprevisível: um, o factor cultural, dado que as necessidades humanas são maleáveis, adaptáveis, fluidas, e muitas vezes mudam conforme outras surgem, ou, antes, muda o objecto sobre o qual se focam. Outro, o factor tecnológico, dado que a evolução científica permite não apenas obter rácios de aproveitmaneto exponencialmente mais eficazes em relação a determinada matéria, mas também leva a que matérias anteriormente encaradas como inúteis em termos de aproveitamento sejam transformadas em recursos úteis que substituem outros mais ineficazes.

New England whaling c. 1860: Whale fishery – attacking a right whale, by Currier & Ives

O exemplo mais próximo e mais acessível historicamente é o da indústria do óleo/gordura de baleia, amplamente usado para iluminação pública e privada, suplantada pelo desenvolvimento da indústria petrolífera e também, mais tarde, pela descoberta da eletricidade. A caça à baleia, que teve o seu pico em meados do século XIX, era uma indústria titânica, absolutamente necessária ao desenvolvimento das sociedades recém-industriais e ao conforto das populações aglomeradas em grandes centros urbanos. Inovações tecnológicas tornaram o produto obsoleto em muito pouco tempo, estando já as frotas de pesca deste animal muito reduzidas no final desse mesmo século, e representando hoje um sector muito ireelevante na indústria mundial. A substituição do óleo de baleia por outros produtos terá evitado, segundo se julga, a provável extinção do animal. Eis, então, um exemplo muito simples de como, na prática, o recurso não era “finito”: primeiro, porque não se sabia ao certo os números exactos da população de baleias, nem sabemos se acordos governamentais e comerciais teriam sido feito de modo a não deixar que a espécie de extinguisse; segundo, porque os desenvolvimentos tecnológicos ultrapassaram o uso do recurso em específico e substituiram-no por outro, culminando na situação actual: total reequilíbrio do equilíbrio da espécie em específico com o ecosistema e abundância do mesmo recurso em específico de acordo com diminuição monumental da procura.

Areia.

Outro exemplo é ainda mais rudimentar: o da areia, durante milénios usada somente como recurso estrutural e militar básico, de valor muito diminuto, tornou-se, a partir de determinado ponto, um recurso muito mais valioso, particularmente algumas espécies da mesma, aquando do seu uso para fabrico do vidro. Tipicamente vista como aquilo que não tem qualquer valor, a areia permite precisamente a ocorrência dessa matéria tão fundamental para a vida humana desde há milénios e cuja importância não tem de todo diminuído, antes pelo contrário. Calculamos que um homem pré-histórico não fosse de todo capaz de olhar para uma matéria aparentemente tão trivial e imaginar que fosse possível através dela criar uma outra completamente diferente e com tantas e tão úteis valências. É bom lembrar que também nós, e qualquer pessoa em qualquer ponto do tempo e espaço, pode estar perante tal situação: olhar para matérias completamente inúteis e não fazer a mínima ideia das valências que daí podem ser futuramente extraídas, conforme desenvolvimento da tecnologia adequada e possibilidade física.

Por último, e saindo do reino dos exemplos concretos, cremos importante formular a questão de modo inteiramente lígico e abstracto, sendo isto nada injusto, já que os defensores das teses dos “recursos finitos” fazem exactamente o mesmo tipo de exercício. Colocando assim a questão em termos matemáticos relativamente acessíveis, ficamos com a seguinte fórmula: se a evolução e melhoramento do rácio entre quantidade do recurso natural em questao e o aproveitamento que do mesmo se faz, seja esse energético ou de outro tipo, for superior a velocidade com que o consumimos, então, na prática, e por muito estranho e contra intuitivo que possa parecer, trata-se de um recurso infinito. Em parte foi isto que sucedeu com o óleo de baleia; em parte, também, é isso que possivelmente estará a acontecer com os combustíveis fósseis, cujos índices de eficiência energética melhoraram significativamente desde a sua incepção; além disso, não conhecemos a quantidade de cada um destes recursos, nem é certo que alguma vez a conheçamos ao certo, sendo o mais provável, de acordo com a história, que acabemos por espontaneamente os substituir por outros, por mera contingência do desenvolvimento tecnológico, antes de termos qualquer noção definitiva sobre as suas quantidades.

Adam and Eve in paradise (The Fall): Eve gives Adam the forbidden fruit, by Lucas Cranach the Elder, 1533

Sugerimos assim que todos os adeptos de teorias catastrofistas de esgotamento dos recursos, alicerçadas aliás em mundivisões culturais e religiosas muito mais antigas, que concebem o homem como um invasor na criação pós-adâmica, pós-jardim-do-éden, pensem, em primeiro lugar, nas raízes culturais profunda desse tipo de medos; e, em segundo lugar, nas relações entre homem e natureza como relações dinâmicas e não estáticas, e seguramente não facilmente redutíveis a sistemas que façam meramente a quantificação dos recursos existentes num dado ponto do tempo e do espaço, como se esse determinado ponto correspondesse ao princípio e ao fim do mundo. As coisas não são assim.

Cremos ter apresentado com suficiente rigor as linhas gerais deste argumento contra-intuitivo mas convicente, que prova tanto como não conhecemos a quantidade finita de quase nenhum recurso com precisão como também que não é previsível a evolução dos rácios de aproveitamento que fazemos desses mesmos recursos. Talvez o facto mais sólido que nos aponta como o argumento não é, de todo, fantasioso, seja o facto histórico de que, até hoje, na história registada da humanidade, não há memória de nenhum “recurso natural” de larga escala que tenha ficado extinto. Caso tal venha a acontecer, o que é improvável, teríamos de colocar alguns entraves nesta espécie de teoria aqui formulada, de raiz naturalista, em que decorre uma auto-gestão das relações entre sociedades humanas e o seu meio-ambiente, quer a nível local quer a nível global. Mas, até tal acontecer, mantém-se a tese: os recursos naturais do planeta são, não na teoria mas na prática, infinitos.

Conversa: Educação, Ser e o Futuro com Rui Caria

Conversa de Ana Vieira Vicente com Rui Caria, docente da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, sobre o modelo universitário vigente, a educação vocacional e a educação crítica, e o futuro da profissão.

Rei Édipo: do Texto Clássico ao Questionamento Pós-Moderno

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Uma leitura não necessariamente freudiana da peça de Sófocles atendendo à transformação da psique do herói de ontem na mente de hoje. Texto de Ricardo Boléo. Licenciado em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Mestre em Teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa. Imagem: A depiction of Oedipus and the sphinx, taken from an Attic kylix produced by an artist known to modern scholars as ‘Painter of Oedipus’.

A tragédia Rei Édipo foi escrita por Sófocles por volta de 427 a. C. e considerada por Aristóteles o exemplo mais perfeito de tragédia, sendo uma das poucas que aplica meticulosamente a lei das três unidades, como veremos – cânone inviolável para os dramaturgos franceses do século XVII. Muitos pensadores e teóricos escreveram e apontaram as suas leituras sobre a tragédia de Sófocles, porém depois do século XX, escrever seja o que for acerca da tragédia Rei Édipo de Sófocles sem se falar de Sigmund Freud tornou-se algo quase incontornável depois de este ter revolucionou, através da psicanálise, o entendimento da psique humana, abordando questões do consciente e principalmente do inconsciente. Munido de leituras diversas e de teorias novas e revolucionárias na matéria, Freud ao ler Rei Édipo formulou a partir deste uma teoria a que deu o nome de Complexo de Édipo, definindo-a como a fase em que a criança atinge o período sexual fálico e se dá conta da diferença de sexos tendendo a fixar a sua atenção libidinosa nas pessoas do sexo oposto dentro do seio familiar. Além do incesto, na definição do mesmo complexo o neurologista austríaco afirma também que é através dele que surge o aparecimento de toda a obra de arte.

Paralelamente a esta leitura de Freud ao Rei Édipo há muitas outras que serão possíveis pela qualidade literária desta tragédia. Sendo assim, creio ser exequível abordar-se o tema tendo como foco para a leitura e análise o período histórico em que o texto foi escrito. Isto porque uma das hipóteses de leitura para a Grécia daquele tempo assenta na possibilidade de que esta se inseria no período de transição em que o pensamento mítico se encontrava já deslocado e o pensamento racional ainda não completamente assimilado. Se, pela História, sabemos que isto é de uma incrível importância ao nível da definição e aplicação prática de um regime democrático (assim como do poder jurídico), é também um ponto de partida interessantíssimo (e quiçá ponto de chegada) para compreendermos algumas definições do pensamento contemporâneo ou pós-moderno. Oedipus

Comecemos pelo ponto que creio ser mais fácil de granjear consenso. A questão da figura de Édipo (Οἰδίπους) se tornar juiz durante a investigação criminal, que é toda a tragédia, buscando um criminoso e tentando identificar um crime, transporta-nos para o clima de tribunal do mundo contemporâneo ocidental. Mais importante que isto será o facto de o juiz ser um homem e não mais os deuses os tutores incontornáveis e inegáveis da lei. Posto isto, aparece a figura da primeira testemunha da História, o escravo que vem confirmar quem Édipo é. Anteriormente a palavra de um deus, neste caso Apolo, teria sido suficiente para a confirmação da identidade do filho de Jocasta. A instalação da democracia aliada ao pensamento racional leva a que a introdução de testemunhas para a confirmação da palavra de Apolo[1]seja necessária. O escravo, além de confirmar os factos, fala a Édipo dos pés amarrados; este liga-os irremediavelmente às marcas que tem nos seus próprios pés[2], fazendo com que a palavra de uma testemunha, indicando uma prova palpável, leve Édipo ao reconhecimento de si próprio (pois só se havia colocado no lugar de juiz por não ter conhecimento de si)[3].

Esta conjuntura leva a crer que o homem grego passe a ver-se como um cidadão que tem leis feitas por si para os homens e não as leis divinas apenas por autoridade. Do ponto de vista desse homem, a sociedade dividia-se muito claramente por cidadãos que participavam da vida política, jurídica e até artística (além da religiosa) de Atenas; na escala hierárquica viriam depois as mulheres e crianças e só depois aqueles que não tinham qualquer importância socialmente, os escravos. Existiam ainda homens expulsos e escravos libertos que não tinham qualquer relevância, do ponto de vista do cidadão grego, para a vida da cidade.

A tragédia em questão pode ser definida através da ideia de um conflito entre personagens e/ou o conflito interior da própria personagem[4]. O caso de Édipo supõe que esteja em conflito consigo mesmo. Isto leva a que se dê um caso raríssimo e de grande genialidade dramática: Édipo é simultaneamente protagonista e antagonista[5], é descobridor e objecto da descoberta[6]. A partir desta interpretação há possibilidade para se fazer ponte com o pensamento contemporâneo, na medida em que o filho de Jocasta é o protótipo do indivíduo que se desconhece (desconhece também a sua origem, a sua força, etc.). Este modo de pensar entronca na psicanálise freudiana e pode-se dizer que é um pensamento icónico da pós-modernidade.

A mitologia dilui-se na tessitura da tragédia em apreço e ajuda a levantar questões em torno da humanidade do protagonista, provocando tensões e ambiguidades. É também nestes momentos trágicos que o homem se coloca perante o homem e se codifica: tenhamos em conta o nome de variadíssimas teorias psicanalíticas que foram beber à fonte da tragédia grega e lhe devem algumas das suas conclusões. Detenhamo-nos novamente no texto clássico propriamente dito.

A VOZ. Matará o pai. Casar-se-á com a mãe.

Oedipus and Antigone, 1812, Christian Wilhelm Eckersberg

Édipo tenta fugir à sina lida pelo Oráculo e acaba irremediavelmente por cumprir o seu destino de matar o pai e casar-se com a mãe, tendo filhos com ela, constituindo uma prole. O parricídio e o incesto não correspondem ao carácter de Édipo, nem a uma falta moral (adikia) que tivesse cometido. Em relação a Mérope e Pólibo – que julga serem os seus verdadeiros pais – nutre sentimentos de ternura real. Édipo é vítima de uma maldição divina tão desfundamentada, tal como os heróis que gozam de protecção dos deuses noutras lendas[7]. Mas é este cumprir do destino que origina a peste que assola a cidade, uma peste que, além de metamorfosear o imponderável, aquilo que se não controla e que é originado pela arrogância do pensamento, torna Édipo culpado por cada uma das mortes das vítimas. Assim é Édipo, o homem que não se conhece e que continua numa incessante busca por um crime e um criminoso, que não se quer aceitar como culpado e originador da peste. Esta culpa é referida por Tirésias, o famoso profeta cego de Tebas, não sendo aceite por Édipo; Tirésias simboliza o pensamento mítico tão desprezado por Édipo. De acordo com atradição mitológica[8], Tirésias passou sete anos transformado em mulher pelo que a sua figura por si só é uma personificação de um ser incrivelmente uno que consegue reunir o masculino e o feminino. Tirésias é também uma antítese de Édipo: é um cego que sabe, que vê e Édipo é um homem que não consegue descortinar dados além da sua arrogância e raciocínio lógico. É aqui introduzida, pela primeira vez na História da Literatura, a metáfora da cegueira. Esta sequência de eventos leva Édipo a querer cegar-se[9] – com um alfinete de ouro arrancado à túnica de Jocasta que acabava de se suicidar[10] – num momento em que adquire finalmente conhecimento de si próprio e da dimensão da sua pequenez. A tragédia passa então a decorrer na consciência que assiste a este processo de desocultação, numa transição do desconhecido para o conhecido. A ironia e o erro sustentam-se neste processo de desocultação: a tragédia representa um momento de incomensurável verdade, só no risco da aceitação do saber (que pode ser magnífico ou terrível, dependendo do uso que se lhe dá, e não se sabendo de antemão a que conduz um saber sem que se o tenha experimentado) se mostra o destino.

Mas este ímpeto (ou vontade) de Édipo de assumir a responsabilidade da decisão de se cegar representa, na verdade, uma tensão dramática constituída pela questão ethos-daimon: só depois de se mutilar Édipo tem consciência de que aquele acto foi provocado por um daimon (δαίμων)[11] tal como o coro anuncia[12]: o homem pode sempre fazer as suas próprias escolhas mas essas forças que as impulsionam estão sempre presentes como característica ambígua da vontade do homem, como o é a escolha e o que advém dela. Um dos mais importantes ensinamentos da tragédia é a “aprendizagem pelo sofrimento”[13]; no entanto, em Sófocles e em particular em Rei Édipo é a experiência de ver sofrer o outro que pode determinar a aprendizagem verdadeira.

Quando iniciei o texto, dizendo que o foco de leitura que queria dar a esta tragédia era outro que não o tratamento convencional de Freud, referi também que, depois da leitura do psicanalista, era impossível contornar a interpretação freudiana, assim como leituras e teorias posteriores estariam irremediavelmente circunscritas a esta visão psicológica de leitura ao trágico. Posto isto, tudo o que referi até aqui e que vai constituindo uma visão geral do Rei Édipo, leva-me a ponto de grande interesse, já referido, embora não explorado. Atentemos no seguinte excerto.

ESFINGE. Interrogá-lo-ei. Interrogá-lo-ei… Está bem. (com um último sinal de surpresa para Anubis.) Qual o animal que anda de quatro patas pela manhã, em duas ao meio-dia, em três à noite?…

ÉDIPO. O homem, ora essa. O homem que gatinha de quatro patas quando é pequeno, que anda nos dois pés quando é grande, e que quando fica velho se apoia na terceira pata de um cajado. (A ESFINGE rola no soco.) Vencedor! (Sai pela direita. A ESFINGE escorrega na coluna, desaparece atrás do muro, reaparece sem asas.)

ESFINGE. Édipo. Onde está ele? Onde está ele?

Recordemos a Esfinge, que aterrorizava Tebas. Numa primeira análise, estabeleçamos que com Édipo deslindando o mistério da Esfinge se acabam os segredos e relacionemos isso também com o final dos segredos da vida de Édipo que descobre quem é e de onde vem. De seguida, lembremos um poema de Mário de Sá-Carneiro, poeta modernista português, que diz “sou esfinge sem mistério no poente” que é também o sentimento que se apodera de Édipo no sentido em que todas as suas dúvidas são dissipadas e até consegue derrotar a Esfinge[14]; esta, sendo a portadora dos mistérios mais difíceis de solucionar, acaba por ficar também ela sem segredos para Édipo[15]. Em segundo lugar, o mistério que Édipo deslinda é um espelho de si próprio[16] e também a certeza que o homem pós-moderno tem: o homem tem a vida para viver. Das experiências e vivências que o homem tem, transforma o seu pensamento podendo multiplicar-se em inúmeras personalidades pensantes. Édipo, racional, deslinda o mistério. O mistério é uma mensagem subliminar: às vezes as respostas mais óbvias são as mais difíceis de encontrar. Aqui pode ser referida também a ambiguidade da condição humana personificada pela Esfinge; ao mesmo tempo, um véu se levanta porque a única coisa que Édipo sabia antes do seu encontro com a Esfinge é que todos os enigmas são enigmas do homem e, portanto, o próprio homem deverá ser a resposta a todos os enigmas. Mas o erro de Édipo vem sendo cometido por todos os séculos seguintes: Édipo pensou que a fórmula era a solução e representava apenas uma dificuldade: os monstros voltam sempre e portanto a Esfinge não é um enigma resolvido[17].

Tendo sido escrita no período de transição entre o pensamento mítico, não lógico, e a racionalidade, Rei Édipo torna-se numa obra em que o conflito entre essas duas formas de pensar se apresenta de uma forma muito clara: a tragédia de Sófocles anuncia a catástrofe do domínio da racionalidade. Uma das tensões dramáticas é originada pelo conflito de Édipo com os deuses, pelo excesso de arrogância (hybris) e pelo uso que faz da razão: esta é uma das forças geradoras da tragédia: o indivíduo imagina-se superior aos deuses, como se a razão fosse o caminho para a resolução de todos os problemas do âmbito humano. Daqui é possível fazer-se uma ponte com o modo de pensar actual na medida em que o pensamento lógico racional tem vindo a ser desconstruído cada vez mais. Édipo compreende no desenrolar da tragédia que sabe muito pouco; em paralelo é isto que apredemos hoje diante de circunstâncias diferentes. Ao tomar conhecimento de si, Édipo tem a sabedoria[18] do homem que é apto a reconhecer a sua própria figura no outro, espelhando-se num único vínculo que unifica todos os homens num mesmo e incerto destino.

Sófocles escreve este herói como modelo da condição humana e é através da antecipação da catástrofe da racionalidade que dá à comunidade que recebe a sua obra uma espécie de “aviso” que se reproduz nas gerações vindouras. Hoje estamos a desconstruir esse pensamento que superioriza a razão e contemplamos retrospectivamente a tragédia que prenunciava esse efeito como detentora de respostas. Em alternativa, teremos de perguntar-nos algo que em nenhum outro período foi tão pertinente: seria o homem grego, trágico, semelhante em questionamento e visão de mundo ao homem pós-moderno? Talvez nunca saibamos a resposta, talvez a pergunta seja apenas uma plataforma que permitirá encontrar novas respostas para outros enigmas, assim como o foi a resposta de Édipo. Teremos sempre de ter em conta que a narrativa dramática deverá permanecer aberta a novas e diversas interpretações e que Rei Édipo tenha podido, através da História do Pensamento Ocidental, adquirir novos sentidos à medida que a questão da ambiguidade no homem se foi deslocando e reposicionando em termos distintos daqueles que o enigma da existência humana entendia como paradigmáticos para os trágicos gregos.

Bibliografia

ARISTÓTELES. Poética. Lisboa: F. C. Gulbenkian, 2004;

COCTEAU, Jean. A Máquina Infernal. Petrópolis: Editora Vozes, 1967;

FREUD, Sigmund. Da Interpretação dos Sonhos. Lisboa: Relógio d’Água, 2006;

GRAVES, Robert. Os Mitos Gregos. Lisboa: Edições Dom Quixote, 1990;

LOURENÇO, Eduardo. Esfinge ou a Poesia. In Tempo e Poesia. Lisboa: Relógio d’Água, 1987;

NIETZSCHE, Friedrich. Origem da Tragédia. Lisboa: Edições Europa-América, 2005;

REINHARDT, Karl. Sófocles. Brasília: UnB – Editora Universidade de Brasília, 2007;

SÁ-CARNEIRO, Mário. Poemas. Lisboa: Relógio d’Água, 2003;

SILVA, Maria de Fátima. Poeta, Criação e Público. A Noção de Trágico nos Criadores Teatrais Atenienses. In O Trágico. Coimbra: Centro de Literatura Portuguesa, 2010;

SÓFOCLES. Rei Édipo. Trad. de Jorge Silva Melo. Lisboa: Bicho do Mato, 2010.

  1. Os deuses sabem e dizem sempre a verdade mas exprimem-na em palavras que, para os homens, parecem querer dizer outra coisa. Há uma dupla dimensão na linguagem dos deuses, tal como há uma dupla dimensão na visão de Tirésias. Seria necessário que Édipo tivesse o dom da dupla escuta para que pudesse resolver automaticamente todos os enigmas.
  2. Para que a profecia do Oráculo de Apolo não se cumprisse, Jocasta, a rainha de Tebas, abandona o filho na montanha com os pés furados e atados.
  3. “O indivíduo visado pela desgraça não deve ser nem bom – porque se o mal atingir um homem bom, em vez de temor e piedade, provoca repugnância – , nem mau – porque que a felicidade sobrevenha a quem é mau é a situação mais contrária à essência da tragédia; se é a desgraça que o atinge, alguma emoção despertará, mas não o temor e a piedade.”, Maria de Fátima Silva
  4. O ideal de herói trágico será aquele que não é particularmente virtuoso nem perverso, mas vítima do seu próprio erro ou fragilidade humana.
  5. “Deve ver-se a ilusão e a verdade enquanto forças antagonistas que condicionam o homem e o prendem, mal pensa poder atingir a mais alta esperança, ei-lo derrotado e caído por terra.”, Karl Reinhardt
  6. “É o médico que, para falar do mal que atinge a cidade, utiliza um vocabulário médico, mas também o doente e a doença.”, Jean-Pierre Vernant, Pierre Vidal-Nacquet
  7. “A sua mácula, o seu ágos, não é mais do que o reverso do poder sobrenatural que se concentrou nele para o perder.”, Jean-Pierre Vernant, Pierre Vidal-Nacquet
  8. A teoria seria a de que quem visualizasse o acasalamento das cobras seria punido com a “doença da fêmea” (Heródoto), ou seja, a homossexualidade.
  9. A cegueira de Édipo tem sido interpretada pelos psicanalistas como sinal de castração, embora os gramáticos gregos a tivessem interpretado como eufemismo para a impotência.
  10. Robert Graves assinala que o suicídio de Jocasta por enforcamento será provavelmente falso e que o mais certo é que tenha saltado de um rochedo tal como a Esfinge.
  11. As Fúrias personificam a consciência embora, neste caso, num sentido muito limitado: derivando apenas da infracção de um tabu em torno da mãe.
  12. Quando a trágica verdade é esclarecida, vem um mensageiro anunciar a cegueira de Édipo e o suicídio de Jocasta, sua mãe.
  13. Enunciada pelo Coro de Agamémnon
  14. A Esfinge acaba por se suicidar, assim como o faria depois a sua sacerdotisa Jocasta.
  15. Nietzsche escreve n’A Origem da Tragédia que o mito de Édipo parece de facto indicar é que qualquer pessoa que, através do seu conhecimento, lance a natureza para o abismo da destruição, terá de experimentar a dissolução da natureza.
  16. “Identificando-se simultaneamente com os seus jovens filhos e com o seu velho pai, Édipo, o homem de dois pés, apaga as fronteiras que devem manter o pai rigorosamente afastado dos filhos e do antepassado, para que cada geração humana ocupe, ao longo do tempo e na ordem da cidade, o lugar que lhe compete”, Jean-Pierre Vernant, Pierre Vidal-Nacquet
  17. “Impossível aceitar como Édipo que tudo está feito só porque descobrimos a fórmula que permite que tudo se faça.”, Eduardo Lourenço
  18. Esta sabedoria advém da compaixão que o conhecimento prévio da história de vida de Édipo lhe suscita.

Sugestões: Excelentes Documentários sobre Economia

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Recomendamos hoje várias obras documentais, de audiovisual, sobre filosofia económicas. É difícil navegar a oferta dentro desse mundo, pois abundam entradas do género alarmista, programático, catastrofista: análises histéricas às “crises do capitalismo”, abordagens beatas e moralistas ao pecado da dívida, teorias da conspiração sobre bancos mundiais e controle da população, etc. Tentemos manter os pés na terra e sugerir algumas obras perfeitamente lúcidas, acessíveis ao público em geral e até optimistas. É possível que alguns destas sugestões não o sejam inteiramente, mas confiamos na inteligência dos leitores para, caso necessário, darem o devido desconto e aproveitarem o que cada uma tem de bom e de válido. Mas estas são seguramente escolhas acima da média: se verificarem a seguinte lista de documentários contemporâneos sobre o tema, contemplarão exactamente o tom sensacionalista, alarmista, descontrolado e sem juízo crítico e histórico sério que infelizmente domina o panorama do género.

Começamos com Poverty, Inc., de 2010, de Michael Matheson Miller, produzido pelo centro de estudos liberal Action Institute. Aborda, de modo exótico em relação às abordagens mais comuns, o papel da indústria do assistencialismo económico, exercido maioritariamente pelos países desenvolvidos do hemisfério norte em relação aos países sub-desenvolvidos do hemisfério sul, em particular as dinâmicas de poder, de vício e dependência, a que esses mesmos países e povos são sujeitos, frequentemente prendendo-as em ciclos de que nunca se conseguem libertar e que, em parte, e de múltiplas e discretas maneiras, beneficiam os emissores dessa caridade institucionalizada, mais do que os receptores. É uma espécie de narrativa de neo-colonialismo aplicada à abordagem paternalista do mundo desenvolvido ao resto do planeta. Podem encontrá-lo aqui em várias plataformas pagas.

Seguimos com Heaven on Earth: The Rise and Fall of Socialism (2005), um documentário da PBS que retrata a ascensão e queda das experiências do século XX em larga escala que pretenderam dar corpo às ideias de Karl Marx sobre a sociedade ideal. Dividida em três capítulos, a peça começa mesmo no socialismo utópico, nas suas raízes no século XIX, o corpo teórico e político desenvolvido posteriormente por Marx e Friderich Engels, e os inícios do movimento de emancipação e direitos operários. No segundo capítuo, passamos para as revoluções políticas de várias variantes do socialismo no início do século XX: a bolchevique, a de Mussolini, a expansão do comunismo chinês. Versões mais leves deste ideário são também encontradas no socialismo britânico, nos kibbutz israelitas e em alguns países de África. Todas estas experiências foram largamente falhadas. Por último, abordam-se os explícitos e inegáveis colapsos em grande escala de todas essas experiências, nomeadamente a da URSS, a transformação da China, e o triunfo do modelo democrático liberal a que Francis Fukuyama chamou “o fim da história”. Podem ter o prazer de assistir ao documentário completo aqui.

Depois, temos uma das obras mais sólidas e mais populares na sistematização e divulgação dos princípios do liberalismo económico, com um excelente trabalho na explicação dos seus sucessos. Free to Choose, do economista Milton Friedman, produzido também pela PBS em 1980, consiste numa obra literária e numa série televisiva de dez episódios com um argumento forte e muito optimista quanto à capacidade dos mercados económicos, ou seja, da livre iniciativa das pessoas, para se auto-regularem e constituírem a base mais poderosa conhecida para a riqueza económica e a sua distribuição. É importante notar que o argumento de liberais como Friedman nunca é que o liberalismo económico é um sistema perfeito, mas simplesmente que, conforme os dados históricos indicam, é de longe o modelo económico com maior probabilidade de trazer prosperidade ao maior número de pessoas possível. A série completa pode ser assistida nesta ligação.

Continuamos com Capitalisme, série documental em seis partes produzida pelo canal Arte e tutelada por Ilan Ziv, em 2014, que empreende uma leitura histórica abrangente da ideologia económica a que hoje, e desde há dois ou três séculos, chamamos de capitalismo. Começando com as raízes do comércio livre na fase inicial da globalização, depois com o corpo teórico de Adam Smith, continuando com David Ricardo e Thomas Malthus, a critica de Marx, o debate entre Keynes e Hayek, e a tentaiva de reintegração entre moral secular e economia de Polanyi. Mais uma vez, a série está disponível na íntegra para ser assistida online na seguinte ligação.

Seguimos com a ia homenagem não só necessária mas mesmo imprescindível a um dos sistemas económicos mais populares de hoje e desde há quase oito décadas: a social-democracia. Em Social Democracy In Denmark, de 2014, de Lance Soler, empreende-se uma viagem ao sistema social de um dos países nórdicos tão afamados pela suposta implementação irrepreensível, e com grande unanimidade entre a população, do sistema social-democrata. Podem assistir ao documentário na seguinte plataforma paga.

De seguida, uma reportagem de trinta minutos também da CBS, Speaking Frankly: Socialism, de 2020, sobre o pesadelo totalitário de muitos regimes no presente considerados socialistas como Cuba, Venezuela, Coreia do Norte, entre outros. Apesar de baseados numa ideologia tentativamente igualitária, com grande frequência, facilidade e estrondo caem num charco de pobreza, de corrupção, de opressão policial e estatal, e de ausência de liberdades básicas a que a resposta dos serviços públicos em termos de habitação, saúde, educação e alimentação, por se situar no âmbito da pobreza e da corrupção, não consegue compensar, substanciando como se tratam de sistemas falhados. Podem ver o documentário aqui.

Seguimos com Masters of Money, de 2012, produzido pela BBC, em três episódios, cada um deles dedicado a um economista titã na paisagem intelectual moderna: no caso, John Maynard Keynes, Friederich Hayek e Karl Marx. O primeiro como pioneiro de macroeconomia, partidário de intervenção estatal e políticas redistributivas; o segundo, pai da escola austríaca de neoliberalismo económico, apiante do mercado livre e desconfiado de iniciativas do poder central; e o último, lendário crítico do capitalismo através da lente do materialismo histórico, sistematizador inigualável, se bem que imperfeito, desse modelo económico, e proponente de uma altenrativa política ousada e utópica. É mais um conteúdo que está disponível gratuitamente online; podem começar com o primeiro episódio aqui.

Por último, Money as Debt, do canadiano Paul Grignon, de 2006, aborda como os sistemas de criação de dinheiro dos estados modernos podem assentar, em parte, em esquemas de pirâmide e como as emissões de dívida pela parte dos estados acabam por ser uma maneira de políticos em busca do voto resolverem superficialmente problemas materiais e empurrarem as dificuldades para o futuro. Podem visualizar o documentário completo aqui.

Edward Said: Democracia e Humanismo em Estado de Crítica Permanente

O presente texto tem como objetivo traçar um breve panorama das formas de acepção do conceito de humanismo na obra de Edward Said, intelectual palestino fora do lugar, autodenominado humanista pós-colonial e crítico do humanismo. Para isso, empreende esforço em investigar o conceito de “leitura em contraponto”, instrumento analítico proposto no interior de sua obra. Tal aspecto do pensamento de Said é extremamente complexo, pelo fato de tensionar aparentes contradições com a postura de enfrentamento da cultura imperialista ocidental, identificada em suas obras mais celebradas: Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente (1978) e Cultura e Imperialismo (1993). O artigo se propõe a discutir, ainda, o papel da democracia na crítica humanista proposta por Said. Palavras-chave: Edward Said; Humanismo crítico; Pós-colonialismo; Democracia. Texto de Francisco Chagas de Oliveira, Francisco Oliveira, Professor SGAS 906 – Conjunto F – W5 – Asa Sul, Brasília – DF, Brasil. Currículo aqui. Imagem: Painting of scholars in an Abbasid library by Yahya al-Wasiti, 1237.

INTRODUÇÃO

A produção acadêmica de Edward Said está situada sob o signo de uma originalidade ímpar nos quadros da Teoria Social. Essa singularidade manifesta-se, sobretudo, em seu entendimento de que as dimensões da cultura e da política constituem espaços nos quais as identidades se estruturam a partir de uma lógica dialética. Ou seja, ao estarem inevitavelmente interconectadas, as identidades apresentam-se como realidades que podem revelar-se simultaneamente de afirmação ou negação de unidades interpretativas, essenciais à continuidade das distinções presentes na paisagem do discurso conflituoso entre Oriente e Ocidente.

Nascido na cidade de Jerusalém, em 1935, contexto da hegemonia britânica sobre os territórios do Oriente Médio por intermédio da Liga das Nações, Edward Said possui uma trajetória intelectual indistinta de sua biografia. Sua família é formada no âmago de uma dinâmica de desterro ocasionada, principalmente, pelas tensões diplomáticas europeias pós-I Guerra Mundial, da incessante crise política nos Balcãs no período Entreguerras e da I Guerra árabe-israelense (1948-1949). Ao transferir-se do Cairo para os Estados Unidos em 1948, Said desenvolveu uma carreira acadêmica de ascensão impressionante, passando por universidades americanas de grande renome internacional tais como, Princeton, Harvard, John Hopkins, Yale e Columbia, essa última onde inicia sua carreira de professor de literatura em 1963.(BASSI, 2016, p. 31).

Destarte, feitas estas considerações iniciais, sobre as quais é necessária uma reflexão atenta para uma melhor compreensão da montagem e estrutura assumidas pelas ideias do autor em evidência, cabe destacar que é extremamente difícil, quando não, impossível, compreender a profundidade do projeto intelectual de Said. O autor faz uma projeção bastante peculiar sobre a realidade e ancora sua gênese no desenraizamento físico e geográfico e no exílio intelectual, para se autonomear como “fora do lugar”, sem considerar sua própria biografia e ativismo político atrelado à questão palestina.

Ao remontar as ideias do intelectual italiano marxista Antonio Gramsci, presentes no escrito Cadernos do Cárcere, Said indica que sua atitude perante o mundo advém da concepção gramsciniana de que são os intelectuais, e não as classes sociais, que representam o núcleo fundamental do funcionamento da sociedade moderna, tanto que são convertidos ao longo do século XX em objeto de estudo. Nas palavras de Said, os intelectuais têm sido os pais e as mães dos movimentos, pois:

Além dos milhares de diferentes estudos históricos e sociológicos de intelectuais, há também intermináveis relatos sobre os intelectuais e o nacionalismo, e o poder, e a tradição, e a revolução, e por aí afora. Cada região do mundo produziu seus intelectuais, e cada uma dessas formações é debatida e argumentada com uma paixão ardente. Não houve nenhuma grande revolução na história moderna sem intelectuais; de modo inverso, não houve nenhum grande movimento contrarrevolucionário sem intelectuais. (SAID, 2005, p. 25)

Nesse sentido, ao considerar o pressuposto de que Edward Said enxerga sua produção e atitude como possíveis fontes de transformação real para o mundo, tento trazer a lume em que termos, e sob quais circunstâncias, a crítica elaborada pelo pensamento exilado de Said ao discurso ocidental sobre o Oriente, assume perspectiva humanista a partir do questionamento do humanismo europeu tradicional. Crítica essa que encontraria possibilidades reais de aplicação através da utilização da ferramenta analítica designada como contrapontual reading (leitura em contraponto). A ferramenta lança um novo olhar sobre mundo literário por meio da elaboração e reelaboração contínua de um novo humanismo que tentar desconstruir estereótipos, preconceitos e a xenofobia difundidos no imaginário ocidental em relação ao mundo oriental.

Para efeito de análise, considero neste escrito, em consonância com Marcos Costa Lima (2021), que o núcleo do pensamento de Edward Said, encontra-se proeminentemente em suas obras mais celebradas: Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente (1978) e Cultura e Imperialismo (1993), publicações nas quais, talvez, esteja mais evidente sua orientação para o questionamento das concepções científicas e filosóficas de caráter dogmático. Nestas obras Said também tenta desvelar os modelos normativos que controlam suas formulações, ao partir de uma postura de enfrentamento do que, segundo ele, seria a cultura imperialista ocidental.

A partir deste trabalho procuro demonstrar qual o papel desempenhado pelo conceito de democracia no interior da crítica humanista de Said. Tento responder de forma breve – sem a pretensão de exaurir o tema e atendendo ao espaço e limitações impostas pela extensão da qual disponho – a questionamentos e angústias surgidas ao longo da leitura da bibliografia aqui referenciada.

Este escrito constitui também minha primeira tentativa de compreender a produção acadêmica e a militância política de Edward Said como elementos carregados de um simbolismo extremamente significativo para o campo dos estudos fora das categorias de análises eurocêntricas, dado que Said ainda é o crítico palestino alinhado ao pensamento pós-colonial de maior projeção e reconhecimento no mercado acadêmico internacional. Ele foi responsável pela audaciosa sugestão de que a reinterpretação do mundo oriental por parte do Ocidente não é uma questão meramente circunscrita aos muros das universidades e à ruminação intelectual fria, mas está também ligada às formas de dominação cultural e política que são exercidas pelas comunidades imaginadas do Oeste às comunidades imaginadas do Leste.

Do Combate ao essencialismo à crítica humanista permanente: Exílio e leitura em contraponto

Norbert Elias, em sua clássica obra O Processo civilizador (1990), nos revela a ideia de que o conceito de civilização trata-se de uma construção discursiva que se traduz também em práticas cotidianas cuja função seria a de expressar a consciência que o Ocidente tem de si mesmo. Essa consciência, construída por intermédio de ficções semânticas calcadas em tradições inventadas no seio das comunidades nacionais, seria capaz de sintetizar um sentimento de superioridade cultural. Na concepção de Elias, a palavra civilização procura descrever, para a sociedade ocidental, “o que lhe constitui o caráter especial e aquilo de que se orgulhar; o nível de sua tecnologia, a natureza de suas maneiras, o desenvolvimento de sua cultura científica ou visão de mundo e muito mais”. (p. 23)

Karl Mannhein, ao refletir sobre a existência e modos de pensamento particulares, entende que, enquanto permanecerem obscuras as origens sociais destas categorias interpretativas e visões de mundo estruturadas a partir de relações calcadas no mundo real e não forem consideradas as formas históricas concretas pelas quais esse universo foi formado, esse pensamento continuará obscuro. Mannhein parte da tese de que:

Os indivíduos reunidos em grupos forcejam, segundo o caráter e a posição dos grupos a que pertencem, por modificar o mundo circundante da natureza e da sociedade, ou procuram perpetuá-lo em uma dada condição. É a direção dessa vontade de mudar ou conservar, dessa atividade coletiva que fornece o fio orientador ligado ao aparecimento de seus problemas, conceitos e suas formas de pensamento. (FERNANDES, 1989, p. 98)

Ao remontar as ideias de Elias e Mannheim no que concerne, respectivamente, ao conceito de civilização e aos postulados da Sociologia do Conhecimento, procuro esclarecer o fato de que a teoria de Said sobre a estruturação do imaginário ocidental sobre o Oriente não representa um trabalho ausente de rigor científico, como sugerem alguns de seus críticos mais ríspidos, tais como Bernard Lewis, William Montgomery Watt e Clive Dewey. (BASSI, 2021, p. 145)

Said, em sua crítica literária, parte do pressuposto de que o Oriente não é um fato da natureza por si só. Assim como o Ocidente, constitui aquilo que, segundo Vico, simboliza a teatralização do movimento histórico que os agentes sociais elaboram ao longo de sua formação enquanto povo. Logo na introdução de sua obra Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente (1978), o autor deixa claro que culturas e histórias não podem ser estudadas sem que sua capacidade de influenciar leituras e releituras sobre o mundo -, ou mais precisamente a sua configuração de poder simbólico, que adentra com força de dominação o mundo concreto- seja também analisada (SAID, 1990, p. 17). A essa ideologia disseminada por intermédio das interpretações elaboradas sobre as categorias que existem como fontes de conhecimento sobre o Oriente, Said chama de Orientalismo.

Yumna Siddiqi sugere que Edward Said identifica uma estrutura de referência que se trata, na verdade, de uma estrutura de self-referential (autoreferência), na qual autores ocidentais, que imaginam conhecer o Oriente, expressam esse conhecimento por intermédio da reprodução de ideias de outros ocidentalistas que não tiveram experiência empírica suficientemente sólida com a cultura dos povos do Leste do globo. Esse fenômeno, ignorado por boa parte da intelectualidade ocidental, foi responsável, segundo Said, pela montagem e continuidade do provimento de força motriz de um discurso de “verdade” sobre o Oriente, fundamentado em uma autoridade discursiva reivindicada de forma unilateral por escritores, intelectuais e artistas do Ocidente. Siddiqi (2005, p. 66), então, vai além em sua análise e corrobora com as ideias de Said ao afirmar que essa produção orientalista de conhecimento não foi meramente um exercício conceitual; teve efeitos materiais de longo alcance e profundos porque se tornou a base da política imperial”. (tradução nossa).

Nesse ponto, faz-se necessária uma relfexão sobre as bases da crítica elaborada por Edward Said para que possamos, de fato, apreender o seu pensamento em sua raiz. Ao defender a ideia de que

Em nossa época, o colonialismo direto se extinguiu em boa medida; o imperialismo […] sobrevive onde sempre existiu, numa espécie de esfera cultural geral, bem como em determinadas práticas políticas, ideológicas, econômicas e sociais. (SAID, 2012, p.40)

Quando Said defende esta ideia, está alinhado a uma vertente analítica pós-colonial que pressupõe existir uma dominação concreta exercida pelas comunidades imaginadas do Oeste sobre o Oriente. Essa dominação se inicia no plano do discurso, mas não constitui uma simples estrutura de mentiras ou mitos criados sobre estes povos. Ou seja, Said reafirma sua tese de que há uma força nua e sólida do discurso orientalista, que é, antes de tudo, um sistema de ideias que conseguiu, ao longo da história moderna, permanecer inalterado em sua essência. Tal discurso orientalista forjado pelo ocidente perpassou a literatura do século XVIII-XIX, a academia “especializada” europeia e norte-americana, as artes plásticas e as artes visuais produzidas “do lado de cá” e percorreu os meios de comunicação de massa que ascenderam como força proeminente no campo da disseminação da informação, etc. Toda essa rede de produção discursiva não engendra unicamente fantasias tendo em vista a dinâmica de relações internacionais, culturais e simbólicas do jogo “nós-eles”. É preciso considerar que, baseado em Michel Foucault, Said enxerga nessa teia discursiva unívoca a brecha para desenvolver a ideia de que a realidade é formada a partir de um imaginário atrelado a um determinado vocabulário que confere ao mundo sua presença como tal e lhe atribui suas noções de poder e autoridade. As realidades que tornam os textos possíveis tal como se apresentam, e suas devidas interpretações corretas, são gerados por relações de poder. (CARVALHO, 2013, p. 469)

Para Said é indispensável perceber como o discurso orientalista, que supõe sua primazia elaboradora no Ocidente, é uma forma de dominação que cumpre uma missão de calar o “outro” presente em “minha” narrativa, ao deixá-lo expressar-se unicamente por meio do meu próprio imaginário. Isso ocorre mesmo quando a narrativa inclui, absorve e consolida uma imagem precedente. O discurso orientalista amputa, dessa maneira, as expressões reais do espírito da cultura oriental. (SAID, 2012, p. 58)

Said então compreende que o essencialismo criador de arquétipos estereotipados, presente na cultura ocidental quando ela refere-se ao Oriente, é produto da posse sine qua non do poder de narrar e disseminar essa narrativa como verdadeira. Tal conclusão faz que o autor se identifique, de forma aberta e consciente, com as noções de poder e saber presentes na teoria de Michel Foucault. No entanto, Said distancia-se de Foucault no tocante às condições inevitáveis de esgotamento da experiência sociais, sobretudo por considerar que o filósofo francês encara as formas de estruturação dos discursos hegemônicos como forças totalizantes, as quais não deixam espaço para ascensão de um pensamento crítico, capaz de ameaçar de maneira substancial o establishment.

Ao negar a possibilidade de exaustão da experiência de enfrentamento de uma determinada narrativa hegemônica, Said propõe então a “leitura em contraponto” como ferramenta analítica para a crítica literária. Na esteira dessa ferramenta, o autor adota um humanismo crítico que tem por característica básica o rechaço ao humanismo eurocêntrico tradicional, responsável, em boa medida, pela elevação das visões distorcidas do Oriente ao status de interpretações reais. A noção de necessidade de “exílio intelectual”, para se atingir uma interpretação não falseada sobre uma determinada realidade, também está presente em seu pensamento. A seguir, discuto brevemente cada um destes elementos.

Ao propor uma contrapontual reading, Said parte de uma analogia pertencente ao universo da música, na qual um tipo de composição pode ser elaborada sem necessariamente ser dirigida por nenhum princípio formal rigoroso fora da obra. Segundo Siddiqi, Said teria afirmado em diversas oportunidades que guardava reservas sobre o domínio da teoria na interpretação literária.

Em textos literários como em contraponto, coexistem diferentes temas; o crítico pode revelar toda a complexidade da cultura imperial explorando a interação da experiência metropolitana e a experiência do “Outro” que pode ser discernida nos interstícios dos textos da era colonial. (SIDDIQI, 2005, p. 67, tradução nossa) [1]

Nesse sentido, aproximando-se de Bakhtin, Said percebe as interpretações sobre a realidade como construções dialógicas. Ambos estão alinhados com a ideia de que o trabalho do crítico literário consiste em criar pontes de interação entre diferentes vozes. Seria necessário, dessa maneira, interpretar as ideias constantes em um texto de forma a considerar o que está expresso naquilo que foi excluído, a partir do conhecimento sobre a cosmovisão empregada por aquele que escreve.

No que diz respeito aos ideais humanistas de Said, adentramos um terreno extremamente complexo, pois o autor concebe o humanismo como uma espécie de postura secular desvinculada do nacionalismo, o que constitui uma negação das acepções clássicas do humanismo. Do ponto de vista de Said, o humanismo pode apresentar uma dupla dimensão: tanto pode ser uma corrente epistemológica que gera terreno firme o bastante para dar sentido à busca humana por autoconhecimento; como pode, nas palavras de do norte-americano William John Thomas Mitchell (2005, p. 463), ser também “um antiquarianismo abafado e estéril, uma piedade sentimental e vazia sobre o humano, um desenvolvimento que, por sua vez, produziu vários anti-humanismos e pós-humanismos rasos” (tradução nossa)[2]. Segundo esta concepção é necessário ser crítico do humanismo, em nome do humanismo. Aqui está inserido o postulado da crítica permanente da qual Said trata em sua obra. A “leitura em contraponto” seria uma espécie de desdobramento desta postura de reafirmação e enfrentamento do humanismo, intelectualmente exilada permanentemente, em nome dos valores humanistas antinacionalistas, de orientação internacionalista.

Seguindo a lógica propositiva do intelectual palestino, podemos então, com auxílio de Bruno Sciberras de Carvalho (2013), chegar ao pressuposto de que o Novo Humanismo ao qual Said se vincula, é

[…] baseado nas potencialidades da reflexividade e liberdade modernas [que] superem circunstâncias particulares em benefício de uma compreensão cosmopolita, já que seria possível ser crítico ao humanismo em nome do humanismo […] desde que estivéssemos atentos aos abusos da experiência do eurocentrismo e do imperialismo. (p.466)

Desse modo, resta explanar de que se trata a noção de “exílio” criada por Said. Esse aspecto da teoria do autor está ligado a uma postura declaradamente antagônica ao nacionalismo e a representações intelectuais que empreendem reduções mesquinhas da realidade. Essa condição de exílio intelectual seria, segundo Said, capaz de engendrar nos diversos espaços de debate valores verdadeiramente multiculturais ao criar novos tipos de conexões que não atendam a interesses de afirmações de identidades específicas.

A condição do exílio constitui, então, uma alternativa ao legado negativo do imperialismo em difundir crenças exclusivistas e inertes. Além disso, a condição cognitiva do exilado seria exemplar para o rompimento de cadeias representativas que geram um alter ego concorrente, baseado no estabelecimento e reprodução de identidades opostas, os “outros”, que seriam inexoravelmente díspares. (CARVALHO, 2013, p. 466)

Dessa forma, o exílio seria uma condição cognitiva assumida pelo intelectual que ultrapassa sua situação geográfica, seus precedentes identitários e referências intelectuais, situando o indivíduo em um espaço transnacional de produção discursiva articulada a partir de um âmbito estritamente secular. Baseado em uma ética de valores contra hegemônico, o exílio seria então a expressão de um pensamento pós-colonial capaz de implodir as unidades de coesão que perpassam os ideais da nação e as representações de identidade de grupos e classes, representando uma crítica ferrenha aos padrões esquematizados que são impostos aos indivíduos. Assim, a prática intelectual exilada deve resistir a reprodução do imaginário nacional e à imposição da ideia de pertencimento vazia de humanismo crítico. No sentido intelectual, Said talvez possa ser encarado como um tipo de “anarquista pós-colonial”.

Independente de qualquer conjectura, o fato que salta aos olhos, ao explorarmos o mundo das ideias de Edward Said, é que se trata de um universo inegavelmente interessantíssimo e extremamente engajado, impregnado de vontade de transformar o mundo sobre o qual tece reflexões. Suas contribuições para o campo da crítica literária, da teoria das relações internacionais e das Ciências Sociais como um todo é, portanto, inestimável.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Edward Said

Ao longo da escrita deste trabalho tentei expor alguns dos principais elementos do pensamento do intelectual e ativista político palestino Edward Said. Autodeclarado intelectual exilado ou “fora do lugar”, tanto por sua condição desterrada referente à sua história de vida, quanto ao que depois veio a transformar no conceito de “exílio intelectual”. Percorri ainda o conceito de “leitura em contraponto”, ferramenta analítica utilizada como arma de combate à estruturação das visões pré-concebidas do Ocidente em relação ao Oriente, bem como sua acepção herética relativa ao humanismo. A “leitura em contraponto” coloca a filosofia clássica ocidental sobre uma crítica permanente em nome da preservação de seus aspectos que são, para Said, inegavelmente detentores de potencial para uma crítica incisiva da realidade repleta de antagonismos preconceituosos entre as sociedade do Ocidente e do Oriente.

Ao ponderarmos as afirmações de Said, no que tange aquilo que também salienta Ella Shohat, a condição histórica que coloca o controle colonial sob uma lente de continuidade, por intermédio do imperialismo neocolonial expresso em um controle agressivo anteriormente bélico, e que agora se propaga de maneira abstrata, indireta, que invade a esfera econômica, mas que toca também nas extensões simbólicas das relações entre as sociedades, podemos efetivamente mensurar o tamanho de sua contribuição. (SHOHAT, 2006)

Assim, dada a extensão da contribuição, complexidade e vulto da obra de Said, é necessário também pensarmos – como ele próprio demonstrou, em sua postura de militância política ao longo de sua vida -, a forma pela qual Said conceberia a práxis da democracia dentro do seu quadro teórico.

Segundo Mitchell, Said sempre teve plena consciência de que o discurso pretensamente humanista que cerca a democracia ocidental, foi largamente utilizado ao longo da História, sobretudo na segunda metade do século XX e início do século XXI, como uma máscara legitimadora de incursões imperialistas (casos como os do Iraque e do Afeganistão são emblemáticos). Os valores inegociáveis da democracia, tais como a ideia de igualdade, fracionamento do poder, acesso à justiça e o ideal da autonomia por intermédio do autogoverno secular, deveriam estar fora do alcance, protegidos de qualquer cooptação de ideólogos que trabalham para inverter estes valores. Em Said, o resgate dos valores reais da democracia é urgente. (MITCHELL, 2005).

Nas palavras do ativista palestino,

[…] se, como acredito, está em andamento em nossa sociedade um ataque ao próprio pensamento, sem falar no assalto à democracia, à igualdade e ao meio ambiente, pelas forças desumanizadoras da globalização, valores neoliberais, ganância econômica (eufemisticamente chamada de livre mercado), bem como ambição imperialista, o humanista deve oferecer alternativas agora silenciadas ou indisponíveis pelos canais de comunicação controlados por um pequeno número de organizações de notícias. (SAID, 2007, p. 36)

É possível perceber, portanto, que a crítica humanista de Said possui uma preocupação não apenas com a continuidade das visões distorcidas sobre a realidade. O autor julga haver, entre o final do século XX e o início do século XXI, um ataque que mira o próprio pensamento crítico. Said dirige a atenção, sobretudo, ao esfacelamento gradual ao qual a democracia está sendo submetida. Opõe-se claramente ao neoliberalismo e ao monopólio midiático de grandes corporações, assim como também indica que, neste contexto de ataque sistemático, empreendido pelo regime neoliberal, o papel do humanista é disponibilizar, de alguma forma, alternativas que estão obscurecidas pela lógica da imposição do silêncio sobre aqueles que lutam pela democracia.

REFERÊNCIAS

BASSI, Danilo Martins Guiral. Edward Said: um perfil intelectual. Malala, São Paulo, v. 4 n. 6, 2016, p. 130-151. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/malala/article/view/122169. Acesso em: 03 out. 2021.

CARVALHO, B.S. Entre o universalismo e a condição contextual: concepções e limites do humanismo secular de Edward Said. Sociologia & Antropologia, Rio de Janeiro, Vol. 03, n. 06, nov. 2013, p. 465-488.

ELIAS, Norbert. Sociogênese da diferença entre “Kultur e Zivilisation” no emprego alemão. In: O processo civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro, Zahar, 1990.

FERNANDES, Florestan. Karl Mannheim. Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Ática, 1989.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere,. volume 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

LIMA, Marcos Costa. O humanismo crítico de Edward W. Said. In: TOLEDO, Aureo (org.). Perspectivas pós-coloniais e decoloniais em relações internacionais. Salvador: Ed. UFBA, 2021. p. 83-104.

MITCHELL, W.J.T. Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

SAID, Edward W. Fora do Lugar: Memórias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004 In: BASSI, Danilo Martins Guiral. Edward Said: um perfil intelectual. Malala, São Paulo, v. 4 n. 6, 2016, p. 131. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/malala/article/view/122169. Acesso em: 03 de out. 2021.

SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

MITCHELL, W.J.T. Humanismo e crítica democrática. São Paulo: Companhia das Letra, 2007.

MITCHELL, W.J.T. Representações do intelectual: as Conferências Reith de 1993. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

MITCHELL, W.J.T. Secular Divination: Edward Said’s Humanism. Critical Inquiry, Winter vol. 31, n. 2, p. 462-471, 2005. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/10.1086/430975. Acesso em: 22 out. 2021.

SHOHAT, Ella; STAM, Robert. Crítica da imagem eurocêntrica: multiculturalismo e representação. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

SIDDIQI, Yumna. Edward Said, Humanism, and Secular Criticism. Alif: Journal of Comparative Poetics, n. 25, 2005, p. 65-88. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/4047452. Acesso em: 20 out. 2021.

  1. No original: “(….) in literary texts as in counterpoint, different themes coexist; the critic can reveal the full complexity of imperial culture by exploring the interplay of metropolitan experience and the experience of the “Other” that can be discerned in the interstices of texts of the colonial era”.

  2. No original: “A stuffy, sterile antiquarianism, a sentimental, hollowpiety about the human, a development that has in turn produced various shallow antihumanisms and posthumanisms”.

A Estranha Alegria de Alguns Sectores Políticos Aquando da Morte dos seus Inimigos

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Escrevemos hoje, com tentativa de rigor, de forma atempada e tocando num ponto que cremos relevante na contemporaneidade, sobre diferenças objectivamente mensuráveis, conforme exemplos recentes, entre reacções de certos sectores políticos face ao perecimento dos seus opositores ou inimigos em comparação com sectores opostos, paralelos, díspares ou sem relação. 

Vem isto a propósito do recém-desaparecido político, diplomata, estratega, ministro dos negócios estrangeiros, titã da geopolítica do século XX, Henry Kissinger. Como toda a gente de valor — bom ou mau — é odiado por muitos, admirado por outros tantos e amado por uns poucos menos. Na globalidade da sua actuação em concreto nos ramos da política internacional que escusamos aqui referir porque cremos conhecidos de toda a gente, Kissinger não foi propriamente uma personagem amante da carnificina, psicopata, lunática, genocida, ditatorial, anti-democrática, com pretensões totalitárias e inerentemente belicista, ao contrário de muitas outras alminhas com papéis importantes na governação de estados ao longo da história. Não era nenhum Pol Pot, nenhum Adolf Hitler, nenhum Saddam Hussein, nenhum Estaline, nenhum Fidel Castro, nenhum Joseph Mengele. Era, grosso modo, como alguns já apontaram, um descendente intelectual de Maquiavel, adepto da “política real”, pragmática, consequencialista, cujo cálculo moral escapava à imediatez e se focava na complexidade e imprevisibilidade da teia de acções e reacções a longo prazo que envolve não apenas qualquer acto concreto pessoal e particular mas ainda mais significativamente a geopolítica e a arte de produzir e gerir decisões colectivas. Nesse sentido, Kissinger é um intelectual da mesma craveira moral de qualquer secretário de estado/ministro dos negócios estrangeiros, não se compreendendo assim o ódio que suscita, excepto se esse ódio estiver de facto fundado não no seu quadro moral, sendo essa apenas uma desculpa, mas sim na sua genialidade, na sua inteligência superior, no estatuto titânico que possui na diplomacia do século XX.

Atentemos então, sem qualquer pudor, aos sectores políticos que tendem a comemorar efusivamente, quase abrindo champanhe e lançando foguetes, aquando dos desaparecimentos de figuras como Kissinger, Margaret Thatcher, Ronald Reagan. Estes sectores são os da esquerda e extrema-esquerda anti-capitalista, anti-democracia liberal, pró-colectivista, revolucionária e jacobina — foi curiosamente a até respeitável revista Jacobin que não escondeu um certo regozijo com o desaparecimento do diplomata americano, em relação ao qual alimentavam há anos, há décadas, o mesmo ódio que já referimos. Estes sectores seguramente farão a mesma festa quando personagens como Tony Blair ou Cavaco Silva nos deixarem, exibindo efusivamente satisfação que deveria ser reservada aos maiores psicopatas da história e não propriamente a figuras de forma objectiva apenas medianamente nocivas, na sua óptica, e certamente não responsáveis, de forma implícita ou explícita, por crimes aberrantes da dimensão de ditadores psicopatas, sendo que não faltaram muitos ao longo da história.

Não se pode dizer que comportamento análogo seja encontrado noutros sectores diferentes, como os conservadores, os liberais, os libertários, os nacionalistas, os sociais-democratas, mas talvez apenas nalgumas correntes mais hooliganizadas do etnocentrismo e do nacionalismo muito agressivo. Entre estas correntes políticas não é costume encontrar-se, se a memória não nos falha, festejos desbragados perante o desaparecimento de figuras como François Miterrand, Helmut Kohl, nem parece claro que o façam aquando da partida de Barack Obama ou de António Costa. Nem sequer no caso de putativos psicopatas como Saddam ou Khadaffi se registam significativos carnavais e manifestações sádicas e malcriadas de contentamento. Excepção pode ser aberta, claro, para os casos de Adolf Hitler ou, eventualmente, do actual presidente da Rússia, dado o demasiado evidente expansionismo militar, com elevado custo de vidas humanas, endossado por ambos. Assim, somos levados a perguntar o porquê de tais reacções disformes serem encontradas nos sectores políticos da esquerda revolucionária mas não noutros. Tentemos, então, listar as razões que podem presidir a isso.

Em primeiro lugar, a ética da revolução, conforme entendida por esses sectores — e podemos dizer que a revolução francesa e os seus excessos bárbaros são a encarnação mais palpável dos impulsos bélicos e sanguinários, primitivos e tribais, que estão latentes na vida social humana, mas que conheceu muitas outras encarnações — é uma ética em que o regresso ao barbarismo é temporariamente admitido em prol de um suposto estado futuro em que as injustiças presentes serão corrigidas. A fórmula mais conhecida desta moral é aquela que dita como os fins justificam os meios, e que foi popularizada pelas aventuras comunistas em larga escala do século XX, todas rotundamente falhadas. Significa isto então que a única moral que subjaz às acções destes actores políticos é a moral do cumprimento último dos objectivos, sem contemplações com a dignidade humana dos adversários e sem alimentar grandes dúvidas em relação à própria falibilidade das suas teorias e das suas disposições. Isto leva-nos ao segundo ponto.

Essa mesma incapacidade de ter em consideração a dignidade do outro, mesmo que inimigo político deriva precisamente da incapacidade de conceber ou admitir que se poderá estar errado, o que substancia, em ultima análise, uma forma de primitivismo irracional que se pode caracterizar como imberbe. O revolucionário de esquerda está tão convencido da bem-aventurança das suas causas e dos seus objectivos, tão juvenilmente inebriado pela força moral da sua posição, tão justificado para contemplar e cometer todo o tipo de atrocidades em prol do bem futuro, que nem sequer lhe passa pela cabeça a existência de eventuais falhas em parte ou no todo do seu esquema mental, o que poderia abrir a porta à concepção lógica do outro e das suas razões.

Isso traz-nos, por fim, à eventualidade desse estado fanático e amoral, pelo menos temporariamente, ver no inimigo que exibe um tipo semelhante de aparente e/ou superficial amoralidade — o caso de Kissinger, Maquiavel, ou de, enfim, qualquer génio — mas ao qual falta nível gémeo de fanatismo — dado que estas personagens são em geral regradas por um comprimento de onda cerebral e intelectual, não pela festa do vinho das ideias — acabando por ser, enfim, para o absoluto fanático que põe temporariamente a moral de parte, um animal estranho e que lhe desperta receios por razões particulares. 

O consequencialista moral não põe a ética temporariamente de parte, antes pelo contrário: tem-na sempre em conta no esquema absoluto das coisas; e todas as formas que encontra para equilibrar a ética com um cálculo mais abrangente e inteligente da rede de acções e reacções, causas e efeitos, a que está ligada a mão humana, não se escusam a essa dimensão moral mas são em parte nela fundadas, dado que ele nunca se abandona ao barbarismo temporário em prol do objectivo futuro, antes pelo contrário: qualquer acção, ou inacção, aparentemente bárbara nada tem na realidade de selvagem, nem sequer de calculista no sentido linear de obtenção de ganho futuro, mas sim pertence à consideração de que princípios morais imanentes estão subjacentes a toda a rede de acções e reacções, e que frequentemente a descrição em primeiro grau da narrativa daí resultante não é uma descrição suficientemente válida em termos morais. Ou seja, qualquer descrição que atribui a Kissinger fomento de golpes de estado, instauração de regimes ditatoriais, favorecimento de políticas bélicas e bombardeamento de civis, etc., não é uma descrição completa se não incluir as acções presentes ou latentes das partes opostas — no caso, maioritariamente a URSS. Só na análise abrangente e consequencialista da rede destes cenários políticos é que um julgamento moral fundado poderá ser ensaiado.

O revolucionário de esquerda, por seu lado, opera num modo mental completamente diferente. Ele é capaz de interromper a moral vigente de modo quase absoluto — dado que, aliás, dado o seu carácter re-inventor, poderá até ver como um resquício de estruturas opressoras e injustas — abandonando-se assim ao total barbarismo e selvajaria de modo aparentemente temporário e controlado durante o período da revolução, deixando para mais mais tarde a instauração de um novo quadro a que se deixará obedecer em conformidade. Ou, pelo menos, é o que ele pensa. Na verdade, o que aparentemente acaba por acontecer, em larga medida, é que a selvajaria primitiva advém de impulsos muito fortes que dificilmente se conseguem mais tarde suprimir, explicando assim isto em parte porque é que os maravilhosos mundos imaginados pelos revolucionários do planeamento totalitário colectivista pós-iluminismo produziram alguns dos regimes mais aberrantes e sanguinários de sempre. É este estado mental que permite o ódio cego, irracional, baboso, imberbe e inumano, coalescido na fórmula dos fins e dos meios e conducente ao fenómeno presentemente analisado dos festejos imbecis perante o desaparecimento físico de meros inimigos políticos de alto gabarito.

Esta parece ser, enfim, a disposição mental e moral que permite ao animal de esquerda adoptar estes estados de espírito mais próprios de um semi-adolescente imbecil que ainda não sabe manejar a boa-educação moral de modo independente, e que é capaz de pontapear um animal ou trair um amigo por mera experimentação, brincadeira ou ingenuidade. Ele assim consegue descer à toca da falta de educação e de concepção da dignidade do outro — concepção essa que está ligada, como já vimos, à concepção de si próprio e da sua falibilidade —, independentemente das suas posições políticas ou até mesmo da totalidade do seu carácter moral, e festejar a partida de pessoas que estão muito, mas mesmo muito longe de serem diabos na terra. O ódio dirigido a elas tem, provavelmente, como já adiantámos, a estranheza do bicho que vê alguém capaz de ser inteira e amplamente moral de uma forma racional, coerente, consequencialista, fundada em ética, em teologia, e mesmo assim incluir na descrição simples das suas acções aparentes barbaridades, ao contrário do animal de esquerda, cujas expressões de barbaridade advém de licenças especiais para a demissão de toda a racionalidade, de toda a memória, de toda a faculdade intelectual, em prol de uma pré-estabelecida calendarização de ganhos futuros. Acresce a isto que o referido animal de esquerda não é apenas animal, pois de facto é uma pessoa humana que mimetiza temporariamente o comportamento de um animal, mas sabe-o secretamente, e o facto de o saber, e ter perante si uma criatura de tipo diferente que não abandona o raciocínio e a lógica de modo a praticar barbaridades com vista a um ganho futuro mas sim integra expressões que cabem nessas descrições na sua rede de consequências, suscita a esse animal de esquerda os sentimentos da inveja, da antagonia mais primitiva e mais infantil, e do ódio cego e irracional. 

Estes tipos de criatura estarão sempre a anos-luz de distância uns dos outros, e enquanto que o animal de esquerda olha para o consequencialista lógico com o ódio do animal que olha para o homem, o consequencialista, por seu lado, olha para o barbarismo primário desse imberbe entusiasta político como um humano olha para a selvajaria de um animal. Ou seja, não propriamente com ódio, mas com condescendência. E estas são as suas diferenças, as diferenças de dois mundos mentais completamente diferentes.

Criacionismo, Exegese e Criacionismo Antropológico

Partilhamos hoje duas instâncias de pensamento criacionista pertencentes a espécies e esferas diferentes. Primeiro, o mais conhecido de todos, no entanto em absoluto minoritário não só hoje mas desde sempre: a crença de que o mundo e o universo terão cerca de seis mil anos de idade, resultante de leituras literais de certos textos sagrados como a bíblia. Esta é a sua versão mais conhecida, mas existem, é claro, variantes em grau que admitem datações mais antigas, evolução darwiniana, etc., sendo porém toda a criação modelada pelo intelligent design da providência. Noutras culturas e religiões podemos encontrar visões minoritárias que também atribuem ao mundo uma idade real muito diminuída em relação à evidência científica, mas é importante sublinhar que estas não são nem nunca foram as tradições dominantes na interpretação de textos sagrados, que são maioritariamente aceites como veiculares da palavra divina de modo não literal e que devem ser sujeitos a interpretação, que designamos como exegese sagrada. É claro que, e abordando agora por graça uma das variantes mais extremas, coronária desta disposição mental, a partir do momento que se negam evidências fósseis e coisas que tais, e se alega retorcidamente que o mundo foi criado com sinais de antiguidade já embutidos na sua forma — por que razão, não sabemos — chegamos facilmente à caricatura da tese do “last thursdayism” — a crença de que o mundo foi criado na última quinta-feira. Depois, sublinhamos um fenómeno a que podemos chamar de criacionismo antropológico muito prevalente numa certa dimensão de ingenuidade do discurso sobre povos, culturas e civilizações: a ideia de que existem povos originais assignados por ditame divino a cada uma das terras do mundo: os índios nas américas, os chineses na china, os europeus na europa, os negros em áfrica, os judeus e árabes na palestina, etc. Esta é uma espécie de crença de que o mundo terá sido criado com cada uma destas populações já bem instalada nos respectivos sítios, como se tivesse sido “spawned” — pedindo emprestado o termo dos vídeo-jogos — e caído milagrosamente do céu na sua terra eleita. Esta visão, própria de ignorantes que molham o pé na turbulência política própria de certos adolescentes mentais, pretende ignorar completamente a história das migrações — sendo que se pode dizer, de certa maneira, que a partir da áfrica sub-saariana, de onde emergiu o homo sapiens sapiens conforme hoje o conhecemos, todas as terras foram ocupadas/colonizadas cíclica e infindavelmente, não sendo possível determinar origens mas sim coerência de permanência de povos e culturas em determinados territórios — que, mesmo assim, muitas vezes se dissolvem na história universal de modo a não ficar distinto qual das permanências de povos é mais válida, ou exactamente o que constitui um povo. É com estas visões exóticas que vos deixamos a pensar.

O Cesário de Philèas Lebesgue: Swinburnesco e Adorador do Realismo

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Philèas Lebesgue, um francês nascido em La Neuville-Vault, em 1869, foi um profundo interessado pelos aspectos literários, artísticos e sociais do Portugal de finais do século XIX a meados do século XX. Escreveu um conjunto de crónicas a que chamou “Lettres Portugaises”, publicadas durante mais de 50 anos no Mercure de France[1].

Na sua crónica de Abril de 1909 dá-nos uma reflexão sobre o lirismo português seu contemporâneo, apresentando-o como sendo a definição de amor de cada época e sociedade e concluindo que o modo como se concebe a ideia de amor define uma civilização. Consequentemente, apresenta a poesia como um elemento social de primeira ordem, pelo que quanto mais amorosa uma sociedade for, mais lírica será. Constata que a alma portuguesa, sonhadora e apaixonada, é diferente da francesa, já que esta é analítica e tenta conciliar a visão apaixonada do mundo com o intelectualismo e o apelo à revolução. No seguimento desta reflexão, escreve Lebesgue sobre os poetas portugueses:

Nuns, herdeiros mais directos de naturalismo panteísta de Guerra Junqueiro e do realismo adorador, swinburnesco de Cesário Verde, é o instinto de uma vida simples, idílica, à parte dos artifícios da civilização que triunfa; noutros, requer mais, a exemplo de Antero de Quental, a procura de uma fé, e é a glorificação do esforço humano na natureza que consente em chamar a si a inspiração.[2]

Centremo-nos da caracterização que faz de Cesário Verde, a quem classifica como do “realismo adorador, swinburnesco”. Apodar Cesário como realista é, actualmente, uma trivialidade. Óscar Lopes, por exemplo, afirma que o realismo da poesia cesariana se conserva mais vivo, no presente, ao contrário do de Guilherme de Azevedo, Gomes Leal, Guerra Junqueiro, “graças a uma adesão mais serena e completa às tendências de avanços do seu tempo”[3]. O mesmo Óscar Lopes corrobora, mais tarde, o realismo de Cesário, mas desta vez atribui ao próprio esse desejo (“Cesário pode considerar-se um realista, que é o que ele sempre pretendeu ser …”[4]), porquanto o expressa explicitamente em “O Sentimento dum Ocidental”, “III – Ao Gás”, nos versos “E eu que medito um livro que exacerbe/Quisera que o real e a análise mo dessem”[5]. Considera-o, até, mais realista do que Eça de Queirós. José Régio, por seu lado, refere que Cesário captou flagrantes da realidade a partir de uma penetrante atenção ao mundo exterior e, como tal, é “o mais realista dos realistas”[6]. É interessante como Régio parece ecoar Lebesgue: ambos apresentam uma visão hiperbolizante da relação entre Cesário e o Realismo. No entanto, fazem-no a partir de pontos de vista diferentes: Lebesgue, próximo do tempo de criação da obra, afirma que Cesário é adorador do Realismo, colocando o ónus dessa ligação no próprio poeta, enquanto Régio, ao classificá-lo como o mais realista dos realistas, fá-lo a partir de um ponto de vista externo, o seu, enquanto leitor crítico já afastado do tempo de produção da obra.

Mais sui generis é a qualificação de Cesário como “swinburnesco”. Algernon Charles Swinburne (1837-1909) é reconhecido como um dos poetas vitorianos tecnicamente mais hábeis. No entanto, aquilo que o adjectivo passou a designar deriva essencialmente não da sua mestria poética, mas sim dos temas que abordava e do seu próprio estilo de vida. Quanto aos temas, vão desde os ferozes ataques ao catolicismo de Roma, até referências sexuais explícitas de temas tabu como a homossexualidade, o canibalismo e o masoquismo. A sua vida foi recheada de escândalos, resultado das atitudes irreverentes e chocantes (era, por exemplo, adepto da flagelação, uma forma de masoquismo), do seu alcoolismo e de uma forte compulsão para o exibicionismo que o levou, entre outras atitudes, a passear nu com o seu namorado[7]. Assim, o uso de swinburnesco mostra-nos que, do ponto de vista do cronista, há uma aura de escândalo, de depravação e de dissolução na poesia de Cesário (que não na sua vida que, aparte algumas quezílias literárias, foi quase casta, tanto quanto se sabe).

Efectivamente, a poesia cesariana comporta ideias ou a descrição de comportamentos que, à época, seriam escandalosas, indecentes e imorais, podendo-se inferir que as mesmas estiveram na origem da comparação entre Swinburne e Cesário. Sem pretensão de os esgotar, vejamos alguns exemplos: a descrição do café onde o sujeito se encontra, em “A Débil”, como um “café devasso”[8] e, no mesmo poema, a referência à cidade como uma “Babel tão velha e corruptora”[9]; o assumir de um fetiche no final do poema “Proh Pudor”, “Todas as noites ela, oh, sordidez!/ Descalçava-me as botas, os coturnos, /E fazia-me cócegas nos pés.”[10]; o masoquismo presente em “E quero asfixiar-me em ondas de prazer”[11] e ainda em “Eu também me faria gordo frade /E cobriria a carne de cilícios”[12], e até algum sadismo presente no poema “Cinismos” onde declara esperar pelas lágrimas de dor da amada para lhes responder com sonoras gargalhadas (“E há-de chorar, chorar enternecida / E eu hei-de, então, soltar uma risada…”[13]). O paroxismo é atingido no poema “Ele”, dirigido ao Diário Ilustrado, que tanto maltratava a sua poesia, e em que descreve um banquete real que termina com o rei a vomitar “nas pedras da calçada”, o que deu origem, na manhã seguinte, ao referido jornal: “- Nascera o Ilustrado – o vómito real!”[14]. Complete-se a descrição deste episódio com alguns dos mimos oferecidos na caracterização do festim e dos que nela participaram: “deboche”, “devasso”, “bebiam doidamente”, “vinolenta”, “sordidez horrível e avinhada”, “tripúdio infrene”.

Confirme-se esta recepção da poesia cesariana como escandalosa através, por exemplo, da reacção de Teófilo Braga ao poema Esplêndida[15], publicado em Março de 1874, tinha Cesário dezoito anos. Os versos que especialmente o incomodaram encontram-se nas seguintes estrofes:

E eu vou acompanhando-a, corcovado,

No trottoir, como um doido, em convulsões,

Febril, de colarinho amarrotado,

Desejando o lugar dos seus truões,

Sinistro e mal trajado.

E daria, contente e voluntário,

A minha independência e o meu porvir,

Para ser, eu poeta solitário,

Para ser, ó princesa sem sorrir,

Teu pobre trintanário.[16]

Teófilo considerou inadmissível que o poeta se tivesse colocado numa posição de subjugação humilhante ao dizer à “princesa sem sorrir” que desejava “o lugar dos seus truões”[17]. Teófilo terá dito a Henrique das Neves, que o transmitiu a Cesário, que “um poeta jovem e moderno” não desce “ao lugar dos lacaios” para cortejar uma mulher[18]. Acaba por ser irónico, e pouco abonatório para Teófilo (apesar de Bacharel, Licenciado e Doutor em Direito pela Universidade de Coimbra, foi aceite como lente da cadeira de Literaturas Modernas do Curso Superior de Letras), que não reconheça aqui marcas dos códigos de amor cortês das Cantigas de Amor trovadorescas. Ainda que certamente empoladas pela visão juvenil e inexperiente do jovem poeta, encontram-se neste poema marcas da lírica amorosa medieval, como sejam a total submissão do enamorado à sua dama[19], prestando-lhe, voluntariamente, vassalagem, e a descrição da amada como admirável, mas fria e distante. Repare-se neste excerto de uma cantiga de Airas Nunes, em que o trovador declara o seu amor e se queixa de ter sido desprezado pela sa senhor:

Falei noutro dia com mia senhor

e dixe-lh’ o mui grand’ amor que lh’ ei

e quantas coitas por ela levei

e quant’afan sofro por seu amor;

foi sanhuda e nunc’ a tanto vi,

e foi-se e sol non quis catar por mi

e nunca mais pois com ela falei.[20]

Como se constata, tanto na cantiga de Airas Nunes como no poema de Cesário verificam-se movimentos de baixo para o alto (do vassalo para a senhora), mas o inverso não ocorre e em ambos o sujeito é desprezado.

Na crítica de Teófilo fica ainda bem visível um outro aspecto que o escandalizou e que tem a ver com uma forma marcadamente estratificada de olhar a sociedade: um jovem moderno não pode descer à condição de um lacaio. Esta visão da sociedade é contrariada por Cesário, por exemplo, no poema “Num Bairro Moderno”, onde o sujeito, um pequeno burguês, está calmamente a dirigir-se para o seu emprego, já tarde, e “com os sintomas de uma apoplexia”. No final, foi uma pobre vendedeira, que carregava à cabeça uma giga, que lhe transmitiu “as forças, a alegria, a plenitude”[21], ficando bem evidente que, afinal, o fraco era ele:

E, pelas duas asas a quebrar,

Nós levantámos todo aquele peso

Que ao chão de pedra resistia preso,

Com um enorme esforço muscular.

«Muito obrigado! Deus lhe dê saúde!»

E recebi, naquela despedida,

As forças, a alegria, a plenitude (…).[22]

Por fim, temo que esta referência tão particular a Swinburne para classificar a poesia de Cesário tenha sido mais circunstancial do que decorrente de uma análise da obra cesariana, uma vez que esta crónica foi escrita no exacto mês e ano da morte do iconoclasta poeta, dramaturgo, novelista e crítico inglês. Não me voltei a cruzar, em todas as leituras que fiz, com mais nenhuma sugestão de um paralelismo entre os dois autores (o que não quer dizer que não exista, mas sim que é, decerto, rara). É um facto que ambos os poetas escandalizaram a sociedade da época, Swinburne duplamente, na sua vida e obra, Cesário apenas na obra e que, convictamente ou não, apesar de tudo, Lebesgue nos chama a atenção para tal. Mas enquanto o poeta aristocrata conseguiu triunfar no seu tempo, o poeta comerciante, não.

Notas biográficas:

Todas as citações da obra de Cesário Verde encontram-se em:

SERRÃO. Joel. Obra Completa de Cesário Verde. Livros Horizonte.8ª ed. 2003 (1ª edição: 1964).

Todas as citações e referências relacionadas com Philéas Lebesgue encontram-se em: LEBESGUE. Philéas. Portugal no Mercure de France. Aspectos Literários, artísticos, sociais de fins do séc. XIX a meados do séc. XX. Roma Editora. Lisboa. 2007.

  1. Philèas Lebesgue, Portugal no Mercure de France. Aspectos Literários, artísticos, sociais de fins do séc. XIX a meados do séc. XX.

  2. p. 195.

  3. Óscar Lopes, Modo de Ler, p.197.

  4. Óscar Lopes, Álbum de Família, Ensaios Sobre Autores Portugueses do Século XIX, p. 179.

  5. est. 5, vv. 1-2.

  6. José Régio, Crítica e Ensaio 2, p. 156.

  7. A título de curiosidade, refira-se que Aleister Crowley, o mágico amigo de Fernando Pessoa e que desapareceu no Guincho, desejava ser visto como o legítimo herdeiro da poesia de Swinburne, dedicando-lhe a sua obra poética.

  8. est. 2, v. 1

  9. est. 2, v. 3.

  10. est.4, vv 1-3.

  11. “Flores Venenosas -I- Cabelos”, último verso.

  12. “Cantos de Tristeza”, dois últimos versos.

  13. est. 5-6.

  14. Último verso.

  15. Cesário refere-se a esta reacção numa carta (carta 1, p. 201) que escreve a Silva Pinto, acrescentando que Teófilo, depois de ler os seus versos, referiu que Guilherme de Azevedo “era talvez o único que no futuro poderá representar a poesia moderna, por ser quem trilha a verdadeira senda (…). Ainda que não o mencione directamente, nota-se uma tristeza que advém da incompreensão desta postura de Teófilo.

  16. est. 7 e 8, p. 72.

  17. est. 7, v. 4.

  18. Carta 1 a Silva Pais, p. 201.

  19. “O trovador comporta-se para com a sua dona exactamente como o vassalo, o om liges, se comporta para com o seu senhor; tem de servir com fidelidade, de a honrar, depois de lhe ter prestado a homenagem, ajoelhado perante ela, em posição humilde. Obedecerá aos seus desejos e ainda aos seus caprichos. Não a molestará com atitudes violentas e desmesuradas, princípio da ética antiga que se insinuou, como veremos, em tôda a poesia trovadoresca”, Rodrigues Lapa, Lições de Literatura Portuguesa, Época Medieval, pp. 18-19.

  20. B 884, V 467.

  21. est.15, v.3.

  22. est. 14 e 15.

Bárbara Virgínia: o Percurso da Primeira Realizadora de uma Longa Metragem Sonora em Portugal

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Uma biografia da cineasta portuguesa, particularmente focada no seu percurso nos anos quarenta do passado século e na realização da longa-metragem Três Dias sem Deus, de 1945. Texto de Rafael Romão Mira (Ciência ID C912-1FEE-60C2) e Madalena Romão Mira (Ciência ID 991C-BD14-8AAA).

Introdução

A exposição do Mundo Português foi o momento cultural mais marcante dos anos 40 em Portugal, e celebrava o duplo centenário da fundação (1140) e da restauração da nacionalidade (1640).

O Estado Novo procurou conciliar a arte com a política, apesar de haver vozes contrárias, como o presidente da Sociedade Nacional de Belas-Artes, Arnaldo Ressano Garcia, que simbolizava muitos outros artistas, que ficaram ao lado destas comemorações[1].

Embora obrigasse a uma renovação da área diante do mosteiro dos Jerónimos, frente ao Tejo, com vista ao futuro, a exposição glorificava os feitos portugueses do passado, das descobertas e conquistas, sendo considerada como um enorme veículo de propaganda do regime, integrada num programa de renascimento cultural, protagonizado por António Ferro, que liderava o Secretariado de Propaganda Nacional.

Inaugurada em 23 de julho e encerrada em 2 de dezembro de 1940, em plena guerra mundial, teve um enorme impacto num país pobre e analfabeto, que ficava boquiaberto com a imponência dos jardins, a arquitetura historicista e revivalista, os monumentos, como o Padrão dos Descobrimentos[2], construído para a ocasião, pelos elefantes a passear em Lisboa ou pelas mulheres africanas que faziam parte do cenário.

A exposição do Mundo Português, que só teve paralelo em Portugal com a Expo 98, foi uma celebração de homens do passado, para homens do presente, com participação mínima de mulheres. Clementina Carneiro de Moura, Estrela Faria, Sarah Afonso ou Mily Possoz (portuguesa de ascendência belga), pintoras e artistas plásticas, são raros nomes femininos entre centenas de artistas homens, que pontuaram na exposição.

A participação feminina era o reflexo da mulher em Portugal nos anos 40, onde ainda só as que tivessem um curso secundário ou universitário podiam votar, desde 1931[3], o que deixava a esmagadora maioria de fora. No documentário realizado por António Lopes Ribeiro[4], A Grande Exposição do Mundo Português, com monumental banda sonora do maestro Frederico de Freitas (aspeto ainda mais importante numa altura em os filmes eram maioritariamente mudos), a mulher está ausente.

À época, as salas de cinema enchiam para ver comédias portugueses como O Pai Tirano (1941), O Pátio das Cantigas (1942), O Costa do Castelo (1943), A Menina da Rádio (1944), A Vizinha do Lado (1945), O Leão da Estrela (1947) ou Fado, História de uma Cantadeira (1948). No meio das comédias para entreter um público que mal sabia ler e escrever, em 1946, surge Três Dias sem Deus, um drama gótico.

Esta longa metragem foi uma pedrada no charco a vários níveis: chamava a atenção para o contexto social do interior, onde a ruralidade era ainda mais dominada por preconceitos e pela religião, para o papel da mulher como o elemento fraco, mas pernicioso, da sociedade, e era realizado por uma mulher.

Bárbara Virgínia foi a primeira realizadora de uma longa metragem de ficção sonora em Portugal[5], numa altura de difícil reconhecimento das conquistas das mulheres, num regime difícil e num contexto, como se viu acima, de protagonismo masculino.

Sendo desconhecida da maioria das pessoas, este trabalho propõe dar-lhe visibilidade, tanto mais que encontrámos informação inédita sobre o seu percurso, não mencionada em qualquer lugar, bem como informação de caráter pessoal, também inédita.

Morreu a primeira realizadora portuguesa
Fig. 1 – Bárbara Virgínia, com 22 anos[6]

Origens

Bárbara Virgínia é o nome artístico de Maria de Lourdes Dias Costa, nascida em Lisboa, a 15 de novembro de 1923.

Era filha do lisboeta Joaquim Costa e de Bárbara Virgínia Dias Costa, alentejana de Mértola. Seus pais casam em Lisboa, a 1 de julho de 1916[7], sendo ele primeiro tenente da Marinha e ela doméstica.

De acordo com o investigador de cinema Ricardo Vieira Lisboa[8], Maria de Lourdes cresceu na zona das Avenidas Novas, e iniciou os estudos nos liceus Maria Amália e Filipa de Lencastre, de onde sai para o Conservatório Nacional. Segundo este autor, o seu nome artístico é uma homenagem a sua avó Bárbara e sua mãe, Virgínia. Porém, a ser uma homenagem a ambas será ao contrário, pois a avó chamava-se Virgínia Maria e não Bárbara.

Luísa Sequeira e Paula Sequeiros informam que viaja para Angola e Moçambique, acompanhando seu pai, oficial de Marinha[9]. Porém, quando seu pai falece, em 1945, mãe e filha pedem uma pensão de sangue, em cujo processo se informa que Joaquim Costa se reformou em 1919, devido a uma doença que inviabiliza qualquer das viagens mencionadas[10]. O processo informa que à data da morte era Capitão de Mar e Guerra, que morre de doença adquirida em campanha – paludismo crónico – e que serviu no estrangeiro, como expedicionário, em Cabo Verde (São Vicente, de 4 de outubro de 1918 a 4 de fevereiro de 1919), tendo sido reformado a 18 de abril desse ano. As mesmas autoras, mas noutro texto, informam em nota de rodapé sobre seu pai: “Segundo dados na Biblioteca Central da Marinha – Arquivo Histórico, foi oficial da Marinha de Guerra, sofreu incidente em serviço pouco antes de 5-10-1910, falecendo como inválido de guerra em 1945; aderiu ao apelo para se juntar às forças revoltosas da República; viria a ser condecorado por serviços prestados em S. Vicente, Cabo Verde, em 1919, após o que é reformado”[11].

Bárbara Virgínia faz “o ensino superior no Conservatório Nacional de Lisboa como atriz, estudou também canto lírico, piano e ballet clássico, encenação, composição musical e italiano, entre outras disciplinas. Terminou a sua formação aos 20 anos, no dia 18 de julho de 1943”[12].

O nome artístico é o nome da mãe, que usa desde muito cedo, não só como homenagem, mas como “ato de revolta e de desejo de independência na confrontação com a família que, à exceção dos pais, se opunha à exposição pública de que vinha usufruindo pela subida aos palcos”[13].

A influência da mãe é muito grande. Segundo a cineasta, sua mãe “era uma pianista fantástica, e, além disso, pintava muito bem. Era uma artista e adorava arte!”[14].

Na entrevista que deu em 2009 afirma que foi a mãe que a incentivou a declamar, bem como o próprio João Villaret, de quem era amiga. O entrevistador mostra-se surpreendido afirmando que na “sociedade portuguesa nesse período de salazarismo; esse incentivo de sua mãe, não deveria ser comum mães incentivarem as filhas para a carreira artística” ao que Bárbara Virgínia respondeu: “A minha mãe dizia que nada se deveria fazer por acaso. «Gosta do que é poesia? Então estuda o que é poesia». «Gosta de declamação? Então estuda p’ra ver se gosta, se é capaz de fazer, se gosta mais de ouvir, qual o gênero que gosta mais». Isso me incentivou muito. Ela foi-me mostrando qual a diferença de uma poesia lírica para uma poesia dramática, por exemplo. Minha mãe foi uma pessoa importantíssima na minha vida artística. Eu acho que, se eu não tivesse nascido como filha dela, eu não tinha tido o grande prazer, a grande alegria de ter conseguido realmente essa carreira que foi a minha paixão. Eu teria feito outra coisa”[15].

Artista de sete ofícios

Bárbara Virgínia começa a carreira artística como declamadora e cantora lírica, na Emissora Nacional. Porém, os seus múltiplos dotes artísticos e talentos levam-na para diversas áreas, desde o bailado clássico, com espetáculos no Teatro São Carlos, logo em seguida a revista à portuguesa no Teatro Maria Vitória, como declamadora, a realizar e interpretar cinema, a protagonizar a opereta Flor da Murta (Sua Majestade o Amor), ou a peça de teatro O Ladrão, em exibição no Porto, ou ainda para a escrita de artigos em revistas e jornais.

Assim, divide-se entre a representação, o canto, o bailado, a escrita, a locução e a realização, sendo que era ainda muito jovem, pois realiza a longa metragem com apenas 23 anos. Escreve para jornais como A Voz, Diário de Lisboa, Modas e Bordados, entre outros. Entre crítica de teatro e crónicas de viagem, para além de outros géneros de escrita, é ainda uma voz conhecida dos microfones da rádio, principalmente no programa Comboio das Seis e Meia, realizado pelo ícone da rádio, Igrejas Caeiro.

É a sua faceta de declamadora – diseuse – que a leva em digressão, desde os Açores e Madeira até Espanha, França e Holanda[16], e é nesta qualidade que termina a vida em palco, antes de casar e já radicada no Brasil, para onde foi em 1952.

Fig. 2 – Fotografia autografada pela artista[17].

O cinema

A estreia de Bárbara Virgínia no cinema, como atriz, dá-se em Sonho de Amor, realizado em 1945 pelo cineasta Carlos Porfírio.

No mesmo ano, é a voz-off do documentário Neve em Lisboa de Raúl Faria da Fonseca. Sobre este documentário, por um lado, diz-se “que tanto a atribuição da realização como a narração dessa curta metragem documental não são totalmente certas, já que apenas se preserva no ANIM uma versão incompleta de montagem sem banda de som”[18]. Por outro lado, a própria Bárbara Virgínia afirma que a ideia era dela, embora tivesse acabado por só fazer a voz-off[19].

Em 1946 realiza Três Dias sem Deus, um filme-mito no universo da realização feminina em Portugal e também na Europa. Bárbara é também a protagonista, interpretando a professora Lídia, num enredo que explora “a tensão entre um mundo noturno, rural e supersticioso, personificado pela bruxa Bernarda, e um outro mundo, este solar, representado por Lídia, que acredita no diálogo, no saber escolar e que tem do campo uma visão bucolicamente normalizada”[20].

O filme é produzido pela Invicta Produtora Independente, as filmagens decorrem no estúdio Cinelândia e os exteriores nos arredores de Lisboa, embora a ação se passe numa aldeia em Trás os Montes. O orçamento foi de “700 e poucos contos, o que é uma miséria”, como a própria diz em entrevista[21]

A revista Filmagem publica um artigo sobre o filme e a realizadora e protagonista, com o título “O filme da «simpatia»”, dizendo: “A «Simpatia», evidentemente, é Bárbara Virgínia, realizadora e intérprete de «Três Dias Sem Deus», um novo filme português que caba de entrar nos Laboratórios da Lisboa-Filme, para os últimos trabalhos. Acima de tudo, esta nova produção nacional terá o interesse de nos mostrar a obra duma mulher, em quem acreditamos porque lhe conhecemos raras qualidades de cultura e alto sentido artístico”[22].

Já o Diário de Lisboa noticiou a situação com o título “Um acontecimento: pela primeira vez em Portugal e na história do cinema uma senhora dirigiu um filme”, e a notícia, misturada com uma entrevista diz: “Tem necessariamente de nos dizer alguma coisa diferente esta arrojada cineasta, vivo espírito da moderna geração, onde se adivinha a insatisfação, a ansiedade da perfeição”[23].

Mais adiante o entrevistador pergunta “E não receia que lhe não perdoem a invasão dum campo onde só homens têm atuado?”, ao que Bárbara responde: “Não. Posso recear o não ter atingido o mínimo das exigências inerentes a uma obra desta envergadura. O resto seriam pensamentos doentios que quero afastar do meu modesto cantinho”[24].

Fig. 3- A realizadora, entre a equipa, naturalmente composta apenas de homens[25].

O filme estreou a 30 de agosto de 1946, no cinema Ginásio em Lisboa e foi muito bem acolhido pelo público, pois o dono da produtora, “Felisberto Felismino, um «conhecido comerciante de Lisboa» importador de canetas de tinta permanente da marca Conklin (…) recuperou nas 4 semanas de exibição do filme, até dia 26 de Setembro, o seu investimento não se dando por insatisfeito”[26].

O Festival de cinema de Cannes, que inaugura nesse ano, recebe o filme, sendo a única longa metragem realizada por uma mulher[27]. A comunicação social francesa dizia: “C’est une des grandes révélations du festival, le nom de Barbara Virgínia”[28].

Porém, o júri do festival não concordou e o prémio a entregar a cada país não chegou ao Egipto nem a Portugal “dado o valor das suas produções ter sido considerado insuficiente pelo júri”[29].

A crítica em Portugal é igualmente mais negativa que positiva e “O que parece ser o consenso da crítica é que Bárbara Virgínia terá sido, como realizadora, uma figura pouco proeminente que só a espaços terá conseguido impor a sua visão para o filme”[30], mas ainda assim aparecia “como uma jovem e forte promessa para o cinema português. Os mais críticos do filme afirmaram que se o resultado não os havia convencido, havia nele indícios de uma ideia diferente de cinema para o meio português, e que apesar de ser impossível avaliar totalmente o talento de uma realizadora com apenas um filme realizado e sem experiência anterior, os seus projetos seguintes resolveriam o mistério e esclareceriam se Três Dias sem Deus fora um caso isolado e sem consequências futuras, ou o primeiro passo de uma nova voz no cinema português”[31].

Restam apenas 26 dos originais 102 minutos da película, sem banda sonora, que se guardam na Cinemateca Portuguesa[32].

Fig. 4 – Bárbara Virgínia, no site do Festival de Cannes[33].

Bárbara é convidada a realizar o filme na sequência do afastamento do realizador: “por imposição da suas funções na MGM, no novo departamento de 16mm, Faria da Fonseca viu-se obrigado a viajar para os EUA a fim de uma formação especializada, o que o impediu de estar presente durante a rodagem do filme (…) a passagem de Bárbara Virgínia para a cadeira de realizadora traduziu-se numa série de alterações ao argumento (não tanto na ação, mas no tom) ao ponto de Raúl Faria da Fonseca ter feito publicar, no Diário de Notícias, um esclarecimento em que se afastava do projeto”[34].

Assim, apesar de ser celebrada como a primeira realizadora de uma longa metragem de ficção sonora, não deixa de se colocar a dúvida se exerceu esta função por vontade própria ou por mera coordenação dos acontecimentos. A entrevista que deu poucos anos antes de falecer não é esclarecedora, antes pelo contrário, como se verá adiante.

Ainda em 1946 é-lhe atribuída a realização do documentário sonoro, a preto e branco, com 15 minutos, Aldeia dos Rapazes-Orfanato Sta. Isabel de Albarraque, filmado com uma câmara à altura dos olhos das crianças, o que lhe confere uma dimensão muito próxima dos protagonistas, apenas crianças, sem intervenção de adultos.

No ano seguinte entra como atriz no filme de Armando Miranda Aqui, Portugal, “um desfile de costumes, tradições e melodias populares de um país moldado à «imagem» do Estado Novo. As várias províncias portuguesas, de Trás-os-Montes ao Algarve, são evocadas através das suas danças, cantares e outras atividades regionais protagonizadas por conhecidos atores e atrizes”[35].

Fig. 5 – Postal do filme “Aqui, Portugal”, com legenda sugestiva sobre a atriz[36].

Projetos no papel

Logo em 1947 os jornais em França noticiavam que “Bárbara Virgínia “réalisatrice du film portugais «Trois Jours San Dieu» présenté au Festival de Cannes, prepare pour l’anné 1947 la production d’un nouveau film”[37].

Todavia, só em 1950 há notícia da cineasta pretender fazer um filme, cujo tema seria sobre António Nobre, intitulado Anto.

O poeta António Nobre morreu muito novo, com apenas 32 anos. Viveu muito tempo no estrangeiro, principalmente em Paris, mas também noutros lugares, onde procurava ajuda médica para os seus problemas pulmonares. O seu livro influenciou o modernismo português.

O processo no Arquivo Nacional da Torre do Tombo indica-a como realizadora e produtora, mas que não vê a luz do dia pois a censura não o permite, embora a versão oficial fosse que não tinha havido financiamento, para o que também terá contribuído o facto de António Nobre ser homossexual[38].

Porém, o que não é indicado em parte alguma é o seu pedido de concessão de subsídio para realizar outro filme: Vidas que Renascem, em 1951[39]. Na entrevista que Bárbara concede a William Pianco e Ana Pereira, menciona o projeto de António Nobre, mas não diz uma palavra sobre Vidas que Renascem.

O pedido foi feito diretamente ao Conselho de Ministros e o ofício que daqui é enviado ao Presidente do Fundo do Cinema Nacional, assinado pelo chefe de gabinete José Manuel da Costa, contém o despacho de Oliveira Salazar: “Para o Conselho do Fundo do Cinema estudar que possibilidades existem de auxiliar com subsídio o doc. Vidas que Renascem, que sendo bem delineado e executado pode ser bom instrumento de propaganda de uma das maiores realizações nacionais. 2-2-951. a) Oliveira Salazar”[40]. Este documento informa que é acompanhado pelo requerimento de Bárbara Virgínia que pede um subsídio para a realização de filme sobre a organização que em Portugal luta contra a lepra, que não consta do processo.

Porém, só esta indicação é suficiente para se perceber que Salazar pretendia apoiar o projeto. Contudo, nos pedidos de subsídio para a realização de filmes do arquivo do Fundo do Cinema Nacional, que contém por exemplo o pedido para Anto, nada consta sobre este projeto. O que lhe terá acontecido e porque não terá visto a luz do dia, já que parece estar tão bem encaminhado?

Até que ponto é que a realidade destes dois filmes contribuiu para a cineasta abandonar Portugal? A sua profissão declarada na ficha consular de entrada no Brasil – realizadora cinematográfica – queria dizer que tencionava seguir essa carreira?

Fig.6 – Ficha consular de qualificação para entrada no Brasil, datada de 31 de julho de 1952[41].

Fig. 7 – Verso da ficha consular indicando que desembarcou a 13 de agosto de 1952[42]

Vida no Brasil

Depois de assistir a um dos seus espetáculos em Lisboa, no S. Luís, o empresário brasileiro Assis Chateaubriand convida Bárbara Virgínia a trabalhar no Brasil.

Também jornalista e escritor, Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello é um magnata na área das comunicações, proprietário de jornais e revistas, emissoras de rádio e televisão. É considerado como o responsável pela introdução da televisão no Brasil, e era dono da primeira emissora, a TV TUPI, onde Bárbara Virgínia começa a trabalhar.

Bárbara Virgínia, cujo pai morrera em 1945, vai para o Brasil com sua mãe, figura que nunca a abandona e que considera ser sua conselheira. As fotografias que apresenta nas fichas consulares em 1952 e 1959 são muito diferentes, exibindo a primeira o recato da mãe de família portuguesa e a segunda a influência de vários anos já vividos no Brasil.

Fig. 8 – Ficha consular de qualificação para entrada no Brasil da mãe de Bárbara Virgínia, quando se desloca a primeira vez ao país, ainda temporariamente[43].

Fig. 9 – Ficha consular de qualificação para entrada no Brasil da mãe de Bárbara Virgínia, quando se desloca permanentemente, em 1959[44].

A colaborar com a Rádio e TV TUPI, a atriz estreia-se em S. Paulo no Teatro Cultura Artística, logo em 1952.

Em outubro desse ano a Ilustração Brasileira publica uma foto autografada com a seguinte legenda: “Barbara Virgínia em São Paulo: a aplaudida cantora e declamadora portuguesa, atualmente em São Paulo de onde nos enviou a amável saudação aqui reproduzida”[45].

Dá espetáculos de declamação por todo o Brasil, recebendo o prémio de Teatro Declamado e o prémio Carlos Alves de Poesia Declamada, ambos em 1957, entregues pela Rádio e TV TUPI.

Pelo caminho abriu um restaurante com a mãe, em S. Paulo, chamado Aqui é Portugal.

Casa em 1963 com Leopoldo Moreira de Freitas[46] (e não com alguém com os apelidos Fernandes Vilela Alves, como tem sido divulgado[47]), casamento do qual nasceu uma filha, chamada Bárbara Virgínia.

Depois do casamento passa a trabalhar só em rádio, sem exposição pública da imagem, a pedido do marido, que passado algum tempo também a convenceu a deixar a rádio, como a própria conta na já mencionada entrevista. Verifica-se, pois, que é uma mulher já longe da jovem que desafiou a família para ser atriz e estar em palco.

Porém, em resultado da sua participação em inúmeros programas de rádio surgem vários livros sobre etiqueta e estar social:

A Mulher na Sociedade: Manual Prático e Ilustrado de Charme e Distinção, Edições Paulinas, 1972.

Poder Pode… Mas Não Deve, Edições Loyola, 1986.

Comportamento: Dicas Para o Executivo Ter Sucesso, Edições Loyola, 1992.

Etiquetas Sem Etiqueta: Só Para Teenagers Dicas de Relacionamento Pessoal, Edições Loyola, 1993

Seu Comportamento, Seu Sucesso, Edições Loyola, 1996.

Fig. 10 – Capa da 1ª edição do livro Poder pode, mas não deve.

Bárbara Virgínia fica viúva em 2008, quando Leopoldo morre aos 73 anos[48]. Está enterrado no cemitério de Morumbi, ao lado da mãe da declamadora, que faleceu a 14 de novembro de 1979[49].

Bárbara morreu a 7 de março de 2015, com 91 anos de idade, em S. Paulo e os seus biógrafos dizem que está enterrada no cemitério do Morumbi. Porém, na quadra 14 (Q.XIV), sector 8, sepultura nº 1406, à data de outubro de 2022 apenas estavam os restos mortais de sua mãe e marido[50].

Fig. 11 – Bárbara Virgínia durante a entrevista a William Pianco e Ana Pereira, em 2009.

Prémio Bárbara Virgínia

No ano em que Bárbara Virgínia morreu, a Academia Portuguesa de Cinema decidiu criar um prémio com o seu nome “para homenagear mulheres que tenham contribuído de forma notável para o cinema português. Ao atribuir-lhe o nome de Bárbara Virgínia, relembramos e homenageamos a primeira mulher a realizar um filme de ficção em Portugal em 1946, com apenas 22 anos, tendo sido também declamadora de poesia, atriz de teatro e de cinema, apresentadora de programas de rádio, escritora e assistente de produção”[51].

Fig. 12 – Estatueta do Prémio Bárbara Virgínia[52].

Apontamento final

Podíamos pensar que a jovem que se destaca ao realizar um filme em plena ditadura em Portugal, com apenas 22 anos, não conseguindo os apoios que pretendia para os dois projetos que apresentou, levaria a sua garra para o Brasil, onde obteria sucesso. Porém, o sucesso da sua vida só em parte foi concretizado e não foi no cinema.

Continuou a fazer o mesmo que fazia em Portugal, declamar, numa vida certamente cansativa que a obrigava a percorrer um imenso país. Quando surge a oportunidade adota uma vida de família, casando, deixando os palcos e a vida de exposição pública, já que o marido lhe pede que deixe também os microfones da rádio: “meu marido adorava ver-me trabalhar nos espetáculos, mas como mulher casada, ele era contra”[53].

A entrevista que William Pianco conduz mostra uma Bárbara Virgínia com as marcas do tempo, um pouco confusa, sem responder às perguntas que são colocadas e dando respostas diferentes em momentos diferentes. Bárbara afirma ter realizado o filme porque Raul Faria da Fonseca morreu, o que não aconteceu, pois o realizador morreu num acidente de aviação em 1950, em Angola, durante as filmagens de Epopeia da Selva[54].

Na entrevista Bárbara diz que quando foi convidada para realizar o filme a mãe lhe deu toda a força (p. 4) e a seguir afirma que a mãe a tentou dissuadir (p. 7). Menciona também que o pai foi embaixador em alguns locais, o que não corresponde à verdade.

Ricardo Vieira Lisboa faz uma exaustiva recolha de artigos e entrevistas a Bárbara Virgínia, quando ainda vivia em Portugal, onde se lhe pergunta o que prefere, o teatro ou o cinema, e as respostas vão variando, entre o primeiro, o segundo, ou igual preferência[55], sem haver uma resposta firme. Se a realização fosse uma vocação, e tendo em conta o que significa o festival de Cannes para qualquer cineasta, teria faltado à sua estreia naquele local?

Nas entrevistas que deu afirma sempre que não queria nada com a política, e que até sua mãe lhe chamou a atenção para não ir por aí. Contudo, para além do ato da realização de Três Dias Sem Deus por uma mulher ser um ato político no contexto da altura, o filme sobre os órfãos também o ser e o agora descoberto projeto sobre a lepra em Portugal ser visto como um veículo de propaganda, enquadra Bárbara Virgínia numa dimensão política que até agora não lhe foi atribuída.

Ainda assim, e em conclusão, o que a família não conseguiu fazer em Portugal, quando era uma mulher jovem com vida pública artística, conseguiu o marido, no Brasil, ao afastá-la dos palcos e dos microfones dos programas de rádio.

Mas o mérito de ter sido a primeira mulher a realizar uma longa metragem sonora em Portugal, ninguém lho retira.

Bibliografia

Fontes

Arquivo Nacional Torre do Tombo – ANTT

ANTT/ 4ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa, 01.07.1916, Livro 028-C, Folio 253.

ANTT/ “Anto”. Secretariado Nacional de Informação, IGAC, cx. 692, proc. 4, 124 folhas.

ANTT/ Ofício a remeter um requerimento de Barbara Virgínia, a solicitar a concessão de um subsídio, para a realização de um filme, denominado “Vidas que Renascem”. Secretaria-Geral da Presidência do Conselho de Ministros, Gabinete do Presidente, cx. 182, proc. 1340/106, n.º 1.

Arquivo da Secretaria Geral do Ministério das Finanças – ASGMF

ASGMF/ Joaquim Costa, Processo DGCP/16/001/6872, Código de referência PT/ACMF/DGCP/16/001/6872.

Arquivo do Museu Nacional do Teatro

Fotografia autografada de Bárbara Virgínia, nº de inventário MNT 21137. Disponível em http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=1083011

Estudos, periódicos e vídeos

A insinuante Barbara Virgínia na cena “Aqui Portugal” (1947). [S.l.: s.n.], [postal] 16×10 cm. Biblioteca Nacional de Portugal, https://purl.pt/28210.

Ancestry, Rio de Janeiro, Immigration cards (1900-1965).

“Bárbara Virgínia” (s/d1). In CINEPT, Cinema Português, disponível em http://www.cinept.ubi.pt/pt/pessoa/2143690457/B%C3%A1rbara+Virg%C3%ADnia

Barbara Virgínia” (s/d2), in Festival de Cannes, disponível em https://www.festival-cannes.com/en/artist/barbara-virginia

“Bárbara Virgínia em São Paulo”. Ilustração Brasileira, ano 18, nº 210 (outubro), p. 28, disponível em http://memoria.bn.br/pdf/107468/per107468_1952_00210.pdf

“Cine Cartaz” (s/d). Público, disponível em https://cinecartaz.publico.pt/filme/aqui-portugal-320318

CRUZ, José de Matos (2002). Cinema em Angola. Luanda: Edições Chá de Caxinde

Diário Oficial do Estado de São Paulo, 9 de outubro de 1963, p. 58.

“Echos et Nouvelles” (1947). La Gazette provençale, (7 janvier), p. 2.

Exposição do Mundo Português” (s/d). In Infopédia. Porto: Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.pt/$exposicao-do-mundo-portugues

Folha de S. Paulo, 18 de fevereiro de 2008.

HENRIQUES, Carlos A. (2018). “Bárbara Virgínia (1923-2015): Realização no Feminino”. In Colorize media, disponível em http://www.colorizemedia.com/detalhe_biografia.php?pag=34

“Homenagem a Bárbara Virgínia” (2015). In Olhares do Mediterrâneo 2015 [vídeo]. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=pskD9sJxpgI

“Le Festival de Cannes se termine aujoud’hui” (1946). L’Aurore, (6 octobre), p. 3

LISBOA, Ricardo Vieira (2016). “Bárbara Virgínia, um caso insólito no cinema português” [post em blogue]. In À pala de Walsh, disponível em https://apaladewalsh.com/2016/11/barbara-virginia-um-caso-insolito-no-cinema-portugues/

LISBOA, Ricardo Vieira (2016a). O restauro cinematográfico como recoreografia: o caso de “Três Dias sem Deus” de Barbara Virgínia. Lisboa: Instituto Politécnico de Lisboa, Escola Superior de Teatro e Cinema

LISBOA, Ricardo Vieira (2018). TEXTOS & IMAGENS 23. Cinemateca, disponível em https://www.cinemateca.pt/Cinemateca/Destaques/Textos-Imagens-23.aspx

LISBOA, Ricardo Vieira (2021). Três Dias sem Deus, 1946, Bárbara Virgínia. Lisboa: Cinemateca, Disponível em http://www.cinemateca.pt/CinematecaSite/media/Documentos/Tres-Dias-sem-Deus-Press-Kit.pdf

“O filme da «simpatia»” (1946). Filmagem, 3ª s., nº 64, (abril), p. 5.

PIANCO, William & PEREIRA, Ana Catarina (2016). Bárbara Virgínia: A primeira realizadora de uma longa-metragem em Portugal. International Journal of Cinema, nº 2, disponível em //journal-cinema.org/index.php/IJC/article/view/28

“Prémio Bárbara Virgínia” (s/d). In Academia Portuguesa de Cinema, disponível em https://www.academiadecinema.pt/premios-barbara-virginia/

QUINTAS, António (2016). “Morreu a primeira realizadora portuguesa”. In RTP, disponível em https://www.rtp.pt/cinemax/?t=Morreu-a-primeira-realizadora-portuguesa.rtp&article=12033&visual=2&layout=8&tm=78

RIBEIRO, António Lopes (realiz.) (1940). A Grande Exposição do Mundo Português [vídeo], disponível em https://www.youtube.com/watch?v=2QdO6sXEoTI

SEQUEIRA, Luísa (2017). Quem é Bárbara Virgínia? [vídeo], disponível em http://www.doclisboa.org/2017/filmes/quem-e-barbara-virginia/

SEQUEIRA, Luísa & SEQUEIROS, Paula (2017). “Bárbara Virgínia: cineasta precursora em Portugal”. IX Congresso Português de Sociologia: Portugal, território de territórios, disponível em https://associacaoportuguesasociologia.pt/ix_congresso/docs/final/COM0445.pdf

SEQUEIROS, Paula & SEQUEIRA, Luísa (2017). “Esquecer Bárbara Virgínia? Uma cineasta precursora entre Portugal e o Brasil”. Comunicação e Sociedade, vol. 32, pp. 331 – 352 doi: 10.17231/comsoc.32(2017).2765.

Túmulo da atriz Bárbara Virgínia | Cemitério do Morumbi, [vídeo]. Youtube, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=B2gScOkV3tE

“Um acontecimento: pela primeira vez em Portugal e na história do cinema uma senhora dirigiu um filme” (1946). Diário de Lisboa (16, agosto), p. 4.

  1. “Exposição do Mundo Português” (s/d).

  2. O monumento atual foi construído só em 1960, o que esteve patente na exposição foi outro.

  3. O sufrágio universal em Portugal só foi alcançado com o 25 de Abril de 1974.

  4. RIBEIRO, 1940.

  5. A açoriana Amélia Borges Rodrigues está creditada como realizadora de três filmes entre 1934 e 1937. Cf. LISBOA, 2016a, p. 92.

  6. QUINTAS 2016.

  7. ANTT / 4ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa, 01.07.1916, Livro 028-C, Folio 253.

  8. LISBOA, 2016.

  9. SEQUEIRA & SEQUEIROS, 2017.

  10. ASGMF – Processo DGCP/16/001/6872 Joaquim Costa, Código de referência PT/ACMF/DGCP/16/001/6872.

  11. SEQUEIROS & SEQUEIRA, 2017, p 333.

  12. LISBOA, 2016.

  13. SEQUEIRA & SEQUEIROS, 2017, p.6.

  14. PIANCO & PEREIRA, 2016, p. 3.

  15. PIANCO & PEREIRA, 2016.

  16. Não se sabe quando aconteceu esta digressão. Os biógrafos em Portugal apontam o ano de 1949, mas a própria afirma ter sido já quando estava no Brasil.

  17. Museu Nacional do Teatro, nº de inventário MNT 21137.

  18. LISBOA, 2016; HENRIQUES, 2018.

  19. PIANCO & PEREIRA, 2016.

  20. “Bárbara Virgínia” (s/d1).

  21. Entrevista a Bárbara Virgínia realizada por William Pianco e Ana Catarina Pereira, em 2009, “Homenagem a Bárbara Virgínia” (2015). In Olhares do Mediterrâneo 2015 [vídeo]. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=pskD9sJxpgI

  22. “O filme da «simpatia»” (1946). Filmagem, 3ª s., nº 64, (abril), p. 5.

  23. “Um acontecimento: pela primeira vez em Portugal e na história do cinema uma senhora dirigiu um filme” (1946). Diário de Lisboa (16, agosto), p. 4.

  24. Idem.

  25. Imagem captada do vídeo Quem é Bárbara Virgínia?, de Luísa Sequeira, exibido no DocLisboa em 2017, e disponível em http://www.doclisboa.org/2017/filmes/quem-e-barbara-virginia/

  26. LISBOA, 2018.

  27. Portugal faz-se representar também com o filme Camões, de Leitão de Barros.

  28. “Le Festival de Cannes se termine aujoud’hui” (1946). L’Aurore, (6 octobre), p. 3.

  29. Citado em LISBOA, 2016a), p. 94.

  30. Idem, p. 133.Os textos que saíram na crítica portuguesa podem ser encontrados neste livro, a partir da página 118.

  31. Idem, pp. 136-137.

  32. LISBOA, 2021.

  33. “Barbara Virgínia” (s/d2).

  34. LISBOA, 2021, p. 4-5.

  35. “Cine Cartaz” (s/d).

  36. A insinuante Barbara Virgínia na cena “Aqui Portugal“, 1947.

  37. “Echos et Nouvelles” (1947). La Gazette provençale, (7 janvier), p. 2.

  38. ANTT / “Anto”. Secretariado Nacional de Informação, IGAC, cx. 692, proc. 4, 124 folhas.

  39. ANTT / Ofício a remeter um requerimento de Barbara Virgínia, a solicitar a concessão de um subsídio, para a realização de um filme, denominado “Vidas que Renascem”, datado de 2 de fevereiro de 1951. ANTT, Secretaria-Geral da Presidência do Conselho de Ministros, Gabinete do Presidente, cx. 182, proc. 1340/106, n.º 1.

  40. Idem.

  41. Ancestry, Rio de Janeiro, Immigration cards (1900-1965). A data apontada por Marisa Vieira, de 2 de agosto de 1951, como de chegada ao Brasil não pode ser correta, pois apenas a 8 de agosto desse ano foi expedido o passaporte. A informação de Marisa Vieira foi consultada em PIANCO & PEREIRA, (2016).

  42. Ancestry, Rio de Janeiro, Immigration cards (1900-1965).

  43. Ancestry, Rio de Janeiro, Immigration cards (1900-1965). No verso indica a mesma data de chegada da filha, 13 de agosto de 1952.

  44. Idem.

  45. “Bárbara Virgínia em São Paulo”. Ilustração Brasileira, ano 18, nº 210 (outubro), p. 28.

  46. Leopoldo nasceu em Pocos de Caldas, Estado de Minas Gerais, em 18 de julho de 1934, filho de Murilo Moreha de Freitas e de Alla Rosa Montemurro Freitas, assim diz o edital de casamento com Maria de Lourdes Dias Costa, datado de 4 de outubro de 1963 e publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo, 9 de outubro de 1963, p. 58.

  47. LISBOA, 2016; HENRIQUES, 2018.

  48. O seu falecimento é anunciado na Folha de S. Paulo, 18 de fevereiro de 2008, na seção de necrologia.

  49. Ver vídeo sobre Bárbara Virgínia e o local do seu enterramento “Túmulo da atriz Bárbara Virgínia | Cemitério do Morumbi”.

  50. Idem.

  51. “Prémio Bárbara Virgínia” (s/d).

  52. HENRIQUES (2018).

  53. PIANCO & PEREIRA, 2016, p. 6.

  54. CRUZ, 2002, p. 11

  55. LISBOA, 2016a, pp. 145-146.

Edição: Novembro 2023

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A caminho do conforto do Inverno: 10 inéditos, cavalos, discoteca Lux, política na universidade, TOC, fobias, genocídio, freelancers intelectuais, teses improváveis, computadores da antiguidade, diários esquecidos, filmes de terror e mulheres.

Começamos com um excelente trabalho de Ana Vieira Vicente, que, directamente do mundo rural, ensina às universidades e seus participantes algo que escapa ao conhecimento da maioria das criaturas urbanas: como é e como ter e criar um cavalo. Quanto custa adquirir, quanto custa manter, o que precisa e não precisa, como se compara com um automóvel ou com um cão em todos esses aspectos, quão acessível é a nível económico, quão comum é a nível social, e muitas mais coisas que tais sobre a sua vida e personalidade. Leiam e aprendam!

Depois, Ricardo Fortunato aborda, numa crónica, a actualidade de micro- protestos no campus universitário ou de jovens em idade universitária, analisando várias proposições falaciosas: sobre como ser-se jovem não implica pugnar por transformação social; quem está na universidade não deve ser necessariamente jovem; e como o pensamento crítico não deve levar por si só e necessariamente a transformação social.

A propósito dos 25 anos da famosa e muito badalada discoteca lisboeta Lux-Frágil, um dueto de intervenções, de Ricardo Fortunato e do músico e etnomusicólogo Vítor Rua, ambas de um ponto de vista semelhante: o primeiro sobre quem, apesar de residir em Lisboa, apreciar música electrónica e gostar de sair à noite, está-se nas tintas para a icónica e badalada discoteca; e o segundo sobre a destrinça possível entre a feira de vaidades superficiais da elite e o espaço da vanguarda cultural que representa, não esquecendo toda a história por detrás.

Depois, mais um artigo de Luís Filipe Coelho com perspectivas filosóficas significativas aplicadas desta vez ao tópico da fisioterapia, pegando de modo concreto no método de Pilates e na sua aplicação à condição da raquialgia.

De seguida, Itélio Muchisse, directamente de Moçambique, dá-nos uma análise sobre as mudanças nas sociedades africanas e em Moçambique em particular quanto à crescente dependência material e conceptual dos ofícios intelectuais, nomeadamente na academia.

Eurico de Carvalho traz-nos um breve texto sobre o decréscimo de qualidade operativa, de estatuto económico e de reputação social da carreira de professor do ensino público, desde há cinquenta anos para cá.

E João Miguel Santos dá-nos uma breve apresentação da escritora contemporânea Seomara da Veiga Ferreira, autora de romances históricos, a que acresce um corpo teórico à respectiva obra.

Ainda, a costumeira e bem-vinda incursão de Cláudia Zafre por itens musicais raros e exóticos, pegando numa peculiar e onírica cantora folk dos anos setenta, uma banda new wave dos oitenta, e uma obscura banda de rock tuareg hipnótico.

Por último, Sofia Alexandra Carvalho, publicando em paralelo em jazz.pt, fala-nos de uma famosa cantora. De “Strange Fruit” a “God Bless the Child”: recordamos uma das vozes mais marcantes e inconfundíveis do jazz, Billie Holiday (1915-1959).

O Distúrbio Obsessivo-Compulsivo, a Criatividade e o Direito à Fobia

Destacámos com prazer um dos distúrbios neuróticos mais associados à criatividade, mais bizarros, mais lúcidos, cujo carácter simples esconde tanto características de raciocínio complexo como de profunda agonia para o seu portador. Trata-se do transtorno da obsessão-compulsão, com incidência sobre cerca de 2,5% da população no ocidente, caracterizado de modo geral pela necessidade imperativa de efectuar pequenas repetições de actos físicos e de actos mentais, particularmente mas não só de rituais de higiene (uma das formas mais comuns e mais estereotipadas), rituais quotidianos, gestos e acções importantes, etc. Alguns exemplos são encontrados em figuras históricas da criatividade artística e científica, como Samuel Johnson, viciado em repetir gestos aquando da transposição de um espaço para o outro (uma porta, uma fenda no pavimento, etc.); David Lynch, focado em comer exactamente a mesma refeição todos os dias durante mais de 7 anos e por vezes interessado em conduzir ao longo do quarteirão até encontrar uma matrícula com capicua (para começar bem o dia, diz); Nikolas Tesla, fascinado com contagens de passos, mastigações, travessias, etc., em geral associadas ao número três ou a múltiplos (um número muito comum para a condição); e Howard Hughes, o caso mais conhecido, que terminou na dramática reclusão e incapacidade de higiene básica mas que começou discreto, também associado a contagens, separações meticulosas entre objectos, perfeccionismo e lavagem de mãos e corpo. É uma condição muito curiosa: ao longo do padecimento da mesma aparentemente o sujeito mantém-se inteiramente lúcido, ou seja, não ocorre aquilo a que se chama uma psicose, o alheamento da realidade através de efabulações ou alucinações sensitivas, mas mesmo dentro dessa lucidez e, se calhar, fortalecido paradoxalmente pela mesma, existe a compulsão irresistível da repetição desses pequenos gestos ou pensamentos, desde os mais coloquiais aos mais impactantes. A sua ligação à criatividade parece inegável e de facto talvez seja interpretável tanto através do perfeccionismo como do excesso de atenção a pequenos nadas, disposições necessárias ao trabalho bem feito. Vícios mentais esse que, porém, apesar de se bem direccionados serem vitais para uma boa obra artística ou técnica, resultam, se deixados sem controle, numa evidente agonia extrema para o seu portador e eventualmente na incapacidade de realizar uma vida mundana normal. Deixamos aqui esta que é, no fundo, uma homenagem a esta intrincada disposição mental.

Depois, abordámos confusões conceptuais no discurso público, e até versando sobre matéria legislativa, sobre o direito a ter “fobias“. Aparentemente, no argumentário académico contemporâneo, particularmente no universo anglo- saxónico mas também fora do mesmo, e também fora do universo académico, no registo coloquial de conversas intelectuais entre pessoas, uma certa “carta“ recorrente tem sido a de acusar o interlocutor de ser “qualquer-coisa-ista“ ou “fóbico“, querendo dizer que as suas opiniões têm determinadas características, em geral de indivíduos ou grupos, como possuindo uma conotação negativa a partida e portanto resultando isso em o seu argumento estar minado à partida. Ora isto é falso por duas razões, ou melhor, de duas maneiras: primeiro, se for de facto o caso, não é por alguém ter uma opinião negativa sobre um conjunto de características que verá, por razões de ordem moral, a forma lógica do seu argumento imediatamente invalidada; segundo, na maior parte das vezes que esse “trunfo“, que mais não serve do que como término artificial da conversação, é usado, é usado sem qualquer sentido, ou seja, atribuindo ao interlocutor uma posição generalista e preconceituosa que o mesmo não está de todo a ter. De qualquer modo, o facto que convém lembrar é o seguinte: numa sociedade aberta, numa democracia de pleno direito civil da liberdade de opinião e de expressão, qualquer pessoa tem o direito de ter as opiniões negativas sobre indivíduos, grupos de indivíduos, sobre características de indivíduos e sobre o que bem entender, mesmo que essas opiniões se aventurem no terreno do absolutamente pouco recomendável ou aberrante. Isto inclui racismos, etnocentrismos, homofobia, machismo, antissemitismo, tudo. Inclui até a versão de modo geral aquilo que alguns chamam “estupidez da religião“, como alguns ateus, muito tantos militantes, frequentemente referem (serão “teofóbicos”?) ou a opressão inerente à existência do estado que os anarquistas ou algumas variantes de liberalismo económico radical considerariam como absolutamente negativa (são “estadofóbicos”?)´. Ou seja, o ideal talvez possa bem consistir em, depois de sujeito a uma acusação dessas (“isso é fascista!” “Isso é homofóbico” “isso é antisemitico!”), o autor se confesse desde logo partidário de todos esses estados mentais e mais alguns, mesmo que tal não seja verdade (validando assim a fantasia: “aos malucos nunca se diz que não”), replicando de seguida: “será que a partir de agora podemos ter uma conversa séria”? Por último, deixamos, para queda final na espiral do disparate da perda de tempo de todo este onanismo moral, a melhor de todas as fobias: a FOBOBIA: o medo de ter fobias! Consultem em https://embracechangetherapy.com/2020/10/19/phobias/ ou noutras paragens.

Quatro Teses Improváveis e Quatro Computadores Antigos

Apresentámos ainda, pela graça, quatro teses académicas improváveis de pessoas públicas, duas portuguesas e duas estrangeiras. A primeira é a de um hoje famoso chefe de claque de futebol, Fernando Madureira, commumente conhecido como o “macaco”, em gestão desportiva, versando sobre o tema da relação entre claques e instituições desportivas na vertente do marketing; a segunda é do político André Ventura, em direito, sobre o tema da reforma do sistema de justiça criminal e que tem, como aliás não é invulgar que tenha na obra de qualquer pessoa, contradições com posições políticas actuais suas, pois as teses não reflectem necessariamente “opinião”; depois, a do comediante Rowan Atkinson, pai da imortal personagem Mr. Bean, em engenharia electrotécnica, sobre sistemas de controle de calibragem automática; e, por último, Brian May, guitarrista da lendária banda Queen, em astrofísica, sobre um fenómeno luminoso terrestre conhecido como as luz zodiacal. Destas dissertações, umas melhores outras piores, poderão encontrar em cima as ligações para as mesmas.

Destacámos também quatro experiências na história europeia que preludiaram o grande avanço, a grande efusão, a grande orgia das máquinas lógicas no final do século XX e que até hoje nos acompanham, dentro dos nossos bolsos. Em primeiro lugar, por ordem cronológica, o mecanismo de Antikythera, um computador analógico da antiguidade supostamente projectado por Arquimedes e capaz de produzir previsões sobre eclipses e movimentos estelares com grande antecipação, descoberto em 1901, nas ruínas de um naufrágio. Depois, o místico maiorquino Ramon Lull, pioneiro da computação, terá divisado um computador, possivelmente apenas a partir de enunciados e não através da construção mecânica, capaz de só produzir afirmações verdadeiras acerca da doutrina da fé. Uma proposta certamente louvável. Ainda, a máquina de Alan Turing, matemático inglês, construída durante a segunda guerra mundial, também um computador analógico capaz de descodificar as mensagens alemãs. Por último, a máquina-logro com o anão que sabia jogar muito bem xadrez, do século XVIII, e esta vem fora da ordem cronológica porque se trata de uma perfeita aldrabice: o mechanical turk, ou simplesmente the turk, foi construído na Áustria e realizou uma tournée por toda a Europa por várias décadas, tratando-se de uma suposta máquina de xadrez capaz de derrotar qualquer oponente. Porém, a sua dimensão permitia albergar um humano lá dentro. Era esse o segredo. Por detrás de todos os computadores e de toda a inteligência artificial que está a ter, aparentemente, a génese da sua grande dimensão, encontra-se sempre uma mente humana que concebe os esquemas? Fica a pergunta.

Correcções de Facto Sobre o Uso dos Termos “Genocídio”, “Apartheid” e “Ocupação/Colonização”

Ana de Oliveira Sérgio mostra-nos algumas correcções essenciais sobre “genocídio”, “apartheid” e “colonização”, terminologia frequente nas últimas semanas, e, na verdade, desde há anos sujeita a grandes abusos no âmbito do conflito entre árabes e judeus na zona da Palestina. Apesar de recentemente vozes mais sãs, entre as quais as dos insuspeitos Barack Obama e Bernie Sanders, terem correctamente sublinhado como a situação do conflito judaico-árabe é complexa e não tem respostas fáceis nem absolutos inocentes de parte a parte, vemos com preocupação crescente o uso não factual dos termos acima citados para reflectir a posição do estado de Israel sobre o estado falhado da Palestina e respectivas populações árabes, maioritariamente reflectido numa enxurrada violenta de propaganda transmitida tanto pela comunicação social como até mesmo por agências internacionais como a ONU e derivadas, propaganda essa que, certa ou errada, coincide exactamente com os actuais objectivos do abjecto grupo terrorista Hamas, financiado pelo Irão: retratar a situação em Gaza em particular e na restante Palestina em geral como de “genocídio”, de “apartheid” e de “colonização/ocupação”. Ora Israel pode ser muitas coisas mas é preciso apontar que nenhuma destas classificações se adequa em sentido estrito à situação actual e é duvidoso que alguma vez se tenha adequado. Vejamos como. Em primeiro lugar, a melhor descrição, ainda que imperfeita, para o que se passa nas terras da região da Palestina no seu todo, incluindo Israel, talvez seja, desde há 100 anos, a de guerra civil. Actualmente essa mesma guerra civil consubstanciou-se na constituição de um estado de pleno direito, Israel, e num estado falhado, a Palestina. Existem vítimas de parte a parte dessa guerra, que são até substancialmente maiores do lado palestiniano (facto ao qual não será alheio o desrespeito pela vida dos próprios da parte da cultura e das cúpulas militares da região): mas não atingem números sequer próximos daquilo que se pudesse considerar um genocídio, tanto que a população palestiniana quadruplicou em cinquenta anos. Seria um genocídio muito estranho. Além disso, consta que algures entre 300.000 a 500.000 pessoas morreram nos bombardeamentos aliados à Alemanha na fase final da segunda guerra. Não consta que alguém tenha alguma vez concebido que se tratasse de um “genocídio do povo alemão“. Quanto ao “apartheid”, refere-se, de modo genérico, aos controles fronteiriços apertados instituídos por Israel em redor das fronteiras de Gaza e dentro da própria Cisjordânia decorrentes dos constantes ataques terroristas a civis de que vinha a ser alvo desde há décadas — e que, efectivamente, cessaram em termos do bombismo suicida mas que continuam com grande regularidade em termos de ataques com rockets artesanais. Só para terem a noção do que é a vida num estado assim. Porém, Gaza e a Cisjordânia têm poderes políticos próprios, o que seria estranho para uma situação de efectivo “apartheid”. Tal classificação porém é ainda mais abstrusa se aplicada ao interior do próprio estado de Israel, que é uma democracia plena sob quase todos os critérios: tem partidos, oposição, eleições, tribunais independentes, pesos e contrapesos, 20% de população árabe com representação parlamentar e direito de voto, etc. É completamente absurdo categorizar o interior do estado de Israel, e os cerca de 3 milhões de árabes que lá vivem, como existindo numa situação de “apartheid”. Por último, a ideia de “ocupação/colonização” está relacionada com três pontos: os já referidos controles fronteiriços apertados e o crescimento de colonatos em terras alegadamente pertencentes a árabes, aos ganhos de território nas guerras de 1948 e 1967, em que Israel foi violentadamente atacada pelos vizinhos árabes e ganhou a guerra, e, talvez este último ponto o mais importante, a noção generalizada no mundo árabe de que os judeus não têm o direito de estar ali.

Nada disto é admissível: em Gaza neste momento não existem colonatos e na cijordânia a situação está a ser permanentemente negociada; os ganhos de território são inteiramente legítimos, dado que os vizinhos árabes jogaram as suas cartas da guerra e perderam, e referem-se maioritariamente a terras que são basicamente desertos — e que Israel consegue transformar em zonas prósperas por ser um estado funcional — e os judeus têm todo o direito de estar ali pois sempre estiveram, embora desde inícios do século XX a sua população tenha aumentado imenso, o que nunca foi aceite pelas culturas árabes da região, maioritariamente tribais e racistas, e têm todo o direito a terem um estado em que os próprios árabes, dentro dele, têm mais direitos e melhor vida do que nos estados falhados em redor. Estes são os factos. Desafiamos qualquer pessoa a apresentar argumentos em contrário, notando que os mesmos não podem contrariar preceitos básicos da lógica (p.ex. não existe “genocídio” quando uma população quadruplica em cinquenta anos, não existe “apartheid” quando os três milhões de árabes em Israel têm direito de voto, representação parlamentar e juízes no supremo tribunal, e não existe “colonização” quando sempre existiram comunidades judaicas de cultura mais ou menos homogénea naquela região).

Desejamos que todos reflictam com mais cuidado antes de opinarem sobre um conflito tão complexo em muitos aspectos mas que certamente não merece nenhum dos qualificativos ilógicos que citámos, e pensem bem se ao fazê-lo não estão simplesmente a repetir propaganda que advém das fontes mais odiosas — ideologias islâmicas fanáticas e aberrantes que pretendem desde a extinção do estado de israel até à islamização forçada do mundo — maioritariamente financiadas por potências políticas como Irão e respectivos satélites em redor, cujos valores são a quase total antítese das democracias liberais e dos direitos que nelas vigoram, mundo no qual todos habitamos e reconhecemos como nosso e próprio para as nossas actividades.

A Wikipédia e o Viés Político e Duas Ideologias “Modernaças”

Notámos que uma das fontes de informação mais populares e mais usadas no mundo, a extraordinariamente diversificada Wikipédia, depende, como todas as obras humanas dependem, de mãos e cabeças que podem ser susceptíveis de parcialidade. Isso, na verdade, é inteiramente natural, e talvez represente um problema com o projecto enciclopédico no seu todo, postulado por Diderot em 1751, animado pelo espírito iluminista da imparcialidade e da verdade científica; mas essa dificuldade ainda fica mais acrescida perante o projecto de “edição em comunidade” da proposta wiki, longe da autoria/curadoria individual. O facto de os entusiastas deste projecto estarem em grande parte ligados às aéreas da tecnologia, e o facto de o estado da Califórnia ser hoje mais radicalmente progressista politicamente do que o resto do mundo, leva a episódios muito duvidosos quanto a nalgum conteúdo lá exposto. Enunciemos dois: os artigos referentes a “marxismo cultural“ e a “teoria da substituição“, dois tópicos que são em grande medida definidos como “teorias de conspiração de extrema direita“, quando, no caso do primeiro, a escola de Frankfurt é literalmente a aplicação de preceitos da teoria marxista a aspetos da cultura em geral, escola essa que existiu e que tem e teve a sua influência nas academias; e, no segundo caso, que existe uma mudança demográfica em termos de composição étnica completamente objectiva e estatisticamente comprovável em relação à população ocidental desde há 70 anos para cá, para o bem e para o mal, sem entrar em juízos de valor. Note-se que estes artigos já passaram por várias modificações, entre as quais a inclusão mais explícita da escola de Frankfurt, no primeiro, e, no segundo caso, tanto nesse artigo como no que diz respeito a “White genocide conspiracy theory”, nota-se a ausência da mudança demográfica no ocidente como um tópico sério e válido por si só. Em suma, “marxismo cultural” na academia e no discurso público não é uma teoria da conspiração, é um desenvolvimento presente e reconhecível da história das ideias; e a “teoria da substituição” só é uma teoria quando se especula sobre se existe uma intencionalidade que orquestre a mesma, pois a mudança demográfica por si só é perfeitamente evidente. Note-se que, ao contrário do que julgam os “conspiradores” que crêem na conspiração ou os “contra-conspiradores” que não crêem, na maior parte dos casos coloquiais esses termos são usados na sua acepção factual e não na sua acepção especulativa.

Depois, neste período turbulento e por vezes histérico da presente situação política em Portugal, situação essa que é perfeitamente normal, escolhemos não falar do óbvio mas preferir destacar duas forças políticas recentes, uma delas partido. Têm-se confundido, por atraírem jovens que se julgam moderados mas que muitas vezes são donos de um fanatismo a respeito das próprias ideias, frequentemente ingénuas, que dificulta o diálogo. São elas o Volt Portugal e a @ASDprojeto. Ricardo Fortunato comenta esse tópico. O primeiro, o Volt, é já partido e pretende configurar-se como força trans-europeia, tendo nascido no UK aquando da saída deste da UE, pugnando assim pelo federalismo europeu, além de uma mescla de políticas integralistas de esquerda moderna, algumas delas contraditórias, entre as quais digitalização das economias e dos serviços, economias verdes, políticas de integração de imigrantes, democracia participativa, etc. O ASD, por seu lado, é uma ligeiramente obscura entidade com presença maioritariamente nas redes sociais e pouco mais, mas possivelmente com ambições de se constituir como movimento cívico mais robusto. Colocamo-los nesta publicação em paralelo porque encontramos muitos pontos semelhantes não só entre a vaga área ideológica de onde emergem mas também da nossa experiência de interacção social com muitos dos seus apoiantes ou militantes, frequente donos daquela arrogância particular dos jovens no início da vida adulta ou a partir do momento em que se encontram capazes de pensar de forma abstracta e cujas ideias e convicções das mesmas parecem mais motivadas por vontade de viver e por impressões momentâneas do que outra coisa mais séria.

Tanto um movimento/partido/ideologia como o outro parecem ser adequados a este tipo de padrão: jovens, ou jovens mentais, que fazem uma espécie de média ou “melhor de popularidade” das ideias mais “na moda“ entre essas classes etárias e mentais conforme cada época e a partir daí se apresentam como os “new kids on the block”. De um modo objectivo, a amálgama de ideias que corresponde a cada um desse movimentos não parece nem mais nem menos perigosa do que aquelas ideias também frequentemente abrangentes, abstractas e contraditórias encarnadas por alguns dos partidos que são commumente encarados como de “extrema direita“ na paisagem europeia e ocidental contemporânea. Ou seja, de certo modo, estes são partidos populistas ou que almejam algum tipo de populismo (fama, sucesso, celebridade, etc…), e que merecem tanta atenção alarmista como as tenebrosas forças recentemente chegadas a eleições e parlamentos na Europa que se costumam designar por “anti-democráticas” quando, no fundo, têm a mesma ideia de democracia destas mais jovens e mais “porreiraças” a democracia, para elas, é aquilo que elas próprias pensam e não mais; e o hábito de conceber, pensar, e tolerar o outro, é algo que ainda não têm. Chamamos portanto a atenção para essas duas manifestações de ideologias políticas contemporâneas muito pouco fundamentadas, baseadas, fundamentalmente, em “juventude” ou, como dizia alguém” possivelmente em “jumentude”, e que, grosso modo, parecem ser, objetivamente, chamarizes de jovens urbanos “modernaços“ que nada mais são do que reciclagem de ideias antigas com alguns chavões. Mas claro: não vamos dizer que são partidos “antidemocráticos“, já que não somos chalupas e não existem quaisquer provas disso, aconselhando também a todos em geral que se abstenham de usar esse epíteto sem substância para o provar.

Mais Novidades na Filosofia e Quatro Diários Esquecidos

Trouxemos mais oito novidades editoriais do mundo da filosofia, sempre com a ajuda da fantástica publicação Notre Dame Philosophical Reviews. Primeiro, Ignorance: A Philosophical Study, de Rik Peelsum, um pequeno tratado sobre uma área neglicenciada da epistemologia analítica, a ignorância, enquadrada no campo designado por agnosticologia. Depois, da famosa filósofa feminista e queer Judith Butler, What World Is This? A Pandemic Phenomenology, sobre questões éticas e políticas relacionadas com esse contexto na contemporaneidade inédito. Ainda, de Ned Block, The Border Between Seeing and Thinking, sobre a ligação da filosofia à realidade. De seguida, Proust’s In Search of Lost Time: Philosophical Perspectives, editado por Katherine Elkins, um volume com ensaios de perspectiva filosófica sobre a magna obra de Proust. Depois, de Craig DeLancey, Consciousness as Complex Event: Towards a New Physicalism, uma re-abordagem de matriz fisicalista ao problema da mente, indicando que se trata apenas de fenómenos mentais muito complexos e na beira do ininteligível. Seguindo-se René van Woudenberg, The Epistemology of Reading and Interpretation, que trata não especificamente do que acontece quando lemos literatura ou filosofia mas sim do que acontece mentalmente quando deciframos uma linguagem visual de signos, ou seja, o bruto acto de ler. Ainda, de Michele Moody-Adams, Making Space for Justice: Social Movements, Collective Imagination, and Political Hope, que tece um argumento sobre como os movimentos sociais contemporâneos são uma prática de inquérito cívico e social necessária. Por último, Mark Wilson, Imitation of Rigor: An Alternative History of Analytic Philosophy, uma abordagem alternativa ao mundo da filosofia analítica e seus postulados, que põe em causa a noção de que o mais importante nas descrições dessa escola, e das ciências exactas ou semi-exactas, seja propriamente o seu conteúdo axiomático.

Ainda na literatura destacámos também o género diarístico, com pouca produção — os escritores e artistas em geral tendem a pensar que são os seus escritos não pessoais, formalizados em géneros consagrados, aqueles destinadas a serem as obras mais importantes, e não propriamente os pensamentos que rabiscam num caderno sem outro critério que não a progressão do tempo — mas com muita popularidade, pensando em particular em quatro autores de importância e reconhecimento inegáveis: Andy Warhol, Anaïs Nin, Sylvia Plath e Frank Kafka. Poderiam também ser mencionadas Virginia Woolf e a famosa adolescente judaica Anne Frank, o que nos lembra como talvez o pouco espaço literário na esfera pública dado às mulheres ao longo da história as empurrou frequentemente para o vazar dessa arte na forma diarística, embora talvez possa existir uma série de factores do carácter especificamente feminino que o favorecem. De qualquer forma, em Warhol temos um aglomerado de vaidades socializantes da Nova Iorque dos anos setenta e oitenta, que até certo ponto entra no registo serializado e bizantino da repetição do conceito “encontrei o Michael Jackson, he looks great, encontrei a Elizabeth Taylor, she looks great”, etc.; em Anaïs Nin um relato da escritora burguesa do início do passado século, aquela que enveredou pelo relativismo do deboche físico e do experimentalismo emocional: muita poesia erótica ou a tentativa disso, muito sexo, etc; em Plath, descrições das suas dificuldades psicológicas na ligação com o seu próprio corpo, a família, a vida; e em Kafka, uma mistura de pequenas observações, algumas crípticas, sonhos, obsessões com o real quotidiano, numa tonalidade negra e pessimista própria do autor.

Cinema: The Love Witch, os filmes Giallo e Três de Terror Realizados por Mulheres

No cinema, destacámos, pela sabedora e hábil pena de Mafalda Simão Leal, uma obra de cinema, The Love Witch, de 2016, escrito e realizado por Anna Biller, mas com o intuito de falar sobre um género cinematográfico italiano dos anos 60 do passado século: o Giallo. Género que mistura o thriller, o suspense, o erótico, e, por último, o terror sanguinário — Giallo, que significa literalmente amarelo, advém de uma série de histórias de crime publicadas na década de trinta em itália, de capa amarela, mas também representam o amarelo da febre e aproximam-se do vermelho do sangue — pertenceu a uma idade de oiro do cinema italiano, hoje já desparecida, mas que deixou os seus pontuais herdeiros, como este The Love Witch. Este conta com uma imensidão de referências cinematográficas, uma recriação do Technicolor dos anos sessenta do passado século e do Giallo italiano. Elaine, a protagonista interpretada pela actriz Samantha Robinson, tem muitas semelhanças com ícones desse género cinematográfico como a actriz italiana Edwige Fenech. Toda a maquilhagem e o guarda roupa, remetem para o universo feminino do Giallo. Além desse género, encontra-se no filme o folk horror — e possivelmente a cena da protagonista com um vestido vermelho, ao volante do carro, é uma referência ao filme The Velvet Vampire realizado por Stephanie Rothman. Quanto ao enredo de The Love Witch, trata-se de uma bruxa, como o nome do filme indica, uma bruxa do amor que usa feitiços para que os homens se apaixonem perdidamente por ela. Esta perseguição desenfreada pelo seu príncipe encantado foi despoletada por um desgosto amoroso: na raíz desta obsessão estão traumas causados pelo sexo masculino. Elaine persegue um amor de conto de fadas, e por isso está condenada ao fracasso e a uma insatisfação crónica relativamente aos homens que vai enfeitiçando pelo caminho. Desta forma, de modo satírico, o filme centra-se na condição feminina contemporânea e universal, com pontos transversais a todas as sociedades: a exigência quando se trata da aparência, a artificialidade como instrumento de sedução, a insegurança, expectativas românticas irrealistas, a dinâmica do poder nas relações entre os sexos. Ainda, não se contentando com os feitiços, Elaine esforça-se imenso, não se apresenta como é, enche-se de maquilhagens, perucas, ajusta a aparência e comportamento de acordo com o gosto do seu alvo: o artifício é a sua especialidade. Na sua óptica, está numa situação de poder, consegue seduzir os homens, mas aí entra o paradoxo: está a submeter-se aos desejos e a sacrificar a sua essência para encarnar as fantasias masculinas. No fundo, o pior dessa situação é a parte consciente do sacrifício pessoal da verdadeira identidade, interiorizado por Elaine, como necessário para ser amada. “I’m your ultimamente fantasy”, declara, rendida à sua condição. O filme consegue também parodiar outros estereótipos femininos relacionados: a mulher fatal, a dona de casa perfeita que cozinha um bom bife, a combinação de ambas. Elaine encarna todos eles para agradar ao seu amado. Sugerimos a todos não só que espreitem esta peculiar e retrospectivesca película mas também que se inteirem do que é o género Giallo da Itália fílmica dos anos setenta, sobre o qual falaremos mais em breve.

Recomendamos, por fim, igualmente com a curadoria da cinéfila Mafalda Simão Leal e da sua magnífica página de cinema no Instagram, três filmes de terror realizados por mulheres. O primeiro, The Velvet Vampire, de 1971, de Stephanie Rothman, em que uma vampira seduz um casal recém-casado, é um exercício estilizado de thriller erótico num cenário do deserto norte- americano com interpretações medianas e um argumento competente. O segundo, comicamente entitulado The Slumber Party Massacre, de 1982, de Amy Holden Jones e escrito por Rita Mae Brown, remete imediatamente para o género slasher semi-cómico, em que uma reunião de amigas — uma festa de pijama — é interrompida por um assassino em série correndo pela vizinhança. E o terceiro, baseado no romance de 1983 de Stephen King, é Pet Sematary, de 1989, de Mary Lambert, e figura um casal recém-chegado a uma localidade em que o seu animal falecido volta à vida depois de enterrado, experimentando de seguida o mesmo com o filho.

Submissões

Partilhamos com regularidade chamadas para artigos nas nossas edições, este mês reforçadas com publicações destacadas nas redes sociais e na recém- regressada e muito benvinda plataforma9 (agregador de novidades académicas em língua portuguesa). Deixamos assim o convite, para, neste início de ano lectivo, todos os interessados, dentro e fora das universidades, submeterem propostas para artigos — ensaios, crónicas e críticas — que podem chegar-nos numa fase já concluída ou enquanto versões incompletas, meros esboços ou apenas ideias. Podem escrever-nos sobre temas das vossas áreas de estudo e investigação ou sobre os tópicos que preferirem.

Recomendamos em particular aos membros da comunidade académica que aproveitem conteúdos frequentemente desperdiçados — como trabalhos para cadeiras e seminários, apontamentos, estudos parciais, trabalhos de campo, relatórios, registos de conversas e debates, etc. — para os dar a conhecer ao mundo. Teremos todo o prazer de ajudar a convertê-los em formato legíveis pelo público em geral. Contatem-nos em geral@revistaminerva.pt. Aceitamos todos os temas de relevo, mas podem consultar sugestões de tópicos aqui.

Imagem: retrato de Isabella Stewart Gardner (1840–1924), da autoria de john Singer Sargent, de 1988, herdeira abastada, originária da cidade de Boston, que contribui e supervisionou a construcção e apetrechamento do Isabella Stewart Gardner Museum na mesma cidade, entre 1899 e 1901, exibindo primariamente arte ocidental, mas também oriental e islâmica.

Sobre um Anjo Torto

De “Strange Fruit” a “God Bless the Child”: recordamos uma das vozes mais marcantes e inconfundíveis do jazz, Billie Holiday (1915-1959). Texto de Sofia Alexandra Carvalho, em parceria com jazz.pt.

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

Carlos Drummond de Andrade

O grau de lirismo oblíquo que percorre o título é acentuado pela força trágica que envolve uma das vozes mais marcantes e inconfundíveis do jazz: Billie Holiday (1915-1959), nome artístico de Eleanora Fagan Gough, também conhecida por Lady Day, tal como cunhado pelo saxofonista Lester Young, um dos seus mais próximos amigos, talvez o único, segundo Richard Havers.

A sua autobiografia cantada, intitulada “Lady Sings The Blues” (1956), ampliando o perfil magnético “desses que vivem na sombra”, torna-se o testemunho inequívoco de uma “Trav’lin Light”, segunda canção-poema que compõe este álbum singular ao combinar, com soul, as fronteiras entre a vida e a arte.

Os contornos da passagem de Billie Holiday pelo “mundo mundo vasto mundo”, como cantado por Drummond, por muito acidentados e adversos (com uma infância e adolescência superlativamente violentas – abusos, vagabundagem e prostituição – e uma fase adulta perturbante), não são mais vastos do que a voz imponente que a imortalizou.

Simultaneamente forte e murmurante, esta elegante e glamorosa vagabunda, no sentido literal, surge na cena jazzística em clubes noturnos de Harlem, tentando emular a sua heroína Bessie Smith. Aqui, é ainda um anjo que se desconhece, como diria o poeta Teixeira de Pascoaes. Graças à intervenção de John Hammond (1910-1987), crítico e produtor de música, a futura Lady Day grava, em 1933, com a orquestra de Benny Goodman, sem deixar nenhum indício sobre a intensidade da sua luz.

Passado um ano, Hammond consegue persuadir a Brunswick Records a gravar uma colaboração entre Holiday e a orquestra de Teddy Wilson: “Miss Brown To You”, “What a Little Moonlight Can do”, “I Wished Upon the Moon” e “A Sunbonnet Blue” marcam, de modo inextinguível, a história do jazz.

No entanto, só a partir de 1936, Billie Holiday consegue deixar a sua marca de artista individual, como cantora e compositora. Em 1937, colabora com a Count Basie Orchestra e, em 1938, com Artie Shaw, tornando-se a primeira cantora negra a acompanhar uma orquestra. A atmosfera de segregação que toldava esses tempos, agudizara o desencanto de Billie Holiday por este mundo e, no mesmo ano, abandona a orquestra de Shaw, depois de ter sido compelida a usar a porta da cozinha do Hotel Lincoln, em Nova Iorque, ao invés da porta principal.

A partir daqui, Lady Day começa a encantar e a assombrar o público do Café Society, em Greenwich Village, com as suas performancesde “I Cover The Waterfront”, entre tantas outras. Um dos seus devotos auditores, Lewis Allan, pseudónimo de Abel Meeropol (1903-1986), poeta e professor judeu de uma escola pública de Nova Iorque, foi responsável pela extraordinária e pungente composição do poema “Strange Fruit”. Numa dessas noites míticas em Greenwich Village, Allan perguntara a Barney Josephson (1902-1988), dono do Café Society, se a cantora não se importaria de interpretar uma música escrita por si. A edição deste poema-protesto, escrito como um manifesto portentoso contra o linchamento de afro-americanos, foi recusada pela Columbia Records, tendo saído a lume pela Commodore Records, uma editora mais modesta.

Enquanto a vida pessoal de Lady Day é marcada por sucessivas desilusões (relações amorosas instáveis e casamentos tóxicos e abusivos, como por exemplo com Jimmy Monroe e John Levy), a sua vida artística começa a desenhar-se com a luz rara de um anjo torto, enfeitado com gardénias nos cabelos e luvas charmosas a esconder os braços macerados pelo vício da toxicodependência.

Em 1944, Lady Day assina contrato com a Decca Records, editando o álbum “Lover Man”. Em 1945, participa no “Jazz at the Philharmonic Auditorium”, ou JATP, uma série de concertos, tours e gravações de jazz ideados e produzidos por Norman Granz (1918-2001). Em 1947, interpreta Endie no filme “New Orleans” (1947), dirigido por Arthur Lubin, encarnando o papel de uma serviçal negra, cuja voz comporta uma mudança na história da música. Em contracena perfeita irrompe o seu par: Louis Armstrong ou Satchmo, como ficou conhecido, um saxofonista de sorriso e sons irradiantes, com a sua Happy Dixie Band.

Em Maio de 1947, Billie Holiday é presa por posse de estupefacientes. Após cumprir a pena de um ano de prisão, sobe aos palcos e arrebata o auditório de Carnegie Hall, esgotadíssimo, com um repertório extenso (perto de trinta canções), que incluía “All of Me”, “Fine and Mellow” e, como não poderia deixar de ser, “Strange Fruit”. Em 1954, encontra um novo amor, Louis McKay, que a afastou da dependência das drogas, tendo, nesse mesmo ano, realizado uma tour pela Europa. Em 1957, casa com Mckay, mas a felicidade matrimonial é abalada quando a artista descobre que o marido apostara e perdera o seu dinheiro em especulações financeiras.

Lady Day regressa aos velhos hábitos, aliando-os ao excesso de bebida. Depois da morte de sua mãe, o golpe fatal deu-se com a morte de Lester Young. Dois meses depois, Billie Holiday é internada no Hospital Metropolitano de Nova Iorque (tendo a sua entrada sido recusada num primeiro hospital), fruto do agravamento da cirrose hepática, que lhe houvera sido diagnosticada. Morre acorrentada à cama, presa por um polícia que a enfermeira responsável chamara ao encontrar drogas na sua cabeceira.

O quadro da vida e da arte desta sombra luminosa, simultaneamente trágico e sublime, foi interpretado por Diana Ross em “Lady Sings The Blues”, filme datado de 1972. Em 2021, Andra Day assume com brilho o mesmo desafio em “Estados Unidos vs. Billie Holiday”.

Um anjo torto irrompe, assim, como uma expressão metonímica para demónio, reforçando o étimo: o daimon da música habitou Billie Holiday, enquanto o mundo a consumiu. Ante a gravidade e a dureza biográfica do “mundo mundo vasto mundo”, a rima de Drummond de Andrade lembra que “mais vasto é o meu coração”: “gauche” ou desastradana vida, mas grácil e inesquecível na Arte. “God Bless the Child” or the Crooked Angel.

Mais Novidades na Filosofia e Quatro Diários Esquecidos

Trouxemos mais oito novidades editoriais do mundo da filosofia, sempre com a ajuda da fantástica publicação Notre Dame Philosophical Reviews. Primeiro, Ignorance: A Philosophical Study, de Rik Peelsum, um pequeno tratado sobre uma área neglicenciada da epistemologia analítica, a ignorância, enquadrada no campo designado por agnosticologia. Depois, da famosa filósofa feminista e queer Judith Butler, What World Is This? A Pandemic Phenomenology, sobre questões éticas e políticas relacionadas com esse contexto na contemporaneidade inédito. Ainda, de Ned Block, The Border Between Seeing and Thinking, sobre a ligação da filosofia à realidade. De seguida, Proust’s In Search of Lost Time: Philosophical Perspectives, editado por Katherine Elkins, um volume com ensaios de perspectiva filosófica sobre a magna obra de Proust.

Depois, de Craig DeLancey, Consciousness as Complex Event: Towards a New Physicalism, uma re-abordagem de matriz fisicalista ao problema da mente, indicando que se trata apenas de fenómenos mentais muito complexos e na beira do ininteligível. Seguindo-se René van Woudenberg, The Epistemology of Reading and Interpretation, que trata não especificamente do que acontece quando lemos literatura ou filosofia mas sim do que acontece mentalmente quando deciframos uma linguagem visual de signos, ou seja, o bruto acto de ler. Ainda, de Michele Moody-Adams, Making Space for Justice: Social MovementsCollective Imagination, and Political Hope, que tece um argumento sobre como os movimentos sociais contemporâneos são uma prática de inquérito cívico e social necessária. Por último, Mark Wilson, Imitation of Rigor: An Alternative History of Analytic Philosophy, uma abordagem alternativa ao mundo da filosofia analítica e seus postulados, que põe em causa a noção de que o mais importante nas descrições dessa escola, e das ciências exactas ou semi-exactas, seja propriamente o seu conteúdo axiomático.

Ainda na literatura destacámos também o género diarístico, com pouca produção — os escritores e artistas em geral tendem a pensar que são os seus escritos não pessoais, formalizados em géneros consagrados, aqueles destinadas a serem as obras mais importantes, e não propriamente os pensamentos que rabiscam num caderno sem outro critério que não a progressão do tempo — mas com muita popularidade, pensando em particular em quatro autores de importância e reconhecimento inegáveis: Andy WarholAnaïs NinSylvia Plath Frank Kafka. Poderiam também ser mencionadas Virginia Woolf e a famosa adolescente judaica Anne Frank, o que nos lembra como talvez o pouco espaço literário na esfera pública dado às mulheres ao longo da história as empurrou frequentemente para o vazar dessa arte na forma diarística, embora talvez possa existir uma série de factores do carácter especificamente feminino que o favorecem. De qualquer forma, em Warhol temos um aglomerado de vaidades socializantes da Nova Iorque dos anos setenta e oitenta, que até certo ponto entra no registo serializado e bizantino da repetição do conceito “encontrei o Michael Jackson, he looks great, encontrei a Elizabeth Taylor, she looks great”, etc.; em Anaïs Nin um relato da escritora burguesa do início do passado século, aquela que enveredou pelo relativismo do deboche físico e do experimentalismo emocional: muita poesia erótica ou a tentativa disso, muito sexo, etc; em Plath, descrições das suas dificuldades psicológicas na ligação com o seu próprio corpo, a família, a vida; e em Kafka, uma mistura de pequenas observações, algumas crípticas, sonhos, obsessões com o real quotidiano, numa tonalidade negra pessimista própria do autor.

A Política (e a Religião) Faz-se FORA das Universidades

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Ao contrário do que intuitivamente, e erroneamente, se pode hoje pensar, não existe nenhuma relação necessária entre “universidade” e “transformação social”. Para a persistência dessa confusão na psique colectiva contemporânea contribuem vários factores. Primeiro, a ideia de que ser-se jovem implica pugnar por algum tipo de transformação social; segundo, a ideia de que quem está na universidade são os jovens ou devem ser os jovens e nunca foi de outra maneira: e terceiro, a ideia de que todo o pensamento crítico sobre a realidade deve levar a algum tipo de transformação social. Analisemos, ou recordemos, brevemente, cada uma destas falácias.

A primeira delas reside, como muita gente com conhecimento sabe, outros com conhecimento fingem que esquecem e muitos sem conhecimento não fazem a mínima ideia e pensava que as coisas tinham caído assim do céu, no paradigma hegeliano primeiro, posteriormente marxista, que lê o seguimento da actividade humana como uma narrativa a que chamam de história e cuja teleologia é de um permanente aperfeiçoamento, rumo à perfeita adequação da vida humana e do pensamento humano à natureza e às forças naturais que o dominam, dentro e fora dele, ou seja, invertendo-se o nexo causal e sendo o homem que passa a dominar a natureza. Ora nem sempre se pensou assim. Nem sempre se pensou que o decorrer do tempo se tratava de um processo, muito menos de um processo progressista, e de igual modo também nem sempre se achou que a actividade humana segue algum tipo de narrativa meta-teosófica, postulando uma espécie de desenho inteligente das suas manifestações, que levaria a um mundo futuro progressivamente mais perfeito. Isto encontra-se justificado logicamente nas teses de Hegel, que muito entusiasmaram e muito entusiasmam ainda hoje jovens filósofos, essa raça de gente pontualmente inteligente e muitas vezes completamente alheada da realidade de todos os tipos — da realidade material, da realidade imaterial, da realidade da sua própria imaturidade e dos seus próprios objetivos, da realidade da história específica dessa disciplina, etc. —, entusiasmo esse que se estende para outros autores, como Karl Marx. Este, que deu ainda mais entusiasmos maníacos e eventualmente pestilentos às teses de Hegel, conclui em parte dizendo que se a filosofia até esse ponto tinha descrito o mundo, restava-lhe agora transformá-lo. Parece ser em parte com este mote que o jovem contemporâneo — materialista histórico-dialéctico, progressista, e “activista” — pretende abordar o mundo, começando nos poisos que, actualmente por desígnio social e por planeamento político nesse sentido, têm de receber as suas neuras: o espaço da multi-secular universidade.

A segunda implica que a ideia de universidade é a de uma espécie de escola prática de preparação para a vida adulta e profissional, confusão instalada desde meados do século XIX e que só se agravou durante o benditamente democratizante século XX, estando agora em pleno período de consolidação, sem no entanto deixarem de existir vozes fortes que põe em causa esse modelo (vd. Feijó, Tamen, 2017). Efectivamente existem grandes diferenças entre entrar num estabelecimento de ensino e proporem-nos uma aprendizagem plural, desinteressada e formadora de inteligência a partir de vários saberes diferentes, e entrar num estabelecimento de ensino que mais não é do que uma escola profissional orientada para o seguimento de determinado ofício e dirigida para a aprendizagem das técnicas relacionadas com o mesmo. Ora, por planeamento, interesse e conveniência política, parece que actualmente, depois do alargamento da escolaridade obrigatória até aos doze anos da mesma, número francamente exagerado para as necessidades e interesses de muitos, não é de espantar que estejamos num panorama social presente em que a frequência da universidade é quase expectável, quase forçada, para pessoas jovens com o mínimo de condições materiais para isso, o que evidentemente se trata de uma premissa muito discutível. Mas resumindo: hoje, se “és jovem”, espera-se que vás para a universidade, fazer coisas “de jovem”.

A terceira está mais uma vez ligada ao dito pensamento hegeliano-marxista de que um pensamento crítico sobre a realidade levará necessariamente à transformação da realidade, o que não é necessariamente o caso, e além do mais representa de modo preocupante um comprometimento da acção crítica per se com acções materiais subsequentes, o que pode levar a alguns paradoxos e algumas falácias. Não é certo que, por exemplo, alguém que cogite, como Aristóteles cogitou, que cidadãos da polis como mulheres e escravos não deveriam ter os mesmos direitos, parta imediatamente para a acção que estabeleça o primado material dessa tese, tal como não é certo que alguém que cogite a existência de uma raça sub-humana de gente designada por judeus, como inúmeras criaturas das cúpulas teórico-políticas do nacional-socialismo alemão do passado século fizeram, parta imediatamente para a elaboração de um plano de eficazes câmaras gaseificadas que irão resolver todo o problema. Não é certo que o façam, e muito menos é certo que o devam. Qualquer uma destas cogitações, que teriam consequências a nosso ver aberrantes para a vida civilizada actual, são no entanto positivas por si só: são enunciados lógicos inteligíveis e devem ter lugar no mundo do pensamento humano, aquele mundo em que nada nos deve ser estranho, precisamente também para que possam ser devidamente sujeitos a contraditório e mereçam ou não mereçam lugar no livre mercado das ideias, adoptando termos um pouco toscos. Que o facto de estes enunciados serem encarados instintivamente, e de forma correcta, com um juízo moral muito negativo não deve toldar a nossa apreciação dos princípios aqui expostos: mesmo que um enunciado filosófico que nos pareça deslumbrante e às mil maravilhas, como decerto esses pareceram a Aristóteles ou aos nazis, e mesmo que alguns desses enunciados sejam de facto excelentes ensaios para aplicação no mundo material da vida e das relações humanas, eles estão tolhidos à partida pela maleita do comprometimento com acções subsequentes, e esse não é, ou não deve ser, primeiramente, o compromisso das universidades.

Por vezes podem pessoas legitimamente preguiçosas quanto à prática do exercício físico, do desporto, do “ir ao ginásio”, pensar: mas para que é que aquilo serve? Para que é que eu preciso disto? Estão no direito de pensar assim, mas a verdade é que a musculatura do corpo, e suas outras partes, precisam de se movimentar, estão desenhadas para isso, e o exercício físico representa nessa medida um bem por si só. O mesmo pode ser pensado em relação à actividade livre e descomprometida do pensamento crítico. Ninguém deve estar numa universidade, de modo ideal, para prosseguir determinado objectivo, mas sim de uma forma desinteressada, descomprometida e formativa. O exercício, as musculações e alongamentos que se realizam nesse domínio, são actividades com valor próprio e que, grosso modo, treinam os músculos do pensamento para estarem mais aptos para o resto do mundo e do tempo. Tanto no ginásio — que peculiarmente no português do brasil se chama de academia — como na academia intelectual propriamente dita a actividade do pensamento crítico vale por si só. Ninguém precisa de sair de lá para transformar o mundo, e muito menos estar lá dentro com ideias de transformar o mundo logo ali. Isso tolhe, por muito que possa parecer contra-intuitivo às massas de hoje, a capacidade intelectual livre e descomprometida.

Por isso acontecimentos breves, já bem conhecidos, e sobejamente aborrecidos, nalgumas universidades portuguesas nos últimos dias, encerram em si todas estas confusões. A actividade cívica da política, fundamental e importante, pode e deve ser exercida, mas exercê-la numa universidade é exactamente o mesmo que exercê-la numa padaria ou num talho. A universidade não é um espaço adequado para a efectivação da mesma só porque “tem jovens” lá dentro, nem alguém por “ser jovem” está ou deve estar interessado na actividade política ou na variante frequentemente desbragada da mesma que envolva “transformar o mundo”. As pessoas que estão na universidade, na sua maior parte, ignoram as acções excitadíssimas, dramáticas, e muitas vezes desonestas, interesseiras e comprometidas dos grupelhos de “activistas” que frequentemente dominam as associações de estudantes devido a já terem nascido — é um talento que já vem da grande escola da União Soviética — com grandes dotes para o domínio das burocracias e dos institucionalismos associativos, trâmites que são geralmente indigestos para qualquer pessoa normal. A maior parte dos alunos, investigadores e docentes das universidades não quer saber destas patacoadas e está mais interessado em trabalhar nos seus interesses, nas suas funções, nas suas áreas de estudo. Grande parte da turba “activista”, porém, monopolizando o discurso público, enganando jornalistas ou já colhendo deles a simpatia à partida, estranha imenso que manifestações não autorizadas sejam alvo de acções por parte de directores, que a polícia seja chamada a intervir quando o respeito pelo espaço dos outros, pela propriedade e pelas regras de manifestação em democracia não são cumpridos, ou que estudantes sejam identificados quando agridem outros também por questões de divergência política.

Todo o comportamento das classes burguesas jovens, intoxicadas com os mantras acima referidos, incapazes de conceber o mundo das pessoas normais que não querem saber destas coisas — e nem vale a pena aqui entrar pelo mérito ou demérito das “lutas” correntes, cujos conteúdos são frequentemente autênticas trapalhadas de equívocos, fanatismos e mentiras com pouco ou nada a ver com os interesses de quem quer que seja, e isso explica em geral estas jornadas “das lutas” incluirem geralmente não mais de uma vintena de pobres-diabos — lembra-nos um pouco um dos momentos marcantes da acção política dentro das universidades nas últimas décadas, o famosíssimo e muito romantizado Maio de 68. Pier Paolo Pasolini, cineasta magistral e demoníaco, comunista de gema, respondeu, à pergunta sobre quem apoiava nos confrontos que estavam a ter lugar na universidade em 68, se os estudantes se a polícia, que apoiava sem sombra de dúvida a polícia, pois eram a classe trabalhadora e popular, os filhos de operários; os estudantes representavam a burguesia, os filhos da burguesia, e não a classe pobre e materialmente desfavorecida. Ora aqui está um ponto de vista que convém sempre lembrar quando vemos polícias contra estudantes e vice-versa: os primeiros ganham não muito bem e têm um trabalho ingrato; os segundos basta aparecerem com uma “causa” histérica, desmiolada e sem o mínimo de nexo qualquer e têm logo o babysitting dos jornalistas, dos políticos extremistas e dos néscios em redor. Será boa ideia desmistificar este dualismo e pensar melhor se alguém tem direito de censurar polícias e directorias de faculdade por agirem no estrito cumprimento da lei e se os estudantes que frequentemente a infringem com consciência disso não estão a fazer mais do que um número de circo sensacionalista e mediático para colherem atenções e atingirem assim algum tipo de objectivo, já que pelos meios normais e leais ninguém lhes liga patavina.

O comportamento destes “activistas”, frequentemente, assemelha-se ao dos evangelizadores: querem espalhar a palavra divina da verdade e da vida pelo mundo, querem chatear toda a gente, bater à porta até se converterem à sua religião, única e verdadeira palavra. Por razões de contingência histórico-social, acontece que temos neste momento numerosos jovens deste tipo, e jovens a mais em geral, nas universidades, pessoas cujos talentos seriam provavelmente melhor aplicados noutros sítios já que não se vislumbra qualquer tipo de vontade de exercer o sentido crítico e de formação do pensamento que é suposto suceder nas universidades. Portanto fica o conselho, mais uma vez: façam política e religião lá fora, e deixem as pobres das pessoas que estudam e trabalham nas universidades em paz, porque estas têm mais que fazer que aturar miúdos ignorantes, mimados e completamente equivocados quanto ao que se pratica nas universidades e quanto ao lugar das mesmas. Aproveitem e levem os jornalista convosco. Aluguem um pavilhão no Beato ou na Campanhã e façam aí os vossos fantásticos comícios, não se esquecendo de abastecer o stock de cervejas e substâncias ilícitas pois a luta não se faz sem a gasolina dos torpes. Desapareçam e vão pela sombra, ou então continuem a fazer figuras de ursos a que ninguém liga absolutamente nenhuma. Cumprimentos a todos e boas “lutas”.

Pilates e Reeducação Postural: Fisioterapia(s) nas Raquialgias

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Texto de Luís Coelho, Fisioterapeuta e escritor, Escola Superior de Saúde do Alcoitão. Mais um artigo que desenvolve reflexões filosóficas prolongadas sobre o tópico da fisioterapia, desta vez pegando no método de Pilates e na sua aplicação à condição da raquialgia. Imagens: esquissos de Miguel Ângelo. 

Em tempo de modas e “vanitas”, a realidade clínica parece ser subjugada pela expressão dos métodos, dos paradigmas, que a temática das raquialgias tão bem expõe e propende no mundo da reabilitação psicofísica. Se o próprio “ráquis” realiza o equilíbrio, o excesso dos modelos trai-o, polarizando a relação das cadeias musculares com a acção “musculada” e liberal.

Se, segundo os modelos posturais 1, 2 , 3, o equilíbrio implica a relação sinérgica de uma musculatura postural – essencialmente posterior – suficientemente flexível, e – por isso – forte e tolerante, com uma musculatura fásica – essencialmente anterior – reforçada, é certo que é o próprio excesso de alongamento que desafia o equilíbrio, gerando o sintoma “positivo” e reforçando o ciclo da necessidade de estiramento; o dogma alimenta-se a si-mesmo e ao terapeuta placebetário, faltando precisamente o equilíbrio que propenderá o movimento e a possibilidade da acção anterior.

É justamente o movimento que não pode ser obliterado, é ele que pede o reforço re-estabilizante. Note-se que o modelo “postural” se efectiva essencialmente na posição de “flexão”, por via a recuperar o comprimento muscular, mas esse paradigma possui a sua grande limitação no modelo “discal” (efectivado essencialmente com manobras de extensão, visando, inclusive, a reabsorção do núcleo pulposo do disco intervertebral 4), com a possibilidade da Reeducação Postural poder fazer agravar o processo envolvido, por exemplo, nas hérnias discais. Claro está que o modelo defende-se (sugere, aliás, que o alongamento faculta a descompressão dos discos intervertebrais 3), e o corpo defende-se dele, gerando mais compensações, e estas são, tal-qualmente, as defesas do intrínseco terapeuta. O trabalho de reforço abdominal profundo não pode, neste contexto, recuperar o equilíbrio perdido; gera, até, novas defesas. É preciso realizar trabalho em extensão, capitalizar a função, o movimento, e só depois valerá a pena incluir, eventualmente, o Pilates. Por sua vez, o exercício deste num corpo em desarmonia promete criar, também, mais resistência, posterior e cíclica, gerando a prática dolorosa(claro que o modelo defensa, bastas vezes, a necessidade de “dor”, mas nem toda a dor compensa) e multiplicando as possibilidades de reequilibração. O processo polarizador é uma representação do próprio “pathos” da raquialgia, como da inflamação dos paradigmas, igualmente na mente do duo terapeuta-paciente, Sujeito-Objecto. Reforçar os extensores do tronco, higiene postural, trabalho superconsciente da musculatura, tudo isto alimenta, ainda mais, a relação desarmónica dos modelos, a raquialgia, contribuindo, aliás, para fazer achatar a coluna vertebral, ora cerzida pelas forças da dualidade em “eterno retorno”.

O alongamento tem de ser moderado, espontâneo, o movimento deve aproveitá-lo, e a força capitaliza o equilíbrio. Quando a Reeducação Postural se excede também o Pilates tem de o fazer. Quando os modelos propõem um novo equilíbrio, só a função poderá recuperar a harmonia, estabilizando a relação, dirimindo a dualidade, recriando o crescimento de uma coluna, onde o trâmite neurológico e cognitivo não pode ser negligenciado. A prática dogmática propõe a salvação do terapeuta, não do paciente. E é por isso que o clínico não pode ser obliterado pelo reeducador messiânico ou pelo professor de Pilates. E nem, como tal, a “Clínica” deve esquecer o manancial do “idiossincrático”, com aquelas práticas a abraçarem, crescentemente, com precisão, a abordagem de grupo, no que esta tem de pior e mais massificado. A ciência “nomotética” envolvida, por exemplo, nos estudos relativos ao Pilates também só fará sentido se for contextualizada no equilíbrio idiossincrático do paciente, só assim poderá a ciência validar-se ecologicamente; doutro modo, teremos estudos que convidam à prática quase coerciva. A ecologia clínica sugere, por exemplo, que o Pilates praticado desmesuradamente também pode ter um impacto negativo nas hérnias discais. Apesar da literatura sugerir outra coisa, somos, todos os dias, desafiados a combinar os modelos de um modo que estabilize e engrandeça o equilíbrio, o que, muitas vezes, não abona à validade financeira de uma “práxis” exercida perpetuamente. Mas não será, todavia, fácil visar em estudos o efeito de uma prática reequilibrante, que permita dirimir as forças “articulares”, incluindo as discais, e que possua, portanto, expressão na representação “neurológica”. Não que este Sistema padeça de (pouca) “ciência”, mas ele configura um “longo prazo” estrutural que, de qualquer modo, avoca, mais uma vez, a ameaça do dogma “postural”. Também aí a função, a força funcional, representa um importante papel, introduzindo o “curto prazo” na Estrutura postural.

E, novamente, se representa o ciclo, que é, irmãmente, a relação do “input” ascendente com a (i)Razão descendente, do sistema terapeuta-paciente com o Objecto inapreensível, inalcançável. O “curto prazo”, a “interferência contextual”, desafia, portanto, o equilíbrio que o Contexto, a ciência, almeja, e para ele concorre a dualidade onde o terapeuta não se exclui enquanto elemento do Sistema, antes se torna, quiçá, “paciente” do mesmo à custa da interferência do Outro.

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Que o terapeuta seja, igualmente, “paciente”, isso inclui o efeito do raciocínio dialéctico, o “design” ideal que esboça a acção do Sujeito sobre o Objecto-paciente, e também este enfuna por uma dialéctica, por uma dor, que possui o poder de “sujeitar” o (ex) paciente a objectar-se, quiçá, à interferência contextual, gerando o aspeito de um equilíbrio que ofende, porventura, o domínio “científico”, a “normalidade”. Claro está que a novel “normalidade” identicamente se concebe como domínio, princípio da Realidade, e este cativa as razões, que concorrem para a Unidade. E esta desempenha permanentemente o papel de delineadora da “moral de ressentimento” (Nietzsche 5), acção do paciente, da dor, do “pathos”, capaz de burilar nova moral, novel domínio, que, aqui, se comporta como projecção “polar”, e o novo “pólo” redesenha a Realidade, submetendo, talvez, a razão vindoura. Terapeuta e paciente, Sujeito e Objecto, alternam os papéis, mas, quando ambos se integram, dilui-se a ansiedade, o “pathos”, e o Sistema é pacificado, equilibrado. É o excesso de Realidade “terapêutica” que irá fazer do “paciente” agente do paciente “terapeuta”, e isto ocorre, sobretudo, quando jaz o dogma, que, de algum modo, se peja como “complexo de castração”. O terapeuta é, assim, um doente de transformação, e isso (re)constrói a dialéctica do paciente, aliás, toda a acção terapêutica implica uma reconstrução, eventualmente anamnésica, e ela tem o poder temporal de dualizar os “agentes”, com a resultante da Unidade.

Obviamente, a Unidade terapêutica poderá sujeitar outrem, e isto desenha-se ciclicamente, polarização e despolarização, também isto é dualidade, bissexualidade, e a Unidade é homossexual, incestuosa, “Ser”, Liberdade, inDeterminidade, este é o Objecto franco, Sujeito absoluto. A dualidade é, outrossim, o mecanismo de defesa pleno, em que a postura se permite redesenhar. A ilusão de Unidade corresponde à Razão placebetária, e esta convida à reactualização da Realidade, acaso para além do bom senso científico, do contexto que a modernidade encima, demónio do “pós-modernismo”.

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Que a Postura pareça “Espírito” e o Pilates remeta para a ciência “nomotética”, com esta a constituir o “bom senso” realista, tudo isto nos dualiza, convocando à “posturologia” do absurdo (Camus 6), onde Razão e Cultura se reproduzem teticamente, possibilitando a (re)habilitação de muitos agentes. Esta é a dor maior, o grande sofrimento, e o Placebo poderia ser o Fim, o Sujeito puro, o Equilíbrio, prestes a ser perdido para a Realidade científica, que sempre vem vociferando com a “última palavra”. Também por isto as práticas grupais se apresentam muitas vezes como a solução “menos má”, e, perante ela, os desajustados, os desadaptados, parecerão “negacionistas” da Verdade, bem vendo, o que é a “falsificabilidade” popperiana senão um negacionismo racional, que, na senda de Popper 6, é critério de cientificidade, não de “Verdade”? Que esta permaneça no Incognoscível, ladeando na plena Liberdade, existe, no entanto, o “livre-arbítrio” dualizador, a “razão neurótica”, tentando pluralizar as verdades no tempo, as “dores do mundo” (Schopenhauer 7), e cada “verdade” parecerá maior, “racional”, repleta de Graça, no sentido que lhe é dado por Malebranche 8.  

As “verdades” convergem neuroticamente para a Razão maior, o paliativo perfeito, é uma guerra de adaptação à Spengler 9, pode ser, até, que a Razão submeta a Realidade do modo peremptório, que é ter toda a razão do mundo.

Difere, aliás, da guerra competitiva em que “dói” a ciência pela injecção do “Espírito”, a dualidade “modernidade vs. pós-modernidade” é, na verdade, a peleja exemplar, e nisso é ainda mais Sofrimento do que “dor”, o tempo, a Consciência, dá-lhe o alento, a relação terapêutica é, similarmente, uma guerra de paradigmas (Kuhn 10), mas nada obsta ao paralelismo, que é, no fundo, polarizar, de vez, “Espírito” e “matéria”, quebrando a comunicação possível. Porque quando esta se estabelece, há, de alguma maneira, exercício de poder, é a razão de cada um a alicerçar-se como Cons-ciência, e a peleja substitui continuamente os lugares de Sujeito e Objecto, com o sentido implícito de esgotar a Realidade.

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O Domínio científico representa o conforto “maioritário”, nele pode, todavia, patologizar-se a actividade do “terapeuta” “espiritual”, na relação compensatória com o paciente. Compensados ambos os agentes, pode ser que subsistam paralelamente ao “Domus”. Num domínio espiritual, o terapeuta “científico” poderia reter um papel semelhante, são, aliás, as diferenças que remetem ao “pathos”, só estas importam, porque esboçam a descompensação do Sistema.

O patologizado pode ser compensado ou estruturado, ou pode sublimar para a Realidade, é este o caso flagrante que poderá originar a conversão de muitos “agentes”, patologizando os pretéritos adaptados, que se vêem sem o apoio da Realidade, e, aqui, incluem-se muitos terapeutas “patológicos”, uma minoria salvífica e ressentida. E o ressentimento pode abranger a atitude perante uma medicina “científica” que, ainda assim, coloca a Objectividade clínica à frente da necessidade da “pessoa”. Similarmente neste contexto, as “terapêuticas” tentam marcar pontos, (re)compensando as vítimas do Sistema, que, a determinada altura, é acusado de “neoliberal” e “selvagem”. Para muitos, não cabe à ciência a resolução “moral” do mundo, mas também aqui reside a “impessoalidade”, o resto é deixado à vontade do Placebo, que pode demover o sujeito da participação na Realidade tangível.

Eis como as dualidades se perpetuam, cada Sujeito possui a sua própria dualidade e o seu intrínseco Corpo-Espírito, resta saber onde ele se situa maioritariamente, pode advir daí a sua segurança, ou pode ser que ela venha sobretudo de fora, os “seguros de si” não são a fonte de mudança, mas – sim – os inseguros, e até a ciência pode ser assestada no lugar de “amaldiçoada”, às tantas o “Domus” é sempre Espírito, mesmo que à custa da concretude, o Equilíbrio é a abnegação, a “impassibilidade”, o lugar da inDeterminidade, onde já não se teme o incesto onde necessariamente se recairá. 

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O pleno incesto in-consciente é o destino da relação terapêutica, numa espécie de “além mundo”, mas o processo despolarizador, em que “Espírito” e “matéria” se aproximam, não se faz sem o “desespero” (Kierkegaard 11), é verdade que todas as relações são relações de incesto, mas permanece a “resistência” que implica aproximação do Inconsciente pessoal do Superego de “outrem”, e haver despolarização é tornar a Consciência menos dual, o que, em vida, não provoca a sua desaparição, é preciso, outrossim, que subsista alguma “dor” perfazendo a linha da vida, o “prazer” é diluí-la, mas também neste caso Eros se acerca de Thanatos, este é o “paradoxo da Consciência”, a vida requer a consciência sofrida, mas esta mata e polariza; o in-sofrimento é dirimir as oscilações, é reconciliar a consciência com a Origem, mas a pacificação, na medida em que dirime a dor, também dirime o prazer. 

Que fazer, por exemplo, a quem glorifica o sofrimento, se explicar a sua puerilidade é já sofrer? Como ser “objectivo” se a decisão implica forçosamente a perspectiva sofrida? Claro está que a “morte” faz doer muitas outras consciências, basta, para tal, que falemos de “morte assistida”, lembrá-lo é evocar o sofrimento e atrair a própria morte, a necessidade de evicção.

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No contexto das “terapêuticas”, dirá, tantas vezes, o terapeuta que o sofrimento compensa, lembra a urgência de abnegação, mas até quando esperar pelo milagre, fará, sequer, sentido sofrer toda a vida para aprender a morrer? Quando a vida é, já, a própria morte… Porque cada ciclo é uma “morte simbólica”, mas sofrer é atirar-nos enquanto pólo à expugnação da Realidade, é ater novel compensação postural pedindo nova relação com a força “liberal”; por outro lado, o Placebo também pode alimentar a compensação, porque permite posturas que, às tantas, não recolhem o assentimento do “meio”, e quem mais sobrevive à Realidade é o “seguro de si”, mas neste nem a questão se colocaria, senão numa outra esfera, na “Physis”, onde, apesar de tudo, a dor “mínima”, o estado de “insofrimento”, cria um Objecto de reequilíbrio melífluo. 

Assim como o equilíbrio avizinha os pólos Sujeito-Objecto, terapeuta-paciente, similarmente reequilibra a relação da Postura com a função; a Postura “tolerante”, flexível, implica um movimento menos forçoso, e isto é também como dizer que o liberalismo económico não despende dum Estado “mínimo”, que, aliás, permite e obvia a “liberdade”, a Razão postural aleita, identicamente, a Deôntica e esta exprime um consequencialismo, uma resultante “pragmática”, e a última fará a próxima Deôntica, e a mudança provém dos desadaptados, mas estes são, igualmente, a expressão da intolerância “estatal”, racional. Também é a Deôntica que exprime a fobia pela morte, coisa considerada sagrada mas a pedir o consequencialismo do respeito, isso não mata o facto de haver “liberdade”, mas isto é para não ser dito em alto e bom som, é preciso arranjar, incessantemente, uma maneira de compatibilizar a Regra moral com o “livre-arbítrio”, porque a Realidade precisa de ambas, e precisa de fazer acreditar que ambas se proporcionam, se bem que, fatalmente, requeremos a liberdade para nós e o “dever ser” para o “outro”, excepto, claro, quando algo nos corre mal, aqui já puxamos da justificação.

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A dualidade “terapêutica” debuxa, equitativamente, a relação da Razão “ideal” com o multiverso de razões que se estendem infinitamente no tempo, com cada uma a arrostara “Auctoritas” de “Deus” na potenciação de uma Deôntica tão transformável quanto possível. Ao invés de concebermos o Superior enquanto Pai da Regra moral, passaremos a trabalhá-la com base no “elementarismo” atomista, cuja face “quântica” (tomista) pluraliza as possibilidades. Cada Logos contende nova regra, e isto lembra a relação que a (i) Razão descendente emprega com o corpo “empírico”, sabendo nós que o controlo da dor é feito também desse modo “central”. Mantendo a analogia, o “pathos”, ao sublimar para novel Razão “dominante”, está, no fundo, a encabeçar a postura anti-álgica, e o Sistema se lhe adaptará pela Cultura, que possui o poder de redesenhar o duo Razão-Realidade, que poderia ser, aliás, o binómio Espírito-corpo, capaz, ainda assim, de levar outros agentes a executarem a mesma força mas com outro sentido. Trata-se, logo, de uma conquista da Razão-Realidade “indolor”, com uma base competitiva. Neste contexto, relembramos o erro do trabalho demasiadamente “local” no tratamento da dor, com este a permitir o movimento “irreflectido” das posturas racionais por um tempo indeterminado em que, contudo, alguns se compensam, porventura pela acção de uma pertença “indómita”.  

Mas também não queremos, mais uma vez, excluir o trabalho local; basta que não seja exclusivo, pois não é viável, por exemplo, que o paciente esteja em sofrimento no tempo delongado do alcance de um qualquer ímpeto “superior”/neurológico, isso seria voltar à abnegação, e manda o equilíbrio que tentemos harmonizar o “Espírito” do “longo prazo” com a matéria célere, quiçá até à obliteração da carência de dualizarmos, quando tudo se encontra unificado e a depender de uma referência suprema, “ateia” perfeita, mas viva de leve “dor”, que é a linha do tempo sujeitando perpetuamente os homens. E a linha implica o “atrito” empírico, a paciência “local”, burilando a diferença (Deleuze), quando esta é precoce e o Sujeito não pode escudar-se na Razão dominante, o seu “defeito” atentará, permanentemente, à compensação – que mimetiza o “Princípio” -, e esta é retribuída ao terapeuta, porque se o contrário se verifica bipolariza-se a Realidade, que pode ser mera incompatibilidade paradigmática, cegueira “dual” da Unidade. 

O que contende terapeuticamente o Sujeito é, muitas vezes, o que o contendeu primariamente, é legítimo que se torne ainda mais primário, na senda de um autêntico “religare”. Talvez, aí, possamos ver como “Espírito” e “matéria”, Sujeito e Objecto são exactamente a mesma coisa, só muda a perspectiva. Não há, bem sabemos, qualquer dualidade, tal “clivagem” serve, somente, a perspectiva; claro que, para grande parte do materialismo, o “Espírito” é, apenas, Consciência aprisionada no corpo, mas já dizia Voltaire que estas discussões são inúteis à moral, e, não obstante, também esta é a regra neural, superegóica, que, na relação dialéctica com o inconsciente, se justifica sempre; o determinismo mata a moral, mas não mata a sua ilusão, bem como a ilusão de liberdade, receptáculo primário, distinto da liberdade pura, do Nada, que alguns portam para a linha do infinitamente pequeno, mas, mesmo aí, é tudo uma questão de perspectiva, basta que nos arrumemos na escala perfeita; nesta, a Consciência parecerá, indefinidamente, indolor, ou in-sofrida, para o “utilitarismo” seria, possivelmente, questão de multiplicarmos o Insofrimento, assaz algoritmicamente, mas, por cada momento infinitesimalmente pequeno, se esboçaria novel acção perfeita, e teríamos de saber quanto tempo nos resta, quem abranger no plano de Salvação, ou importará mais a qualidade do que a quantidade, valerão os homens todos de igual modo? Qual a proporção exemplar? O terapeuta abusa, constantemente, da perspectiva da “qualidade de vida”, mas que fazer sem o número mínimo, não será esta uma “questão de vida ou de morte”? A ciência médica cumpre, bastas vezes, a sua missão categórica, ficarão as grandes questões fora da ambiência clínica? Deixá-las-emos para a psiquiatria? Não é esta a grande “dor” que enforma a Consciência? Não andará, perpetuamente, o Homem cindido entre a “dor de costas” e a “dor de cotovelo”? Num tempo de Humanidade corcunda, o eixo raquidiano já não forma uma cruz com o eixo do tempo, bastará, então, que nos “doam as cruzes” o suficiente para não pensarmos.

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O pensamento é, não obstante, o demónio do “Espírito”, para este sobra várias vezes o âmago do “Nada”, não admira que no Placebo se aplique tantas vezes “tudo”, e é forçoso que venha o “materialismo” arrumar a casa, é preciso dividir para reinar, é o que faria a componente “clínica” na senda de um Foucault 12, largando para a pós-modernidade todas as outras possibilidades, vivemos em “logocentrismo” 13, claro está que o pensamento é espírito também, o “juízo” é, de alguma forma, a injecção de uma força, para a qual converge a “fáscia” Espírito-corpo, susceptível de patologizar muitos “Eus”, e o “Eu”, em estado de “pathos”, é a queda mefistofélica, e esta é, continuamente, elevação, “materialismo racional” (Bachelard 14). Há, como tal, repleta circularidade, mas isso é ver segundo diversas perspectivas, vários lugares “escalares” na “escada” da Consciência, e as escalas são, mais uma vez, as “razões” de Ser de uma Unidade indeterminada, onde tudo parece Nada, e onde a “posição” remete para novel “pathos”, a ciência trata das relações distintas do que seria Incognoscível, seria mas já não é, se o fosse seria Espírito, ou talvez este seja, apenas, matéria subtil, parece a ciência limitada, mas ela trata, tão-só, das relações “úteis”, tal o pragmatismo à William James 15 ou à Peirce 16, a própria “vida” figura um pragmatismo que a Razão, tantas vezes, quer ofender, para Claude Bernard 17 a vida é o “fenómeno”, pouco interessa se atemos “Espírito” ou “matéria”, é tudo Uma só coisa, e a ciência é para servir a vida, não nos colocamos, aqui, tão longe da realidade fenoménica à Husserl 18 ou Heidegger 19, que o fenómeno é precedente, é o próprio Númeno (Kant 20), e Michel Henry 21 vai mais longe arrumando a sua “Vida” naquilo que proporciona tudo isto, bem como a consciência de quem isto escreve, que é, uma vez mais, espírito patologizando caminhos, a queda é uma elevação, e o contrário também é verdade, mesmo aqui se vê como tudo caminha em círculo vicioso, é por isso que a Filosofia sempre se repete, daí o jogo das analogias, e a acusação popperiana 22 de que se redunda num “relativismo dogmático”, a falsificabilidade serve, então, o pragmatismo “vital”, bem que o podemos reduzir ao elementarismo linguístico 23, mas isto não mata a Consciência, o “fenómeno”, que, consecutivamente quer portar consigo a Realidade, mudando, portanto, a consciência de uns tantos onde reside outra “imagem”, outra “vida”, outro “juízo”, e esta pode engendrar novel Sistema, mesmo estando em desacordo com o conjunto algorítmico do mundo, e este nunca deixou de ser “subjectividade”, o Sujeito totalizador insofrido, e multiplicar os algoritmos é multiplicar Realidades no tempo, que parar é morrer é Ser Unidade impensante e impensada, mas parar poderia ser “equilibrar” o Sistema num agregado determinado da Razão-Realidade, é incessantemente o Corpo que fabrica a maior demanda, a obrigação vitalista de nos escudarmos dos excessos fabulísticos, e, no entanto, a Razão seduz, tantas vezes, o corpo, submetendo-o, sujeitando-o, e é por isso que alguns dirão ter o Placebo a palavra final, poderia, até, o terapeuta entrosar sua verdade, pouco interessaria o consentimento, de qualquer forma, todo o trabalho terapêutico é uma violação, que interessa o consentimento sem a omnisciência, sem a adivinhação da Realidade, até o acto médico seria uma violação, é este o problema da dualidade, nunca é inteiramente compassiva, mas se o paciente nos procura é porque requer uma transformação, uma “práxis”, que se assaca como consciência no terapeuta, cujo acto visa, muitas vezes, transtornar a Realidade, a mesma onde ele se insere, e que o transtorna juntamente, e isto pode, quiçá, estancar a acção “terapêutica”, ou talvez ele queira tratar-se tratando, curar-se curando, libertar-se no acto de apropriação orgasmática do “paciente”, no fim não seria UM só, coito, ainda assim?, Marcuse 24 menciona a “racionalidade libidinal” como novo paradigma, seria assim tão obscuro que um terapeuta se comportasse como conquistador?, e que a resultante fosse a Unidade indeterminada, despolarizada, compassiva e libertária para com todos os outros que restariam como peças de um Sistema desorganizado?, mas é terminante que exista Caos para que haja intento terapêutico, cada um quer fazer amor com o seu “paciente”, a criatura, e esta “paixão” é pedófila, para além de incestuosa, porque fazemos sempre amor com a criança que somos e que o “outro” convoca, assaz com paternalismo, ou maternalismo, e o Fim é resgatar o Princípio, fugindo, de vez, da responsabilidade de salvar o mundo, já nos matámos matando de amor a criatura, os que ficam refazem a luta, a relação dominante-dominado, como em Hegel 25, e também neste o jogo é dialéctico, e também nele a dialéctica jaz dentro de nós, no raciocínio, que importa que Marx o quisesse trazer para a senda de um pragmatismo (histórico e social), claro que o que fazemos é sempre para transformar as vidas, é a acção que importa e ela transporta-se tenazmente para o aspeito de um pós-modernismo, reactualização do espiritualismo, não quer, bastas vezes, o médico agir como “participante”, a Objectividade sempre deseja o Objecto sem desejo ou sujeito, estranho é que o Espírito queira continuamente cair na aventura de apropriação de um mundo lúbrico, valerá, novamente, sofrer para nos limitarmos a ascender ao lugar intemporal, inConsciente, indeterminado, onde o tomismo reproduz infinitamente a relação do Uno com a própria dualidade, gerando, sempre, a ilusão temporal de que podemos “crescer”, mas crescer para onde?, que importa a meta se ela se (re)desenha permanentemente no horizonte?, e é por isso que existe a ilusão, a ilusão é “existir”, insistir transformando-nos no “absurdo”, tentando, acaso, esgotar o multiverso, obtendo, mesmo assim, o “Princípio dos Princípios” 26, onde, apesar de tudo, estaria previsto este texto, ou talvez venha algo do Nada, mas que dizer do que não existia, só podemos falar do que podemos prever, e a previsão é, precisamente, a zona de conforto da ciência, os espirituais justificam-se, tantas vezes, dizendo que tratam, meramente, de “matéria por desvelar”, potencialmente previsível, mas isto nunca chegou a ser “Espírito”, era, somente, um desconhecido, quantas coisas desconhecidas não andarão por aí deflectindo o destino, baralhando as variáveis, transtornando a reprodutibilidade, há que fugir desse terreno para que não tenhamos que pagar a factura da responsabilidade, mas a “práxis” é, justamente, construir um novo mundo, nem que seja pela mera compreensibilidade, que é muito mais do que “descrever”, mas se o fazemos “agressivamente” o mundo defende-se, e nós também, para Maslow, o terapeuta tem de ser obrigatoriamente harmónico, ao invés de ser um “louco” de orgulho reflectindo os seus fantasmas num paciente rapidamente subtraído ao universo de uma Ordem fosca que acabou por ser traída e transtornada no jogo das faculdades quiméricas. O medo da transformação é o intento do “descritivo”, o “atomismo lógico” é uma defesa clássica, mas, igualmente, uma defesa do paciente, do Colectivo, quem pode, realmente, mudar o mundo, quem pode ser “deus”?, e, não obstante, “Deus sendo” só na criação perfeita, que se faz sem precedência, mas ela também enfuna por uma resultante mais ou menos sinérgica, e o “adquirido” é, muitas vezes, o palco onde reconstruímos um passado sem precedentes, ou talvez previsível, para que não tenhamos que sofrer tanto, e para que possamos ser compreendidos, que é, neste contexto, ver-nos descritos nos olhos do terapeuta, e não façamos muito mais, quem somos nós para interferir?, mas esta é a Culpa maior, e ela não deixa de exprimir um pretérito de fantasmas ao qual não acedemos puramente, porque fazê-lo é reconstruí-lo, como reconstruímos o paciente por cada instante de “terapia”, e isso faz-se, ainda assim, no Agora, no Eterno que estagna a hemorragia nostálgica e neurótica, no Fenómeno onde o “acontecer” é justamente heurístico, no Amor já sem “pathos”, sem dor, que consigna a meta final, algorítmica, consumindo o Imaginário, que, não obstante, sempre demarcou outro palco de criatividade, amar é criar, e isto é “descrição” pura para a compreensão que se enxuga na zona de cruzamento do Espírito com a matéria, realçando o puro monismo Corpo-mente, o “adequado” de Espinosa 27, mais uma vez, é esta a “meta” pretendida, o “perfectível” infinito, tomístico, assusta, e a dúvida é a dor absoluta, o vaivém neurótico que todos consignam, e que estancamos, ilusoriamente, com as compensações, mas, quando se trata da “psique”, todas as possibilidades estão em aberto, e esse relativismo assusta, claro, o “atomismo lógico”, já basta que o terapeuta seja “dialéctico” e que construa o paciente à vontade do que vê, “tudo é interpretação”, dizia Foucault 28, mas, exactamente por isso, “bem” e “mal” não existem, há, apenas, que perseverar, mas, como já dissemos, existe o pragmatismo, a “zona de conforto” onde operamos com o esquema empírico proximal que conseguimos controlar, prever, a liberdade seria irresponsável, isto se existe alguma, mas aquela de que falamos correntemente é a própria Condição anelada, acaso a “impassibilidade”, o “Verbo”, da patrística, o estado de Cristo, mas cuidai que a Fé dos teólogos não passa de “emoção” para os filósofos que pretendem, sobretudo, reificar a Razão, mas também esta é emoção, a “relação” é o paradigma da modernidade 29, mas ela transporta consigo todos os fantasmas que uma certa “redução fenomenológica” transtorna pela “impassibilidade”. E o pesadelo da i-moralidade, obviamente a “moral” não precisa da liberdade, mas esta é muitas vezes arrumada à frente do “dever”, e este é conforme os “planos”, as perspectivas, as referências neurais; a “dor” é a “diferença” que comummente se coloca na Idiossincrasia, esta pode magoar o Colectivo, mas é também ela que faz a ciência, que serve o anterior, que faríamos num mundo inteiramente libertário?, mesmo sem Estado, as forças de “ajuda mútua” (Kropotkine 30) prevalecem, por vezes até é necessário sacrificar-nos – atemos, mais uma vez, a compaixão -, e esse seria o serviço “terapêutico” peremptório, mas, assim, morreria a “práxis”, a transformação – que, num mundo plenamente determinado, se limita a fazer variar os dados da Causa incausada -, seria a busca pelo “melhor”, mas este só pode ser adivinhado se o próprio multiverso se esgotar, como apropriar-nos da “Causa Final” num mundo plenamente livre?, por que não trabalhar pragmaticamente num mundo onde as necessidades imperantes são, quase sempre, imediatas?, é por isso que a “ciência” recusa tantas vezes a criatividade, e é por isso que a “evidência” se faz, concomitantemente, do já esperado, os melhores estudos são os que dizem o que já sabemos, a ciência é omnisciente na sua atitude totalitária, para além disso só o Espírito,  e este é ciência por desvelar. Então, para tudo ordenarmos, mais uma vez, convenhamos que Razão e empirismo devem, como sempre aconteceu, caminhar conjuntamente, num “paralelismo” monista, se bem que a linha da Consciência é quase sempre a dádiva da Cultura, e o intento de recuperar sacrificialmente a nudez do “Corpo”, da Imediaticidade, mas, Aqui, morre a consciência, já sabemos que não há Razão pura (Kant), portanto vivemos da negociação perpétua, ou da “indiferença” (Cioran), mas isto é recuperar a “dor”, a dúvida”, o desespero, e a doença mortífera é suprimi-la com o Princípio nadificador, daí que continuemos a versar pela leve “dor”, uma que não mate, a morte é o ponto onde a doença da vida recua plenamente, abnega totalmente, o Fim e o Princípio são a mesma coisa, e o paradoxo é a “dor” da sua compreensibilidade, os limites são, assim, (des)polarização absoluta, veja-se como, até aqui, os contrários embatem e se repelem, a despolarização total é uma repolarização, como na vida, e a “indiferença” é o PH equilibrado, já o relativismo total é polarizador, quando é que uma coisa é de tal modo “outra” que passa a ser “definitivamente” a “outra”? Bem vemos que o Corpo é dialéctica, é dor, é transformação, é apetência pela resolução sempre instável e nunca totalizadora, e o seu Centro Superior inclui qualquer coisa da SuperConsciência instrutora. Que o corpo fale mais do que o Espírito, já dissemos que nem isto garante nada, pode até ser que o Espírito condene o Corpo, também já dissemos que o “antes” é (re)construído no Agora, e este é Espírito, onde, aliás, cabe toda a Realidade, ora, isto é pragmatismo ainda assim, o plano consciente de um “ser” onde, aliás, cabem muitos outros, que isto submeta o corpo do paciente é o risco de toda a intervenção, também o paciente nos (re)constrói, e fá-lo sempre reinventando o pretérito, que é, igualmente, o que faz cada instante de Consciência colectiva, até ao in-momento de Re-solução cabal, o Julgamento crístico que nunca pôde subtrair-se à dor do “pecado original”. Claro está que a transformação “perfeita” volta a sofrer a amnésia, do passado e do futuro, no presente, que é construirmo-nos sem sentimento de culpa; quando já não tivermos vergonha de Sermos, já não existe “ser”, apenas a própria transformação, mas, aqui, desembocamos, mais uma vez, na Fenomenalidade da Vida, despreocupação, “Otium”, a partir do qual vamos querer voltar para nos reproduzirmos em mais uma “queda”, na qual estaremos, já, pensando em elevar-nos, quiçá, para novel plano multiversal, ou talvez nos surpreendamos com um Logos diferencial onde a imprevisibilidade dará lastro à dúvida reconstrutora de ciência e religiões, qualquer coisa adaptada ao novo modo de “pensar”, isto para não usar outro termo, não vá eu próprio deixar de ser pragmático, que é o risco de qualquer texto ou abordagem.

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A “indiferença” terapêutica poderia representar o célebre “meio-termo” aristotélico, mas cada um o visará de acordo com o lugar que ocupa na cadeia de escalas, na escada da Consciência, e, segundo os lugares, atemos, identicamente, diferentes linguagens, vários paradigmas. Não surpreenderá que a “clínica” tente, de alguma forma, fugir disto tudo, buscando uma limitada “razão prática”, para a qual converge uma “deôntica” com alguma aceitação do Colectivo. O equilíbrio entre “Deôntica” e “utilitarismo” não escapa à “Clínica”, que, não obstante, metodologicamente é “imoral”. Acresce-se, correntemente, a ética à “Clínica” como coisa “estranha”, esquecemos, inclusive, que a ética perfeita remete para a omnisciência, que o mesmo é dizer que a ética médica serve, muitas vezes, apenas para aligeirar consciências, responsabilidades e processos. Mas se é verdade que a Ética perfeita é igualmente imoral, o trabalho terapêutico não pode ser inteiramente despido de imoralidades. Por vezes, sentimos, até, que o erro é a regra, a “moral” é, tão-só, para amortizar a Culpa, e, estando esta extinta, poderíamos, quiçá, reinventar, de vez, o nosso paciente. Culposamente, bastamo-nos na defesa, inculposamente, seremos Unidade sem mácula. Que a vida é ir acumulando um saldo (i)moral, e mesmo a nossa passividade não garante nada, podemos pecar involuntariamente, onde quer que nos coloquemos há sempre algo a aprontar, a indiferença também pode macular, e talvez essa seja mais o destino do que o trajecto, e neste há de tudo, se formos muito passivos, pode, quiçá, ser o paciente a tratar-nos, se há Condição há sempre algum lugar a partir do qual nos portamos ao comportamento moral, e é também a partir daí que vamos justificando-nos, função da Culpa, todos estariam perdoados, e há sempre razão onde há Realidade, o que expressa o movimento relacional é a carestia de auto-perdão, auto-amor. Assim, perante o Incognoscível, padecemos, somente, de nos posicionarmos algures numa Escala de Consciência, e também perante o primeiro, pode ser que não faça qualquer diferença estar onde estamos, e, não obstante, também padecemos de nos mobilizarmos para um “estado” que permita o menor atrito possível com o exterior. O “exterior” absoluto é a meta, até lá seremos determinados pela culpa, pela “razão neurótica”, a assumir um papel de “livre-arbítrio” lentamente recuperável.

A “Clínica” é, ainda assim, o que mais garantidamente podemos dar ao paciente. Quando o pragmatismo “local” se quer empregar numa transformação mais profunda, aqui, sim, cria-se um risco, daí que, muitas vezes, haja quem se limite a medicar(-se), deixando para o destino, para a vida, o jogo do vaivém “terapêutico”, e neste todos são terapeutas na mesma medida em que todos somos neuróticos. Trabalhar para o equilíbrio é o grande Objecto, mas o “meio termo” de cada um difere idiossincraticamente, se o terapeuta quiser fazer, num dado momento, um movimento plenamente pensado para um Colectivo algorítmico, mesmo aqui, tudo dependerá do (in)sofrer de cada um, a resultante é o conjunto “final”?, é o tempo que nos resta?, incluirá toda a mácula do passado?, ou limitar-nos-emos a remir no “outro” a mácula que nos consome? Pagas as dívidas “morais”, haverá algum futuro?, o empirismo perfeito é o alvo de muitos terapeutas que se pretendem “objectivos”, faremos disso parte do trajecto e despedimo-nos do resto?, ou faremos disso o alvo inicial, para que outros tratem das manifestações “locais”? Nem o Algoritmo seria justo para com o passado se quiséssemos que ele sanasse o tempo que nos resta, e o Absurdo não seria tão absurdo que permitisse dar aos mesmos de sempre as mesmas quotas morais, o tempo poderia vir para dar ao Princípio todas as possibilidades mal reinantes, mas isto é o que diz a minha própria convicção, e esta é, apenas, a idiossincrasia do momento, poderia, até, acontecer que ela se deleitasse com o tracto de uma terapia, mas terapeuta e paciente não serão uma espécie de minoria face ao Colectivo nesciente? Quanto pode durar o efeito de um tratamento se esse Colectivo, ou o meio, não ajuda? E haveremos de começar por onde? 

O terapeuta “algoritmo” teria de fazer magia, antecipando o momento que a Consequência produziria, de resto, qualquer transformação abrupta parecerá fazer demasiadas vítimas, seria preciso compensar tudo com o tempo restante, mas isso não tira a cada um o Sentido da sua Justiça, que, aliás, se justifica sempre, mas parecerá mais ou menos “culpada” no acordo com a Razão dominante. E é nesse contexto que o “culpado” será crescentemente convidado a “tratar-se”, irónico que possa formar com o terapeuta uma espécie de bloco resistente. Mas a “resistência” maior é quase sempre hipermoral, e esta nem sempre é digna da “moral” idiossincrática, que, logicamente, conhecerá, sempre, de algum modo, o peso da “desigualdade”. Aquém do “Arché”, deixamos que o futuro seja muitas vezes irresponsável face ao Pretérito. Também o Cristianismo quis fazer “tábua rasa” do seu produto “secular”, e isto é, apesar de tudo, a Ordem da “Razão prática”, o pragmatismo que, no limite, coloca a Deôntica ao serviço do consequencialismo. La Palice diria, quiçá, que os Princípios precisam dos Fins, mas, antes de defendermos que “a função faz o órgão”, talvez devêssemos lembrar que é o órgão, a Postura, que permite a função, ou será, talvez, como o ovo e a galinha, até aqui se engendra a circularidade Espírito-matéria, o paradoxo da Consciência, a bipolaridade morte-vida, e também se engendra o “bom senso” científico que, ademais, se reproduziria pedindo, muitas vezes, socorro à “Physis”, a mesma que o mesmo “bom senso” constrói na sua prestação Consciente. A batalha incansável Espírito-corpo é uma guerra de conquista da primazia que a Filosofia nunca pôde resolver; ou talvez não haja nada a resolver, porque a Consciência de cada um possui a palavra final, como no suposto Algoritmo, nem importa que sejamos “máquinas”, pode ser até que a máquina ganhe “alma”, para isso basta parecer, não é preciso ser, porque essa “alma” está, não obstante, na validação externa, noutra alma talvez, e o “externo” é tudo o que requeremos, mesmo que para isso tenhamos de esquecer que nos transformamos constantemente e à custa dessa empiricidade. A empiricidade da máquina, o futuro, poderia ser assim, desprovida de Culpa, apagando sucessivamente o passado “imediato” à medida que caminharia no trajecto que, entretanto, também deixaria de ter um destino “consciente”, o que, para todos os efeitos, é o que já acontece com o Homem inculpado, que tão feliz é que se vai borrifando para tudo, e ainda comete o deslize de não querer progredir, tragédia do “Espírito”, mas real Objecto de todos e do Tudo, não ter para onde ir e estar sempre em casa onde quer que estejamos, e isto é um pequeno recuo face à dor, à dúvida, é a vida de harmonia, onde nos esquecemos e onde tantos dizem estar, numa Luz qualquer que não alimenta nada senão a ilusão de uns poucos. Indiferenças há muitas, placebos ajudam, massagens, festas e “Wellness” sempre nos podem reconciliar com o corpo, mas podem, igualmente, alienar, desviar-nos do caminho, quiçá nos encontrássemos de vez.

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A Função maior será, então, o Princípio da Realidade, face ao qual nem todas as posturas resultam, por mais que um Sujeito esteja “resolvido”, pode sempre expressar-se uma ameaça “vitalista”, sim, é verdade que não há posturas perfeitas, mas pode pagar-se um preço muito caro por não satisfazermos minimamente as condições da “empiricidade”, e nem sempre o terapeuta ajuda neste processo, o seu “pathos”, a sua “pena”, pode fazer olvidar a Função em nome da Postura, mas se a Postura não serve a função não pode haver futuro, aliás, a função brota naturalmente da Postura, e para isso converge a necessidade de inibir todo aquele excesso “dogmático”, anamnésico, que a “Cadeia muscular posterior” simboliza. Daí que a “flexibilidade” corresponda a maior tolerância, dentro da qual o “Ser” se pode exprimir livremente, eticamente. 

Manda a dinâmica “normal” dominante-dominado que a “Physis” iniciática permaneça francamente inalterável, é indiscutível que é nela que buscamos a Razão moral, colocando no devir as condições de gerência do livre-arbítrio, que, como já dissemos, requerem do apoio da Realidade. É assim que a própria dualidade se vai perpetuando e adivinhando, em torno de um eixo que poderia ser o do ráquis, crescendo na aproximação de Postura e função, músculos posturais e musculatura fásica, Reeducação Postural e Pilates, com o movimento expressando um tempo que se vai lentificando progressivamente, multiversalmente. 

De resto, cada ínfima postura do grande movimento funcional expressa a dualidade “Postura vs. Função”, o paradoxo heraclitiano renasce em cada mínima posição, o risco recua à Postura e esta ajusta-se ao movimento, que os métodos constantemente se contorçam e relativizem é o destino de uma intervenção dialéctica, se a postura é rígida também o risco acelera, porque o movimento se regidifica também, há, portanto, dança permanente, “pathos” concorrente terapeuta-paciente, equilíbrio conquistado em fluxo (des)siderante.

É nesta dança que o terapeuta projecta comummente para o passado a deriva do Presente, na realidade, a Psicanálise é, “per se”, neuroticizadora, no seu quase delírio perde de vista o efeito do adquirido tangencial, mas este é o “sentido vital”, daí que o método dogmatize, e seja, ele mesmo, defesa, substituindo-se, acaso, à moral, mas, como já sabemos, a hipermoralidade é outra defesa usual, assim como a busca “meditativa” da transcendência, que não pode ser obtida precisamente porque é desejada, a Salvação não se deseja, a transcendência é o equilíbrio permutado, “desiludido”, a dor, a dúvida, está mais perto do Equilíbrio, quando o “pathos” não é, ainda, doença, e desfere o golpe da indiferença, esta é a inibição da escolha, a facilitação do movimento pelo alongar do próprio “Ego cogitum” (Descartes, Husserl), a maior “redução fenomenológica” advém de tornar o Sujeito maior face ao Objecto que (o) inclui, quando o Objecto magoa até o “Ser” empírico poderá ter de “recuar”, de retrair a cadeia muscular espiritual, egóica, e a compensação nutre a retracção, facilita-a, e obstrui-se, quiçá, a harmonia da “Physis”, que é estarmos nos “termos” correctos, provavelmente não muito para além do “Arché”, é a consciência “culposa” que exprime o movimento forçoso e a busca da defesa anamnésica, “posterior”, claro que isto não mata o “Ego cogitum”, nem o “objecto” racional, mas turba, acaso, a perspectiva, mobiliza o Sujeito na Escala de Realidades, e estas são outros Sujeitos, outras “posturas”.

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Cada postura configura uma i-razão aplicando-se praxicamente na Realidade, na medida em que duvida desta, consigna uma “Razão prática” submetendo-se à moralidade do Colectivo, e isso só faz sentido quando a Razão se pretende maior do que outras, quando nos enfocamos num Universal, que é acreditar que há um Superior, ora, a ilusão de que a liberdade é alcançável é condição do exercitar dessa mesma liberdade, doutro modo, a liberdade é “relativa” e cada razão será “númeno” transformado em “fenómeno”, porque o Númeno não É, existe, apenas, como Ser compensando o Ego. Desta forma, a Razão não é um irracional desvelado, ou talvez tudo seja I-Razão, um Colectivo mental, onde cada instante adequa uma relação diferente, um desequilíbrio distinto, entre o Sujeito repleto de desejo e o Objecto impassível e impossível de ser atingido sem que o Sujeito se perca, sem que ele se torne, pela “práxis”, noutra coisa, que, ainda assim, não sendo livre, é Colectivo maior, principesco, onde a Razão prática é Uno. E a partir deste, cada i-razão enfuna por um conjunto mor de desequilíbrios, e cada um deles é uma tentativa de racionalização, unificação, do Ego, que não deixa de buscar em “Si” a segurança com que abalará o Princípio, no viés da insegurança do avanço, que, às tantas, é recuo, busca do “mesmo”, já não mesmo, porque o Agora sempre se redesenha, cada in-momento se perde continuamente para um Objecto que se recusa a sujeitar-se e logo o faz na medida do desafio do Ego. A circularidade é a dualidade do “eterno retorno”, a posição moral é a compensação, quiçá Estrutura, ameaça de Nada, de Equilíbrio, e o desequilíbrio é a certificação constante de que quanto mais o Sujeito quer ser Objecto menos Sujeito existe. Perante isto, a Culpa é dor, e tanto faz que o saibamos, não existe modo absoluto de nos estancarmos, estamos “condenados a ser livres”, e somos sempre no Fenómeno enquanto “coisa em si”, e cada um difere de Sujeito para Sujeito, em cada um destes existe uma relação dissemelhante com o Objecto, uma aproximação maior ou menor deste, e esta multiplicidade nutre o Sistema, é a sua Energia, onde cada um desempenha um papel, e outro papel seria se o Ego do outro fosse outra coisa, que nós não somos nada, limitamo-nos a compensar-nos, a maior determinação implicaria uma “liberdade”, ou uma crença nela, que é olvidar, quiçá, que a mesma seja “relativa”, condição da acção heurística, num mundo onde a heuristicidade absoluta não existe, não impedindo isto a “Razão prática”, a mesma que difere e retorna à “massa”, à cadeia do Colectivo racional tornada Realidade, para que esta seja transtornada pela necessidade de cada um. 

*

Se o poder (Adler) concorre para Eros (Freud), também o indivíduo trabalha para converter os que ladeiam na sua Razão dominante pragmatizada, e isto pacifica a sinergia muscular, lentificando a corrida, e já o outro Domínio reage para recuperar o seu “poder” compensatório, é porque há peleja que cada compensação medra num “Fenómeno” que parecia, assaz, “coisa em si”, a dualidade é, ainda assim, quase previsível, e a sua linha quer crescer espiritualmente, comutando o tempo, substituindo-o por mera verticalidade ética, para além de bem e mal. Uma postura ideal dilui as forças, fazendo serenar a dualidade epistémica, a “diferença”, por conseguinte, é a proa da transformação, mas ela requer da outra força, dos que se convertem, estes são os “duais” por natureza, e eles decidem acerca da Razão dominante aferindo-lhe o peso da Realidade. O Sistema novel é “moral”, o que transforma moraliza. A conversão “dual” é o peso da Razão prática, o jogo é a Razão “moral” evoluindo para uma Ética que a esgota, suprime, compensa, e esta é a “Physis” maior, imoral, inocente, libidinal, incestuosa.

A Postura forçada torna o Pilates forçoso e vice-versa, este caminho nutre o paralelismo de forças, a polaridade. A aproximação polar é o espaço de Eros, a acalmia do Sistema, e, no entanto, existe, aqui, mais uma vez, a ameaça de destruição incestuosa, daí que a polaridade volte a ser cevada para alavancar a “vida” do Sistema, a fenomenologia dual, sem a qual a própria morte não faz sentido. “Viver é sofrer”, bem sabemos, e o algoritmo Insofrimento + vida é, também ele, instável, de algum modo mesmo a Higiene postural é bem intencionada, porque pretende prescrever um Equilíbrio (dominante), cominação do Igual, perante o qual a Idiossincrasia é torta, heresiarca, patriarca de um novo propósito higiénico capaz de burilar um “Domus” que, de qualquer forma, inclui todas as possibilidades vindouras, todos os desvios, todos os intuitos de regressão, e de assunção de um Equilíbrio maior, prenúncio de “Coisa em si”, prestes a desvelar-se fenómeno inescapável, passado constantemente reconstruído na relação irrecuperável com o tempo psicotizante.

Que o terapeuta se coloque frequentemente na zona de dúvida não espanta, e é lá que ele possui amorosamente o paciente, matando a moral, mas ofendendo, porventura, a “higiene”, há, claro, o risco de trair o Princípio clínico da Realidade, e sabê-lo é duvidar, mais uma vez, vogar entre “posturas”, lugar do “pathos” terapêutico, não admira que tudo pareça ser e não ser, e isto ofende, mais uma vez, a “higiene”, o “curto prazo” nomotético. O terapeuta pretende, bastas vezes, substituir-se ao “Domus” nomotético e pode ser que, arriscando o Todo, se desvie constantemente para o lugar da “minoria”, é esta a sua “maiorização” compensatória. Mas isto não faz olvidar a sua própria dualidade estruturadora, a sua missão de Síntese.

Referências bibliográficas

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29. Feuerbach L. Princípios da filosofia do futuro. Edição original de 1843.

30. Kropotkine P. Ajuda mútua: Um fator de evolução. Edição original de 1904.

Peace to mutants #6 — Naomi Lewis, Adam and the Ants, Les Filles de Illighadad

Naomi Lewis always had a strong attachment to nature and the outdoors, sensibilities and influences that are strongly present in her special kind of folk, that may be called bucolic. Growing up on a ranch just north of Las Vegas seemed to provide Naomi with a unique sensitivity which is present in all her compositions. Part of the 70’s folk movement, her two albums soon became praised as crucial for the privately-issued folk made during the 70’s. 

Lewis never shied away from citing her inspirations, women musicians that captivated her like Joni Mitchell, Judy Collins and Joan Baez, while maintaining her independent spirit and pure artistry that evokes dreamscapes in the listener. Naomi was brought up on a musical home, both parents liked classical and country which ignited her passion for music, and she soon became adept at singing, an art she learnt and perfected in the church choir. Despite thinking her voice was not so good, Naomi persisted and became fascinated by the art of songwriting. She later started playing the guitar and became a master at writing songs mostly composed of verses and choruses. 

Over time, Naomi gained many fans and supporters and managed to record in 1975, her first album called “Cottage Songs”, a very bucolic album that shows Naomi’s attachment and love of living in harmony with nature. Later the next year, in 1976, Naomi released “Seagulls and Sunflowers” which retains the same bucolic folk veins as its predecessor. However, Naomi soon became disappointed with the whole distribution and selling of her records, because she was used to offering her records and the process of selling them left her cold and disenchanted. Still, Naomi recalls that time fondly as one of cooperation and true musical harmony. 

(This short text was written based on Numero Group’s fabulous story on this singer songwriter, since there is not much information about Naomi Lewis online.

https://numerogroup.com/blogs/stories/naomi-lewis-gonna-find-me-a-rainbow)

E ainda:

Adam and the Ants – Kings of the wild frontier

The second album by the british new wave band. Infectious hooks and a whole lot of flamboyancy and a whole lot of theatrics make this one hell of an influential album from the 80’s. With Adam’s signature Burundi drumbeats, the songs are catchy and clever in equal measure. An essential new wave album and a fun ride back to the 80’s. 

 Les Filles de Illighadad – At pioneer works

Hypnotic and trancelike tuareg rock from a strong female ensamble. It combines modernity with the tradicional with mesmerizing melodies that often break in repetitions that make it all the more charming. 

The group was born in Illighadad, a small village in central Niger. The band’s leader Fatou Seidi Ghali who holds the distinction of being the first female tuareg guitar player. 

An absolutely beautiful album. 

Como É, Como Ter e Como Tratar de um Cavalo

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Um texto que pretende desmistificar os aspectos mais desconhecidos do público em geral relacionados com este animal: custos de possuir e manter, a comparação da sua personalidade com outros animais, e algumas referências do mundo hípico em Portugal. Texto de Ana Vieira Vicente em colaboração com João N.S. Almeida. Fotografias, quase todas, de Ana Vieira Vicente na Feira da Golegã de 2023.

Junto do público em geral existe uma ideia muito difusa quanto aos temas que se pretende abordar neste texto: quanto custa um cavalo, quanto custa mantê-lo, que condições são necessárias — em propriedade própria (do indivíduo ou da família), em propriedade de entidades terceiras —, se serve para animal de estimação, para animal de tracção — com vista à locomoção de passageiros ou bens — ou para animal de outros usos, e como é a sua personalidade.

Para ajudar a perspectivar estes pontos, podemos pensar como se comparam os custos e as exigências materiais e temporais de possuir e tratar de um cavalo com as exigências de outros animais e veículos: como se compara com um cão de raça, com animais de criação de tipos vários, com meios de locomoção ou lazer tais como um automóvel, uma moto-de-água, um pequeno barco, um iate, etc. Tratamos também, e principalmente, dos aspectos da personalidade deste animal e das suas semelhanças e diferenças com outros animais bem conhecidos, assim como a consideração do cavalo como meio de transporte.

Por último, e numa perspectiva mais sociológica, podemos pensar na ideia que com certeza estará presente na generalidade do público de que se trata de um animal de elite: que ter um cavalo, manter um cavalo e estar no meio dos cavalos é uma actividade acessível a poucos, quer por questões de custos, quer por questões de meio social. Terminaremos recomendando alguns sítios de qualidade onde as pessoas podem ter um primeiro contacto com o mundo equestre em geral e com o animal em específico.

I. Condições, Valores de Aquisição e de Manutenção

Condição imprescindível para a posse de um cavalo é a existência de algum espaço. Uma área condigna para dormitório do animal terá de ter, no mínimo 12 metros quadrados. Este é, na verdade, o único requisito absolutamente necessário em termos de disponibilidade de propriedade privada – tal como uma garagem para um veículo automóvel – pois, caso existam condições para isso, o resto da vida do animal pode ter lugar em espaços públicos, como, por exemplo, como estradas em geral, campos desportivos, descampados, sendo que a característica mais importante é que o solo deve ser solto, mole e pouco denso. O animal pode assim viver onde exista a possibilidade de o ter em espaço privado com espaço público circundante condigno, ou pode alternar entre um espaço deste tipo, mais limitado ou menos limitado, e a frequência de um espaço ligado à sua actividade mais específica, como, por exemplo, uma escola agrícola profissional, ou um centro hípico

Em termos então de custos propriamente ditos, comecemos com o valor de aquisição de um cavalo. Existem vários fatores que condicionam o preço: a ascendência (se o progenitor ou a progenitora ganhou alguma prova, por exemplo); se o progenitor foi um bom reprodutor (premiado); a raça (ou a pureza da mesma); a coudelaria de onde é proveniente; se já tem algum ensino ou não, etc. E claro, juntamente com tudo isto, o valor que se está disposto a pagar, ou seja: se pretende um cavalo jovem, de “raça” (puro) e “de ferro” (significando a marca da coudelaria inscrita no corpo do cavalo) ou se se pretende um “penco” (gíria equestre para cavalos que não são puros e não têm ferro). Assim, temos por volta de 1.500€ a 2.000€ (para pencos), enquanto que para cavalos de raça e de ferro começam nos 5.000€ a 6.000€, podendo atingir tectos muito superiores mas que não interessam aqui para o caso.

Prossigamos então com o campo muito diversificado da manutenção de um cavalo, que inclui tanto aspectos que são fundamentais como outros que podem ser opcionais, conforme as condições pré-existentes e também as preferências de cada um. Primeiro, os fundamentais: a alimentação (constituída por feno, alimento composto — ração — e suplementos em caso de necessidade); produtos de higiene, dos quais falaremos à frente; ferrador e, por último, veterinário.

Em relação à alimentação: claro, também depende se se compra uma ração na Agriloja ou se se compra uma ração tipo SF Rações, super especializada. Depois há rações que são específicas para cavalos de desporto, para éguas que estão em período de amamentação; isto varia muito, mas, claro, existem também preços mais acessíveis, sacos de rações de 50 kg (30€, por exemplo). Sem contar com suplementos, que são opcionais; por exemplo, alfarroba na ração, outros como farelos para criar mais constituição física, uns que têm vitaminas, e isso também depende muito do valor que se está disposto a gastar na alimentação do cavalo. Por mês, dir-se-ia que se gastará cerca de 50€ com o básico da alimentação de um cavalo.

No caso do ferrador, trata-se de uma actividade necessária e que dificilmente consegue ser atendida pelo próprio dono: os valores podem variar entre 60/70/80 euros por vez, tendo em conta que se podem de quatro em quatro/ seis em seis meses. Mas os cascos são como as unhas, eles crescem com rapidez, portanto depois todo o trabalho do ferrador é fisicamente muito muito pesado e, claro, existem ferradores mais experientes e ferradores menos experientes. Quando os ferradores cortam e aparam os cascos não os magoam. Os cascos são as suas unhas. Tal como nós não nos magoamos a cortar as unhas, os cavalos também não sofrem com este procedimento

Quanto ao veterinário, deixemos uma breve descrição daquilo que é expectável no caso dos cuidados de saúde de um cavalo. Às vezes é uma questão de sorte: pode ter-se um cavalo super saudável e que só precisa das vacinas básicas anuais ou que tem uma “gripezinha”, sendo que nesse caso vai lá o veterinário só para ter a certeza de que fica tudo bem e está tudo certo, ou então tem-se cavalos que estão sempre com uma doença qualquer: um abcesso de casco, uma cólica, um parasita interno, um problema respiratório. Portanto com o veterinário também depende muito do cavalo em específico e de como este vem para as mãos do dono: isto também depende muito do sítio onde o foram buscar. Claro que há excelentes casas, algumas até onde a mais fina flor vai adquirir os cavalos e, em relação a esses, sim, tem-se a certeza de que são super saudáveis e que não têm qualquer problema, mas tem de se estar disposto a largar muito mais dinheiro logo no custo de aquisição que, portanto, os assegura como animais super saudáveis. Porém, se se vai a um sítio que tem uma produção de cavalos menos “formal” ou a um amigo do amigo que conhece alguém que tem cavalos às vezes, nem sempre é o melhor sítio nem a melhor maneira de adquirir um animal, o que pode resultar nos imprevistos acima referidos.

Mas, na verdade, os profissionais da área como tratadores, cavaleiros, veterinários e ferradores não têm os seus valores por serviço “expostos” em sites e variam de profissional para profissional por isso não é exactamente possíbel apresentar valores exactos. Apresentaremos, no final, médias para todos estes casos.

Quanto a uma média de mensalidade para todos estes cuidados básicos, no caso de se pagar a alguém ou a alguma empresa que trate de tudo ou quase tudo, no geral é difícil dizer porque depende dos cuidados opcionais abrangidos, do valor do ferrador, do valor do veterinário e não só: ou seja, existem, por exemplo, pessoas que pedem 100/120 euros (depende do sítio) por mês, depois outros que pedem 500/600/700 [euros] e isso pode ou não incluir ferrador, pode ou não incluir veterinário [raramente inclui]. É necessário saber quantas vezes por semana o cavalo é trabalhado, que tipo de exercício é que se pretende que o cavaleiro faça, e todos estes fatores.

Alguns acessórios de higiene para o cavalo.

No campo dos opcionais, caso a disponibilidade do próprio dono, ou o seu conhecimento, não seja muita, há que contar com, por exemplo, pagar a um tratador e pagar a um cavaleiro para trabalhar o cavalo se não o puder fazer. Ainda, caso não se possua transporte próprio para o cavalo, é necessário pagar a alguém que tenha um atrelado ou um camião específico para cavalos. Além disso, havendo dinheiro, há muito por onde gastar com um cavalo. Nos produtos de higiene, há por exemplo uma espécie de creme para cascos para que os cascos cresçam saudáveis, um shampoo para as crinas 10, um amaciador para as crinas 15, um para deixar o pelo mais brilhante 15. Enfim, pode ter-se toda uma panóplia de produtos de higiene ou optar por um regime mais regrado. E ainda não falámos dos arreios, ou seja, de todos os equipamentos que um cavalo inclui: sela/selim (260€ a 1400€); a cabeçada entre os (45€ e 200€); o cabeção (45€ a 69€); as caneleiras (15€ e 100€), os suadores (18€ e 35€), o cobrejão para tapar o cavalo à noite (47€ e 200€); depois tens cobrejões com pelo de carneiro, tens cobrejões simples, tens cobrejões para o verão que são uma espécie de rede mosquiteira para quando estão no pasto ou mesmo em cavalariças quando há imensas moscas não estarem constantemente a morder-se. Portanto há mesmo muito por onde gastar com um cavalo. Não é propriamente uma manutenção barata, particularmente se sairmos dos básicos fundamentais e entrarmos nos acessórios.

Mas, mais uma vez, há coisas em que se consegue poupar, dependendo do caso específico do animal: se o cavalo for saudável tem-se menos despesas de veterinário, se o cavalo não for montado com frequência há menor necessidade de ferrador, se está mais tempo a pasto no verão gasta menos ração e consequentemente gasta menos palha ou aparas de madeira para a cama — porque também existe o factor da cama e portanto há valores que se conseguem reduzir se existir um espaço próprio para o cavalo.

No final deste artigo podem encontrar uma tabela resumida com todos os valores de que falámos e respectivos totais, particularmente em comparação com outros animais e bens de locomoção e recreativos.

II. O Cavalo, a sua Personalidade e outros Animais de Companhia, Veículos Motorizados e Desporto

A comparação entre cavalo e cão, a nível de personalidade, mostra-nos que são dois animais em certa medida semelhantes mas também muito diferentes. Para começar, são tão leais e tão temperamentais um como o outro. Por outro lado, nem o tratamento necessário é tão pouco exigente, no caso do cavalo, como o é com o cão, nem o tipo de sociabilidade é exactamente idêntico. Os cavalos, por exemplo, dão-se muito bem com ovelhas e com cabras. Eles precisam de companhia, enquanto que o cão subsiste bem sozinho com o dono, embora também se possa dar perfeitamente bem com outros animais de companhia ou de criação.

Apesar de serem os dois muito sociáveis, o cavalo, sendo uma presa natural, tem muito mais susceptibilidade e muito mais atenção ao que o rodeia, a potenciais perigos, e daí ter também uma sensibilidade maior. Crê-se que é uma das grandes coisas que o caracteriza, e, claro, também o sentido de manada: portanto, sendo um animal também social, precisa muito de companhia, de estar acompanhado principalmente por outro cavalos; mas, não sendo possível, pelo menos por outros animais como as cabras ou ovelhas que são animais também de manada e muito sociais. O cão já não tem essa necessidade de estar com outro cão por exemplo embora seja sempre benéfico em contexto urbano ou em qualquer noutro contexto, é sempre bom os animais estarem acompanhados por outros animais da mesma espécie.

Além de serem bastante sociáveis, são bastante leais. São coisas que têm em comum: a lealdade, a facilidade com que se entregam aos seus tutores, a vontade de agradar, também, embora o cavalo consiga colocar o seu “modo de sobrevivência à frente da vontade de agradar, ou seja, ele tem como prioridade a identificação de um potencial perigo e se esse perigo existir ele ignora a ordem/comando do cavaleiro, mesmo com laços emocionais fortes com o mesmo. Já no caso do cão, aquilo que são perigos naturais para um cavalo não constituem perigos para o cão: aquilo que constitui um fator de medo para um cão não é o que constituí um fator de medo para um cavalo. Entre estes fatores de medo podemos encontrar qualquer coisa: pode ser uma poça de água, pode ser um saco de lixo abanado pelo vento, pode ser um som desconhecido no local onde ele costuma passar, portanto podem ser inúmeras coisas que nós, como seres humanos, não identificamos como perigo e que para eles são automaticamente perigo e depois, claro, têm as suas próprias reações ao perigo. No caso dos cães, eles reagem muito mais ao ataque do que propriamente à defesa; o cavalo é um animal muito mais defensivo e o cão é um animal à partida atacante, não necessariamente de forma literal, mas mais no sentido de enfrentar o perigo. Claro que também tem a sua reação ao medo, mas há uma diferença, porque o cão pode ser considerado um predador e o cavalo uma presa , portanto naturalmente há aqui uma diferença de comportamento, por causa destas contingências naturais. É isto que é importante reter.

Pensando no animal como meio de transporte, cujo papel já foi muito importante, pode dizer-se que dificilmente o cavalo será mais vantajoso que o carro para transporte em curtas distâncias. A diferença é que alguém entra no carro, liga-o e vai com muito mais conforto e facilidade, porque entra, ligas o carro e está feito. Em relação ao cavalo há todo o processo de aparelhar o cavalo —colocar-lhe todo o equipamento necessário para ser montado: sela/selim, cabeçada, caneleiras/ligaduras e outros acessórios — ou atrelar o cavalo consoante aquilo que se precise. É portanto um bocadinho mais complexo do que vantajoso — até porque no Inverno é bem mais confortável estar-se abrigado da chuva e do frio, e a cavalo estás exposto aos elementos naturais. Não é certo de que forma é que pode ser vantajoso, talvez ambientalmente, ou a nível de ligação com natureza ou de preferência pessoal do utilizador.

Abordámos ainda a ideia de montar a cavalo como prática de exercício físico. Para já, montar tem um desenvolvimento físico que é muito relacionado com isso; aliás, precisamos de força física para montar, portanto é um desenvolvimento muscular muito maior, de elasticidade também porque precisamos de elasticidade para conseguir subir para o cavalo, subir e descer do cavalo, mas depois temos outras modalidades como no caso dos obstáculos que precisam de outras posições durante o percurso de obstáculos que obrigam também a que o cavaleiro tenha uma propensão física maior, um físico mais desenvolvido; desenvolvido no sentido de, lá está, de força, de flexibilidade, elasticidade e tudo o que isso implica, portanto sendo um exercício físico naturalmente que é benéfico e que é positivo. A nível mental: no caso das crianças é uma ajuda para os tornar mais responsáveis portanto pode ser um fator de auto responsabilização perante um ser, no caso de ter de limpar o cavalo, aparelhar o cavalo, desaparelhar o cavalo, dar banho portanto dá também este sentido de responsabilidade em relação no caso das crianças, também nos adultos como é óbvio, mas nas crianças para desenvolver este sentido de responsabilidade acaba por ser interessante e importante. O benefício de montar a cavalo mentalmente deve ser o mesmo que existe quando existe outro exercício físico qualquer, a diferença é que se está conectado a outro ser vivo e não se está num ginásio onde não se tem conexão com os materiais que existem, com os equipamentos que existem nos ginásios. Está-se a criar uma conexão com um animal que tem medos, que tem vontades, que tem também a sua personalidade que pode ser mais amistoso. menos amistoso, mais social, menos social, pode ter algum trauma, pode não ter um trauma e ser naturalmente muito sociável e ser amistoso, basicamente é isto. Como se está a criar uma ligação com outro ser vivo pode dizer-se que se está a criar uma reciprocidade de sentimentos, ou seja, o cavalo retribui a amizade, o amor por ele e este fator de sociabilização também é bastante importante porque estamos a praticar um desporto com um animal, não estamos a praticar um desporto com um equipamento. Temos outros desportos individuais por exemplo como o surf ou outros que existam mas todos implicam ou a sociabilização com outro humano ou a sociabilização com um equipamento (?) e aqui está-se a criar uma sociabilização com outra espécie portanto. Portanto talvez esta conexão seja o diferencial entre o exercício físico normal (ginásio ou uma corrida) e a prática de equitação.”

Num apontamento final sobre estes aspectos da vida do cavalo e da sua viabilidade, por vezes vêem-se cavalos em zonas periféricas ou mais pobres das grandes cidades. É dúbio que estejam inteiramente bem tratados conforme os padrões do bem-estar animal contemporâneo: medidas certas dos acessórios, limpeza dos cascos, ração adequada, etc. É possível que sim, é possível que não. Dependerá caso a caso, mas com grande probabilidade não serão as melhores condições para ter um animal destes.

Por último, algumas curiosidades sobre a biologia específica do cavalo. É um animal que dorme de pé (!). Só raras vezes dorme deitado, particularmente se estiver muito fisicamente cansado. A sua fisiologia está perfeitamente preparada para que ela durma de pé e provavelmente evoluiu no sentido de conseguir manter uma posição pedonal perfeitamente relaxada e sem significativo esforço de modo a isso ser possível.

As orelhas dos cavalos são mais do que apenas o veículo de audição: elas comunicam-nos o estado de espírito do cavalo, ou seja, as diferentes posições das orelhas indicam-nos como se sente. Por exemplo: quando o cavalo tem ambas as orelhas para trás significa que o animal sente-se ameaçado ou em stress com alguma situação que esteja a ocorrer, está desconfortável ou adota uma postura mais defensiva; as orelhas para a frente indicam que o cavalo está atento e interessado em algo que se passa adiante; já no caso de uma orelha para a frente e outra para trás o cavalo está descontraído mas sempre atento ao ambiente que o rodeia.

Os breves “bigodes” que floreiam a boca do cavalo têm também uma importante função. Os lábios destes animais são dotados de pêlos tateis, que têm uma função sensorial que os auxilia na selecção dos alimentos quando estão a campo e também como “mãos” uma vez que é através destes pêlos que eles exploram o ambiente ao seu redor. Uma vez que a visão não é um dos sentidos mais apurados destes animais, a audição e o tacto através destes pêlos são os seus pontos fortes como presas que são.

À nascença: sendo o cavalo uma presa natural e não um predador, o seu principal mecanismo de defesa é a fuga. Os cavalos, mais ou menos duas horas depois do seu nascimento já estão aptos a galopar (3° andamento e que corresponde à nossa corrida) em caso de necessidade de fuga a um predador

Tal como os restantes animais, os cavalos têm uma excelente percepção do estado de espírito dos humanos: assim, é importante que o cavaleiro se encontre calmo e descontraído aquando o seu tempo de treino ou prova.

Existem muitas raças de cavalos, mas o lusitano é o cavalo de sela mais antigo do mundo, ou seja, o cavalo que há mais tempo é montado.

Os cavalos também têm os seus melhores amigos, membros da manada (ou do centro hípico, ou da coudelaria) que passam mais tempo junto deles. O seu gesto de amizade é coçar o pescoço do amigo com os dentes.

III. Alguns pontos de interesse da vida hípica em redor da Grande Lisboa

Na zona da Grande Lisboa é recomendável a visita tanto à Sociedade Hípica Portuguesa no Campo Grande — uma sociedade de elite onde quase só se encontra a fina flor lisboeta, como é óbvio, aqueles com condições para suportar a posse e a manutenção de cavalos no centro de Lisboa — e também a Companhia das Lezírias, na margem sul.

A Sociedade Hípica Portuguesa (SHP) é uma instituição que já está estabelecida mais de cem anos em Lisboa. É conhecido na gíria como “Hipódromo do Campo Grande”: a sua fundação foi dirigida para corridas de cavalos (no sentido de hipódromo). Neste momento é um local social, mais direcionado para as pessoas reclacionadas com o mundo equestre, onde se encontram as pessoas da zona de Lisboa que têm cavalos ou montam a cavalo na zona de Lisboa: tem também um restaurante e funciona como centro de convívio para a comunidade hípica de alto nível. Está no centro de Lisboa e não existe mais nenhum centro hípico que esteja localizado no coração de Lisboa: existem outros, mas estão nos arredores, e este, de acordo com o seu estatuto de elite, traz a Portugal uma série de outros cavaleiros internacionais na época dos campeonatos e das provas das modalidades equestres, de acordo com a calendarização da Federação Equestre Intenacional; as modalidades mais praticadas na SHP (modalidades equestres) são a Dressage e os Saltos de Obstáculos, são os mais comuns entre as várias modalidades equestres que existem estas são as duas mais praticadas na SHP embora haja uma natural propensão para os Obstáculos; parece que sempre foi um local mais dado à pratica de Saltos de Obstáculos do que propriamente Dressage mas existem cavaleiros das duas modalides dentro da SHP, sendo que estando localizada no coração de Lisboa. É também de destacar o trabalho importantíssimo que têm feito no que toca a Equitação Terapêutica e Hipoterapia, como terapias complementares de patologias motoras e/ou cognitivas.

Outra entidade relevante na área da grande Lisboa é a Companhia das Lezírias (CL). É uma referência no panorama equestre porque é uma coudelaria e é das coudelarias mais referenciadas em Portugal mas são uma referência porque têm excelentes reprodutores, têm excelentes progenitoras e, portanto, dão aquilo que chamamos, na gíria equestre, excelentes produtos, ou seja, poldros que depois têm uma apetência natural para determinadas modalidades. Costumam participar nas provas de Modelos e Andamentos na Feira da Golegã (Feira Nacional do Cavalo) e são dos equídeos mais bem formados do país.


Tabela de valores comparativos sobre custos e manutenção de um cavalo

AquisiçãoManutenção (anual)
Cavalo1500€-6000€800€
Cão0€-3000€600€
Carro5000€-15000€1000€
Moto-de-água10.000 a 25.000800
Barco a motorde 2.000 a 10.000600
Tabela 1: valores de manutenção de um cavalo

Crítica: The Love Witch (2016, Anna Biller) e os Filmes Giallo Italianos

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Destaca-se hoje uma obra de cinema, The Love Witch, de 2016, escrito e realizado por Anna Biller, mas com o intuito de falar sobre um género cinematográfico italiano dos anos 60 do passado século: o Giallo. Género que mistura o thriller, o suspense, o erótico, e, por último, o terror sanguinário — giallo, que significa literalmente amarelo, advém de uma série de histórias de crime publicadas na década de trinta em itália, de capa amarela, mas também representam o amarelo da febre e aproximam-se do vermelho do sangue — pertenceu a uma idade de oiro do cinema italiano, hoje já desparecida, mas que deixou os seus pontuais herdeiros, como este The Love Witch.

Este conta com uma imensidão de referências cinematográficas, uma recriação do Technicolor dos anos 196O e do Giallo italiano. Elaine, a protagonista interpretada pela actriz Samantha Robinson, tem muitas semelhanças com ícones desse género cinematográfico como a actriz italiana Edwige Fenech. Toda a maquilhagem e o guarda roupa, remetem para o universo feminino do Giallo. Além desse género, encontra-se no filme o Folk horror — e possivelmente a cena da protagonista com um vestido vermelho, ao volante do carro, é uma referência ao filme The Velvet Vampire realizado por Stephanie Rothman.

Quanto ao enredo de The Love Witch, trata-se de uma bruxa, como o nome do filme indica, uma bruxa do amor que usa feitiços para que os homens se apaixonem perdidamente por ela. Esta perseguição desenfreada pelo seu príncipe encantado foi despoletada por um desgosto amoroso: na raíz desta obsessão estão traumas causados pelo sexo masculino. Elaine persegue um amor de conto de fadas, e por isso está condenada ao fracasso e a uma insatisfação crónica relativamente aos homens que vai enfeitiçando pelo caminho.

Desta forma, de modo satírico, o filme centra-se na condição feminina contemporânea e universal, com pontos transversais a todas as sociedades: a exigência quando se trata da aparência, a artificialidade como instrumento de sedução, a insegurança, expectativas românticas irrealistas, a dinâmica do poder nas relações entre os sexos. Ainda, não se contentando com os feitiços, Elaine esforça-se imenso, não se apresenta como é, enche-se de maquilhagens, perucas, ajusta a aparência e comportamento de acordo com o gosto do seu alvo: o artifício é a sua especialidade. Na sua óptica, está numa situação de poder, consegue seduzir os homens , mas aí entra o paradoxo: está a submeter-se aos desejos e a sacrificar a sua essência para encarnar as fantasias masculinas. No fundo, o pior dessa situação é a parte consciente do sacrifício pessoal da verdadeira identidade, interiorizado por Elaine, como necessário para ser amada. “I’m your ultimamente fantasy”, declara, rendida à sua condição.

O filme consegue também parodiar outros estereótipos femininos relacionados: a mulher fatal , a dona de casa perfeita que cozinha um bom bife, a combinação de ambas. Elaine encarna todos eles para agradar ao seu amado. Sugerimos a todos não só que espreitem esta peculiar e retrospectivesca película mas também que se inteirem do que é o género Giallo da itália fílmica dos anos setenta, sobre o qual falaremos mais em breve.

Correcções de Facto Sobre o Uso dos Termos “Genocídio”, “Apartheid” e “Ocupação” ou “Colonização”

Adiantamos aqui, mais uma vez, em continuidade de um artigo recentemente publicado aqui, algumas correcções de facto sobre os termos “genocídio”, “apartheid” e “colonização”, em relação ao seu uso recorrente e frequente na comunicação social e no discurso público sobre o conflito judaico-árabe na zona da Palestina, correcções essas que cremos serem não só necessárias, mas mesmo imprescindíveis, dado o contexto actual de declaração de guerra entre o estado de Israel e a região da Palestina designada por faixa de Gaza, região essa sob administração de uma potência declaramente terrorista denominada Hamas.

Apesar de, como recentemente vozes mais sãs, entre as quais as dos insuspeitos políticos democratas norte-americanos Barack Obama e Bernie Sanders, terem correctamente sublinhado como a situação do conflito judaico-árabe é complexa e não tem respostas fáceis nem absolutos inocentes de parte a parte, vemos com preocupação crescente o uso não factual dos termos acima citados para representar a disposição do estado de Israel em relação ao estado falhado da Palestina e respectivas populações árabes, maioritariamente reflectido numa enxurrada violenta de propaganda transmitida tanto pela comunicação social como até mesmo por agências internacionais como a ONU e derivadas — propaganda essa que, certa ou errada, coincide exactamente com os actuais objectivos do abjecto grupo terrorista Hamas, uma das várias células islamitas financiadas pelo Irão: retratar a situação em Gaza em particular e na restante Palestina em geral como de “genocídio”, de “apartheid” e de “colonização/ocupação”, procurando persuadir a opinião pública ocidental e mundial a forçar Israel a um cessar-fogo que seria absolutamente conveniente, no presente momento, para essas forças terroristas.

Ora, Israel pode ser muitas coisas, mas é preciso apontar frontalmente e de maneira objectiva que nenhuma destas classificações acima — genocídio, apartheid e ocupação/colonização — se adequam em sentido estrito à situação actual, e também que é duvidoso que alguma vez se tenham adequado. Vejamos como.

Campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, na Polónia. Foto da ONU.

Em primeiro lugar, a melhor descrição, ainda que imperfeita, para o que se passa nas terras da Palestina no seu todo, incluindo Israel, talvez seja, desde há mais de 100 anos, a de guerra civil. Actualmente, essa mesma guerra civil consubstanciou-se na constituição de um estado de pleno direito, Israel, fundado em 1948, e num estado falhado, a Palestina, cuja existência ainda não é unanimemente reconhecida na esfera das nações. Existem vítimas de parte a parte dessa guerra, que são até substancialmente maiores do lado palestiniano (facto ao qual não será alheio o desrespeito pela vida dos próprios da parte da cultura e das cúpulas militares da região), mas não atingem números sequer próximos daquilo que se pudesse considerar um genocídio — cuja definição estrita que aliás requer a intenção de extermínio absoluto de determinado povo, disposição que não existe, pelo menos declara, da parte de israel, mas que curiosamente existe nalguns sectores islamistas fanáticos, em redor. Tanto assim é que, de facto, a população árabe palestiniana quadruplicou em número nos últimos cinquenta anos. Seria assim um “genocídio” muito estranho aquele em que uma população cresce nessa medida. À falta de um objectivo declarado de extermínio da população e da diminuição efectiva da mesma, não parece sensato referenciar os grandes números de vítima árabes palestinianas dessa guerra civil como vítimas de um “genocídio. Além disso, e ainda a propósito mais especificamente do conflito presente, em que Israel declarou efectivamente guerra à potência terrorista que governa a zona de Gaza, com o único objectivo declarado de obter a sua capitulação e a devolução dos reféns sequestrados, podemos adiantar a seguinte comparação, que ajudará muitos a eventualmente terem noção das palavras que usam: consta que algures entre 300.000 e 500.000 pessoas morreram nos bombardeamentos aliados à Alemanha, na fase final da segunda guerra. Não consta que alguém tenha alguma vez concebido sensatamente que se tratasse de um “genocídio do povo alemão“.

Placa da era do apartheid, África do Sul, algures durante o século XX.

Quanto ao “apartheid”, refere-se, de modo genérico, maioritariamente aos controles fronteiriços apertados instituídos por Israel em redor das fronteiras de Gaza e dentro da própria Cisjordânia, mais a norte, decorrentes dos constantes ataques terroristas a civis de que esse estado vinha a ser alvo desde há décadas — e que, efectivamente, cessaram em termos da vertente do bombismo suicida, mas que continuam com grande regularidade em termos de ataques com rockets artesanais. Pedimos que reflictam um pouco sobre o que é a vida num estado assim, em que zonas civis são constantemente bombardeadas, e em que as únicas respostas possíveis são a instalação desses controles fronteiriços, a limitação e o apertado fiscalizar das populações árabes da palestina, e o bombardeamento tão preciso quanto possível de posições militares, imiscuídas em áreas civis, de onde partem os referidos rockets. Mas Gaza e a Cisjordânia têm poderes políticos próprios, eleições pontuais (a última, no primeiro caso, foi em 2006, e quem ganhou foi uma declara potência terrorista, o Hamas, o que diz muito sobre o que é um estado falhado) e independência de governo na medida do possível para um estado falhado. A existência de tais entidades de governo político independente seria estranha numa situação de efectivo “apartheid”. Não consta que os poderes políticos que governam os territórios sejam fantoches do governo de Israel, antes pelo contrario. Tal classificação de “apartheid” torna-se ainda mais abstrusa se aplicada ao interior do próprio estado de Israel, que é uma democracia plena sob quase todos os critérios: tem partidos, oposição, eleições, tribunais independentes, pesos e contrapesos, 20% de população árabe com representação parlamentar e direito de voto, juízes árabes no tribunal constitucional, etc. É completamente absurdo categorizar o interior do estado de Israel, e os cerca de 3 milhões de árabes que lá vivem, como existindo numa situação de “apartheid”. Portanto é, mais uma vez, um termo que só com larga liberdade poética ou propagandística, profundamente desonesta, pode ser usado num sentido estrito.

Tropas nazis marcham na avenida dos Campos Elísios, em Paris, durante a ocupação, em 1940.

Por último, a ideia de “ocupação/colonização” está relacionada com três pontos: os já referidos controles fronteiriços apertados e o crescimento de colonatos em terras alegadamente pertencentes a árabes; aos ganhos de território nas guerras de 1948 e 1967, em que Israel foi violentamente atacada por vários vizinhos árabes, tendo ganho a guerra e apropriando-se abundantemente de território no contra-ataque levado a cabo; e, talvez este último ponto o mais importante, a noção generalizada no mundo árabe de que os judeus não têm o direito de estar ali. Nada disto é admissível como fundamento para o uso dos conceitos de “ocupação” ou “colonização”: em Gaza, neste momento, não existem colonatos — desde 2006 — e na Cisjordânia a situação está a ser permanentemente negociada; os ganhos de território em contexto de guerra, que aliás não foi Israel a iniciar, são inteiramente legítimos dentro dessa lógica, dado que os vizinhos árabes jogaram as suas cartas e perderam, além de que tais ganhos referem-se maioritariamente a terras que são basicamente desertos — e que Israel consegue transformar em zonas prósperas, precisamente por ser um estado funcional; e, por último, os judeus têm todo o direito de estar naquela região do globo, pois sempre lá estiveram, embora, desde inícios do século XX, a sua população tenha aumentado imenso — algo que nunca foi aceite pelas culturas árabes da região, maioritariamente tribais e racistas — e esses mesmos judeus, um povo unido por um vínculo tanto étnico como religioso, têm todo o direito a possuirem e administrarem um estado em que inclusive os próprios árabes, dentro do mesmo, têm mais direitos e melhor vida do que nos vários estados falhados, autocracias, ditaduras e imitações de democracia, em redor.

Estes são os factos. Desafiamos qualquer pessoa a apresentar argumentos em contrário, notando que os mesmos não podem contrariar preceitos básicos da lógica (p.ex. não existe “genocídio” quando uma população quadruplica em cinquenta anos, não existe “apartheid” quando os três milhões de árabes em israel têm direito de voto, representação parlamentar e juízes no supremo tribunal, e não existe “colonização” quando sempre existiram comunidades judaicas de cultura mais ou menos homogénea naquela região).

Desejamos, por fim, que todos reflictam com mais cuidado antes de opinarem sobre um conflito tão complexo em muitos aspectos mas que certamente não merece nenhum dos qualificativos ilógicos que citámos; e pensem bem se, ao fazê-lo, não estão simplesmente a repetir propaganda que advém das fontes mais odiosas, ideologias islamistas fanáticas e aberrantes que pretendem todo o tipo de abjecções, desde a extinção do estado de israel até à islamização forçada do mundo, ideologias essas maioritariamente financiadas por potências políticas como Irão e respectivos satélites em redor, cujos valores são a quase total antítese das democracias liberais e dos direitos que nela vigoram, mundo no qual todos habitamos e reconhecemos como nosso e próprio para as nossas actividades. 

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Uma última nota: existem termos que efectivamente podem ser usados sem grande risco de chocante abuso retórico, ao contrário dos anteriores, em relação ao presente conflito. Opressão pode ser um deles — apesar de vago e subjetivo, é admissivelmente concebível que cidadãos árabes da palestina se sintam oprimidos pelos controles fronteiriços, pelas incursões frequentes de tropas de Israel com intuito de prevenção terrorista, e tudo o mais. Crimes de guerra pode ser outro termo usado com validade — é perfeitamente concebível que sejam pontualmente praticados e devem ser fiscalizados nesse sentido, mas atenção: é necessário fazê-lo em relação aos dois lados e não apenas a um deles (nesse sentido dá muito “jeito” ser-se uma força terrorista e não um exército convencional, e dá menos jeito ser-se um estado inteiramente constituído com responsabilidades frontais face à esfera das outras nações). E, ainda, talvez o conceito de violações do direito internacional, a nível não só de guerra mas de tratamento e gestão territorial e demográfica dos árabes palestinianos, possa perfeitamente ser concebível e discutível no âmbito das acções do estado de Israel nos últimos setenta anos. É mais justo e mais saudável retermos a utilização de terminologia objectiva como esta, com as devidas elasticidades conceptuais que uma discussão fina sobre situações e factos no terreno permita, ao invés de utilizarmos terminologia que tem muito de berrante e sensacionalista mas pouco de indubitavelmente verificável.

A «Segunda Proletarização» dos Professores

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Um breve texto sobre o decréscimo de qualidade operativa, de estatuto económico e de reputação social da carreira de professor do ensino público, desde há cinquenta anos para cá. Texto de Eurico de Carvalho. Professor de Filosofia do Ensino Secundário. Investigador do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto.

No debate — em curso — acerca da previsível carência de professores num futuro próximo, são muitas as opiniões que não vão além da litania da «primeira proletarização» da classe docente, sendo ela indissociável, aliás, em Portugal, da massificação escolar adveniente do 25 de Abril. Para explicar, com efeito, a crescente incapacidade estrutural de captação de profissionais para a área da docência, invocam‑se — ad nauseam — os mesmos factores, a saber: (i) os baixos salários; (ii) os vínculos precários; (iii) a ausência de ajudas de custo (susceptíveis de compensar a excessiva mobilidade geográfica); e (iv) a multiplicação dos obstáculos — ad hoc — à progressão na carreira.

Ninguém ignora a relevância desse diagnóstico para a compreensão do que se trata aqui. Mas é insuficiente. Vejamos porquê: tradicionalmente, e em relação a outras profissões de igual quilate académico (por exemplo: a medicina), nunca a docência teve uma remuneração compatível com o seu estatuto intelectual. Em suma: o professorado foi sempre mal pago. Houve um tempo em que isso, todavia, não era um impedimento à entrada (em todos os níveis de ensino) de gente capacíssima e com amor à arte. Porquê? Porque o prestígio inerente ao múnus professoral compensava, de algum modo, o sacrifício financeiro.

Assistimos hoje, porém, ao que devemos chamar a «segunda proletarização» dos professores. Por conseguinte, evolou‑se a sua aura profissional, com a consequente degradação da imagem pública da classe docente. É neste contexto, então, que urge compreender não só o esvaziamento institucional dos cursos superiores de formação de docentes, mas também a discutível valia da generalidade dos candidatos que ainda restam. Na verdade, não é apenas quantitativo o problema que o país deve resolver. Se quisermos ter um futuro que responda, de facto, às exigências do século XXI, já não será possível adiar o tremendo desafio da qualidade. Impõe‑se, pois, a pergunta: Como atrair os melhores para o exercício da profissão docente? Eis uma dificuldade cuja ultrapassagem exige que se enfrente — com rigor, audácia e sentido de Estado — a efectiva raiz do mal: a «segunda proletarização».

Não há terapia que nos valha, contudo, sem uma prévia diagnose. Ora, além de serem múltiplas e diversas, entrelaçam‑se, potenciando o seu efeito negativo, as razões de ser desse mal. Vejamos, pelo menos, as mais importantes: (i) a corrosão simbólica da autoridade cognitiva de quem ensina, à qual não é alheia, naturalmente, a redução «mediática» do conhecimento à moeda corrente da informação; (ii) a crescente «burocratização» das funções docentes, esvaziando‑se concomitantemente a respectiva autonomia; (iii) a desnaturação clientelar da relação pedagógica, cuja perversão se faz a reboque da «maquilhagem» estatística dos resultados escolares; (iv) a desregulação «neoliberal» dos horários de trabalho, no quadro da qual se explica, acima de tudo, o estrangulamento do indispensável «labor invisível» dos professores; (v) a indocilidade de uma franja significativa da população estudantil, com o consequente aumento exponencial dos níveis de indisciplina na sala de aula; (vi) o desrespeito institucional (em particular, no âmbito da generalização dos Cursos Profissionais do Ensino Secundário) pela formação académica de base dos docentes, cuja arregimentação compulsiva para «tapar buracos» acaba por os reduzir à absurda condição de «especialistas de banda larga»; e (vii) a degradação da agência republicana por excelência, ou seja, a Escola Pública, a qual se transforma paulatinamente numa instituição de assistência social e/ou animação cultural (com o prejuízo objectivo do seu papel fundamental: a promoção de uma autêntica igualdade de oportunidades).

Pela sua riqueza de conteúdo, por certo, cada um dos itens supracitados mereceria, por si só, um tratamento à parte. (Dada a economia deste artigo, tal desenvolvimento é impossível.) Seja como for, será suficiente realçar, por agora, a ideia‑chave da nossa análise: sem a erradicação cabal das causas da «segunda proletarização» dos professores, tornar‑se‑á inviável, à partida, qualquer tentativa estatal de captação dos melhores para a nobilíssima arte de ensinar. E, nesse caso, quer se queira quer não, estaremos perante (não tenhamos medo das palavras!) um imperdoável fracasso do regime democrático em que vivemos desde o 25 de Abril. A caminho do seu cinquentenário, esse mesmo fracasso seria uma indelével mácula, isto é, que nenhuma comemoração poderia alguma vez lavar.

O Distúrbio Obsessivo-Compulsivo, a Criatividade e o Direito à Fobia

Destacamos com prazer um dos distúrbios neuróticos mais associados à criatividade, mais bizarros, mais lúcidos, cujo carácter simples esconde tanto características de raciocínio complexo como de profunda agonia para o seu portador. Trata-se do transtorno da obsessão-compulsão, com incidência sobre cerca de 2,5% da população no ocidente, caracterizado de modo geral pela necessidade imperativa de efectuar pequenas repetições de actos físicos e de actos mentais, particularmente mas não só de rituais de higiene (uma das formas mais comuns e mais estereotipadas), rituais quotidianos, gestos e acções importantes, etc. Alguns exemplos são encontrados em figuras históricas da criatividade artística e científica, como Samuel Johnson, viciado em repetir gestos aquando da transposição de um espaço para o outro (uma porta, uma fenda no pavimento, etc.); David Lynch, focado em comer exactamente a mesma refeição todos os dias durante mais de 7 anos e por vezes interessado em conduzir ao longo do quarteirão até encontrar uma matrícula com capicua (para começar bem o dia, diz); Nikolas Tesla, fascinado com contagens de passos, mastigações, travessias, etc., em geral associadas ao número três ou a múltiplos (um número muito comum para a condição); e Howard Hughes, o caso mais conhecido, que terminou na dramática reclusão e incapacidade de higiene básica mas que começou discreto, também associado a contagens, separações meticulosas entre objectos, perfeccionismo e lavagem de mãos e corpo. É uma condição muito curiosa: ao longo do padecimento da mesma aparentemente o sujeito mantém-se inteiramente lúcido, ou seja, não ocorre aquilo a que se chama uma psicose, o alheamento da realidade através de efabulações ou alucinações sensitivas, mas mesmo dentro dessa lucidez e, se calhar, fortalecido paradoxalmente pela mesma, existe a compulsão irresistível da repetição desses pequenos gestos ou pensamentos, desde os mais coloquiais aos mais impactantes. A sua ligação à criatividade parece inegável e de facto talvez seja interpretável tanto através do perfeccionismo como do excesso de atenção a pequenos nadas, disposições necessárias ao trabalho bem feito. Vícios mentais esse que, porém, apesar de se bem direccionados serem vitais para uma boa obra artística ou técnica, resultam, se deixados sem controle, numa evidente agonia extrema para o seu portador e eventualmente na incapacidade de realizar uma vida mundana normal. Deixamos aqui esta que é, no fundo, uma homenagem a esta intrincada disposição mental.

Depois, abordámos confusões conceptuais no discurso público, e até versando sobre matéria legislativa, sobre o direito a ter “fobias“. Aparentemente, no argumentário académico contemporâneo, particularmente no universo anglo- saxónico mas também fora do mesmo, e também fora do universo académico, no registo coloquial de conversas intelectuais entre pessoas, uma certa “carta“ recorrente tem sido a de acusar o interlocutor de ser “qualquer-coisa-ista“ ou “fóbico“, querendo dizer que as suas opiniões têm determinadas características, em geral de indivíduos ou grupos, como possuindo uma conotação negativa a partida e portanto resultando isso em o seu argumento estar minado à partida. Ora isto é falso por duas razões, ou melhor, de duas maneiras: primeiro, se for de facto o caso, não é por alguém ter uma opinião negativa sobre um conjunto de características que verá, por razões de ordem moral, a forma lógica do seu argumento imediatamente invalidada; segundo, na maior parte das vezes que esse “trunfo“, que mais não serve do que como término artificial da conversação, é usado, é usado sem qualquer sentido, ou seja, atribuindo ao interlocutor uma posição generalista e preconceituosa que o mesmo não está de todo a ter. De qualquer modo, o facto que convém lembrar é o seguinte: numa sociedade aberta, numa democracia de pleno direito civil da liberdade de opinião e de expressão, qualquer pessoa tem o direito de ter as opiniões negativas sobre indivíduos, grupos de indivíduos, sobre características de indivíduos e sobre o que bem entender, mesmo que essas opiniões se aventurem no terreno do absolutamente pouco recomendável ou aberrante. Isto inclui racismos, etnocentrismos, homofobia, machismo, antissemitismo, tudo. Inclui até a versão de modo geral aquilo que alguns chamam “estupidez da religião“, como alguns ateus, muito tantos militantes, frequentemente referem (serão “teofóbicos”?) ou a opressão inerente à existência do estado que os anarquistas ou algumas variantes de liberalismo económico radical considerariam como absolutamente negativa (são “estadofóbicos”?)´. Ou seja, o ideal talvez possa bem consistir em, depois de sujeito a uma acusação dessas (“isso é fascista!” “Isso é homofóbico” “isso é antisemitico!”), o autor se confesse desde logo partidário de todos esses estados mentais e mais alguns, mesmo que tal não seja verdade (validando assim a fantasia: “aos malucos nunca se diz que não”), replicando de seguida: “será que a partir de agora podemos ter uma conversa séria”? Por último, deixamos, para queda final na espiral do disparate da perda de tempo de todo este onanismo moral, a melhor de todas as fobias: a FOBOBIA: o medo de ter fobias! Consultem em https://embracechangetherapy.com/2020/10/19/phobias/ ou noutras paragens.

Freelancer: Um Novo Intelectual em Emergência em Moçambique e no Mundo

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Uma análise sobre as mudanças nas sociedades africanas e em Moçambique em particular quanto à crescente dependência material e conceptual das profissões e dos ofícios intelectuais. Texto de Itélio Joana Muchisse (Mestrando em Direitos Humanos Justiça e Paz pela Universidade Católica de Moçambique, Extensão de Xai-Xai; Mestrando em Propriedade Intelectual para Transferência de Tecnologia para a Inovação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia; Licenciado em Ensino de História com Habilitações em Ensino de Filosofia pela Universidade Save, Extensão de Maxixe/Universidade Sagrada Família). Resumo: Não há nada de pejorativo em enunciar a mudança da ordem nos fenómenos. Ademais, essa enunciação pode significar, para alguns, a necessidade de uma mudança da postura face aos movimentos empreendidos em prol de posturas mais eficazes, em termos de iniciativas viradas para o desenvolvimento, tanto a nível moçambicano, em particular, assim como a nível africano de um modo geral. Desse modo, neste texto discuto algumas das posições que fui formando nos últimos anos sobre a produção do conhecimento, bem como a relação que essa produção tem com o desenvolvimento, tendo como eixo condutor o produtor desse conhecimento, ou mesmo que orienta os caminhos para a sua produção, designado por intelectual. Em parte, é uma discussão que se insere na problemática sobre a transformação do conhecimento em desenvolvimento, pelo que com o desenvolvimento vemos que o conhecimento se tem expandido em diferentes contextos, pelo que tal conhecimento alcança países africanos como Moçambique. Já neste último espaço, interessa investigar como usar do conhecimento adquirido para criar o desenvolvimento, daí que se discute que o papel do intelectual é, justamente, o de iluminar as sociedades nas diferentes esferas, inclusive na produção do conhecimento. Assim conclui-se que numa sociedade em mudança, os intelectuais estão também em uma encruzilhada, e são desafiados a acompanhar os tempos reinventando o seu papel que é o de animar o espírito das sociedades no sentido de encarrarem seus problemas de forma positiva. Palavras-Chave: Moçambique, Produção de Conhecimento, Desenvolvimento, Freelancer.

Introdução

O livre pensamento impressiona tradições desde que há registo histórico. Desde os pensamentos elaborados na solidão e retiro como em Santo Agostinho, Schopenhauer e outros, ou até em escolas de pensamento, homens e mulheres se têm destacado, onde se acredita que eles contribuam para as sociedades, através das suas reflexões sobre os seus modos de produção do saber e da sociedade em geral. Ora, é sobre o pensamento que este texto se debate, especificamente sobre a intelectualidade e a sua importância na construção de paradigmas epistemológicos, tendo como espaço de análise em primeiro lugar Moçambique, onde o objectivo é o de analisar a relação existente entre relação entre produção pedagógica e as alternativas de desenvolvimento, não obstante a emergência de uma nova classe de intelectuais que designo de “Freelancers”. Para tal, foi fundamental a análise de conceitos, tais como desenvolvimento, responsabilidade e intelectualidade, inseridos na perspetiva estruturalista, em relação com as políticas públicas e inovação.

Procuro com este texto investigar até que ponto a autonomia e responsabilidade dos estudantes, assim designados como proto-intelectuais, podem contribuir de forma significativa para criar oportunidades de desenvolvimento. Desde logo, é uma abordagem contextual que visa relacionar dados de perspectivas disciplinares, no mínimo, distantes, através de um espírito de crítica positiva, num contexto caracterizado por desafios diversos, como mudanças climáticas, crises de governação, conflitos armados, problemas de cidadania que envolvem a corrupção — um fator incontornável para explicar as deficiências institucionais — além dos problemas sociais que evidenciam a crise dos valores morais, estéticos e de comunidade ou tradições.

Do conceito ambíguo de intelectual, prezo, neste texto, pelo intelectual académico, por um vetor preponderante para catapultar o desenvolvimento na era em que a técnica se tem mostrado como linguagem comum do mundo atual, enquanto me aproximo do espírito da educação moderna, na sua relação com o desenvolvimento. Pelo que percebo, adianto que o intelectual das tradições, embora reconhecido o seu papel, deve, em algum momento, se afiliar aos desígnios académicos, isto é, dialogar com o intelectual académico.

Neste debate, há notável primazia deste último enquanto agente de cooperação para que a comunicação entre o local e o global seja, de facto, eficiente, uma vez que é dotado dos preceitos do mundo moderno que vai os aprendendo em virtude da sua formação escolar e universitária. Deste modo, este texto não pretende esgotar a temática, muito menos oferecer respostas: é, antes de tudo uma chamada provocação, uma abordagem em forma de ensaio que dá maior abertura para nos debruçarmos sobre certas posições que precisariam de larga fundamentação para se tomarem como verdades científicas. Espero um texto transversal, a ponto de comunicar a diversos níveis.

1. Ensino e a Aprendizagem: sobre autonomia

Os alunos poderiam ter razões para não respeitarem seus professores? Qual é a relação entre formação e bem-estar? São questões que vêm a monte para levantar a discussão do presente texto. Estas questões referem-se à ética, sobretudo por esta ter uma relação forte com a educação. O objeto de estudo é a produção do saber em critérios de justiça, isto é, justiça enquanto criação de condições para envolver as comunidades num processo de desenvolvimento e arquivamento de um leque de liberdade. Logo de início, este texto é descritivo e teórico.

Inicio dizendo que a natureza dos eventos pode ocasionar a espécie humana. Ademais, são os eventos que perfazem a natureza das sociedades. É por meio deles que os homens se tornam cidadãos, pois eles sempre lhes fazem face, na tentativa de os superar, e por isso se formam as nações, onde os seres humanos compartilham de visões comuns sobre tais eventos. Alguns filósofos, como Hobbes, chegam a afirmar que pela natureza animalesca do ser humano, este se enforma, mesmo com tanto olho prego. Para Rawls (2013: 29), “A desconfiança e o ressentimento afectam os laços da civilidade e a suspeição e a hostilidade levam os homens a actuar por formas que normalmente evitariam”. Também pensar num Ideal preocupou outros pensadores, sobretudo Platão, Agostinho, Thomas Morus, ou mesmo Jason Brennan, na atualidade, quando procuram discutir até que ponto os seres humanos podem viver em comunidade. O que os move é a perceção de que existe, até certa medida, o erro. Desse modo, quando há essa perceção, toma-se a consciência de não ser possível desfazer-se do mesmo, mas como ambicionar e efetivar uma reflecção sobre ele pode alimentar uma pedagogia em diversos sentidos, entre eles, a pedagogia da autonomia.

Desde já, prossigo a partir da questão levantada por Coughlin (2015), que é, academicamente um debate proeminente sobre a construção das narrativas epistemológicas, num estudo de caso localizado em Moçambique. A grande importância deste estudo é perceptível quando o mesmo é analisado sob uma perspetiva social ampla, pelo que, em Ngoenha (2017) percebe-se levantada uma questão semelhante, onde, ademais, defende-se que os alunos devem se empenhar na construção de próprias narrativas, se, efetivamente, almejam conquistar os redemoinhos dos eventos da história mundial, em que os moçambicanos em particular, e os africanos em geral, devem procurar superar a porosidade e construir, nesse contexto, narrativas significativas e edificantes para o seu meio. O erro é, sem delongas, pedagógico e refere-se a produção do conhecimento. Dito de outro modo, quem produz o conhecimento que circula nas universidades, como centros intelectuais de dimensão global?

Em perspetiva larga, pretende-se trazer o conceito de propriedade intelectual, ferramenta preponderante, na actualidade, para o crescimento industrial nos países emergentes, e em uso difuso nos países desenvolvidos, quero assim acreditar. Acima de tudo, porque com o desenvolvimento os seres humanos arquivam, proporcionalmente, um certo nível de liberdades, como acima fiz referência, e é com a liberdade que, como se apresenta a história, os gregos conseguiram formar um sistema epistemológico consistente. Vejo, ademais, que as investigações sobre a história da Grécia apontam que este povo se teria furtado à história, sobretudo devido a sua composição geomorfológica, décadas, quiçá séculos sem se comunicar tecnologicamente, tendo com isso se desligado da técnica, até mesmo da escrita, só para ser específico. Entretanto, tiveram que mobilizar-se, e, como diz Ngoenha (2017), reapropriaram os dados de que dispunham. O que isso significa? Era a natureza dos seus eventos movendo os gregos a empreender a reformulação do sentido da escrita. Dos fenícios aos egípcios, dos egípcios aos hebreus. Depois dos gregos, a Civilização Ocidental não mais escreveria da direita para esquerda. Grande inovação? Talvez! Mas ela respondia aos seus problemas e, sem querer avaliar a sua eficiência, ela serviu e inspira-nos até hoje, ora, porque a usamos.

Não são os gregos antigos os únicos nesta matéria de inovação epistemológica e técnica. Em termos de invenções, embora hoje estejam em níveis elevados de inovação, prevalece a essência da navegação marítima, do alfabeto, da matemática, filosofia, etc. O seu legado vem carregado dos signos relacionados aos afazeres dos seus inventores, não obstante às suas necessidades quotidianas. Os gregos, em particular, tiveram que superar a pouca capacidade arável das suas terras, que eram insuficientes para responder às demandas do crescimento populacional, do qual qualquer sociedade é susceptível. Entre outras razões, teve que se empreender na organização de uma sociedade de interesses que culminou com a sua glória, para não falar dos prejuízos às demais sociedades.

O desenvolvimento em sociedades é fundamental. Mas para tal é preciso responsabilidade e engajamento, ou seja, responsabilidade no engajamento e engajamento na responsabilidade, na forma em que deve ser criada a perceção de que há sempre que melhorar e sempre se pode fazer mais. É preciso arquitectar projectos eficazes. John Rawls (2013) defende que o sucesso de um projecto numa sociedade passa por esse mesmo projeto estar sujeito à participação dos cidadãos, na medida em que se compreendem os objetivos pretendidos em tal empreitada. Construir uma sociedade justa e com um elevado índice de bem-estar é tarefa para pessoas sérias, onde se incluem homens e mulheres. É no entanto que teóricos como Zigmund Bauman e Byung-Chul Han, só para citar alguns exemplos, evidenciam a crise de valores na sociedade actual, onde há o desmoronamento da esfera axiológica, marcada pela quebra da ligação entre a orientação dos objectivos pessoais em relação aos da sociedade, o que contribui significativamente para que haja o desvio dos objetivos individuais em relação aos coletivos.

Ainda sobre o erro pedagógico, são evidentes os subterfúgios pelos quais ele é favorecido, especificamente, a falta de um sentido de comunidade que a escola ajuda a formar que, entretanto, é um ciclo vicioso fortemente influenciado pela crise de valores. O erro pedagógico é, amiúde, referente à produção do conhecimento que, no contexto moçambicano, demonstra-se fulcral para explicar o comportamento dos agentes epistemológicos, onde a questão da responsabilidade é posta em causa, quando relacionada ao respeito intelectual (intervenientes do processo educativo) que a este grupo (estudantes), em específico, é exigido. Cesaire diria, dos africanos, que estes fazem, também, batotas com seus próprios princípios, quando estes desejam singrar no ramo da técnica, mas poucos são os esforços empreendidos para alcançar tal sucesso.

Por um lado, ao apontar o significado do saber, Lyotard (2003) fala da mudança de paradigma (estatuto) do conhecimento com a crise das narrativas, onde as empresas liderariam a produção do conhecimento. Ora, para que se chegue a um número considerável de empresas e que sejam consistentes, é preciso que haja muita pesquisa, bem como o registo significativo dessas empresas, o que ultrapassa a noção de registo em termos documentais e formais, devendo essas empresas estarem presentes nos seus contextos, bem como terem já um considerável número de patentes registadas. Quem deve fazer isso? A resposta é evidente!

No texto publicado como “Uma abordagem sobre o papel da universidade na sociedade Moçambicana” (Muchisse e Mbanguine, 2022) toma-se a fraude como um elemento que é preponderante para que se explique a crise de paradigmas, bem como a mudança de paradigmas em outros contextos. As circunstâncias daquele texto obrigaram a denunciar tais contextos, sobre o relacionamento interpessoal entre estudantes, bem como a responsabilidade dos estudantes e das universidades para o futuro do país, isto é, a crise moçambicana das narrativas e a deslegitimação da necessidade de um conhecimento fundamentado em contextos sustentáveis de reapropriação. Essa crise foi grafada como “encomenda”, explicação de um problema em debate neste texto, sobre circunstâncias de um eminente desespero: educativo, pedagógico e didáctico da escola moçambicana. Professores, alunos e estudantes e outros profissionais que são inclusos na categoria de “proto-projetores de epistemologias”, onde alguns dos quais contatados de forma intermitente, fornecem dados bastante surpreendentes sobre a natureza da pesquisa no ensino superior, como é de seguida apontado, num ambiente sociológico marcado por dificuldades diversas.

De modo geral, o acesso à informação em Moçambique ainda é um problema a ser ultrapassado ao longo das gerações futuras, pois, na atualidade, grande parte da população está de fora, quando se aborda a corrida no acesso à informação de utilidade, o que, decerto, dificulta que essas populações acedam a diferentes contribuições apreensíveis, principalmente com recurso aos círculos de divulgação modernos, erroneamente usados. Parte significativa da população, incluindo um número significante de estudantes e formados nos diversos níveis do ensino superior, tem um acesso diminuto a informações relevantes que possibilitem a comunicação científica, o que coloca em cheque todo o processo educativo e de inovação, bem como o intercâmbio técnico. Outrossim, alertado o erro atinente à falta de respeito e responsabilidade dos estudantes perante a postura do professor, bem como aos desafios da sua comunidade, o que adiante os coloca suscetíveis a debilidades a nível diverso e irrelevância no contexto internacional altamente concorrente.

A pobreza é estrutural a nível nacional, onde um dos indicadores desse quadro, pelo menos no nível escolar, é que um número elevado de estudantes consegue terminar o curso de licenciatura sem ter acesso a um computador pessoal ou mesmo comprar um número significativo de livros da sua área de formação. A leitura de informação científica é bastante reservada. Sustenta-se com base na obra de Ngoenha (2017), onde percebe-se que os estudantes têm dificuldades em interpretar um artigo científico, bem como escrever um parágrafo com a devida coerência. Defendo, ademais, que são, de longe, estes os perigos epistemológicos que influenciam a fraca projeção epistemológica que torna o desenvolvimento académico e escolar um compromisso de longa batalha, desde gerações passadas. Como se pode vislumbrar, as próximas gerações estão em linha para travar a mesma batalha. Decerto, sobre o conselho para se empreender em “Epistemologias Arquitectas” como forma de superar os “Alarmes Humanos” discutidas por Ngoenha, o caminho é para frente e o caminho se faz caminhando a passos seguros.

Ngoenha (2017) atesta que a única maneira de nos defendermos de problemas sociais, “alarmes humanos”, é a aposta na educação de jovens capazes de proporcionarem epistemologias que livrem os africanos da dependência externa, o que Lopes (2018), interlocutor da obra de Ngoenha, denomina de comunicação inter-periférica com os pés no chão, capaz de livrar esses povos dos desígnios da neocolonização das instituições financeiras largamente influenciadas pelas ideologias do ocidente.

Evidentemente, a educação está em descalabro e vários são os factores: Moçambique é um país bastante frágil, onde é possível criticar grande parte dos sectores que, decerto, influenciam o desenvolvimento da educação. Por outro lado, Ucama (2021), referindo-se ao fenómeno da justiça social, diz que a crise da cidadania, que é um problema específico para esta discussão, afeta as instituições (por exemplo: escolas, hospitais, tribunais, organizações), não é de somenos importância para explicar a falta de independência das mesmas, pelo que não são capazes, por isso, de proporcionar o desenvolvimento às populações e, por mim, está aqui o arcaboiço que explica um problema que afeta a formação da consciência do Bem Comum, isto é, a esfera axiológica que é também formada pela educação formal.

Ser aluno implica ser arbitrado de modo a permitir que haja integração num leque de valores admissíveis em diferentes contextos, pelo que existem diversos tipos de alunos, por natureza pessoal, quer por inclinação quer pelas circunstâncias em que alguém se faz aluno. Mas os professores ficam orgulhosos quando os alunos passam para o grau estudantil, o que representa maturidade na sua capacidade e postura. Ademais, a maturidade é a capacidade de um cidadão empreender um debate público e sustentável (Stuart Mill). É necessário que os alunos sejam capazes de empreender esse debate, colocando à mesa pressupostos, convicções e impressões pessoais e serem capazes de colocá-los em contextos adequados para darem significados aos seus conhecimentos. Ora, o conhecimento é formado mediante a predisposição de um “espaço”, a comunidade, onde esses estudantes devem depositar o seu conhecimento. É forçoso que essas comunidades entendam esse conhecimento. Se uma comunidade não entende o que se diz, por mais que seja de valor inestimável, jamais será conhecimento; talvez seja, no futuro, possível tecer as bases para que bons contextos verdejem a fim de que tais ideias possam florescer positivas.

*A crise moçambicana das narrativas é discutida com certa nostalgia. A “Geração 8 de Março” dos produtos de um período de incerteza, entre a passagem do colonialismo ao neocolonialismo (Guerra da Independência), acometida pela Guerra Fria, a Guerra dos 16 anos, calamidades naturais, problemas estruturais, etc. foi até certo ponto capaz de impressionantes feitos para o desenvolvimento do país (sacrifício, responsabilidade e maturidade). No entanto, ao que se esperava, com o progresso histórico, o desenvolvimento de iniciativas locais foi se mostrando um plano com poucas possibilidades de sucesso. Ao contrário da referida geração, formada por tantos poucos cidadãos, cujo currículo se pudesse atestar ensino superior ou mesmo a escolaridade média básica (10ª Classe), as atuais gerações têm a vantagem de milhares de licenciados, centenas de mestrados e dezenas de doutorados, mas com uma significância social que é questionada sistematicamente. Quem se identifica com a construção de projectos epistemológicos? E com que responsabilidade?

Ilustração 1. O Painel dos ODS para a África Austral e São Tomé e Príncipe
Fonte: (ONU, 2021), onde, lê-se: verde para alcançado; amarelo para aumentar; cor de laranja para estabilizar; e vermelho para diminuir.

O facto é que há um crescimento em termos numéricos, por parte dos formados, como se disse, mas os paradigmas de investigação ainda continuam parados. São, efectivamente, dominados pelos mais velhos integrantes dos grupos de pesquisa. Assim, jovens, na sua maioria, se furtam ao laborioso trabalho de pesquisa. Questões de difícil acesso são tomadas em conta, mas também a questão da responsabilidade em situações de inovação e respeito em ocasiões de atribuição de tarefas se colocam como detractores da passagem do aluno para o estudante e do estudante para o intelectual.

2. Enquadramento do conceito

O termo e o conceito de intelectual surgem, sobretudo, durante o Iluminismo, num contexto de oposição ao poder estabelecido e de clara depreciação do pensamento diferente e, sobretudo, crítico, por parte desse mesmo poder. Passamos a esclarecer: na França dos finais do século XIX, houve o julgamento do caso de Alfred Dreyfus, o qual foi condenado injustamente por uma traição que não protagonizou; tendo depois sido percebida a artimanha por detrás desse julgamento e consequente decisão que se debatia entre a injustiça, a intolerância e o anti-semitismo, um grupo de jovens, de entre os quais se teria destacado Emílio Zola, se teria insurgido publicamente, contestando tal decisão. Este teria, na ocasião, escrito um manifesto “Eu Acuso”, onde demonstrava, claramente, a sua posição perante a situação. Nesse contexto, o presidente francês Georges Benjamin Clemenceau (29 de Abril de 1810 – 23 Julho de 1897) os teria denominado de “intelectuais”, uma denominação que expressava o seu desprezo e desaprovação em relação àquele grupo de homens que ousou reflectir, junto de um poder, sobre circunstâncias que julgavam ser do seu interesse, como sociedade civil.

Por outro lado, a Europa, depois de Maquiavel, tomou uma nova configuração, marcada pelo período mais áureo da violência, onde, desde Vestefália até Waterloo, sucedeu uma mudança geopolítica, afectando a configuração de tais nações envolvidas no espírito de afirmação no plano internacional. Ainda nesse contexto, depois das duas Grande Guerras, a Carta das Nações Unidas aparece falando dos horrores indizíveis à humanidade, atrocidades que, na verdade, têm acompanhando os homens, de forma intermitente. É assim que, recorrendo à análise histórica, Severino Ngoenha defende publicamente que “a história de Moçambique coincide com a história da guerra”. Porquê? Mais uma vez, a questão das “epistemologias” que são ineficientes para produzir desenvolvimento e com isso alavancar as liberdades.

Há guerras onde os seres humanos seguem seus ditames egoístas, ignoram a civilidade e abraçam a marginalidade, defendia Hobbes. Há guerras onde estes, frustrados com suas perspectivas, não são capazes de cooperar e formar a esfera pública, lugar de eleição do intelectual. Aqui defendo que o Estado é o garante da educação através de políticas de organização dessa mesma educação, assim como de outros sectores. E, assim, penso que a educação é uma categoria social que deve ser levada em conta desde a primeira infância. Hoje, em Moçambique, embora haja o incremento do ensino privado e de primeira infância, portanto, uma emergente especialização do ensino que conta principalmente e quase de forma exclusiva nas cidades com transporte personalizado, bem como com uma atenção personalizada, ainda é evasivo o ensino para as mais diversas comunidades que abrangem maior número da população, nas zonas semi-urbanas e rurais, onde estudantes percorrem, talvez por horas, caminhos para aderir a uma instituição de ensino. Mas para dar um breve contexto sobre os serviços públicos, em média, na província de Gaza, percorria-se, em 2021, cerca de 12,4 km para ter acesso a serviços de saúde. Ademais:

Em comparação, de 2002 a 2015, a proporção média de pessoas que viviam com menos de USD 1,90 por dia entre os países de baixo rendimento diminuiu de 60,3% para 43,4%. As disparidades regionais são elevadas, as províncias de Nampula e Zambézia acolhem 48% dos 11,2 milhões de moçambicanos que vivem na pobreza. Em 2018, em Moçambique, a taxa de prevalência do HIV/SIDA entre os adultos era de 12,5% e estimava-se que 1,8 milhões de adultos vivessem com o HIV/SIDA. Há cerca de 120.000 novas infecções por HIV todos os anos. A média de anos de escolaridade, em 2018, foi de 3,5 (2,5 para raparigas e 4,6 para rapazes) e a taxa de abandono escolar na escola primária é de 67% da coorte da escola primária. A proporção da população com mais de 24 anos que recebeu, pelo menos, alguma educação secundária foi de 19,3% (16,1% das mulheres e 37,3% dos homens). Em 2015, apenas 43% das mulheres com mais de 14 anos eram alfabetizadas, em comparação com 70,5% dos homens. A proporção de mulheres na força de trabalho é relativamente elevada e mudou ligeiramente de 1990 (55,7%) para 2018 (51,6%).Em 2016, apenas 24% da população Moçambicana tinha acesso à electricidade. As disparidades regionais são evidentes, pois o acesso foi de 64% nas zonas urbanas e 5% nas zonas rurais. O baixo nível de educação afecta dramaticamente o emprego e a produtividade. Além disso, o rápido crescimento da população também aumenta o desemprego, com a entrada anual de 500.000 novos participantes no mercado de trabalho. A Organização Internacional do Trabalho estimou que a taxa de emprego diminuiu de 82,2% em 1991 para 76% em 2018; inversamente, a taxa de desemprego aumentou de 2,4% em 1991 para 3,2% em 2018.

UNESCO, 2021, pp. 29-32

Longe do elegível, Moçambique deve ainda aprimorar as suas instituições, através da formação dos cidadãos, emponderá-los, através da superação das necessidades que vêm a monte, onde, há uma perceção de que o país ainda não tem registos em temos de classificação de alcançado no que diz respeito aos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (vide ilustração 1). Com isso, a reflexão do intelectual deve ter em conta que, desde a Paz de Vestefália, há uma direcção específica sobre o espaço público internacional, em que os países tendem a garantir o seu espaço, e não só, pois, até grupos (de terror) tendem a reivindicar um espaço no plano do Direito Internacional.

Neste nível de políticas públicas e de relacionamento internacional, o intelectual moçambicano se insere e é chamado a dar o seu contributo. Ademais, o conceito de intelectual aparece em primeira instância, na Europa principalmente, como depreciativo para uma certa atitude que consistia, in primis, em usar a reflexão como um uma ferramenta (organon) para participar da saúde da vida pública. Ademais, percebe-se, ainda, a desaprovação de tal atitude, pelo que Zola teve que se sair de França, por conta de tal intolerância, isto é, experimentar o exílio, tal como aconteceu com Ortega y Gasset em 1936, aquando do Franquismo na Espanha.

No entanto, com o desenrolar dos factos históricos, assiste-se uma relativa mudança no que diz respeito à compreensão do mesmo conceito, pelo que novas formas de abordar o conceito se fazem necessárias. Seria o que Ortega y Gasset (2007) chamou de esterilização dos conceitos, ou seja, preparar e adequar os conceitos às demandas dos tempos. Hoje, há a emergência do Intelectual Freelancer, preparado para a corrida intelectual, no entanto, dentro de uma sociedade altamente pecuniocrata, onde o dinheiro, isto é, a economia (troca) atravessa a política (viver comum).

Ora, se na atualidade há uma nova compreensão do conceito de intelectual, pelo menos em termos de ação sociológica e política, em termos tradicionais ainda é intelectual aquele que usando a reflexão e o pensamento consegue intervir em assuntos que são de interesse público. Mas essa intervenção não pode ser tomada como sendo unilateral, pois a mesma vem sendo efetivada desde o mais variados ângulos e, tal como foi acima afirmado, a compreensão pode variar nos contextos em que determinados sujeitos são chamados a intervir. Numa análise histórica, Ngoenha (2015) destaca que em Moçambique, desde o período colonial, se tem verificado uma evolução no que diz respeito aos tipos de intelectuais que viveram e actuaram neste espaço, através da informação seguinte:

Depois de uma intelectualidade associativa (os negros de Lourenço Marques…), de uma intelectualidade da imprensa escrita (Brado Africano…), de uma intelectualidade militante (E. Mondlane, Marcelino dos Santos, J. Chissano, A. Guebuza, P. Mocumbe…), de uma intelectualidade literária (Noémia de Souza, J. Craveirinha…) de uma intelectualidade artística (Malangatana, A. Chissano…), de uma intelectualidade orgânica (Jorge Rebelo, Óscar Monteiro, Sérgio Vieira, Aquino de Bragança…); com a reabertura da faculdade de direito, e sobretudo com a criação da extinta UFICS, assistimos ao nascimento de uma nova elite intelectual proveniente das ciências sociais: antropólogos, sociólogos, politólogos, peritos em comunicação.

Com isso, depreende-se que não é possível fixar uma definição unitária sobre o ser humano intelectual, bem como sobre o seu espaço de atuação, porque os tempos mudam, assim como as vontades e os contextos. De facto, sendo o intelectual aquele indivíduo que se serve do intelecto para intervir em diferentes “circunstâncias”, o ângulo de definição sobre este mesmo sujeito varia em detrimento do mesmo motivo. Ademais, há, hoje, a emergência dos big data que comportam consigo os seus cyber-intelectuais. De tudo isso, a perceção é de que, de tempo em tempo, há a emergência de espaços onde a intelectualidade é chamada a intervir, o que é razoavelmente conveniente. Ora, o que vem atravessando essa evolução circunstancial é o lugar e o modo de atuação do intelectual, ou seja, embora ele actue a partir dos variados espaços, sempre projecta a sua actuação para a esfera pública e usando a reflexão. Esse tem sido o local de eleição, “standard”, bem como o modo de processamento da atuação para o intelectual.

Recorrendo ao exemplo grego, aqueles que intervinham na vida pública eram aqueles que se ajuntavam para discutir assuntos da polis na Ágora, portanto, os cidadãos. Nesse sentido, um intelectual é um cidadão que se preocupa com o erário e tem empreendido os seus esforços na construção de alternativas que propiciem o progresso das condições (desenvolvimento) no meio em que ele mesmo e a sua comunidade se encontram. Pensando desse modo, os diferentes tipos de intelectuais/intelectualidades apresentados por Ngoenha (2015) visavam, e ainda visam, levantar uma discussão sobre questões que dizem respeito a: “O que está acontecer sobre esta circunstância atual?”, “O que está sendo feito?”, “Quais são os prós e os contras?”, “O que é e o que está sendo feito?”, “Que alternativas”, etc.

Entretanto, sob uma perspetiva histórica, e sobretudo tendo em conta o progresso, defendo que hoje, há uma nova classe de intelectuais/intelectualidade: o “Freelancer” influenciado pelas leis do mercado, preocupado em se fazer representar na corrida desenfreada pelo capital, dentro de um sistema económico denominado de Neoliberalismo, onde, no mais alto nível encontram-se os consultores, chamados para pensar pelos outros, sendo esse o sentido do intelectual, mas sempre movido por uma “troca”. Esta pode ser encetada para o bem comum, mas há sempre algo intrínseco e passível de uma troca que é certa.

3. O Intelectual Freelancer

Os intelectuais são privilegiados por se adiantarem publicamente num debate, no qual buscam alternativas para fortificar o sentido do bem comum. São a voz dos que não têm voz. Foi esse o semblante que transmitiram os intelectuais europeus citados, bem como os moçambicanos, apresentados recorrendo à obra de Severino Ngoenha (2015). No entanto, como venho defendendo, há o novo intelectual em emergência, dentro das Universidades, o freelancer, que se detém nas consultorias, mesmo que informais.

O intelectual freelancer que apresento aqui é um indivíduo que, servindo-se do seu aprendizado enquanto estudante, consegue fazer lances para superar a sua condição socioeconómica. Muitos partem para universidade com o objetivo de superar as condições socioeconómicas degradantes. Num nível micro, estudantes a tempo inteiro são capazes de se submeter ao processo do pensamento livre, enquanto assimilam os conteúdos ministrados; no entanto, acabam por se entregar para pensar em nome dos outros, o que os coloca nessa posição de intelectualidade. Ora, esse processo não é feito em nome do bem comum, pois, há por detrás dessa atitude lances pecuniários, que são, na verdade, aliciantes e que contribuem significativamente para, de certo modo, suprirem as necessidades hodiernas.

O que isso significa? Significa que este intelectual ainda carece de uma introdução sobre o sentido do livre pensar, uma vez que, em muitos dos casos não pensa para si para beneficiar a maioria, mas para os outros, sobretudo funcionários que se dizem serem carentes de tempo, ou para uma minoria que desrespeita o professor e sem um sentido de responsabilidade ou engajamento. Isto é, o intelectual pensa em nome e em benefício de uma minoria irrisória. Assim, é justo questionar até que ponto este tipo de intelectual, que de facto tem a capacidade de empurrar os outros para o caminho desejável, pelo que o faz com certa reticência, é capaz de pensar para, no contexto da esfera pública, fomentar um elevado grau de bem comum. Ora, será que este intelectual, depois de terminado o seu ciclo de estudo, poderá voltar à virtude, voltando-se para refletir em torno dos outros, numa maioria significativa, i.e., a comunidade em geral? Logo à primeira, ele pode ser influenciável para pensar pelos outros, pelo que o meio pode moldar o ser humano, ademais, os aliciamentos podem concorrer para que isso seja, de facto, impossível (a sociedade corrompe o homem – Rousseau).

Prontamente, é preciso que se conheçam as condições em que os proto-intelectuais atuam, no seio das universidades, principalmente, de modo a se reverter o quadro epistemológico da legitimação das narrativas, pois há grandes intelectuais que não são reconhecidos continuamente com as suas práticas que podem resultar num ocaso para as suas comunidades, enquanto alimentam o ócio intelectual dos formandos em diversos ciclos de ensino, dos quais se espera uma intervenção significativa. Assim, entende-se que o intelectual deve agir, isto é, tomar a iniciativa de pensar por conta própria, ou seja, com os “pés no chão” (Filomeno Lopes) e não movido pelo peso da pecúnia (seja dando, ou recebendo) que se coloca sobre as demais virtudes que se espera que este satisfaça.

Por outro lado, e para trazer a missão do intelectual, no rol deste assunto, é preciso que este, mais que se posicionar como abridor de caminhos (mambulundlela[1]) para que se faça, efetivamente, diferentes níveis académicos, abra também caminhos para as novas gerações de intelectuais que se vêm em eminência de desespero de não usufruírem da esfera pública, pelo que, recentemente veiculam nas diversas redes, informações que dão a indicação de uma drástica redução dos contratos por parte do Estado (maior empregador nacional), que preveem apenas recrutar, anualmente e em casos de exceção, perto de 0,6% dos 500.000 indivíduos que saem para o mercado de emprego. É, acima de tudo, tarefa do intelectual dos moçambicanos, pensar alternativas (abrir caminhos, iluminar) que possam aliviar esse peso, sobretudo num país com muitos recursos, mas com baixo nível de inovação. Pensar os desafios das comunidades pode ser mais revigorante do que pensar sobre o hoje, isto é, é preciso pensar no ganho imediato da sua intelectualidade freelancer, mas pensar também em melhorar o quadro social como um todo a longo prazo.

O que se apela aqui, sobretudo, é a responsabilidade que os “diplomas académicos” acarretam e que os intelectuais devem estar cientes, à medida que se inscrevem num curso superior. Que façam o que é necessário para viver, mas que não se esqueçam de que estão num país que vai caminhando para o descalabro, pois é altamente dependente do exterior. É tarefa dos intelectuais da nova geração se inspirar nos esforços dos intelectuais da Geração 8 de Março para reinventar as epistemologias, criticando seus mestres e continuando os seus sucessos, proporcionando meios de as comunidades detentoras de recursos e oportunidades aparecerem no cerne da inovação, pelo que se reconhece que esse é um trabalho conjunto e deve ser feito em constante comunicação, leitura e apreensão dos tempos (zeitgeist).

Por outro lado, e não menos importante, é preciso refletir sobre os impactos da redução da contratação da mão-de-obra, dentre eles: o aumento da pobreza estrutural e antropológica que vai impactar significativamente a estruturação das famílias, o que também pode implicar um aumento de problemas sociais como a criminalidade, em primeiro plano, e das redes criminosas no Aparelho do Estado, aliado ao facto de haver uma desestabilização e insuficiência salarial que coloca em alarme o bom funcionamento dos serviços públicos, largamente criticados por haver neles problemas éticos e de cidadania, em particular a corrupção, entre outros problemas que podem ser evidentes…

É necessário ter em conta que o caminho é longo para o sucesso e bem-estar, mas a Frente é o caminho e o caminho se faz caminhando a passos certos!

Conclusão

Em conclusão, é preciso refletir sobre o intelectual que se vai formando, bem como em que medida este pode influenciar a sociedade para que haja, de facto, bem-estar no sentido coletivo rumo ao Bem Comum. Ademais e, em primeiro plano, os aspetos apresentados aqui para suscitar esta reflexão dizem respeito à Moçambique, mas os signos e fenómenos significativos podem estar interligados e também se refletir em outros quadrantes. Tal como diz Ngoenha (2017), tudo está interligado na esfera do mundo atual, onde já não é mais possível falar de fenómenos isolados no tempo e no espaço, pois há uma interconexão a diversos níveis.

O que é mais importante é pensar e pensar de modo significativo, mas as respostas podem variar de local e de contexto específicos, pois, embora haja essa intercomunicação, os níveis de desenvolvimento díspares demonstram que há particularidades nos modos de vida, bem como nos desafios das sociedades. Entretanto, não busquei apresentar respostas que fossem taxativas mas chamar a atenção para uma reflexão, tendo em conta certos desafios, em torno de uma considerável preponderância para o desenvolvimento da sociedade moçambicana, onde considero que o bom senso da responsabilidade com o conhecimento que nos predispomos a aprender deve ser a peça-chave para a criação de alternativas seguras; deste modo, o bom uso dos mesmos pode ajudar a salvar vidas que se perdem por problemas sociais como a fome, desnutrição, doenças como malária, VIH/SIDA, etc.

Para futuras pesquisas interessaria investigar sobre as áreas fornecidas para o ensino e formação, em relação às condições do país, de modo a aferir até que ponto isso pode resultar em um desenvolvimento sustentável, tal como é preconizado a nível internacional e, principalmente, pelos ODS.

Referências Bibliográficas

Coughlin, Peter E. (2015). Plágio em Cinco Universidades de Moçambique: Amplitude, Técnicas de Detecção e Medidas de Controlo. IESE.

Muchisse, I. & Mbanguine, J. (2022). Uma abordagem sobre o papel da universidade na sociedade Moçambicana”. Revista Minerva Universitária.

Ngoenha, Severino. (2015). Terceira Questão: Terceira Questão: que leitura se pode fazer das recentes eleições presidenciais e legislativas? Publifix.

Ngoenha, Severino. (2017). Resistir a Abadon. Paulinas.

Ortega y Gasset, José. (2007). O que é a filosofia? Biblioteca Editores Independentes.

Rawls, John. (2013). Uma Teoria da Justiça. 3ª Edição. Editorial Presença.

Ucama, António Costa David. Independência do Poder Judicial: Bases, Pressupostos e Desafios para Moçambique. Alcance.

UNESCO (2021). Mapeamento da Investigação e Inovação na República de Moçambique. Michael Kahn. GO-SPIN Country Profiles in Science, Technology and Innovation Policy, vol. 9. Nações Unidas Organização Educacional, Científica e Cultural: Paris.

  1. Termo da língua changana, falada no Sul de Moçambique (língua bantu) que quer dizer abridor de caminhos na terminologia portuguesa.

Lux em Lisboa: Entre o Brilho Superficial e a Relevância Cultural

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Lux em Lisboa: Entre o Brilho Superficial e a Relevância Cultural ou Cultura com “C” Maiúsculo em Portugal: Reflexões sobre Espaços Relevantes. Vítor Rua escreve-nos, nos 25 anos da famosa discoteca lisboeta, sobre a destrinça possível entre a feira de vaidades elitistas superficiais e o espaço cultural vanguardista que representa, não esquecendo toda a história por detrás.

Portugal, país de uma rica história e tradição cultural, tem contribuído com fervor para o mundo das artes e da criatividade. No entanto, ao explorar esta paisagem cultural, é imperativo diferenciar entre os espaços que autenticamente promovem a cultura com “C” maiúsculo e aqueles que, à primeira vista, podem parecer culturalmente relevantes, mas, na verdade, sucumbem à superficialidade de um culto hipster. Neste ensaio, embarcaremos numa jornada para compreender a importância de locais culturais genuínos, como a Fundação Calouste Gulbenkian, a Culturgest, bem como alguns icónicos bares e clubes, como o Rock Rendez-Vous e o Johnny Guitar ou o Lounge e a SMUP, em contraste com espaços que não vão além da fachada superficial, como é o caso do bar Lux em Lisboa.

A Fundação Calouste Gulbenkian figura como um dos pilares da cultura com “C” maiúsculo no país. O compromisso duradouro desta instituição com as artes, ciência e educação é um farol de criatividade e excelência cultural. Sua coleção de arte, que abrange diversas épocas e estilos, é uma das mais importantes do país, atestando o apoio apaixonado às artes em Portugal.

Por outro lado, a Culturgest, instituição cultural de renome, desempenha um papel fundamental na promoção das artes contemporâneas. Ao oferecer uma variada gama de eventos, desde espetáculos teatrais até exposições de arte, a Culturgest proporciona uma plataforma para artistas inovadores e expressivos. Ela personifica a capacidade local para abraçar o novo, o experimental e o progressivo na cultura.

Os bares e clubes também têm sido fundamentais na construção da cultura no tecido urbano. O Rock Rendez-Vous e o Johnny Guitar são exemplos clássicos que contribuíram significativamente para o cenário musical e cultural do país. Esses locais históricos receberam bandas icónicas e artistas que deixaram uma marca indelével na música portuguesa. São espaços onde gerações de jovens encontraram sua voz e se expressaram artisticamente.

Entretanto, ao lado destes espaços autênticos, encontramos aqueles que, embora possam parecer culturalmente relevantes, ficam aquém da profundidade cultural. O bar Lux, localizado em Lisboa, é um exemplo paradigmático deste fenómeno. Enquanto atrai atenção devido ao seu apelo estético e ao glamour que o envolve, frequentemente carece de substância cultural. Aqui, a ênfase é posta não na cultura e na arte, mas na aparência e no estilo.

Neste contexto, é imperativo realçar a distinção entre a cultura com “C” maiúsculo, que promove a arte, a inovação e a expressão autêntica, e a cultura de fachada que gira em torno da estética e da imagem. A verdadeira cultura enriquece a sociedade, inspira reflexão e cria um legado duradouro. Espaços como o Rock Rendez-Vous e o Johnny Guitar, o Musicbox, e o Lounge, contribuíram e continuam contribuindo para toda esta herança cultural rica e diversificada. Já locais como o bar Lux, embora possam ter seu espaço no cenário social, não devem ser confundidos com uma expressão genuína da cultura portuguesa.

Portugal, como nação, deve continuar a apoiar e celebrar os espaços e instituições que verdadeiramente promovem a cultura autêntica, assegurando que as futuras gerações sejam enriquecidas por uma tradição cultural rica e substancial, em vez de se deixarem levar por tendências efémeras e superficiais.

Fiat Lux: Luzes e Sombras da Noite Lisboeta

Quanto ao meu relacionamento com o Lux, posso dizer que lá entrei apenas duas vezes na minha vida. A primeira, na sua inauguração, por gentil convite do proprietário Manuel Reis. A segunda, já bem adentrado no século XXI, fui convidado pela editora FLUR para realizar um espectáculo multimédia com o meu duo Telectu. Devo destacar que não sou um frequentador assíduo de bares ou discotecas, pois, em geral, não aprecio a música ali tocada, não suporto a necessidade de gritar para ser ouvido, não consumo álcool, nem tabaco ou café, e minha aversão por mexericos é notória. Portanto, não sou um cliente comum desses estabelecimentos que, de certa forma, lembram-me os átrios das igrejas após a missa.

Dito isto, cabe destacar que, nos últimos 25 anos, o bar Lux em Lisboa tem sido um ícone da vida nocturna local. Enquanto comemora um quarto de século de existência, o Lux representa não somente um espaço de entretenimento, mas também um símbolo do estado de uma certa sociedade e classe social. Contudo, é essencial questionar se o Lux é um local verdadeiramente representativo da cultura portuguesa ou se é, em vez disso, um local de culto para gerações que buscam um entretenimento banal mas superficialmente chique. Este ensaio procura explorar essa questão, sublinhando como o Lux pode ser percebido como um espaço desprovido de relevância cultural ou social na sociedade portuguesa, particularmente no contexto artístico e cultural.

O Lux e a Sociedade de Classe em Portugal

A discoteca Lux, ao longo dos anos, conquistou a fama de ser frequentada pela elite social e financeira. As festas e eventos que ali ocorrem frequentemente atraem pessoas em busca de ostentar seu status social. Isso cria uma atmosfera de exclusividade e elitismo, que, embora possa atrair um público específico, também exclui muitos outros.

A representação dessa elite na sociedade portuguesa não é necessariamente uma imagem precisa da cultura do país. A cultura portuguesa é rica em história, tradições e influências diversas, que vão desde a poesia de Fernando Pessoa até a música do fado. O Lux, por outro lado, tende a enfatizar mais o glamour superficial e o materialismo do que a profundidade cultural que define a sociedade portuguesa.

Entretenimento Banal vs. Relevância Cultural

Embora o Lux possa oferecer entretenimento de alta qualidade em termos de produção e ambiente, frequentemente carece dessa referida profundidade. As festas extravagantes e a música eletrónica que dominam a cena noturna desse bar em específico não contribuem necessariamente para o enriquecimento cultural ou artístico da sociedade portuguesa. Em vez disso, podem ser vistos como uma forma de escapismo, onde as preocupações culturais e sociais são deixadas de lado em favor de uma noite de diversão sem compromisso.

A verdadeira cultura portuguesa está enraizada em sua língua, literatura, música tradicional e artes visuais. Estas são as expressões que moldaram a identidade cultural do país ao longo dos séculos. Enquanto o Lux pode ser um espaço para expressões culturais contemporâneas, muitas vezes essas expressões são superficiais e efémeras, não deixando um legado duradouro na cena cultural portuguesa.

O Jetset Português e a Cultura de Aparência: Reflexões sobre o Bar Lux

Foto: Vítor Gordo, aniversário Lux

Portugal, conhecido por sua rica herança cultural e histórica, é também lar de uma cena jetset que floresceu nas últimas décadas, especialmente em Lisboa. Este fenómeno social é frequentemente associado ao glamour e à ostentação, concentrando-se em locais icónicos como o bar Lux. No entanto, é importante observar que essa cultura de jetset, apesar de atrair a atenção da média e das redes sociais, muitas vezes carece de profundidade, valorizando mais a aparência do que o conteúdo.

O bar Lux, celebrando seus 25 anos, é um epicentro desse movimento, atraindo frequentadores que buscam glamour e sofisticação. Muitos de seus frequentadores estão mais preocupados com a moda, maquilhagem e aparência do que com a cultura e a arte. Esse foco na estética e na imagem pessoal muitas vezes desloca a atenção de questões mais relevantes e enriquecedoras para a sociedade.

É intrigante notar como os meios de comunicação e as elites culturais frequentemente dão destaque exagerado a eventos e lugares como o Bar Lux, enquanto negligenciam outras instituições culturais de grande relevância. Por exemplo, espaços como o Incógnito, o Damas, o Lounge, o Musicbox, a SMUP (Sociedade Musical União Paredense), muitas vezes recebem menos atenção do que merecem. Esses espaços desempenharam e desempenham papéis significativos na promoção da cultura e da arte em Portugal, mas são ofuscados pela atenção desproporcional ao jetset.

A celebração dos 25 anos do Bar Lux é emblemática de um fenómeno mais amplo que poderíamos chamar de “culto hipster”. A atenção desmedida a esse espaço e à cultura superficial que ele representa pode ser vista como uma expressão de um gosto estético, muitas vezes vazio de conteúdo cultural e artístico. Isso levanta questões sobre os valores e as prioridades da sociedade, especialmente entre as elites culturais e jornalísticas, que desempenham um papel importante na formação da opinião pública.

Felizmente, há uma contracultura que se opõe a essa onda de pseudo-cultura. A “contra cultura” e o “anti sistema” representam vozes que buscam um entendimento mais profundo da cultura e da arte, e que não se identificam com esse “culto” superficial que parece dominar os média e as redes sociais. Eles valorizam instituições culturais autênticas e reconhecem a importância de apoiar a arte e a cultura que têm raízes mais profundas e impacto duradouro na sociedade.

Em resumo, a celebração dos 25 anos do Bar Lux é um reflexo de um fenómeno maior que envolve a cultura de aparência e a ênfase na superficialidade em detrimento da substância cultural. É crucial que as elites culturais e jornalísticas, bem como a sociedade em geral, reflitam sobre as prioridades e os valores que estão promovendo. O verdadeiro património cultural de Portugal reside em suas instituições culturais autênticas e em sua rica herança artística, que merecem mais atenção e apoio do que a cultura de jetset que muitas vezes ofusca seu brilho.

A Cultura Hipster em Lisboa: Entre o Lux e a Superficialidade Cultural

Lisboa é uma cidade que abriga uma cena cultural diversificada, mas também é lar de uma cultura hipster em ascensão, que muitas vezes se manifesta em bares como o Lux. Essa cultura, embora possa ser vista como uma expressão de individualidade e estilo, por vezes se destaca por sua superficialidade cultural e pelo seu apreço por espaços de entretenimento fácil e imediatista.

Os frequentadores dos bares da moda em Lisboa, como o Lux, muitas vezes são atraídos pelo ambiente elegante, pelas tendências da moda e pela música eletrónica vibrante. No entanto, é notável como essa cultura tende a ignorar espaços culturais que são verdadeiramente enriquecedores para a sociedade. A ênfase recai na estética pessoal e na imagem, enquanto se deixa de lado a exploração de instituições culturais que poderiam ampliar horizontes e enriquecer as experiências individuais.

Esses espaços de entretenimento fácil podem proporcionar noites de diversão, mas muitas vezes carecem da profundidade cultural que poderia contribuir para uma compreensão mais rica e significativa do mundo que nos rodeia. A verdadeira cultura engloba uma ampla gama de experiências, incluindo a exploração das artes, literatura, música clássica e tradicional, e as raízes culturais que formam a identidade de uma nação. Ignorar esses espaços em favor do glamour e do estilo pode limitar o enriquecimento cultural e intelectual.

É importante que a cultura hipster, em Lisboa e em qualquer outro lugar, reserve espaço para a exploração de instituições culturais relevantes, que têm o potencial de enriquecer vidas e contribuir para uma compreensão mais profunda da cultura e da arte. Os espaços culturais não devem ser deixados à margem em detrimento do entretenimento fácil e acultural. O equilíbrio entre o estilo e a substância cultural é fundamental para uma experiência de vida verdadeiramente enriquecedora e significativa. Portanto, é crucial que a cultura hipster não se perca na superficialidade, mas sim valorize a profundidade e a riqueza que a cultura autêntica pode oferecer.

A Contracultura em Portugal: Em Busca de Profundidade Cultural

Portugal, uma nação rica em história e tradição, não é exceção quando se trata de tendências culturais globais, e a influência da contracultura é profundamente sentida nas ruas de Lisboa. Em contraposição a uma onda de pseudo-cultura, que muitas vezes abraça o culto hipster e se refugia em espaços de entretenimento fácil, emerge uma voz contracultural que busca um entendimento mais profundo da cultura e da arte.

Os frequentadores de espaços de entretenimento de moda, como o bar Lux, muitas vezes se vêem envolvidos em uma cultura que favorece o estilo sobre a substância. Estética, moda e entretenimento fácil tornam-se os pilares de sua busca por uma noite de diversão. No entanto, muitas vezes, isso se traduz em uma ausência de apreciação pela riqueza cultural que Portugal tem a oferecer.

A contracultura em Lisboa é composta por indivíduos e grupos que se afastam desse culto à superficialidade. Eles se opõem à mentalidade do “instantâneo” e buscam um entendimento mais profundo da cultura, da história e da arte do país. Essas vozes procuram espaços culturais autênticos, em vez de bares da moda. Eles exploram instituições menos reconhecidas nos meios de comunicação, mas que têm um alto nível cultural, como a Casa Independente no Intendente, o Lounge, o Damas, a Zaratan, a Appleton, a Sociedade Musical União Paredense (SMUP) ou o Musicbox.

Esses defensores da contracultura compreendem que a cultura não é apenas uma experiência efémera, mas um legado que transcende as tendências passageiras. Eles valorizam a música tradicional portuguesa, a literatura, as artes visuais e a poesia, que formam a espinha dorsal da identidade cultural de Portugal. Eles reconhecem a importância de apoiar a arte e a cultura que têm raízes profundas e um impacto duradouro na sociedade.

A contracultura em Lisboa é uma resposta à superficialidade da cultura de moda e do culto hipster que frequentemente domina os média e as redes sociais. É uma voz que procura preservar e celebrar a herança cultural autêntica de Portugal. Essas vozes representam uma resistência à cultura instantânea e apreciam a complexidade da cultura e da arte que enriquecem a sociedade. Eles são a lembrança de que a cultura não é apenas o que está na moda, mas o que é eterno e profundamente significativo. E é por meio dessas vozes contraculturais que Portugal mantém viva sua identidade cultural rica e diversificada.

Entre o Brilho e a Sombra

Lux Frágil. Cais da Pedra, Lisboa 23.10.2015.

Em última análise, o Lux em Lisboa, ao completar 25 anos, representa, de facto, um aspeto da sociedade portuguesa, mas não pode ser considerado um espaço verdadeiramente representativo da cultura do país. É um local de entretenimento que atrai uma classe social específica em busca de glamour superficial e diversão efémera. Embora desempenhe um papel na vida noturna de Lisboa, o Lux não contribui significativamente para o enriquecimento cultural ou social de Portugal. A verdadeira riqueza da cultura portuguesa reside em suas tradições profundas e em suas expressões artísticas e literárias, que são fundamentais para compreender a identidade deste país. Portanto, enquanto o Lux tem o seu lugar na cena nocturna, não deve ser confundido com um espaço culturalmente relevante na sociedade portuguesa. É hora de Portugal continuar a apoiar e celebrar os espaços e instituições que verdadeiramente promovem a cultura autêntica, assegurando que as futuras gerações sejam enriquecidas por uma tradição cultural rica e substancial, em vez de se deixarem levar por tendências efémeras e superficiais. Que haja luz e discernimento nesta análise.

Finale

Panfleto referente à inaguração de um club da moda, em 1944, na av. da Liberdade, em Lisboa.

Em conclusão, a cultura verdadeira em Portugal é um tesouro de profundidade e riqueza, enraizado em tradições antigas e influências diversas. Os espaços autênticos, como a Fundação Calouste Gulbenkian, a Culturgest a nível institucional, bares e clubes como a Casa Independente no Intendente, o Lounge, o Damas, a Zaratan, a Appleton, a Sociedade Musical União Paredense (SMUP) ou o Musicbox, e locais emblemáticos como o Rock Rendez-Vous e o Johnny Guitar, contribuem e contribuíram para essa herança cultural. O bar Lux, por outro lado, embora possa brilhar na noite lisboeta, é, no fim das contas, mais luz do que substância. A cultura com “C” maiúsculo deve ser uma força que enriquece a sociedade, inspira a reflexão e transcende o efémero. Nesse sentido, Portugal deve continuar a valorizar e apoiar as expressões culturais genuínas, em detrimento de uma cultura de aparência, que muitas vezes ofusca o que é verdadeiramente significativo.

Que se possa, assim, seguir o lema: “Fiat Lux”, mas com um olhar crítico e apreciativo pelas verdadeiras pérolas culturais que Portugal tem a oferecer.

Há 25 anos que não vou ao Lux

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Na celebração dos 25 anos da famosa e muito burguesa discoteca Lux, Ricardo Fortunato traz-nos um texto representando o ponto de vista de algumas pessoas que, apesar de residirem em Lisboa ou arredores, apreciarem música electrónica, gostarem de sair à noite, estão-se absolutamente na tintas para esta tão icónica e badalada discoteca.

Há uma pequena história, que mais parece uma rábula de revista à portuguesa, e que pode ou não ilustrar alegoricamente de algum modo o que é o Lux, o que se passa no Lux e para que serve o Lux. Recentemente, naquela zona de Santa Apolónia — e crê-se que durante a pandemia, embora tal seja irrelevante para a história — um bebé humano, vivo, foi encontrado num caixote, ou melhor, num contentor de lixo. A comunicação social, acorrendo babosamente ao terreno, é convencida por um vagabundo local de que foi ele a encontrar o bebé e alertar as autoridades. De rompante, aquele que já foi considerado por alguns como o grande cata-vento mediático da praça, e que hoje serve como Presidente da República, desloca-se ao cenário e vai, como é costume da sua postura pública, dar um grande abraço ao dito vagabundo, aclamando-o como um herói, ao mesmo tempo que deixa que lhe tirem umas quantas selfies. Mas poucas horas, ou um dia, depois, surgem outros vagabundos desmentindo o primeiro, afirmando que esse não tinha encontrado nada, que estava a mentir, e que foram outros que encontraram a criança. Ao que o dito, nomeado por alguns, “cata-vento mediático”, no seu estilo ufano, soberbo e magnânimo, declara que são todos uns heróis e merecem todos um abraço. Resumindo, e concluindo: bebé é encontrado no caixote, Marcelo vai lá, dar os parabéns ao mentiroso, é desmentido, e no final diz que todos os mentirosos estão de parabéns. 

Saindo do terreno da alegoria, podemos embarcar em várias descrições, em registo de relance onírico, do ajuntamento social e cultural representado por esta discoteca. A primeira: vários intelectuais urbanos, maioritariamente esquerdistas, progressistas e intolerantes à crítica, amontoam-se à porta, amontoam-se lá dentro e depois dizem que a varanda é muito boa. A segunda: políticos, artistas e chavalos vão sair à noite e não arranjaram ideia melhor do que ir aos sítios a que uns e outros vão ou querem ir. A terceira: não há putas, a droga é boa (o que é ou pode ser mau mas também pode ser bom, dependendo de se se está em África ou em Amsterdão), a música é de “dança inteligente” durante grande parte do tempo, e segue tendências — tendências essas que não seguem propriamente tendências mas simplesmente gostos superficiais e patéticos e classes cultural-económicas do pequeno e periférico meio provinciano português —, a comida é inexistente — os bêbados e drogados finos não comem, só repetem — a conversa é previsível ou inexistente, a classe social é já-feita ou expectável, a classe económica é bem-vinda à entrada, a classe intelectual é pura e simplesmente a mesma dessa, ou seja, de absolutamente nenhuma “intelectualidade” relevante, simplesmente sub-existindo deitada sobre o conforto burguês daquilo a que hoje se chama o apreço pela “cultura” e pelas artes e letras, de um modo simplesmente cómodo, sem qualquer invenção extraordinária. Qual é, afinal, o interesse do “Lux”?

Temos uma equipa de cerca de oito pessoas, mais coisa menos coisa, e nenhuma põe os pés no Lux com regularidade de espécie alguma, sendo aliás a frequência algures entre “nunca” e “uma ou duas vezes” (e duas já é muito). Somos, apesar disso, maioritariamente “pessoas normais”, intelectuais urbanos perfeitamente padronizados num certo tipo de interesses, embora não necessariamente de estilo de vida, que frequentam pontualmente eventos de música, de cinema, de dança (mas não de teatro, que horror — é muito mau mesmo), pessoas que se dirigem a bares e consomem bebidas, que são moderadamente sociais, que gostam de alguns museus e de alguns centros culturais, que se vestem condignamente para respetivos eventos, ou então não, que apreciam ficar acordadas até tarde ocasionalmente, que gostam de alguma vida nocturna, etc. Mas ninguém põe os pés no Lux. Porquê?

Será inteligente, porém, notar que por aqui ninguém (1) tem qualquer tipo de inclinação do tipo hipster de ir meter o focinho nos sítios que estejam “na moda”, pois não somos, para o bem e para o mal, provincianos da cidade; (2) que a nossa relação com o mundo das artes é intelectual, pessoal e primeiramente privada, e não, primordialmente, social e/ou familiar, como o é para alguns ou muitos; (3) que não somos, nem temos o carácter inclinado para ser, o tipo de máquinas sócio-políticas de opinar e fazer conversa sobre contingências da actualidade, nem temos particular inclinação para as preocupações da “cultura” (no sentido dos fundos públicos e da classe social dependente desses ou doutros), nem da política. São três pontos talvez fulcrais no estabelecimento da nossa incompatibilidade endémica com as razões que levarão muitos a desclocar-se ao Lux. 

Não deixa de ser um sitio onde se pode dançar música electrónica urbana, mais especificamente, e usando o termo que actualmente já designa um género mais específico num sentido mais lato, dançar intelligent dance music. Mas é um sítio onde só se pode dançar essa música ou derivadas, o que nada tem de mal por si só, a menos que haja algo de mal por si só nesse tipo de música, na classe social intelectual urbana que a aprecia e a procura, e em toda a simbiose entre um sítio, esse tipo de música e esse tipo de pessoas. É possível que exista. Feliz ou infelizmente, como não metemos lá os pés frequentemente, não fazemos uma ideia tão clara disso como gostaríamos ou não gostaríamos (dependendo de se a ideia é boa ou má).

Não ajuda que o meio cultural português seja, como o país o é no seu todo, periférico, provinciano e pobre. Não ajuda que as reuniões sociais mais oficiais, mais oficiosas ou mais triviais desse grupo sejam feiras de vaidades com poucas razões para vaidade, amálgamas conceptuais e discursivas de banalidades com pouca substância e cultura intelectual de imitação, e resultem na prática em auto-estradas infindáveis de conversas aborrecidas, autistas, amedrontadas, histéricas, adolescentes, burrinhas e gays. É aliás muito pouco peculiar que Lisboa concentre a maior parte desse provincianismo, mais intenso do que até na própria província, e muito notoriamente, na opinião de alguns de nós, mais intenso do que noutras grandes cidades (na medida do possível) portuguesas, como o Porto ou Coimbra, já para não falar das pequenas e médias localidades, com maior solidez cultural nesse sentido. É natural: quanto mais provinciano, mais se sonha, inutilmente, ser cosmopolita, e logo a seguir se pega nas malas e se vai para a cidade grande — e em geral calha à pobre de Lisboa essa sorte — e depressa se juntam aos outros provincianos, enquanto que os pobres cidadãos nativos desta cidade a norte do Tejo, que são, maioritariamente, pessoas normais, intelectuais ou não, têm de aturar as turbas arrivistas, intelectuais ou não, venham elas da “cultura”, da pastelaria ou da Fórmula 1.

Seria a discoteca Lux um sítio interessante sem esta gente? É difícil dizer, pois possivelmente sem esta gente não existiria discoteca Lux conforme a conhecemos. O sítio está projectado para este público, depende do mundo das artes e letras português, mundo esse que, no regime presente, vive casado ou enamorado de certas forças políticas aliás notavelmente persistentes na ocupação do poder, eleitoral, legislativo ou económico, desde há cinquenta anos; e o sítio nocturno em questão, que, geneticamente, é uma discoteca de música inteligente para pessoas inteligentes, ocupa simbioticamente o espaço da relação entre a existência desse público, que em Portugal tem as características que tem, e a actividade possível para um estabelecimento nocturno desse género, que não consegue, conforme a proposta de vanguarda-para-burguês que tem, desvincular-se desse público, nem provavelmente o quereria.

É possível conceber o espaço, a música, o ambiente, sem estas pessoas? Talvez, mas o que restaria seria uma banal apresentação de bar de hotel do Algarve, com esplanadas e bom espaço, uma cave onde se dança um pouco de música menos má que noutros sítios, e uma garrafeira provavelmente sem nada de extraordinário. Para isso, existem dezenas ou centenas de locais laterais, esses sim, verdadeiramente extraordinários, actual ou potencialmente, na sua singularidade, completamente desvinculados desse público e dessa tentativa de elevação civilizacional num país, e num aglomerado urbano em particular, que são periféricos e provincianos e em que as elevações civilizacionais muitas vezes nada mais são do que reedições do golfejar medíocre e nado-morto do hipster provinciano tentando alcançar as portas do céu “do que se faz lá fora”, mas nada mais conseguindo do que arrotar banalidades contigentes ou generalistas, de ter bebido e fumado mal ou não tão bem, ao lado dos seus amigos pseudo-progressistas, na varanda junto ao rio Tejo, depois de ter dançado música que acha que é menos má que noutros sítios e ficar completamente igual ao barro bronco que lhe deu origem: e, a partir daí, dizem, é “Lisboa que Amanhece”, como já dizia outro famoso intelectual português da mesma, ou quase da mesma, estirpe.

A Retórica da Memória Histórica na Obra de Seomara da Veiga Ferreira

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Texto de João Miguel Carneiro dos Santos – Doutorando em Estudos Literários, Culturais e Interartísticos (Universidade do Porto).

A autora

Seomara da Veiga Ferreira nasceu em Lisboa, em março de 1942. Em 1969, licenciou-se em Ciências Históricas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa com uma tese intitulada Marcas de Oleiro em Território Português. Filha do arqueólogo Octávio da Veiga Ferreira (1917-1997), desde cedo a Arqueologia e a História foram alimentando o seu percurso académico, de tal modo que nunca mais as abandonou. Manifesta, ainda hoje, uma predileção pela civilização egípcia e sobretudo pelo império romano, chegando a afirmar, numa entrevista televisiva, que persegue, ela própria, o preceito da Fides, Nobis, Aequanimitas e se sente uma cidadã romana[1].

A par do seu trabalho dedicado ao ensino e à investigação, colaborou entre a década de 70 e 80 em diversos números da revista Arqueologia, dos Cadernos F.A.J.O e n’O Arqueólogo Português, no Arquivo de Beja. Em 1970, deu ao prelo um livro dedicado ao estudo da etnografia de Idanha-a-Velha, fruto da sua investigação nesta localidade. Seguidamente, em abril de 85, publicou um ensaio sobre o fenómeno das aparições em Portugal, intitulado As aparições em Portugal dos séculos XIV a XX. Os emissários do desconhecido, pela editora Relógio d’Água.

Escritora multifacetada, Seomara veio depois a dedicar-se à publicação literária, redigindo um conjunto de romances históricos, tendo publicado, em 1993, Memórias de Agripina, em 1995, Crónica Esquecida d’El Rei D. João II, seguindo-se, em 1998, Leonor Teles ou o Canto da Salamandra e, em 2002, António Vieira – O Fogo e a Rosa. O último que publicou, já em 2007, intitula-se Inês de Castro – A Estalagem dos Assombros. Todos estes romances estão publicados pela Editorial Presença.

Nos anos de publicação dos seus dois primeiros romances, foi distinguida, respetivamente, com a atribuição do Prémio Eça de Queiroz e com o Prémio Máxima de Literatura, tendo sido condecorada por duas vezes com o primeiro dos prémios. Já em 2008, dá à estampa um (e único) livro de poesia, editado pela Labirinto, que tem como título Ciclo de Criação Imperfeita. Importa ainda referir que, à exceção da sua produção romanesca, o acesso às suas outras publicações apenas é possível através de consulta numa biblioteca ou num alfarrabista.

A obra

A obra romanesca de Seomara da Veiga Ferreira constitui, a nosso ver, um conjunto ficcional inovador, desde logo pelo facto de, sendo formada exclusivamente por romances históricos, conter um conjunto relevante de reflexões sobre a memória histórica e o modo como a literatura se pode apropriar dessas reflexões para evidenciar a reescrita da História pela Literatura, por um lado. E, por outro lado, pela forma como o discurso ficcional se encontra próximo do discurso histórico, sobretudo quando entendido o contexto do género do romance histórico. Ao compararmos as estratégias retóricas dos documentos históricos e a sua forma de construção de uma «memória histórica», não podemos deixar de ser sensíveis à sua presença nos romances de Seomara da Veiga Ferreira.

No que respeita ao estado da arte importa referir que, das várias leituras que fizemos até ao momento, não encontrámos uma significativa atenção à obra romanesca da autora, tanto no que diz respeito ao estudo académico da sua obra, como também sobre a perspetiva retórica que ela nos oferece, facto esse que nos preocupa.[2]

Daqui em diante, falaremos primeiro da tutelar figura de Aristóteles, já que podemos afirmar que ele é o responsável pela dicotomia Poesia vs História que tantas vezes foi mencionada como argumento para uma separação clara entre Poesia e História, que afinal pode estar subjacente a uma leitura feita, de modo geral, às obras de literatura, incluindo romances históricos, como os da autora em apreço:

«Assim como nas outras artes imitativas a um só objeto, corresponde uma só imitação, também o enredo, como a imitação que é de uma ação, deve ser a imitação de uma ação una, que seja um todo, e que as partes dos acontecimentos se estruturem de tal modo que, ao deslocar-se ou suprimir-se uma parte, o todo fique alterado e desordenado. Realmente aquilo cuja presença ou ausência passa despercebida não é parte de um todo. Pelo exposto se torna óbvio que a função do poeta não é contar o que aconteceu mas aquilo que poderia acontecer, de acordo com o princípio da verosimilhança e da necessidade. O historiador e o poeta não diferem pelo facto de um escrever em prosa e o outro em verso (se tivéssemos posto em verso a obra de Heródoto, com verso ou sem verso ela não perderia absolutamente nada o seu carácter de História)» (2008: 54).

Nesta sequência, e já na década de 60 do século XX, num ensaio intitulado «L’Effet de Réel», Roland Barthes realçava ainda que:

«Dès l’ Antiquité, le «réel» était du côté de l’Histoire; mais c’était pour mieux s’opposer au vraisemblable, c’est-à-dire à l’ordre même du récit (de l’imitation ou «poésie»). Toute la culture classique a vécu pendant des siècles sur l’idée que le réel ne pouvait en rien contaminer le vraisemblable.» (1968: 88).

Ora, pelo que vemos, o romance histórico parece diluir-se nessa procura pelo real, o mesmo sucedendo ao discurso sobre a História elaborado, sobretudo ao longo dos séculos XX e XXI, pelos historiadores. Na nossa leitura, Paul Veyne talvez tenha sido o historiador que, de forma mais explícita, o formulou. Por exemplo, quando este declara que «A história é uma narrativa de acontecimentos verdadeiros. Nos termos desta definição, um facto deve preencher uma só condição para ter a dignidade da história: ter acontecido realmente. Admiremos a simplicidade enganadora desta definição, na qual se manifesta o génio que tinha o aristotelismo de se aperceber do essencial e das evidências que não se vêem» (2008:20). De modo ainda mais específico, o historiador defende que:

«O abismo que separa a historiografia antiga, com a sua ótica estritamente política, da nossa história económica e social é enorme; mas não é maior do que aquela que separa a história de hoje do que ela poderá ser amanhã. Um meio de nos apercebermos disso é tentar escrever um romance histórico, do mesmo modo que a melhor maneira de pôr à prova uma gramática descritiva é fazê-la funcionar em sentido contrário numa máquina de traduzir. À nossa conceptualização do passado é tão reduzida e sumária que o romance histórico melhor documentado soa a falso a partir do momento em que as personagens abrem a boca ou fazem um gesto» (Ibid.: 34)

Há, pois, para nós, a necessidade de se reler o romance histórico neste novo contexto que, a nosso ver, é ainda uma preocupação que a Literatura, cronologicamente, e já desde o século XIX, antecipou em relação à História. O discurso histórico, assim como o discurso literário do romance histórico, permite até, se os virmos do ponto de vista retórico, evidenciar argumentos de tipo lógico (designados na retórica aristotélica por logos), emotivo (designados na retórica aristotélica por pathos) e de construção de autoridade (que a retórica aristotélica designa por ethos).

É muito relevante referir que, no caso de Seomara, ela oferece-nos leituras muito particulares sobre a noção da História dita oficial, de tal modo que o seu conjunto ficcional confronta continuadamente o leitor com distintos mecanismos retóricos que servem a construção de uma memória histórica literariamente subvertida. Estes mecanismos Incitam o leitor a confrontar-se com os conceitos de “verdade” e de “memória”, os quais são, desde logo, confundidos pela ficção da História. Esta subversão ficcional da memória histórica é conseguida, por Seomara, através da construção de «autobiografias fictícias»[3] e de uma «biografia de personagens referenciais»[4] (cf. Marinho, 1999).

Sempre sob uma focalização interna, em todos os textos estamos perante narradores cuja visão do seu passado individual e coletivo[5] que será, por um lado, sempre múltipla e, por outro, estará sempre limitada à sua memória, muitas vezes já debilitada. Assim mesmo, acreditamos que importa muito a esta autora-historiadora poder «também reequacionar o conhecimento do passado, reelaborá-lo à luz do privado em detrimento do público, ou do privado enquanto atualização necessária de modos e de eventos desprovidos de significação absoluta, carentes sempres de relativizações fundamentais e imprescindíveis.” (Marinho, 2019: 118).

Ainda que por ora não possamos alargar-nos em explicações mais detalhadas, importa-nos salientar que a deslocação da “memória histórica” para o relato ficcional, que a subverte, trará sempre consigo a “dúvida”, o “mito”, a “verdade conveniente”, a “falsificação da imagem”, a “simulação do esquecimento”[6]. E é tudo isto que nos incita a asseverar que a ficção de Seomara é realmente inovadora no panorama da literatura pós-moderna nacional.

Deixamos infra alguns excertos representativos da praxis da autora nas obras que mencionámos.

Memórias de Agripina (1993)

«É estranho como agora recordo tudo tão claramente! Se eu tivesse tempo de escrever o que relembro nestas últimas horas de vida eu sentiria certamente nas folhas escurecidas pela tinta um sussurrar do espírito, o palpitar macio e quente da carne, porque há livros assim.» (Ferreira, 2007: 25)

«Ele [Ovídio] soube da tentativa de golpe que se orquestrara em casa da minha tia para liquidar Tibério e impor Augusto Agripa Póstumo como futuro imperador, teve conhecimento dos pormenores da conspiração e não avisou Lívia? Ou teria simplesmente pretendido desconhecer, ele o poeta adverso às ambições políticas… ou teria segredado alguma palavra não intencional à mulher que correra a alertar Lívia? Duvido.» (ibidem: 44.)

«A veracidade histórica seria reposta, a herança de Augusto respeitada, o seu testamento cumprido. Do terraço do Palatino observei a meus pés o centro do mundo, a Urbe das sete colinas sagradas, o símbolo esculpido a pedra da grandeza do Império, a alma mater do Povo Romano. Eu pisava o solo onde se refugiara a loba que aleitara os dois gémeos gerados por Marte. Eu assumira também, em consciência, parte desse destino e, quando a XI das Calendas de Maio, celebrássemos as festas do nascimento da pátria, eu seria a mãe do novo Romulus, a reencarnação da loba e, tal como ela, participaria da autoridade tutelar que permitiria arquitectar as etapas do novo século e da nova Paz Augusta. A promessa a mim própria, durante a viagem com Julilla para o exílio, cumprira-se.» (ibidem: 278)

Crónica Esquecida d’El Rei D. João II (1995)

«A Rainha [D. Leonor] partira na absoluta penúria. Nunca se soube, nem ela, o que aconteceu ao dinheiro e jóias que tivera antes a ideia de enviar à irmã e aos irmãos, embora os cronistas não o refiram (e quantas vezes ouvi falar sobre o assunto!), e isso chocou algumas pessoas.» (2002: 36)

«Sei que o Pina o repete e se limitou a repetir o que lhe mandaram dizer, mas a verdade é que El Rei era muito miúdo para requerer o que quer que fosse.» (ibidem: 38)

«Depois D. Pedro [Regente de Portugal] cometeu outro erro – ou não seria? Em política existem momentos em que se joga tudo por tudo.» (ibidem: 41)

«Quando agora penso nisso sorrio à minha ingénua vontade de querer deixar uma obra para a posterioridade. Quantos milhões de livros se perderam no mundo, quantas verdades se escreveram e ninguém as conheceu ou mereceram ser conhecidas? Isto que escrevo agora, esta crónica, por exemplo: tudo é relativo. Se ninguém a ler não tem importância. Este livro será escrito e conterá a sua verdade. […] Alguém, depois de mim, virá e escreverá outra verdade que, talvez, com o fluir do tempo e a sabedoria que contiver, acabe por ser mais perfeita do que a minha.» (ibidem: 313)

Leonor Teles ou o Canto da Salamandra (1998)

«Há momentos especiais da nossa memória que, despertos, são um livro, uma vida. E chegam a ser tão fortes, perfeitos e poderosos que acabam por criar um tempo próprio, libertos de nós, como se não nos pertencessem.» (Ferreira, 1999: 13).

«Ah, frei Juan! Como é a nossa memória! Serve-se de mil subterfúgios para alcançar o cerne das recordações!» (ibidem: 90)

«Recordo-me de uma história que me relataram, e que se passou na altura em que ia eu a caminho de Elvas, então para casar minha filha, quando alguém fizera saber a meu marido que o conde era meu amante e, se desejasse, que o vingariam e que Fernando pensou no Mestre de Avis para cumprir o acto, mas que, por outro lado, lhe tinham feito compreender que isso seria perigoso porque o Mestre tinha ambições políticas e, um dia, desejaria reinar, etc., etc. Vede bem como a intriga era arquitectada há tanto tempo! Só que meu marido nunca acreditou nela.» (ibidem: 237)

Inês de Castro A estalagem dos assombros (2007)

«Dividi-me em duas – eu e a Rainha – para falar comigo, para falarmos uma com a outra e compreender as recordações, as imagens, os factos que me chegam à memória como relâmpagos de outro e diamante […] A memória é uma doença também, pois vai crescendo mesmo contra nossa vontade.» (2007:15)

«Sabeis qual a sua [de Álvaro Gonçalves] divisa? A Lei serve o cidadão. Foi aos Romanos buscar o latim que não me recordo dizer. Esperai. Já sei. A minha cabeça… LEX CIVIUM DUX. É isso. Nunca gostei daquele homem.» (ibidem: 45)

«Terminara a noite dos escorpiões e o novo dia abria-se em luz baça que iria iluminar o lajedo do chão em lágrimas e sangue. Disse noite dos escorpiões porque existe uma lenda sobre isso […] Diz-se que esses animais são tão cruéis que até comem a mãe à luz da Lua Cheia. Não sei se é verdade mas não há dúvida.» (ibidem: 84)

«E ela, a bela Iseut, o Colo de Garça, lá ficou, num humilde coval que as boas irmãs Clarissas abriram, junto ao altar-mor da Igreja de Santa Clara, chorando a desgraçada amante do Infante apaixonado». (ibidem: 87)

«Já não me recordo como comecei e do que vem a seguir, mas não tem importância.» (ibidem: 94).

«Meu querido tio, aqui volto a escrever o que me vai na alma e a memória de tudo o que vi, me disseram e pensei, sempre pondo a minha alma na recordação da minha querida Senhora e Rainha e tentando adivinhar o que ela diria sobre todas estas novidades.» (ibidem: 113)

António Vieira – o fogo e a rosa (2008)

«(…) cá vou tecendo esta manta de retalhos de memória, pegando aqui, torcendo ali, retocando uma data, esquecendo alguns pormenores como sucede sempre no fim da nossa vida, com a nossa cabeça já gasta pelo uso implacável do tempo (…) Tempus edax rerum.» (2008: 54)

«Os homens são os senhores do mundo, mas são as mulheres que decidem, quantas vezes, os seus destinos! D. Luísa possuía esse sentido do poder (…) Chamei-lhe a Rainha Judite pelo respeito pela sua inteligência. Era directa e imune a falsas reverências. (…) A verdade pode ser dolorosa, mas é a verdade» (ibidem: 99)

«Mas ainda não vos contei… Lá estou eu a adiantar-me à história, mas o pensamento saltita, deambula, percorre sinuosas veredas da memória e a nossa vida não é aquela linha direita, sem desvios, que desejámos sempre que fosse. Na minha política estava a planificação de uma filosofia económica. (…) Propus a abolição da actividade persecutória que a Fortaleza do Rossio, a Inquisição, fazia aos cristãos-novos (…) Também propus a criação de uma Companhia Portuguesa do Comércio. (…) Como vedes, não deixei por mãos alheias o que era preciso fazer…» (ibidem: 104-105)

«Portanto, um construtor de Palavras, como eu, amigo, como eu que não fiz outra coisa em toda a minha vida, e um cultor de memória porque sem ela nada existe. Nós, como as nações, sem memória não somos coisa nenhuma» (ibidem: 148)

Bibliografia ativa

ROMANCES

FERREIRA, Seomara da Veiga (1999), Leonor Teles ou o Canto da Salamandra, Lisboa, Editorial Presença. (1.ª ed. 1998).

— (2002), Crónica Esquecida d’El Rei D. João II, Lisboa, Editorial Presença. (1.ª edição: 1995).

— (2007a), Memórias de Agripina, Lisboa, Editorial Presença (1.ª ed. 1993)

— (2007b), Inês de Castro – A estalagem dos assombros, Lisboa, Editorial Presença.

(2008), António Vieira – O fogo e a rosa, Lisboa, Editorial Presença. (1.ª ed. 2002).

POESIA

— (2008), Ciclo de criação imperfeita, Fafe, Labirinto.

Bibliografia crítica selecionada

Artigos em livros:

LOPES, Maria José Ferreira (2017), «Cuius est ueritas? Dois retratos memorialistas pós-modernos da imperatriz Agripina», in A Literatura Clássica ou os clássicos na Literatura – Presenças clássicas nas Literaturas de Língua Portuguesa (vol. III), Lisboa, Campo da Comunicação, pp. 277-297.

MARINHO, Maria de Fátima (1999), O Romance Histórico em Portugal, Porto, Campo das Letras.

— (2005), Um Poço sem Fundo. Novas reflexões sobre Literatura e História, Porto, Campo das Letras.

— (2019), «A memória da família», in Revista de Estudos Literários, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra.

— (2020) «O despertar da Bela Adormecida (O silêncio e a palavra da mulher no romance histórico)», in Romance Histórico. Cânone e Periferias, Famalicão, Edições Húmus, pp. 13-18.

Artigos em revistas:

MARINHO, Maria de Fátima (1995), «O romance histórico na primeira pessoa». Intercâmbio: Revue d’Études Françaises – French Studies Journal, nº. 06. Artigo disponível em: https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/5727.pdf

Dissertações/Teses:

ALMEIDA, Taina A. F. (2018), As marcas do “amor-cortês” e do “amor-paixão” em Tristão e Isolda e Inês de Castro. A estalagem dos assombros, uma visão intertextual. Universidade Estadual da Paraíba.

Disponível em: https://dspace.bc.uepb.edu.br/xmlui/handle/123456789/16549

COUTO, Maria Aurélia da Rocha (1995), «Contar (a) História(s) – (Análise comparativa de Memórias de Agripina de Seomara da Veiga Ferreira e de Mémoires d’ Agrippine de Pierre Grimal)». Dissertação de Mestrado em Literaturas Românicas Modernas e Contemporâneas. Faculdade de Letras da Universidade do Porto

FERNANDES, Fernando Augusto Braga (2015), Pedro e Inês: entre a realidade e a ficção, uma estória sem fim. Dissertação de Mestrado em Literatura Portuguesa apresentada à Universidade Católica Portuguesa de Braga (inédita). Disponível em: https://repositorio.ucp.pt/handle/10400.14/20599

OLIVEIRA, Whadja Nascimento (2016), Representação feminina no romance: Leonor Teles ou o canto da salamandra. Monografia de Licenciatura em Letras. Universidade de Paraíba. Disponível em: https://dspace.bc.uepb.edu.br/jspui/handle/123456789/13295

João Miguel Santos

setembro de 2023

  1. A entrevista poderá ser consultada em: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/seomara-da-veiga-ferreira/ Último acesso: 20/09/2023.

  2. Vide bibliografia crítica deste texto.

  3. Referimo-nos a Memórias de Agripina; Leonor de Teles ou o Canto da Salamandra; Inês de Castro – A estalagem dos assombros e António Vieira – O fogo e a rosa. Salientamos a relevância do universo feminino muito mais evidente nas três primeiras obras, pese embora também o encontremos mais veladamente no último romance.

  4. Referimo-nos a Crónica Esquecida d’El Rei D. João II.

  5. Convém ainda sublinhar que estas memórias se inscrevem não apenas num contexto individual, mas também num contexto familiar ou coletivo, o que reafirma o tom parcelar e retoricamente múltiplo dos romances.

  6. Procuraremos exemplificar, pontualmente, cada uma destas situações nos excertos abaixo.

Edição: Outubro 2023

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Velocidade de cruzeiro: oito inéditos, ciência-pop, novidades na filosofia, sufrágio feminino, conflito judaico-árabe, império romano, romances longos, o Guia de Portugal, quatro cronistas, história do beijo, e cinema sobre nojo, gays e terrorismo.

Começamos com mais um excelente ensaio de Charles da Silva Rodrigues e Paula Carvalho de Figueiredo com algumas excursões sobre teses filosóficas a propósito do conceito de livre-arbítrio.

Depois, Ana de Oliveira Sérgio escreve-nos, a respeito do presente conflito no médio-oriente, sobre que tipo de sociedade é que permite o trabalho universitário e que tipo de sociedade é que não o permite — e consequentemente que posição é que a universidade deve tomar em certos conflitos.

Vítor Rua, músico e etnomusicólogo, escreve-nos mais um excelente texto sobre como a noção convencional de música enquanto exclusiva construção cultural humana pode ser estendida e aplicada ao reino dos restantes animais.

Tomás Vicente Ferreira presenteia-nos também com um excelente ensaio sobre as influências e o modo literário em que o famoso poeta alemão Friedrich Hölderlin se move, passando pela invocação de alguns críticos e por uma breve análise da sua poesia.

Apresentamos também uma pesquisa num meio local brasileiro sobre se o acesso a aparelhos electrónicos e internet aumenta os casos de agressão por meio das redes de comunicação, de Carla Silbene e outros. Contámos também com uma breve, singular e divertida crónica sobre horticulismo e vida da autoria do nosso querido Nuno Lopes Margalha.

Mais uma incursão de Cláudia Zafre em itens musicais raros e exóticos, desta vez com alguma folk psicadélica, emo alternativa e soul dos anos setenta. Chamamos a atenção também para o livro de contos da autora, O Ar é de Todos, recém-publicado e disponível na loja de discos Chasing Rabbits, ao Rato, em Lisboa.

Por fim, mais um breve texto divulgativo do mundo dos relógios da autoria de Nuno Margalha, em parceria e amizade com o Instituto Português de Relojoaria, desta vez sobre Clayton Boyer, artesão que vende planos para construção de relógios de madeira.

Ciência Pop e Novidades na Filosofia

Tivemos o prazer de destacar, num tópico domingueiro, quatro grandes divulgadores da ciência em geral, e dois da cosmologia em particular, junto das camadas populares: Hubert Reeves, Carl Sagan, Jacques Cousteau e David Attenborough. O primeiro publicou diversos livros sobre cosmologia dirigidos ao público em geral e teve presença regular no meio televisivo francófono; o segundo foi dos mais importantes divulgadores também de cosmologia na televisão americana durante as décadas de oitenta e noventa através da sua famosa série Cosmos; o terceiro foi o mais famoso oceanógrafo da segunda metade do século XX, tendo popularizado a área através da literatura, do cinema e de uma série de televisão na década de setenta; e o quarto é um naturalista famosíssimo responsável por décadas de programas documentais sobre vida selvagem na cadeia televisiva BBC. Quatro titãs da popularização das ciências naturais que louvamos e saudamos enfaticamente. Não incluímos nesta lista autores como Neil deGrasse Tyson ou Michio Kaku porque, apesar de fazerem superficialmente um trabalho semelhante, caem demasiado nos erros da politização polarizada e polarizante em que tantos intelectuais, académicos e artistas hoje caem — em relação, por exemplo, a tópicos como a desigualdade social ou o aquecimento global — bastando para exemplificar isso verificarem a re- criação da série Cosmos, original de Sagan, por parte de Tyson e verem a diferença monumental em termos de sermão político ali presente. Por isso, excluímo-los desta lista, que se mantém clássica, optimista e impoluta quanto baste.

Inaugurámos também uma rubrica que queremos que seja regular: a divulgação de obras recentes do território da filosofia, abarcando todas as tradições e estilos — continental, analítica, técnica, popular, etc —, contando com a ajuda e guia das Notre Dame Philosophical Reviews, que aconselhamos todos a seguir ou subscrever. Apresentamos assim A Better Ape: The Evolution of the Moral Mind and How it Made us Human, de Victor Kumar e Richmond Campbell, uma obra que mapeia a evolução moral da mente e propõe caminhos de progresso moral a partir dessas lições; What We Owe The Future, de Will MacAskill, que propõe uma teoria moral forte sobre “longoprazismo” em termos de consideração sobre acções recentes no que diz respeito à continuidade da espécie humana; Bias: A Philosophical Study, de Thomas Kelly um estudo que tenta encontrar o que em comum têm todas as coisas que podem ser “parciais” (desde dados, moedas, previsões meteorológicas, juízes, professores, etc); e The Meaning of If, de Justin Koo, com um argumento analítico complexo sobre o conteúdo de expressões condicionais, integrando-as num sistema formalista com semântica própria e princípios de probabilidade. São estas as nossas sugestões das paisagens recentes daquilo a que chamamos amigavelmente de modo geral de “filosofia”.

A Emancipação Feminina e o Conflito Judaico-Árabe

Aproveitando a visibilidade e o debate lançado por algumas formas de protesto distintas na paisagem cultural portuguesa nas últimas semanas — por exemplo, numa livraria, a propósito de um lançamento de um livro, com palavras de ordem e megafone; em palestras de ministros, com arremesso de tintas às pessoas presentes; e os já clássicos e bastante selvagens quebramentos de montras — queremos lembrar um facto frequentemente mitificado por alguns cultores do arruaceirismo: o movimento sufragista, que pugnou pelo voto universal das mulheres e pela sua integração como membros plenos da sociedade do início do passado século, não foi bem sucedido através da violência mas sim devido às próprias transformações sociais e históricas que decorreram então. Tal representação desse movimento como fundamentalmente dotado para a intervenção disruptiva no espaço público no seu todo é falsa, tendenciosa e representa uma mitificação grotesca dos processos complexos que essa transformação social representou. Em primeiro lugar, convém destacar que qualquer movimento de transformação significativa da sociedade tem expressões de protesto que passam por cenários antagonísticos envolvendo ou não violência da parte dos protestantes ou da parte das autoridades. Foi o que se passou com o sufragismo, em que se fizeram greves de fome — violência exercida sobre os próprios manifestantes — interromperam-se eventos públicos e incendiaram-se marcos de correio — violência exercida sobre terceiros e sobre o público em geral. Isso é inegável. Em segundo lugar, é falso, porém, que estas expressões fossem majoritárias e significativas no movimento. Os setores minoritários do mesmo que enveredaram pela violência integram-se e, aliás, misturam-se com, tendências de combate bárbaras desse início do século partilhadas por anarquistas e comunistas; não foram de todo essas ações que substanciaram o papel da mulher como a de um ator cívico de pleno direito — como também não foram bombas e barbarismo que deram força a comunistas ou anarquistas — mas sim uma coisa muito simples: o seu papel na primeira Guerra Mundial. Sendo obrigadas pela ausência da população masculina a tomar trabalhos e atividades tradicionalmente destinadas aos homens, ganharam muita força e respeito junto da opinião pública, ao contrário das anteriores acções, que tinham contestação dentro do próprio movimento. No final da guerra, decorrendo deste contexto, foi aprovado o primeiro direito ao voto parcial para as mulheres. Esta é a verdade histórica: o sucesso do movimento sufragista não teve absolutamente nada a ver em primeira linha com violência exercida sobre terceiros mas sim com o respeito que ganharam junto da opinião pública com a sua participação cívica na guerra, ao que acresce algumas expressões de protesto como as greves de fome (aspectos das quais estão retratados nas imagens em baixo) que naturalmente mereceriam também mais respeito do que desordeirismo de modo geral. Por último, e em conclusão, ao contrário do que alguns actores cívicos mal resolvidos possam pensar, é muito raro a violência política trazer resultados práticos positivos, quer a nível de apoio da população — e lembremos que de modo geral ninguém gosta de violência, nem mesmo os próprios partidários das causas —, quer a nível de desmantelamento de estruturas físicas ou sociais que limitem os objectivos dos protestantes. Lembremos que as grandes revoluções políticas na segunda metade do século XX, já após o barbarismo sanguinário e suicida das grandes guerras, foram muitas travadas com notável inteligência através do caminho da paz e da não violência, como com Mahatma Ghandi, Nelson Mandela, Martin Luther King, ou mesmo as extraordinariamente pacíficas, comparativamente, transições para a democracia de Portugal e de Espanha. Cuidado, portanto, com a glorificação do desordeirismo inócuo, que pode servir apenas para veiculação de impulsos primitivos para o barbarismo que existem em todos nós.

De forma muito sucinta, e notando com alguma preocupação alguma cobertura noticiosa recente, de tendência “activista”, não só passar por cima com notória leviandade de factos culturais e históricos básicos, mas também engolir facilmente e transmitir histericamente clara propaganda de guerra, particularmente de grupos terroristas sem qualquer credibilidade, fizemos questão de assinalar alguns esclarecimentos sobre o conflito entre judeus e árabes na zona da Palestina, a partir dos quais se pode ter uma conversa séria:

  1. existe guerra civil há mais de 100 anos ou há mais de 2500 anos (recomendamos a primeira leitura), entre árabes e judeus naquela região, mas também entre etnias dentro dos próprios árabes;
  2. não existe nenhuma caracterização sólida de “genocídio” aplicável a expressões dessa guerra civil; a classificação de “apartheid” é dúbia, dado os direitos cívicos dos árabes no estado de Israel e os controles fronteiriços naturalmente resultantes da situação de segurança resultante da guerra civil;
  3. não existia nenhum estado árabe nem nenhum estado judeu antes da fundação de Israel, durante o mandado britânico daquela região;
  4. existia uma unidade cultural judaica mas não existia, nunca existiu e possivelmente ainda hoje não existe nenhuma unidade cultural dos árabes residentes na região, sendo que a lógica tribal própria das culturas locais impera;
  5. Israel é a única democracia consolidada e credível da região, com eleições livres — para todos os cidadãos, incluindo árabes, que têm representação política —, com pesos e contrapesos (partidos de oposição, ramos do estado, tribunais, etc.); todos os regimes em redor, de etnia árabe e religião muçulmana dominantes, são imitações de democracias, com quadros políticos e legais restritivos de direitos humanos (religiosos, sexuais, políticos, artísticos, etc.);
  6. Israel não tem um plano de “judaização” do mundo; muitos ramos do Islão radical têm planos de conversão do mundo à força e quadros morais de desumanização do não-crente;
  7. a ética de guerra de parte da cultura de árabes palestinianos e do islão mais radical envolve a glorificação do martírio, inclusive de crianças, um quadro moral em que o valor da vida dos próprios é mais diminuto do que é para os ocidentais, e uma cultura de ódio e de morte que nos é estranha; estatísticas de vítimas devem ter isto em conta;
  8. ambos os lados cometem crimes de guerra, como infelizmente é invariável acontecer em teatros de conflito prolongados e complexos.

Qualquer destes pontos é superficialmente discutível, mas incontornável, numa conversa sobre o assunto.

“Pensar no Império Romano”, Black Swan e Morte em Veneza

Trouxemos, com gosto, pela pena de Mariana Franco da Silva, uma reflexão sobre como, nos últimos tempos, as redes sociais têm sido palco de uma tendência intrigante, com o surgimento de uma questão, aparentemente simples, que se tem espalhado como fogo: “Com que frequência se pensa no Império Romano?”. Surpreendentemente, muitos dos indivíduos (maioritariamente do sexo masculino) têm vindo a afirmar que ponderam sobre este tema com elevada frequência. Esta brincadeira, inicialmente inócua, tem vindo a alcançar um grande nível de popularidade e a despertar o interesse de muitos. Portanto, prossegue-se a explorar esta tendência. Surge a dúvida: Por que motivo o Império Romano ocupa um lugar especial no nosso pensamento? A origem desta tendência pode ser encontrada na natureza imprevisível da cultura da internet. Muitas destas viralidades podem vir a ser esclarecidas por simples piadas aleatórias que acabam por “pegar boleia” na vasta onda que são as redes sociais. O “Império Romano” não parece ser diferente. Uma das peculiaridades desta tendência é a ênfase de questionar especificamente indivíduos do sexo masculino sobre a frequência dos seus pensamentos relativamente ao Império Romano. A atribuição de interesses específicos com base no género é uma generalização simplista e muitas vezes imprecisa. É impossível afirmar que todos os homens ou mulheres compartilhem as mesmas propensões de raciocínio.

No entanto, é possível que a escolha do Império Romano como tema central tenha as suas raízes em estereótipos de masculinidade associados à história e à cultura. O Império Romano traz consigo uma romantização histórica, uma vez que este é frequentemente associado a símbolos de coragem e poder. Este fator pode ter levado à associação entre a masculinidade e a era romana. A interrogação aparenta explorar o estereótipo. Mas porquê o Império Romano? Porque não outro tema histórico, científico ou cultural? A resposta pode constar no fascínio perene que essa civilização exerce sobre a mente dos indivíduos. O Império Romano é um dos capítulos mais ricos e complexos da história humana e existem diversos motivos que explicam o seu persistente apelo, os quais se prossegue a aclarar. Deixa um legado duradouro que influenciou profundamente a civilização ocidental. É possível afirmar que os seus sistemas políticos, legais e arquitetónicos continuam a moldar a modernidade. Assim, a reflexão sobre o Império Romano parece possuir um caráter relevante para a compreensão da nossa própria cultura. A intriga política pode ser comparada a dramas épicos, pois esta era uma arena complexa, inundada de conspirações, traições e rivalidades. O estudo da política romana, no entanto, não proporciona apenas a observação de drama.

Estas dinâmicas oferecem insights à forma como o poder é adquirido, mantido e distribuído. Muitos sistemas políticos da modernidade, como repúblicas e a divisão de poderes, têm as suas raízes intrincadas nas práticas romanas. É ainda notável a sua influência normativa, como por exemplo, a formação do Código Justiniano, que desempenhou um papel crucial na fundamentação das bases do direito civil, que é o sustentáculo de muitos sistemas legais da contemporaneidade. Portanto, compreender a política romana é fundamental para o entendimento da evolução de doutrinas políticas e legais ao longo da história. No entanto, será esse o motivo deste pensamento incessante? Quando pensamos no Império Romano, uma das primeiras coisas que nos vêm à mente são construções grandiosas, como o Coliseu, o Panteão e os aquedutos. Essas estruturas imponentes não apenas demonstram o engenho arquitetónico dos romanos, mas servem também como lembrete da importância das infraestruturas para o desenvolvimento de uma sociedade avançada. Muitas destas técnicas de construção ainda são estudadas e aplicadas hoje em dia, evidenciando a influência do Império Romano na engenharia civil. Além disso, o Império Romano afetou significativamente o desenvolvimento da linguagem. A língua latina, a base do latim vulgar, evoluiu para as línguas românicas, como o espanhol, o italiano, o francês e o português, que são faladas por milhões de indivíduos em todo o mundo. O latim também é uma língua fundamental na terminologia científica, jurídica e religiosa, o que indica uma continuidade como língua franca em diversos campos. Existe ainda uma ligação profunda com a religião. O cristianismo, por exemplo, que se originou na Judeia sob domínio romano e se tornou uma das principais religiões do mundo que continuam a influenciar a ética e os valores de muitos. O papel do Império Romano na disseminação do cristianismo e os eventos cruciais da história cristã, como Édito de Milão em 313 d.C., que tolerou a religião cristã, estão profundamente enraizados na memória cultural e religiosa. A era romana aparenta ser uma fonte inesgotável de interesse, desde a sua literatura, mitologia, arquitetura, política, religião etc. O Império Romano, tão ponderado por muitos, demonstra o seu indelével impacto desde a arte até à cultura. Porém, a brincadeira das redes sociais parece tentar desmantelar estereótipos de género, como o famoso ditado de que “os homens só pensam em desporto e carros”. Ainda assim, quem é que não gostaria de ser como Júlio César, conquistar territórios, enfrentar conspirações e proclamar “veni, vidi, vici” ao realizar o seu check-in em todo o território que ocupa? Talvez a ideia de comandar exércitos ou pousar em togas elegantes em banquetes suntuosos seja o sonho secreto de muitos. Afinal, quem não gostaria de ser um herói épico de sandália e túnica? A era romana era um espetáculo em si mesma. Conspirações, rivalidades, jogos de poder e assassinatos políticos eram o prato do dia na Cidade Eterna. Este pode ser um dos motivos que vem a entreter as massas, pois possui intrigas que poderiam até rivalizar com a série televisiva Game of Thrones. Quem não se interessaria em mergulhar nesse cenário curioso, ainda que somente na sua imaginação? Por fim, não podemos ignorar a lição de história embutida nesta obsessão. O Império Romano é um gigante histórico, cujas pegadas ainda são encontradas na nossa sociedade. Não é apenas sobre Roma antiga, mas sim sobre como essa história nos trouxe até aqui. Então, aqueles que afirmam pensar bastante no Império Romano, talvez estejam a tentar compreender o presente por meio do passado. No final de contas, talvez seja possível encontrar um fundamento benéfico nesta tendência, ao relembrar que independentemente destas obsessões insólitas, a história se encontra sempre à espreita. Apesar da queda do Império Romano, continua a ascender uma certa “romanomania”. Afinal, quem precisa de se concentrar no mundo atual, quando se pode pensar em gladiadores e espadas afiadas? Dito isto, mantenham as togas à mão, pois o Império Romano nunca esteve tão vivo como nos nossos pensamentos.

E pela lavra da grande Mafalda Simão Leal, uma reflexão sobre o que têm em comum uma dançarina de ballet, Nina Sayers, personagem principal do filme Black Swan (Darren Aronofsky, 2010) e um compositor clássico, Gustav von Aschenbach, protagonista do filme Death in Venice (Luchino Visconti, 1971)? Ambas personagens apresentam um certo desequilíbrio entre as duas forças essencias para a inspiração e criação artística: a dionisíaca e a apolínea, de acordo com o filósofo Nietzsche (O Nascimento da Tragédia). Regidos pelo lado apolíneo, através da ordem e da harmonia, reprimem a também necessária “embriaguez dionisíaca” no que concerne grosso modo à excitação dos sentidos, ao irracional e ao caos, o que acaba por limitá-los enquanto artistas. No caso de Nina constitui uma imensa dificuldade mover-se para lá das fronteiras emocionais que a congestionam a fim de perseguir com êxito a interpretação da desafiante Odile, o “Cisne Negro”, em oposição a Odette, o “Cisne Branco”, ambas encontradas, na sua origem, no bailado O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, ao qual podemos reportar a sua origem. No binómio Odile – Cisne Negro/ Odette-Cisne Branco encontramos a dualidade dos lados dionisíaco e apolíneo, respectivamente. Nina, vendo-se incapaz de interpretar o “Cisne Negro”, entra numa espiral de obsessão em busca de um ideal de perfeição que resulta na sua autodestruição e consequente loucura. Gustav von Aschenbach vislumbra num rapaz de 14 anos, Tadzio – a quem persegue obsessivamente pelas ruas de Veneza, no auge da embriaguez dionisíaca – a encarnação do Belo Ideal (Platonismo) que o conduz ao seu fatídico destino. A bailarina e o compositor, cada um à sua maneira, sucumbem ao seu lado dionisíaco, que haviam reprimido, e à obsessão que a ambos faz desembocar numa catarse estéril e destrutiva, aliás, ao nível artístico mais estéril para Aschenbach do que para Nina, porque embora através dos meios errados, ela consegue levar a bom termo o seu papel, porém tragicamente. Em Nina desenvolve-se uma fragmentação patológica da identidade: a bailarina alucina com o seu doppelgänger dionísiaco – a sósia que com ela se cruza, o reflexo no espelho que ganha vida, o seu “Cisne Negro”, sensual e transgressor. Assim se vê libertada a sua Odile, dominada há muito por uma Odette perfeccionista, obcecada por uma perfeição inatingível. Aschenbach, abandona-se à fixação por Tadzio, ao desvario, enquanto homem falha em controlar a paixão desenfreada e enquanto artista também. Tadzio não é apenas um desejo erótico, é também a obsessão do artista pelo Belo Ideal, inalcançável à partida. O arrebatamento causado pela Beleza Ideal de Tadzio, a obsessão de que é alvo, poderiam ser uma extraordinária fonte de inspiração para uma composição musical magnífica. Personagens trágicas, perseguindo algo inalcançável ao ser humano, cujo destino, tivessem encontrado o equilíbrio interno e se resignado ao limite humano do Artista, seria diferente. Excelentes filmes, principalmente a obra prima de Visconti. Fica a recomendação.

Romances Longos e o Guia de Portugal

Destacámos, por graça e desporto, quatro dos romances mais longos jamais escritos, pelo critério também de importância e relevância para a comunidade literária local — sendo que certamente existirão obras competitivamente mais extensas mas sem tanta relevância, como parece ser o caso com Marienbad My Love de Mark Leach e The Blah Story de Nigel Tomm — e excluindo, infelizmente, algumas pertencentes a comunidades literárias para nós não familiares, como as da Índia ou da China. Começamos então pelo romance em dez volumes do século XVII Artamène ou Le Grand Cyrus, atribuído a Georges de Scudéry e parcialmente à sua irmã Madeleine, é um romance codificado (roman à clef) que atribui características de algumas personagens políticas e sociais da França de então ao cenário da Pérsia da antiguidade; À La Recherche du Temps Perdu, de Marcel Proust, é a entrada seguramente mais conhecida deste elenco, não exactamente um romance de formação mas sim uma longa experiência narrativa sobre memória e associação; Mission Earth, do autor de ficção científica e messias fundador da famosa igreja da Cientologia L. Ron Hubbard, uma narrativa semi-satírica num futuro próximo que agrega grande parte das fantasias sobre poder, opressão e invasões alienígenas do autor-profeta; e O Homem sem Qualidades, de Robert Musil, romance modernista incompleto em três volumes com reflexões sobre a alienação da vida contemporânea e a tentativa de resgatar o mundo intermédio entre o sujeito e essa vida.

Celebrámos e partilhámos também uma série de lendárias edições da Fundação Gulbenkian concebida e dirigida por Raul Proença na década de vinte do passado século cuja publicação se estendeu pelas seguintes: trata-se de um levantamento demográfico, cultural e com intuitos de divulgação turística, mas de grande qualidade de prosa e erudição, do Portugal da época. Nas palavras do próprio, “simultaneamente um minucioso roteiro do país; um repertório artístico; uma obra de sólida literatura descritiva; uma antologia da nossa literatura pitoresca; um processo, um testemunho dos estrangeiros sobre Portugal; e, enfim, uma bibliografia escolhida do que se tem escrito sobre o nosso país”. Contava com colaborações titânicas de escritores como Miguel Torga, Jorge Dias, Aquilino, Jaime Cortesão, Reynaldo dos Santos, Diogo de Macedo, Teixeira de Pascoais, Vitorino Nemésio, Raul Brandão, Amorim Girão, Ferreira de Castro, Egas Moniz, Aarão de Lacerda, José Rodrigues Migueis, Montalvão Machado, Afonso Lopes Vieira, António Sérgio, entre outros. Apesar de naturalmente muitas das indicações turísticas (pensões, casas de pasto, sítios para alugar automóveis, etc.) estarem natural e pitorescamente desactualizadas, o Guia mantém intacta a sua actualidade em termos de descrição demográfica e cultural, mesmo estando já nós em plena globalização quase avançada. Os volumes encontram-se à venda nas livrarias e no site da Gulbenkian, também disponíveis em formato digital.

Quatro Cronistas Extraordinários e a História do Beijo

Destacámos quatro colunistas portugueses recentes, de renome e de grande qualidade: Vasco Pulido Valente, António Guerreiro, Alberto Gonçalves e Miguel Esteves Cardoso. São pessoas que, nos últimos 50/20 anos, nos habituaram a colunas curtas em periódicos com conteúdos de invulgar densidade e autoridade. O típico articulista português da transição entre século XX e XXI não é particularmente brilhante mas existem, como todos sabemos, excepções notáveis à regra. A qualidade da prosa é admirável em cada um destes rapazes, cada um à sua maneira: Miguel Esteves Cardoso, já antes, durante e depois da sua lendária co-editoria do muito irreverente semanário “O Independente” com Paulo Portas, foi dos cronistas mais de culto em termos de abordagem a uma série de temas de elite cultural de forma crua e descomplexada; Vasco Pulido Valente foi um lendário pessimista particularmente quanto à vida sócio-política portuguesa no pós vinte e cinco de abril, até muito recentemente activo; Alberto Gonçalves é um mais recente observador da vida cultural e política portuguesa cuja causticidade anti-sistema, na tradição de Vasco Pulido Valente, tem causado mossa a muitos; e, por último, António Guerreiro é um crítico de cultura e arte muito capaz e hábil no seu domínio de categorias hoje um pouco esquecidas das escolas marxistas de crítica de arte e não só. No todo, distinguem-se de comentaristas vulgares, debitantes de banalidades, lugares comuns e truísmos — dos quais curiosamente emergiram actualmente um presidente e um primeiro ministro — e todos estes têm uma coisa muito em comum, além da necessária erudição mínima, decerto distante daqueles que fazem do comentário político ou cultural uma estação de paragem para ambições ulteriores: todos possuem um admirável domínio da prosa, uma arte que dá gosto ler. Recomendamos todos e prometemos partilha de conteúdos dos mesmos, todos, sem excepção. Uma última nota: do elenco destes quatro, aquele que despertou reacções mais indignadas e inflamadas foi o cronista muito mais recente Alberto Gonçalves; isto sugere que o tempo que a burguesia intelectual teve disponível para digerir as ferroadas de Esteves Cardoso e de Pulido Valente, cerca de trinta anos ou mais, ainda não sucede com o caso de Gonçalves; ou então sugere simplesmente que estamos a viver num clima intelectual muito mais acefalamente polarizado do que dantes. Qualquer das explicações é por nós desprezada: o cronista tem indubitavelmente qualidade na prosa, reconhecível para qualquer leitor sem palas nos olhos e disponibilidade e curiosidade mental. Convidamos todos a lerem estes quatro excelentes autores.

Depois, voltando a um assunto recente e já abordado, com a memória e os lábios ainda quentes de um episódio público e pertencente à galeria dos pequenos escândalos burgueses contemporâneos — situação aliás ainda em curso e sujeita a notórios interrogatórios policiais e disciplinares de onde emerge que a noção infantil de “consentimento” que muitos invocam tem, em certas situações excepcionais que não são sequer raras, um carácter completamente diluído e não facilmente aferível — vimos hoje, então, tentar complexificar, complementar e tornar a questão mais deliciosa, tão deliciosa como um beijo, com a recomendação de uma excelente obra académica sobre o tópico. Ao contrário do que muitos possam pensar, “o beijo” — acto romântico maioritariamente entre amantes que consiste na junção dos respectivos inícios dos tratos digestivos, nas apuradas palavras de Freud — não é um costume universal e encontra muitas variações culturais e regionais pelo mundo fora, sendo nalgumas culturas, minoritárias, algo completamente estrangeiro; sendo noutras, a maioria também minoritárias, algo admissível entre parentes e amigos próximos, além dos amantes; e que a sua raiz como acto central do amor contemporâneo é ocidental e localiza-se no período da idade média. “O beijo” nunca foi algo de inteiramente universal nem nada objectivamente na sua prática o faria sê-lo necessariamente. A obra é The History of the Kiss!: The Birth of Popular Culture, de Marcel Danesi, e foi concebida, segundo o próprio, a partir de uma pergunta de um dos seus estudantes tão cândida como “Why do we experience such an unhygienic act as beautiful and romantic?”. Deixamos, também, duas críticas à obra, uma do The Guardian, de acesso aberto, e outra de natureza académica, para quem conseguir ter acesso.

Cinema: Nojo, Gays e Terrorismo

Pensámos inicialmente destacar, numa determinada sexta-feira, dia da semana sempre inclinado para o tempo livre nocturno e para o cinema, filmes sobre radicalismo islâmico e terrorismo. Mas para não enjoar, e é um tópico certamente enjoante, mudámos a agulha e entendemos destacar antes quatro filmes sobre nojo, manifesto de variadas maneiras. São eles o lendário Repulsion (1965), de Roman Polanski, estrelando a fantástica Catherine Deneuve num dos seus primeiros papéis de relevo, interpretando uma jovem adulta pueril tentando navegar o mundo das relações humanas com o sexo oposto, sendo que a obrigatoriedade social de tal préstimo só lhe causa um silencioso e tenso sentimento de nojo em relação a todo o corpo masculino e tudo o que é orgânico e carnal; The Aviator (2004), de Martin Scorsese, retratando o mergulho do famoso magnata da aviação e do cinema Howard Hughes no distúrbio da obsessão-compulsão, que se reflecte numa tal fixação doentia por padrões, ordem e pequenos hábitos cujo sub-produto muito nocivo é o absoluto nojo da realidade quando esta não se adequa a esses esquemas mentais; For the Love of Nancy (1994), de Paul Schneider, talvez a película mais objectivamente dedicada ao distúrbio alimentar da anorexia nervosa que, como é típico, desponta numa adolescente do sexo feminino e evolui até estados verdadeiramente dramáticos e quase terminais; e American History X (1998), de Oliver Stone, sobre racismo branco dirigido a negros na América contemporânea, que ilustra com vigor, apesar de com algum dramatismo de segunda categoria, o vivo ódio e palpável nojo que é possível enculturar em pessoas e em pequenas ou grandes comunidades tanto quanto à identidade rácica do próximo como quanto à partilha do espaço da próprio com a mesma, sendo também um nojo do próprio espaço cívico comum e da própria identidade racial em última análise.

Mas noutra série de recomendações, trouxemos tópicos mais “alegres”: quatro excelentes recomendações de cinema gay. Um colega nosso considera que Red, White and Royal Blue (2023), acabado de lançar há menos de um mês e meio, é o melhor filme que viu este ano. Não sabemos julgar essa afirmação, mas concordamos em absoluto que é um excelente filme e por isso a primeira das nossas recomendações de hoje. Neste filme, Alex, o carismático filho de uma ficcional Presidente dos EUA, e Henry, príncipe inglês filho da herdeira do trono de um também fictício Rei Jaime III, que há anos não se suportam, são forçados por razões de estado a fingir ser grandes amigos depois de involuntariamente causarem um muito hilariante incidente diplomático. A convivência forçada desfaz o “orgulho e preconceito” das primeiras impressões e os dois acabam por se apaixonar, começando por viver a sua relação em segredo por receio das implicações políticas da mesma. Por atenção a quem vive em Marte e ainda não sabe o que acontece a seguir, não revelamos o fim, mas podemos dizer que a dada altura alguém sai literalmente de um armário, numa cena absolutamente brilhante. Vejam, que ê imperdível. O segundo filme trata-se de And Then We Danced (2019), uma co-produção georgiana, francesa e sueca realizada por Levan Akin, e passado no universo belo mas claustrofóbico da dança tradicional georgiana e tendo como protagonistas dois dançarinos, Merab (Levan Gelbakhiani) e Irakli (Bachi Valishvili). É um filme de uma beleza sublime, ao mesmo tempo apaixonada e controlada, que vai de momentos de absoluta glória até à tragédia sufocada sem nunca deixar de ser irrestível no enredo e na estética. Sem dúvida, uma das mais belas obras de cinema gay de sempre. Não podíamos recomendá-lo mais entusiasticamente! O terceiro é Firebird (2021), com Tom Prior e Oleg Zagorodnii. Passado na União Soviética nos anos 80, tem por protagonistas dois jovens militares cujo amor proibido e profundo tem por pano de fundo a sociedade comunista da URSS no seu estádio tardio, com a decadência e austeridade sócio-económica, a homofobia endémica e, é preciso dizê-lo, o encanto algo irresistível de um belo sonho condenado a falhar: sem dúvida, um filme imperdível para qualquer amante sério de cinema, mesmo aqueles olimpicamente indiferentes aos aos peitorais de Tom Prior, que serão poucos (?). Por fim, não podemos deixar de recomendar vivamente, não um filme, mas a série Heartstopper (2022-presente), infinitamente terna, de uma beleza primeva e de uma intensidade emocional considerável ainda que suave e reconfortante quanto à esperança, que muitos ainda vão tendo, de que o ser humano possa, afinal, ser possuidor de características redentoras e de qualidades humanas que fazem com valha a pena conhecer a espécie. Esta série retrata um romance de adolescência entre dois rapazes de uma escola inglesa e apresenta um lado poucas vezes descortinado para lá da gritaria de activistas e anti-activistas: a absoluta normalidade humana do amor homosexual e a possibilidade astutamente concebível de este ser uma grande dádiva e não um grande sofrimento. Não deixem de ver!

Por fim, abordamos finalmente, em termos de sugestão de cinema, o tema verdadeiramente mais enjoativo, iniciando com a seguinte introdução. No nosso ver, não existe contexto justificativo possível para actos de terrorismo bárbaros dirigidos a civis no presente estado da civilização global. Não são enquadráveis na normalidade do conflito militar nem podem ser justificados sob qualquer ética de “resistência”, “independência” ou “luta contra a opressão”: são simplesmente acções abjectas que não cabem em parte alguma da nossa cultura. Sublinhamos essa posição com muito ênfase. Em resposta a alguns que resolvem falar da “luta” e da “opressão” dos árabes palestinianos, num momento de resposta militar ao domínio de uma região por um grupo terrorista — que assume frontalmente que o é e quais são os seus objectivos, ao contrário do que alguns agora fingem esquecer — não consideramos apropriado de momento falar em primeiro lugar dessa mesma “luta”, que pode querer dizer muitas coisas — luta contra a existência de um estado israelita, luta pelo direito a um estado próprio, várias vezes rejeitado pelos seus dirigentes, etc. — num cenário de rescaldo de actos completamente abjectos confessados pelos próprios e, principalmente, enquadrados dentro da sua ética aberrante, numa situação militar de guerra civil que dura há mais de 100 anos. Lembramos assim hoje não a “luta da palestina” — que, como já vimos, pode querer dizer muitas coisas, algumas recomendáveis e outras em absoluto não recomendáveis — mas sim nove filmes sobre terrorismo, particularmente de inspiração islâmica, um método de combate que reprovamos em absoluto em qualquer circunstância e que apelidamos de abjecto, monstruoso, covarde e sem qualquer racionalidade nem carácter, próprio de quem se recusa a confrontar o inimigo com honra em cenários de guerra convencional. Aqui estão eles: Munich (2005), de Steven Spielberg, retratando a vingança israelita após o rapto e execução de atletas olímpicos; Zero Dark Thirty (2012), de Catylin Bigelow, ficcionando o trabalho das agências de informação que levou à captura do líder da força terrorista al-qaeda; United 93 (2006), de Paul Greengrass, retratando a luta dos passageiros de um avião sequestrado, infelizmente vitimados; The Reluctant Fundamentalist (2012), baseado no romance de Mohsin Hamid, sobre as aproximações de um muçulmano moderado ao extremismo e suas razões; Belém (2013), de Yuval Adler, sobre a relação entre um agente da força secreta israelita e o seu informante árabe palestiniano; O Atentado (2012), de Ziad Doueir, sobre um cirurgião árabe vivendo em Israel que descobre o envolvimento da sua mulher em actos terroristas; O Paraíso, Agora! (2005), de Hany Abu-Assad, com dois amigos de infância que são recrutados para bombismo suicida; Hotel Mumbai (2018), de Anthony Maras, sobre os ataques terroristas num hotel em Mumbai; e 13 Hours: The Secret Soldiers of Benghazi (2016), de Michael Bay, sobre o cerco e ataque à embaixada dos Estados Unidos na Líbia. São todos excelentes obras de ficção, de variadíssimas proveniências, e que destacam, sob várias e necessárias vertentes, um problema que é um problema real e significativo até mais para as populações do mundo árabe em geral do que para o resto do mundo: o problema do terrorismo de inspiração islâmica.

Submissões

De regresso à plena actividade, com os dois pés e a cabeça já dentro do recém- chegado e bem-vindo quadro outonal que agora nos rodeia, deixamos, como sempre, o convite feito para nos enviarem propostas de artigos em fase já concluída ou enquanto versão incompleta, mero esboço ou mesmo apenas ideia.

Aceitamos todos os temas de relevo, mas podem consultar sugestões de tópicos aqui.

Imagem: retrato de Jeanne Antoinette Poisson, da autoria de François Boucher, 1756, mais conhecida como Madame de Pompadour (1721 – 1764), amante do Rei Luís XV e notória patrona das artes plásticas e decorativas durante o período.

Chamada para Artigos

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Neste início de ano lectivo, convidamos todos os interessados, dentro e fora das universidades, a submeterem propostas para artigos — ensaios, crónicas e críticas — que podem chegar-nos numa fase

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Sobre a Teologia de Friedrich Hölderlin

O que é Deus? desconhecido, no entanto

Cheia de atributos dele está a face

Do céu. É que os relâmpagos

São a cólera de um Deus. Quanto mais

Invisível, um é,………mais se ajusta ao estranho. Mas o trovão

É a fama de Deus. O amor de imortalidade

Também é, como a nossa, propriedade

De um Deus.

Hölderlin, “O que é Deus?”[1]

PREÂMBULO

O ensaio de T. S. Eliot “Shakespeare and the Stoicism of Seneca”[2] (1927) é, provavelmente, um dos mais interessantes que o seu autor nos legou. O propósito central do ensaio é contrariar as tendências de apropriação de Shakespeare, que Eliot identificava no seu tempo – e que, fosse ele vivo hoje em dia, certamente identificaria no nosso tempo, tão dado a leituras ecológicas, queer, ou outras, de Shakespeare, bem como de outros autores – por parte de autores cujo labor resultava na assimilação do autor estudado à corrente ideológica do seu intérprete. Mas o ensaio de Eliot também contém um argumento contra a “influência”, ou pelo menos contra a influência directa, de um autor noutros, cujo desenvolvimento não cabe no escopo do presente ensaio, assim como uma tese sobre o trabalho poético, assente na emoção do autor e, por sua vez, produzindo emoções. Do modo como Eliot concebe o trabalho poético está notoriamente ausente o pensamento – a que nós seríamos tentados a chamar “especulativo” –, sendo que este é sobretudo substituído pelo expediente poético. De facto, foi neste ensaio que T. S. Eliot afirmou famosamente que os poetas não pensam e que, quando parecem pensar, é porque se estão a servir dos pensamentos de outros, sobretudo filósofos ou teólogos. Assim, por exemplo, por trás de Dante, a servir-lhe de suporte, Eliot identifica o sistema filosófico do grande São Tomás de Aquino, enquanto que, por trás de Shakespeare, se encontraria, segundo o mesmo autor, uma mistura enlameada de filósofos que Eliot considera menores, como Montaigne, ou Maquiavel – ou Séneca –, ou as ideias que circulavam na Inglaterra isabelina sobre o que seriam estes filósofos, coisa assinalavelmente diferente por vezes, do filósofo em si. Diz Eliot:

It is the general notion of ‘thinking’ that I would challenge. One has the difficulty of having to use the same words for different things. We say, in a vague way, that Shakespeare, or Dante, or Lucretius, is a poet who thinks, and that Swinburne is a poet who does not think […]. But what we really mean is not a difference in quality of thought, but a difference in quality of emotion. The poet who ‘thinks’ is merely the poet who can express the emotional equivalent of thought. But he is not necessarily interested in thought itself.[3]

Esta passagem é eloquente e dá conta das preocupações de Eliot. Para ele, a “profissão” do poeta não é pensar, mas sim traduzir em poesia a sua experiência pessoal e o seu tempo, o pensar e o sentir do seu tempo, e as escolhas que faz e o que parece pensar ou crer são matérias de expediente poético e de fidelidade à realidade que pretende traduzir em poesia. Assim, Shakespeare não acredita nem deixa de acreditar no estoicismo de Séneca[4], assim como Dante não acredita nem deixa de acreditar na teologia de São Tomás de Aquino. Usam na sua poesia aquilo que contribui para fazer boa poesia, sendo esta uma das medidas do talento poético: a capacidade de fazer opções de acordo com o que contribui para fazer a melhor poesia possível e a que expressa com maior precisão a emoção que se quer transmitir. Assim, Eliot dissocia de forma marcada pensamento “especulativo” e criação poética. Para Eliot, o poeta não se confunde a si próprio com um pensador e tem consciência de si qua poeta. No entanto, o poeta não passa sem pensamento, pois é do pensar do seu tempo e das suas relações com esse pensamento que extrai as emoções de que é urdida a sua poesia. Seguindo esta lógica, seria possível aduzir inúmeros outros exemplos do cânone ocidental e encontraríamos replicada sempre esta estranha simbiose dissociativa entre pensamento e criação poética. No entanto, nesta como em várias outras coisas, podemos também perguntar-nos se não terá neste particular ido Eliot longe demais ao dizer que nenhum poeta pensa. Podemos modificar essa afirmação dizendo que nenhum poeta pensa qua poeta – mas que pode, de facto, pensar. E mesmo nesta formulação mais branda e menos radical a teoria não é inquestionável. Parece haver poesia que não poderia ter sido escrita sem a existência de pensamento especulativo por parte do poeta e que dá conta da existência de um tal pensamento. Nesse sentido, nenhum exemplo é tão eloquente quanto o de Friedrich Hölderlin, que nos permite encontrar na sua poesia um antídoto poderoso contra a tese de Eliot. Um crítico eliotesco contraporia que, por trás de Hölderlin, a servir de base à sua elaboração poética, se encontra a filosofia de Hegel, ou, se preferirmos, uma filosofia indefinida na origem do pensamento de todos os expoentes do Idealismo Alemão. Mas, quanto a Hegel, é sobejamente evidente, para quem ler as poesias e os escritos teóricos dos nosso poeta, que, ainda que, por um lado, muitas das suas preocupações filosóficas sejam coincidentes com as de Hegel, por outro lado Hölderlin parece por vezes preceder e exceder Hegel e, mais importante do que isso, o seu pensamento move-se, por vezes, em direcções não exploradas pelo seu colega de estudos e amigo, não se limitando, por isso, a sua poesia a uma ilustração ou depuração poética da filosofia hegeliana ou dos demais representantes do Idealismo Alemão. Um atento estudo da sua obra poética mostrará que Hölderlin de facto pensa, que pensa precisamente no sentido especulativo que Eliot julga estar além das fronteiras do trabalho poético, e que esse pensamento é, por vezes, de uma audácia extrema. Por razões que se tornarão mais claras no decorrer deste ensaio, poderíamos mesmo dizer que a tragédia de Hölderlin, se esta pudesse ser reduzida a fórmulas desta natureza, foi precisamente pensar demais – lembremo-nos que o poeta viveu, em números redondos, mais de trinta e cinco anos em estado de loucura, a cujas causas seria legítimo pensar não serem alheios os seus altos vôos intelectuais e as múltiplas tensões do seu pensamento e, consequentemente, do mais profundo da sua personalidade, de que a sua obra dá testemunho manifesto. O seu pensamento encontra-se, de facto, a cada passo, armadilhado de tensões, de tal forma que parece estar sempre em processo de colapso: o chamamento oposto da terra natal e das terras do seu imaginário intelectual – sobretudo a Grécia dos antigos –; a oposição entre a modernidade – e as suas exigências – e a antiguidade; o sonho de replicar no seu tempo as realizações dessa antiguidade perdida e de as levar mais longe, ao mesmo tempo que se reconhece a sua irreplicabilidade; a busca da transposição para o idioma alemão dos ritmos e métricas aperfeiçoados pelos escritores gregos clássicos e a luta constante contra os limites da linguagem e do sentido; a tensão entre conteúdo e forma ideal, etc. De entre estas tensões avulta a tensão teológica, o combate que, na obra de Hölderlin, travam o cristianismo no seio do qual foi educado e o politeísmo grego clássico que o apaixonava – e não só isso, pois veremos facilmente que o cristianismo do poeta não é um todo unificado. Tem-se discutido sobre a influência do pietismo suábio em Hölderlin e esta parece, afinal, não ter sido tão marcada quanto a princípio se suspeitou. Por outro lado, parece haver, na sua obra, um certo “namoro” com o catolicismo, nomeadamente ao nível da estética da linguagem. E mesmo o seu (neo-)paganismo não é exactamente ortodoxo, como veremos. Assim, o pensamento religioso de Hölderlin parece ser uma hidra heterodoxa indefinida[5] e é precisamente a tensão que resulta dessa mistura de elementos de várias tradições, aliada à busca da autenticidade que sempre preocupou o poeta, que procurarei descrever neste estudo. Não pretendo chegar a conclusões finais que permitam catalogar, de forma cómoda para o intérprete, Hölderlin ou engavetá-lo na gaveta própria com o rótulo de “cristão” ou “pagão” – ou “protestante”, ou “católico”. Uma parte do problema é um pseudo-problema, uma vez que Hölderlin – que foi, um estudante de teologia no Stift de Tübingen e in illo tempore destinado à carreira de pastor luterano – faz parte da tradição luterana. Mas, na sua obra poética, procurou encastoar no mesmo universo mental os elementos da mundividência cristã e os da mundividência pagã helénica clássica, Deus Pai e Zeus, Jesus Cristo e Dioniso, e é precisamente a tensão criada por essa tentativa de constituição de uma teologia sincrética que se procura aqui descrever. Para tal, concentrei-me na elegia “O Pão e o Vinho”, que me parece conter todos os problemas maiores em embrião, fazendo, no entanto, a partir dela, frequentes incursões pela restante produção literária de Hölderlin. Não tendo ainda acesso aos originais alemães, tive de escolher entre as versões disponíveis noutras línguas, acabando por me decidir por usar, em vez da versão inglesa de Michael Hamburger, a tradução portuguesa de Paulo Quintela, que se encontra na edição da Fundação Calouste Gulbenkian das suas obras completas[6], por me parecer a que melhor clarifica o sentido, por vezes obscuro – não menos pela sintaxe intrincada do que pelo mistério da alusão –, dos versos de Hölderlin, ao mesmo tempo que deixa intacta – ou, pelo menos, tão intocada quanto possível – a complexidade, a autenticidade de que deriva, do original alemão. Ensinaram-me que uma tradução é sempre, de certo modo, uma traição[7]. Espero ter escolhido a traição menor e, ao mesmo tempo, a que melhor se preste à introdução do leitor à poesia de Hölderlin, pois um dos objectivos deste estudo é do motivar a leitura crítica deste poeta por parte do público português.

I

DEUS E OS DEUSES

A longa elegia “O Pão e o Vinho”[8] está pejada de tensões, dissonâncias e modulações, tendo muitas delas a ver com o tema deste ensaio. O poema começa com uma descrição do que poderíamos dizer ser uma cena do presente poético, o cenário de uma cidade ao anoitecer. Essa descrição depressa se transforma numa contemplação da beleza e estranheza da noite – que no poema aparece divinizada – e dos fenómenos com ela associados. O mistério é assim descrito na segunda estrofe:

De maravilhar é a graça da Sublime e ninguém

Sabe donde ela vem e o que dela nos pode suceder.

De tal modo ela move o mundo e a alma esp’rançada dos homens,

Nem mesmo um sábio compreende o que ela prepara, pois

Assim o quer o Deus supremo, que muito te ama, e por isso

Tu amas ainda mais do que a ela o dia lúcido. (2.1-6)[9]

Poderíamos, numa primeira leitura, sentir-nos pelo menos ligeiramente teologicamente reconfortados por esta passagem, com a sua menção do “Deus supremo”, pois seria de esperar que esta fosse uma profissão de fé inequívoca no Deus cristão. No entanto, a própria formulação que nos poderia acalmar carrega já em si as sementes da discórdia teológica, pois para quê dizer “Deus supremo” se não estivesse nisso também implícita a admissão da existência de outros deuses além do que assim designamos? Só esta breve expressão abre as portas a toda uma série de problemas, porque, como se verá, no universo poético de Hölderlin são postos em palco ao mesmo tempo Deus e os deuses. E, para tornar as coisas ainda menos cómodas para o leitor cristão, nem sequer podemos, aqui, dar-nos por convencidos de que o Deus cristão seja o primeiro deus, o Deus dos deuses. E também não podemos estar inteiramente certos de ser este “Deus supremo” o Deus cristão ou de que, a sê-lo, ainda tenha alguma coisa de cristão, apesar do reconfortante – porque reconhecível – aparte “que muito te ama”. Na quarta estrofe, este Deus supremo parece ser feito coincidir com a entidade a quem Hölderlin chama reiteradamente “Pai Éter”. Parece, portanto, que o “Deus supremo” é o Pai Éter. Mas o que significa isso? Para averiguar as características deste “Pai Éter” temos de comparar aturadamente vários poemas e cotejar aquilo que é dito nuns lugares com o que é dito noutros – e isto, relembre-se, sem grandes esperanças de chegar a uma unidade isenta de contradições. Vejamos, pois, o que o poeta diz no poema “Ao Éter”[10]:

Fiel e amigo, como tu, nenhum dos deuses e dos homens,

Ó Pai Éter! Me educou; ainda antes que a Mãe

Me tomasse nos braços e os seus peitos me criassem,

Pegaste em mim com ternura e me insuflaste

Celestial bebida, o sopro santo no peito em germe. (1.1-5)

Há aqui várias coisas dignas de nota: “Mãe”, “celestial bebida” e “sopro santo”. Que “Mãe” não se refere à mãe do poeta ou, se preferirmos, do “eu poético”, é óbvio. No entanto, se nos propusermos tentar convencer-nos de que no aparecimento combinado de “Pai” e “Mãe” se encontra uma indicação de que se está a falar do Deus cristão e da Santíssima Virgem Maria sairemos decepcionados. Não há provas inequívocas em nenhuma direcção, mas sugiro que tomemos “Mãe” como referindo-se à Natureza ou à “Terra”, que aparece similarmente designada noutros poemas. Portanto, parece estar a falar-se aqui de um par de entidades muito mais pagãs na forma do que cristãs. Mesmo assim, as dificuldades estão longe de terem terminado. Quanto a “celestial bebida” e “sopro santo”, aparentemente sinónimos, não é claro se significam a inspiração poética ou a uma pietas ou amor aos deuses – ou uma mistura dos dois, ou outra coisa qualquer que ainda não podemos adivinhar.

No entanto, dizer que o “Pai Éter” parece ser mais pagão do que cristão é ainda uma simplificação. Note-se que “Pai” é uma condição do Deus cristão, que é pai de Cristo, pai da Humanidade e pai de cada homem em particular[11]. Acontece também que, na estrofe seguinte, Hölderlin adapta a célebre resposta de Jesus ao Diabo durante as tentações no deserto em Mateus IV:4, dizendo que “Nem só de pão terrestre é que os seres medram / Mas tu todos manténs com o teu néctar, Pai!”[12]. Estes versos permitem confundir ainda mais a questão de saber o que é o néctar – que parece ser sinónimo de “celestial bebida” e “sopro santo”, ou andar lá perto –, pois lembremo-nos que, no Evangelho Segundo São Mateus, Jesus diz a Satanás que, além do pão, o que alimenta o homem é “toda a palavra que sai da boca de Deus”[13]. Poderemos, então, admitir que o “néctar”, “a bebida”, o “sopro santo” que foi dado ao poeta foi a Palavra de Deus? Uma vez que só em “Patmos”[14] é que há[15] uma menção directa da Sagrada Escritura, não parece muito evidente. É mais verosímil pensar que se trata simplesmente de uma apropriação das palavras bíblicas no contexto de uma teologia heterodoxa – mais nem por isso devemos abandonar a prossecução deste indício, ao qual voltaremos em breve. No entanto, é possível, desde logo, com a ajuda deste poema, afirmar uma coisa. Olhemos para a sexta estrofe de “Ao Éter”:

Mas os filhos bem-amados do Éter, as felizes aves,

Moram e brincam alegres no palácio eterno do Pai.

Há campo pra todos. Caminhos não marcados a ninguém,

E livres pela casa mexem-se grandes e pequenos,

Rejubilam-me por sobre a cabeça e o coração anseia-me

Misteriosamente para eles; como amorosa pátria

Acena-me do alto, e para o cume dos Alpes

Desejaria eu ir, gritar de lá à águia rápida

Que me leve, como outrora o menino venturoso

Aos braços de Zeus, da prisão para os paços do Éter. (6.1-10)

Que as aves sejam ditas filhas do Éter não nos ajuda muito, pois metáforas deste tipo eram moeda corrente a propósito de vários deuses pagãos, fossem eles Zeus ou Óðin. No entanto, os dois últimos versos, que comparam um episódio mitológico envolvendo Zeus com o desejo do poeta de ser levado “para os paços do Éter”, precisamente porque há uma comparação que aproxima as duas coisas, permitem-nos inferir que há uma distância entre elas e que, por isso, “Pai Éter” e “Zeus” não são a mesma entidade[16]. A esta conclusão podíamos adicionar a suspeita de que, portanto, o “Pai Éter” não é um deus supremo no sentido em que Zeus ou Óðin são deuses supremos – se é que algum deles com propriedade o é. Tal pensamento aumenta a indefinição na medida em que a sua continuação lógica é a de que o “Pai Éter” de Hölderlin é “Deus” e “supremo” num sentido mais parecido com o do Deus cristão. A ser isso verdade, como me parece ser, é preciso averiguar, pois os deuses pagãos não andam longe, a hierarquia deste panteão.

Para procurar resolver esta questão, é preciso olhar para mais alguns passos de “O Pão e o Vinho”:

Ó Grécia feliz! ó casa de todos os deuses celestes!

É pois verdade o que ouvimos outrora na juventude?

Sala festiva! o soalho é o mar! e mesas os montes,

Feitos em verdade há idades para este uso único!

Mas onde os tronos? onde os templos? e as taças

Onde, cheias de néctar? onde o canto pra prazer dos deuses?

Onde, onde brilham eles, os oráculos que acertam longe?

Delfos dormita, e onde ressoa o grande Destino?

Onde está o Destino veloz? donde irrompe, cheio de ventura patente,

Trovejante do ar calmo por sobre os nossos olhos?

Pai Éter! tal o grito que de boca em boca voava

Mil vezes; ninguém suportava a vida sozinho;

Tal bem, repartido, alegra, e trocado com ‘stranhos

Faz-se júbilo, e dormindo cresce a força do verbo.

Ó Pai sereno! e ressoa, até onde pode chegar, o sinal

Antiquíssimo, herdado de avós, criador e eficaz.

Pois é assim que os Celestiais surgem, estremecendo fundo

Desce das sombras a sua luz para os homens.

(…)

Na verdade, quando há pouco – há muito a nós nos parece –

De novo subiram ao céu os que alegraram a vida,

Quando o Pai desviou do dos homens o seu rosto

E com razão começou o luto na terra,

Quando por fim apar’ceu um Génio tranquilo, com celestes

Consolações, que anunciou o fim do dia e desapareceu,

Como sinal de que aqui estivera e havia de voltar

De novo, deixou o coro divino alguns dons,

Para que, como outrora, humanamente deles nos pudéssemos alegrar… (4.1-18 e 8.1-9)

Que se está a falar nesta última estrofe de Jesus Cristo e dos sacramentos é uma questão importante, à qual voltaremos. O que agora primeiro interessa é a questão da hierarquia celeste de Hölderlin e o modo como essa amalgama cristianismo e paganismo. Estas duas estrofes correspondem ao princípio e ao final de uma longa dissertação sobre o curso da História e o papel dos deuses. Começa por se olhar para um passado em que os deuses estavam presentes na terra, em que havia “tronos”, “templos”, “taças cheias de néctar”, “oráculos”, coroas de flores e dança sacra. Esse é o tempo da Grécia clássica, um tempo em que, para Hölderlin, os deuses viveram entre os homens e que corresponde a um pico de desenvolvimento e sofisticação civilizacional. Mas com esse olhar para trás, constata-se também que o presente corresponde a “tempos de indigência”, em que os deuses “de novo subiram ao céu” e estão ausentes de entre os mortais. Isto coincide com o facto de o Pai (Éter) ter desviado “do dos homens o seu rosto”. Ou seja, parece que assim que os ciclos da história humana e a presença ou ausência dos deuses – aqui deuses entende-se por deuses gregos – são determinados pelo Pai Éter. Ou seja, o Pai Éter é realmente (solução a uma das nossas primeiras questões) o Deus supremo que está acima dos deuses do panteão grego e os supra-determina. Uma outra coisa que é interessante observar, e que nos introduz à próxima etapa desta investigação, é que Cristo é designado por “Génio tranquilo”, não parecendo ser considerado exactamente um deus, e nem mesmo filho de Deus – na nona estrofe, quem é designado por “Filho” do “Altíssimo” é Dioniso, o deus do vinho –, não havendo, no entanto, nenhuma ênfase na humanidade de Cristo. Antes se diz que Cristo “apar’ceu” com “celestes consolações” e “anunciou o fim do dia e desapareceu”. Não se diz de onde vem nem para onde foi, mas diz-se que traz consolações celestes, o que permite inferir que desceu do reino dos “celestes”, parecendo ser um ser intermédio, um mediador entre o homem e os deuses (gregos). Portanto, e para sumarizar, existe no panteão de Hölderlin um deus supremo designado por Pai Éter que parece ser a versão hölderliniana do Deus cristão, que preside e está acima de uma categoria de deuses que são os do politeísmo grego e, putativamente directamente dependente do Pai Éter mas numa categoria do ser inferior à dos deuses gregos, está Jesus Cristo, o “Génio tranquilo”. É de notar que, obviamente, tudo isto é completamente heterodoxo, para não dizer herético.

II

A Holderlinturm, ou “Torre de Holderlin”, em Tubingen, onde o poeta viveu durante os 36 últimos anos de vida, entre 1807 e 1843.

JESUS, A EUCARISTIA, DIONISO E O SENTIDO DA HISTÓRIA

Citemos agora a oitava estrofe, desta feita completa:

Na verdade, quando há pouco – há muito a nós nos parece –

De novo subiram ao céu os que alegram a vida,

Quando o Pai desviou do dos homens o seu rosto

E com razão começou o luto na terra,

Quando por fim apar’ceu um Génio tranquilo, com celestes

Consolações, que anunciou o fim do dia e desapareceu,

Como sinal de que aqui estivera e havia de voltar

De novo, deixou o coro divino alguns dons,

Para que, como outrora, humanamente deles nos pudéssemos alegrar,

Uma vez que para a alegria, com o Espírito, o Maio se fez grande de mais

Entre os homens e ainda, ainda faltam os fortes para as maiores

Alegrias, mas vive ainda em silêncio alguma gratidão.

O pão é fruto da terra, mas está pela luz abençoado,

E do Deus trovejante vem a alegria do vinho.

Por isso ao gozá-los pensamos nos deuses, que outrora

Aqui estiveram e que hão-de voltar no tempo devido:

Por isso os poeta cantam também graves o Deus-do-Vinho

E esse louvor não soa vã invenção aos ouvidos do Velho. (8.1-18)

Desde logo se vê que a colocação de Jesus num plano intermédio entre a divindade e a humanidade, não sendo exactamente nem uma coisa nem outra, afasta a sua cristologia da concepção tradicional ortodoxa e católica. De facto, o Cristo de Hölderlin não é nenhum Pantocrator, não é o Senhor do Universo, por quem todas as coisas foram feitas, nem sequer uma união hipostática de duas naturezas, humana e divina. É um ser mais angélico e diminuto do que o Cristo católico poderia alguma vez ser. É um Cristo claramente derivado da concepção luterana de Cristo, há uma profunda deflação da pessoa de Cristo. Assim também a sua concepção da Eucaristia é essencialmente luterana – mas veremos que até os luteranos ficariam chocados come ela. Tal como Cristo não é totalmente Deus e totalmente Homem, assim também o pão e o vinho não são o corpo e o sangue de Cristo, nem participam da natureza divina, não há presença real nos “dons”. Os “dons” de que o poeta fala são essencialmente um memorial[17]. No entanto, há dois pormenores de grande significado que horrorizariam tanto católicos como luteranos normativos. Olhemos para os versos 5 a 8 da oitava estrofe, citada acima. A sintaxe é muito intrincada, mas claro que foi o “Génio tranquilo”, i.e. Jesus Cristo, que trouxe as “celestes consolações” aos homens. Mas que tenha sido ele a outorgá-los é menos claro. Os versos 7 e 8, “Como sinal de que aqui estivera e havia de voltar / De novo, deixou o coro divino alguns dons”, parece indicar que a Eucaristia não é um memorial do sacrifício de Cristo – de resto não há qualquer alusão à Crucificação – mas da presença do “coro divino”, ou seja, do conjunto dos “deuses” pagãos gregos, um substituto da presença fortificante que Hölderlin atribui às divindades que, para ele, são as mais directamente importantes. Isto, de resto, é confirmado pela afirmação de que o vinho pertence ao pelouro de Dioniso e pelos versos 15-16 da oitava estrofe: “Por isso ao gozá-los [o pão e o vinho] pensamos nos deuses, que outrora / Aqui estiveram e que hão-de voltar no tempo devido”. Ou seja, o grande sacramento da Igreja não nos leva a elevar a mente para Deus Pai e, de modo muito marcado, para a Paixão de Cristo, mas para divindades pagãs, e está mais associado com a “alegria do vinho” e os prazeres báquicos do que com o sacrifício redentor. Também não é claro à partida quem é que há-de voltar. Pelos versos 5 a 8 ficamos na dúvida sobre se é Cristo ou se são os deuses gregos. Mas os versos 15-16 esclarecem que o poeta se refere de facto a uma nova vinda dos deuses gregos, que virão habitar de novo entre os mortais – e não se fala e mais lado nenhum nada que se pareça com a segunda vinda de Jesus Cristo no Dia do Juízo[18]. Ou seja, Hölderlin subverte e paganiza todas as crenças centrais do cristianismo.

O avento, no fim do poema, não é o do Juízo Final[19], mas sim o de Dioniso. Veja-se a nona e última estrofe:

Sim! com razão dizem que ele[20] faz as pazes entre o dia e a noite,

Faz subir e descer eternamente as estrelas do céu,

Sempre alegres, como a folhagem do sempre-verde pinheiro

Que ele ama, como a coroa de hera que pra si ‘scolheu,

Porque ele permanece e traz o sinal dos deuses fugidos

Cá pra baixo aos sem-deuses no meio das trevas.

O que a canção dos antigos profetizou dos filhos de Deus,

Olha! somos nós, nós; fruto das Hespérides é!

Por milagre e ao certo se cumpriu como em homens,

Creia-o quem o provou! – mas por mais que aconteça,

Nada tem efeito, pois não temos coração, somos sombras,

Até que o nosso Pai Éter, por todos reconhecido, a todos pertença.

Mas entretanto desce, como portador do facho, do Altíssimo

O Filho, o Sírio, para entre as sombras.

Sábios felizes o vêem; um sorriso da alma cativa

Resplandece, para a luz se abrem inda os seus olhos.

Mais suave sonha e dorme o Titã nos braços da terra,

E mesmo o Cérbero, invejoso, bebe e dorme. (9.1-18)

A vinda de Dioniso parece dar sentido ao canto do poeta. É de notar que Dioniso, neste poema, substitui Apolo como deus tutelar da poesia e que os fenómenos de poesia estão muito mais ligados à noite dionisíaca do que ao dia apolíneo. Dá sentido também à história, na medida em que parece anunciar ou prenunciar um tempo em que o Homem já não precisará do pão e do vinho ou do furor dionisíaco para se unir à divindade, na medida em que o Pai Éter será “por todos reconhecido” e os deuses voltarão à terra. Assim, é bom de ver que para Hölderlin vivemos, não no tempo da graça pregado por São Paulo, que se segue ao tempo da Lei, mas num tempo de privação e “indigência” que se seguiu a um período áureo e ao qual se seguirá outro período áureo em que os deuses voltarão à terra. Assim, o curso da história é cíclico, e tem muito mais a ver com o politeísmo grego do que com a linearidade do tempo cristão. Nisto, Hölderlin estava em sintonia com o seu amigo Hegel – e estaria também em sintonia com Marx.

CONCLUSÃO

Por tudo o que foi dito atrás, conclui-se que aquilo a que se poderia chamar a teologia de Hölderlin, tal como a de outros poetas da sua época, não é de todo homogénea nem ortodoxa. Antes é um misto de influências de cristianismo e paganismo, que resulta num síntese nova absolutamente original e profunda e irremediavelmente iconoclasta e herética. Também é fácil de ver, pelo que fica dito atrás, como o elemento teológico avulta como uma das tensões que constituem o pensamento de Hölderlin. Assim como no caso da métrica e da musicalidade, campo no qual Hölderlin procurou reproduzir os modelos clássicos na língua alemã, assim também no seu pensamento religioso procurou o poeta fundir a mitologia grega – à qual deu uma nova vitalidade e substância – com a teologia e a Revelação cristãs, compondo um todo que funciona como uma orquestra conduzida por um maestro surdo, um todo desarmónico e sincrético, em que avultam as muitas cabeças da hidra e que é um testamento das paixões e complexidades do grande poeta que foi Friedrich Hölderlin.

Nota do autor: Este texto foi escrito em Abril de 2019. Os seus únicos leitores além de mim, antes de submetido para publicação nesta revista, foram o Prof. Doutor Hans Ulrich Gumbrecht, cujo seminário sobre o poeta objecto deste texto frequentei em 2017, e João Esteves da Silva, meu estimado colega no Programa em Teoria da Literatura da FLUL e autor de um trabalho sobre Holderlin muito mais extenso e digno de publicação do que o meu. Reler um trabalho próprio com mais de cinco foi um interessante convite à humildade pelo carácter manifestamente incipiente do mesmo e só com dificuldade fui persuadido a cedê-lo para publicação. No entanto, sendo o meu interesse neste poeta alemão manifestamente marginal no contexto das minhas preocupações intelectuais hodiernas, não dispus de força de vontade para o rever. Quod scripsi, scripsi, como diria Pôncio Pilatos.

BIBLIOGRAFIA

Eliot, T.S., Selected Essays, London: Faber and Faber, 1980

Nova Bíblia dos Capuchinhos para o Terceiro Milénio da Encarnação, coord. Herculano Alves, OFMCap., Lisboa e Fátima: Difusora Bíblica, 1998

Quintela, Paulo, Obras Completas II. Traduções I, org. Ludwig Scheidl, António Sousa Ribeiro, Carlos Guimarães e Maria Helena Simões, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997

  1. Friedrich Hölderlin, “O Que É Deus?”, trad. Paulo Quintela, in Paulo Quintela, Obras Completas II. Traduções I, org. Ludwig Scheidl, António Sousa Ribeiro, Carlos Guimarães e Maria Helena Simões, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997

  2. In T.S.Eliot, Selected Essays, London: Faber and Faber, 1980, pp. 126-140

  3. Idem, “Shakespeare and the Stoicism of Seneca”, in ibidem, pp.134-135

  4. Suponhamos que é esse o caso, uma vez que, para Eliot, não há um “Senecan Shakespeare”, mas sim um Shakespeare que faz uso de Séneca – se é que podemos dizer mesmo esse tanto.

  5. Fui alertado pelo Professor Doutor Miguel Tamen, a quem agradeço, para o facto de tal ser geralmente o caso com a obra de poetas alemães desta época como, por exemplo, Novalis.

  6. Paulo Quintela, Obras Completas II. Traduções I, org. Ludwig Scheidl, António Sousa Ribeiro, Carlos Guimarães e Maria Helena Simões, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997

  7. Tomo esta expressão da Professora Doutora Maria Leonor Xavier, em cujas aulas de Filosofia e Teologia na Idade Média tive o privilégio de ser aluno.

  8. Friedrich Hölderlin, in idem, ibidem, pp.356-360

  9. Refiro-me aos poemas de Hölderlin indicando o número da estrofe e o do verso. A tradução utilizada é sempre a de Paulo Quintela

  10. Id., ibid., pp.300-301.

  11. Contra esta ideia, no entanto, poder-se-ia argumentar que a paternidade não é exclusiva do Deus cristão, antes sendo até mais conspícua no caso de Zeus e de outros deuses pagãos, cujos inúmeros filhos legítimos e bastardos se encontram espalhados por toda uma paleta de histórias da antiguidade greco-romana – e não só – que Hölderlin conhecia muito bem.

  12. Id., ibid., p. 300.

  13. A versão utilizada é a da Nova Bíblia dos Capuchinhos para o Terceiro Milénio da Encarnação

  14. Friedrich Hölderlin in Paulo Quintela, ibid., pp.407-412.

  15. Que eu saiba.

  16. Surge uma complicação para esta teoria, para a qual não tenho solução, na última estrofe do poema, quando o deus Dioniso, ali apelidado de “o Sírio”, é designado Filho do Altíssimo, o que parece contradizer o que aqui afirmo, na medida em que pareceria que o “Altíssimo” é o “Pai Éter” e que, logo, como Dioniso é filho de Zeus na mitologia grega, o “Altíssimo” seria Zeus. Mas mesmo que o Pai Éter, o Deus supremo de Hölderlin, seja identificado com Zeus, isso não obsta a que tenha uma configuração mais próxima da do Deus cristão ou do Primeiro Motor de Aristóteles do que da configuração tradicional de Zeus.

  17. Apesar da dificuldade de saber o que se entende exactamente por essas palavras quando Hölderlin diz que o pão “está pela luz abençoado” (8.13) Haverá algum namoro com a noção de energeia, ou acção, divina? Se sim, isso tornaria o pão de Hölderlin mais parecido com as relíquias de santos para o catolicismo ou com os ícones sagrados na teologia ortodoxa moderna.

  18. Quando, em 8.6, se diz que Cristo “anunciou o fim do dia e desapareceu” não podemos ficar convencidos de que se trata de uma alusão ao fim do mundo e ao Dia do Juízo. É mais provável que essas palavras queiram dizer que Cristo veio no término do período áureo em que os deuses caminharam entre os mortais, como uma conclusão desse período, para deixar à Humanidade algo a que se apegar (a Eucaristia) na ausência dos deuses, como memorial dos mesmos. Mas mais sobre isto no que está para vir.

  19. Onde poderíamos ver uma alusão a algo equivalente ao Juízo Final seria nos versos 3-4 da estrofe número seis: “Nada a luz deve ver que não agrade aos excelsos, / Ante o Éter não vale nada tentado em vão.” Mas nem mesmo aí creio que se esteja a falar do Juízo, mas sim de algo muito mais pagão.

  20. O deus do vinho.

Peace to mutants #5 — Indra Allen, Origami Angel, Curtis Harding

Indra Allen was born in Washington and in 1973 released a beautiful album called Loner. The album is comprised of 17 songs that are moody, mellow and the lyrics carry a punch of sarcasm and wit that makes the album relevant to today’s standards.

Loner is a unique blend of psychedelic folk that may be off-key at times but shows playfulness and competence at the same time, making it an interesting and important album of femme folk in the 1970’s.

Not much is researchable on Indra Allen on the internet, but it is confirmed that she also published a magazine called Musica during the 70’s about women’s music. Some of those publications are available here: https://archives.rainbowhistory.org/items/show/549

The album is extremely rare and the few available are sold by extremely high prices. Hoping there will be a reissue soon.

E ainda:

Debut EP from american duo Origami Angel released in 2017. Mellow songs that are delicate and introspective, a sophisticated yet very subtle kind of emo. The lyrics are melancholic and often engaged in what it means to stand and fit in this world. 

The duo went on to make bolder and tinged pop punk with some screamo elements in the subsequent releases. 

Heartfelt and vibrant soul with psychedelic tinges by Curtis Harding. A solid set of songs about everyday life hardships, love and family retaining the classic 70’s sweet soul sound. Top notch musicianship all around and a true contemporary soul classic.  

A Zoomusicologia Existe!

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Qual a Moral do Animal Humano Perante a Música dos Animais Não Humanos ou A Música das Esferas e a Expressão Musical dos Animais: A Zoomusicologia Existe! Texto de Vítor Rua (músico & etnomusicólogo).

O que sabemos nós sobre o que é Música? Alguma coisa. Mas será o suficiente para a definirmos com precisão? Alguns responderão que sim. Outros informarão que a única coisa que sabem é que não se sabe o que é isso a que damos o nome de “música”; que em muitos povos nem o termo – música – existe; outros povos subsistem sem que tenham sequer o conceito de música. Será a música algo de universal? Será que todo o ser humano é possuidor de uma musicalidade ?

A música é uma manifestação artística profundamente enraizada na experiência humana, mas a expressão musical não é uma exclusividade da nossa espécie. Animais não humanos também emitem sons complexos e rítmicos que podem ser interpretados como formas de comunicação e expressão. A zoomusicologia, um campo interdisciplinar que investiga a música produzida por animais não humanos, revela que a musicalidade transcende os limites das fronteiras humanas.

Durante muito tempo, e em todo o planeta, os seres humanos reconheciam, constatavam e atribuíam uma grande musicalidade a certos animais, as infindáveis e belas “melodias” de certos pássaros ou o “canto” das baleias eram exemplo disso.

Depois vieram a musicologia e a etnomusicologia e tudo terminou. Um pouco como Descartes e a mecanização do mundo natural. Num instante, essa “musicalidade” foi-se e ficámos reduzidos a uma frase “científica” qualquer do género: “A nós – seres humanos – aqueles “sons” soam-nos a música… Mas não é!” O ser humano, encabeçando o topo da hierarquia animal (esse acto determinado – claro! – pelo próprio ser humano) seria assim o único ser com o dom da música e o único possuidor ou guardião dessa tal “musicalidade“.

A ciência consegue ser muito conveniente por vezes… e que atrevimento supor-se que a Música – essa arte das Musas, esse dom de Deus, essa poesia matemática própria para seres com alma, pudesse pertencer também a outros que não nós! Que o diga Descartes.

Quer a razão seja Deus ou a ciência, o que é um facto é que os animais não-humanos “perderam” a sua musicalidade. Da mesma forma que a mulher passou a possuir alma após o Concílio de Trento, depois de Descartes os animais perdem toda a sua musicalidade. Quando muito, mimetizam-na. Dessa forma, a pretensa musicalidade dos animais ou existe apenas nas nossas mentes (que somos os “racionais”, “cultos”, possuidores de “emoções” e para alguns também com “aspas”) ou é pura e simplesmente um mimetismo, uma imitação pavloviana e sem qualquer consciência daquilo que é a nossa Música.

Mas afinal que raio de coisa é esta a que chamamos “música”? É que antes de podermos afirmar se outros animais possuem “musicalidade”, precisamos de entender, classificar e caracterizar o “nosso” conceito de música.

Para Jaques Atalli, “vida é ruído”. Logo, “vida é som”. Viver é assim um estado audível. Um acontecimento sonoro. Ora, irei demonstrar que a música é (entre outras coisas) o som. O som é a matéria prima da Música. Se – como iremos ver de seguida – todo e qualquer tipo de som pode ser música e se a vida (viver) é um estado sónico podia pressupor-se que toda e qualquer forma de vida seria potencialmente não só uma fonte sonora, como um forte candidato à capacidade de produzir/possuir uma “musicalidade”.

É lógico que nem todo o som é música, pois se assim fosse não precisaríamos de duas palavras mas apenas de uma: som. Carl Dalhaus (ou será Eggbrecht?) chama a este instante em que um som deixa de o ser som para passar a ser música, de “mathesis”. Música, seria assim, qualquer tipo de som imbuído de mathesis, pertencente a determinada cultura e, segundo a grande maioria dos musicólogos, exclusivo do ser humano. É como lidar com a situação de certos povos não possuírem o termo “música” no seu vocabulário ou nem sequer possuírem o conceito de música? De referir que um desses povos que não possui o conceito de música, também não possui o conceito de “porta traseira” e no entanto, as suas habitações têm uma porta à frente e outra atrás. Quer isto dizer apenas que não é pelo facto de um povo não possuir o termo ou o conceito de música que este não concebe aquilo que nós – que possuímos o termo e o conceito – entendemos como música. A ser verdade esta conclusão, nada nos impede de ir um pouco mais longe no nosso raciocínio e avançarmos com a hipótese de que outros animais não humanos, igualmente desprovidos do termo e do conceito de música, a possam realizar e usufruir.

Tento aqui explorar a intrigante relação entre a música humana e a expressão sonora de animais não humanos. Através da perspectiva da zoomusicologia, examinamos como diferentes espécies criam sons distintos que podem ser considerados como formas de expressão musical, mesmo que não compartilhem a mesma compreensão do conceito ou termo “música”. Além disso, investigamos a ideia de que a música não é exclusiva dos seres vivos, estendendo-se até ao próprio cosmos, refletindo a crença numa “Música das Esferas” que ressoa em toda a existência.

A música é uma manifestação artística profundamente enraizada na experiência humana, mas a expressão musical não é uma exclusividade da nossa espécie. Animais não humanos também emitem sons complexos e rítmicos que podem ser interpretados como formas de comunicação e expressão. A zoomusicologia, um campo interdisciplinar que investiga a música produzida por animais não humanos, revela que a musicalidade transcende os limites das fronteiras humanas.

Baleias, aves, insectos e uma variedade de outras criaturas demonstram padrões sonoros distintos nos seus comportamentos naturais. As baleias, por exemplo, comunicam-se por meio de cantos complexos que variam entre indivíduos e populações. Esses padrões podem ser considerados uma forma de expressão musical, uma vez que incorporam elementos como a melodia, o ritmo e a repetição.

Da mesma forma, aves como o rouxinol do Japão apresentam canções elaboradas que evoluíram para atrair parceiros e marcar territórios. O canto dos insectos, como o dos grilos, também segue padrões que se assemelham a composições musicais, com estruturas repetitivas que lembram ritmos e harmonias.

A diversidade de expressões musicais entre animais não humanos é comparável à variedade cultural observada nas sociedades humanas. Tribos amazónicas, por exemplo, possuem formas de expressão sonora que diferem das convenções ocidentais de música. Embora possam não empregar o termo “música” ou ter a mesma compreensão abstracta do conceito, as suas expressões sonoras têm função cultural e social, assim como as vocalizações dos animais.

Além da expressão musical terrestre, a crença na “Música das Esferas” é um conceito que remonta à antiguidade. Os antigos gregos propuseram que os movimentos celestes produziam sons harmoniosos e divinos, formando uma sinfonia cósmica. A ideia de que o universo em si é permeado por uma espécie de música intriga tanto cientistas quanto filósofos, ecoando a noção de que a música é uma parte inerente da existência.

Recentemente com o advento da tecnologia (computadores) certas ciências como a bio-acústica, a bio-música, a nano-tecnologia ou a zoomusicologia, têm tido uma evolução dromológica e realizado grandes e revolucionárias descobertas no que diz respeito à musicalidade animal. Uma renomada especialista bio-acústica, diz-nos categoricamente, após estudos ao longo de décadas de gravações e espectogramas do canto das baleias, que estas produzem aquilo que nós humanos entendemos como música: melodias (e não “chamamentos”) que chegam a durar mais de trinta minutos; e durante esse período de tempo outras baleias escutam essa música sem interferirem; que tal como nos povos de tradição oral, essas “canções” ou “melodias” vão com o tempo sofrendo pequenas alterações. No ano seguinte, a mesma baleia, ou as baleias que assistiram ao concerto do ano anterior, repete a mesma canção com subtis diferenças e alterações. Para a cientista não há qualquer dúvida de que estes animais estão a produzir e a usufruir daquilo que nós intitulamos de música. Mesmo que – e tal como acontece noutros povos – estas não possuam o “conceito” de música.

De referir que até recentemente se classificavam os seres humanos de animais de “racionais” e de “irracionais” todos os outros animais. Ora, hoje sabemos perfeitamente da falácia desta afirmação. Os outros animais têm sentimentos, emoções, sentem (os animais são sencientes) e são capazes dos mais complexos raciocínios. Mas isso não impediu que durante séculos os tratássemos por bestas (muitas das vezes com sentido pejorativo) ou os tratássemos como máquinas (como relógios, por exemplo). Quando na realidade é o ser humano o único animal (ou dos únicos, uma vez que parece que certos símios também o fazem) que mata por prazer ou sem ser por uma questão de sobrevivência. E que passamos grande parte da nossa vida com pensamentos negativos em relação ao próximo, enquanto os outros animais quando não estão a caçar para sobreviver se recriam com brincadeiras, jogos e carícias. Puro deleite. Pureza. Os povos que praticam hoje um tipo de vida que intitulamos de “primitiva”, vêem nos animais não-humanos seres possuidores de uma grande moral. E possuidores de uma grande musicalidade. Além disso não só acreditam que os animais comunicam, como entendem perfeitamente a sua linguagem. Para estes povos isso é claro como a água. Nós – habitantes urbanos – não queremos acreditar que eles tenham linguagem, simplesmente porque não os entendemos e porque nos foi incutido desde tenra idade a nossa indiscutível “superioridade”; que a linguagem seria precisamente uma prova da nossa superioridade intelectual.

Como foi possível passarmos (como existe ainda em algumas tribos totémicas) de um respeito e harmonia para com os outros animais, para uma total barbárie/holocausto que provocamos a milhões de espécies animais? E chamamos a isto “evolução”? Dizemo-nos civilizados em contraponto com os ditos povos “bárbaros” ou “primitivos”? É – toda esta tortura, crueldade e matança – sinónimo de “evolução civilizacional”? De que forma passamos como no século XV de existirem processos em tribunal entre humanos e animais(onde estes últimos tinham até direito a um advogado de defesa), para a era actual onde parece não existir qualquer direito aos animais e que a maior parte das vezes e em certos países estes não têm mais direito do que uma mesa ou outro qualquer objecto? Mas que espécie de moral é esta a nossa? Como nos tornamos nós nestes seres horrendos? Que civilização “evoluída” é esta que pratica o mal nos animais, enquanto os “primitivos” os respeitam?

O afastamento do ser humano da Natureza foi tão gigantesco que hoje crianças (e até adultos) pensam que, por exemplo, um atum é um animal pequeno castanho, sem corpo, membros ou cabeça e que vive em latas pequenas de conserva. O filósofo Peter Singer diz que se actualmente o ser humano tivesse diariamente de matar para adquirir o seu alimento, quase a totalidade da humanidade se tornaria vegetariana. Uma coisa é vermos num talho os animais desmembrados e cortados em fatias; outra bem diferente é termos de ser nós com as nossas próprias mãos a matá-los, cortá-los e desmembrá-los.

Esta atitude perante os animais só parece possível por ignorância, incompreensão, receio (infundado), e pelo tal afastamento da Natureza e dos animais. Então em que devemos nós acreditar? Nós que agora – em civilizações “evoluídas” – trucidam, torturam e assassinam diariamente milhões de animais e que afirmam que estes são irracionais e que, portanto, estão na Terra para nos servirem e nós nos servirmos deles como bem nos apetecer, ou devemos antes acreditar nos tais povos ditos primitivos que respeitam, admiram e veneram os outros animais, e acham-nos até capazes de uma grande moral e musicalidade? Eu opto pela segunda proposição. Neste aspecto prefiro ser chamado de “primitivo” a “civilizacionalmente evoluído”.

Mas não é necessário viver na Natureza, numa qualquer região profunda da Amazónia, para percebermos que os animais comunicam, sentem, têm emoções ou sonham como nós. Quem tem animais domésticos pode facilmente observar isso. Eles pedem-nos comida, demonstram a sua dor quando algo está mal, brincam connosco, sabemos quando estão tristes ou alegres, enfim, comunicam! Nós – humanos –, para comunicarmos, usamos a linguagem verbal e gestual (além da escrita, claro). O mesmo se passa com os outros animais: comunicam verbal e gestualmente. Só não têm a escrita. Vemos então que os animais comunicam entre si tal como nós humanos. Então porque não podem possuir também a tal “musicalidade” atribuída exclusivamente aos humanos? Na teoria evolucionista existe a visão de que o ser humano está geneticamente programado para a tal musicalidade desde o início da humanidade e que o propósito dessa musicalidade seria – pelo menos inicialmente – a reprodução.

Tal como certos animais usam sons, gestos, movimentos, cores, para atraírem sexualmente parceiros, nós humanos também estaríamos programados para essa função através da música. A diferença está em que, quando esse factor é nos animais, nós dizemos serem “chamamentos”; quando se trata do ser humano, chamamos à mesmíssima coisa “música”. Mesmo na actualidade vemos vestígios dessa função primordial reprodutiva nas estrelas pop, rock, do jazz, da clássica e especialmente na chamada música “gastronómica” onde a dita estrela atrai fãs que se deleitam com a sua música mas também com a própria pessoa em si. Uma atracção sexual. Do Elvis Presley à Madonna, do Miles Davis ao Julio Iglesias, todos estes artistas reúnem à sua volta e em várias partes do mundo um número elevado de pessoas apreciadoras da sua música simultaneamente também atraídas sexualmente pelos artistas em questão. Um pavão – por exemplo – tem mais hipóteses de arranjar facilmente uma parceira quanto maior e luxuriante for a plumagem da sua cauda e os sons que este emite. Qual é então a diferença entre o pavão e o Julio Iglesias? A diferença está unicamente no mercado cultural que o ser humano criou à volta do conceito de “arte”. Metam um pavão no Royal Albert Hall a mostrar a sua penugem opípara e teremos standing ovations. Isto já para não falar da reacção dos pavões fêmeas que estejam – porventura – a assistir via net a este evento.

O caso ciber-mediático da gata pianista Nora é paradigmático. Uma gata de uma professora de piano. Esta – a professora – nunca ensinou a gata a tocar piano. A gata deve ter começado a tocar por imitação, tal como sucede nas crianças. E os adultos também: aprende-se muito imitando. Quanto mais tocava – a gata – mais ia desenvolvendo técnicas próprias, idiossincrasias: a repetição obsessiva de uma nota; o encostar a orelha ao teclado do piano; o uso de meios tons. Nora criou um “estilo”. Uma forma peculiar e original do uso deste instrumento, guardando-lhe um lugar no grupo reduzido de pianistas que conseguem ser reconhecidos pela sua linguagem. Não se trata de andar a correr pelas teclas do piano atrás de um qualquer peixe preso a um fio ou que alguém desliza de um lado para o outro nas teclas de um piano. Não! Trata-se de um ser que, para tocar aquele instrumento, tem de se colocar numa posição que não lhe é natural – apoiada somente em duas patas – e vemos claramente que ela sabe o que está a fazer. E que tira prazer no que faz. Quanto à qualidade com que classifiquei a originalidade da técnica e linguagem musical de Nora, basta compararmos as suas intervenções com as da sua dona – a professora de piano –, que se limita a fazer um meddley com melodias conhecidas, ou trechos de peças clássicas. Em contraponto com a previsibilidade desta, a originalidade e o mood avantgard com que Nora desenvolve o seu mundo musical é assinalável. É como estarmos a ouvir Monk e de vez em quando entrar um pianista de hotel.

Outro exemplo é o do Tucker, um cão pianista e uivador. Também uma estrela do YouTube, este cão – tal como Nora – sustém-se apenas com duas patas, usando as restantes para pressionar as teclas do piano. Por vezes, fica períodos só no piano, mas outras vezes começa a uivar em simultâneo com o piano. A sua técnica pianista é invulgar: clusters e notas alternadas entre a pata esquerda e a direita; e uma tessitura reduzida (inferior a uma oitava) circunscrita à distancia entre as suas duas patas. O seu uivar é muito bluesy, legato, com breves interjeições staccato, fazendo lembrar o bluesman Wolling Wollf. A combinação das duas coisas – piano e uivo – é extremamente original e contemporânea. Pela minha parte, pagaria um bilhete para ver um tal concerto na Gulbenkian.

Existem cada vez mais exemplos de animais não-humanos a tocarem instrumentos musicais, além dos mencionados, como uma gatinha que toca metalofone e outros: uma caturra que marca o ritmo da música com as patas (quando o ritmo da música acelera e ela não consegue acompanhar, começa então a marcar o ritmo, desmultiplicando-o, revelando uma capacidade invulgar rítmica). Mas estes exemplos da Nora e do Tucker são excepcionais e merecem a nossa atenção.

Mas, então, o que estão a fazer a gata Nora e o cão Tucker? Eu não tenho qualquer dúvida: estão a fazer música. Sons organizados com mathesis. Não estão a pedir comida, não pedem para ir à rua, não querem festinhas. Eles deslocam-se até um instrumento musical e começam a tocar durante várias horas, vários meses, anos. Praticam, evoluem e experimentam tal como os seus congéneres humanos. Então porquê esta recente aversão ou mesmo negação da ideia de outros animais possuirem uma musicalidade e serem capazes de produzir e usufruir da música?

A etnomusicologia é uma ciência recente, tem tido grande evolução nos últimos anos em expansão interdisciplinar com outras ciências. Tem, por isso, lutado por uma visão musical global, contra um etnocentrismo; contra qualquer tipo de racismo; pela igualdade sexual e outras conquistas humanitárias. Recentemente, certa etnomusicologia pós-moderna sentiu a necessidade de fazer correcções a certos dogmas e ideias pré-concebidas sobre música. Logo um dos principais conceitos que levantou dúvidas ao nível da sua definição foi o próprio conceito de música. “O que é isso a que chamamos de música?”. Os especialistas preferiram optar pelo termo “músicas” em substituição de “música” e foram os primeiros a alertar-nos para que em certos povos não existe o termo “música” e, mais ainda, alguns nem o conceito possuem. E dentro deste raciocínio, se mesmo entre os humanos certos etnomusicólogos refutam a ideia de que a música seja universal, muito facilmente chegam à conclusão de que os outros animais não possuem “música” e que os sons musicais produzidos por eles são vistos ou entendidos como propriedades musicais pelos seres humanos, pois os animais produzem tais sons sem qualquer consciência musical.

Curiosamente é da etnomusicologia que nasce uma outra ciência, a zoomusicologia, que visa estudar e analisar a música dos animais não-humanos. É o compositor François Bernard Mache que cunha este termo e que defende que outros animais, além dos humanos, possuem também musicalidade e, por consequência, realizam “música”, ainda que – tal como certas tribos humanas – não possuam o termo ou o conceito de “música”.

Esta é a visão que eu partilho do assunto na actualidade. E partilho esta convicção juntamente com outros reconhecidos musicólogos e cientistas da bio-acústica.

Acreditar que a música é uma acção exclusiva do ser humano é não ter a noção de que existe essa convicção desde os antigos gregos, e é desmentir dados factuais existentes na actualidade (através de experiências empíricas ou até de inúmeros vídeos presentes actualmente no Youtube), bem como ignorar que – para mim – a primeira música que existiu não foi improvisada, composta ou interpretada, mas sim escutada, e o acto de escutar é uma característica do animal humano e de animais não-humanos. Aliás, muito recentemente, chegaram até nós provas científicas comprovativas de que até as plantas “escutam” mesmo – aparentemente – não possuindo aparelho auditivo (pelo menos da forma como nós esperamos ser ou constituir um sistema auditivo). Mais a mais, recentes experiências realizadas em plantas com simulação sonora de lagartas a percorrerem as suas folhas levaram à conclusão de que os invertebrados suscitavam das plantas a libertação de uma enzima tóxica no sentido de repeli-los, tal como sucede com o fenómeno verdadeiro quando as lagartas se alimentam daquelas folhas. Após a reprodução desse som tão característico, os cientistas repetiram outros (vento ou chuva) e as plantas não soltaram nenhuma outra enzima em resposta, provando assim reconhecerem e diferenciarem o som das lagartas de qualquer outro tipo de som que se apresentasse como ameaçador.

A ciência tem feitos descobertas que demonstram claramente que a prática musical não é exclusiva do animal humano. Aliás, a considerarmos a noção da “música das esferas” dos antigos gregos, não só animais ou plantas podem escutar ou produzir música, como o próprio universo pode realizar aquilo a que nós humanos reconhecemos como conceito de música. Através da tecnologia e dos avanços realizados na bio-acústica, estamos cada vez mais apetrechados para compreender melhor o universo sónico produzido pelos outros animais e daí retirarmos as nossas conclusões sobre a capacidade destes possuirem ou não uma musicalidade e serem capazes de produzirem e usufruirem de música.

A zoomusicologia revela que a música transcende as barreiras da espécie humana, abrangendo uma variedade de expressões sonoras nos reinos animal e cósmico. Através da análise das vocalizações e dos padrões sonoros de animais não humanos, podemos enriquecer a nossa compreensão da diversidade musical e da interconexão entre todas as formas de vida e o cosmos. Reconhecer que a música é uma linguagem universal é um convite a explorar as múltiplas maneiras pelas quais a música permeia o nosso mundo.

Termino apelando a que não realizemos interpretações antropocentristas do tema que nos ocupa e que possamos manter um espírito aberto e receptivo às descobertas revolucionárias e empiricamente provadas que têm surgido, bem como ainda recomendamos que todos nos possamos desprender de uma superioridade “moral” que pode revelar, na realidade, e em certa medida, uma indesejada inferioridade moralizante à nossa volta.

Sugestões de Cinema: Nojo, Gays e Terrorismo

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Pensámos inicialmente destacar, numa determinada sexta-feira, dia da semana sempre inclinado para o tempo livre nocturno e para o cinema, filmes sobre radicalismo islâmico terrorismo. Mas para não enjoar, e é um tópico certamente enjoante, mudámos a agulha e entendemos destacar antes quatro filmes sobre nojo, manifesto de variadas maneiras.

São eles o lendário Repulsion (1965), de Roman Polanski, estrelando a fantástica Catherine Deneuve num dos seus primeiros papéis de relevo, interpretando uma jovem adulta pueril tentando navegar o mundo das relações humanas com o sexo oposto, sendo que a obrigatoriedade social de tal préstimo só lhe causa um silencioso e tenso sentimento de nojo em relação a todo o corpo masculino e tudo o que é orgânico e carnal; The Aviator (2004), de Martin Scorsese, retratando o mergulho do famoso magnata da aviação e do cinema Howard Hughes no distúrbio da obsessão-compulsão, que se reflecte numa tal fixação doentia por padrõesordem pequenos hábitos cujo sub-produto muito nocivo é o absoluto nojo da realidade quando esta não se adequa a esses esquemas mentais; For the Love of Nancy (1994), de Paul Schneider, talvez a película mais objectivamente dedicada ao distúrbio alimentar da anorexia nervosa que, como é típico, desponta numa adolescente do sexo feminino e evolui até estados verdadeiramente dramáticos e quase terminais; e American History X (1998), de Oliver Stone, sobre racismo branco dirigido a negros na América contemporânea, que ilustra com vigor, apesar de com algum dramatismo de segunda categoria, o vivo ódio palpável nojo que é possível enculturar em pessoas e em pequenas ou grandes comunidades tanto quanto à identidade rácica do próximo como quanto à partilha do espaço da próprio com a mesma, sendo também um nojo do próprio espaço cívico comum e da própria identidade racial em última análise.

Mas noutra série de recomendações, trouxemos tópicos mais “alegres”: quatro excelentes recomendações de cinema gay. Um colega nosso considera que Red, White and Royal Blue (2023), acabado de lançar há menos de um mês e meio, é o melhor filme que viu este ano. Não sabemos julgar essa afirmação, mas concordamos em absoluto que é um excelente filme e por isso a primeira das nossas recomendações de hoje. Neste filme, Alex, o carismático filho de uma ficcional Presidente dos EUA, e Henry, príncipe inglês filho da herdeira do trono de um também fictício Rei Jaime III, que há anos não se suportam, são forçados por razões de estado a fingir ser grandes amigos depois de involuntariamente causarem um muito hilariante incidente diplomático. A convivência forçada desfaz o “orgulho e preconceito” das primeiras impressões e os dois acabam por se apaixonar, começando por viver a sua relação em segredo por receio das implicações políticas da mesma. Por atenção a quem vive em Marte e ainda não sabe o que acontece a seguir, não revelamos o fim, mas podemos dizer que a dada altura alguém sai literalmente de um armário, numa cena absolutamente brilhante. Vejam, que ê imperdível. O segundo filme trata-se de And Then We Danced (2019), uma co-produção georgiana, francesa e sueca realizada por Levan Akin, e passado no universo belo mas claustrofóbico da dança tradicional georgiana e tendo como protagonistas dois dançarinos, Merab (Levan Gelbakhiani) e Irakli (Bachi Valishvili). É um filme de uma beleza sublime, ao mesmo tempo apaixonada e controlada, que vai de momentos de absoluta glória até à tragédia sufocada sem nunca deixar de ser irrestível no enredo e na estética. Sem dúvida, uma das mais belas obras de cinema gay de sempre. Não podíamos recomendá-lo mais entusiasticamente! O terceiro é Firebird (2021), com Tom Prior e Oleg Zagorodnii. Passado na União Soviética nos anos 80, tem por protagonistas dois jovens militares cujo amor proibido e profundo tem por pano de fundo a sociedade comunista da URSS no seu estádio tardio, com a decadência e austeridade sócio-económica, a homofobia endémica e, é preciso dizê-lo, o encanto algo irresistível de um belo sonho condenado a falhar: sem dúvida, um filme imperdível para qualquer amante sério de cinema, mesmo aqueles olimpicamente indiferentes aos aos peitorais de Tom Prior, que serão poucos (?). Por fim, não podemos deixar de recomendar vivamente, não um filme, mas a série Heartstopper (2022-presente), infinitamente terna, de uma beleza primeva e de uma intensidade emocional considerável ainda que suave e reconfortante quanto à esperança, que muitos ainda vão tendo, de que o ser humano possa, afinal, ser possuidor de características redentoras e de qualidades humanas que fazem com valha a pena conhecer a espécie. Esta série retrata um romance de adolescência entre dois rapazes de uma escola inglesa e apresenta um lado poucas vezes descortinado para lá da gritaria de activistas e anti-activistas: a absoluta normalidade humana do amor homosexual e a possibilidade astutamente concebível de este ser uma grande dádiva e não um grande sofrimento. Não deixem de ver!

Por fim, abordamos finalmente, em termos de sugestão de cinema, o tema verdadeiramente mais enjoativo, iniciando com a seguinte introdução. No nosso ver, não existe contexto justificativo possível para actos de terrorismo bárbaros dirigidos a civis no presente estado da civilização global. Não são enquadráveis na normalidade do conflito militar nem podem ser justificados sob qualquer ética de “resistência”, “independência” ou “luta contra a opressão”: são simplesmente acções abjectas que não cabem em parte alguma da nossa cultura. Sublinhamos essa posição com muito ênfase. Em resposta a alguns que resolvem falar da “luta” e da “opressão” dos árabes palestinianos, num momento de resposta militar ao domínio de uma região por um grupo terrorista — que assume frontalmente que o é e quais são os seus objectivos, ao contrário do que alguns agora fingem esquecer — não consideramos apropriado de momento falar em primeiro lugar dessa mesma “luta”, que pode querer dizer muitas coisas — luta contra a existência de um estado israelita, luta pelo direito a um estado próprio, várias vezes rejeitado pelos seus dirigentes, etc. — num cenário de rescaldo de actos completamente abjectos confessados pelos próprios e, principalmente, enquadrados dentro da sua ética aberrante, numa situação militar de guerra civil que dura há mais de 100 anos. Lembramos assim hoje não a “luta da palestina” — que, como já vimos, pode querer dizer muitas coisas, algumas recomendáveis e outras em absoluto não recomendáveis — mas sim nove filmes sobre terrorismo, particularmente de inspiração islâmica, um método de combate que reprovamos em absoluto em qualquer circunstância e que apelidamos de abjectomonstruosocovarde sem qualquer racionalidade nem carácter, próprio de quem se recusa a confrontar o inimigo com honra em cenários de guerra convencional. Aqui estão eles: Munich (2005), de Steven Spielberg, retratando a vingança israelita após o rapto e execução de atletas olímpicos; Zero Dark Thirty (2012), de Catylin Bigelow, ficcionando o trabalho das agências de informação que levou à captura do líder da força terrorista al-qaedaUnited 93 (2006), de Paul Greengrass, retratando a luta dos passageiros de um avião sequestrado, infelizmente vitimados; The Reluctant Fundamentalist (2012), baseado no romance de Mohsin Hamid, sobre as aproximações de um muçulmano moderado ao extremismo e suas razões; Belém (2013), de Yuval Adler, sobre a relação entre um agente da força secreta israelita e o seu informante árabe palestinianoO Atentado (2012), de Ziad Doueir, sobre um cirurgião árabe vivendo em Israel que descobre o envolvimento da sua mulher em actos terroristasO Paraíso, Agora! (2005), de Hany Abu-Assad, com dois amigos de infância que são recrutados para bombismo suicidaHotel Mumbai (2018), de Anthony Maras, sobre os ataques terroristas num hotel em Mumbai; e 13 Hours: The Secret Soldiers of Benghazi (2016), de Michael Bay, sobre o cerco e ataque à embaixada dos Estados Unidos na Líbia. São todos excelentes obras de ficção, de variadíssimas proveniências, e que destacam, sob várias e necessárias vertentes, um problema que é um problema real e significativo até mais para as populações do mundo árabe em geral do que para o resto do mundo: o problema do terrorismo de inspiração islâmica.

Sobre Sociedades Abertas e Sociedades Fechadas

Sobre que tipo de sociedade é que permite o trabalho universitário e que tipo de sociedade é que não o permite — e consequentemente que posição é que a universidade deve tomar em certos conflitos. Texto de Ana de Oliveira Sérgio.

A posição das universidades, no nosso entender do que são universidades, quanto a conflitos militares não tem necessariamente de ser partidária de um ou outro dos lados por meras questões morais não fundacionais, por meras contingências circunstanciais, ou por políticas de modo geral. O único critério que pode coerentemente alicerçar tais posições é o critério da determinação do que é necessário para o trabalho universitário. Tal como tivemos oportunidade de apontar no dealbar do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, é preciso deixar muito e bem claro qual é o tipo de sociedade em que as condições basilares para o trabalho universitário estão presentes — nomeadamente a liberdade de associação, de expressão e de pensamento — e aqueles tipos de sociedades onde não estão.

Antes disso, porém, talvez outros aspectos de cultura e de ética possam ser levantados como fundamentais e talvez apriorísticos às noções de liberdades básicas que entendemos necessárias para o trabalho universitário. Por exemplo, a dignidade basilar do indivíduo e o valor da vida humana parecem ser condições que de certo modo prefiguram e são necessárias para as ideias de “liberdade” e de “pensamento”. Não é possível, portanto, a existência do trabalho universitário tal como o entendemos numa sociedade em que essas noções estejam completamente deturpadas em relação à sua leitura nas culturas em que as universidades nasceram — e que não diferem muito daqueles que são os enunciados básicos comuns e quase universais conducentes à coerência lógica e moral do pensamento humano em todas ou quase todas as sociedades civilizadas de relevo, entre as quais a China e a Índia milenares, por exemplo, assim como o Japão, etc. Distingamos pois claramente essas amplas construções sociais chamadas e consideradas civilizações de relevo de pequenas experiências bárbaras que podem até substituir em durabilidade durante tempo significativo mas cujo contributo para a cultura e o conhecimento universal não é significativo.

Não é em qualquer aglomeração de vários indivíduos conducente à substanciação de algum tipo de conhecimento que encontramos aquilo que entendemos por universidade. Uma catequese não é uma universidade. Uma madrassa não é uma universidade. Uma assembleia tribal não é uma universidade. Um grupo de amigos em lazer urbano ou rural não é uma universidade. Um parlamento político não é uma universidade. Um fórum grego ou um senado romano não são universidades. Em nenhuma destas situações que constituem agregados de pessoas à volta de si mesmas ou de um objecto de culto — o altar, o maioral, o charro — existe a necessidade de pré-condições específicas que reportam à lógica dos argumentos e à busca desinteressada do conhecimento, que é tanto um descomprometimento — no sentido dessa busca ser desinteressada — como um comprometimento — no sentido de se acreditar em algo como “conhecimento”, por muito dúbio que o termo e o conceito sejam (até hoje ninguém sabe ao certo o que é “conhecimento” e qual a sua forma última e como se aloja). Exercícios radicais e ainda mais descomprometidos da imaginação podem até encontrar condições noutros teatros — como o do grupo de amigos a beber ou a assembleia tribal — para construções mentais aventurosas muito mais expansivas. A universidade não é assim: alicerça-se na tradição da lógica e da objectividade. Há quem diga que reporta, em primeiro lugar, ao filósofo grego Sócrates, o inaugurador dessa tradição já não experimentalista, como na anterior filosofia grega, mas determinada pelos contornos difíceis mas inegáveis do argumento lógico.

Há tipos de sociedade que favorecem estas tradições e há tipos de sociedade que não favorecem. Apesar da Grécia antiga não considerar todas as pessoas universalmente como pessoas com os mesmos direitos, conseguia dentro desse arranjo longe ainda da cristandade — essa mesma que dá alicerce a muitos que hoje se consideram “humanistas”, como se tal consideração sobre o valor universal de cada pessoa humana tivesse nascido do nada — um certo arranjo de condições que preludiava um entendimento da pessoa humana e do entendimento humano como minimamente coerente e sistematizável — conjunto de valores que mais tarde desaguou no imago dei da tradição judaico-cristã já inteiramente maturada. É aqui que as universidades existem. O que está fora disto não é universidade. Pode ser muitas outras coisas, mas não é universidade.

Vestígios arqueológicos no local da Academia de Platão

Certas sociedades, então, alicerçadas no e expandidas através do barbarismo mais amplo, não são sociedades nem sequer conducentes à ideia de universidade conforme a entendemos de origem e verdade, nem sociedades onde seja possível a supremacia moral ou institucional dos valores anteriormente enunciados — primado do indivíduo, local ou universal; primado de certos princípios da lógica e do valor próprio do conhecimento daí derivado; primado da liberdade de expressão e pensamento necessárias para aí chegar. É o caso, tememos dizê-lo, das sociedades hoje dominadas por variações de barbarismo primitivo entre as quais se contam aquelas inclinadas para o islamismo radical. Não é preciso qualquer conhecimento aprofundado de religiões para perceber que algumas são mais dotadas de condições para o aparecimento daquelas características que enunciámos do que outras. Mas, se alguém quiser mergulhar nessa pesquisa, provavelmente encontrará razões de fundo para as coisas serem assim.

No presente confronto entre dois povos perfeitamente estabelecidos desde há milénios num território, independentemente de a “identidade cultural” de um — os árabes palestinianos — ser bastante mais duvidosa que a “identidade cultural” de outros — os israelitas —, e independentemente de sectores religiosos fanáticos nos segundos, existem diferenças claras na ética e disposição básicas das duas. A primeira alicerça-se na teocracia; a segunda na democracia, ou, na medida do possível, e este é um apontamento para os “relativistas”, na imitação mais aproximada possível da democracia — caracterização que seguramente não caberia bem em qualquer sociedade dominada pelo absolutismo islâmico e por atavismos culturais bárbaros hoje ainda inteiramente presentes em culturas árabes e não só (é proibido dizer isto claramente?). A primeira alicerça-se num culto de morte e de ódio instigado fortemente pelos radicalismo islâmicos, onde o “martírio” até mesmo de crianças é glorificado, e o ódio ao inimigo, com ou sem razão, suplanta largamente qualquer apreço à vida dos próprios, enquanto que a segunda tem como participantes efectivamente cultos rácicos e religiosos supremacistas mas perfeitamente enquadrados numa sociedade de equilíbrio de poderes de raiz democrática, à semelhança da maior parte das sociedades ocidentais. Por último, a primeira tem um grau de desprezo institucional e estrutural pelas liberdades básicas do indivíduo conforme hoje o entendemos, o que inclui mulheres e homossexuais, enquanto que a segunda é capital de festivais gays e já teve uma mulher como primeira-ministra. Que fiquem assim bem claras, além do romantismos de bandeiras, lenços e muita conversa da “independência” e da “libertação”, sobre que sociedades são estas e como é que estas sociedades podem albergar universidades — e consequentemente que posição é que as universidades devem tomar perante elas, se é que as mesmas tem qualquer interesse na existência e na auto-preservação. Vamos supor que sim.

A criação das universidades não surgiu do nada: tem uma base cultural, histórica, e uma ligação clara ao fio grego-romano primeiro e judaico-cristão depois, e o da cultura europeia primeiro, ocidental depois. Experiências de centros de conhecimento noutra paragens e noutras culturas ao longo da história constituem ou podem ter constituído bons ensaios de coisas parecidas, mas a universidade conforme a entendemos, e conforme a instituição de raiz europeia que foi exportada para todo o mundo, está culturalmente modelada e não representa uma instituição humana universal — como os berçários sob qualquer forma ou a refeição em comunidade — mas sim uma construção específica, naturalmente frágil mas igualmente dona de uma subsistência e de um sucesso notável.

Isto leva-nos ao título desta breve peça: a sociedade aberta. Termo hoje muito popular, usado não com inteira certeza do que se está a falar, mas com relativa noção de que existe algo, em termos de organização social, mais respirável do que tribalismos primários ou colectivismos acéfalos, a sociedade aberta é um conceito que deriva dos liberalismos setecentistas e que fizeram o seu caminho até hoje com notável vinculação crescente e taxa de sucesso muitíssimo alta. Sendo identificada por alguns como tendo a sua primeira manifestação mais rigorosa na Grécia antiga, a sociedade aberta distingue-se da sociedade fechada — onde impera um dogma fixo de leis, moral e religião — pelo exercício crítico e consciente da razão na constituição de equilíbrios de poder e mecanismos pacíficos e não bélicos de adaptação e regulação das relações sociais através daquilo a que resumidamente chamamos de democracia — ou, numa formulação não essencialista, de sistemas democráticos propriamente ditos. É nestas sociedades que é possível a existência e que foi possível a emergência daquilo a que chamamos de universidade, e não só da sua instituição em concreto mas do primado de uma série de condições sem as quais não podem existir: a liberdade de expressão e pensamento, o reconhecimento da razão e da lógica como tipos especiais de pensamento humano, e a aceitação do método crítico socrático como instrumento chave da verificação e falsificação a que hoje chamamos de científica.

É lamentável portanto que algumas franjas de chicos-espertos “activistas”, frequentemente ligados à extrema-esquerda política, embora também advenham do campo contrário algumas teorias da conspiração por vezes já demasiado caricatas, subsistam em posições relevantes nas universidades, seja no campo da investigação, da docência ou mesmo a direcção, de onde têm partido as mais escandalosas posições, tomando de princípio a obscena posição de defesa daquele que vêem como um povo “oprimido” imediatamente na sequência de um atentado terrorista absolutamente bárbaro, fora de qualquer nexo de guerra normal ou mesmo de acções de resistência com vista a alvos militares ou de relevância civil estrutural para o regime, ao invés de saberem separar as águas e saberem que o que se passou não se assemelha minimamente a qualquer passo inteligível de uma “luta de libertação” (fosse lá o que isso fosse na situação presente) mas sim a um acto de barbarismo obsceno de violência gratuita e doente aplicada indiscriminadamente sobre civis completamente alheios ao conflito, acto esse só possibilitado por uma mundivisão alicerçada em cultos de morte suicidas e totalitários que estão completamente no avesso das culturas em que vivemos livremente e que permitem a que esses “iluminados” possam vomitar as suas larachas “anti-sistema” sem serem importunados.

Tal como na invasão da autocrática, expansionista e imperialista Rússia à não tão autocrática, mais democrática, nada expansionista nem imperialista Ucrânia — e agradeceríamos que alguns iluminados geoestrategas fossem chatear outra com as conversas da “NATO”, instituição à qual aderiram voluntariamente todos os seus membros e cuja predominância do modelo democrático é comparativamente inegável — a situação presente no ponto de vista das universidades parece clara em termos de se saber em que tipo de sociedade é que estas podem existir e em que tipo de sociedade é que não só é inconcebível a sua existência mas em que é inconcebível a existência comum e civil da vida e dos valores primários conforme os entendemos, e que seriam seguramente inviáveis para a vida desses referidos “iluminados” — tal como na segunda metade do século XX muita da academia torcia aberta ou secretamente pelo “paraíso na terra” chamado URSS mas nunca na vida levantaram o traseiro da cadeira e foram para lá viver, nem jamais o fariam ou conseguiriam fazê-lo (a menos que fosse a convite do partido).

Queremos então deixar aqui bem claro que há culturas onde este tipo de instituição simplesmente não pode existir e há culturas em que, mesmo com pontuais limitações, o nexo ético e a inclinação cultural em geral acolhem e permitem a sua existência em plena liberdade. No presente conflito, é óbvio de que lado é que as universidades devem estar, pela própria natureza das coisas: é do lado em que vigora não apenas na prática a efectivação mais básica daquilo que entendemos por liberdade de expressão e de pensamento, mas também onde vigoram as pré-condições morais basilares e civilizadas — respeito pela vida humana dos próprios, respeito pelo indivíduo, respeito pelas crianças — que permitem a essa mesma liberdade de expressão e pensamento existir e sem as quais nada do que se concebe como trabalho universitário é possível.


Como coda deste texto, que representa uma posição editorial, queríamos, por último, de forma muito sucinta, e notando com alguma preocupação alguma cobertura noticiosa recente, de tendência “activista”, não só passar por cima com notória leviandade de factos culturais e históricos básicos, mas também engolir facilmente e transmitir histericamente clara propaganda de guerra, particularmente de grupos terroristas sem qualquer credibilidade, fizemos questão de assinalar alguns esclarecimentos sobre o conflito entre judeus e árabes na zona da Palestina, a partir dos quais se pode ter uma conversa séria:

  1. existe guerra civil há mais de 100 anos ou há mais de 2500 anos (recomendamos a primeira leitura), entre árabes e judeus naquela região, mas também entre etnias dentro dos próprios árabes;
  2. não existe nenhuma caracterização sólida de “genocídio” aplicável a expressões dessa guerra civil; a classificação de “apartheid” é dúbia, dado os direitos cívicos dos árabes no estado de Israel e os controles fronteiriços naturalmente resultantes da situação de segurança resultante da guerra civil;
  3. não existia nenhum estado árabe nem nenhum estado judeu antes da fundação de Israel, durante o mandado britânico daquela região;
  4. existia uma unidade cultural judaica mas não existia, nunca existiu e possivelmente ainda hoje não existe nenhuma unidade cultural dos árabes residentes na região, sendo que a lógica tribal própria das culturas locais impera;
  5. Israel é a única democracia consolidada e credível da região, com eleições livres — para todos os cidadãos, incluindo árabes, que têm representação política —, com pesos e contrapesos (partidos de oposição, ramos do estadotribunais, etc.); todos os regimes em redor, de etnia árabe e religião muçulmana dominantes, são imitações de democracias, com quadros políticos e legais restritivos de direitos humanos (religiosos, sexuais, políticos, artísticos, etc.);
  6. Israel não tem um plano de “judaização” do mundo; muitos ramos do Islão radical têm planos de conversão do mundo à força e quadros morais de desumanização do não-crente;
  7. ética de guerra de parte da cultura de árabes palestinianos e do islão mais radical envolve a glorificação do martírio, inclusive de crianças, um quadro moral em que o valor da vida dos próprios é mais diminuto do que é para os ocidentais, e uma cultura de ódio e de morte que nos é estranha; estatísticas de vítimas devem ter isto em conta;
  8. ambos os lados cometem crimes de guerra, como infelizmente é invariável acontecer em teatros de conflito prolongados e complexos.

Qualquer destes pontos é superficialmente discutível, mas incontornável, numa conversa sobre o assunto.

Gostava de Construir o seu Relógio? Peça os Planos a Clayton Boyer

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. Desde 2005 Clayton Boyer vende planos para construção de relógios de madeira. Entre todos os planos disponíveis é possível encontrar vários tipos de escapes e até relógios de berlindes. Os planos são baseados em relógios antigos e adaptados para poderem ser cortados manualmente, ou através por exemplo de uma máquina de laser, um tico tico ou uma cnc.

Aqui ficam alguns exemplos dos seus relógios em funcionamento:

Canto do Masoquista

O site de Clayton Boyer é bastante rudimentar, mas bastante simples e fácil de consultar também, para além disso tem umas curiosidades muito bem humoradas, como este canto do masoquista descrito da seguinte forma:

Os mecanismos maravilhosos nesta página estão listados aqui em “Masochist’s Corner” porque não são apenas muito mais difíceis de construir, mas, ao contrário de todos os outros planos que ofereço, eles NÃO vêm com um conjunto de instruções de construção ou uma lista de materiais. Para encomendar um conjunto de planos desta página, é preciso primeiro enviar-me uma foto de um relógio de madeira concluído do MEU design e, em seguida, de alguma forma, demonstrar uma demente falta de frustração em sua vida. Apenas os indivíduos mais masoquistas e que desejam frustração devem dedicar-se a esta tarefa. Se acha que se qualifica, envie-me um e-mail. Terá meu endereço de e-mail do seu pedido anterior.

Vender planos para os relógios nesta página vai contra a minha filosofia básica de tentar espalhar alegria no mundo através da madeira criativa. No entanto, cheguei à conclusão de que não deveria atrapalhar o desejo de um carpinteiro por frustração adicional em sua vida quando eles obviamente a querem tanto.

Lembre-se – eu absolutamente exijo que o marceneiro tenha concluído com sucesso pelo menos um dos MEUS projetos de relógio antes de encomendar um relógio desta página. SEM excepções! Também sem lamentação.

O que recebemos quando compramos um plano?

Todos os planos são desenhados em CAD e estão disponíveis em dois formatos; dxf e papel. Ambos os formatos são apresentados em forma de “página” para facilitar a impressão o que dá ao construtor um plano físico para acompanhar a a sua construção. Os dxf são genéricos com um pouco de manipulação individual para combinar com o formato, foram usados com sucesso por todos os formatos de construção e corte; serra tico tico, cnc, laser e impressão 3D.

Incluído nos planos dxf estão desenhos em tamanho real para todas as peças e peças que compõem esses mecanismos. Nos planos de papel, quase todas as peças são mostradas em tamanho real, com desenhos medidos apenas para as peças maiores. Todos os principais componentes, como as rodas, carretes, espaçadores, etc., são fornecidos como padrões de tamanho real. Esses desenhos podem ser cortados a partir dos planos, colados na madeira com o tamanho apropriado e cortados manualmente. Esta mesma técnica de “SEM Medição” aplica-se às peças metálicas usadas como mandris e espaçadores. Basta colocar a parte de metal do tamanho apropriado ao lado dos planos, marcar e cortar.

Todos os planos de relógio vêm com um conjunto completo de instruções e uma lista de materiais. Além das instruções separadas, cada página dos desenhos também tem instruções para cada uma das partes. Há também algumas páginas que mostram os relógios concluídos, para que se possa perceber como todas as peças se encaixam. As vistas frontais e laterais completas do mecanismo mostram todas as partes e a sua localização.

Para pedidos de planos de papel, todos os projetos agora têm as suas rodas, estrutura e peças grandes disponíveis no formato dxf disponíveis mediante solicitação. Depois de fazer o pedido do seu plano em papel, basta enviar um e-mail a Clayton Boyer a solicitar o dxf disponível para o seu projecto.

Todos os planos estão disponíveis no formato dxf. Na página de pedidos de cada projeto, tem a opção de encomendar em formato dxf e receber seus planos em anexo por e-mail (geralmente dentro de 24 horas), ou em formato de papel entregue por correio.

O PDF dos projectos não está disponível e deve ter-se um programa CAD para abrir e manipular os dxf. Programas de desenho regulares, por exemplo; Sketchup e Corel de versão mais básica, não funcionarão corretamente (o Corel mais recente, usado com lasers funciona). Se não tem um programa CAD, recomendo que consulte www.deltacad.com. É um programa maravilhoso, poderoso o suficiente para o que precisamos, e bastante barato.

Todos com planos disponíveis no site: https://www.lisaboyer.com

O Equilíbrio do Artista e os Limites da Arte em Nina Sayers e Gustav Von Aschenbach

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O que têm em comum uma dançarina de ballet, Nina Sayers, personagem principal do filme Black Swan (Darren Aronofsky, 2010) e um compositor clássico, Gustav von Aschenbach, protagonista do filme Death in Venice (Luchino Visconti, 1971)? Ambas personagens apresentam um certo desequilíbrio entre as duas forças essencias para a inspiração e criação artística: a dionisíaca e a apolínea, de acordo com o filósofo Nietzsche (O Nascimento da Tragédia). Regidos pelo lado apolíneo, através da ordem e da harmonia, reprimem a também necessária “embriaguez dionisíaca” no que concerne grosso modo à excitação dos sentidos, ao irracional e ao caos, o que acaba por limitá-los enquanto artistas. No caso de Nina constitui uma imensa dificuldade mover-se para lá das fronteiras emocionais que a congestionam a fim de perseguir com êxito a interpretação da desafiante Odile, o “Cisne Negro”, em oposição a Odette, o “Cisne Branco”, ambas encontradas, na sua origem, no bailado O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, ao qual podemos reportar a sua origem. No binómio Odile – Cisne Negro/ Odette-Cisne Branco encontramos a dualidade dos lados dionisíaco e apolíneo, respectivamente. Nina, vendo-se incapaz de interpretar o “Cisne Negro”, entra numa espiral de obsessão em busca de um ideal de perfeição que resulta na sua autodestruição e consequente loucura. Gustav von Aschenbach vislumbra num rapaz de 14 anos, Tadzio – a quem persegue obsessivamente pelas ruas de Veneza, no auge da embriaguez dionisíaca – a encarnação do Belo Ideal (Platonismo) que o conduz ao seu fatídico destino. A bailarina e o compositor, cada um à sua maneira, sucumbem ao seu lado dionisíaco, que haviam reprimido, e à obsessão que a ambos faz desembocar numa catarse estéril e destrutiva, aliás, ao nível artístico mais estéril para Aschenbach do que para Nina, porque embora através dos meios errados, ela consegue levar a bom termo o seu papel, porém tragicamente. Em Nina desenvolve-se uma fragmentação patológica da identidade: a bailarina alucina com o seu doppelgänger dionísiaco – a sósia que com ela se cruza, o reflexo no espelho que ganha vida, o seu “Cisne Negro”, sensual e transgressor. Assim se vê libertada a sua Odile, dominada há muito por uma Odette perfeccionista, obcecada por uma perfeição inatingível. Aschenbach, abandona-se à fixação por Tadzio, ao desvario, enquanto homem falha em controlar a paixão desenfreada e enquanto artista também. Tadzio não é apenas um desejo erótico, é também a obsessão do artista pelo Belo Ideal, inalcançável à partida. O arrebatamento causado pela Beleza Ideal de Tadzio, a obsessão de que é alvo, poderiam ser uma extraordinária fonte de inspiração para uma composição musical magnífica. Personagens trágicas, perseguindo algo inalcançável ao ser humano, cujo destino, tivessem encontrado o equilíbrio interno e se resignado ao limite humano do Artista, seria diferente. Excelentes filmes, principalmente a obra prima de Visconti. Fica a recomendação.

Conversa: “O Fio de Lã – Passado e Futuro”, com a artesã Paula Neves

Ana Vieira Vicente conversa com a artesã Paula Neves @paulaneves_estudiotextil sobre como se preservam tradições, se estará o mundo rural a par do futuro e que impacto tem a produção de lã em Portugal. A Paula deixou a agitação da vida na cidade de Lisboa para abraçar a tranquilidade de Monsaraz na ânsia de conectar a sua essência ao campo e aos idosos, mestres na arte de viver. Tendo como grandes paixões o património e a cultura portuguesa, encontrou também o seu foco: as ovelhas e a sua lã. Foi aprendiz de muitos idosos para (re)descobrir técnicas antigas sobre fiação, tinturia e tecelagem e criar peças únicas e personalizadas. Neste momento dedica-se principalmente à fiação e tecelagem de lã. O seu lema é “transformar coisas e lugares através das mãos e teares”

Bullying, Cyberbullying E Cibercultura

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Este artigo foi realizado a partir de pesquisas do GPHSC-IFMT (Grupo de Pesquisa em Humanidades e Sociedade Contemporânea do IFMT) e do PPGEn- IFMT/UNIC. O objetivo desta pesquisa foi perceber as ações de bullying e cyberbullying entre os estudantes em escolas de Mato Grosso. O problema desta pesquisa foi: o acesso à aparelhos eletrônicos e internet aumenta os casos de agressão por meio das redes de comunicação? A natureza desta pesquisa é qualitativa. O método e a abordagem da pesquisa é a fenomenologia. O aporte teórico balizou-se em José Ortega Y Gasset (1983) e Pierre Lévy (1999). A metodologia utilizada foi a pesquisa de campo e bibliográfica, baseada em Bogdan e Biklen (1994) “Investigação Qualitativa em Educação,” contou com a aplicação de um questionário online sobre o bullying em algumas Escolas Estaduais de Mato Grosso. A partir disso, observam-se os diagnósticos e surgiram os resultados demostrados em gráficos. Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê Ética sob o parecer número: 1.773.781. Os estudantes assinaram o termo de consentimento para participar desta pesquisa com o devido aceite de seus responsáveis. Os resultados apontam que mais de 65% dos estudantes afirmam já terem sofrido bullying, sendo que 20% sofreram cyberbullying e que é importante a participação da família e toda a comunidade escolar no combate a esse tipo de violência contra os direitos humanos. Palavras-chave: Educação. Bullying. Cyberbullying. Cybercultura. Texto de Carla Silbene Oliveira de Paula Schneiders1 Diego Antônio de Souza Pereira2 Sonaí Maria da Silva3 Francisco José de Sousa4 Francisco José Barbosa5.

INTRODUÇÃO

Este trabalho foi realizado a partir das pesquisas do Grupo de Pesquisa em Humanidades e Sociedade Contemporânea do IFMT – GPHSC/IFMT; neste grupo realizam-se pesquisas desde o ano de 2016 até o momento presente em 2023, trata-se de um projeto aprovado no Comitê de Ética sob o Parecer nº 1.773.781 que permitiu um diagnóstico sobre o bullying em escolas públicas estaduais, na rede particular e em diversos campus do IFMT, um campus do IFMG e outro no IFPB.

O GPHSC divulga os resultados das pesquisas a toda comunidade escolar e estimula as ações inclusivas com base no protagonismo jovem para superar o bullying que é uma violação aos Direitos Humanos.

O combate ao bullying sistemático recebeu reforço da Lei que foi sancionada em 2015, a Lei 13.185/15 que instituiu Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying), obrigando escolas, clubes, agremiações a adotarem medidas de combate e prevenção através de capacitação de docentes e equipes pedagógicas assim como a orientação de pais e familiares, para identificar vítimas e agressores. Também estabelece que sejam realizadas campanhas educativas e fornecida assistência psicológica, social e jurídica às vítimas e aos agressores.

A punição dos agressores deve ser evitada considerando alternativas que promovam a mudança do comportamento, o que sem dúvidas é um desafio no contexto escolar por necessitar de equipe de apoio para desenvolvimento deste trabalho com êxito. Observa-se que a punição é o meio mais comum de resolução desse problema, embora seja necessário lançar fortes luzes sobre essa perspectiva.

O filósofo José Ortega Y Gasset aponta a necessidade de o ser humano não se reduzir a ser “massa”, um ser médio e consequentemente medíocre; enfatiza-se a característica humana de viver em “ensimismamiento” reflexivo em si sob as consequências na circunstância que pode ser alterada (ORTEGA, 1939). Semelhantemente, Freire (2006) afirma que o ser humano vivencia a sua realidade a partir do agir nela e disso decorre um processo de humanização.

Entende-se que olhar a educação pelas luzes da fenomenologia implica em experimentar o desafio de respeitar as singularidades em alteridade porque “eu sou eu e minha circunstância, se não salvo a minha circunstância não me salvo eu”. (Ortega, Meditaciones Del Quijote, 1957, p.17). Da mesma forma, esta ideia coaduna com a ideia de Freire em gerar os temas respeitando a história de vida e o conhecimento do estudante e também dos professores.

Para Ortega (1983), a vida é agir e a ação implica em escolha; ainda que a pessoa não exerça a escolha, ela não está isenta da mesma, e nisto consiste a liberdade do ser humano. Portanto, por meio das escolhas é possível alterar a circunstância, a “alteracion” das circunstâncias é o que se almejam nas ações contra o bullying em escolas.

Ortega (2007), no livro “A Rebelião das massas” aborda sobre o homem “médio” (medíocre), entende que a mediocridade vive em grandes aglomerados, essas “massas” são produzidas pela via da “obliteração das almas” porque é extinguindo a alma da pessoa que se engendra à revolta e à violência; o filósofo aponta que as ações da “massa” são violentas e o que ele nomeia sem pejorativo de “massa rebelde” está relacionado ao “hermetismo intelectual”:

A pessoa tem um grupo de ideias dentro de si. Resolve contentar-se com elas e se considera intelectualmente completa. Por não sentir falta de nada que esteja fora dela, instala-se definitivamente naquele repertório. Eis o mecanismo da obliteração. O homem-massa sente-se

perfeito. […] Já o homem medíocre de nossos dias, o novo Adão, nem pensa em duvidar de sua própria plenitude (ORTEGA, 2007, p. 101- 102).

Fazer resistência às mudanças necessária para que haja paz no ambiente de convivência escolar é uma grande “mediocridade” como diria Ortega, um ser “médio”.

O cyberbullying surgiu à medida que o uso de tecnologias foi aumentando e acompanhado desta evolução de interações para o virtual percebe-se que há uma tendência do comportamento agressivo também migrando para este universo.

O bullying se manifesta por ações entre pares onde há evidências de desigualdade de poder, já no Cyberbullying, a princípio, pode ser apresentado como um comportamento do bullying utilizando-se das tecnologias, porém, estas evidências não são tão claras.

O ciberespaço está presente no cotidiano das pessoas, principalmente dos “nativos digitais”. Cada vez mais a sociedade vem aderindo às novas tecnologias, corroborando com a ampliação de um ciberespaço cada vez mais universal com repercussão nas atividades econômicas, política e cultural.

Lévy (1999) acredita que o ciberespaço se constrói em sistema de sistemas refazendo várias vezes a figura de um labirinto móvel em expansão sem plano possível, universal, porém composto de uma universalidade desprovida de significado central, um sistema de desordem chamado “universal sem totalidade”. O crescimento inicial do ciberespaço é orientado com base em três princípios: a interconexão, a criação de comunidades virtuais e a inteligência coletiva.

Para a cibercultura a conexão é um bem em si e o horizonte técnico do movimento da cibercultura é a comunicação universal.

A cibercultura encontra-se ligada ao virtual de duas formas: direta e indireta. Diretamente, a digitalização da informação pode ser aproximada da virtualização. Os códigos de computador inscritos nos disquetes ou discos rígidos dos computadores — invisíveis, facilmente copiáveis ou transferíveis de um nó a outro da rede — são quase virtuais, visto que são quase independentes de coordenadas espaço temporais determinadas. No centro das redes digitais, a informação certamente se encontra fisicamente situada em algum lugar, em determinado suporte, mas ela também está virtualmente presente em cada ponto da rede onde seja pedida (PIERRE LÉVY, 1999, p. 51)

Assim, os veículos de informação não estariam mais no espaço, mas, por meio de uma espécie de reviravolta topológica todo o espaço se tornaria um canal interativo. E a cibercultura aponta para uma civilização da telepresença generalizada para além da comunicação.

A interconexão, primeiro princípio, constitui a humanidade em um contínuo sem fronteiras, cava um meio informacional oceânico, tece o universal por contato. O segundo princípio da cibercultura, comunidades virtuais, dá continuidade ao primeiro, já que o desenvolvimento das comunidades virtuais se apoia na interconexão.

Uma comunidade virtual é construída baseada em afinidades, em processo de cooperação ou de troca, independentemente das proximidades geográficas e das filiações institucionais. As “comunidades virtuais” realizam uma verdadeira atualização (no sentido da criação de um contato efetivo) de grupos humanos que eram apenas potenciais antes do surgimento do ciberespaço.

O terceiro princípio da cibercultura, o da inteligência coletiva, seria sua perspectiva espiritual, sua finalidade última.

METODOLOGIA

Esta pesquisa é de natureza qualitativa, sendo descritiva e interpretativa. Bogdan e Biklen (1994) apontam que a disposição da pesquisa escolar é ser qualitativa descritiva, mesmo que existam demonstrações quantitativas em tabelas e gráficos e seja realizada de forma indutiva.

Bauer e Gaskel (2002) afirmam que o pesquisador não é apenas um observador, sua posição é de responsabilidade em conferir os dados com métodos precisos; a pesquisa gera informações à medida que as relações se encontram em intersubjetividades partilhadas por meio de discursos e gestos. Neste sentido, entende-se que o pesquisador participa ativamente da interpretação dos dados.

Este trabalho colaborativo conta com os pares da pesquisa. A abordagem da pesquisa é o estudo fenomenológico, bem como o método de compreensão dos dados.

O aporte teórico que fundamenta esta pesquisa parte das teorias de José Ortega y Gasset e Pierre Lévy. Os instrumentos de investigação empregados neste trabalho são o questionário semiaberto e a entrevista semiestruturada. O uso de diferentes instrumentos de pesquisa qualitativa, o questionário e a entrevista, foram necessários para registrar as circunstâncias com gravação de som individual ao captar o relato da história de vida.

O primeiro passo desta pesquisa refere-se à pesquisa bibliográfica que proporciona a base teórica em que os dados são interpretados.

Em seguida, demanda-se a implementação do questionário online, contendo 27 perguntas, sendo 24 objetivas e 03 subjetivas.

Por meio do questionário sobre o bullying foi realizada a análise criteriosa dos dados produzidos descrevendo e interpretando fenomenologicamente os resultados que compõem os gráficos.

E, por fim, o nome das escolas e dos discentes foram ocultados para resguardar a identidade deles dentro do princípio ético base da pesquisa com seres humanos.

O método geral deste trabalho é a fenomenologia para observar os fenômenos, descrever os dados, participar das intervenções e produzir uma nova percepção de realidade.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A pesquisa online sobre o bullying obteve os seguintes resultados em 2019. 68% dos estudantes afirmam terem sofrido bullying e aproximadamente 50% dos casos durou mais de um ano. Esse percentual de estudantes que responderam a alternativa sim é extremamente relevante. Na compreensão fenomenológica alguns dos discentes que sofreram e praticaram bullying entendem isso como uma brincadeira aceitável.

Gráfico 1- Você já sofreu bullying na escola?

Fonte: Da pesquisa realizada (2019).

Trata-se de um fenômeno no qual o jovem precisa ser protagonista ao desejar alterar a circunstância e vivenciar uma transformação de atitudes como a expectação ao ignorar tais fatos.

Um dos dados alcançados nesta pesquisa foi a observação do cyberbullying, de acordo com o gráfico a seguir, alguns estudantes utilizam as redes sociais para atingir e intimidar colegas publicamente no mundo virtual.

Gráfico 2 – Fazem agressões virtuais (Redes Sociais)

Fonte: Da pesquisa realizada (2019).

Em uma das escolas pesquisadas foi possível investigar alguns casos específicos de cyberbullying. Acompanhar o desfecho de dois casos de cyberbullying ocorridos na escola, sendo que um deles culminou na transferência escolar do agressor e no outo caso a vítima escolheu ser transferida para outra instituição educacional. Sem mencionar os casos que não são relatados ou aqueles que acabam permanecendo ocultados.

Lévy (1999), corrobora que a cibercultura é a expressão da aspiração de construção de um laço social, sobre a reunião em torno de centros de interesses comuns, sobre o jogo, sobre o compartilhamento do saber, sobre a aprendizagem cooperativa, entre outros. Um grupo humano qualquer só se interessa em constituir-se como comunidade virtual para aproximar-se do ideal do coletivo inteligente, mais imaginativo, mais rápido, mais capaz de aprender e de inventar do que um coletivo inteligentemente gerenciado.

Qualquer reflexão sobre o futuro dos sistemas de educação e de formação na cibercultura deve ser fundada em uma análise prévia da mutação contemporânea da relação com o saber.

Em relação ao saber em alteração no mundo, Lévy (1999) aponta duas constatações. a primeira constatação diz respeito à velocidade de surgimento e de renovação dos saberes. A segunda constatação, fortemente ligada à primeira, diz respeito à nova natureza do trabalho, cuja parte de transação de conhecimentos não pára de crescer. E a terceira constatação: o ciberespaço suporta tecnologias intelectuais que amplificam, exteriorizam e modificam numerosas funções cognitivas humanas.

O grupo de pesquisa GPHSC desde 2019 até a atualidade desenvolve e divulga entre estudantes um aplicativo para auxiliá-los em casos de enfrentamento de bullying em escolas. Schneiders et al. (2020) afirma que o aplicativo “Viva feliz: bullying não!” potencializa o alce dos objetivos pretendidos de combate ao bullying por meio do protagonismo juvenil.

De acordo com Rosário (2021) a sugestão de criar um aplicativo para a realização do combate ao bullying nas escolas foi criada pelos estudantes para que os próprios estudantes desenvolvam o protagonismo jovem ao criar também alguns conteúdos para o “Viva feliz: bullying não!”. Em sua pesquisa, ela ainda corroborou que os estudantes que baixaram o aplicativo consideraram a importância e necessidade desse aplicativo para se informar por meio de textos explicativos sobre o bullying e denunciar a violência escolar. “O aplicativo é funcional e acessível ao público infanto juvenil, o mesmo

apresenta interface interativa e atraente, é carregado de informações sobre bullying e cyberbullying, tem uma ferramenta de suma importância o chat,” (ROSARIO, 2021, pp. 109-101).

Neste caso, os estudantes podem fazer denúncias ou compartilhar as suas emoções e sofrimentos podendo contar com adultos voluntários que participam da organização do aplicativo.

Viva Feliz Bullying Não na App StoreFigura 1 – Ícone do aplicativo “Viva feliz, bullying não!

Fonte: Da pesquisa realizada (2020).

Rosário (2021) aponta que os estudantes, pesquisados no IFMT – Bela Vista, discutiram sobre a Lei nº 13.185/ de 06 de novembro de 2015 que instituiu a obrigatoriedade do Programa de Combate à Intimidação Sistemática nas escolas em todo o território nacional. A lei que determina o combate ao bullying precisa ser divulgada entre os jovens nas escolas (O que diz a Lei 13.185/2015

– Combate ao Bullying – abraceprogramaspreventivos.com.br).

A violência causada pelo bullying caracteriza-se como agressão repetitiva entre os pares,

No Brasil, principalmente no mês de abril de 2023, verificou-se uma ênfase em ataques aos estudantes e às escolas originados em jogos fatais, grupos de disseminação de ódio, preconceito, violência e Fake News.

As pesquisas sobre o pensamento de Ortega sobre Educação e Ensino nos levam a conhecer as problematizações de Amoedo (1997), que no capítulo

6 apresenta ideias de Ortega no âmbito da educação mostrando que o cientista busca a possibilidade de verdade no processo de construção do conhecimento, enquanto os estudantes não participam desse processo, eles recebem o conhecimento pronto como se estivesse acabado e a verdade como se fosse absoluta. Ressalta-se que a pesquisa de Amoedo reforça a ideia de que o protagonismo juvenil é fundamental para a elaboração do raciocínio discente.

O vertiginoso crescimento do uso dos ambientes virtuais e aplicativos de mensagens, vem proporcionado manifestações que ultrapassam os limites do respeito das convivências sociais sadias, existindo de forma indiscriminada manifestações frequentes de discriminações, injúrias, agressividade, fake news e fraudes. A escola como ambiente propício para formação ética, social e educacional do cidadão, passa a ter um importante papel preventivo das práticas de bullying e cyberbullyng, principalmente, pelo implemento de um ensino que tenha também objetivo educativo para cidadania digital.

Este respaldo está contido na BNCC (Base Nacional Comum Curricular) quando destaca como atribuição da escola: Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. BRASIL (2017).

A preocupação com consequências nefastas sobre o indevido das novas tecnologias tem despertado a preocupação de inserir na formação dos alunos, o conhecimento do uso das novas tecnologias para melhorias das relações sociais e assim ampliar sua utilização sem temeridades.

Embora considere-se como uma meta difícil de ser atendida na sua totalidade, dada a amplitude sua implementação, mesmo assim, as instituições de ensino devem proporcionar capacitação para o alcance da tão pretendida cidadania digital.

A educação digital é responsável ainda pela transformação do ser humano físico-digital, no sentido de lhe fornecer condições de não se permitir ser controlado pela sociedade digital, de ter capacidade de refletir e formar sua própria opinião sobre as informações e conteúdos que acessa diariamente. (SOUSA, 2018. P.65).

Seguindo o entendimento de Garofalo (2021), para uma preparação eficiente da cidadania digital é necessários que sejam esclarecidos com frequência para os alunos: a criação e o emprego seguro de senhas, especificando os riscos de seu uso; a importância de manter a privacidade, restringindo ao máximo a informação sobre dados pessoais ou telemáticos; o respeito aos direitos autorais, destacando que aquele conteúdo teve um autor e que o seu uso depende de uma autorização e muitos casos a citação da fonte. O desrespeito a estes procedimentos pode ser caracterizado como crime; destacar sobre os riscos de vírus que possam interferir no seu equipamento, colhendo dados ou até mesmo tornando inoperante toda produção existente, pois tal qual um vírus biológico, eles infectam todo suas ferramentas digitais, necessitando o uso de programa antivírus.

Não se deve separar o que os adolescentes fazem on-line de seus desejos e interesses mais amplos, de suas atitudes e valores. Sua relação com os públicos em rede é uma evidencia de seu interesse em fazer parte da vida pública. O que não significa que estejam utilizando as tecnologias como uma forma de escapar da realidade. O envolvimento dos jovens com as mídias sociais e com outras tecnologias é, na verdade, uma maneira de se envolver com um mundo social mais amplo.

No entanto como afirma Costa (2019), não é possível dissociar os interesses e aspirações dos adolescentes na interação on-line, pois a sua a socialização que adota na rede é uma prática associada ao seu modo de integração social. Este envolvimento apenas confirma o seu interesse em estar sintonizado com o mundo em que ela se relaciona.

Essa necessidade de acompanhamento exige uma reflexão e um debate continuado sobre como conciliar o desenvolvimento da autonomia com a privacidade das pessoas e com a sua liberdade. Trata-se dum aspecto que também levanta questões éticas muito sérias para quem acompanha, porque acompanhar não pode significar “fiscalizar”, e muito menos “policiar”, deve pressupor uma relação de confiança entre “acompanhante” e “acompanhador”. Por isso, numa perspectiva de educação e desenvolvimento, afigura-se essencial criar ambientes de responsabilidade distanciados de moralismos ou de puritanismos conservadores. A responsabilidade é, em primeiro lugar, cognitiva e, provavelmente, uma das mais importantes funções da educação (familiar, escolar, social). É uma tarefa muito árdua, difícil, que pode ser muito conflituosa, requerendo enorme sabedoria. (PATROCÍNIO, 2008, p.56).

Assim sendo, a missão educativa incumbida aos professores, a escola e a família para uma educação da cidadania digital fincada nos princípios éticos e

humanos, é altamente desafiadora, porém é perfeitamente exequível, visto a grande contribuição social que será capaz de produzir, contribuindo assim para a melhorias do relacionamento nas mídias sociais.

A responsabilidade da escola com o desenvolvimento integral do aluno afim de capacitá-lo a desempenhar com eficiência e responsabilidade a sua missão cidadã, ganha mais uma responsabilidade, que é educar o jovem para lidar com as novas tecnologias de modo apropriado, contribuindo assim para que ganhos sociais sejam ampliados. A necessidade de adequar os currículos e as práticas pedagógicas com abordagens sobre segurança digital, uso racional das redes sociais e bullying e cyberbullyng, assim como outras situações sensíveis.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os efeitos do bullying e cyberbullying são o âmbito das perspectivas do presente estudo. Esta pesquisa é interessante aos estudantes, aos docentes e comunidade escolar das instituições educacionais públicas ou particulares em âmbito global. Contudo, as limitações deste estudo partem da possibilidade de rotatividade dessas pessoas no decorrer do ano letivo nas escolas pesquisadas. Os conceitos de Ortega (1983) “ensimismamiento y alteração” são os principais a serem considerados filosoficamente.

O “ensimismamiento” diz respeito à reflexão que todo ser humano faz dentro de si mesmo que é o ato de pensar, mas pensar para o ser humano não é uma coisa dada ou automática assim como o peixe está para nadar. O exercício do pensar é algo laboroso e nisto consiste o processo de humanização do próprio ser humano no sentido de aprender a pensar. A “alteração” é o estado de alerta que todos os animais possuem; o ser humano também observa o seu entorno e percebe a sua circunstância ao seu redor. Neste sentido, o bullying na escola é problema de todos, o combate é missão da sociedade em geral.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMOEDO, Margarida I. Almeida. José Ortega y Gasset: A aventura filosófica da educação. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2002.

BAUER, Martin W. GASKELL, George. Pesquisa qualitativa com texto: imagem e som. Rio de Janeiro: Vozes, 2002.

BOGDAN, R.C.; BIKLEN, S.K. Investigação Qualitativa em Educação. Portugal: Porto Editora. 1994.

BRASIL. 2017 – Base Nacional Comum Curricular. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/conselho-nacional-de-educacao/base-nacional-comum- curricularbncc#:~:text=E%20no%20dia%2022%20de,no%20âmbito%20da%20 Educação%20Básica. Acesso 15 de jul. 2023.

COSTA, Daniella. 2019. A educação para a cidadania digital na escola: análise multidimensional da atuação dos professores enquanto mediadores da cultura digital nos processos de ensino e de aprendizagem. Disponível em:

https://tede.pucsp.br/bitstream/handle/22263/2/Daniela%20Costa.pdf. Acesso 19 de jul. de 2023.

FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. São Paulo: Paz e Terra, 2006.

GARAFOLO, Débora. 2018. O que é essa tal de cidadania digital? Acessível em: https://novaescola.org.br/conteudo/12617/o-que-e-essa-tal-de-cidadaniadigital. Acesso 17 de jul. 2023.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

O que diz a Lei 13.185/2015 – Combate ao bullying – Disponível em:

<abraceprogramaspreventivos.com.br> acesso em: <09 de Junho de 2023>

ORTEGA Y GASSET, José. El Hombre y La gente. Espanha: Alianza Editorial,1954.

ORTEGA Y GASSET, José. Ensimismamiento y Alteración; Meditación De La Técnica. Espanha: Alianza Editorial, 1983.

ORTEGA Y GASSET, José. Meditaciones Del Quijote. Espanha: Alianza Editorial,1957.

PATROCÍNIO, T. (2008). Para uma genealogia da cidadania digital. Educação, Formação & Tecnologias . Acessível em: https://novaescola.org.br/conteudo/12617/o-que-e-essa-tal-de- cidadania-

digital?gclid=EAIaIQobChMI05PC9jj8wIViZWzCh3MsQHSEAAYASAA EgLMBfD_BwE. Acesso 15 de jul. 2023.

ROSARIO, Bruna Pinheiro dos Santos Lopes do. PROTAGONISMO JOVEM – CRIAÇÃO E GESTÃO DE CONTEÚDO DO APLICATIVO “VIVA FELIZ:

BULLYING NÃO!” Dissertação de mestrado, or. Raquel Martins Fernandes. IFMT: Cuiabá, 2021, f.117.

SCHNEIDERS, C. et al. VIVA FELIZ: BULLYING NÃO – UMA PERSPECTIVA DE OPOSIÇÃO AO BULLYING. Anais do CIET:EnPED:2020 – (Congresso

Internacional de Educação e Tecnologias, Encontro de Pesquisadores em Educação a Distância, São Carlos, ago. 2020. ISSN 2316-8722. Disponível em: VIVA FELIZ: BULLYING NÃO – UMA PERSPECTIVA DE OPOSIÇÃO AO

BULLYING | Anais do CIET:EnPED:2020 – (Congresso Internacional de Educação e Tecnologias | Encontro de Pesquisadores em Educação a Distância) (ufscar.br). Acesso em: 17 jul. 2023.

SOUSA, M. Cristina.2018. Educação digital: a base para a construção da cidadania digital. Acessível em: mpactum- journals.uc.pt/debatereuropa/article/view/_19_5. Acesso 15 jul 2023].

Como Plantar um Nabo

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Texto de Nuno Lopes Margalha.

Para plantar um nabo precisamos de terra, uma sachola de qualidade, água, e uma cadeira confortável. O primeiro passo será, simplesmente, comprar a planta. Não é assim tão fácil como possa parecer, pois tanto nas lojas, como nas feiras, normalmente, não se consegue comprar só uma planta, apenas várias. Portanto compre várias. Coloque uma de parte e reserve as restantes. Passamos de seguida para a preparação da terra, um passo fundamental para o livre desenvolvimento das raízes sem o obstáculo da terra firme. Para este passo será necessário cavar um buraco. Cave sem restrições até que a terra fique do seu agrado. A abertura de um bom buraco é fundamental, deve ter o tamanho ideal, nem muito fundo, nem muito superficial, nem muito largo, nem muito estreito. A perspectiva sobre a dimensão correcta do buraco é algo que se ganha com experiência. É preciso educar o olho. Para isso recomendamos que se façam várias experiências com os nabos reservados anteriormente. Cave buracos com diferentes dimensões e estude os resultados. Quando sentir que ganhou a capacidade para fazer buracos correctos, faça um.

Pegue na planta com cuidado e coloque-a no seu lugar. Lembre-se por essa altura que a mão que sustém a planta será ela própria terra dentro de alguns anos. Aconchegue a planta para que se mantenha firme. Agite as mãos vigorosamente para se livrar da terra que ficou agarrada, tal como de restos de pensamentos existencialistas. Segure a sachola vigorosamente, e cave uma caldeira em torno da planta. Cavar uma caldeira é muito simples, basta agarrar a sachola como se se estivesse a agarrar a própria vida, apontá-la aos céus como quem evoca o poder dos deuses e arremessá-la sem hesitação contra a terra, fazendo-a tremer ao sentir a pulsão da vida. Por fim, regue a caldeira. Regue-a abundantemente. Por esta altura pode considerar-se que a planta está plantada. Parabéns! Resta-lhe sentar-se na cadeira e ficar confortavelmente a ver a planta crescer.

Esteja atento à meteorologia: se fizer calor alivie a planta com água fresca, se chover deixe-a estar sossegada. Ver uma planta crescer sentado numa cadeira, ao contrário do que possa estar a pensar, não é perda de tempo. Há formas verdadeiramente inúteis de perder tempo, como ficar sentado numa cadeira, a olhar para um ecrã de vidro, enquanto discute acerca dos limites da liberdade com desconhecidos. Efectivamente, tendo em consideração que o vidro provém da areia, a diferença entre olhar para a terra ou para um ecrã pode não ser tão abismal. No entanto, esteja certo de que o seu tempo será mais bem empregado se optar por passá-lo a ver um nabo crescer.

Quando se termina uma discussão acerca dos limites da liberdade, frente a um vidro, ou mesmo frente a uma pessoa, raramente se come um nabo. Por outro lado, se ficar sentado a ver um nabo crescer, às tantas, pode comê-lo. Comer um nabo, mesmo que seja crú, é uma experiência muito agradável, para além de ser bastante saudável. Os dentes trincam conteúdo real, existente e concreto, o que não acontece numa discussão acerca dos limites da liberdade. Quando se discute acerca dos limites da liberdade, no máximo, mastigam-se palavras, os nabos sabem melhor. Não há palavras com sabor a nabo. Ficar sentado a ver um nabo crescer permite-lhe não só descansar da tarefa de cavar a terra, como lhe permite ainda passar bastante tempo consigo próprio na natureza.

A discussão acerca dos limites da liberdade raramente acontece na natureza. Normalmente acontece frente a um ecrã, como referimos, ou no máximo, num bar de uma cidade qualquer. Nas vilas e aldeias discutem-se menos os limites da liberdade. Por outro lado, nas vilas e nas aldeias plantam-se e comem-se mais nabos. É difícil plantar um nabo numa cidade. Imagine-se a plantar um nabo no Parque Eduardo VII, seguindo meticulosamente as nossas instruções. Ainda que o cenário possa ser do seu agrado, não seria sensato escolher tal local para se perder em contemplações diurnas, muito menos noturnas. Todos sabemos que, durante a noite, a luminosidade urbana facilita a observação do nabo comparativamente à penumbra campestre. Contudo, o ruído e a incessante movimentação de transeuntes, são aspectos prejudiciais para a observação do crescimento do nabo. O campo, por seu lado, também tem desvantagens, embora as pessoas tenham mais descanso e sossego quando se sentam a ver crescer nabos no campo, é lá precisamente que estas plantas estão mais ameaçadas. No campo há mais caracóis, lagartas e afídeos, entre outros bichos que se alimentam da rama do nabo, a nabiça. Na cidade esta bicharada não abunda, porém a terra citadina tem mais metais pesados, especialmente, quando há estradas com muito trânsito por perto, como acontece no Parque Eduardo VII. Apesar do delicado ruído do crescimento do nabo ser quase imperceptível ao nosso ouvido em qualquer situação, no campo, ao aproximarmos as nossas orelhas das nabiças e aguardarmos o tempo devido, podemos eventualmente ouvir o subtil friccionar das folhas enquanto se desenvolvem. Numa cidade é mais difícil ouvir as folhas a roçar umas nas outras, e não só por causa do trânsito, devemos culpar também os aviões, as sirenes, o metro, os ruídos das obras das redondezas, entre outros sons menos agradáveis do que o delicado frotteurismo das nabiças.

Embora esta seja uma receita acerca de como plantar um nabo, é de ressalvar que um dos bónus de plantar um nabo é ficar também com um pequeno molho de nabiças, caso não tenham sido comidas por bichos. As nabiças não devem ser comidas cruas, como o nabo, podem acrescentar-se a uma sopa, de batata por exemplo. Não abordaremos o procedimento da plantação de uma batata. Especialmente porque, até que surjam as primeiras folhas verdes, decorre um longo período com nada mais a observar além da própria terra. É também uma tarefa difícil de descrever de forma clara, e não é de todo aconselhada a principiantes. Há procedimentos, como o da plantação da batata, difíceis de passar para palavras. Mesmo que a explicação fosse muito clara existiria sempre um erro de base pelo simples facto de se estar a explicar o funcionamento do mundo através de palavras escritas. Plantar um nabo, plantar uma batata, ou mesmo criar uma galinha, um coelho ou um cabrito, é uma tarefa que se explica mais facilmente em silêncio. É normalmente também em silêncio que se colhe um nabo, uma batata ou que se mata uma galinha, um coelho ou um cabrito. A pessoa que colhe e a pessoa que mata não fala, nem escreve durante o processo de matar ou colher. Tal como quem discute acerca dos limites da liberdade também não colhe ou mata durante a discussão. Seria deveras insólito alguém debater acerca dos limites da liberdade enquanto abatia um cabrito para posterior degustação. O campo oferece-nos inúmeras lições, todas de presença obrigatória. Se a ideia de ver um nabo a crescer, presencialmente, não lhe agrada, procure conversar mais com quem se dedica a essa tarefa, pode ser que ainda acabem a comer um nabo juntos. Caso contrário, #planteumnabo e diga-nos como correu.

O Movimento Sufragista (E Outros) Não Vingou Pela Violência

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Aproveitando a visibilidade e o debate lançado por algumas formas de protesto distintas na paisagem cultural portuguesa nas últimas semanas — por exemplo, numa livraria, a propósito de um lançamento de um livro, com palavras de ordem e megafone; em palestras de ministros, com arremesso de tintas às pessoas presentes; e os já clássicos e bastante selvagens quebramentos de montras — queremos lembrar um facto frequentemente mitificado por alguns cultores do arruaceirismo: o movimento sufragista, que pugnou pelo voto universal das mulheres e pela sua integração como membros plenos da sociedade do início do passado século, não foi bem sucedido através da violência mas sim devido às próprias transformações sociais e históricas que decorreram então. Tal representação desse movimento como fundamentalmente dotado para a intervenção disruptiva no espaço público no seu todo é falsatendenciosa e representa uma mitificação grotesca dos processos complexos que essa transformação social representou. Em primeiro lugar, convém destacar que qualquer movimento de transformação significativa da sociedade tem expressões de protesto que passam por cenários antagonísticos envolvendo ou não violência da parte dos protestantes ou da parte das autoridades. Foi o que se passou com o sufragismo, em que se fizeram greves de fome — violência exercida sobre os próprios manifestantes — interromperam-se eventos públicos e incendiaram-se marcos de correio — violência exercida sobre terceiros e sobre o público em geral. Isso é inegável. Em segundo lugar, é falso, porém, que estas expressões fossem majoritárias e significativas no movimento. Os setores minoritários do mesmo que enveredaram pela violência integram-se e, aliás, misturam-se com, tendências de combate bárbaras desse início do século partilhadas por anarquistas e comunistas; não foram de todo essas ações que substanciaram o papel da mulher como a de um ator cívico de pleno direito — como também não foram bombas e barbarismo que deram força a comunistas ou anarquistas — mas sim uma coisa muito simples: o seu papel na primeira Guerra Mundial. Sendo obrigadas pela ausência da população masculina a tomar trabalhos e atividades tradicionalmente destinadas aos homens, ganharam muita força respeito junto da opinião pública, ao contrário das anteriores acções, que tinham contestação dentro do próprio movimento. No final da guerra, decorrendo deste contexto, foi aprovado o primeiro direito ao voto parcial para as mulheres. Esta é a verdade histórica: o sucesso do movimento sufragista não teve absolutamente nada a ver em primeira linha com violência exercida sobre terceiros mas sim com o respeito que ganharam junto da opinião pública com a sua participação cívica na guerra, ao que acresce algumas expressões de protesto como as greves de fome (aspectos das quais estão retratados nas imagens em baixo) que naturalmente mereceriam também mais respeito do que desordeirismo de modo geral. Por último, e em conclusão, ao contrário do que alguns actores cívicos mal resolvidos possam pensar, é muito raro a violência política trazer resultados práticos positivos, quer a nível de apoio da população — e lembremos que de modo geral ninguém gosta de violência, nem mesmo os próprios partidários das causas —, quer a nível de desmantelamento de estruturas físicas ou sociais que limitem os objectivos dos protestantes. Lembremos que as grandes revoluções políticas na segunda metade do século XX, já após o barbarismo sanguinário e suicida das grandes guerras, foram muitas travadas com notável inteligência através do caminho da paz e da não violência, como com Mahatma Ghandi, Nelson Mandela, Martin Luther King, ou mesmo as extraordinariamente pacíficas, comparativamente, transições para a democracia de Portugal e de Espanha. Cuidado, portanto, com a glorificação do desordeirismo inócuo, que pode servir apenas para veiculação de impulsos primitivos para o barbarismo que existem em todos nós.

Incompatibilismo, Responsabilidade Moral e Livre-Arbítrio

Algumas excursões sobre teses filosóficas a propósito do conceito de livre-arbítrio. Texto de Charles Y. da Silva Rodrigues e Paula Carvalho de Figueiredo. Imagens retiradas da obra Chess in Art.

A ideia de que vivemos num mundo de continuidade, com possíveis relações entre o sentido de vida de umas pessoas com outras implica uma serie de interrogações sobre a liberdade: somos livres? O ser humano tem a liberdade para decidir sobre os seus atos? E será que a responsabilidade dos seus atos pode ser atribuída às suas decisões? Mas, não menos importante é a pergunta sobre o que é a liberdade? O propósito destas indagações restringe-se ao tópico de saber se um indivíduo tem a possibilidade de decidir entre uma coisa e outra, e que a escolha no esteja determinada pelas leis naturais ou pelos eventos do passado. Uma ideia que tem desencadeado fortes posições argumentativas entre o compatibilismo, que acredita na liberdade do homem ainda quando tudo está determinado e o incompatibilismo, que rejeita esta proposta, de uma liberdade determinada.

Em termos conceptuais, a proposta da incompatibilidade permite pensar que uma pessoa pode realizar ações de maneira livre, sendo que, quando esta postura procura sustentar uma liberdade sem determinismo, estará propondo uma tese libertaria ou de libertismo. Esta proposta pretende evitar que a ideia de responsabilidade moral seja rejeitada por um determinismo extremo, que levanta a questão: se uma pessoa tem duas possibilidades de ação, por que razão faz uma e não a outra? Independentemente, de tudo o que isto implica, tal possibilidade tem como consequência a existência de duas opções, logo isto permite aceitar a ideia do livre-arbítrio.

No obstante, a teoria libertaria considera-se como uma posição implausível, baseada em eventos que não aconteceram, o pensamento incorre em situações como por exemplo: se A ameaça a B para que realize uma determinada ação e B realiza, então, para o libertário existia a possibilidade de B não ter realizado a ação, promulgando assim a possibilidade de um certo poder de escolha. Em outra ordem de ideias, as restrições fisicalistas casuais são questionadas a partir de alternativas casuais e não físicas ou, pelo menos, não sendo de todo físicas, no sentido em que não se concreta como ação; e o enfase da explicação casual de uma ação livre invalida a postura libertaria extremista: Liberdade da Indiferença, constructo teórico que sustenta que os atos são livres e indiferentes aos motivos de quem os realize.

Enquanto, para os compatibilistas a liberdade existe sem qualquer restrição para o determinado, isto é, que dentro do determinado agimos em liberdade, considerando essencialmente o pensamento de que as ações podem ser feitas, porque realmente se querem fazer; e ainda, que existissem outras possibilidades, continuariam sendo feitas como se pensou inicialmente. Neste sentido, o Princípio das Possibilidades Alternativas de van Inwagen parece incoerente, tendo Harry Frankfurt fundamentado a sua posição e as suas críticas, quase exclusivamente, na responsabilidade moral das ações, necessitando de compatibilizar: liberdade com determinismo.

Neste ensaio defende-se o problema da liberdade, argumentando a favor de seguinte tese:

  1. O Princípio das Possibilidades Alternativas fundamenta-se na existência das crenças e desejos por parte das pessoas, atribuindo-lhes assim a responsabilidade moral dos seus atos.

Nas seguintes secções será possível verificar, que à exceção das verdades intocáveis, isto é, as verdades que não necessitam da ação das pessoas, existem as verdades que dependem das crenças e dos desejos; por essa razão, temos a possibilidade de agir de uma maneria ou de outra, precisamente porque as ações dependem das crenças e dos desejos de quem as realiza.

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O incompatibilismo é defendido neste trabalho por Peter van Inwagen através do argumento modal da consequência, ou seja, que os seres humanos são parte de um mundo onde qualquer ação ou acontecimento é consequência necessária de uma ação anterior, das leis da natureza e de alguns atos que dependem de nós. Esta corrente opõe-se à ideia de que o livre-arbítrio é compatível com o determinismo, por outras palavras, opõe-se ao compatibilismo, posição que considera que qualquer pessoa é livre, apesar de tudo estar determinado por ações anteriores e pelas leis da natureza.

Este problema da compatibilidade aparece frequentemente associado ao problema tradicional do livre-arbítrio, que procura saber se as pessoas têm ou não liberdade nos seus atos. Neste sentido, van Inwagen considera que para discutir e analisar a questão do compatibilismo é benéfico dividir a resposta em duas possibilidades: ter liberdade e não ter liberdade, essencialmente, porque a suspeita recai na ideia de que não temos livre-arbítrio, e no caso de se verificar que o determinismo é compatível com o livre-arbítrio, o problema tradicional também estaria solucionado.

Com efeito, existe uma relação importante entre a maneira como respondemos ao compatibilismo e às opções do problema tradicional. Desta forma, se defendemos o incompatibilismo estamos comprometidos com a proposição condicional, de que se o determinismo é verdadeiro, então não temos livre-arbítrio. Ora, isto quer dizer que no âmbito do problema tradicional temos outras posições: temos livre-arbítrio, pelo que o determinismo é falso (libertismo); tudo está determinado e, consequentemente, não temos livre-arbítrio (determinismo e determinismo radical); e que o livre-arbítrio é impossível, pois não é compatível nem com o determinismo, nem com o indeterminismo (impossibilitismo). Mas se defendemos o compatibilismo estamos comprometidos com a possibilidade do livre-arbítrio, apesar de tudo estar determinado; esta afirmação implica a negação que se o determinismo é verdadeiro, então não temos livre-arbítrio (determinismo moderado).

No texto The Consequence Argument van Inwagen propõe que existem certas verdades que não necessitam de ser verificadas referindo-se às preposições verdadeiras intocáveis, por exemplo, a existência dos seres humanos. Não obstante, o filósofo também propõe que algumas verdades (ainda que seja em parte) dependem de alguém, por exemplo: nascer num determinado ano, que não dependendo da pessoa que nasce, poderia depender dos progenitores (isto partindo da existência do livre-arbítrio, porque os pais podiam não ter casado ou não ter tido filhos). Outro exemplo importante na obra, o do lançamento do dado, que conforme refere van Inwagen, não depende do indivíduo a forma como cai o dado, se no número 4 ou no 6, mas depende da forma como foi lançado (mais adiante retomaremos este mesmo exemplo).

Assim, van Inwagen formula o argumento da consequência:

Se o determinismo é verdadeiro, então as nossas ações são consequências das leis da natureza e de acontecimentos que ocorreram num passado remoto. Mas tanto as leis da natureza como aquilo que aconteceu antes de termos nascido não dependem de nós. Logo, as consequências destas coisas (incluindo os atos que realizamos agora) não dependem de nós.

Este argumento implica que o determinismo é verdadeiro e não temos livre-arbítrio; o autor, desde a lógica modal proposicional e da condição que o determinismo é verdadeiro refere, que então, ninguém tem ou teve alguma vez a possibilidade de escolha acerca de qualquer proposição verdadeira, inclusive as proposições sobre as ações dos seres humanos aparentemente livres. Neste sentido, o argumento é uma prova condicional, que considera o determinismo verdadeiro, e onde ninguém tem, ou alguma vez teve, qualquer escolha acerca de qualquer proposição verdadeira, inclusive proposições sobre ações aparentemente livres dos seres humanos.

Nesta linha de pensamento, van Inwagen menciona um outro exemplo, importante, para o entendimento do seu argumento: a explosão do sol no ano de 2027, e se assim for, então teremos de assumir também que a vida na terra termina no ano 2027, porque o sol vai explodir e ninguém tem, ou teve alguma vez qualquer opção de escolha sobre a explosão do sol no ano de 2027. Agora, para invalidar este exemplo, apenas é necessário que seja possível encontrar um contraexemplo.

Porém, o contraexemplo surge do argumento da consequência, através da análise condicional, isto é, a partir de uma interpretação condicional do Princípio das Possibilidades Alternativas (PPA); só podemos ter livre-arbítrio (considerando o sentido da responsabilidade moral) se: pudermos escolher agir de modo diferente daquele que agimos (possibilidades alternativas); e se pudermos agir de maneira diferente daquela que agimos, caso tivéssemos crenças e desejos diferentes daqueles que efetivamente temos.

Vejamos, van Inwagen propõe que nenhum ser humano é invisível, mas se alguém tivesse em seu poder um único frasco com uma poção mágica que o tornasse invisível, então poderia escolher entre tomar a poção e ficar invisível, ou não tomá-la e permanecer visível. Neste caso, a proposição de que nenhum ser humano é invisível seria falsa, logo, não poderia ser uma verdade intocável.

Retomando o exemplo da explosão do Sol no ano de 2027, podemos referir que a intocabilidade das verdades, que não dependem de ninguém, parecem aceitáveis. Por um lado, porque essas verdades têm que ser necessárias, independentemente do como ou porquê; por outro lado, porque esta regra assenta na aceitação de declarações condicionais (supondo que a regra condicional é valida). Assim, se o sol explodir no ano de 2027, então a vida na Terra terminará no ano 2027, esta segunda premissa depende da primeira, pelo que nada podemos fazer em relação à explosão do sol no ano 2027. A consequência seria que a vida na Terra terminaria no ano 2027, e esta segunda premissa passaria a ser uma verdade intocável.

Para concluir, pensemos que o determinismo oferece a seguinte proposta condicional: van Inwagen escreve um ensaio chamado “O argumento da consequência”, sob a aceitação da declaração condicional de que van Inwagen escreveu esse ensaio com base em tudo o que é determinado pelo passado e pelas leis naturais. Assim sendo, seguindo a mesma ideia, a proposição também supõe que van Inwagen nunca teve qualquer liberdade para decidir se deveria ou não escrever o ensaio. O que implica que o filósofo nunca teria tido a capacidade de não escrevê-lo; e se assim fosse, escrever um ensaio chamado “O argumento da consequência”, não teria sido uma verdade intocável. Isto ocorre porque o determinismo sustenta que, para um determinado momento, existe apenas uma situação possível, considerando que cada instante é uma consequência necessária do que ocorreu anteriormente e parte das leis da natureza.

Se a conclusão do argumento é verdadeira e cada proposição é uma verdade intocável, isto implica que o determinismo é verdadeiro e que o livre-arbítrio não existe, uma vez que ninguém é capaz de fazer algo diferente do que faz. No argumento que acabamos de apresentar, a regra condicional é o seu ponto débil, porque o argumento da consequência nesta questão da compatibilidade entre o livre-arbítrio e o determinismo depende da validação da regra condicional.

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O Princípio das Possibilidades Alternativas refere que uma pessoa só é moralmente responsável de um ato caso tivesse tido outra possibilidade de ação além daquela que realmente realizou; se pensamos que uma pessoa é responsável por uma ação quando, na realidade, não tinha outra opção de ação, então seria falso afirmar que essa pessoa é moralmente responsável pelo que fez. Aceitar esta condição implica acreditar que a responsabilidade moral e o determinismo são incompatíveis. Neste contexto, Harry Frankfurt acredita que o Princípio das Possibilidades Alternativas é falso, porque uma pessoa é moralmente responsável pelas suas ações, ainda que não tivesse a possibilidade de agir de maneira diferente.

Refletir sobre o Princípio das Possibilidades Alternativas, como menciona o filósofo, envolve um exercício de indagação sobre situações em que a ação realizada fosse a única possibilidade — não porque não existam outras possibilidades — mas devido ao facto de que a pessoa não consegue evitar de realizar o que fez. Isto pode ocorrer, por exemplo, em circunstâncias de coação, onde a pessoa é forçada a agir contra a sua vontade; uma situação de sugestão hipnótica, poderia impedir a pessoa de realizar uma certa ação, que originalmente pretendia realizar; ou em qualquer cenário em que um impulso interno conduz uma pessoa a atuar da forma como atua. Neste sentido, as situações que se mencionou anteriormente podem não apenas limitar a realização de uma ação de outra maneira, mas também, ser aquelas que desencadeiam o motivo ou o impulso que levam à ação que finalmente se realizou.

Importa destacar que em algumas situações, as circunstâncias podem, por si só, ser uma condição suficiente para que alguém leve a cabo uma ação e, ao mesmo tempo, impossibilitem que a pessoa execute a ação de uma outra maneira; não obstante, essas circunstâncias por si, não impõem a ação ou a produção de qualquer ato. O anterior quer dizer, que uma pessoa pode realizar uma ação onde as circunstâncias não permitam outra alternativa, mas sem que essas mesmas circunstâncias sejam a motivação para ter executado tal ação. Em outras palavras, as circunstâncias em si podem ter desempenhado um papel na influência ou na motivação da pessoa no momento em que agiu da forma como agiu.

De maneira geral, estamos de acordo em que se uma pessoa foi coagida a realizar uma ação, então não a fez de maneira livre e, portanto, assume-se que não é moralmente responsável por tal ação. Tendo em consideração esta concordância, se uma determinada pessoa é ameaçada e realiza a ação solicitada por quem a ameaçou, e não poderia ter feito mais nada a não ser aquilo que fez sob coação, então essa pessoa não é responsável pelo que fez. No entanto, a pregunta que se coloca é: que característica tem este tipo de situação que nos permite afirmar, neste juízo, que a pessoa ameaçada não é moralmente responsável pelos seus atos?

Harry Frankfurt propõe no seu trabalho uma serie de exemplo sobre Jones (J) que nos levam a refletir sobre o Princípio das Possibilidades Alternativas:

J (1) tem razões para realizar uma determinada ação, mas, entretanto, foi ameaçado por alguém, com consequências muito severas, caso não cumpra o que lhe é exigido por meio de coação. Responsabilização moral: se J realiza a ação que originalmente tinha planeado antes da ameaça, podemos afirmar que a ameaça não teve qualquer efeito, e assim não existiu coação, mantendo J a responsabilidade moral sobre o seu ato;

J (2) outra situação, J age de forma precipitada devido ao medo da ameaça e faz o que lhe pediram sob coação. Responsabilização moral: neste caso, existe coação e não há responsabilidade moral para J;

J (3) ou, uma vez que a ação que J está sendo forçado a realizar por meio de coação, coincide com a mesma ação que ele teria feito antes de receber a ameaça; torna-se bastante complicado entender as motivações de J, porque não se sabe o que realmente levou J a agir da forma como agiu: por vontade própria, medo da ameaça ou indiferença? Responsabilização moral, neste caso poderíamos pensar que J tem responsabilidade moral pelo que fez.

O caso J (3) poderia ser um perfeito contraexemplo de que a coação libera o indivíduo da responsabilidade moral, devido à falta de certeza sobre qual foi a verdadeira motivação para que J realizasse tal ação, e que coincidia com a ação que lhe foi solicitada sob ameaça. O facto, é que independentemente da posição que tomemos em J (3), temos de reconhecer que a doutrina de que a coação exclui a responsabilidade moral não é uma particularidade do Princípio das Possibilidades Alternativas. Assim que este contraexemplo ao Princípio das Possibilidades Alternativas demonstra que o princípio é falso.

Ainda assim, Harry Frankfurt propõe uma quarta situação para J:

A nova suposição é que alguém, Black (B), deseja que J (4) realize uma determinada ação. Tendo em conta que B está disposto a fazer qualquer coisa para que essa ação ocorra, mas prefere não ameaçar imediatamente, esperando até que J (4) esteja prestes a tomar a decisão sobre o que deseja fazer. Se J (4) decide fazer o que B quer, este não intervém; mas se J decide fazer algo que não seja o que B quer, então B intervém, seja por coação, hipnose, manipulação mental ou por qualquer outro meio, para garantir que J (4) faça o que B quer. Ora, fica entendido que mesmo que B não tivesse a necessidade de intervir, a responsabilidade moral seria a mesma, porque finalmente, a ação depende de J (4).

Isto porque o facto de uma pessoa não ter tido a possibilidade de evitar uma ação; é por si só, uma condição suficiente para que a tenha realizado. Que uma pessoa não tenha realizado uma determinada ação, seja por não poder ou por não querer, resulta na mesma consequência. Neste caso, emitir um juízo de valor sobre a pessoa que realiza a ação não ajuda a entender a razão do seu comportamento ou aquilo que poderia ter feito em diferentes circunstâncias.

Este é o argumento pelo qual, Harry Frankfurt, considera que o Princípio das Possibilidades Alternativas é errôneo, afirmando que, quando se diz que uma pessoa não tem responsabilidade moral sobre uma determinada ação é o mesmo que desculpá-la por ter realizado tal ação, mesmo que existam circunstâncias que tornem impossível a realização da ação; ou quando essas mesmas circunstâncias não permitem a realização dessa ação.

Esta questão do Princípio das Possibilidades Alternativas não afeta de maneira significativa os argumentos dos que confiam no princípio original de que a responsabilidade moral e o determinismo são incompatíveis: se existe uma determinação casual para que se realize uma ação, é verdade que a pessoa executou essa ação em virtude desses mesmos determinantes; e se atuou por determinação casual, significa que a pessoa não podia ter feito outra coisa (esta segunda, é o argumento dos que defendem a incompatibilidade). Porém, quando uma pessoa se desculpa pelo que fez, quando nos diz que poderia ter agido de outra maneira, supomos que está a falar com sinceridade; isto é, aceitamos estes enunciados porque presumimos que as pessoas dizem a verdade.

Na opinião do filósofo, Harry Frankfurt, o Princípio das Possibilidades Alternativas deve ser substituído por: uma pessoa não é moralmente responsável pelo que fez simplesmente porque não opção; e, portanto, esta versão parece não entrar em conflito com a visão de que a responsabilidade moral é compatível com o determinismo. Isto pode ser verdadeiro quando existem circunstâncias que tornaram impossível que uma pessoa evitasse fazer uma ação, sendo que estas mesmas circunstâncias motivaram a pessoa a realizar o que fez; porque a pessoa realmente fez aquilo que queria fazer; e agiu porque era o que realmente queria fazer, por isso é incorreto dizer: que fez o que fez, porque não tinha outra opção.

***

Existem fatores importantes para defender o Princípio das Possibilidades Alternativas de Peter van Inwagen. Desde a perspetiva psicológica quando se introduz o conceito de desejo, que por um lado, justifica a possibilidade que alguém que realiza uma ação pudesse ter tido a capacidade de escolher outra opção; por outro lado, essa ideia de possibilidade não é metafisicamente irrelevante. Não obstante, se pensamos em um mundo determinista, talvez seja difícil sentir desejos diferentes àqueles que temos, porque, estes têm de ser coerentes com um certo estado das coisas, bem como com os estados do mundo que antecederam esse desejo e em conformidade com as leis naturais. Por outras palavras, o determinismo sustentaria que até os estados psicológicos, como é o caso dos desejos, são uma determinação imutável do mundo, então são verdades intocáveis.

Neste caso, seria incongruente afirmar que podemos realizar ações de modo diferente daquela em que agimos, porque os nossos desejos estariam alinhados com a ação. Mas se assim for, então não seria possível argumentar que um desejo determinado é compatível com as leis da natureza. De acordo com as teorias deterministas, um desejo determinado não pode ser compatível com algo que teve um estado prévio; uma vez que esse estado prévio é o que determina, mas não pode estar determinado em si. Isto parece especialmente verdade se associamos a determinação do desejo às leis da natureza, porque então não seriam leis naturais, mas sim, mais determinação, sem antecedentes ou sentido.

Entende-se que uma ação que ocorre em um determinado momento, teve um começo e parece que, nesse início, poderiam existir crenças e desejos que motivaram ou impediram o início de tal ação. Assim sendo, a ação dependia de algo mais que do sucedido antes ou das leis da natureza, dependia da vontade de realizar (ou não) uma ação que poderia ou não estar determinada. Retomando o exemplo do lançamento de um dado, podemos pensar que lançar o dado não depende das crenças ou desejos de o fazer, assim como da ação em si, que resultou no dado caindo no número 4; mas seria importante pensar neste resultado, será que estava determinado sair o número 4? De facto, a aceleração do objeto depende das leis físicas ou naturais, mas também depende da motivação do jogador, onde a motivação é a força com que este lança o dado.

Ainda assim, o determinismo pode considerar que a motivação do jogador está relacionada com eventos anteriores; isto é, se o jogador tem estado a ganhar ou a perder; mas o certo, é que sempre existem crenças e desejos (se o jogador está a perder, quere ganhar). É por isso, que os jogadores frequentemente manifestam pensamentos e rituais mágicos, que são crenças e desejos para que o dado caia no número que eles necessitam (para ganhar). Nesta linha de pensamento do incompatibilismo, onde se podem realizar pelo menos algumas ações livremente, não há espaço para reconciliar liberdade e determinismo, assim, as pessoas são responsáveis pelos seus atos, sempre e quando possam realizar um ato com diversas possibilidades de escolha.

Bibliografia

Faria, D. (2019). (β) não dá Base ao Incompatibilismo entre Determinismo e Livre-Arbítrio. Revista Portuguesa de Filosofia , T. 75, Fasc. 3, Teorias Políticas Medievais, pp. 1951-1976.

Frankfurt, H.G. (1969). Alternate Possibilities and Moral Responsibility. The Journal of Philosophy, Vol. 66, No. 23, pp. 829- 839. Journal of Philosophy, Inc.

van Inwagen, P. (2008). The Consequence Argument. in Peter van Inwagen & Dean W. Zimmerman (eds.) Methaphysics: The Big Questions. Blackwell (2008).

Edição: Setembro 2023

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O regresso à plena actividade! Com nova chamada para artigos, oito inéditos, mofo, cartas de amor, nomenclatura, calão, Highsmith, quotas, beijos, abuso, parafilias, tourada, cancel culture e submarinos. Versão da web aqui.

Nesta edição do mês de Setembro, começamos por mostrar um ensaio do músico e etnomusicólogo Vítor Rua que descreve como as inovações musicais no séc. XX foram beber a tradições primitivas de todos os continentes, profusamente ilustrado com exemplos.

Tivemos também o prazer de publicar os primeiros três testemunhos de uma série que juntaremos no mesmo documento, do congresso “Os católicos na luta contra a ditadura”, promovido pelo movimento Não Apaguem a Memória e pelo Instituto São Tomás de Aquino em 2014.

Trouxemos uma das últimas entrevistas de Urbano Tavares Rodrigues, neste caso sobre Ferreira de Castro e a relação entre ambos, em Lisboa, a 6 de Maio de 2013, conduzida por Ana Cristina Carvalho.

Outro ensaio, desta feita sobre as escolhas de carreira do actor Charlton Heston e de como estas reflectem a sua tendência politicamente conservadora, em particular na trilogia Soylent Green, Planet of the Apes e Omega Man, da gesta de João N. S. Almeida.

Também se impuseram este mês alguns comentários sobre as complexidades das interacções entre homens e mulheres, no dealbar do século XXI, nas sociedades ocidentais. É uma crónica da autoria de Ricardo Fortunato.

A esta última apensamos, dentro do mesmo tema das dinâmicas sexuais, uma breve reflexão em torno do tema do poder subterrâneo da mulher sobre o homem, na obra Sunrise de F. W. Murnau, da autoria de Jorge Filipe Carvalho.

Seguiu-se mais um capítulo dentro da nossa costumeira série dedicada ao bizarro e a pérolas musicais escondidas: são merecedores de atenção uma cantora dos anos 20, uma lenda do género psicadélico dos anos 70 e um número clássico de reggae do começo dos anos 80, todos do século passado, como é evidente. A autora é a já conhecida Cláudia Zafre.

Seguimos ainda com uma breve e bem-humorada crónica de Vítor Vicente sobre confusões memoriais e conceptuais levantadas pela relação entre a película Barbie e a cultura de outrora e a cultura de agora.

Chamada para Artigos

Neste início de ano lectivo, convidamos todos os interessados, dentro e fora das universidades, a submeterem propostas para artigos — ensaios, crónicas e críticas — que podem chegar-nos numa fase já concluída ou enquanto versões incompletas, meros esboços ou apenas ideias. Podem escrever-nos sobre temas das vossas áreas de estudo e investigação ou sobre os tópicos que preferirem. Recomendamos em particular aos membros da comunidade académica que aproveitem conteúdos frequentemente desperdiçados — como trabalhos para cadeiras e seminários, apontamentos, estudos parciais, trabalhos de campo, relatórios, registos de conversas e debates, etc. — para os dar a conhecer ao mundo. Teremos todo o prazer de ajudar a convertê-los em formato legíveis pelo público em geral. Contatem-nos em geral@revistaminerva.pt.

Cheiro a Mofo e Cartas de Amor

Não é infrequente ouvir-se a referência ao cheiro “a mofo” como algo de negativo, representando, modo geral, uma antiguidade ultrapassada face às ideias luminosas do presente auto-convencido e invencível. Cremos que esta reputação é particularmente ingénua e de larga maneira até desprezível. Se consultarmos aqueles que são, pela função, tradição e unanimidade social, considerados “templos do saber” — como bibliotecas, universidades com história, arquivos, ou até mesmo igrejas — encontraremos com frequência o tal cheiro a “mofo” de que tanta gente se queixa. Tal associação é obviamente nobre, de características vetustas e duradouras, não sendo de todo a sensação de um lugar ortodoxo e ultrapassado, mas antes de paz, conhecimento e disposição crítica para o estudo e para o pensamento. Não se compreende assim a reputação que o termo correntemente goza, sendo que é particular de certa espécie de gente mental e olfativamente dona de determinada sensibilidade frágil. Tal diferença entre quem está habituado a frequentar as cátedras universitárias e esse tipo de pessoa cuja tolerância ao cheiro do “mofo” é muito delicada é provavelmente a diferença entre tradições de pensamento e de debate que nasceram há 3000 anos e outras tradições que nasceram anteontem. Por último, sublinhamos que de acordo com as fontes que consultámos, o cheiro a mofo próprio dos livros antigos é resultante do decaimento da celulose, particularmente da lignina, um componente molecular da mesma, e pode ser atenuado com a aplicação regular de óxido de magnésio, prática comum nalgumas bibliotecas. Há quem descreva esse cheiro a mofo particular dos livros antigos como uma mistura de relva e baunilha. São interpretações dos cheiros que, tal como na enologia, funcionam tanto objectiva como metaforicamente.

Quando se pensa em cartas de amor no sentido tradicional, não se está propriamente a imaginá-las em circulação na antiguidade. De facto, são muito raras ou praticamente inexistentes. Aliás, o conceito de amor e paixão que hoje conhecemos de matriz judaico-cristã não fazia parte da matriz clássica dominante na antiguidade e o casamento servia uma função utilitária tout court. Apenas mais tarde, com a chegada da Idade Média e as efabulações de Tristão e Isolda começou a tradição a cultivar o conceito de amor no sentido romântico e shakespeariano da palavra. Não quer isto dizer que na antiguidade as pessoas se não correspondessem com cartas em que os temas amorosos proliferassem. Faziam-no, mas de modo utilitário, na maior parte das vezes. Não devemos desprezar, porém, a evidência de que o tropo da carta de amor era uma ferramenta literária ao serviço dos literati da Roma Imperial sobretudo. Alguns dos nomes mais ressoantes desta prática são Propércio, Plínio, Filóstrato, Ovídio, Alcifronte, Cláudio Eliano, apenas para mencionar os principais. Apesar de apenas após a instauração das estruturas sociais e conceptuais ditadas pelo romantismo ter sido possível conceber a ideia de “carta de amor” dirigida de um sujeito a outro por inteiro, podemos ver no exemplo da antiguidade clássica algumas formas embrionárias ou semelhantes àquelas no que diz respeito ao conceito de “amor”. Sobre isto, recomendamos os volumes Love and Marriage in the Middle Ages (1994), de Georges Duby, e Epistolary Narratives in Ancient Greek Literature (2013, eds. Owen Hodkinson et al.

Nomenclatura e Variantes do Calão Sobre Sexos

Aproveitando o destaque pós-moderno de certas formas pronominais agramaticais ligadas a identidades de género, quisemos evidenciar o aspecto de eventual absurdo social das nomenclaturas e formas de tratamento, em particular nas sociedades mais ortodoxas e provincianas. Com efeito, desde o senhor doutor, o senhor engenheiro, o “nome antigo“ e o “nome novo” nos transgénero, as alcunhas locais, os segundos nomes, os nomes de solteiro e os nomes de casado, os diminutivos de infância, o tratamento pelo nome próprio ou antes pelo apelido, os apelidos formados a partir de profissões, etc. Qualquer um

destes exemplos de situações comuns pertence à mesma categoria e fundamentalmente não reflete nenhuma questão de substância mas sim de negociação social: não existe nem é suposto existir uma identidade de nome absoluta e estanque, e qualquer exercício de levar demasiado a sério, acima do que merece, apresenta provavelmente uma situação mental e social de privilégio de quem tem muito tempo livre, não tem vida própria, ou é neurótico. Não é por alguém se licenciar, atingir a maioridade etária ou mudar de sexo que tem o direito de exigir aos outros tratamento imediato pelo novo título. A linguagem e as interacções sociais são por natureza questões de negociação mútua e não de imposição autoritária, e foi isso que quisemos destacar.

Trouxemos também uma breve reflexão sobre linguagem ordinária. As mulheres trabalham, cuidam dos maridos e dos filhos. Porque é que se dá sentido pejorativo e fundamentalmente subalternizado ao palavrão “enconado” e suas variantes, assim como outros de índole íntima venérea feminina, principalmente pronunciados por homens no trânsito ou em situações de maior tensão, como demonstra o exemplo “desencona-te”, entre outros? Será talvez difícil que as mulheres no presente vivam emancipadas e saiam de dentro da mentalidade de vítima se o sexo masculino no dia-a-dia fomenta junto ou longe de pessoas do sexo feminino o efeito de “emaciez” e fragilidade com que as mulheres têm vindo a estar associadas desde épocas primevas. Afinal o que significa “desenconem-se” ou “estar enconado”? Ou mesmo “és um coninhas”? O uso deste cognato em verbo pode denunciar a mentalidade de quem o usa, além de uma evidente misantropia que se lhe repassa. Por isso, deixamos a sugestão: aconai-vos, woman up! Claro que nesta equação seria injusto esquecer a contraparte masculina, o palavrão “desencaralhar”, de que o imperativo “desencaralha-te” é a forma mais representativa. Este adquire também efeito pejorativo quando posto em uso. Mas, afinal, qual é o equivalente masculino para “és um conas”? Recebemos várias propostas calorosas no comentários das redes sociais a esta pergunta.

Patricia Highsmith e Quotas Raciais

Não podemos esquecer as noites de cinema das sexta-feiras. Numa delas, foi tempo de reflexão. Mafalda Sousa Leal trouxe um comentário sobre o documentário Loving Highsmith, a propósito da escritora Patricia Highsmith, parte de uma tendência documental em que a sexualidade e vida amorosa do biografado é o foco. É a sexualidade sobrevalorizada na cultura? Uma escritora brilhante, Highsmith escreveu alguns dos mais célebres livros policiais, entre os quais a saga do psicopata carismático Mr.Ripley (hoje em dia seria considerado homem “queer”). Os seus livros tiveram inúmeras adaptações cinematográficas dirigidas por grandes nomes da sétima arte: Strangers on a Train (1951), por Alfred Hitchcock e em 1969 por Robert Sparr; de Réné Clément, Plein Soleil (com o belíssimo Alain Delon), The American Friend por Wim Wernders, The Talented Mr.Ripley (1999) por Anthony Minghella, Ripley’s Game (2002) por Liliana Cavani, Ripley Under Ground por Roger Spottiswoode e Carol por Todd Haynes — este último a história de uma relação homossexual entre duas mulheres, baseado num encontro fugaz entre a escritora e uma mulher interessante, com a singularidade de ser o primeiro romance homossexual com um final feliz na América; um livro que deu esperança às jovens lésbicas, tendo a escritora recebido imensas cartas de agradecimento. Seria de esperar que o documentário sobre esta grande escritora fizesse justiça ao seu génio, mas incorre em mediocridade e chega a ser vulgar na abordagem à vida íntima da Patricia Highsmith. Somos informados de que frequentava bares gays, que era lésbica (com ênfase excessivo na influência da orientação sexual da escritora na sua obra), informação maioritariamente irrelevante para a conhecermos enquanto artista e até mesmo pessoa. A relevância da orientação sexual de um artista manifesta-se quando este se vale da sua experiência biográfica para a criação da obra de arte (como o exemplo acima referido de Carol), ou o exemplo polémico da visita de Thomas Mann a Veneza, inspiração para a sua famosa novela Morte em Veneza. A sexualidade (onde se integra a pluralidade LGBTQ) é uma parte da identidade do ser humano, mas não é o traço dominante do Homem. Entende-se por identidade o “conjunto de características (físicas e psicológicas) essenciais e distintivas de alguém, de um grupo social ou de alguma coisa”. Estes movimentos identitários a nível sexual, reflectidos neste tipo de produção cultural, vendem à audiência a ideia de que o sentido das suas vidas é a descoberta, afirmação e imposição da sua sexualidade à sociedade, uma disposição limitativa e tendenciosa. Descrever a vida de uma mulher que, como descreveu no posfácio da reedição de 1990 de Carol (´If I were to write a novel about a lesbian relationship, would I then be labelled a lesbian-book writer? That was a possibility, even though I might never be inspired to write another such book in my life. So I decided to offer the book under another name.´), nem queria ser rotulada de escritora de policiais e menciona a sua oposição a esse rótulo, é reduzir o artista a uma espécie de penduricalho de categorias sociais, o que de modo geral rejeitamos.

A partir de 2024, na Academy of Motion Picture Arts and Sciences, em Hollywood, os filmes terão de cumprir mais requisitos para serem eleitos aos Óscares — o preenchimento de numerosas, exigentes e até bizarras quotas raciais aplicáveis a todos os participantes: elenco, produção e realização, argumentistas, equipa técnica, etc. Por isso destacámos, em colaboração com Mafalda Simão Leal, esta “boa intenção” (aquelas de que está o Inferno cheio) da inclusão e representatividade das minorias no grande ecrã. Suscita-se uma questão pertinente: perder-se-á a liberdade artística? Ficará refém de uma agenda política, cujo objectivo é agradar a uma audiência específica? Em que medida tal põe em risco a própria democracia? Mas não nos dispersemos, o nosso foco é o cinema. Neste novo contexto, os realizadores de Hollywood, se quiserem ganhar um Óscar, terão de abdicar da sua liberdade criativa, criando um monstro de Frankenstein cinematográfico, enxertando personagens, histórias, actores,elementos da equipa, que podem não ser os desejados (muito provavelmente..) nos seus filmes devido a quotização política, modo de planeamento social colectivo, que atinge o próprio cerne do processo artístico, manipulando quem é que os artistas devem ou não devem elencar nas suas obras. Não deixa de ser monumentalmente estranho que se entenda a necessidade destas quotas em pleno século XXI, quando temos actores e actrizes de topo, e também realizadores, na ribalta da sétima arte americana, entre os quais Denzel Washington, Lucy Liu, Freida Pinto, Will Smith, Morgan Freeman, Ang Lee, Alfonso Cuáron, Alejandro Iñarritu, Jordan Peele, Ava Duvernay, Spike Lee, Guillermo Del Toro, Antoine Fuqua, M. Night Shyamalan, e esta lista já não está pequena e inclui nomes efectivamente titânicos no panorama do cinema comercial actual. Deixamo-vos em específico a indicação da obra de Peele, onde as “minorias” não são personagens bibelô, ventríoloquos do cinema branco escudado na causa da diversidade que em raiz é nobre mas cuja aplicação pode ser politicamente muito suspeita. Os filmes deste realizador, através da lente da psicologia social, oferecem uma análise complexa do racismo, recorrendo à metáfora e ao terror. Os defensores das quotas podem alegar que Peele é uma excepção a nível da inclusão dos negros na indústria cinematográfica, mas (1) a lista acima exposta em grande parte o desmente e (2) haverá certamente formas mais democráticas, mais fluidas e mais unânimes de tornar a indústria inclusiva, alternativas que não aniquilem a liberdade criativa — para as quais provavelmente o exercício livre do mérito artístico será imprescindível.

Apenas um Beijo ou Tudo é Abuso

No espírito completamente desinteressado e celebratório do fim da quadra de verão, apresentámos, de forma inocente e em nada relacionada com pseudo- escândalos da imprensa sensacionalista (que ideia!), um magnífico panorama antológico de beijos, mais especificamente “chochos“, recentes, mediáticos e improváveis. Elencámos assim um beijo acidental e animado entre um cão e uma cadela; o “pico” de parabéns do presidente da federação de futebol espanhola a uma jogadora; o beijo particularmente “mamado” entre os lendários futebolistas Maradona e Caniggia; um dos curiosamente mais lendários beijos da história do cinema entre um super-herói e uma admiradora; o famoso beijo que marcou o fim da Segunda Guerra Mundial, interessantemente não consensual, já que o marinheiro estava bêbado e confundiu uma qualquer transeunte com uma enfermeira; mais um exemplo de dois futebolistas, Gary Neville e Paul Scholes, perdendo a cabeça com festejos e unindo os lábios; o beijo político e masculino entre o presidente da Alemanha ocupada pelos soviéticos e o secretário-geral da URSS; o beijo do príncipe que deu vida à famosa personagem Branca de Neve (idem com Bela Adormecida), também não consensual; e a personagem Antoine Doinel do cineasta François Truffaut tenta roubar um beijo no apropriadamente intitulado Baisers Volées. Deixámos, por fim, a sugestão de um título crítico sobre a história do beijo na cultura pop, pós-romântica e um outro mais abrangente. Escusámo- nos, de resto, a maiores reflexões sobre as interacções humanas, campos complexos em que a ideia infantil de “consentimento escrito e assinado“ não funciona de modo claro e sem as ambiguidades, as incertezas e as indecisões que norteiam todo o leque maravilhoso e diverso da nossa actividade. Podem ler sobre a história do beijo e mais aqui e aqui.

Recentes invenções porventura demasiado proteccionistas e infantilizantes, quer a nível de conduta social quer a nível de legislação, nas sociedades ocidentais, quanto a categorizações de interacções erótico-amorosas entre pessoas conhecidas ou desconhecidas como as categorias de “assédio” ou “abuso“, podem vir a ter consequências muito nefastas em geral reservadas para aqueles que misturam tudo e no fim acabam com nada. Apesar de até mesmo alguma legislação contemporânea considerar que os seguintes fenómenos pertencem todos à mesma categoria, dificilmente uma pessoa comum dotada de sensibilidade e inteligência o poderá afirmar como verdade: desde beijos inesperados entre amigos e/ou colegas de trabalho, contactos reiterados com vista a obter retorno amoroso, toques no ombro, na cintura ou abraços prolongados, comentários elogiosos desde o bom gosto até ao mau gosto sobre o aspecto físico de outra pessoa, cartas de amor, relações íntimas entre colegas de trabalho com diferentes hierarquias, relações sexuais em que uma pessoa ou ambas estão embriagadas, relações sexuais a contragosto em contexto conjugal, até — e aqui atravessamos uma fronteira — contactos reiterados com vista a correspondência amorosa que ultrapassem um determinado limite de rejeições explícitas, apalpões indesejados em zonas íntimas em público ou privado, sugestões de trocas de favores profissionais por favores sexuais, modificação do conteúdo de bebidas com vista a deixar a pessoa mais receptiva a avanços, relações sexuais com pessoas severamente embriagadas ou inconscientes que não tenham de modo algum dado a entender essa disposição, relações sexuais explícita e reiteradamente rejeitadas mesmo que dentro de arranjo conjugal, e violação sob ameaça de violência implícita ou uso explícito da mesma. Está aqui elencada uma série de situações, muitas radicalmente diferentes, tipicamente agrupadas por algumas mentes débeis e/ou histéricas (ou mesmo absolutamente desonestas) como pertencendo inequivocamente às mesmas categorias estanques do abuso e do assédio. Isto não pode ser assim. Um abraço que dura tempo demais não é uma violação e um contacto reiterado ao longo de pouco tempo com vista a obter correspondência amorosa não é necessariamente uma perseguição, só para dar dois exemplos. O que esta generalização obtusa acaba por fazer é, curiosamente, ilustrar como pessoas que acham que tudo isto é assédio e abuso estão tão próximas daquelas que acham que nada disto é assédio nem abuso e que “X estava a pedi-las“. É a consequência lógica: quando tudo é abuso e assédio, segue-se que se perdeu a capacidade de distinguir categoricamente esses fenómenos do resto e por conseguinte chega-se ao ponto em que já nada é verdadeiramente abuso nem assédio, o que é um estado de coisas verdadeiramente desaconselhável. Aconselhamos a todos os exagerados que tomem duas prudências: (1) que moderem severamente a utilização destes conceitos e (2) que deleguem preferencialmente no uso da legislação e da jurisprudência tão claras quanto possível o estabelecimento objectivo destas categorias e não as deixem cair na justiça de rua, tipicamente irracional e sem credibilidade nem direito.

Orientação Sexual, Parafilia e Touradas

Um tópico que por vezes é debatido no âmbito das categorias mais morais do que científicas relacionadas com sexualidade contemporânea é a diferença entre “orientação sexual” — tipicamente entendida como a grande direcção do desejo, em geral orientada para categorias masculinas ou femininas muito claras — e “parafilia” — em geral defendida como uma excepção na normalidade lógica da sexualidade. Ora queremos aqui tentar esclarecer qual é a diferença entre estes dois capítulos classificativos, e a resposta é: não existe diferença nenhuma. De um ponto de vista objectivo, concreto, redutível a factos brutos sistematizáveis numa descrição científica, as práticas e identidades sexuais são todas iguais: preferir homens, preferir mulheres, preferir loiras, preferir gordos, preferir anões, preferir novos, preferir velhos, prefirir cabedal e sadomasoquismo, prefirir mudar de sexo, preferir vestir-se do sexo oposto, preferir orgias, é tudo a mesma coisa. Não existe formal e categoricamente nenhuma diferença entre estas tendências, preferências, práticas ou identidades. A única diferença que existe é ao nível do lugar moral em que as colocamos, também curiosamente na sua relação com o binário de amor romântico, e com a maneira como cada uma das práticas podem ser consideradas “substanciais“, ou seja, absolutamente definidoras da “identidade“ da pessoa“, embora tudo isso seja naturalmente arbitrário. Tanto pessoas de índole conservadora, que verão possivelmente a relação primordial de homem e mulher como de uma dimensão diferente, como pessoas de índole revolucionária, que aceitarão as práticas alternativas mas dentro de um esquema de excepcionalismo, terão dificuldade em encaixar esta leitura objectiva da questão, mas a verdade é que as nossas classificações sobre realizações da sexualidade não podem ser colocadas numa diferença de substância mas apenas de lugar moral. Para isso também nos alicerçamos em Freud, que deixou bem claro nos seus famosos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade como não existem de modo objectivo “desvios” sexuais, sublinhando-o através de um exemplo bem conhecido de todos nós: o beijo entre amantes, a coisa mais comum na nossa cultura, que definiu engraçadamente como “a união dos respectivos inícios do trato digestivo”, não tem nada a ver propriamente com cópula e nesse sentido é um “desvio” tão grande como uniões de lábios com outros orifícios corporais ou qualquer comportamento aparentemente excepcional e lateral.

Inaugurámos, adicionalmente, uma série de partilhas e destaques com vista ao esclarecimento para o público urbano em geral sobre a prática milenar da tourada, de modo a que possam formar juízos mais informados sobre a mesma. Fizemos isto derivado daquele que é o estado actual da opinião pública sobre a prática, e que é incontornavelmente muito curioso de um ponto de vista sociológico: a geração mais “contra as touradas” é a mais urbanizada de sempre, mais ignorante do mundo rural, sem contacto com animais selvagens, sendo que os seus juízos sobre os mesmos podem resultar de projecções incorrectas a partir dos animais domésticos que conhecem. Começámos assim por destacar o ponto de que a ética animal em que muitos desses detratores se alicerçam não é uma ética inteiramente coerente, embora nenhuma o seja, mas esta, que aparentemente se preocupa com os direitos dos seres sencientes — resultando provavelmente de uma antropomorfização — não costuma preocupar- se com as formigas nem atribuir esse estatuto à vida microscópica. Portanto “longe da vista, longe do coração“. Um outro ponto ainda é a mundivisão que entende que qualquer prática admissível em sociedade de algum modo representa e compromete todos os membros dessa sociedade, o que não é de todo viável, pois vivemos em sociedades plurais e até mesmo multi-culturais. Destacámos assim, para início de conversa, estes dois pontos, prometendo desenvolvê-los e acrescentar outros a breve trecho.

Mais Cinema: Cancel Culture e Submarinos

Destacámos numa dada sexta-feira do mês quatro filmes generalisticamente sobre cultura de cancelamento, em particular na academia mas não só. Primeiro, A Culpa Humana, com Anthony Hopkins e Nicole Kidman, retratando um professor acusado de ter feito um comentário racista que levou ao seu despedimento, baseado num romance de Philipp Roth; depois, Safe Spaces, sobre outro professor acusado de ter despontado recordações traumáticas a uma aluna devido a uma aula provocadora; terceiro, o recente Tár, com Cate Blanchett, com uma compositora e maestrina acusada de desprezar minorias e privilegiar compositores brancos e heterossexuais; por último, O Processo, adaptação de Orson Welles do famoso romance de Kafka retratando um homem perdido numa surrealidade burocrática em que nem sequer se entende de que é que está acusado. A cultura do cancelamento é um fenómeno real, presente, que sempre existiu, e que consiste pura e simplesmente na perseguição pública e privada de pessoas devido a opiniões dentro da lei que possam ter. É um fenómeno que não deve ter qualquer lugar numa sociedade civilizada baseada no estado de direito, sendo que em geral aqueles que acham que tal coisa não existe ou não tem relevância são, muito provavelmente, compactuantes com essa miserável, bárbara e irracional forma de censura moderna.

Outra leva de filmes destacou a figura do submarino este mês. O espaço exíguo do mesmo, versão ainda mais condensada do micro-universo hermético que decorre em qualquer embarcação de alto mar — ou, nas vertentes mais modernas, no espaço — permite todo o tipo de incorporações dramáticas bem conhecidas: questões morais, religiosas, de amizade, às vezes de amor, quase invariavelmente de guerra, mas sempre, dada a situação de circuito fechado em que o enredo decorre, de disposição diegética incontornável em que as tensões têm necessariamente resolução, não poucas vezes trágica. Deixamos aqui uma lista de filmes com algumas sugestões de qualidade em redor do tópico.

Submissões

Deixamos, por último, um adeus fraternal às férias e à praia e terminamos desejando a todos uma excelente e portentosa entrada no ritmo reinaugurado de trabalho neste novo ano lectivo. De resto, reiteramos o convite anteriormente feito para nos enviarem propostas de artigos em fase já concluída ou enquanto versão incompleta, mero esboço ou mesmo apenas ideia. Aceitamos todos os temas de relevo, mas podem consultar sugestões de tópicos aqui.

Imagem: gravura representando a imperatriz consorte Tokugawa Masako (1607 – August 2, 1678), mulher do imperador Go-Mizunoo, patrona das artes, da cultura e do património japonês no período Edo.

O Projecto de Igualdade dos Sexos Falhou

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O projecto da igualdade dos sexos falhou. Já toda a gente sabe ou julga que sabe isso. Mas talvez não saibam da mesma maneira como vamos tentar aqui explicar, nem também que não falhou até agora, mas sim que falhou desde sempre e até sempre e nunca será bem-sucedido.

Primeiro, lembramos em que é que não falhou: entrada da mulher no mundo laboral foi inteiramente bem-sucedida e não se verificou de modo significativo nenhuma inviabilidade na adequação do corpo e da mente femininos a quase todos os trabalhos e actividades, embora a adequação do primeiro a algumas profissões de esforço e de desgaste físico intenso não seja inteiramente bem-sucedida e provavelmente nunca será. Quanto às profissões intelectuais, que foram aliás sempre as preferidas dos activistas do feminismo, curiosamente, a mulher é inteiramente bem acolhida em quase todas e não existe hoje absolutamente nenhum obstáculo estrutural — e por estrutural queremos dizer legislativo ou de imposição cultural intransponível — nas sociedades ocidentais que impeçam qualquer mulher de ser tão bem-sucedida com a capacidade que para isso tiver, ao contrário de, como todos sabemos, noutras sociedades.

A partir daqui, também na emancipação social a mulher é inteiramente bem-sucedida, como aliás já vinha a ser: é hoje possível a qualquer pessoa de qualquer sexo viver sozinha, trabalhar e ganhar o sustento, ter as ligações sociais que bem entender, participar na sociedade do modo que lhe aprouver. Para mal da demografia, mas para bem da emancipação individual — que nem sempre equivale a realização —, o ónus da maternidade está também quase inteiramente secundarizado. Por outro lado, o homem, civicamente falando pelo menos, recebe estes papéis da mulher com relativa naturalidade: temos mulheres em cargos de chefia de topo ou de chefia intermédia e não existe de modo significativo nenhum problema social gritante para os homens receberem ordens dessas pessoas, nem existe nenhum preconceito gigante quanto à mentalidade das mesmas ser vista como inadequada a essas funções ou quaisquer outras — e, sendo um homem que vos escreve, posso garantir isso, da minha experiência de vida e do conhecimento naturalmente amplo que possuo sobre dinâmicas de grupo masculinos: não existe, transversalmente na sociedade, nenhum problema significativo nesse aspecto.

De resto, não irá ser abordado aqui o tópico muito complexo e frequentemente dado a demagogias e interpretações trapaceiras completamente escusadas e muito pouco sérias do desnível de rendimentos entre os homens e as mulheres no seu todo, pois para tal seria necessário um estudo muito inteligente e pormenorizado das escolhas de carreira, das horas de trabalho, do risco envolvido, sendo que nos parece que essa tecla, constantemente martelada pelas correntes do feminismo contemporâneo, pode ser enormemente enganosa e nunca suficientemente fundamentada com estudos demográficos e económicos realmente integrais e completos. Lembramos apenas que, se feitos os devidos descontos a factores “não estruturais“ — seja lá o que isso for… —, a diferença de rendimentos entre os sexos no seu todo se resumir a 2% isso não constitui necessariamente um problema que mereça a tomada de acções em grande escala para a sua resolução, acções que aliás podem piorar outros problemas e ter consequências imprevisíveis, dado que, por exemplo, se pegarmos em quaisquer grupos sociais — como e.g. as pessoas com mais de 1m80 de altura e as com menos, as pessoas loiras e as pessoas morenas, com certeza também não chegaremos a igualdades absolutas em termos de rendimento total, mas as diferenças percentuais são tão inócuas e irrelevantes, e as razões por detrás disso tão insondáveis como desinteressantes, que são problemas que acabam por não merecer qualquer atenção séria.

Mas onde falhou, afinal, o projecto de igualdade dos sexos, se não falhou — e ainda bem que não falhou — nestes campos? Falhou, evidentemente, de modo gritante, de modo constante e diariamente experienciado por todos, nas interacções entre homem e mulher. Os homens interagem entre si de determinada maneira e as mulheres interagem entre si de outra determinada maneira, e estas maneiras não são as mesmas nem são por vezes compatíveis entre si. No projecto progressista de igualdade entre os sexos pressupor-se-ia que todas estas maneiras de interagir fossem dissolvidas e que desaparecesse aquele campo de maneiras que é o de como os homens interagem com as mulheres e como as mulheres interagem com os homens, diferentes de como cada um dos sexos interage entre si. Ora isto não se passa assim, nunca se passou assim e provavelmente nunca se passará. Atenção que não quer isto dizer que estes campos de interacção sejam relevantes para todos os casos de experiência social entre as pessoas. Frequentemente não pedimos um café ou dizemos boa tarde de forma diferente quer se trate de um homem ou de uma mulher. Mas, às vezes, sim. E, de facto, felizmente ou infelizmente, elogiamos o aspecto ou damos uma palmada nas costas de modo diferente caso se trate de um homem ou de uma mulher. Nesses campos de interacção que não dominam propriamente a nossa vida social, mas são dela uma parte importantíssima, as confusões, os mal entendidos e as incompatibilidades são frequentes — e não é que isto seja reflexo de nenhum complexo infernal de dificuldades, mas antes que se trata de uma dimensão fascinante e por vezes tempestuosa e contraditória da natureza que, apesar de tudo, navegamos e sabemos navegar com relativo à vontade e prazer.

Em que casos concretos consistem, então, as maiores confusões deste domínio? Em coisas como: elogios do aspecto físico, já referido, chamadas de atenção para decotes, para bíceps trabalhados, para penteados exóticos, que têm interpretações completamente diferentes conforme os sexos em concreto de que se tratem, no uso do tacto na comunicação, no elogio do aspecto físico em geral, na agressividade e na violência implícita ou explícita, na interacção física efusiva em ocasiões excepcionais — como, por exemplo, festejos de vitórias desportivas —, em brincadeiras provocatórias entre amigos, colegas ou conhecidos — sendo que as mesmas podem ter um carácter tanto mais físico como obsceno no caso de homens como um carácter mais intimista e psicológico no caso de mulheres —, em competitividade e possibilidade de contacto e choque físico na prática de desporto individual ou colectivo, etc.

Este é um elenco de dificuldades, crises ou mesmo impossibilidades no domínio da interacção entre homem e mulher ou mulher e homem que não se colocam de forma significativa quando se tratam de interacções entre o mesmo sexo e que para as quais não se antevê resolução nem a breve nem a longo prazo. Sendo este apenas um elenco de situações de interacção social, estas não se restringem exclusivamente, embora sejam por estes determinadas, aos universos mentais distintos de cada um dos sexos. Certos instintos, impulsos, fixações, enfim, ideias, ocorrem tendencialmente mais num ou mais no outro sexo, mas isso não tem necessariamente uma ligação directa com este elenco de situações sociais.

É frequente, perante tais situações, toda a parafernália ideológica, teórica, sistemática, tanto das correntes particularmente feministas da igualdade dos sexos como das correntes que sustentam e encorajem estas diferenças e estes conflitos e os acham inteiramente justificados, falharem por completo. Um comentário que dirigido ao mesmo sexo seria interpretado como corriqueiro é, quando dirigido ao sexo contrário, interpretado como sexual e predatório; uma palmada no ombro ou agarrar do braço, se interpretado como um gesto de camaradagem, de desafio ou de encorajamento entre um sexo, é interpretado como agressão e violência perante o outro; e um agarrão enérgico e apertado é interpretado como celebração apaixonada entre os mesmos sexos, mas como avanço carnal e predatório entre sexos diferentes.

A sexualidade, no sentido de energia conducente a cópula, seguramente toma uma parte importante mas não absoluta em algumas, não todas, desta as tensões, e a isto acresce o facto de cerca de 95% das pessoas, nas sociedades ocidentais e possivelmente no mundo inteiro, serem naturalmente dispostas à atracção pelo sexo oposto, conforme todos os estudos sérios sobre o assunto — particularmente aqueles não influenciados em excesso por modas passageiras que postulem uma eventual dissolução da dualidade dos sexos — nos indicam. Esta tensão, assim, de natureza principalmente sexual entre os dois sexos estará sempre presente e só fantasias utópicas ou distópicas interessadas no mundo asséptico, fanaticamente higienizado e homogeneizado, podem desejar que as mesmas desapareçam por inteiro ou mesmo fingir que nunca tiveram existência real e substancial, ponto de vista que é diferente de uma disposição cultural que simplesmente as acolha da melhor maneira e lhes saiba dar as melhores e mais inofensivas manifestações. Não sabemos se chegarão para atingirmos um mundo em que seja igual perguntar a idade a um homem ou a uma mulher, comentar o peso, brincar com o penteado, o cabelo ou a falta dele, etc. Se não for possível, também não há grande problema.

Nenhum dos sexos vai renunciar facilmente, e de modo aliás completamente contraditório com as exigências da sua disposição mental e da sua fisiologia, sem encetar um sofrimento absolutamente desnecessário e do qual pouca mais justificação se pode extrair do que um fetiche absurdo pela igualdade em tudo, desígnio que pouco tem de aproveitável em termos de resultados e de racional em termos de fundamentos. A igualdade cívica necessária ao projecto de emancipação do indivíduo trazido principalmente, mas não só pelos liberalismos de há dois ou três séculos atrás, está, modo geral, absolutamente instaurada e cumprida. Projetos posteriores que envolvam modificação radical de disposições naturais, a maioria de base fisiológica, provavelmente não valem o esforço e a adaptação contranatura necessários, sendo que partem de um instinto de igualdade que acaba por ser totalitário, predatório, absolutista, e que se assemelha ao de uma criança a brincar com torres de peças de Lego, desejando que fiquem todas exactamente iguais e da mesma altura. Só que neste caso não são peças Lego, são pessoas, e as naturezas substanciais das pessoas são completamente diferentes das nasturezas dos objectos. O projecto de igualdade dos sexos falhou naquilo que tinha de falhar, acertou naquilo que tinha de acertar, e ainda bem. Talvez fosse útil preocuparmo-nos com coisas mais úteis e mais conducentes à prosperidade do que com estas neuroses bolorentas e enfadonhas que parecem por um lado relíquias e fantasmagorias de tempos já não existentes e por outro falhas de interpretação brutais resultantes de um modelo impossível.

Apenas um Beijo ou Tudo é Abuso

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No espírito completamente desinteressado celebratório do fim da quadra de verão, apresentámos, de forma inocente e em nada relacionada com pseudo- escândalos da imprensa sensacionalista (que ideia!), um magnífico panorama antológico de beijos, mais especificamente “chochos“, recentes, mediáticos e improváveis. Elencámos assim um beijo acidental e animado entre um cão e uma cadela; o “pico” de parabéns do presidente da federação de futebol espanhola a uma jogadora; o beijo particularmente “mamado” entre os lendários futebolistas Maradona Caniggia; um dos curiosamente mais lendários beijos da história do cinema entre um super-herói e uma admiradora; o famoso beijo que marcou o fim da Segunda Guerra Mundial, interessantemente não consensual, já que o marinheiro estava bêbado e confundiu uma qualquer transeunte com uma enfermeira; mais um exemplo de dois futebolistas, Gary Neville Paul Scholes, perdendo a cabeça com festejos e unindo os lábios; o beijo político masculino entre o presidente da Alemanha ocupada pelos soviéticos e o secretário-geral da URSS; o beijo do príncipe que deu vida à famosa personagem Branca de Neve (idem com Bela Adormecida), também não consensual; e a personagem Antoine Doinel do cineasta François Truffaut tenta roubar um beijo no apropriadamente intitulado Baisers Volées. Deixámos, por fim, a sugestão de um título crítico sobre a história do beijo na cultura pop, pós-romântica e um outro mais abrangente. Escusámo- nos, de resto, a maiores reflexões sobre as interacções humanas, campos complexos em que a ideia infantil de “consentimento escrito e assinado“ não funciona de modo claro e sem as ambiguidades, as incertezas e as indecisões que norteiam todo o leque maravilhoso e diverso da nossa actividade. Podem ler sobre a história do beijo e mais aqui e aqui.

Recentes invenções porventura demasiado proteccionistas infantilizantes, quer a nível de conduta social quer a nível de legislação, nas sociedades ocidentais, quanto a categorizações de interacções erótico-amorosas entre pessoas conhecidas ou desconhecidas como as categorias de “assédio” ou “abuso“, podem vir a ter consequências muito nefastas em geral reservadas para aqueles que misturam tudo e no fim acabam com nada. Apesar de até mesmo alguma legislação contemporânea considerar que os seguintes fenómenos pertencem todos à mesma categoria, dificilmente uma pessoa comum dotada de sensibilidade inteligência o poderá afirmar como verdade: desde beijos inesperados entre amigos e/ou colegas de trabalho, contactos reiterados com vista a obter retorno amoroso, toques no ombro, na cintura ou abraços prolongadoscomentários elogiosos desde o bom gosto até ao mau gosto sobre o aspecto físico de outra pessoa, cartas de amorrelações íntimas entre colegas de trabalho com diferentes hierarquias, relações sexuais em que uma pessoa ou ambas estão embriagadas, relações sexuais a contragosto em contexto conjugal, até — e aqui atravessamos uma fronteira — contactos reiterados com vista a correspondência amorosa que ultrapassem um determinado limite de rejeições explícitasapalpões indesejados em zonas íntimas em público ou privado, sugestões de trocas de favores profissionais por favores sexuais, modificação do conteúdo de bebidas com vista a deixar a pessoa mais receptiva avanços, relações sexuais com pessoas severamente embriagadas ou inconscientes que não tenham de modo algum dado a entender essa disposição, relações sexuais explícita e reiteradamente rejeitadas mesmo que dentro de arranjo conjugal, e violação sob ameaça de violência implícita ou uso explícito da mesma. Está aqui elencada uma série de situações, muitas radicalmente diferentes, tipicamente agrupadas por algumas mentes débeis e/ou histéricas (ou mesmo absolutamente desonestas) como pertencendo inequivocamente às mesmas categorias estanques do abuso e do assédio. Isto não pode ser assim. Um abraço que dura tempo demais não é uma violação e um contacto reiterado ao longo de pouco tempo com vista a obter correspondência amorosa não é necessariamente uma perseguição, só para dar dois exemplos. O que esta generalização obtusa acaba por fazer é, curiosamente, ilustrar como pessoas que acham que tudo isto é assédio e abuso estão tão próximas daquelas que acham que nada disto é assédio nem abuso e que “X estava a pedi-las“. É a consequência lógica: quando tudo é abuso e assédio, segue-se que se perdeu a capacidade de distinguir categoricamente esses fenómenos do resto e por conseguinte chega-se ao ponto em que já nada é verdadeiramente abuso nem assédio, o que é um estado de coisas verdadeiramente desaconselhável. Aconselhamos a todos os exagerados que tomem duas prudências: (1) que moderem severamente a utilização destes conceitos e (2) que deleguem preferencialmente no uso da legislação e da jurisprudência tão claras quanto possível o estabelecimento objectivo destas categorias e não as deixem cair na justiça de rua, tipicamente irracional sem credibilidade nem direito.

Os Católicos na Luta Contra a Ditadura — Testemunhos

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Testemunho de Guilherme D’Oliveira Martins

Com o fim da guerra, houve quem pensasse que os aliados iriam pressionar os países ibéricos no sentido da democracia e do pluralismo. No entanto, as feridas abertas pela guerra civil espanhola e o desenvolvimento da guerra fria suscitaram entre os membros da Aliança Atlântica receios e cautelas especiais, que se traduziram na manutenção dos regimes peninsulares. A «neutralidade colaborante» portuguesa do final do conflito mundial, apesar de todas as ambiguidades, serviu para legitimar «de facto» a continuidade de Salazar. As esperanças alimentadas em 1945 foram diversificadas – desde os republicanos da oposição tradicional moderada até ao Partido Comunista, passando pela pequena oposição monárquica, que julgou ver então uma possibilidade de mudança de regime (contando com a antiga ambiguidade do Presidente do Conselho). No entanto, depressa se percebeu que tudo ficaria na mesma, apesar de equívocos terminológicos, sem consequências práticas, que levariam Salazar a falar de «democracia orgânica» e de «eleições livres como na livre Inglaterra». 

O certo é que, entre 1945 e 1958, sente-se uma evolução no sentido de integrar progressivamente os católicos na transição centrada numa abertura gradual mas audaciosa do sistema constitucional. A oposição republicana alimentava no seu seio contradições significativas, que o tempo agravaria, em especial no domínio da política ultramarina. Afinal, a República fora criada na sequência do Ultimatum inglês e a memória desse ultraje estava ainda presente na abordagem do tema colonial pela velha guarda do reviralho. O Partido Comunista beneficiava da conjuntura internacional da guerra fria e tendia (até pelo reconhecimento implícito da situação) a afirmar-se como a força mais significativa da oposição. Note-se que a posição da Igreja Católica relativamente à autodeterminação dos povos colonizados evoluiria muito (na linha do que Mounier dissera em «L’Éveil de l’Afrique Noire»), até como condição de consolidar a sua posição do terceiro mundo. Em 1958, a transformação política mais importante que se registou foi o início do canto do cisne da «frente nacional» que sustentava o Estado Novo, em que as Forças Armadas e a Igreja desempenhavam um papel essencial. E o certo é que esses apoios irão ser postos em causa definitivamente. E se usamos a palavra «definitivamente», tal tem de ser interpretado à luz de uma tendência gradual, com momentos de evolução lenta, alternando com outros mais rápidos (como na eclosão da guerra colonial em 1961 ou nas crises estudantis). 

O abalo da “frente nacional”

Se falamos de 1958, referimo-nos à candidatura à Presidência da República do General Humberto Delgado e ao memorando enviado pelo Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, a Oliveira Salazar – que irão contribuir para que a «frente nacional» seja fortemente abalada. Henrique Galvão e António Sérgio, duas personalidades provindas de horizontes antagónicos (um, do grupo de militares que implantou a ditadura militar em 28 de Maio de 1926, braço direito de Salazar na Emissora Nacional; e o outro, prestigiado intelectual da renovação republicana, referência da «Seara Nova»), que se tinham encontrado na oposição ao Estado Novo, convergiram na defesa de que este apenas poderia ser mortalmente atingido se os seus apoios fundamentais fossem abalados, a partir de dentro. Daí a candidatura de Humberto Delgado, que o PCP não apoiou num primeiro momento, e que tomaria uma dinâmica imparável, o que obrigaria os comunistas e mudar de atitude, desistindo do seu candidato Arlindo Vicente. No caso da Igreja Católica, a atitude do regime face a D. António Ferreira Gomes, impedindo-o de regressar ao Porto (apesar de manter a dignidade episcopal), torná-lo-á uma vítima e um dos símbolos do «aggiornamento» do Concílio Vaticano II, no que este visava superar o eurocentrismo e assumir a compreensão dos «sinais dos tempos» (que a encíclica «Pacem in Terris» e a constituição «Gaudium et Spes» enfatizam).

António Alçada Baptista representa na história cultural portuguesa um singular exemplo que, ora tem sido reduzido injustamente a uma suposta ambição política, ora tem sido alvo de manifesta desatenção relativamente a um real papel de intérprete heterodoxo de uma cultura condicionada pela oscilação entre os mitos de todo o mundo e ninguém. Nada mais enganador do que desvalorizar o seu lugar crucial na preparação da democracia. Vindo de um meio conservador, com fortes raízes na sociedade beirã, sendo destinado a um percurso tradicional de uma advocacia de negócios e influência, depois de uma formação nos jesuítas, António Alçada recusou esse destino, apesar de ter começado por sentir um sucesso possível nos primeiros passos que começou a trilhar. Apesar de todas as resistências do Estado Novo, o certo é que os ventos da modernização fizeram-se sentir. As mentalidades, as influências, os debates, os autores, as tendências artísticas, tudo vai mudar no final dos anos quarenta e cinquenta. Há tensões contraditórias que a geração de Alçada Baptista vai interpretar. O «reviralho», a partir de 1945, sente uma evidente atração por quem tinha sido a grande aliada dos Estados Unidos para pôr fim ao domínio do «eixo», a União Soviética. Os temas sociais e o chamado neo-realismo vão ocupar um lugar proeminente. Nos Estados Unidos, o «macartismo» e a caça às bruxas criarão um clima intolerável, o que servirá para fortalecer, num primeiro momento, as simpatias intelectuais relativamente às suas vítimas. 

Para um católico com preocupações críticas, os motivos da separação prendiam-se com a confusão de uma cruzada política que acenava com os fantasmas do anticlericalismo que tinham levado, em parte, ao fim da Primeira República. Salazar sobrevivera em 1945 contra as expectativas de alguns, uma vez que a «guerra-fria» evitara a liberalização a sério na Península Ibérica. Mas havia mudanças, e António Alçada cedo começou a compreendê-las – até porque os motivos de desconfiança iam-se acumulando mesmo nos meios conservadores. Os monárquicos perceberam que a hipótese de uma restauração, acenada antes numa base equívoca, tornara-se uma ilusão irrealizável no âmbito da «situação», até por falta de vontade de Salazar e dos seus putativos delfins. O caso do Centro Nacional de Cultura, fundado por jovens monárquicos em 1945, é ilustrativo – evoluindo no sentido de uma atitude democrática e pluralista. 

Denunciar a “desordem estabelecida”

A evolução no sentido da oposição ao regime correspondeu à soma de fatores complexos e contraditórios – que levaram muitos monárquicos e católicos a aproximar-se dos meios oposicionistas, numa perspetiva moderada ou até radical, o que levaria ao alargamento do campo de ação cultural dos críticos do regime. Há, assim, um forte contraste com o ambiente cultivado por António Ferro nos alvores do regime. Depois de 1945, deixa de haver uma relativa cumplicidade com meios culturais e artísticos… Entretanto, a Igreja Católica não podia deixar de estar atenta ao Terceiro Mundo e à autodeterminação dos povos, ao lado da crescente consciência dos problemas sociais e das desigualdades com repercussões pastorais e teológicas. Haveria que denunciar a «desordem estabelecida». 

Logo em 1945, houve esperança numa abertura. Alguns poucos católicos apostam na democratização através do MUD. Aí encontramos Francisco Veloso, antigo dirigente do Centro Académico da Democracia Cristã, de Coimbra, onde militara Oliveira Salazar, além do Padre Joaquim Alves Correia, missionário espiritano, de Sebastião José de Carvalho, monárquico liberal, e de José Vieira da Luz. O Padre Abel Varzim fora afastado do lugar de deputado à Assembleia Nacional no final da legislatura de 1938 a 1942, por impossibilidade de ter eficácia nos seus alertas sociais, tendo depois os membros da Liga Operária Católica (LOC) abandonado os postos diretivos dos sindicatos nacionais. Há ecos de que o Padre A. Varzim teria sondado algumas personalidades católicas para a eventual criação de um Partido Democrata-Cristão. Em 1946, o Padre Joaquim Alves Correia é exilado nos Estados Unidos depois de ter publicado no jornal «República» um artigo sobre a «noite sangrenta» de 1921. Entretanto, a publicação do jornal «O Trabalhador», da Ação Católica Operária, é suspensa no mesmo ano. Na campanha eleitoral de 1949, em que concorre o General Norton de Matos contra o Presidente Carmona, um jovem católico, assistente da Faculdade de Direito de Coimbra, Orlando de Carvalho, afirma: «A Ditadura porque não é um sistema de governo, mas um interregno na vida política normal (…) não tem de pensar em como renovar-se, em como subsistir, mas apenas em como findar e o mais depressa que puder (…). O único critério que até hoje me pareceu suficiente de renovação é o critério do povo, da consulta popular sincera» («Diário Popular», 24.1.49). Em resultado destas declarações, o jovem vê suspenso o seu contrato de segundo assistente na Faculdade. 

Os sinais são vários. Em 1950, o Padre Abel Varzim organiza em Lisboa o I Congresso dos Homens Católicos, a que assiste o Ministro da Justiça, Manuel Cavaleiro de Ferreira; no entanto, este abandonará os trabalhos em virtude das intervenções, tendo havido pressões, por exemplo, relativamente a José Sebastião Silva Dias, para aligeirar os reparos críticos. Em 1951, Manuel Bidarra de Almeida será afastado da direção da Ação Católica, em virtude de uma intervenção contra a «situação» no Congresso Internacional Católico de Lisboa. Em 1953, Adérito Sedas Nunes e Maria de Lourdes Pintasilgo protagonizam o Congresso da JUC em que o movimento conhece uma profundíssima renovação, com consequências no «compromisso social» e na realização de inquéritos sobre a situação dos portugueses. Sente-se a influência do assistente nacional da organização universitária, o Padre Dr. António dos Reis Rodrigues (futuro bispo de Madarsuma). Em 1955, o I Congresso da JOC suscita suspeitas e desconfianças, uma vez que o regime teme que Abel Varzim se prepare para fundar o Partido Democrata-Cristão – por isso, a censura recebe orientações para fazer passar despercebida a iniciativa na imprensa. Em 1956, João Salgueiro é eleito presidente da JUC e é criado o jornal «Encontro». Entretanto, diversos membros da JUC contestam, em Coimbra e Lisboa, o Decreto-Lei 40.900, de 12 de Dezembro, por restringir os direitos das Associações de Estudantes. A denúncia prolongar-se-á, envolvendo o futuro Presidente Geral da JUC, João Bénard da Costa (1957-58) e Carlos Portas, Presidente da Associação de Estudantes de Agronomia e Presidente diocesano da JUC. É o tempo em que o «Encontro» ganha protagonismo crítico – sendo Pedro Tamen chefe de redação e envolvendo Nuno Cardoso Peres (que viria a professar como dominicano, Frei Mateus Peres, O. P.), Cristovam Pavia, Nuno Bragança, Nuno Portas, José Domingos Morais, José Escada e M. S. Lourenço. Este será o grupo que acompanhará Alçada na sua editora. 

“Que não desistam de pensar”

Pode dizer-se que, a partir do ano emblemático de 1958, António Alçada Baptista deu, nos meios culturais (demarcando-se do jacobinismo e do coletivismo), com a Livraria Morais e depois com a revista «O Tempo e o Modo», contributo decisivo para o termo da chamada «frente nacional» de Salazar, do mesmo modo que deram, nos meios militares, a candidatura presidencial do General Humberto Delgado, antigo símbolo das Forças Armadas fiéis ao regime, e, na Igreja Católica, o memorando do Bispo do Porto dirigido ao Presidente do Conselho. Estava, no fundo, em causa o que afirmaria na «Peregrinação Interior»: «Peço e insisto com os senhores especialistas de povos e planificadores de impérios que não se deem por contentinhos com o trabalho que estão a fazer e peço a todos os incomodados do mundo que não desistam de pensar como é que isto se pode consertar».

Importa, deste modo, referir o papel desempenhado pela Livraria Moraes. António Alçada Baptista lançou, exatamente em 1958, o projeto renovador da Moraes, que acompanhará as profundas mudanças que se verificavam e anunciavam. Tratou-se de criar um movimento de opinião centrado em leigos católicos (com apoio de alguns clérigos) capaz de seguir e concretizar o programa de Emmanuel Mounier de unir católicos e não católicos no combate contra a «desordem estabelecida», que o mesmo seria dizer, romper com a cumplicidade da Igreja Católica em relação ao regime de Salazar. Assim, ao contrário do que muitas vezes se pretende, como se disse, a ideia fundamental de António Alçada Baptista não tem a ver com a criação de um Partido Democrata-Cristão. Para o desmentir, basta ler-se atentamente os textos publicados nas coleções «O Tempo e o Modo» e «Círculo do Humanismo Cristão». E percebe-se que está em causa algo de muito diferente – o que altera totalmente a ideia de que Alçada Baptista viu derrotado o seu projeto político. O que AAB desejava era encontrar uma convergência de movimentos e opiniões que permitisse uma transição pacífica de contornos abertos e cosmopolitas, segundo a lógica das democracias ocidentais. A ligação ao Congresso para a Liberdade da Cultura (e o forte papel desempenhado por Pierre Emmanuel) é um sinal dessa orientação. Trata-se de tornar ativo, em Portugal, um grupo de intelectuais sem vocação partidária ou até cristã. Do mesmo modo, a ideia, não concretizada de «O Pacto», influenciada pela comunidade de Mounier nos arredores de Paris, também nada tem a ver com um movimento político. É certo que, aquando da fundação de «O Tempo e o Modo», Mário Soares, Salgado Zenha e Jorge Sampaio participam. E Mário Soares pretendia que AAB fosse a personalidade aglutinadora de uma corrente política democrata-cristã – no entanto esse entendimento deparava com a posição contrária do próprio António Alçada Baptista e da maioria dos seus companheiros (para quem não deveria haver uma política cristã, mas cristãos livres, sem movimentos confessionais, na política).

Recorde-se o poema de Ruy Belo, que no seu início diz: «Nós os vencidos do catolicismo / que não sabemos já donde a luz mana / haurimos o perdido misticismo / nos acordes dos carmina burana // Nós que perdemos a luta da fé / não é que no mais fundo não creiamos / mas não lutamos já firmes e a pé / nem nada impomos do que duvidamos». Sentimos, com muita nitidez, o ambiente geral do tempo observado. E há um drama evidente, que tem a ver com a claustrofobia sentida numa sociedade que, sem pluralismo, tendia a separar as opções entre o nosso e o contra nós. Aliás, é a mistura entre o ambiente político dos dias finais da autocracia com a crise da Igreja pós-conciliar que torna especialmente dramática a situação portuguesa. Afinal, como afirma o Padre Manuel Antunes, não estamos perante uma questão puramente portuguesa, apesar de ganhar aqui (como em Espanha) contornos especiais em razão dos constrangimentos políticos existentes. Daí que entre os católicos os acontecimentos que a obra refere tenham sido sentidos como ferida aberta, em carne viva – facto bem simbolizado não só na fotografia do Engº Francisco Lino Neto, com a cabeça ensanguentada, depois de ser atingido pela polícia de choque na manifestação de apoio ao General Delgado, mas também nos doloridos poemas de Ruy Belo da fase final. E o poeta dirá, profeticamente: «a história do catolicismo português atual, a fazer um dia, não pode deixar de ser uma história dolorosa». Aliás, a afirmação «não é que no mais fundo não creiamos» revela um carácter de escolha decisiva, que leva o poeta, bem como o Padre José Felicidade Alves, de modo diferente, a uma corajosa demarcação de posições. Nada poderia continuar na mesma. A conciliação confundia-se com traição, e isso era impensável. Afinal, lidas as Escrituras, o escândalo da contradição era enorme e insofismável. «Nesta vida é que nós acreditamos / e no homem que dizem que criaste / se temos o que temos o jogamos / “Meu deus meu deus porque me abandonaste?”». Sente-se a dúvida e a revolta… Como afirma Sérgio Campos Matos: «A modernidade passava também por uma espiritualidade renovada, liberta de dogmas e constrangimentos, aberta aos problemas humanos concretos, ao pulsar da vida, às culturas de protesto que a juventude dos anos 60 ia difundindo numa sociedade bloqueada. Compreende-se que, por essa época, a ‘crise da Igreja’ e até mesmo a ‘crise da civilização’ (P. Manuel Antunes) fizessem parte do léxico dos católicos que ousavam adotar um pensamento crítico». Se João Miguel de Almeida em “A Oposição Católica ao Estado Novo” nos faz uma descrição histórica passo a passo desse tempo, Jorge Revez, em «Os “Vencidos do Catolicismo” – Militâncias e Atitudes Críticas (1958-1974)», analisa o drama, centrado em dois caminhos individuais e na sua inserção na história portuguesa. Daí a interrogação sobre o «vencidismo», mesmo entendendo-se que não há uma geração com coerência intrínseca, nem um projeto marcado.

O “aggiornamento” e o “descomprometimento” da Igreja

É o tempo do «aggiornamento» que levará ao Concílio Vaticano II e que coincidirá com o progressivo «descomprometimento» da Igreja Católica com o Estado Novo. No Concílio intervêm D. António Ferreira Gomes e D. Sebastião Soares de Resende. Em 1959, diversos católicos (como Manuel Serra) participam na tentativa de golpe da Sé. Recordem-se, aliás, o documento de Francisco Lino Neto «Considerações dum Católico sobre o Período Eleitoral» (Junho de 1958), os abaixo-assinados de 1959 e o «manifesto dos 101» (de Outubro de 1965). Trata-se de textos fundamentais sobre a necessidade da democratização, sobre a polícia política e sobre a autodeterminação dos povos de África. No último caso, Nuno Bragança empenhou-se pessoalmente em assegurar que o Cardeal Cerejeira recebesse no Vaticano, onde se encontrava, um pedido para não desautorizar os católicos signatários desse documento que punha o dedo na ferida dos temas do pluralismo e do futuro de África. De facto, o Prelado recebeu o empenho e não pôs em causa diretamente os católicos signatários, o que os deixou satisfeitos, indo António Alçada Baptista ao Aeroporto da Portela para receber o Cardeal em sinal de reconhecimento. 

A ida do Papa Paulo VI ao Congresso Eucarístico de Bombaim (1964) gera forte polémica. Em 1965, o fecho da Sociedade Portuguesa de Escritores leva a que o CNC, sob a presidência de Sophia de Mello Breyner, acolha os autores espoliados da sua associação. Nasce entretanto o «Direito à Informação» (com Maria Natália e Nuno Teotónio Pereira, António Jorge Martins e Frei Bento Domingues), e verifica-se que são os cristãos a colocar com maior ênfase a questão colonial e a autodeterminação… «Tenho uma dor chamada Portugal / país defunto talvez unto para nações vivas / Portugal meu país de desistentes / terra mordida por soares dos reis / por antero camilo ou trindade coelho / Suicidou-se nestes homens o país / um país de província Portugal…». Assim se exprime Ruy Belo. É uma reflexão do português e do cristão. E António Alçada sublinha a contradição dramática: «Falou-se então na morte de Deus. Na verdade, era necessário que esse Deus morresse porque estava a tomar o lugar de um outro que se confundia com o mistério da nossa liberdade que é também a consciência de enfrentar um mistério que é a essência do novo Deus que se anunciava»… Jorge Revez procura dar-nos a chave do que, para si, está em causa, unindo os temas ligados: «o vencidismo desses católicos foi, provavelmente, o resultado ou a expressão de um processo de deslocação cuja movimentação principal seria a da secularização, em que, inconformados com a estrutura religiosa de que faziam parte e face às novas dimensões da experiência humana com as quais vinham contactando, optaram pela rutura». Quando Sophia de Mello Breyner Andresen diz na vigília da Paz de 1969 «vemos, ouvimos e lemos não podemos ignorar», é o alerta em nome da liberdade que se ouve. Estamos perante a recusa do fatalismo. O «rompimento é também, em última análise, uma busca de autenticidade na vivência de uma fé que muitas vezes não se esvaziou por completo, apesar do anterior denominador comum, a igreja, nos finais dos anos 60, ter perdido a sua capacidade mobilizadora e envolvente no quadro da experiência religiosa». O fenómeno é, assim, amplo, tendo a ver com a secularização e com a modernização (política e social) do País, mas também de um nova exigência de espiritualidade e de defesa da dignidade da pessoa humana. Estamos diante de uma Igreja em busca de recomposição.

Testemunho de Nuno Teotónio Pereira

Caras e caros participantes na tertúlia sobre “Os católicos na luta contra a Ditadura”

Não podendo estar entre vós neste momento, saúdo esta iniciativa do movimento Não Apaguem a Memória e do Instituto S. Tomás de Aquino, dada a importância histórica dos acontecimentos de que se ocupará, que estão a cair no esquecimento.

Quando Salazar chegou ao poder, primeiro como ministro das Finanças e pouco depois nomeado Presidente do Conselho, recebeu o apoio massivo dos católicos, o qual persistiu durante muitos anos, apesar do carácter cada vez mais ditatorial do regime. Isso terá porventura acontecido por causa do poder que a Igreja deteve em Portugal durante séculos, que apenas começou a ser contestado após a instauração da República em 1910.

Só assim se pode explicar esse apoio à ditadura salazarista durante tanto tempo e a sua indiferença perante os meios da repressão que o regime impunha e que se sobrepunham, por vezes, à própria Igreja.

De entre estes meios repressivos, os mais cruéis foram sem dúvida a polícia política, que chegava a exercer o seu domínio sobre as direções de todos os grupos de carácter associativo, incluindo os sindicatos de trabalhadores (eu próprio fui por duas vezes excluído da direção do Sindicato dos Arquitetos, apesar de eleito para o cargo), e a censura totalitária que abrangia todo o tipo de publicações e ações culturais. 

No que respeita à censura, a atividade era tão despudorada, que todos os jornais publicavam na primeira página um pequeno retângulo onde se lia “Este número foi visado pela Comissão de Censura”.

Quanto à polícia política eram conhecidos os vexames e as torturas por que passavam anualmente centenas de cidadãs e cidadãos.

Perante esta situação ditatorial que durou mais de quatro décadas, a esmagadora maioria da população, que se dizia católica, permanecia de braços cruzados, incluindo o Episcopado, que se mantinha solidário com o regime, não ousando exprimir qualquer crítica ou, sequer, dúvida.

Foi neste quadro que o então bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, escreveu em 1958 uma carta a Salazar na qual denunciava alguns aspetos da situação. Este documento que, evidentemente, não pôde ser publicado em qualquer órgão informativo, levou alguns católicos, que entretanto haviam começado a denunciar os crimes do salazarismo, nomeadamente no seio da chamada Ação Católica, a organizar ações de protesto, através de encontros e publicações clandestinas, assim como de cartas abertas e abaixo-assinados públicos. Entre todos, não posso deixar de citar o P. Abel Varzim e o Engº. Francisco Lino Neto, e ainda minha mulher Maria Natália Duarte Silva, que participou ativamente em todas estas iniciativas.

Mais tarde, na década de 1960, o foco passou a ser a denúncia da guerra colonial, vista como uma injustiça intolerável que atingia o povo português e os povos africanos sob dominação portuguesa e que constituía o “calcanhar de Aquiles” do regime. A luta pela paz, vivificada pelo Concílio Vaticano II e pelas novas responsabilidades reconhecidas aos leigos na Igreja, tornou-se central no pensamento e nas atividades dos então chamados “católicos progressistas”.

A ação dos católicos na luta contra a Ditadura foi-se progressivamente ampliando, ao longo dos anos, sendo uma das suas mais interessantes características o facto de ter construído pontes com muitos outros sectores da sociedade portuguesa – trabalhadores, intelectuais, estudantes – independentemente das suas crenças religiosas. Talvez por esta razão, o seu impacto foi muito além do que o número de pessoas realmente envolvidas o poderia fazer supor.

Lisboa, 16 de fevereiro de 2014

Testemunho de Luíza Sarsfield Cabral

Pediram-me um testemunho sobre a minha intervenção política antes do 25 de Abril… Digo quase sempre que sim a este tipo de solicitações, pois acho importante que não se “apague a memória”… Aceitei o convite também porque o interpretei como uma espécie de homenagem à Natália e ao Nuno Teotónio Pereira. 

A minha actividade, nessa época, foi semelhante  à de muita gente. No Porto, trabalhei na Mojaf, pertenci à Cooperativa Confronto, depois vim para Lisboa, para a Faculdade de Letras, onde participei nas greves universitárias.

Conheci, então, a Natália e o Nuno Teotónio Pereira, que foram absolutamente determinantes numa maior responsabilização cívica e política de um grande número de pessoas, entre as quais me incluo. Desde então, fiquei sempre ligada ao grupo a que chamam “católicos progressistas”, embora ninguém, que eu saiba, se designe a si próprio desta maneira. 

Entrei em contacto com o Direito à Informação, o Gedoc, a [Cooperativa] Pragma, fui várias vezes a Madrid com a Natália e o Nuno para reuniões com o grupo dos Cuadernos para El Dialogo, participei em muitos “terceiros sábados” – uma iniciativa, também da Natália e do Nuno: eram celebrações da eucaristia, que sendo autênticas, serviam de cobertura à troca de informação clandestina.       

Das várias actividades, lembro um fim-de-semana em Marvão, na casa do Nuno, em que um grupo de amigos (entre eles o frei Bento Domingues) se encontra num fictício piquenique à beira-rio, enquanto que a minha irmã Teresa e eu acompanhávamos dois amigos até à fronteira, onde “deram o salto” para Espanha para assim fugirem à guerra colonial. Depois, descemos até ao rio e regressámos a nado para junto das pessoas.

Era esta uma ajuda organizada que o casal Teotónio Pereira dava frequentemente.

Acerca do BAC (Boletim Anti-Colonial)

Moro num andar que tem duas portas de acesso, uma dá  para a casa e outra para um anexo praticamente independente. Em 1972, instalou-se aí o arquivo do BAC.

Lá trabalhavam o Nuno, o Luís Moita, o Manuel Brandão Alves (que viria a ser preso na Escola Naval da Marinha), o padre jesuíta José Sousa Monteiro e eu. Era sobretudo um trabalho de arquivo; havia muita documentação sobre África e a guerra colonial. Por questões de segurança, não sabia quem elaborava o boletim, nem quem o distribuía. Havia uma história combinada com o Nuno, em como alugava essa parte da casa a um agente técnico. Inventaram-se os pormenores do contracto e eu vendia essa história à família e amigos, que nunca desconfiaram de nada. Claro que a situação obrigava a cuidados. Nessa altura, não podia aceitar convites de certo risco, pelo que volta e meia era  criticada, diziam-me que me estava a “aburguesar”. Por exemplo, não fui à vigília da capela do Rato para não pôr em perigo aquilo que tinha em casa.

Até que, a 26 de Novembro de 1973, estava a preparar uma aula, batem à porta. Não sabia das prisões do Nuno e do Luís. Fui abrir, vi que a porta para o anexo estava já aberta, percebi logo…Eram três ou quatro agentes, começaram por entrar para o arquivo. Estavam exuberantes com o que encontravam, “olhem para isto!, diziam alto, atiravam tudo pelo ar, as fotografias de Wiriyamu [massacre cometido pelas tropas portuguesas, em Dezembro de 1972, no norte de Moçambique] voavam… e eu fingia que não tinha nada a ver com aquilo e repetia a história combinada.

Levaram-me para  Caxias.

Logo nessa noite, tive o primeiro interrogatório, comprido. Era uma sala grande com muitos polícias, numa berraria. Eu sempre a repetir a mesma história. Fulos, acabaram por ir buscar um cassetete, mas não me bateram. Até que, por fim, mostram-me a fotografia do Nuno, ainda molhada. Foi a evidência: percebi que estava preso.

Mandaram-me para a cela dormir e, no dia seguinte, depois do jantar, deram-me um Valium, que estupidamente aceitei, toda contente. Quando estava no sono mais profundo, acordam-me e levam-me para o reduto sul.

Aí fiquei durante quatro dias e quatro noites em tortura do sono, com interrogatórios violentos: dava-se aquela cena do polícia mau que grita e ameaça e depois, vem o polícia “bom”, que diz, amavelmente: “confesse, confesse, se confessar, amanhã pode estar em casa sossegada”.

Mas havia pouco a dizer, eles tinham apanhado tudo, perguntavam coisas estranhíssimas, queriam saber de pessoas que não tinham nada a ver com aquilo, foram buscar nomes à minha agenda e também perguntavam por uma mala e por explosivos, perguntas, para mim, tão estranhas como tudo o resto. Pelo meio, houve o feriado de 1 de Dezembro, em que estive praticamente sem interrogatórios (os polícias gozaram o feriado), mas continuei sempre sentada na mesma cadeira.

Até que, no último dia de tortura, começaram a implicar com um gravador que eu tinha para as aulas, havia lá qualquer coisa em alemão, eles não percebiam as minhas explicações, uma confusão e lembro-me de dizer ao agente: “Eu já lhe disse… lá em baixo…”.

Ora, eu não tinha saído da mesma sala, mas parecia-me que sim, ainda hoje penso nos interrogatórios como se fossem em salas diferentes. O agente percebeu que eu começava a ter alucinações e mandou-me dormir.

Quero aqui destacar que a ignorância propositada, metódica, sobre acções e envolvimentos das outras pessoas do grupo foi muito importante para mim: ajudou a manter uma certa calma e, sobretudo, não podia dizer mesmo nada, estava ignorante.

A grande angústia em relação aos interrogatórios era o pânico de implicar alguém com as respostas que ocorriam. Foi esta a tortura pior, para mim. Tudo era engendrado para dar insegurança. Ao fugir de uma  provocação, corria-se o risco de entrar por um caminho que não se queria. E sem contacto com o exterior, não se podia verificar nada, começava-se a imaginar novos enredos, a ter escrúpulos horríveis de se ter prejudicado este ou aquele, sem controle de nada. Até o híper aquecimento da sala era planeado para provocar alucinações mais rapidamente. Era o princípio da incerteza absoluta. Cá fora, não se pode imaginar  o que isso é de tortura psicológica.

Depois, fiquei um mês em regime de isolamento, com alguns interrogatórios pelo meio. Não tinha literalmente nada para me distrair, nem livro, papel ou lápis. No Natal, pedi uma Bíblia, mas não me deram.

Depois do Natal, comecei a ter visitas da família e, no princípio de Janeiro, levaram-me para uma cela com mais três raparigas: a Fátima Pereira Bastos, a Conceição Moita e a Maria José Campos. Já conhecia a Fátima e a Xexão, foi uma alegria, conversámos até às tantas da noite, não ligando aos ralhos da guarda prisional.

Aí fiquei mais um mês e meio. As três pertenciam a grupos de luta armada e tinham sido barbaramente torturadas. Demo-nos muito bem, apesar das diferenças: eu era a da “papelichada”, ou seja, sem grande categoria. Não percebia nada sobre luta armada.

Saí sob caução, à espera de julgamento. Francisco Sousa Tavares, de quem era amiga, ofereceu-se para ser meu advogado.

Quando saí da cadeia, fui para casa do meu irmão Francisco. Lembro-me de que a primeira coisa que fiz foi visitar a mãe da Xexão. E não sei bem que mais andei a fazer, que a Pide começou a mandar-me recados: que tivesse cuidado, que andava a falar demais… Quer dizer, estava a ser seguida… Era o prolongamento da prisão, cá fora.

Voltei à Escola. Do Ministério, veio um despacho: era considerada “pedagogicamente inconveniente” para dar aulas. Soube, mais tarde, que se previa  o meu afastamento e não seria colocada no ano seguinte.

Felizmente, deu-se o 25 de Abril.

Notas

1. Acerca do que se passou na Escola depois do 25 de Abril: na pouco sensata euforia de saneamentos que grassava, a Directora foi saneada. Senti o dever de a defender.

2. Em pleno gonçalvismo, cruzei-me no Terreiro do Paço com uma guarda prisional. Reconheci a sua cara, não conseguia lembrar-me donde… Dirigi-me a ela e saudei-a… Só então me dei conta de quem ela era, de onde a conhecia…

3. Digo sempre que não me custa falar sobre Caxias, mas o facto é que estas coisas ficam e, afinal, não me foi assim tão fácil falar…

Patricia Highsmith e a Sobrevalorização da Sexualidade

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É a sexualidade sobrevalorizada na cultura? Uma escritora brilhante, Patricia Highsmith escreveu alguns dos mais célebres livros policiais, entre os quais a saga do psicopata carismático Mr.Ripley (hoje em dia seria considerado homem “queer”). Os seus livros tiveram inúmeras adaptações cinematográficas dirigidas por grandes nomes da sétima arte: Strangers on a Train (1951), por Alfred Hitchcock e em 1969 por Robert Sparr; de Réné Clément, Plein Soleil (com o belíssimo Alain Delon), The American Friend por Wim Wernders, The Talented Mr.Ripley (1999) por Anthony Minghella, Ripley’s Game (2002) por Liliana Cavani, Ripley Under Ground por Roger Spottiswoode e Carol por Todd Haynes — este último a história de uma relação homossexual entre duas mulheres, baseado num encontro fugaz entre a escritora e uma companheira interessante, com a singularidade de ser o primeiro romance homossexual com um final feliz na América; um livro que deu esperança às jovens lésbicas, tendo a escritora recebido imensas cartas de agradecimento. Seria de esperar que o documentário sobre esta grande escritora fizesse justiça ao seu génio, mas incorre em mediocridade e chega a ser vulgar na abordagem à vida íntima da Patricia Highsmith. Somos informados de que frequentava bares gays, que era lésbica (com ênfase excessivo na influência da orientação sexual da escritora na sua obra), informação maioritariamente irrelevante para a conhecermos enquanto artista e até mesmo pessoa. A relevância da orientação sexual de um artista manifesta-se quando este se vale da sua experiência biográfica para a criação da obra de arte (como o exemplo acima referido de Carol), ou o exemplo polémico da visita de Thomas Mann a Veneza, inspiração para a sua famosa novela Morte em Veneza. A sexualidade (onde se integra a pluralidade LGBTQ) é uma parte da identidade do ser humano, mas não é o traço dominante do Homem. Entende-se por identidade o “conjunto de características (físicas e psicológicas) essenciais e distintivas de alguém, de um grupo social ou de alguma coisa”. Estes movimentos identitários a nível sexual, reflectidos neste tipo de produção cultural, vendem à audiência a ideia de que o sentido das suas vidas é a descobertaafirmação imposição da sua sexualidade à sociedade, uma disposição limitativa tendenciosa. Descrever a vida de uma mulher que, como descreveu no posfácio da reedição de 1990 de Carol (´If I were to write a novel about a lesbian relationship, would I then be labelled a lesbian-book writer? That was a possibility, even though I might never be inspired to write another such book in my life. So I decided to offer the book under another name.´), nem queria ser rotulada de escritora de policiais e menciona a sua oposição a esse rótulo, é reduzir o artista a uma espécie de penduricalho de categorias sociais, o que de modo geral rejeitamos.

A Barbie e os Bullies

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A Barbie relembra-me a minha adolescência.

Dito isto, imagino os leitores a entreolharem-se, meio sorridentes, como se a minha reminiscência se tratasse de uma revelação bombástica. Talvez um dos leitores quebrasse o silêncio, retorquindo: “Não quererias dizer infância?”

Consigo agora visualizar alguns leitores a conterem o riso e outros a repreenderem o desbocado com um rosto que indica que a piada está fora do prazo.

Bem, eu vou desvendar os mistérios. Não brinquei às bonecas quando era criança; o mais próximo que cheguei disso foi ser tratado como um boneco por ser o único rapaz (é preciso acrescentar que os outros eram raparigas, ou o facto de eu ser o único rapaz confirma-lo?)

Eddie Vedder algures em 1990.

Mais tarde, na escola, chamaram-me Barbie. Terá sido por volta do sétimo ou oitavo ano. Fui o primeiro puto a deixar crescer o cabelo. Também fui pioneiro na mudança da caligrafia que aprendi na escola primária para a chamada letra de máquina. Acho que é de família. A minha mãe foi a primeira rapariga a usar calças na aldeia. Na altura, não se tratava de uma questão de feminismo, mas sim de uma homenagem a Elvis. A minha mãe, na sua ingenuidade rural, talvez pensasse que iria furar a enorme fila para uma noite com o Rei do Rock. Nunca se concretizou. Acabou por ficar com o meu pai, que andava de bicicleta pela aldeia (numa altura em que o ciclismo não garantia credibilidade social em nome de cuidar do ambiente) enquanto penteava o cabelo com uma mão e movia o veículo com a outra para impressionar o gajedo (hoje em dia seria visto como masculinidade tóxica, apesar da reduzida pegada de carbono).

Voltemos a mim, ou melhor à Barbie. Não só me chamavam o nome da boneca. Alguns bullies (na altura não eram tidos como bullies, mas filhos da puta) ainda fingiam querer passar uma noite comigo com os mesmos objectivos lascivos que as raparigas da geração da minha mãe tinham para com o Elvis. No meu caso, claro, era para gozar com a minha cara (ou melhor, com o meu cabelo).

A vertical selective focus shot of long-tailed macaque.

Nade de novo na minha vida. Algumas vezes antes, durante o período entre a infância e a adolescência (podemos chamar-lhe puberdade?), também me chamaram macaco. Isto dito hoje, levaria a maioria dos leitores acima a atribuir-me uma cor de pele que não é a correcta. A alcunha de macaco era alternada com orelhas de abano, o que penso explicar o fato de se poder ser comparado aos nosso antecessores e, ao mesmo tempo, caucasiano.

Não sei se deixaram de me chamar macaco para se ficarem apenas por Barbie. Talvez o cabelo comprido escondesse as orelhas? Não me lembro. Só me recorodo que, se não fosse o cabelo ou as orelhas, havia sempre a hipótese de levar porrada por torcer pelo Porto.

O atual barulho em torno do novo filme da Barbie deveria dar-me baixa médica. Com este contexto, como não ter uma crise de ansiedade e de saúde mental? Nada mais apropriado do que um trauma para ficar em casa a ver o(s) filme(s) da Barbie na internet.

Um negro albino.

Agora fora de brincadeiras. Fiquei genuinamente surpreendido pela tal película (de que só vi o trailer) não ser protagonizado por um Ken nascido em Kinshasa, operado na Califórnia, e a publicar lives de apoio a Kiev gravados num iPhone com uma capa com o arco-íris.

Uma feminista boazona? Onde é que já se viu isso? Na net e na Netflix, dois mundos tão imaginários quanto a Disney. (A net será eventualente mais verídica, pelo menos em comparação com Hollywood).

Entretanto, no admirável imundo novo, o rebanho veste-se a condizer, de cor-de-rosa. Espera aí: não era antiquado, preconceituoso, etc. atribuir uma cor ao género? Paradoxos do progressismo.

As Similitudes entre Músicas Tradicionais do Mundo e Música Contemporânea Erudita, Pop, Rock e Jazz: Explorando Influências Interculturais

Um breve ensaio descrevendo como as inovações musicais no séc. XX foram beber influência a tradições primitivas de todos os continentes. Texto de Vítor Rua (Músico & Etnomusicólogo).

A música, não sendo uma linguagem (não tem uma sintaxe), e não sendo de todo universal (existem tribos que nem a palavra “música” têm na sua linguagem e muito menos o “conceito”), transcende, no entanto, fronteiras geográficas e culturais, conectando pessoas de diferentes origens e contextos. Ao longo da história, as músicas tradicionais do mundo evoluíram e se entrelaçaram com géneros contemporâneos, como a música erudita, pop, rock e jazz. Essa interconexão resultou em obras que aparentam ser inovadoras, mas que, na verdade, têm raízes profundamente misturadas com as tradições musicais globais. Neste ensaio, exploraremos as similitudes entre certas músicas tradicionais do mundo e géneros musicais contemporâneos, destacando as influências mútuas e a forma como os compositores conseguem incorporar elementos de diversas culturas.

As músicas tradicionais do mundo possuem uma riqueza inigualável, refletindo a história, as crenças e as identidades das comunidades que as criaram. Através de instrumentos únicos, ritmos distintos e escalas melódicas específicas, essas músicas transmitem uma autenticidade que ecoa ao longo dos séculos. No entanto, é importante notar que a linha que separa o tradicional do contemporâneo é muitas vezes tênue, e os compositores contemporâneos têm demonstrado um interesse crescente em incorporar elementos dessas tradições em suas composições.

A música erudita contemporânea, por exemplo, frequentemente se inspira em melodias e ritmos tradicionais de diferentes culturas. Compositores como Béla Bartók e Igor Stravinsky procuraram explorar as raízes folclóricas em suas obras, incorporando elementos de música húngara e russa, respectivamente. Essa abordagem resultou em composições que eram inovadoras para sua época, mas que ao mesmo tempo, eram enraizadas nas tradições musicais de seus países de origem.

No universo da música popular, encontramos exemplos de fusão entre o tradicional e o contemporâneo. Artistas como Paul Simon e Peter Gabriel ou David Byrne mergulharam nas músicas africanas e sul-americanas, incorporando ritmos e texturas em suas canções. O álbum “Graceland” de Paul Simon é um notável exemplo disso, onde ele colaborou com músicos sul-africanos, criando uma síntese única entre a música pop ocidental e as tradições musicais africanas.

O rock e o jazz também não escaparam dessa influência intercultural. O jazz, em sua essência, é uma mistura de diversas tradições musicais, e músicos como Duke Ellington incorporaram elementos da música afro-americana e das culturas globais em suas composições. Um disco como o Free Jazz de Ornette Coleman, faz contraponto com a música de Arte da Birmânia, por exemplo.

O rock, por sua vez, absorveu influências de todo o mundo, desde o reggae jamaicano até os sons africanos da voz e das guitarras de Led Zeppelin.

Contudo, é essencial reconhecer que a interação entre géneros musicais não é unilateral. Assim como os compositores contemporâneos incorporam elementos tradicionais, as músicas tradicionais também evoluem para incorporar influências contemporâneas. Isso pode ser visto nas músicas folclóricas que se adaptam a novos arranjos e instrumentos modernos, mantendo-se relevantes para as gerações atuais.

Em suma, as similitudes entre músicas tradicionais do mundo e géneros musicais contemporâneos são uma prova de que a música é uma forma de expressão em constante evolução. A influência mútua entre essas tipologias musicais ressalta a capacidade da música de unir culturas e transcender barreiras. Compositores e artistas que reconhecem a importância das tradições musicais podem criar obras que são inovadoras, mas que ao mesmo tempo honram o passado. À medida que continuamos a explorar e a celebrar a diversidade musical, é imperativo lembrar que, por mais modernas que as composições possam parecer, elas frequentemente têm suas raízes firmemente plantadas nas tradições globais que moldaram a música como a conhecemos hoje.

Músicas Etnográficas: Uma Exploração Etnomusicológica das Expressões Polifónicas Africanas, Ragas Indianos, Gagaku Japonês, Músicas Tradicionais Chinesas, Música dos Esquimós e Música Sussurrada do Burundi

A etnomusicologia é uma disciplina que se dedica ao estudo das músicas tradicionais e folclóricas de diferentes culturas ao redor do mundo. Sob uma abordagem científica e musicológica, busca compreender a riqueza das expressões musicais, suas estruturas, contextos culturais e funções dentro das sociedades. Neste ensaio, exploraremos algumas das músicas etnográficas mais distintivas, como as músicas polifónicas africanas, o raga indiano, o gagaku japonês, as músicas tradicionais chinesas, a música dos esquimós e a música sussurrada do Burundi, destacando seus elementos únicos e sua relevância na paisagem etnomusical global.

Músicas Polifónicas Africanas:

https://www.youtube.com/watch?v=jtHJwndHtO8

As músicas polifónicas africanas são exemplares da complexidade das tradições musicais do continente. Grupos étnicos como os Baka da África Central, os Zulu da África do Sul e os pigmeus de Aka são conhecidos por suas harmonias intricadas e sobreposições de vozes. A polifonia africana frequentemente desafia as convenções harmónicas ocidentais, priorizando a textura e a colaboração entre as vozes. Aspectos como a polirritmia e a intercalação de padrões rítmicos conferem às músicas africanas uma sensação de unidade diversificada, revelando profundidades musicais que vão além das aparências superficiais.

Raga Indiano:

O sistema raga na música indiana é uma manifestação da profundidade espiritual e filosófica da cultura indiana. Os ragas são escalas melódicas que guiam a improvisação e a expressão emocional dentro da música clássica indiana. A atenção meticulosa à afinação e à ornamentação melódica cria um espaço musical único, onde o artista se conecta com a emoção e a espiritualidade. A estrutura raga é flexível, permitindo a exploração de diferentes estados emocionais, desde a contemplação tranquila até a exuberância vibrante.

Gagaku Japonês:

O gagaku é uma forma de música de corte tradicional no Japão que tem raízes antigas. Caracterizado por suas melodias simplificadas e instrumentação única, incluindo flautas, cordas e tambores, o gagaku oferece uma experiência auditiva que evoca uma sensação de reverência e tranquilidade. A tradição de gagaku destaca a importância da precisão e da continuidade, enquanto também incorpora elementos da poesia clássica japonesa, como o tanka. A música do compositor Morton Feldman, tem muitas influências deste estilo musical.

Músicas Tradicionais Chinesas:

A música tradicional chinesa abrange uma ampla gama de estilos e instrumentos, muitos dos quais têm raízes antigas. O erhu, um instrumento de cordas, e o guzheng, uma cítara de 21 cordas, são alguns exemplos notáveis. A música chinesa frequentemente valoriza a imitação dos sons naturais e a relação entre a música tradicional. A tradição musical chinesa é profundamente influenciada pela filosofia e estética do país, resultando em uma paleta sonora única e variada.

Música dos Esquimós:

As músicas dos esquimós, também conhecidos como inuítes, refletem a relação íntima desses povos com a terra e o ambiente ártico. A música esquimó frequentemente emprega técnicas vocais e instrumentos de percussão, imitando os sons da natureza e criando um senso de comunidade. A música é usada para contar histórias, expressar identidade cultural e transmitir conhecimento intergeracional.

Música Sussurrada do Burundi:

A música sussurrada do Burundi é uma prática única que envolve um canto sussurrado em harmonia. As vozes combinadas criam um efeito hipnótico e etéreo, transportando os ouvintes para um espaço sonoro distinto. Essa prática musical está ligada a rituais tradicionais e celebrações, e seu efeito sonoro peculiar despertou interesse não apenas na comunidade etnomusicológica, mas também entre os apreciadores de música experimental.

A etnomusicologia nos convida a explorar e apreciar a riqueza da diversidade musical global. As músicas polifónicas africanas, o raga indiano, o gagaku japonês, as músicas tradicionais chinesas, a música dos esquimós e a música sussurrada do Burundi são exemplos poderosos das complexas interações entre música, cultura e sociedade. Sob uma lente científica e musicológica, somos lembrados de que a música transcende as fronteiras linguísticas e culturais, conectando-nos à nossa humanidade compartilhada e enriquecendo nosso entendimento das expressões musicais que permeiam nosso mundo diversificado.

Influências das Músicas Etnográficas na Pop, Jazz, Rock e Música Erudita Contemporânea: Uma Abordagem Científica e Etnomusicológica

A interação entre músicas etnográficas e géneros musicais contemporâneos, como pop, jazz, rock e música erudita, tem sido um campo fértil para a inovação e a criação de novas sonoridades. Com um olhar científico e etnomusicológico, exploraremos as influências das músicas tradicionais em composições icónicas, como o álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” dos Beatles, a obra de Duke Ellington, o pop experimental de Scott Walker em “Bish Bosch” – influenciada pelos ritmos de percussão e cuíca brasileiros e a transformação da ópera contemporânea através do canto sussurrado do Burundi. Além disso, examinaremos como certas técnicas instrumentais contemporâneas têm raízes profundas nas músicas tradicionais, como o canto harmónico dos Tuva. A música electrónica do compositor americano Morton Subotonick (), é quase uma “cópia” do som subaquático produzido por um elefante marinho, captado pelo realizador Werner Herzog num dos Pólos do Planeta.

Influências nas Músicas Pop: “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e Scott Walker’s “Bish Bosch”

O álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” dos Beatles é um marco na história da música pop que reflete influências etnográficas. A canção “Within You Without You” de George Harrison apresenta elementos sonoros indianos, incluindo a Sitar e instrumentos de percussão tradicionais, muito influenciado pelo compositor indiano Ravi Shankar. Esses elementos criam uma atmosfera única e exploratória que expande as fronteiras do pop convencional.

No caso do compositor Scott Walker e seu álbum “Bish Bosch”, as influências etnográficas são evidentes em sua abordagem experimental. Incorporando elementos de música concreta, música erudita e pop, Walker cria uma paisagem sonora desafiadora e inovadora. Sua abordagem eclética demonstra como elementos etnográficos podem ser reinterpretados e mesclados com géneros contemporâneos para criar algo novo e intrigante.

Influências no Jazz: Duke Ellington e o Uso de Elementos Afro-americanos

Duke Ellington, um dos maiores nomes do jazz, demonstrou como elementos etnográficos podem enriquecer e expandir o vocabulário jazzístico. Sua exploração das influências afro-americanas nas músicas tradicionais resultou em composições únicas – como a peça “Caravan” que incorporam ritmos, melodias e improvisações inspiradas na herança cultural afro-americana. A colaboração com músicos como Billy Strayhorn também exemplifica como a fusão de elementos tradicionais e contemporâneos pode levar a uma linguagem musical rica e distintiva.

Transformação na Ópera Contemporânea: Canto Sussurrado do Burundi e Novas Técnicas Vocais

A ópera contemporânea tem sido impactada pela exploração de novas técnicas vocais inspiradas por músicas etnográficas. O canto sussurrado do Burundi, ou o canto da garganta Inuit, por exemplo, desafiou as convenções do canto lírico tradicional, levando a ópera a experimentar com novas formas de expressão vocal. A técnica do Bel Canto foi suplantada por técnicas contemporâneas como o sussurro, o grito e o uso do parlato, criando um espectro mais amplo de possibilidades emocionais e narrativas, como no caso da peça Sequenza III de Luciano Berio ou em várias obras da compositora Meredith Monk ( https://www.youtube.com/watch?v=89I-4wtz3uU ).

Técnicas Instrumentais Contemporâneas e Músicas Tradicionais: O Caso do Canto Harmónico dos Tuva, e as Advanced Technics da guitarra de Botswana

A influência das músicas etnográficas também é notável em técnicas instrumentais contemporâneas. O canto harmónico, uma técnica vocal dos Tuva, foi incorporado por compositores contemporâneos em suas composições eruditas e experimentais, como no caso da composição Stimmung de Karlheinz Stockhausen. Essa técnica, que envolve a produção de múltiplos tons simultâneos, acrescenta uma dimensão única às composições contemporâneas, demonstrando como a inovação muitas vezes ressoa com tradições musicais ancestrais.

Também na guitarra clássica podemos ver Advanced Technics na obra do guitarrista Andy Mckee , mas essas técnicas avançadas reflectem o uso invulgar da guitarra pelo guitarrista de Botswana Ronnie, que apenas com algumas cordas (as outras partiram-se), recria essas técnicas avançadas de uma forma inacreditável, para quem desconhece de todo os tais métodos contemporâneos de tocar nesse instrumento.

Em síntese, as influências das músicas etnográficas nos géneros contemporâneos como pop, jazz, rock e música erudita demonstram a riqueza da interação cultural na música. A exploração de elementos tradicionais enriquece a paleta sonora e expande os horizontes da criação musical. Ao adotar uma abordagem científica e etnomusicológica, somos convidados a apreciar como a música transcende fronteiras e evolui através da interconexão de culturas e géneros musicais distintos.

Sugestões de Cinema: Cancel Culture e Submarinos

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Destacámos numa dada sexta-feira do mês quatro filmes generalisticamente sobre cultura de cancelamento, em particular na academia mas não só. Primeiro, A Culpa Humana, com Anthony Hopkins e Nicole Kidman, retratando um professor acusado de ter feito um comentário racista que levou ao seu despedimento, baseado num romance de Philipp Roth; depois, Safe Spaces, sobre outro professor acusado de ter despontado recordações traumáticas a uma aluna devido a uma aula provocadora; terceiro, o recente Tár, com Cate Blanchett, com uma compositora maestrina acusada de desprezar minorias privilegiar compositores brancos heterossexuais; por último, O Processo, adaptação de Orson Welles do famoso romance de Kafka retratando um homem perdido numa surrealidade burocrática em que nem sequer se entende de que é que está acusado. A cultura do cancelamento é um fenómeno real, presente, que sempre existiu, e que consiste pura e simplesmente na perseguição pública privada de pessoas devido a opiniões dentro da lei que possam ter. É um fenómeno que não deve ter qualquer lugar numa sociedade civilizada baseada no estado de direito, sendo que em geral aqueles que acham que tal coisa não existe ou não tem relevância são, muito provavelmente, compactuantes com essa miserávelbárbara irracional forma de censura moderna.

Outra leva de filmes destacou a figura do submarino este mês. O espaço exíguo do mesmo, versão ainda mais condensada do micro-universo hermético que decorre em qualquer embarcação de alto mar — ou, nas vertentes mais modernas, no espaço — permite todo o tipo de incorporações dramáticas bem conhecidas: questões morais, religiosas, de amizade, às vezes de amor, quase invariavelmente de guerra, mas sempre, dada a situação de circuito fechado em que o enredo decorre, de disposição diegética incontornável em que as tensões têm necessariamente resolução, não poucas vezes trágica. Deixamos aqui uma lista de filmes com algumas sugestões de qualidade em redor do tópico.

A Paixão dos Ossos — uma conversa com Urbano Tavares Rodrigues sobre Ferreira de Castro, memórias, a natureza, a escrita e a vida

Adaptação de Ana Cristina Carvalho (CiscNova, FCSH Nova de Lisboa) a partir de uma conversa com Urbano Tavares Rodrigues sobre Ferreira de Castro e a relação entre ambos, em Lisboa, a 6 de Maio de 2013, a propósito do doutoramento em Ecologia Humana da autora, que incidiu sobre os conteúdos ambientais na literatura de ficção castriana.

O Ferreira de Castro era um homem com um grande amor à paisagem. Com esse amor ensinou-me a ver Sintra, a conhecer a região. Encontrávamo-nos muitas vezes num cafezinho ali no largo do palácio da vila, não me lembro agora do nome. Mais no Verão e na Primavera, que ele receava o Inverno, agasalhava-se, protegia-se muito. Também nos juntávamos em Lisboa, mas em Sintra percorríamos os caminhos e fazíamos o roteiro das fontes. As fontes, do que me recordo, eram das coisas que mais o apaixonavam na serra. E visitámo-las todas. Também as árvores? Pode ser, o verde e as árvores certamente também o atraíam, não sei.

Ele teve outra enorme paixão, a Diana de Lis. Ah foi correspondida? Não me lembro…

Eu gostava muito dele, admirava-o imenso, quando morreu fartei-me de chorar. Montámos-lhe uma guarda-de-honra de escritores no funeral: eu, o Mário Ventura Henriques, a Natália Correia, o João de Melo e outros. Dos que privaram com ele estão vivos ainda a Agustina e o João de Melo, que foi meu assistente em Letras, como eu fui do Vitorino Nemésio.

O Ferreira de Castro e os amigos reuniam-se num café ali no Chiado – “Café Chiado”, creio que se chamava mesmo assim. Os amigos adoravam-no. Eram mais velhos, da geração anterior à nossa. Às vezes juntava-me eu, o Armindo Rodrigues, poeta, e o pessoal das Belas Artes, como o Manuel da Fonseca. Uma tarde, o Ferreira de Castro estava sentado cá fora, eu ia a passar. Eu era jovem, muito magro, as raparigas gostavam de mim e vieram umas deitar-me os braços ao pescoço. Ele era já homem maduro, sério, muito discreto, e diz para os amigos “Não percebo a sorte deste tipo com as mulheres! Eu compreendo a paixão da carne, não compreendo é a paixão dos ossos”. Tinha este humor, reservado apenas a um círculo muito próximo.

Naquela época, na verdade, eu parava mais noutra tertúlia, a do Abelaira. Uma vez estávamos ali sentados uns sete ou oito, o José Gomes Ferreira entre eles, tínhamos acabado de escrever um papel contra o governo e recolhíamos assinaturas. Vemos o Herberto Helder descer o Chiado, pedimos-lhe a dele. Mas ele, sendo funcionário da Emissora, se assinasse perdia logo o lugar, tinha família, via-se numa situação dramática. E nós compreendemos isso.

Houve um tempo em que acumulei o trabalho de redação do Diário de Lisboa e d’O Século, onde o Ferreira de Castro também foi redator. N’O Século, nas noites em que havia pouco serviço ou nas horas vazias de piquete, eu escrevia contos e romances. Parece-me que ele chegou a fazer o mesmo.

O Cunhal, que também tinha grande respeito e estima pelo Ferreira de Castro, ouviu um dia uma intervenção minha no círculo dos intelectuais do Partido Comunista e achou belíssima. Reclamou com a célula, que eu estava ali mal, que não sabiam aproveitar as pessoas, e convidou- me para ser um dos dirigentes do setor intelectual. E pronto, fiquei a ser. As reuniões do partido decorriam à noite e eram chatas; só animavam com o Manuel da Fonseca, contava anedotas,

toda a gente se ria. Agora querem que eu continue, eu continuo. Em Dezembro faço 90, posso não chegar lá. Mas estou completamente preparado para partir.

O Ferreira de Castro era a personificação da delicadeza, fosse entre amigos ou com qualquer admirador na rua. Uma vez fui pedir-lhe financiamento para um 1o de Maio, já não sei de que ano, e ele a desculpar-se: “Eh pá, sabes que eu sou completamente antifascista. Mas não sou comunista…”. Era um grande coração. E eu vim de lá com o dinheiro.

Alguns neorrealistas acusaram-no de escrever mal. Muito injustamente. A Lã e a Neve, por exemplo, é um livro belíssimo, aquele que mais se aproxima no neorrealismo. Pessoalmente, o meu preferido é A Curva da Estrada, decorrido em Espanha, com um protagonista político assaltado de dúvidas, muito bem retratado. É que com o neorrealismo o socialismo quis evacuar o escritor da obra. Mas o escritor está lá e faz falta.

A literatura do Ferreira de Castro foi considerada “impura” num período, que vai até hoje, em que se combate toda a obra de empenhamento social, e que deixou cair um pouco no esquecimento os neorrealistas. Continua esta moda de outros valores, da literatura de consumo fácil, que não presta, que é lixo. Ainda há bons escritores, isso sim, mas empenhados politicamente, poucos.

Eu combato o que se está a passar atualmente. Tanto quanto eu posso. Aqui em casa, sem poder sair à rua, escrevo e o que digo é absolutamente contra este governo, este período de ditadura do capitalismo ultraliberal, neofascista e sem vergonha, e os negócios sujos por trás disto. Já combatia quando tomei partido pelo Delgado, e em consequência despediram-me e silenciaram-me. Uma Pedrada no Charco escapou à apreensão graças ao Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências, 1958, prémio que o Ferreira de Castro tinha recebido duas décadas antes.

A ele pouparam-no, pelo prestígio internacional. Enquanto escritor, eu não sentia a autocensura que tanto o atormentava a ele. Ele era mais realista, nós escrevíamos tudo codificado, usávamos de muita imaginação para enganar a censura.

E eu tinha uma enorme coragem física. Da última vez que estive preso foi terrível. Cinco dias e cinco noites sem dormir, e quando finalmente me largaram só conseguia dormir uma hora por dia. O médico de Caxias garantiu-me que não era fascista, que admirava a minha obra, tratou-me por doutor, coisa a eu que não estava habituado na Pide, onde me insultavam com “cabrão” e tudo do pior, e deu-me um valium inútil. Eram dores constantes no corpo todo, enxaquecas, dores nos dedos. Geralmente os carcereiros são maus, mas o meu não era. Disse- me que sofrer assim tanto só tinha visto o Pulido Valente e perguntou-me se podia fazer alguma coisa por mim. “Pode. Está lá fora um saco com o meu nome. Lá dentro estão uns supositórios analgésicos. Se me trouxer um…”. Não eram autorizados a isso, claro, mas ele foi buscá-lo. Então dormi. Soltaram-me ao fim de meio ano, com receio do movimento pela minha libertação, criado em 1969, aqui e lá fora. Em França movimentou o Sartre e outros, em Portugal muitos, entre eles o Ferreira de Castro, que sempre assumiu posição a meu favor.

Dos poetas, ele conviveu com o Ruy Belo e o Herberto Helder, que me lembre. O Ruy Belo escreveu um poema, “Muriel”, belíssimo. O nome da mulher do Ferreira de Castro, Elena Muriel, mas não inspirado nela. Muito bonita. Como era também muito bonita a Maria Judite de Carvalho, minha mulher, mãe da minha filha Isabel. É ela nesta fotografia. Tinha uns olhos verdes e cabelo louro escuro, que aqui parece ainda mais escuro, porque ela o pintava. Morreu

estupidamente, com um cancro. E custou-me tanto, tanto, eu tinha um carinho tão grande, um amor tão grande por ela.

Não me lembro de pormenores sobre a relação do Ferreira de Castro com a natureza, com os rios, o campo ou os animais. Só me lembro das fontes. Foi há muitos anos e esse tópico não era importante. O importante era o combate político e as questões sociais. Mas lembro-me das nossas conversas, das memórias vivas que ele guardava de Belém-do-Pará e da vida de sofrimento que lá passou. Falava também muito do parente que não lhe deu apoio, desse abandono. Lembro-me de ele evocar, com muita ternura, o Amazonas e o seringal para onde emigrou rapazinho. Fiquei com grande curiosidade de conhecer os locais d’A Selva, que é um livro impressionante. E fui lá, percorri-os um a um. Fiquei impressionado.

O Ferreira de Castro era bom, bom como o pão. Tinha uma comunhão quase mística com a natureza, como eu também tenho. Não é bem uma comunhão mística: é quase mística.

ACC, 2013-2023

As Quotas Raciais na Hollywood do séc. XXI

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A partir de 2024, na Academy of Motion Picture Arts and Sciences, em Hollywood, os filmes terão de cumprir mais requisitos para serem eleitos aos Óscares — o preenchimento de numerosas, exigentes e até bizarras quotas raciais aplicáveis a todos os participantes: elenco, produção e realização, argumentistas, equipa técnica, etc. Por isso destacámos, em colaboração com Mafalda Simão Leal, esta “boa intenção” (aquelas de que está o Inferno cheio) da inclusão e representatividade das minorias no grande ecrã. Suscita-se uma questão pertinente: perder-se-á a liberdade artística? Ficará refém de uma agenda política, cujo objectivo é agradar a uma audiência específica? Em que medida tal põe em risco a própria democracia? Mas não nos dispersemos, o nosso foco é o cinema. Neste novo contexto, os realizadores de Hollywood, se quiserem ganhar um Óscar, terão de abdicar da sua liberdade criativa, criando um monstro de Frankenstein cinematográfico, enxertando personagens, histórias, actores,elementos da equipa, que podem não ser os desejados (muito provavelmente..) nos seus filmes devido a quotização política, modo de planeamento social colectivo, que atinge o próprio cerne do processo artístico, manipulando quem é que os artistas devem ou não devem elencar nas suas obras. Não deixa de ser monumentalmente estranho que se entenda a necessidade destas quotas em pleno século XXI, quando temos actores e actrizes de topo, e também realizadores, na ribalta da sétima arte americana, entre os quais Denzel Washington, Lucy Liu, Freida Pinto, Will Smith, Morgan Freeman, Ang Lee, Alfonso Cuáron, Alejandro Iñarritu, Jordan Peele, Ava Duvernay, Spike Lee, Guillermo Del Toro, Antoine Fuqua, M. Night Shyamalan, e esta lista já não está pequena e inclui nomes efectivamente titânicos no panorama do cinema comercial actual. Deixamo-vos em específico a indicação da obra de Peele, onde as “minorias” não são personagens bibelô, ventríoloquos do cinema branco escudado na causa da diversidade que em raiz é nobre mas cuja aplicação pode ser politicamente muito suspeita. Os filmes deste realizador, através da lente da psicologia social, oferecem uma análise complexa do racismo, recorrendo à metáfora e ao terror. Os defensores das quotas podem alegar que Peele é uma excepção a nível da inclusão dos negros na indústria cinematográfica, mas (1) a lista acima exposta em grande parte o desmente e (2) haverá certamente formas mais democráticas, mais fluidas e mais unânimes de tornar a indústria inclusiva, alternativas que não aniquilem liberdade criativa — para as quais provavelmente o exercício livre do mérito artístico será imprescindível.

Pode a Mulher Mudar o Homem?

O filme “Sunrise: A Song of Two Humans”, a primeira incursão de F. W. Murnau no cinema americano, conta a história da queda e redenção de um homem honesto e bondoso que se deixou seduzir pelos prazeres mundanos. Este é tentado a matar a sua esposa e vender todos os seus bens de modo a fugir para a cidade com a amante. A história tem as suas raízes cristãs, pois o relacionamento do casal simboliza o caminho a seguir para a salvação do homem.

Levantamos assim a questão: poderá um adúltero, já impregnado pelo pecado, retornar ao estado anterior?

O homem, com sinais de afeição, chama a sua esposa para um passeio de barco, com o único objetivo de afogá-la. Na cena aparece um cão que tenta impedir o ato, mas é retido pelo marido adultero. A cena, ainda que momentânea, possui um profundo simbolismo. O cão representa o guia e protetor da alma humana, acompanhando-a a vida inteira até à morte. A figura mitológica de Cérebros, protetor dos portões do Hades, tem precisamente essa representação. Deste modo, o que há por detrás da cena é a ambição de transgredir o curso do tempo, visto que a morte da mulher não se encontrava nos planos divinos.

Mas para alguém que, aparentemente, virou costas à providencia, quanto é que esta lhe valeria? Ora, para um simples adúltero surge o assassinato. O filme mostra os efeitos que as paixões, na sua conceção mais filosófica, têm nas pessoas: quanto mais se cede, mais se cai. Quem mais despreza os seus valores acaba por se aninhar no que há de mais egocêntrico. Ao ver o filme percebemos que o homem não era psicopata ou um louco, mas sim um simples jovem seduzido por uma vida supostamente melhor. Ao tentar praticar o ato ele hesita, chora. A sua circunstância é o que mais se assemelha ao inferno, pois vive um tremor onde a alma recorda o amor de Deus, mas é incapaz de abraçá-lo devido às escolhas que fez.

A cena ainda se passa num lago, que, devido às suas águas, tanto simboliza os desejos como o oculto. Como tal, o homem queria afogar a mulher nas suas paixões. A imagem refletida por tal cena é, de facto, a de um rito sacrificial. Por sua vez, é-nos mostrado que o que os antigos inimigos do Homem – a carne, o mundo e o diabo – mais querem é que sacrifiquemos os nossos maiores bens, arrastando com eles a nossa consciência e, consequentemente, a alma, para a concretização das paixões. Tal é uma marca na condição humana: devemos sacrificar os valores pelas paixões ou as paixões pelos valores?

No momento derradeiro, no entanto, a mulher ajoelha-se e une as mãos em oração. O homem não consegue matá-la e desilude-se das suas aspirações, retornando, como que por um último grito celeste, à razão. Percebemos que a mulher possui esta qualidade frequentemente esquecida: é mansa e inspira piedade. Existe todo um mistério no ser feminino que sempre inspirou poetas a realizar as maiores artes e reis a sacrificar os seus domínios em benefício da proteção das suas amadas, como no épico caso de Helena de Troia, cuja guerra por sua pessoa moldou o imaginário Ocidental. Mas o ponto é: não é intimidando ou amedrontando que a mulher vence a sua causa, mas sim com a sua beleza, que não se limita ao aspeto físico.

Naquele momento, a esposa conseguiu ter mais força que a amante, pois o verdadeiro poder do ser feminino é fazer lembrar a misericórdia de Deus, suprimindo os instintos mais perversos, uma vez que no seu acolhimento encontra-se lugar para a bondade de coração. O ato da esposa religou o marido a Deus. Ora, aqui podemos encontra mias um paralelo simbólico, desta vez sobre a dualidade entre Eva e Maria. Enquanto a primeira, através da sedução fez com que o Homem se esquecesse da sua promessa para com o Senhor, Maria, com sua paixão, relembrou-o.

Longe da esposa ter sido indefesa ou fraca. Na verdade, ela foi bastante forte. O marido, ainda que fisicamente poderoso, não foi capaz de lidar com a influência da amante e resignou-se a um destino do qual não desejava fazer parte. O seu corpo vigoroso e a sua experiência de vida não foram suficientes para conter o seu interior. A sua mulher, no entanto, possuía uma sensibilidade aguçada e uma forte intuição, tornou-se na figura predominante do filme.

Tal é, porem, infelizmente esquecido nas produções cinematográficas contemporâneas. Atualmente a mulher quando antagoniza o homem é masculinizada de modo a ter destaque, dando-se um a inversão da simbologia clássica. A mulher de “Sunrise”, no entanto, eleva as relações conjugais ao nível máximo e, no seu ideal cristão, não nos ilude quanto ao mal no mundo nem nos desilude com os efeitos desastrosos dos casamentos infetados por eles, mas recupera a esperança com a possibilidade de redenção.

Peace to mutants #4 — Leona Anderson, Shuggie Otis, Sceptre

There are a lot of campy films, those that hold undeniable charm that only naivete and extreme hard-work and persistence can achieve, as well as huge doses of ingenuity and unfiltered creativity, many of them become cult classics. In music, there are also those cases, and one of them may be “Music to suffer by” recorded in 1956 by actress Leona Anderson. Best known as her work in silent films, Leona recorded an album that became revitalized in the early 2000’s and achieved some sort of infamy due to Leona Anderson’s proclaiming herself “the world’s most horrible singer”, a different approach to let’s say, Florence Foster Jenkins. 

With a vocal deliverance reminiscent of Mrs. Miller, Leona Anderson creates an aura of awkwardness that manages to be charming and good humoured. The lyrics are goofy and sentimental at times, providing extra charm to this novelty, especially when Leona Anderson attempts to sing in German and other languages other than English. 

The song that became most famous called “Rats in my room” is a fun slice of outrageous cacophony with shrill and raspy vocals with a highly infectious chorus that announces rats are in the room. There remains a web of uncertainty if Leona Anderson was trying to do comedy music, but most testimonies of acquaintances tend to guarantee that. 

The songs have orchestral arrangements which add to the grandiosity of this campy classic.

Shuggie Otis is one of the names that represent the 70’s psychedelia in all its glory. Born in 1953, Shuggie has collaborated with many musicians like Frank Zappa, Bo Diddley, Preston Love, among others. Here comes Shuggie Otis was released in 1970 and showcases all of Shuggie Otis musical skills in a variety of genres, raging from psych, to blues, motown, and soul. A true melting pot of different styles and genres from this talented musician who was only 17 at the time of this recording. 

Sceptre was formed in 1981 in Birmingham (UK) and played high-quality roots reggae with passionate and mellow vocals as well as daring yet laid back melodies. Neglected by the labels at the time, the band still managed to release this LP but with limited distribution and in small number which made their music unavailable to be fully appreciated. With time, thankfully, the LP has been reissued and has gained a following and has gained the deserved status of a classic of british reggae. 

Palavras Mal Usadas #2 — Deadnaming e afins

Aproveitando o destaque pós-moderno de certas formas pronominais agramaticais ligadas a identidades de género, queremos evidenciar o aspecto de eventual absurdo social das nomenclaturas e formas de tratamento, em particular nas sociedades mais ortodoxas e provincianas. Com efeito, desde o senhor doutor, o senhor engenheiro, o “nome antigo“ e o “nome novo” nos transgénero, as alcunhas locais, os segundos nomes, os nomes de solteiro e os nomes de casado, os diminutivos de infância, o tratamento pelo nome próprio ou antes pelo apelido, os apelidos formados a partir de profissões, etc. Qualquer um destes exemplos de situações comuns pertence à mesma categoria e fundamentalmente não reflete nenhuma questão de substância mas sim de negociação social: não existe nem é suposto existir uma identidade de nome absoluta e estanque, e qualquer exercício de levar demasiado a sério, acima do que merece, apresenta provavelmente uma situação mental e social privilégio de quem tem muito tempo livre, não tem vida própria, ou é neurótico. Não é por alguém se licenciar, atingir a maioridade etária ou mudar de sexo que tem o direito de exigir aos outros tratamento imediato pelo novo título. A linguagem e as interacções sociais são por natureza questões de negociação mútua e não de imposição autoritária, e é isso que queríamos destacar aqui. 

Charlton Heston e a sua Trilogia Conservadora

A carreira cinematográfica de Charlton Heston aproxima-se de uma biografia ideológica, em que os filmes acompanham o percurso político do actor e em que a sua pessoa pública está numa relação interdependente com a constituição da sua personalidade privada e a formação do seu quadro ideológico pessoal. Podemos encontrar, nessa progressão, vários pontos de referência, particularmente quando Heston participa, por volta da década de 70, em Planet of the Apes (1968), Omega Man (1971), e Soylent Green (1973), uma trilogia não premeditada de dramas de ficção científica, dotados de uma temática conservadora, republicana, e individualista. No primeiro caso, por partilhar o cepticismo quanto à mudança social, mas ao mesmo tempo conceber o homem como imagem de um ethos superior; no segundo, porque o ideal de civilização que representa é distante do totalitarismo colectivista e próximo da razão individual, dirigindo o mesmo desprezo à corrupção da civilização e ao barbarismo; e no terceiro, porque é no indivíduo que se alicerçam os sistemas que organizam a sua vida social, ao contrário da madhouse colectivista que Heston descreve em Apes[1].

Comecemos por enumerar alguns dos pontos relevantes do enredo destas películas: se neste filme, Apes, o barbarismo é a imitação da civilização, por parte dos símios, em Omega esse barbarismo passa pela negação da civilização, rejeitada por seitas pós-apocalípticas, enquanto que em Soylent a negação do ethos estende-se até à última fronteira do indivíduo, terminando num canibalismo em prol da sustentabilidade do colectivo. Estas caricaturas de civilização parecem ter sempre um paralelo com a evolução ou regressão da dimensão religiosa, onde notamos a substituição da fé individual pelo dogma dominante, em Apes; pela seita, ou o dogma minoritário, em Omega; e pelo primado biológico do ser colectivo, em Soylent. Assim, o herói que Heston personifica representa continuamente um ethos onde a unidade basilar da civilização é o indivíduo, não o estado, nem a família, nem sequer o divino, sob as suas várias formas. Mas esta noção, apesar disso, parece alicerçar-se de modo cultural e até filologicamente no divino da tradição judaico-cristã, existindo assim uma relação entre o monoteísmo de The Ten Commandments e Ben-Hur e o absolutismo moral em que é fundamentado o conservadorismo de Heston, conforme veremos mais à frente.

Convém lembrar em primeiro lugar que Heston, nascido em 1940, é um rapaz de província, formado nas tradições americanas da auto-suficiência e de um humanismo de raiz protestante. De formação religiosa episcopal, ramo do protestantismo que reclama, como o catolicismo, uma legitimidade sucessória apostólica mas cuja adaptação à circunstância secular é muito rápida, Heston é criado assim no progressismo religioso, cuja ética é constituída primariamente na experiência individual, o que sempre o afastou de um colectivismo idealista. Se este progressismo, por seu lado, é tendencialmente céptico, o progressismo positivista, com à-vontade para tratar as massas como peças num gigantesco puzzle à disposição dos planeadores sociais, é tendencialmente optimista, confiando na capacidade do juízo para conceber sistemas perfeitos de melhoramento do mundo. Como com tantos outros seus contemporâneos, a biografia ideológica de Heston acompanha a história dos Estados Unidos. Se inicialmente se aproximava de causas republicanas progressistas, como os direitos civis e o liberalismo de costumes, avançou depois para um entrincheiramento na tradição, agarrando-se às armas e à religião[2] e reagindo assim às investidas do progressismo colectivista e igualitário na segunda metade do século. A persona política e civil de Heston funde-se, assim, com a pessoa cinematográfica, terminando na total entrega, como sucedeu com Reagan, à sua pessoa política, tornando-se presidente da National Rifle Association e um reconhecido conservador de destaque, à semelhança de outras lendas do grande ecrã como Clint Eastwood ou John Wayne.

No cinema, Heston começa a sua carreira em papéis menores, cortejando o estatuto de galã, e chega, em 1956, ao papel decisivo de Moisés, que definiu duas características da sua persona cinematográfica: a masculinidade, ligada ao individualismo sem apologias, e a sua encarnação de um arquétipo moral, ligada ao humanismo cristão. Se até então Heston não tinha uma relevante consciência política, a partir daí começa a exprimir essa ética também na vida pública, passando, inicialmente, pelos valores humanistas dessa tradição em específico, aliando-se assim ao progressismo político, na defesa da integração racial, e na caridade, que herda da tradição religiosa. Heston acompanha assim o decurso da política americana nesse século, atingindo um ponto de viragem quando a sua participação no sindicalismo, tendente ao consenso, é confrontada com o progressismo mais radical. A partir daí, Heston re-alicerça-se na tradição individualista do imago dei, a do homem individual não nascido de si mesmo mas sim criado à imagem do divino, aproximando-se muito mais dessa ética teocêntrica do que do progressismo humanista secular, e afastando-se de um colectivismo igualitarista extremo que aliás na altura ainda estava muito na moda. Refugia-se, como tantos outros desiludidos, no conservadorismo político mais próprimo da tradição constitucional americana, naquela fórmula que encara as teses já testadas pelo tempo como aquelas mais viáveis, mas mantém a tradição progressista do protestantismo episcopal americano, e é neste ponto que o encontramos quando a sua carreira chega, de modo talvez não intencional, à trilogia referida.

No primeiro filme desta trilogia, Apes, Heston arrisca o seu primeiro papel de herói moderno, por contraste aos épicos, onde a adaptação para filme transforma o retrato da decadência da civilização do romance original[3] numa tragédia vivida na primeira pessoa com um twist ending inquescível. A premissa estabelece que três astronautas chegam a um mundo desconhecido onde a espécie dominante é o macaco e a dominada o homem. Quando entra no mundo símio, Heston está numa condição reduzida, sem poder falar e sem roupa, reduzido à submissão, como em The Ten Commandments. A sua ascensão à condição igualitária com os símios, primeiro, e à superioridade moral e circunstancial, depois, é a ascensão de uma ética humana sobre uma selvajaria que é também de inspiração humana, já que os símios ficcionais são, na verdade, modelados à imagem do homem. Em Omega, a situação do sobrevivente agraciado é talvez um pouco mais literal, já que Heston se julga o último homem livre num mundo pós-apocalíptico, escapando a uma infecção que causa delírios na população. Perante essa queda da civilização, Heston aguenta a fortaleza do seu apartamento, decorando-a com pinturas do renascimento que simbolizam a graça humana, e vagueia pela cidade, falando consigo próprio e com mortos, como se fosse ainda um ser social. A narrativa contém um comentário aos colectivismos new age dos anos sessenta, em que os sobreviventes do apocalipse, delirantes, vivem uma religiosidade distorcida, representando uma forma de barbarismo não civilizada, ao contrário de Apes. Por último, em Soylent, Heston está numa situação diferente, encontrando-se inserido numa sociedade decaída, trabalhando como um detective da polícia semi-céptico. No final, sacrifica a sua posição para expor uma perversão, ao descobrir um segredo de estado que constitui o ponto de viragem civlizacional em que o colectivo se torna um organismo auto-suficiente e ultrapassa a última fronteira do indivíduo, terminando no canibalismo, já que o único alimento disponível é uma forma processada de restos mortais humanos.

Esta trilogia representa, para Heston e para a cultura americana em geral, uma transição dos épicos das décadas de 50 e 60, que bebem das grandes tradições milenares dos contos clássicos — da Bíblia, do antigo Egipto, da antiguidade em geral — para a ficção científica distópica e tão audaz quanto assustada da década de 70, onde Heston mantém e desenvolve a sua persona cinematográfica. Aqui, como antes, Heston é um galã que começa como anti-herói e se transforma em representante de um ethos superior, acabando num sacrifício trágico. Se nos épicos anteriores, e até nos westerns em geral, o protagonista encontrava o seu dilema moral perante categorias clássicas como a virtude, o heroísmo e a predestinação, nesta paisagem mais moderna o seu papel é de exilado, perante sociedades em dissolução, às vezes quase inexistentes ou mesmo inexistentes.

Curiosamente em todas as sociedades retratadas na trilogia essa queda e dissolução parece resultar de uma explosão ou implosão do colectivismo: a mais forte temática nos três filmes parece ser precisamente a crise que ocorre quando o colectivo deixa de ser um conjunto de indivíduos e se torna uma entidade justificável por si só, assegurando a sua subsistência pela anulação da unidade mínima, o indivíduo, iniciando assim um ponto de não retorno que leva a formas de autofagia — a escravatura do seu semelhante, em Apes, o sacrifício e o barbarismo sanguinário, em Omega, e o canibalismo literal em prol do colectivo, em Soylent. Quando é atingido esse extremo de abstracção da humanidade, ultrapassando a noção de humano como indivíduo concreto, a reprodução sucessiva do invivíduo no colectivo torna-se uma forma perversa, uma aberração do imago dei, extinguindo a imagem original do indivíduo e diluindo-a na animalidade e na materialidade. Se o indivíduo, enquanto unidade, é ainda assim uma representação contrária a essas forças, no colectivo essa unidade dilui-se e as forças ocupam o evento; por outro lado, o próprio colectivismo é representação de um individualismo exacerbado e inflaccionado, dado que a sua constituição depende sempre de líderes. Assim, o ethos tradicional, clássico, que o conservadorismo hormonal de Heston possivelmente representará, e que existe num arco entre o indivíduo e o coletivo, não subsiste nem no colectivismo extremo nem no individualismo solipsista.

Toda e qualquer visão pós-iluminista enunciada pelas distopias de inspiração na ficção científica nestes três filmes difere alicerça-se em fantasias demasiado febris de planeamento social colectivo e é radicalmente diferente das tradições morais comuns anteriores. Na cultura judaico-cristã em que o conservadorismo de Heston se baseia, o homem é feito à imagem do divino, mas enquanto indivíduo per se, não enquanto colectivo ou espécie, uma definição mais apropriada à biologia do que a essa concepção. No cânone religioso ocidental, a palavra divina é dirigida a um indivíduo, e não directamente a um povo, um coletivo, onde um indivíduo como Moisés funciona enquanto intérprete: o indivíduo aí é veículo para o social, mas não deixa de ser primeiramente indivíduo, já que o divino requer um intérprete e não chama todo o povo para receber os seus mandamentos mas apenas uma pessoa. Nessa leitura do imago dei, assim, a imagem não se identifica directamente com a espécie humana, como conjunto de invidíduos, nem sequer com o indivíduo enquanto ser singular, mas com o indivíduo enquanto imagem do divino, papel que cabe, por sorte, azar ou coincidência, a um sujeito em particular . Essa concepção é diferente das duas anteriores pois é indubitavelmente platónica, de raiz na mundivisão clássica e não na modernidade do indivíduo romântico e das massas — dualidade que possivelmente resulta de um erro fundamental que constitui essa separação, e que, como todas as mundivisões, subsiste sedutoramente precisamente através desse erro irresolúvel.

A moral que Heston encarna pode ser vista assim como uma expressão apolínea, procurando a fixação assumida e não a diluição pós-moderna, e o seu conservadorismo pode ser visto como um progressismo céptico, consciente de que o arco entre o indivíduo e o colectivo não pode ser completamente ultrapassado e que, por muito imperfeita que seja a navegação da razoabilidade entre essas duas dimensões incontornáveis do homem contemporâneo, não é possível soçobar em absoluto para um lado ou para o outro, seja para o lado do individualismo ou para o lado do colectivismo, ambos falhanços emocionais. Por isso as personagens de Heston acabam sempre derrotadas, vergadas ao próprio falhanço da sua ética imperfeita, precisamente a ética conservadora que é dotada dessa espécie de timidez fundamental: entender que não há melhor do que o possível e que só resta ao indivíduo, na sua pobreza a todos os níveis, fazer o que é correcto. Tal enunciado mantém-se tão estável na persona cinematográfica de Heston como na sua vida privada e na vida pública do conservadorismo americano em geral, com todas as suas expressões, algumas luminosas e outras mais nocivas. O homem conservador, assim, parece não diferir muito do homem romântico, embora ambos admitam a derrota em momentos diferentes e perante, possivelmente, audiências diferentes.

  1. “It’s a madhouse! A madhouse!”, grita o protagonista, enjaulado, quando é regado com uma mangueira de pressão, num dos apontamentos viscerais e de um ligeiro kitsch do filme.

  2. Cito parcialmente a expressão que o Barack Obama uitilizou, em 2008, quando era ainda candidato à presidência, para se referir à população do midwest americano: “They get bitter, they cling to guns or religion or antipathy to people who aren’t like them or anti-immigrant sentiment or anti-trade sentiment as a way to explain their frustrations.” https://www.theguardian.com/world/2008/apr/14/barackobama.uselections2008

  3. Boulle, Pierre, La plánete des Singes, Julliard, 1963.

Edição: Agosto 2023

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A nossa edição deste mês de Verão: seis artigos inéditos, “barbenheimmer“!, canções de beber, revisionismo cultural, curadores do bizarro, marxism refuses to die e filmes sobre edição.

Começamos com um texto de Miguel Furtado sobre as diferenças entre direitos e liberdades fundamentais e direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, na medida em que os segundos são dependentes de orçamentos e os primeiros tendencialmente não.

Tivemos também a honra de publicar excertos ligeiramente comentados de uma obra de 1948, As Mulheres do meu País, de Maria Lamas, que pretendia retratar a vida das mulheres portuguesas (maioritariamente pertencentes ao mundo rural) na época. São excertos que nada têm de insignificante e que retratam de maneira exemplar o panorama da vida rural portuguesa, em particular do universo feminino, no Portugal pobre, aliás, miserável, do início do passado século. Deixamos para registo, para memória, para desfruto dos leitores interessados, que cremos que serão muitos, sublinhando que muitos dos nossos avós e bisavós, de todos nós, não só conhecem mas viveram esta realidade portuguesa, que está muito mais perto do que à partida parece.

Destacámos os dois filmes mais falados, badalados e concorridos nos últimos tempos nas grandes salas da sétima arte: a biografia ficcionada Oppenheimer e a fantasia sobre a famosa boneca Barbie. Tivemos o prazer de receber duas excelentes recensões de Guilherme Berjano Valente, que recomendamos, assim como os filmes. Assim, a primeira, sobre as camadas filosóficas e metafísicas da mais recente película de Christopher Nolan, dedicada ao físico responsável pelo desenvolvimento da bomba atómica, e a segunda, sobre as descontruções dos papéis femininos e masculinos num mundo ficcional que explode e materializa os tropos da famosa boneca e do seu parceiro.

A unidade improvável representada por estes dois filmes ilustra uma dualidade interessante desdobrável de várias maneiras como: masculino/feminino, ciência/cultura, sombra/luz, contrição/exuberância, tristeza/alegria, etc., conforme é bem ilustrado por algumas das paródias visuais que circularam nas últimas semanas, algumas das quais aqui mostramos. Historicamente, cada um deles representa um evento marcante do século XX: o primeiro a criação da bomba atómica, uma absolutamente disruptiva arma de destruição maciça que até agora serviu mais como détente, e a criação de uma boneca para meninas radicalmente diferente das anteriores, representando não apenas a mulher-mãe mas a mulher independente e emancipada. O facto do lançamento dos dois filmes ter sido no mesmo dia deu o pontapé de saída a esta brincadeira com dualidades fundamentais, facilmente desdobráveis em várias dimensões, imensamente polissémicas e metafóricas em várias camadas. Para além disso, no mundo do cinema, os dois lançamentos receberam interesse do público em grande número, bateram recordes e solidificaram como a experiência da sétima arte em sala de cinema, em grande, em público, está ainda viva, e para ficar.

Por último, apresentámos uma crítica de Ana Sérgio sobre o último trabalho da série cinematográfica Indiana Jones, um filme de aventuras construído sobre uma estrutura quase irrepreensível que lida com todos os problemas da série e expectativas dos espectadores, e também de Jorge Filipe Carvalho, uma “mini biografia”, que não visa tanto exibir academicamente os factos ocorridos, mas fazer uma apologia à personagem de Joana de Arc e, possivelmente, gerar admiração nos leitores quanto à sua pessoa.

Quisemos partilhar com todos duas canções muito distintas, de tradições musicais diferente mas que, ainda assim, podiam ser tidas como manifestações do mesmo género: o género das drinking songs, ou canções de bêbedos ou de taberna. Aproveitando o facto de estarmos nos meses das festas das aldeias, onde o autor é muito apreciado, a primeira canção é a extraordinária “Mais um copinho“, de Quim Barreiros, que integra um álbum publicado este ano para celebrar os seus 50 anos de carreira. Um amigo nosso tem há anos a teoria de que Quim Barreiros é um grande poeta e músico, e começamos a estar inclinados a dar-lhe razão. Desde cedo apreciado pelas camadas populares, tem vindo em anos recentes a ganhar o apreço de numerosos membros das camadas mais instruídas da população, incluindo muitos jovens universitários e citadinos, um apreço que achamos completamente justificado, dada a sofisticação de muitas músicas de Quim Barreiros ao nível dos jogos de palavras, da versificação e da composição. Esta canção, em particular, é leve sem ser propriamente simples, ao mesmo tempo que epitomiza tanto a boa disposição do artista como o melhor do género das drinking songs. A segunda canção que apresentamos é “In taberna quando sumus”, (a partir de 38:35) parte das famosas Carmina Burana de Carl Orff, que aí musicou canções burlescas, satíricas e profanas de um manuscrito da Abadia de Benediktbeuern, em pelo menos três línguas. “In taberna quando sumus” pode ser tida como uma antepassada medieval da letra de Quim Barreiros, sendo claramente uma canção de taberna, desde o título ao conteúdo da letra. Além disso, a música de Orff tira partido do potencial da letra e enfatiza da perfeição a expressividade, humor e carácter burlesco da mesma. Por fim, chamamos à atenção que, na boa tradição das tabernas de onde a jovialidade, a alegria e a bebedeira expulsam tópicos enfadonhos, a letra medieval deste trecho faz (e muito bem) tábua rasa das controvérsias medievais entre os defensores do poder real e os partidários do poder temporal do Papa, ou seja, entre a Igreja e o Estado. Diz a canção: “Tam pro Papa quam pro rege / bibunt omnes sine lege” (“Tanto pelo Papa como pelo rei / bebamos todos sem lei”). Por fim, esta partilha é dedicada ao Prof. Hans Ulrich Gumbrecht, conceituado medievalista, romanista, amante da filosofia continental e, sem dúvida, um excelente e alegre conviva em qualquer jantar, além de apreciador de bom vinho!

Destacámos também, pela mão de Mafalda Simão Leal, um fenómeno mediático recente, relacionado com revisionismo do imaginário cultural, que consiste na caracterização de actores de diversidade racial aplicada a personagens de raiz europeia, seja histórica ou mitológica. Assim, temos, por exemplo, a figura de Ana Bolena e da ruiva princesa Ariel, ambas interpretadas por mulheres negras, em produções recentes, uma da Netflix e outra da Disney. Tal pode ser descrito como, além de uma distorção histórica eventualmente absurda, uma forma de “colonialismo cultural” dissimulado: uma instrumentalização dos negros para contar a história do homem branco. Perpetua-se assim uma hegemonia cultural e alimenta-se um sentimento de inferioridade no subconsciente colectivo da população negra, remetendo a cultura africana — com toda a sua riqueza, as suas personalidades históricas, reis e rainhas, criaturas mitológicas — para lugares secundários ou para o esquecimento. O fenómeno reveste-se exactamente da mesma pele e dos mesmos termos do enunciado por Franz Fanon em Pele Negra, Máscaras Brancas, em 1952: “However painful it may be for me to accept this conclusion, I am obliged to state it: For the black man there is only one destiny. And it is white.” Este é um ponto sobre política e cultura, e não sobre arte, pois com certeza que é possível elencar um actor chinês como Adolf Hitler, uma actriz norueguesa como Abraham Lincoln, ou uma cafeteira como Cléopatra: mas é diferente fazê-lo por motivos políticos e fazê-lo por motivos exclusivamente da própria arte. E provavelmente não é esta última hipótese que se tem passado.

Reflectindo um pouco mais sobre este tópico, somos levados a adiantar mais algumas reflexões. A propósito da famosa questão do “Black Face“, a aplicação de pinturas faciais para mimetizar outra raça ou identidade é comum ao longo de toda a história da representação, da Ásia até as Américas, e só recentemente foi construída essa polémica maioritariamente artificial e politicamente comprometida sobre um actor branco pintar a cara de negro ser algo muito ofensivo, o que é inteiramente discutível que o tenha alguma vez de facto em absoluto sido. Como tentámos assinalar nesta peça, o problema não é uma queniana interpretar a Rainha Isabel II ou uma cafeteira fazer de Cleópatra, mas sim os motivos políticos e económicos interesseiros, de critério exterior à arte, por detrás disso. Há que ter atenção também quando se aponta personagens de etnias diferentes interpretadas por “pessoas brancas“: na verdade aquilo que consideramos “branco“ pode envolver muitas sub-etnias imensamente diversas, como por exemplo: persas, mediterrânicos, judeus, etc.: é um erro generalizar tudo isto como a mesma coisa. Elizabeth Taylor, por exemplo, interpretou a egípcia rainha Cleópatra, mas Taylor não é propriamente “branca” no sentido de nórdica ariana pura, mas sim no sentido de mediterrânica sul-europeia, com proximidade fenotípica e geográfica ao Egipto. Esta multiplicidade e variedade de raízes étnicas é particularmente relevante no contexto americano de Hollywood, onde, como se sabe, temos pessoas advindas de raízes variadas de todo o mundo. Por último, poderia conceber-se este tipo de intervenções como uma “vingança” de grupos minoritários sub- representados, mas essa hipótese não é provável, pois os produtores e realizadores que estão a usar estas invenções hoje não são na sua maioria sequer pertencentes aos grupos étnicos que retratam. Portanto a hipótese mais viável é que esses mesmos grupos étnicos estarem ser usados, como de costume, como mercadoria, moeda de troca em guerras culturais em que as empresas querem parecer “inclusivas” porque acham que isso tem proveitos económicos e então inventam estas coisas estranhas de Ana Bolena como negra, algo ao nível de Shaka Zulu como branco.

Recomendámos quatro curadores de arte visual com presença na internet que nos inspiram com grande parte do seu material e cuja especialidade é, mais do que a arte ou o humor, o bizarro, o invulgar e o estranhamente familiar. São elas Humans of Late Capitalism, Awkward Family Photos, Depths of Wikipedia, Super Wrong Magazine. Podem encontrá-las na fabulosa rede social de fotografia Instagram, rede que muito recomendamos a qualquer pessoa e onde se respira um melhor ambiente do que em muitas outras.

Partilhámos também quatro referências sobre como as teorias do famoso e ainda muito popular filósofo Karl Marx têm severos problemas, apesar de convenientemente ignorados por instrumentalistas políticos ou activistas disfarçados de académicos. Alicerçadas nos dogmas fundamentais da teoria hegeliana progressista da história e de que as relações humanas são redutíveis a relações económicas, as falhas da sua aplicação à prática são amplas e reconhecidas pelos marxistas honestos — espécie de que, hoje, temos escassos vislumbres, dada a abundância de “activistas” entusiasmados com o carácter romântico e revolucionário do filósofo e incapazes de um esforço crítico sério. Falha particularmente em explicar como a evolução tecnológica não emerge simplesmente de necessidades económicas e ao mesmo tempo as revoluciona completamente; em como as revoluções sociais são despoletadas por uma variedade de razões e de grupos, e não apenas pelos mais desfavorecidos; que aquilo a que chama de “capitalismo” está estruturalmente desenhado para falir, o que não tem de todo acontecido, antes pelo contrário; que a “classe trabalhadora”, hoje e cada vez mais um conceito difuso e que parece, no uso do pensador, datado ao séc. XIX, necessita de uma “consciência” para despontar processos revolucionários, quando a explicação é mais simples; que a economia é o único determinante da forma de uma sociedade, teoria substituída pelas ideias mais robustas de Max Weber; o carácter pejorativo que atribuiu aos conceitos de “reificação” e “fetichização”, que não está presente em Freud, por exemplo; que existe um método especial de defesa do marxismo que não sobrevive ao exercício crítico convencional a que chamamos de “dialéctica”; e, por fim, conforme alguns críticos neo-marxistas defendem, que se ajustarmos as teorias com os correctivos necessários elas funcionarão — mas deixarão de ser especificamente “marxistas” e passarão a ser outra coisa. Podem ler sobre isto e mais no artigo da Revista Areo, aqui, e noutras referências como aqui e aqui e ainda aqui.

Cinema: Filmes sobre Edição

Neste último fim-de-semana que, para nós, foi de festa e de celebração do cinema, como sempre para todos, deixámos como sugestão quatro filmes sobre actividade editorial, não propriamente e exclusivamente sobre “jornalismo”, mas sobre o acto de publicar conteúdos (sem entrar dentro das “teorias da informação” da filosofia ou das ciências da comunicação) para um grande público. Primeiro, sobre a decisão de um orgão de comunicação dos Estados Unidos, nos anos setenta, publicar relatórios do ministério da defesa que atestavam a inutilidade da então guerra do Vietnam, e sobre os quais se alegava que prejudicavam o “interesse nacional”. Dessa batalha, ganha pela imprensa, que se prolongou à outra vitória do escândalo Watergate, sobra um certo sentimento de orgulho, impunidade e vaidade da cultura jornalística até hoje. Segundo, um encantador conjunto de peripécias sobre um divulgador de notícias no velho oeste, um autêntico caixeiro-viajante de informação. Terceiro, a mais recente fantasia de um idiossincrático e estilizado realizador sobre uma pequena publicação de nicho. Quatro, mais um orgão noticioso dos Estados Unidos que desmonta todo um escândalo de proporções gigantescas de pedofilia nas igrejas católicas nesse país, e que impulsionou mais tarde toda uma série de denúncias pelo mundo fora. É este o panorama de actividade editorial e jornalismo no verdadeiro sentido que queríamos aqui deixar, como uma lufada de ar fresco na paisagem contemporânea, verdadeiramente medíocre, corporativa e sem qualquer credibilidade para as pessoas em geral, no que diz respeito ao tratamento da informação e ao desenvolvimento e interpretação da mesma pelos grandes, médios e pequenos orgãos de comunicação em geral.

Submissões

Por último, saudações, cumprimentos, agradecimentos por continuarem a acompanhar o nosso trabalho, e desejos de bons banhos, bons ares frescos, bons passeios e muitas reuniões calorosas e interessantes, nesta quadra de férias em que vivamente quase todos nos encontramos. O convite é sempre o mesmo para todos os alunos, investigadores e docentes universitários, ou mesmo para toda e qualquer pessoa sem ligação à universidade: enviem-nos propostas de artigos em fase já concluída ou enquanto versão incompleta, mero esboço ou mesmo apenas ideia. Aceitamos todos os temas de relevo, mas podem consultar sugestões de tópicos aqui. Boas férias!

Imagem: retrato de Catarina II, a Grande (1729-1796), imperatriz russa, ávida coleccionadora de poder político, territorial e também de obras de arte e de actividades de patronato e mecenato artístico.

Joana de Arc – Heroína para os nossos dias

O mundo, pela sua natureza decadente, depara-se com as mais variadas forças conflituantes, traduzam-se elas em guerras, pragas, grandes fomes ou, em geral, crises. É então que por vezes nos são enviados heróis –pessoas que, pelos seus feitos foram persistente e entusiasticamente celebrados como heroicos por todo o tipo de pessoas, razoáveis ou não- para nos lembrar que o Homem enfraqueceu, mas que a esperança permanece.

O mundo pagão clássico fundava-se numa moralidade empírica que celebrava a hábil e corajosa utilização da força. Ficaram imortalizados aqueles que assim foram capazes de empunhá-la. Quanto aqueles que não continham tal força, estes eram vistos com indiferença, se não mesmo com desprezo.

Diferente foi a tradição judaico-cristã. Embora os judeus fossem, por breves tempos, uma força a ser temida no Oeste da Asia, e o seu próprio rei, David, uma figura definidora no seu confronto com Golias, os judeus dificilmente foram capazes de fazer frente aos grandes impérios, acabando muitas vezes por serem malsucedidos nas questões que tinham em causa a sua sobrevivência literal, ou, pelo menos, cultural. Os próprios salmos podem ser considerados como a poesia dos fracos e desesperados, dos abandonados e esquecidos. A Israel dos Macabeus era uma resistência aos senhores da guerra gregos, herdeiros do legado de Alexandre o Grande, e os resistentes mortos por estes eram tratados como “santos”. Assim nasceu o conceito de mártir. Conceito este que fora tomado pelos primeiros cristãos, a começar por S. Stefano, que foi apedrejado até à morte, professando a sua fé em cristo até aos seus últimos momentos, abraçando calmamente o seu destino.

Todos os heróis do Igreja primitiva foram mártires. S. Pedro fora, a seu pedido, crucificado de pernas para o ar, de modo a não competir com cristo. S. Paulo, decapitado. S. Lourenço, queimado vivo. S. Sebastião sentenciado à morte por flechadas, mas acabando por não perecer, sendo então açoitado até a morte. Sta. Barbara, sequestrada numa torre e então morta. E em enquadramentos idênticos a lista poderia continuar.

Verdade é, o heroísmo cristão era, na sua fase primitiva, inocente, sofredor e pacífico. Na guerra para repelir o Islão, no entanto, o paradigma heroico cristão mudou. O conceito de cavalaria cristã nasceu e rapidamente chamou a si os seus santos, reais ou imaginários, a realizarem a sua vocação, com armadura, espada, escudo e triunfantes. Mas o herói cristão não era apenas uma pessoa de qualidades físicas; era de metafisicas também. Assim, as virtudes personificadas nos mártires de outrora foram transmitidos e renasceram na conduta cavaleiresca que era tão gentil como corajosa, delicada e reflexiva para como os outros, embora resoluta quanto aos conflitos justos.

Para muitos, Joana de Arc (Jeanne d’Arc) foi a maior heroína de França. Nascida em Domrémy, França – agora chamada de Domrémy-la-Pucelle em virtude do apelido da santa: “la pucelle d’Orleans” (a donzela de Orleães) – em plena Guerra dos Cem Anos. Joana acreditava ser a vontade de Deus a reversão do processo que culminara no Tratado de Troyes, e que era ela a escolhida para restaurar a coroa francesa ao seu legitimo herdeiro: o delfim, Carlos VII.

A vida de Joana foi, apesar da sua magnanimidade, terrivelmente curta. Começou por ver uma luz e a ouvir vozes em 1424, quanto tinha treze anos. Demorou-lhe quatro anos para ter acesso ao delfim. Por fim, este autorizou-a a testar as suas visões. Joana trajou-se de vestimentas masculinas, muniu-se de armadura branca e reuniu um grupo de combatentes para conseguir aliviar a cidade de Orleães do cerco inglês. Alcançou a cidade a 29 de Abril e a 8 de Maio o cerco foi levantado. Outros sucessos seguiram e Joana conseguiu que Carlos VII fosse coroado Rei na sacra catedral de Reims a 17 de Julho. Entre 1429 e 1430, viu-se constantemente envolvida em batalhas contra os ingleses. Em Maio de 1430 fora feita prisioneira em Compiègne, e vendida aos ingleses por 10.000 livres. Foi julgada em Rouen por bruxaria, heresia e, por fim, foi queimada na fogueira a 30 de Maio de 1431, tendo as suas cinzas sido lançadas para o Seine.

Um quarto de seculo após a sua morte, e após seis anos de investigação, Joana foi formalmente declarada inocente de todas as acusações, pelo Papa Calisto III, em 1456. Foi beatificada em 1909 e canonizada em 1920.

A santa tinha como suas origens um meio humilde. Eventualmente aprendeu a escrever o seu nome, mas nunca aprendeu a ler ou a escrever propriamente. Referia-se a ela mesma como “la pucelle”, um nome arcaico que sobreviveu unicamente em razão dela. Desde os treze anos, altura em que começou a ouvir as vozes, que estava certa do seu destino: dar à França o seu legitimo herdeiro e expulsar os ingleses. Manteve-se fiel à sua história original, nunca variou quanto a algum detalhe importante. Sempre identificara as vozes ouvidas como as de S. Miguel, Sta. Catarina, e Sta. Margarida. Era impossível movê-la de tal narrativa, fosse através de ameaças ou ardis.

La pucelle não tinha qualquer vaidade. Não existe qualquer imagem contemporânea sua, pois a mesma recusava-se a sentar-se para que lhe pintassem o retrato. Sabemos, contudo, que era seu costume trajar a típica saia vermelha utilizada pelas fazendeiras de Lorena até à Primeira Guerra Mundial. Mais tarde, começou a utilizar elementos escarlates e verdes, as cores da casa de Orleães, para que fosse distinguida em batalha. Utilizava ainda uma armadura branca completa, sem brasão.

Os soldados admiravam-na pela sua modéstia, habilidade e discrição com que realizava as suas funções naturais. Durante o período em que permaneceu em batalha, nunca houve qualquer tentativa de sedução ou violação por parte de franceses ou ingleses, mesmo depois de capturada. Tal não se dava por, como alguns sugerem, Joana ter sido supostamente malparecida ou pouco atraente. Soldados em “necessidade” abusariam de qualquer mulher, independentemente de idade ou aparência. Havia, sim, uma certa aura sobre ela que fazia com que os soldados a respeitassem. Existem testemunhos de soldados a referir não sentirem qualquer tentação carnal quando perto dela. Contudo, não existem testemunhos ou sugestões de que Joana fosse pouco feminina. O seu pajem, Sieur Louis de Conte, que a tinha na mais alta estima, testemunhou muitas vezes vê-la em lagrimas. A sua voz era feminina. Após a batalha de Patay, a 8 de junho de 1429, deitou a cabeça de um soldado inglês mortalmente ferido nos seus joelhos; certificou-se que este se confessava e reconfortou-o até ao momento da sua morte.

Joana foi ferida duas vezes em batalha. Na primeira vez, cravara-se-lhe acima do peito esquerdo uma flecha; retirou-a com as próprias mãos e diligentemente voltou à ação. Na segunda, foi atingida na coxa por um arqueiro que gritava “Paillarde! Ribande!” (este, pelos vistos, não era inglês!). Quando sob custodia, fora torturada e maltratada, mas respondia sempre de forma estoica. Aquando na pira, chamava repetidamente por Jesus. Existe um testemunho confiável de que John Tressant, secretário de Henrique VI, exclamara enquanto Joana morria: “We are lost! We have burned a saint!”

Os franceses sempre culparam os ingleses pelo que aconteceu a Joana. Mas se o que aconteceu foi algum tipo de crime, este foi cometido pelos franceses. Os dois juízes foram Pierre Cauchon, bispo de Beauvais, e o prior dominicano de Rouen, Jean Lemaistre: ambos franceses. Hoje temos acesso à lista completa de todos os que participaram no julgamento: 1 cardial, 6 bispos, 32 doutores de teologia, 16 licenciados em teologia, 7 doutores de medicina, e outros 103. Destes todos, apenas 8 eram ingleses. O processo foi, de várias maneiras, uma encenação, uma vez que Joana não teve direito a conselho nem lhe foi permitida chamar testemunhas. Ademais, não lhe foi concedida a possibilidade de recorrer ao papa, possibilidade essa atribuída a qualquer condenado.

O trágico destino da Donzela de Orleães agraciou com um fino brilho de nobreza a última fase da Guerra de Cem Anos, que de outro modo teria sido apenas mais um episodio trágico e desprovido de alma na história europeia.

Vale, contudo, referir, que enquanto os ingleses imortalizaram os seus heróis, como fez Shakespeare com Henrique V, uma das figuras principais da Guerra do Cem Anos, os franceses falharam em fazer o mesmo com Joana.

Para começar, houve um fracasso por parte da realeza. Carlos VII, sempre demonstrou pouco interesse por Joana. Deu-lhe pouco apoio; nunca esteve presente nos campos de batalha; nunca agradeceu à santa por lhe ter restaurado a coroa; prestou pouco ou nenhum contributo para ajudá-la a restaurar Paris (algo que ele próprio não foi capaz de fazer); não se mexeu para a resgatar após a sua captura, nem tampouco protestou a sua condenação ou tentou reverter o seu veredito. A demora de mais de um quarto de século para reabilitar o processo foi, provavelmente, significante. O próprio veredito final foi tremido: não declarou Joana como mártir nem que a mesma se manteve fiel à fé católica; declarava apenas que os juízes tinham agido de maneira imprópria. No entanto, nenhum dos juízes foi condenado ou sofreu qualquer tipo de represálias. Os reis franceses, na altura, exerciam uma forte influência em Roma, onde eram chamados de “sua majestade mais cristã” (Rex Catholicissimus). Porem, nenhum pressionou para a consagração de Joana. Tal feito ficou reservado à Terceira República, que a declarou como a segunda patrona de França.

Se a França, desde o ingrato Carlos VII em frente, se mostrou indigna desta grande mártir patriótica, é algo que não nos cabe decidir, tanto que Portugal tem o seu quinhão de heróis desprezados, especialmente nos dias que correm. Mas verdade é: Joana de Arc habita e alimenta o coração de muitos, não só franceses, e o espírito de todos aqueles que acreditam em santos ou em heróis.